quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notícias do Tempo (7ª e última parte)

Meu carro ainda tinha algum combustível, acreditava que mais ou menos meio tanque. Se minhas previsões estivessem corretas, eu conseguiria andar algo em torno de 200 km. Diante do calor cada vez mais absurdo, fui tomado por uma espécie de sentimento jornalístico e resolvi sair de casa para ver o fim do mundo de perto, pelo menos o fim do meu mundo. Desisti de esperar o apocalipse me encontrar e fui ao encontro ao fim.

Coloquei o que me restava de água dentro uma garrafa pet de coca cola, que ficou cheia um pouco acima da metade. Abri a porta de casa pela primeira vez em alguns dias e vi a névoa de fumaça que havia tomado conta de tudo. Não era possível ver o fim da minha rua. Alguns carros estavam parados na frente da casa de alguns vizinhos, outros devem ter tentado fugir, ou jamais conseguiram chegar de volta em casa. Nunca vou saber. Um silêncio absoluto no meio daquele ambiente acinzentado.

Entrei no meu carro rapidamente e a sensação foi a de colocar o corpo dentro de um forno recém desligado. Liguei o carro e coloquei o ar-condicionado no máximo, mas isso não adiantou muito. Acho que a humanidade não chegou a inventar um aparelho com a potência necessária para neutralizar essa quantidade de calor. Provavelmente ela nunca achou que seria necessário. O marcador de combustível realmente estava próximo da metade.

Sai pela guarita do meu condomínio que parecia abandonada. Trafeguei pelas ruas pelas quais eu corria nos últimos tempos sem encontrar uma única pessoa. Cheguei a um ponto mais alto, de onde era possível avistar Chapada dos Guimarães. Não vi nada. Apenas uma cortina de fumaça espessa, que provavelmente escondia o fogo que consumia o Parque Nacional. Segui pela rua principal do bairro e os comércios estavam todos fechados. O supermercado, os bares, as distribuidoras que sempre estavam lotadas, a academia, as lojas de roupa, de manutenção de celulares. Cheguei a Avenida das Torres e a visibilidade devia ser de uns cem metros. Pisei fundo no acelerador e passei pelo radar de velocidade a mais de 100 km/h. Essa multa um dia chegaria? O radar ainda funcionava? Era meu pequeno manifesto de inconsequência diante do fim inevitável.

Passei pelas entradas de condomínios, pelos postos de gasolina, pelas rotatórias. Cheguei a Avenida dos Trabalhadores e vi todas as lojas de móveis fechadas. Ganhei a Miguel Sutil e desci para a Avenida do CPA. Experimentei uma solidão impossível de ser sentida na principal avenida da cidade. Acelerei até perto do meu trabalho e observei todos os centros comerciais melancolicamente abandonados. Parei ao lado do viaduto da Sefaz e lamentei não ter nada para escrever alguma mensagem naquele monumento ao mau gosto. Pensei em deixar alguma mensagem enigmática, uma pista errada para as futuras gerações. Uma piada sobre o fim do mundo atual, que ninguém entenderia.

Resolvi ver o Rio Cuiabá. Passei por toda Avenida do CPA, atravessei o Centro Histórico. No cruzamento com a Isaac Póvoas vi o corpo de um mendigo atirado embaixo de uma árvore da Praça do Ipiranga. Não havia pombos no local. Pássaros costumam a perceber tragédias naturais e migram para um lugar em segurança. Nesse caso, imaginei que os pássaros talvez estivessem tentando voar para fora da atmosfera terrestre.

Observei todas as lojas da XV de Novembro vazias. Não havia sinal de vandalismo, arrombamento, depredação. Percebi que realmente, o calor era tão extremo, que ninguém teve coragem de destruir nada, sob o risco de provocar sua autodestruição. Talvez, se as pessoas tivessem percebido o fim antes, teriam feita alguma coisa, em um último momento de loucura.

Cheguei a ponte do Rio Cuiabá. Desci do carro ligado e senti o vapor quente do lado de fora. Observei o rio quase parado lá embaixo, reduzido praticamente pela metade de sua largura. Várias ilhas se formaram em sua extensão, mostrando suas perigosas diferenças de altura, seus degraus que já vitimaram tantos banhistas amadores. Sua coloração era ainda mais barrenta do que o normal. Era melancólico olhar o rio daquela forma, pensando em quanto tempo ele ainda sobreviveria.

Segui adiante e entrei em Várzea Grande. Lembrei de uma piada de um amigo meu, que dizia que cada vez que ele entrava em Várzea Grande ele se sentia em Mad Max, a estrada da fúria. Nunca essa comparação fez tanto sentido. Resolvi ir até o aeroporto. As portas automáticas estavam fechadas e apenas consegui olhar lá dentro os guichês vazios, uma mala perdida por alguém que jamais vai voltar. O que nossos futuros ocupantes pensarão de todas as estruturas que deixamos para trás?

Resolvi então ir até o setor de hangares. Encontrei um com o portão aberto e de lá tive acesso a pista do aeroporto. Experimentei a curiosa sensação de andar por aquela enorme faixa de asfalto e ver que ela é muito maior do que parece quando estamos dentro da aeronave. Encontrei um avião da Azul na pista. Provavelmente uma aeronave que não conseguiu decolar por conta do clima. Senti uma forte tentação de fazer algo diferente, como, não sei, andar sobre as asas do avião, justamente naquela parte em que dizem que não se deve pisar em cima. Mas não vi meios de fazer isso e também não vi sentido. Sofri um profundo vazio existencial diante da situação.

Bebi o que me restava de água e tomei o caminho de volta. Olhei os vagões abandonados do VLT. Olhei as avenidas de Várzea Grande e pensei aonde é que eu poderia ir. Diante do fim do mundo não havia pensando em uma única possibilidade de um lugar em que gostaria de ir uma última vez, até porque esse lugar não existiria mais. Então simplesmente peguei meu carro e saí andando em linha reta, iria até onde o combustível aguentasse. Sentiria, como novidade, a sensação de ver a gasolina do carro acabando.


Segui pela Avenida da FEB, tornei a atravessar o Rio Cuiabá, segui pela XV de Novembro na contramão, avancei pela Avenida do CPA, peguei a Estrada de Chapada. Dirigi lentamente, em meio a fumaça e o fogo dos dois lados da rodovia, desviando dos animais mortos no meio da estrada. Quando vi já estava em Chapada. O paraíso dos fins de semana cuiabano estava abandonado e mal se conseguia ver nada. Segui adiante e passei pelo mirante, rumo a Campo Verde. Passei por enormes plantações de soja queimadas. Cheguei a Campo Verde e suas casas construídas no meio das plantações devastadas. Segui adiante, rumo a Primavera do Leste e em algum momento da BR-070 o motor começou a falhar e meu carro apagou. Estava sem gasolina no meio da rodovia.

Procurei no meu pen drive um disco dos Beatles. Pensei que seria interessante que o mundo acabasse enquanto eu escutava minha banda preferida. O clima dentro do carro passou a ficar insuportável e eu decidi sair. O calor excessivo e a fumaça me deixavam com os olhos praticamente fechados. Andei por alguns metros, quase me arrastando e parei, cansado. Sentia uma espécie de vapor emanando do asfalto, de tudo o que estivesse a minha volta.

Olhei para o lado e visualizei um pequeno grupo de árvores, praticamente secas, no meio da plantação. Provavelmente são as remanescentes da floresta nativa, protegidas pela força da lei que instituiu um percentual mínimo de vegetação nativa nas propriedades rurais. Me arrastei até elas, que estavam mais longe do que pareciam. Passei por uma cerca e procurei um lugar com um resto de sombra. Sentei no chão, fechei os olhos, respirei fundo e senti o ar quente preenchendo meus pulmões.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O fim do EGO

Nesta segunda-feira, o mundo amanheceu chocado com a decisão do Grupo Globo de encerrar as atividades do EGO. Por mais de uma década, o portal foi o braço global voltado à divulgação virtual de conteúdo relacionado ao cotidiano de pessoas que de alguma forma podem ser consideradas famosas. Por 11 anos, foi uma das principais ferramentas do entretenimento humano, nos possibilitando saber quem estava caminhando aonde e qual era o estado de espírito desta caminhada.

O frio comunicado veio com aquele velho discurso sobre a mudança do mundo, o reposicionamento da marca, novo direcionamento para investimentos, otimização dos recursos e a garantia de que o consumidor final não será prejudicado. Resumindo, a Globo precisou cortar gastos (vagas de emprego) e dissolveu o site de notícias supérfluas.

A notícia é deveras complicada neste momento de crise nacional. Teremos uma equipe de jornalistas, muito provavelmente frustrados e entregues ao alcoolismo pelo ocaso de suas vidas profissionais, fotógrafos especializados em flagras de pessoas famosas, programadores, técnicos de informática, enfim, dezena de pessoas que ficarão desempregadas.

Mas, muito pior do que isso, vejo que toda uma cadeia produtiva de futilidade poderá ficar desaquecida. Pense em Nana Gouvêa, pense onde ela vai deixar a calcinha a mostra e pense que essa notícia não poderá ser divulgada. Qual será a motivação de Nana Gouvêa deixar a calcinha ao descer de carros em eventos públicos, e consequentemente a motivação para que ela saia de casa e em último e grave estágio, qual será a sua motivação para viver uma vez que isso não será divulgado em um grande portal da internet.
O que será da vida desta mulher?

Geisy Arruda, Andressa Urach, Alguma Coisa Minerato, dezenas de pessoas que tiraram seus sustentos nos últimos anos a partir da divulgação de suas atividades incipientes. Talvez estas ainda consigam sobreviver, graças a fama já consolidada, mas dezenas de pessoas não terão mais essa oportunidade. Ficarão para sempre no amadorismo, na expectativa da fama. A pirâmide social da subcelebridades estará cada vez mais difícil de ser escalada.
E esta mulher que eu não tenho muita certeza sobre quem ela é. Continuará atravessando a rua? Andará por aí distraída?
Tal qual o Uber para os taxistas, acredito que a criptonita dos sites dedicados a cobertura de fatos insignificantes da vida real, é o Instagram. Mais precisamente a função Stories, que faz com que qualquer mané consiga ter acesso à mais alta intimidade das pessoas famosas, sem precisar de um site para isso, sem precisar fazer um curso de nível superior de oito semestres para saber que Grazi Massafera precisou ir ao banheiro durante um filme e que Bruna Marquezine estava séria no corredor de um shopping.
Chico Buarque continuará se alimentando? Será que ele mudou seus hábitos alimentares, porque comer duas baguetes monstruosas destas em uma tarde é um convite ao acúmulo de gordura abdominal e subsequentes doenças coronarianas
A solução é claro, é se reinventar e virar funcionário público ou lançar uma startup.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Notícias do Tempo (6ª parte)

Passei o sábado inteiro sentado no sofá da sala. Me levantava eventualmente para beber a água que ainda restava em casa ou para ir ao banheiro cada vez mais insalubre. Dormia quando o cansaço conseguia vencer o calor insuportável. A essa altura eu já estava entregue ao fim do mundo.

A bateria do meu notebook havia acabado por volta das 18h30 da sexta-feira e desde então eu estava entregue no sofá. Apenas tomava nota da passagem do tempo pela luz opaca que entrava pela brecha da cortina, indicando que o sol estava de fora novamente. O calor continuava aumentando e o céu já estava completamente cinza, tomado pela fumaça das queimadas que a essa altura já consumiam o mundo.

Os filmes apocalípticos que sempre assistimos costumavam a retratar um fim repentino para uma grande parcela da humanidade. Havia um alerta de tsunami e as pessoas começavam a fugir das regiões costeiras, mas eram apanhadas pela onda no meio da estrada. Um terremoto espetacular destruía prédios, casas e metade da civilização norte-americana em poucos segundos. Os sobreviventes se reuniam e tentavam escapar daquela situação e iam morrendo em grandes levas a medida em que a terra voltava a tremer. Tommy Lee Jones estrelou um filme em que o apocalipse era provocado por um vulcão.

Outros tantos filmes tratavam sobre a chegada de meteoros, que proporcionaram um fim rápido e praticamente indolor para boa parte da população mundial. O impacto proporcionado pelo pedregulho gigante provocaria um grande rastro de destruição e os poucos sobreviventes, sempre eles, precisariam se unir para procurar uma solução naquele ambiente de barbárie. Sylvester Stallone, ou Bruce Willis, ou algum outro astro seria o responsável por guiar aquele grupo despreparado para a vida selvagem.

Mas, creio que de longe os fins mais pensados para a humanidade são aqueles provocados por invasões alienígenas. Os desenvolvidos seres de outros planetas chegam até nós com ideias conquistadoras e disparavam seus poderosos raios aniquilantes, capazes de varrer Nova York – sempre ela – do mapa em poucos segundos. A humanidade tenta resistir como pode, enquanto mais e mais pessoas são mortas de uma vez só. Bem, claro que geralmente nesses filmes a humanidade não é extinta de uma vez, a resistência humana liderada por Will Smith consegue obter uma resposta e contra-atacar os alienígenas, subjugá-los e iniciar o processo de reconstrução das façanhas humanas no planeta.


Todos esses filmes tem algo em comum. Um impacto imediato sobre a população e a resistência, uma maneira de tentar encarar o problema e dar a volta por cima. Há uma mensagem de esperança, de que nos momentos difíceis a humanidade é capaz de se unir em busca de uma solução. A luta pela sobrevivência é capaz de unir todos.

Mesmo os filmes de zumbis – e eu preciso confessar que odeio filmes de zumbis, considero todos eles iguais e baseados em um princípio ridículo, de que os mortos voltariam a viver e passariam a atacar a humanidade, que novamente, precisa se unir para superar esse problema e etc, etc, etc, esses filmes também mostram resistência a um impacto, que digamos, não é imediato, mas é um problema que vai aumentando dia após dia.

Lembro de cabeça de um filme que mostra uma tragédia ganhando corpo a cada dia e ameaçando a existência humana terrestre: “O Dia Depois do Amanhã”. Assisti a esse filme em 2004, no cinema, na saída de uma oficina de redação no colégio. Estava ao lado de uns seis ou sete colegas de sala e assistimos aquele filme, rindo um pouco da situação, daquele frio que em poucas horas congelava o hemisfério norte inteiro. Um amigo meu questionava “e o Brasil? Continua todo mundo na praia tomando caipirinha e sambando?”. Não é um grande filme certamente, mas é o filme que vem a minha cabeça como um exemplo de um apocalipse não-repentino, crescente.

Mas, novamente, mesmo nesse filme, há uma espécie de cooperação entre os sobreviventes. Que tentam se ajudar, se refugiando em lugares protegidos, queimando livros em fogueiras na tentativa de se manterem aquecidos, fugindo para o México. Toda produção apocalíptica hollywoodiana trata da união dos povos para enfrentar os problemas e de certa forma isso nos sugestionou a pensar que o fim, caso ele realmente chegasse um dia, seria dessa forma. Muitos mortos, mas os sobreviventes tentando se ajudar, lutando até onde fosse possível pela sua sobrevivência.

Creio que todo mundo já pensou em como seria seu próprio comportamento assim, caso você desse a sorte de não ser um dos atingidos pelo raio laser mortal alienígena, ou pelos blocos de concreto que despencaram sobre cabeças alheias após o terremoto. Seria um líder do grupo? Alguém que seguiria a ordem dos líderes? Sempre pensei que eu seria alguém desinteressado, que talvez esperasse a morte chegar, pensando se realmente valia a pensa todo aquele sacrifício apenas para continuar vivo num mundo cheio de mortos. Qual é o sentido de continuar vivendo em uma situação assim?

De certa forma eu já estava assim. Apenas esperando o tempo passar. Estamos vivendo o nosso dia depois do amanhã, estamos em nosso momento ficção barata blockbuster eu pensei. Acho que o mundo foi congelando em uma parte e queimando em outra de maneira menos repentina do que no filme supracitado, que deve ter sido a primeira produção global que tratava das mudanças climáticas, talvez até precedendo o trabalho realizado pelo Al Gore.

Mas, de certa forma, acho que não havia a resistência tão alardeada nos filmes. Estávamos todos entregues ao calor. Ninguém estava nas ruas tentando, sei lá, controlar queimadas ou desviar o curso dos rios, não sei o que pode ser feito para combater o calor, porque certamente este esforço resultaria na morte dos envolvidos. Acho que todos os filmes de fim de mundo não pensaram na nossa dependência atual de tecnologia, de como ficaríamos inertes sem ter um celular, conexão a internet, o que dirá da energia elétrica? O fim não anunciado também nos pegou de surpresa. Acredito que lá nos primeiros dias, quando o calor ainda estava dentro dos padrões previamente registrados pela ciência, se alguém tivesse nos avisado que aquilo era o começo do fim, talvez pudéssemos ter feito alguma coisa, por mais que eu não sei que coisa é essa. Não dá para mudar o clima do planeta imediatamente.

Será que alguém havia cogitado o suicídio como uma forma de abreviar o sofrimento? Diante da falta de possibilidades, da lenta agonia do fim, da morte inevitável, o suicídio seria uma rala forma de controle das variáveis. Ou não. Que suicídio que as pessoas têm a sua disposição, exceto aquelas que se prepararam para isso? Perfuração com facas, pulos de grandes alturas e outras situações que de certa forma não garantem a morte imediata, mas nesse mundo distópico poderia garantir algumas horas a mais de sofrimento com fraturas expostas e hemorragias incontroláveis, sem qualquer possibilidade de socorro.

Pensei que talvez ainda houvesse algum lugar seguro, ou habitável na Terra. Alguma faixa intermediária, entre o calor e o frio extremo em que as pessoas conseguiriam viver por mais tempo, até que ou o frio, ou o calor dominassem a situação inteira. Ou até que tudo milagrosamente voltasse ao normal e essas pessoas pudessem espalhar as façanhas humanas por todo o planeta. Voltei a dormir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Menino do Acre


A foto que abre esse texto é muito semelhante a uma exposição da Bienal de Arte Moderna de São Paulo. As paredes brancas com escritos precisamente simétricos são uma provocação estética, que não deixam de ter alguma beleza. No centro do quarto, uma estátua macabra, transmite uma sensação de choque. O quadro em que um alienígena segura os ombros de um ser humano, com ambos parecendo prontos para participar de um ritual satânico é o toque surreal que completa a paisagem da instalação. Por último, quando nos aproximamos da parede o que vemos lá não são letras do alfabeto latino, mas uma coleção de símbolos aparentemente inteligíveis.

A obra, no entanto, não é de nenhum mártir da arte pós-moderna e nem está exposta no pavilhão da Bienal. Ela foi realizada pelo jovem Bruno Borges, estudante de psicologia de 24 anos, em seu próprio quarto em um apartamento na capital do Acre, Rio Branco, e é resultado, ao que tudo indica, do longo processo de enlouquecimento do jovem Bruno, coitado, que no momento se encontra desaparecido.

Caso você, assim como o Bruno, esteve sumido nos últimos dias, ou caso tenha sido abduzido pelo extraterrestre do retrato, aí vai um breve resumo do caso: Os pais do jovem saíram de férias e ele ficou trancado no quarto realizando a intervenção supracitada, só que ninguém da sua família sabia de nada. Os pais voltaram, ele almoçou com a família e logo depois desapareceu e só então os pais abriram a porta do quarto e encontraram o tal cenário, além de uma série de 14 livros identificados por numerais romanos, todos escritos a mão e criptografados. A família só sabia que ele trabalhava em um projeto para o qual não deu muitas explicações, mas que ele dizia ser uma teoria inovadora, que o faria ser conhecido mundialmente rapidamente.

Este caso é certamente um dos mais intrigantes que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Certo que pessoas desaparecem o tempo inteiro e muitas vezes não sabemos se ela morreu, foi devorada por cachorros, viajou para outro país ou esqueceu o carregador de celular em casa. No entanto, o Menino do Acre tem muitos fatores que o tornam notícia:

1) O caso aconteceu no Acre, que certamente é o Estado mais insólito do Brasil, um Estado que nós ganhamos em troca de um cavalo com a Bolívia, cujo acesso terrestre é extremamente difícil e que nos proporcionou a Adreles, que imortalizou o Acre em uma canção e fez que o país inteiro soubesse das precárias condições de segurança no parque da maternidade. Isso já não é o suficiente?
2) Sério, olha esse retrato que o cara tinha na parede do quarto dele

Enfim, pelas informações que constam na matéria, Bruno não me parecia ser alguém que estava em pleno domínio de suas faculdades mentais. A mãe o descreveu como alguém muito generoso, cujos melhores amigos eram portadores de distúrbios mentais e mendigos. Ele lia muito e tinha um nível intelectual assombroso, capaz de conversar apenas com desembargadores, juízes, algo parecido com a passagem bíblica do Jesus entre os doutores. O jovem era aficionado pelo filósofo italiano Giordano Bruno, morto pela inquisição e, aliás, é justamente o indivíduo representado pela estátua macabra.

Ele foi financiado em R$ 20 mil por um primo médico, que disse que o fez por acreditar no Bruno, que tinha umas ideias que batiam. A mãe disse que leu um dos livros com uma teoria que o jovem queria patentear e, na terceira leitura, finalmente entendeu a ideia, uma teoria que ela descreveu como perfeita.

Por muitas vezes, nós não conseguimos notar os problemas que se desenvolvem dentro do nosso seio familiar. Conseguimos rapidamente ver a degeneração na família e na vida dos outros, mas temos dificuldades em perceber que algum problema acomete uma pessoa tão próxima de nós. Por isso, me parece que a mãe, coitada, teve dificuldades em ver que o filho tinha algum problema. Todas essas ideias malucas - pelo o que foi traduzido de uma página criptografada, nada do que o rapaz diz faz sentido - amizade com pessoas estranhas, enfim (onde é que um jovem de 24 anos arruma desembargadores para conversar?). Difícil acreditar que uma pessoa saudável seria capaz de escrever 14 calhamaços de papel criptografados, copiar os textos pelas paredes da casa e depois sumir.

Possibilidades

Bem, uma das hipóteses para este caso é justamente essa: Bruno enlouqueceu, está no meio de um surto maníaco e saiu vagando pela selva acreana como um andarilho lunático, balbuciando palavras desconexas para o restante da humanidade. Drogas? Talvez sim, talvez não.

Mas, pode ser que tudo isso não passe um plano, elaborado por uma mente um tanto quanto enfraquecida, é claro, mas um plano de divulgação. O cidadão havia falado ao seu primo financiador que sua teoria faria com que ele fosse rapidamente conhecido no mundo inteiro e não vejo realmente uma ideia melhor de divulgar uma ideia filosófica do que a de montar uma instalação artística no seu quarto e desaparecer no mundo. Realmente muitas pessoas devem se interessar no que ele escreveu, mesmo que seja uma porcaria criptografada pelo Manuel dos escoteiros da Disney.

E se a história é genial e o cara enlouqueceu? Se ele armou tudo e escreveu um monte de merda? Se é um teaser da nova série do Netflix? Se ele é um youtuber que está apenas trollando a mãe?


O menino do Acre é certamente um candidato a best-seller, um caso memorável deste mundo louco em que vivemos.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Notícias do Tempo (5ª parte)

Há uma banal cena futebolística que me deixou marcado. O atacante Aloísio, carinhosamente conhecido como Chulapa, disputava uma partida do campeonato paulista pelo São Paulo. Em determinado momento, ele saltou em uma disputa aérea pela bola e caiu de mau jeito. Se sentou no gramado, apertou o pé e fez uma expressão de dor, igual a que eu faço quando bato o dedinho do pé em alguma quina. Foi substituído e todos tiveram a impressão de que era mais uma precaução para não agravar a situação. Dias, ou horas depois, veio o diagnóstico: Aloísio havia quebrado o pé e ficaria algumas semanas afastado do futebol.

Atletas profissionais, em geral, se acostumam com a dor e tem um limiar de dor muito maior do que um reles mortal. Vejo uma partida de futebol disputada, com carrinhos, chutes na canela, travas no tornozelo e imagino que, se eu sofresse alguma daquelas faltas e consequentes quedas proporcionadas por carrinhos exagerados, eu provavelmente ficaria algumas semanas deitado na minha cama sem conseguir andar, esperando a morte chegar o mais rápido possível. Lembro disso, porque nesta sexta-feira eu estava deitado na minha cama pensando sobre o limiar de calor. Quanto calor um ser humano consegue aguentar e por quanto tempo? Tinha para mim que estávamos chegando no limite.

Em Cuiabá nós sempre aguentamos mais calor do que as populações de outras regiões mais temperadas. Ríamos dos paulistas sem camisa a 27 graus. Considerávamos 33 graus como um dia de sorte. Claro que por outro lado nós chegávamos a uma situação de hipotermia quando o termômetro baixava dos 15 graus, situação que se repetia a mais ou menos a cada sete anos. Pensava ali em quantas pessoas já morreram de calor nesses últimos dias. Sem contar no frio do hemisfério norte. A poluição da China. Quanto tempo ainda resistiríamos nessa condição?

No dia anterior, meu amigo cinegrafista contou algumas cenas que presenciou nos seus dias de trabalhos inumanos. Quando a energia acabou e quase todo mundo ficou sem bateria no celular, houve uma correria para estabelecimentos com gerador de energia. Ele me contou a briga por tomadas em alguns hospitais, a situação de desordem total, o caos pelo mundo desconectado. Claro que os geradores desses estabelecimentos não aguentaram muito tempo e logo se apagaram. Quase todo mundo que estava em uma UTI morreu.

Pessoas chegaram a se aproveitar da situação para tentar saquear lojas no centro da cidade, mas por incrível que pareça, pouca coisa aconteceu por conta do calor. Ninguém aguentava sair carregando televisões de 50 polegadas pela rua, ainda mais porque pouca gente ainda tinha combustível em seus carros. Provavelmente a barbárie só não chegou as nossas ruas porque a temperatura não era propícia para barbáries. Um incêndio havia começado no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães e não havia meios de combatê-lo. Sabe-se lá o que vai acontecer, com animais fugindo da queimada, até onde esse fogo vai chegar.

Fiquei ansioso com esse cenário apocalíptico e refleti sobre como eu não sabia de nada disso 24 horas antes. A cidade vivia uma situação caótica e eu não sabia de nada. Talvez o país e o mundo estivessem mergulhados na selvageria e eu de nada sabia. Estava apenas sofrendo com o calor, com a falta de água, com a comida que estava acabando na minha casa. Todos deveriam estar morrendo, mas sem nenhuma reação.

Pensei em como o mundo deveria ser menos ansioso antes, como a ansiedade deve progredir ano a ano com a chegada das novas tecnologias. Antes do Whatsapp não ficávamos tensos com as notícias sobre assaltos compartilhadas nos grupos da família. Antes das redes sociais, não éramos informados instantaneamente sobre os infortúnios ou graças alcançadas pelos nossos familiares. Antes da internet não podíamos entrar em um site a qualquer hora para saber que alguém havia promovido um massacre em uma escola. Antes da televisão não víamos a imagem de atentados terroristas. Antes do telefone não recebíamos telefonemas no meia da madrugada sobre a morte de alguém. Antes do rádio, antes do jornal não sabíamos de nada o que acontecia.

Lá atrás, no dia da Revolução Francesa, muitas pessoas deviam estar em outros lugares da França jantando normalmente e só souberam de tudo alguns dias depois. A notícia da Proclamação da República só chegou a Cuiabá 24 dias depois de ocorrer no Rio de Janeiro e atrapalhou o baile do imperador. Enquanto a população do Rio de Janeiro já vivia no tempo da república, os cuiabanos ainda aguardavam a chegada das ordens do rei, que a essa altura já estava em alguma embarcação com destino ao exílio. A vida era menos ansiosa antes da evolução dos meios de comunicação.

Fui para a cozinha e comi minha última fatia de pão. Vi que eu ainda tinha três ovos, provavelmente minhas últimas refeições antes que o mundo de alguma forma acabasse. Se eu tivesse sorte e encontrasse algum palito de fósforo poderia acender o fogão e fritá-los. Pensei se era possível comer arroz frito.

Senti o cheiro de fumaça das queimadas e me bateu um leve desespero pelo tédio de não ter o que fazer. Não tinha capacidade psicológica para ler um livro. Senti saudade das músicas que escutava e me lembrei de um trecho do livro “O Resto e Ruído” que trazia a lembrança banal de que a oportunidade de escutar sua música favorita várias vezes é um privilégio recente da humanidade e surgiu apenas com a invenção dos discos em sei lá quando. Em tempos remotos, bem remotos, um cidadão poderia escutar uma Sinfonia de Beethoven apenas uma vez na vida, ao vivo, no concerto de uma orquestra qualquer e permanecer a vida inteira com essa lembrança, sem oportunidade de se aprofundar nos detalhes da canção que ele adorou.

Lembrei do meu notebook com 60% de bateria. Descobri que eram 16h43. Fazia algum tempo que eu não sabia em que horas eu estava. Conectei meu modem, mas não consegui acessar a internet. Não havia como o sistema estar sobrecarregado, afinal, ninguém devia estar tentando fazer isso. De alguma maneira, a internet deveria ter sido interrompida, tal qual tantos outros serviços. Tentei recarregar algumas vezes, mas meu Google Chrome só me mostrava aquela imagem do dinossauro.

Pensei em como estaria o resto da humanidade naquele momento. Em como estaria Michel Temer naquele calor. Se ele teria algum privilégio, ou se estaria cercado na merda, elaborando algum comunicado a nação que não seria visto por ninguém. Os homens mais ricos do Brasil, os mais pobres. Na desgraça total, apenas em situações como a que estamos vivendo agora, ninguém se sobressaí a ninguém. O fim é torturante para todos e só resta o arrependimento, como naquela música do Titãs que tocou em muitos slides de Power Point nos idos de 2002.

Pensei nos sites de notícias desatualizados. Nas redes sociais paralisadas. Que no futuro, no dia em que alguma civilização extraterrestre chegasse as nossas ruínas, ela descobriria toda essa rede de informação submersa, apagada. Uma narrativa lenta e bruscamente interrompida sobre o fim da aventura humana na terra. Se caso houver sobreviventes a esse momento terrível, um dia os seus descendentes conseguirão reerguer a civilização e reativar o Facebook e um futuro escritor de Best-Sellers, no momento em que existissem pessoas suficientes para proporcionar a existência de um Best-Seller, teria um amplo material de pesquisa.

Todos esses livros, toda essa produção cultural, avanços científicos. Toda essa expectativa terminaria em poucas horas, a não ser que uma reviravolta climática ocorresse. Não sei se havia esse expectativa, o que os cientistas estavam prevendo para os próximos dias, se é que os cientistas ainda existiam e mesmo se o mundo ainda existisse daqui a alguns dias quanto trabalho seria necessário para recuperar tudo. A falta de notícias também provocava uma angústia. Acredito que o isolamento só é bom para quem sempre viveu isolado.

Olhei para o meu notebook com 53% de bateria e aquele dinossauro parado. Tomei a única medida plausível naquele momento e joguei o jogo do dinossaurinho maniacamente. Resolvi jogar o jogo até o fim dos tempos, ou pelo menos até o fim da minha bateria.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Dieta do Papelão

A recém-lançada operação da Polícia Federal, denominada Carne Fraca, expôs alguns pontos sombrios da indústria frigorífica brasileira, como o reaproveitamento de carne estragada, flexibilização dos padrões sanitários e corrupção institucionalizada para fomentar o uso de substâncias alternativas nas carnes processadas.

O que mais chocou o público carnívoro brasileiro foi a hipótese divulgada pela PF de que o papelão seria misturado em meio ao conteúdo de origem animal. Ao que tudo indica, essa elucubração dos federais não mantém nenhum vínculo com a realidade, mas sua simples aparição foi o suficiente para gerar milhares de memes responsáveis por ratificar na memória coletiva do povo brasileiro que salsicha tem esse composto de celulose (sendo que, convenhamos, celulose seria a coisa menos ruim a ser encontrada entre tudo o que existe numa salsicha).

No entanto, as pessoas não estão pensando nos benefícios do consumo do papelão em longo prazo. De origem vegetal, o papelão tem a capacidade de satisfazer mesmo as dietas veganas. Além disso, há o benefício calórico: 100 gramas de frango tem aproximadamente 240 calorias, enquanto que 100 gramas de papelão não tem caloria nenhuma, já que o corpo humano não consegue digerir celulose. Além disso, 100 gramas de papelão é papelão pra cacete, capaz de encher o estomago de qualquer um. Resumindo, o papelão é provavelmente o alimento do futuro e é por isso que o CH3 apresenta agora a exclusiva dieta do papelão.
Sim, você pode substituir

Café da manhã
Para começar bem o seu dia, prepare um delicioso sanduíche de papelão com ricota e tomate seco.

Pegue uma folha de papelão e corte dois quadrados de tamanhos mais ou menos equivalentes. Passe uma generosa quantidade de ricota em cada um dos quadrados e adicione quatro tomates secos. Caso você prefira, aquece o sanduíche em uma sanduícheira. Jamais leve ao forno, para evitar o risco de incêndios.
Calorias: 25

Lanche da manhã
Na hora em que bater aquela fome entre o café e o almoço, lá por volta das 09h26 da manhã, prepare uma deliciosa salada de folhas de papelão. Dica: prepare de manhã e leve para o trabalho.

Selecione diferentes folhas de papelão, de diferentes gramaturas e cores. Picote-as da maneira que melhor lhe convir. Sirva com uma colher de iogurte natural.
Calorias: 7

Almoço
Há uma tendência mundial de se cortar os carboidratos das principais refeições do dia. O que poucas pessoas sabem é que é possível substituir o carboidrato por papelão. Por isso, faça esse delicioso spaghetti de papelão ao sugo.

Corte uma folha papelão em tiras finas de aproximadamente três milímetros. Em outra panela, faça um molho de tomate. Misture tudo e coma.
Calorias: 29

Lanche da tarde
Se você ainda estiver vivo é muito provável que sinta fome em algum período da tarde. Para matar essa fome, e não apenas ela, nada melhor do que comer algumas unidades de papelão integral, livre de calorias. Vale molhar no café para adicionar um gosto extra.

Jantar
O jantar é uma oportunidade para um refeição bem leve e nutritiva. Experimente uma deliciosa omelete de papelão.

Em um recipiente, quebre dois ovos e misture os até ficarem homogêneos. Misture papelão picado ao conteúdo e leve a uma frigideira pré-aquecida com um dedo de óleo. Espere dourar dos dois lados e pronto.
Calorias: 120

Apesar da baixa taxa calórica - você terá ingerido apenas 181 calorias ao longo do dia - e todos os outros benefícios, a dieta do papelão também poderá ter algumas implicações como anemia e desnutrição. O aumento de suco gástrico também pode provocar úlceras que farão você se contorcer de dor. Diverticulite, fissura anal e distúrbios psicológicos também podem acontecer e provocar morte lenta e dolorosa, o que, ademais, vai contribuir para o problema de superpopulação mundial, contribuir duplamente com a questão da produção de alimentos e talvez impedir uma reforma da previdência.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Notícias do Tempo (4ª parte)

Os telejornais, a internet, o Dráuzio Varella, todo mundo já cansou de explicar as causas da ressaca. Você bebe tanto álcool, que acaba sobrecarregando o seu organismo, que precisa arrumar um meio de eliminá-lo. O resultado é que você fica desidratado e isso provoca aquela dor de cabeça terrível, o gosto ruim na boca, o corpo dolorido, o estomago arrasado. Pior ainda do que a dor física é o sentimento psicológico de que você devia ter evitado, afinal, a sensação é conhecida e você deveria saber o que fazer para minimizar essa pequena tragédia pessoal.

Beber um copo de água entre uma e outra dose de álcool costuma a ser a maneira mais eficiente de evitar o sofrimento do dia seguinte. Uma estratégia que costuma a funcionar no começo, mas que aos poucos vai se perdendo. Não beber muito também parece fácil, mas há aquele momento, aquele pequeno momento de hesitação quando você já está suficientemente bêbado e pensa se deve tomar mais uma dose ou não. Seu cérebro diz que não, mas ele já perdeu um pouco o controle sobre o corpo. Você resolve tomar aquela maldita saideira e então a linha vira. Qualquer controle vai embora e você não para mais de beber e apenas a sorte determinará a sua sobrevivência.

Na última noite eu resolvi brindar o fim do mundo. No escuro da minha casa sem energia, sendo devorado pelos mosquitos que certamente me contaminariam com alguma doença fatal, me apossei de uma garrafa de vodca e misturei com Coca Cola, limão e gelo. Os ingredientes foram lentamente terminando assim como a noite só terminou quando a garrafa estava vazia e eu estava desmaiado no sofá.

Não deveria ter feito isso comigo, pensei quando acordei todo suado no sofá da sala e cheio de coceiras pelo corpo. Verifiquei que a luz ainda não havia voltado e fui checar que horas eram. Meu celular apontava 09h13 e 7% de bateria. Conferi no grupo de trabalho que não haveria expediente. “Vamos aguardar”. Entrei nas redes sociais e vi que vários pontos do Brasil estavam sem luz. Vi uma notícia no Facebook sobre um Nostradamus italiano que previu que o mundo acabaria logo depois que nevasse por dois dias seguidos na praia de Salento. As fotos mostravam a cidade coberta pela neve que caiu por dois dias seguidos pela primeira vez na história. Matteu Tuffari o profeta do apocalipse, que acho que estava certo.

Ainda conferi o termômetro em 45º naquela manhã e as 09h32 o meu celular apagou. Me senti completamente isolado do planeta e com aquela dor de cabeça terrível. Bebi três copos de água, tomei uma dipirona e fui tomar um banho – pretensamente gelado, mas realisticamente apenas morno. Bebi mais dois copos de água e deitei na cama, esperando pelo momento em que a energia iria voltar. Dormi de novo.

Despertei desnorteado e novamente suado. Bebi mais água e fiquei pensando que horas eram. Pensei que aqueles livros pretensamente escoteiros que lemos na infância poderiam ter me ajudado a descobrir as horas de acordo com a posição do sol no céu. Mas, como eu não teria uma resposta e não estava a fim de me queimar a toa, resolvi entrar no meu carro e conferir em seu relógio o horário: 13h06. Estávamos quase completando as primeiras 24 horas sem luz. Eu nunca havia visto isso, nem na época de chuvas intensas, quando árvores destroem postes, explodem transformadores. A situação era inédita e o fato de eu não ter como me informar sobre ela, sem celular, sem ter como acessar a internet foi me causando uma profunda angústia. Eu sou de uma geração plugada, que não sabe como é viver desconectada do restante do planeta.

Uma vez no meu carro, resolvi ir até o meu trabalho com um único objetivo: pegar meu notebook de lá e, com um modem de internet saber o que estava acontecendo. A piscina do condomínio estava lotada, mas as ruas estavam vazias, como em uma manhã de 1º de janeiro. Pouquíssimos carros, ninguém nas ruas, lojas fechadas. Imaginei um mundo de pessoas trancadas em casa, catatônicas e paralisadas diante da situação. Cheguei rapidamente ao trabalho, peguei meu notebook e voltei para casa. Me senti um clandestino naquele mundo sem pessoas.

Pensei que eu deveria comer alguma coisa, mas não havia um restaurante aberto. Fui para casa encontrei apenas pão, presunto e queijo. Pensei que esses seriam meus suprimentos até o fim dos tempos, isso se o presunto e o queijo não estragassem antes. Abri e fechei a porta da geladeira rapidamente. Me dei conta que com a junção da ressaca e do calor, eu ainda não havia ido ao banheiro naquele dia.

Liguei o notebook e vi poucos posts nas redes sociais. Todo mundo devia estar sem bateria no celular, deviam restar apenas alguns poucos sobreviventes, que tinham uma reserva extra, ou que deram sorte de ter 100% de bateria na hora em que tudo acabou. Os próprios portais de notícias estavam desatualizados. A energia elétrica fazia uma grande diferença em todas as nossas atividades. Uma pessoa comentou que algumas TV estavam fora do ar, provavelmente porque não era possível transmitir mais nada. Como ele sabia disso?

Depois de algum tempo, achei uma explicação oficial: com a onda de calor mais forte dos últimos anos, houve um excesso de demanda por energia elétrica, muito provavelmente por conta do número de aparelhos de ar-condicionado ligados, o que sobrecarregou os transformadores de energia, que acabaram sucumbindo em vários pontos do país. Técnicos das concessionárias tentavam reparar o problema, mas o calor os atrapalhava muito dentro daquelas roupas cheias de proteção para evitar que eles fossem eletrocutados. Não havia previsão para que o problema fosse solucionado, apesar do empenho de todos.

Havia sim uma previsão do tempo. A temperatura em algumas capitais poderia passar dos 50 graus na sexta-feira. Estávamos diante de um fenômeno climático, que os cientistas tentavam entender. O fato é que uma bolha de calor se estabeleceu em boa parte do hemisfério sul, afastando toda e qualquer massa de ar frio que quisesse passar por aqui. Os cientistas pensavam que era um efeito do aquecimento global, que alterou a trajetória de alguns ventos, de algumas correntes marítimas e bagunçou tudo. Todas as nuvens estavam indo para o hemisfério norte que, ao contrário de nós, estava cada vez mais gelado. Centenas de pessoas morriam congeladas todas as noites em vários países. Muitas cidades sofriam com a falta de energia elétrica, provocada pela sobrecarga no uso de aquecedores. A situação por lá estava dramática. Não havia o que pudesse ser feito.

Desliguei o notebook que ainda tinha 60% de bateria. Poderia me ser útil mais tarde, ou não. Peguei algum livro para ler, porque a essa altura era o que me restava. Tive dificuldades em manter a leitura e resolvi tomar outro banho. Após três minutos a água acabou. Chequei em outras torneiras da casa e realmente a água havia acabado. Bati na porta do vizinho e ele me confirmou que, sim, havia acabado. A portaria reforçou que o problema se repetia em todo o condomínio, eles iam buscar explicações com a fornecedora de água.

Voltei ao meu carro e saí pela cidade até lugares que eu conhecia. A Universidade estava sem água. Os shoppings estavam fechados. O segurança, com roupa empapada de suor e o rosto coberto de gordura, me avisou que o gerador de energia do estabelecimento havia aguentado apenas algumas horas e o shopping precisou fechar. Pensei em como estariam os hospitais em um momento desse. O meu trabalho estava sem água também. Parecia um problema geral de desabastecimento que, pensei eu, devia ter alguma razão semelhante a falta de energia: sobrecarga, ou sei lá o que.

Resolvi ir até a fornecedora de água e encontrei um pequeno aglomerado de pessoas na porta. Pensei que era assim que as coisas funcionavam antigamente, quando não havia internet ou telefone. Era preciso ir até o local. Havia um ar zumbificado em todas aquelas pessoas falando coisas sem sentido e desencontradas, enquanto uma mulher suada tentava afirmar que a razão do problema ainda estava sendo verificada, mas sua voz se perdia no meio daquela confusão sonora.

Uma equipe de reportagem da TV Gazeta chegou ao local. Estavam com um ar cansado e abatido, sensação que todas as poucas pessoas na rua aparentavam ter. O sol começava a se por e o clima estava um pouco menos infernal, ou, acredito que talvez estivéssemos nos acostumando aquela situação, aplicando na prática uma lógica Darwiniana.

Conhecia o cinegrafista da TV. Perguntei a ele quem iria assistir aquelas reportagens, uma vez que a cidade inteira estava sem luz. Ele riu, dizendo que apenas cumpria as ordens da chefia. Mas, confessou que isso estava acabando, aquela era a última bateria carregada para as câmeras. Fiz uma pergunta/piada sobre como ele se sentia filmando as imagens que ninguém jamais iria ver. Ele me respondeu que seria um bom arquivo, que daria até um documentário.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Notícias do Tempo (3ª parte)

Sem dúvida, o pior momento do dia sempre é o momento em que você acorda. São muitos os motivos: ter que sair da sua cama aconchegante, dos lençóis que tão bem te acolheram a noite e ir encarar o mundo. Ter que levantar da cama e deixar todo esse conforto para trás com o objetivo de ir trabalhar. Se fosse proposta uma enquete mundial perguntando as pessoas se elas preferiam continuar na cama ou levantar para ir trabalhar, duvido que alguém respondesse a segunda opção. Principalmente se a enquete for sigilosa e se as respostas não fossem mostradas para os chefes dos questionados.

Ok, admito que eu possa estar exagerando. Existem outros momentos no dia que podem ser igualmente ruins. O momento em que você sofre uma fratura. Quando você tem uma diarreia. Possíveis perfurações com armas de fogo ou armas brancas. Diversos momentos em que você pode ser exposto as mais diversas dores físicas ou psicológicas. Momentos em que você encontra uma pessoa que você detesta. Mas, estas são variáveis do dia-a-dia, podem eventualmente acontecer ou não. Acordar você vai ter que acordar todos os dias, até que você morra ou eventualmente entre em coma, induzido ou não.

Nesses dias tem sido ainda mais difícil acordar, por conta do calor. Sair do quarto gelado e adentrar a sala quente, para enfim chegar à cozinha não é fácil. Seria muito melhor se fosse possível se teletransportar apenas para ambientes já previamente climatizados. O ar-condicionado, coitado, resiste bravamente durante a noite, mas assim que ele é desligado o calor já começa a tomar conta de tudo.

Depois de todos os procedimentos padrões de uma manhã, fui para o meu trabalho. O prédio onde labuto fica localizado no alto de um morro – não que exatamente se pareça com um morro e sua visão estereotipada da mídia de massa, digamos então que ele fica em um lugar mais alto – e ao estacionar pude perceber pelo menos seis focos de fumaça pela cidade. Cuiabá é uma cidade com tendência a piromania e parece que qualquer mínima estiagem é o suficiente para que a população comece a incinerar restos de lixo, terrenos baldios, florestas inteiras, automóveis, cadáveres, enfim. Tudo, absolutamente tudo pode ser incendiado.

Mal sentei em meu posto de trabalho fui informado que a Defesa Civil já havia emitido um alerta para a população, para que evitassem aglomerações, a prática de atividades físicas nos horários de pico de calor, o que, muito provavelmente, significa evitar atividades físicas em qualquer horário. As escolas estaduais que ainda estivessem repondo eventuais aulas atrasadas devido a greve dos professores talvez tivessem que suspender as atividades. Se possível, seria publicado um decreto que obrigasse o uso de ar condicionado para manutenção da vida humana na cidade.

O calor era o único assunto possível entre as pessoas. Quem por algum acaso houvesse ido ao banco, saído para almoçar, enfim, tivesse por alguma desgraça qualquer precisado sair as ruas anunciava um cenário de caos, horror e destruição. A pele queimando, o bafo quente, o ar seco, a fumaça que começava a tomar conta do ambiente. O termômetro do celular anunciava que havíamos finalmente superado a barreira dos 40 graus centígrados. O telejornal local anunciava que a sensação térmica já superava os 50 graus. “Haja ar-condicionado”, brincava a apresentadora.

A onda de calor era nacional. Todos os estados registavam temperaturas absurdas mesmo para essa época do ano. Os hospitais na região sul recebiam um número maior de pessoas que viram suas pressões aumentarem, baixarem, enfim, que estavam passando mal por conta dessa temperatura para a qual o corpo delas não estava preparado. Por outro lado, o frio seguia forte no hemisfério norte. Estados norte-americanos, sem energia elétrica, mais de cem pessoas morreram congeladas apenas na última noite. A nevasca isolou algumas cidades polonesas. O expediente foi cancelado em várias repartições públicas devido ao frio mais forte dos últimos cem anos. O frio também chegou à China. A nuvem de poluição já havia ocupado um pequeno pedaço do território, conforme mostravam as imagens de satélite. O dia parecia noite, devido a camada de poluição. O governo chinês prometia tomar medidas drásticas.

A previsão do tempo era alarmante, por trás do sorriso sempre simpático do garoto do tempo. Mais calor para o Brasil. O mapa inteiro estava vermelho, com exceção a algumas partes alaranjadas no Amazonas, provavelmente em trechos de floresta densa e profunda. Os cabalísticos 40 graus eram previstos em pelo menos seis capitais, Cuiabá inclusive. “Haja ar-condicionado”, repetiu como em um deja vu a Sandra Annenberg.

Haja ar-condicionado, um mantra para esses dias. Mantra interrompido a partir do momento em que um silêncio se fez na sala do trabalho. A luz havia acabado, a energia havia acabado, não sei direito qual é o termo tecnicamente correto para dizer que o fornecimento de energia elétrica havia sido temporariamente interrompido pela concessionária responsável. Ficamos todos parados por ali esperando que a luz logo voltasse ou talvez em uma tentativa involuntária de fazer o mínimo esforço possível e não gerar calor, que logo iria aquecer o ambiente.

No entanto, estávamos no famigerado horário de volta de almoço, quando o pobre ar-condicionado por si só não consegue manter a temperatura agradável. O sol ardia nos vidros das paredes e não deve ter demorado muito mais do que vinte minutos para que todos começassem a sentir o suor escorrer pelas pernas. Ficamos ali, ardendo, esperando uma decisão superior, a vontade divina, ou o que fosse.

Não demorou muito e veio um aviso do setor de RH. A Secretaria de Gestão entrou em contato com a concessionária de energia que avisou que a queda era geral. Não havia energia elétrica em Cuiabá, nas cidades do entorno e sabe-se lá mais aonde. Não havia previsão de quando a energia poderia voltar e por conta disso o expediente estava suspenso naquela tarde.

Já havia presenciado situações semelhantes outras vezes em minha vida. O Centro Político Administrativo é um dos poucos lugares do mundo em que não é preciso treinar as pessoas para evacuar um local as pressas. Basta informar a todos os servidores que o expediente foi suspenso que em poucos minutos todas as baias estarão vazias, os equipamentos desligados e um silêncio sepulcral será escutado nos corredores. Se um dia pegar fogo no prédio em que eu trabalho, será necessário apenas falar as palavras mágicas “o expediente está suspenso, podem ir para casa”. Sem alarme de incêndio, sem avisos de fogo para não criar pânico. Em poucos minutos, o prédio será evacuado.

Claro que todas essas pessoas que abandonaram seus postos de trabalho vão embora para suas casas de algum jeito e o trânsito fica um inferno. As poucas ruas que dão acesso ao CPA ficam congestionadas, abarrotadas de automóveis. Não há solução possível para resolver o trânsito nesta situação e eu pensei que iria demorar mais de uma hora para chegar em casa. Bem, era difícil, mas pelo menos dentro do carro eu estaria no ar-condicionado e pensei por um instante que isso seria melhor do que arder na sala quente do meu trabalho.


Abri a porta do meu carro e senti que estava abrindo um forno, que poderia ter deixado uma pizza lá dentro que ela estaria pronta para comer. Creio que demorei pelo menos vinte minutos para conseguir sair do estacionamento do meu trabalho. Meu carro entrou na reserva e precisei parar em um posto de gasolina para abastecer. Havia um posto relativamente perto do meu trabalho, ao qual eu não demoraria mais do que cinco minutos para chegar em um dia normal, mas neste dia eu demorei outros vinte. Passei 40 minutos temendo que meu carro pudesse parar sem gasolina, o que me renderia uma multa, xingamentos pelo trânsito ainda pior provocado por mim e a miséria de caminhar no sol em busca de um galão que poderia, sei lá, entrar em combustão espontânea se exposto ao sol.

Cheguei ao posto e fui informado que o cartão não estava passando, porque as baterias das máquinas haviam acabado. O frentista lamentou o azar de, justo no dia em que acaba a luz, ninguém ter lembrado de colocar as maquininhas para carregar. Por sorte eu tinha uma nota de 100 reais na carteira, dinheiro guardado para pagar a academia no dia em que o clima me permitisse voltar até lá.

Já havia escutado um disco inteiro dos Strokes desde a hora que eu sai do trabalho e lá estava eu de volta a Avenida congestionada. O trânsito andava a milímetros por hora. Os ônibus estavam lotados. As pessoas nos pontos de ônibus pareciam duelar com a morte. O ar-condicionado do meu carro estava ligado no máximo, mas o ambiente lá dentro estava no máximo fresquinho. O sol que batia na janela do carro me fazia suar. O semáforo pifado não ajudava o trânsito a fluir. A fila de carros ia até o fim da minha visão. Naquele momento, naquela situação, eu tive a certeza de que nós não estávamos apenas vivendo uma grande onda de calor, estávamos sendo vítimas de algo muito maior. O aquecimento global havia começado pra valer. Ou talvez fosse uma dessas etapas bíblicas de provação, do sofrimento que precede a benção divina. Ali no meu carro, preso no trânsito eu tive a certeza de que não era apenas calor: o mundo estava acabando.

terça-feira, 14 de março de 2017

Disgaylândia

Na semana passada, o excelentíssimo deputado federal mato-grossense Victório Galli, membro do glorioso Partido Social Cristão e defensor da tradicional família brasileira, deu sequência a uma guerra declarada por determinados setores evangélicos a Disney. Tudo começou quando um desenho sobre Star Wars mostrou dois garotos se beijando e o Silas Malafaia defendeu um boicote ao tradicional estúdio norte-americana.

Galli reverberou as críticas em uma entrevista para uma rádio cuiabana. O deputado afirmou que Mickey Mouse é gay e que para comprovar isto basta fazer um estudo aprofundado, como ele fez. O parlamentar chegou a dizer que o relacionamento do rato com a Minnie seria de fachada, apenas para enganar as pessoas. Aprofundando suas críticas, o social cristão citou o Rei Leão, outro exemplo do gayzismo da Disney. Ele afirma que o leão deveria ser um animal forte e corajoso, mas no desenho ele aparece indefeso o que é um sinal de que é veado.

O congressista gostou de reforçar que ele fez um estudo, aprofundado estudo sobre o caso e não deixa de ser interessante imaginar ele assistindo horas e mais horas do Mickey Mouse e pausando o vídeo em determinados momentos e gritando “taí, é viado” (ele também não gosta do fato de que os personagens da Disney não tem pais, ou filhos, apenas tios e sobrinhos). Pois então, o CH3 resolveu fazer também um estudo, sério e aprofundado estudo, para mostrar como a baitolagem reina solta nos clássicos da Disney.

Bambi
Não sei se vocês já perceberam, mas o personagem principal deste desenho é um veado, animal que é amplamente associado aos gays na sabedoria pessoal. Com traços tipicamente afeminados, o veado veado vê sua mãe ser assassinada – mais uma prova de que a Disney não gosta de famílias tradicionais – e precisa se virar na selva ao lado de seus amiguinhos gays. O ano era 1942 e a Disney já fazia essa lavagem cerebral na cabeça das nossas crianças de então, que hoje são os nosso velhos e estão por aí dando a bunda, bando de bichas velhas.

Mogli
A história de um jovem que cresce apartado da estrutura familiar necessária, sendo criado por lobos e vira um adolescente que vaga pela floresta e muito provavelmente praticando a homozoofilia.

Aladdin
Talvez vocês já não se lembrem, iludidos pelo glamour das animações da Disney, mas Aladdin era um bandido que dá a sorte grande e fica milionário, mostrando que além dos gays, o estúdio também protege os marginais. O grande parceiro do criminoso é um gênio, que também se utiliza de elementos além dos previstos na lei, de corpo musculoso e durante todo filme fica subtendido que o desejo maior do Aladdin era ser enrabado por aquele conjunto de músculos azuis claros. No final, o assaltante deseja que o gênio fique livre, o que é uma maneira de ele mandar seu amor proibido embora e se casar por arranjo com uma princesa.

Toy Story

Esta animação homoafetiva dos anos 90 gira em torno da tensão sexual envolvendo um menino e seus dois bonecos – também homens e que por sua vez também são apaixonados. A única personagem feminina, que aparece no segundo filme – uma mulher da vida, pouco ligada aos afazeres domésticos que se esperam de uma fêmea, constrange os bonecos principais. No terceiro filme há uma cena pornográfica em que os personagem estão com medo – coisa de boyolas – e se dão a mão diante da morte, inclusive homens segurando a mão de outros homens e mulheres de mulheres, sendo que todos nós sabemos que segurar a mão já é o primeiro passo do sexo.

Branca de Neve e os Sete Anões
Não precisa ser muito espero para imaginar o que sete anões fazem juntos em uma casa no meio da floresta. Estas aberrações esquecidas por deus certamente estão libertando seus fetiches pervertidos distante dos olhos da sociedade – mas não dos olhos de deus. Esse filme é uma nanosuruba gay demoníaca.

Zé Carioca
O típico malandro carioca que foge do casamento porque certamente é apaixonado pelo Pedrão, em cuja imagem ao lado podemos observar, tenta comer o cu do papagaio em uma cena doentia mostrada para nossa crianças.

Pinóquio
Não precisamos dizer que esse é um filme sobre a excitação provocada pela mentira, o boneco sofre ereções em ambientes masculinos toda vez que mente, sendo que a grande mentira é a sua sexualidade. Há explicitamente a insinuação de que aquele velho pervertido é o responsável por diminuir a paudurescência do Pinóquio, com aquela metáfora fajuta de cortar o nariz com um serrote.

Up - Altas Aventuras
Um velho pederasta some no mundo com uma criança e os pais dessa criança não fazem nada. O começo do desenho mostra a vida do velho com sua esposa e, confesso que chorei até, mas os dois nunca tiveram um filho mostrando que a Disney odeia as famílias! Provavelmente o velho, além de tudo comunista porque se recusa a vender sua casa e impede o avanço da sociedade, usa drogas e inicia o pobre escoteiro em algum ritual satânicogaymaconhista.

Acabaram de me ligar aqui avisando que na verdade esse desenho é da Pixar, mas isso só prova que o complô da fanta uva está dominando Hollywwod inteira.

No próximo post voltaremos mostrando que Rambo, Taxi Driver, o Exorcista e La La Land são apologias ao gayzismo.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Notícias do Tempo (2ª parte)

Acordei naquela madrugada de terça-feira com o barulho de um raio. Não era um simples raio. Parecia realmente que o teto da casa havia se partido ao meio, que um muro havia desabado, que algum grande objeto havia caído de uma altura considerável a uma distância muito próxima de onde eu estava. A esse grande estrondo se seguiram outros três, de uma intensidade menor, mas ainda assim assustadores. Fiquei naquele estado meio sonâmbulo em que imaginamos as coisas, mas não temos muita certeza se estamos acordados ou sonhando. Pensei em ir desligar alguns eletrodomésticos, mas não tive força. Passei o resto do período teoricamente reservado ao sono vagando entre a vigília e os devaneios, sem conseguir me aprofundar neste exercício diário de recuperação corporal.

Depois dos raios, veio um temporal alarmante, desses que nos fazem pensar em rios subindo, barrancos despencando, tragédias naturais que receberão cobertura exaustiva no Jornal Hoje. A chuva deveria ser uma resposta ao calor terrível da segunda-feira, quando, ao contrário dos dias anteriores, nenhuma gota caiu do céu e o calor permaneceu insuportável o tempo inteiro.

Quando a manhã finalmente chegou, havia uma vaga expectativa de que o clima estivesse mais ameno, graças ao dilúvio da madrugada, mas essa expectativa durou o tempo suficiente de abrir a porta do quarto e perceber que o sol brilhava fortemente do lado de fora e já era capaz de ofuscar a visão. Abri a janela e a umidade associada ao calor fazia com que Cuiabá parecesse a maior sauna do mundo.

Como Cuiabá é uma cidade em que o calor predomina durante mais de 300 dias do ano e, em alguns deles, com tons dramáticos para a existência humana, todos os carros tem ar-condicionado, boa parte do transporte coletivo é refrigerada e quase todos os locais de trabalho tem um desses aparelhos, ou pelo menos grandes ventiladores que irão aliviar um pouco a agonia existencial provocada pelo calor. Desta forma, sofre-se com o calor no trajeto entre o carro e os locais, ou em eventuais caminhadas ao céu aberto.

Cheguei ao meu trabalho e observei o céu sem nenhuma nuvem. A chuva absurda da madrugada parecia ser alguma lenda, talvez um sonho. Só precisei sair do ar condicionado na hora do almoço. Caminhei até o restaurante próximo ao meu trabalho e senti durante o breve trajeto que esse dia iria me render algum câncer de pele no futuro. Imaginei que eu seria um exemplo de reportagem sobre o que não se fazer nessa época do ano. O clima estava tão insuportável que o almoço no obtuso restaurante do Centro Político ficou ainda pior. Mal consegui comer e pensei comigo mesmo que nos próximos dias eu devesse optar por não almoçar, a fome não seria pior do que esse calor.

Na volta ao serviço, o céu continuava absolutamente limpo sem nenhum sinal de chuva, aquela chuva que refrescava um pouco o fim do dia. A volta do almoço é tradicionalmente o momento do dia em que o ar condicionado do serviço mais sofre. Há a sensação térmica terrível após ter enfrentado o sol mesmo que por alguns poucos minutos e há também o fato de que esta é cientificamente a hora mais quente do dia. Cientistas teriam sérias dúvidas em definir se é pior se expor ao sol neste horário ou tomar veneno.

Mas nesta terça-feira a coisa parecia muito pior. O ar condicionado foi reduzido a um mero aparelho de barulho, responsável por aumentar ainda mais a irritação das pessoas que estavam ali trabalhando. O calor parecia uma barreira insuperável e eu sentia o suor das minhas costas em contato com a minha camisa que fazia contato com o encosto da cadeira e provocava um incomodo terrível.

Aproveitei o que restava do meu horário de almoço para ler algumas notícias aleatórias, dessas que você não tem a menor vontade de ler, mas invariavelmente é chamado pelo título, clica para que ela seja aberta em uma nova aba, volta a ler o título na nova janela e percebe que não há nada de interessante nisso. Mas, de certa forma, o ato de abrir a notícia e ler o seu título em uma janela própria é uma espécie de confirmação, um reforço de que aquilo realmente aconteceu. Tudo o que você precisava saber estava no título que já estava lá capa, mas apenas quando a notícia é aberta é que ela parece ser verdadeira.

Perdido no tédio, olhei a previsão do tempo. A tendência em Cuiabá é que o clima ficasse ainda mais quente a cada novo dia. Os cabalísticos 40º estavam se aproximando e é claro, não há nada que pudéssemos fazer para que eles sejam evitados. Talvez esse seja um dos motivos para que o clima seja tão discutido por pessoas que não tem assunto. Nós não temos o menor controle sobre ele em um curto e médio prazo. A ciência já até provou que em longo prazo a humanidade exerce um impacto miserável sobre o clima planetário e que nossas emissões de gases poluentes vão fazer com que tudo fique cada vez mais extremo. Curiosamente, podemos trabalhar para evitar nevascas, tempestades e ondas de calor daqui a 50 anos. Mas não há nada que se possa fazer para evitar a chuva que ameaça cair daqui a pouco, por mais que alguns índios discordem dessa opinião.

Me lembrei das notícias sobre o frio no hemisfério norte e dei um google sobre o assunto. Mais seis pessoas morrem na Polônia, mais vinte na Europa, o número de mortos já supera 80, Moscou registrou temperatura de 30 graus negativos, o que provocou o ano novo ortodoxo mais frio dos últimos 120 anos. O frio matou pessoas nos Balcãs, voos cancelados. Morte, morte, caos.


Resolvi pesquisar também por calor e descobri que Florianópolis registrou sensação térmica acima dos 50 graus. Uma notícia afirmava que este era o dia mais quente em Cuiabá no ano, o que me pareceu um tanto idiota já que estávamos apenas no décimo dia do ano. Não era uma façanha, mas a notícia informava que estávamos quatro graus acima da média histórica de calor nesta época do ano. Calor no rio. Recorde de calor em Campo Grande. Calor em Belo Horizonte. Atores de novela reclamam de calor. Ao que me parecia o mundo estava bem dividido em polos de calor extremo e de frio extremo.

A tarde demorou a passar em meio as reclamações de que o clima estava insuportável. Vez por outra entrava no Facebook e era confrontado por imagens de pessoas que aproveitavam suas férias de janeiro em piscinas, praias, lagos, enfim, em qualquer lugar em que fosse possível banhar o seu corpo em água. O Facebook já é uma rede social baseada na intenção de exibir a existência de uma vida plena e perfeita, mas essas pessoas que estavam mergulhadas dentro de água certamente provocavam uma sensação ainda maior de perfeição. Chegava a ser um pouco humilhante. Diria que ultrajante.

Tenho a impressão de que fui embora do trabalho um pouco mais tarde do que o usual. Estamos no horário de verão e o sol já se põe mais tarde normalmente. Mas neste dia o sol estava tão forte que se alguém por algum acaso caísse em uma espécie de coma sonífero e acordasse às 18h, muito provavelmente ao acordar, ainda atordoado, perguntaria se estava na hora do almoço. A impressão era um pouco a de que o sol jamais iria se por e viveríamos como naquelas cidades próximas aos polos, onde o dia dura alguns meses em algumas épocas do ano. Quando fui ver, já era quase oito da noite quando o céu ganhou sua característica alaranjada de fim de dia. O calor persistia.

Olhei pela janela do meu trabalho e vi que o recém inaugurado parque da lagoa estava praticamente vazio, sem o trânsito caótico que o marcou desde sua inauguração no fim de 2016. Talvez um sinal de que as pessoas já não conseguissem mais sair de casa para fazer nada. O parque tinha uma lagoa, mas essa não era uma lagoa própria para o banho, era muito mais um grande recipiente de dejetos humanos. Passado o breve efeito novidade, não havia motivos plausíveis para deixar o conforto do lar e fazer o que quer que fosse.

O trânsito para casa estava absolutamente tranquilo. Em parte por conta do horário mais avançado, em parte por conta do período de férias escolares que esvazia bastante as ruas das nossas cidades. Mas dentro de mim, criava uma teoria pessoal de que o calor impedia as pessoas de saírem às ruas. Imaginei os bares vazios, seus alto-falantes tocando música sertaneja para ninguém, exceção feita a um bando de garçons que odiavam sua existência mais do que nunca naquele dia. As pessoas não teriam o que fazer fora de casa. Estavam todas petrificadas, magnetizadas pelos seus ares-condicionados, que, antes de mais nada, são uma palavra difícil de acertar no plural.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Entendendo: Reformas do Governo Temer

A palavra reforma está de certa forma atrelada ao atual presidente do Brasil, Michel Temer, e ao seu governo. Em um comunicado enviado a imprensa no fim de 2016, o mandatário nacional afirmou que seu governo não vai parar e que será reformista. Em um encontro recente com empresários paulistas, Temer voltou a bater no peito e dizer que é reformista. Com tantas reformas anunciadas, às vezes fica fácil se perder no meio de tanta informação e é por isso que o CH3 explica do que se tratam algumas dessas mudanças que Temer e sua base aliada julgam tão necessárias para o país.

Reforma Trabalhista
O objetivo é flexibilizar a utilização deste cidadão, fazendo com que ele tenha menos carimbos do que um passaporte
Polêmica reforma defendida, curiosamente, mais pelos empregadores do que pelos empregados, que acreditam que algumas relações precisam ser flexibilizadas para gerar mais renda - para os empregadores. A jornada de trabalho poderá ser maior, horário de almoço menor, férias menores, enfim, claro, desde que o trabalhador concorde com isso em acordos firmados junto aos seus sindicatos. “A convenção coletiva vai definir, desde que seja vantajosa para o trabalhador”, disse o ministro do Trabalho deixando claro que apesar de parecer péssima para o trabalhador, a flexibilização das leis trabalhistas, muito pelo contrário, vão ser ótimas.

Reforma Tributária
A legislação tributária brasileira, informam todos os especialistas no assunto, é extremamente complicada. O Governo Federal pretende, então, encampar uma reforma tributária para que todos continuem pagando a mesmas quantidade de imposto - talvez mais - só que de maneira mais simples. O objetivo é, adivinhem, gerar competitividade estimular o empreendedorismo e a congregação universal dos povos.
O vistoso portal Brasil 247 utilizou esta virtuosa montagem para ilustrar uma matéria sobre o assunto

Reforma do Ensino Médio

Há quase um consenso entre educadores e estudiosos da área de que é preciso mudar alguma coisa nas escolas brasileiras, para melhorar os índices de educação, diminuir a evasão escolar e realmente ensinar alguma coisa para estes jovens multiconectados dos tempos atuais. Há também um consenso de que esta mudança precisa ser amplamente discutida entre todos os profissionais da área, respeitando as necessidades específicas locais, dando amplitude para as mais diferentes opiniões. Infelizmente, o Governo Federal não entendeu desta forma e decidiu que era melhor editar uma Medida Provisória sobre o assunto.

O governo afirma que o objetivo é, adivinhem, flexibilizar seja lá o que for, o que nos possibilita chamar Temer de Michel, o Flexibilizador. Em uma propaganda na televisão, o Governo garante que o objetivo é melhorar a vida da população, apesar das impressões contrárias.

A reforma falha, sobretudo, em não adicionar a grade temas importantes como: utilização do Whatsapp (que deveria ocupar pelo menos metade da grade curricular atual, explicando entre outras situações que: quando você quer falar com uma pessoa, você pode mandar uma mensagem direto para ela, não precisa avisar em um grupo que quer fazer isso e que é infrutífero mandar bom dia para pessoa, esperar ela responder para perguntar tudo bem e só depois dessa resposta entrar no assunto desejado, desperdiçando metade da manhã), utilização das redes sociais em geral (certamente, as crianças tem que aprender desde cedo que mandar imagens de bom dia é um crime hediondo), verificação de veracidade dos fatos e economia doméstica.

Reforma da Previdência
Fila de espera do INSS

Há uma tendência mundial de envelhecimento da população, isso é verdade. Dois motivos basicamente impulsionam a idade média da população: a moderna medicina e os seus tratamentos cada vez mais inovadores que prolongam a vida de homens e mulheres; as pessoas têm cada vez menos filhos e em um médio prazo isso significa menos pessoas em idade ativa. Por isso, entende-se que realmente seja preciso fazer uma reforma, para evitar que pessoas se aposentem aos 55 anos e depois vivam mais 30 anos aposentadas - como é o caso do presidente Michel Temer.

A reforma se consiste basicamente em fazer com que as pessoas que hoje tem menos de 45 anos tenham que trabalhar até morrer para receber o benefício integral da aposentadoria. Ou, se aposentar recebendo menos dinheiro, o que é uma ótima solução, sem dúvida, para diminuir os gastos previdenciários. Em uma série de propagandas na TV, o governo alega que a reforma será ótima para a população, mesmo sem dar nenhuma informação sobre o seu funcionamento.

Reforma Política
Sem dúvida, uma das reformas mais discutidas em todos os tempos e que nunca irá acontecer, porque, entre outras coisas, pode diminuir o número de partidos políticos, encerrando vários postos de trabalho em um momento de crise econômica. Michel Temer disse que apoia a reforma política, sem chegar a dizer que reforma seria essa.

Reforma do Palácio Alvorada
Polêmica reforma que custou R$ 24 mil para instalação de uma tela que visava proteger a vida de Michelzinho Temer - definido como menino muito danado pelo seu pai. Após uma semana na nova casa, a família resolveu voltar para o Palácio do Jaburu, muito mais aconchegante, segundo fontes da família. Temer também classificou o Alvorada como muito distante, mesmo que o lugar fique curiosamente a menos de 20 minutos de caminhada do Jaburu.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Notícias do Tempo (1ª parte)

O calor finalmente havia chegado a Cuiabá. Esta é uma frase estranha de ser dita, uma vez que Cuiabá é notoriamente uma das cidades mais quentes do Brasil e o calor que faz por aqui chega a ser absurdo, surreal, inimaginável para os povos que vivem em outras civilizações.

No entanto, desde o fim de 2016 nós liámos as notícias sobre a onda de calor que invadiu cidades do sul e do sudeste. Parentes do Rio Grande do Sul passaram um natal desesperador naquela terra em que as pessoas não fazem um investimento consistente em aparelhos de ar-condicionado e ventiladores. Turistas assando em Florianópolis. Pessoas passando mal em São Paulo. As praias lotadas no Rio de Janeiro, com direito a dezenas de reportagens de jornalistas engraçadinhos que capricham nos trocadilhos caricatos. Até em Curitiba, vejam só vocês, Curitiba a capital nacional do frio inigualável, até lá estava fazendo um calor imprevisível.


Não que aqui em Cuiabá não estivesse calor, entendam, o calor é um estado natural para nossa espécie. Mas era um calor totalmente suportável, um calor até agradável e surpreendentemente menos quente do que nas cidades do sul e do sudeste. Estava sim é chovendo muito, a cidade enfrentava algumas das maiores tempestades jamais vistas por essas bandas. Andando pela minha vizinhança podia observar todos os meus vizinhos realizando obras estruturantes para evitar que suas residências fossem tomadas por alagamentos. Eu mesmo fiz isso, depois de chegar um dia e encontrar minha sala submersa em dois dedos de água. O gramado da minha casa vivia encharcado. Andava por ele sentido a água espirrando e já era possível perceber a terra por baixo da grama com uma aparência lodosa, como se estivesse sendo tomada por musgos, prestes a apodrecer.

No entanto, do calor nós não poderíamos reclamar. Era possível sair de casa e encontrar as ruas com receptivos 30 graus de temperatura. Passávamos o dia inteiro dentro dos ambientes climatizados em que trabalhamos, estudamos, ou, enfim, sobrevivemos. Quando chegávamos em casa de noite era possível tomar um banho e até sentir um frescor, dormir com ventilador como se nosso clima fosse civilizado. As contas de luz nunca estiveram tão baixas.

Bem esse tempo acabou. Não sei dizer exatamente qual foi o ponto de ruptura, mas deve ter sido na sexta-feira, primeira sexta-feira do ano em que nós nos olhamos e percebemos: estava muito quente. O fim de semana foi bastante sofrido, com pessoas enfurnadas em suas casas, abusando do ar-condicionado, indo aos shoppings centers para não extrapolar a conta de energia. O clima ficou um pouco mais ameno depois que mais uma chuva monstruosa caiu sobre a cidade, criando diversos rios urbanos por lugares onde antes havia avenidas. No domingo, novo dia de calor insano, procedido por mais uma chuva dessas que estão descritas na bíblia, que derrubou árvores, muros, gerou matérias emotivas no jornal matinal.

No domingo a noite o clima estava ameno, mas existia um calor entranhado nos objetos da casa, o que fazia a temperatura ambiente subir. Abrimos a janela para que ele se dissipasse e ainda foi possível dormir com alguma tranquilidade.

Acordei às 6h na segunda-feira para correr, como eu geralmente faço às segundas-feiras. Coloquei minha roupa e calcei meu tênis. Enquanto eu tomava o meu café da manhã, as minhas costas já estavam ensopadas de suor. Olhei pela janela e o sol ardia. O gramado estava finalmente seco e em alguns pontos parecia esturricado, como folhas de alface em um sanduíche quente. Pensei em desistir por um momento, mas acabei dando sequência a minha missão.

Minha expectativa era correr pelo menos seis quilômetros, quem sabe um pouco mais, dando duas voltas pelo trajeto que eu elaborei, passando por algumas subidas e descidas em frente aos condomínios da região em que moro. Em um dia normal, este seria um percurso que eu levaria 40 ou 45 minutos para percorrer, a tempo de chegar em casa, tomar um banho e me arrumar para ir ao trabalho.

Ganhei as ruas e logo após a primeira subida eu comecei a sentir minha testa quente e o suor escorrendo pelas pernas. Meu batimento cardíaco disparou como se eu já estivesse em um trecho final da corrida e eu mal havia completado meu primeiro quilômetro. Prossegui mais um pouco, completei o segundo quilômetro e já sentia que eu não mais corria, apenas me arrastava pelo chão. Mais ou menos na metade do terceiro quilômetro eu desisti, antes de completar a primeira volta. Cheguei a pensar em sentar no chão e lamentei que o teletransporte continuasse sendo apenas um elemento da ficção científica.

Voltei a passos lentos para minha casa, com o coração acelerado e com o corpo envolto em uma ilha de calor. Percebi que eu era a única pessoa que havia saído para correr naquela manhã, sendo que geralmente eu sempre encontro uma dezena de cidadãos se dedicando a atividade física ao ar livre. Lembrei que estávamos no dia seguinte a Corrida de Reis e muitos corredores amadores já haviam cumprido seu objetivo no ano e mereciam um descanso. Mais do que isso, muitos deveriam estar descansando, se recuperando depois de percorrer dez quilômetros no calor infernal que já fazia no domingo de manhã. Deveriam estar se hidratando ainda e não duvido que boa parte da chuva do dia anterior foi proveniente do suor que evaporou de seus corpos.

Cheguei em casa e fui a cozinha para beber dois copos de água. Senti um princípio de dor de cabeça, provavelmente provocado pela desidratação. Fui logo tomar um banho, que teoricamente deveria ser gelado, mas a água saiu morna dos chuveiros, provocando uma sensação desagradável. Sai do banho praticamente seco e me vesti. Percebi no relógio que, como minha corrida havia sido curta, eu ainda tinha uns 20 minutos de folga antes de ir para o trabalho. Liguei a televisão para assistir o Bom Dia Brasil, sempre naquela expectativa de saber se alguém já havia sido preso em uma nova fase da Operação Lava Jato.

Acompanhei as notícias esportivas desinteressantes dessa parte do ano e logo depois o clima pautou o noticiário. Como sou jornalista, sei que as matérias sobre o tempo ganham um destaque extra no começo do ano pela pura e absoluta falta de pautas. Recesso parlamentar, muita gente de férias, nada acontece de muito sério, feijoada. Por isso, assistimos matérias de seis minutos sobre o calor e a chuva, pessoas sofrendo com o suor e com a inundação. Não era muito diferente nesta segunda-feira, mas dessa vez eu até entendia. Realmente o calor correspondia aos atributos da notícia.

O noticiário se deslocou até o hemisfério norte. Os Estados Unidos enfrentavam a maior onda de frio dos últimos tempos. Nova York registrou 15 graus negativos. Um acidente com 20 carros que deslizaram no gelo fechou uma rodovia. Camadas de neve cobriam a Pensilvânia e uma das duas Viríginas, não sei qual delas direito. O repórter brasileiro informava que sentiu sua orelha congelada e se questionava se iria perder ela. Os moradores entrevistados blasfemavam contra o clima. Um deles afirmava que no Brasil é que as pessoas deveriam ser felizes, porque naquele frio ninguém conseguia ser feliz. O gelo provocava lama, que provocava sujeira. A situação parecia mesmo melancólica. O repórter brasileiro até havia aberto a matéria dizendo que os brasileiros estavam reclamando do calor, mas que eles lá também tinham o direito de reclamar. Realmente parecia que tinham.

Na sequência, Cecília Malan entrou direto de Londres utilizando um cachecol que me parecia um tanto quanto exagerado para um ambiente fechado e certamente com climatizado. Ela trazia notícias sobre o frio que também se abatera na Europa. Vinte pessoas haviam morrido na Itália e também na Polônia, quase todos moradores de rua. Londres sofrera com nevascas. Uma daquelas fontes milenares da Itália havia congelado e as imagens mostraram o gelo grudado melancolicamente naqueles pedaços de pedra. Para finalizar até mesmo as ilhas gregas estavam cobertas de neve. Lugares paradisíacos abençoados pelo sol eterno estavam congelados.

Ainda assisti a uma matéria daquele carinha de óculos que é correspondente no Japão, cujo nome eu nunca me lembro, mostrando a situação caótica em Pequim. A poluição havia chegado a níveis jamais vistos e o governo chinês resolveu criar uma espécie de polícia que iria prender civis que poluíssem o ambiente. Nem os churrascos seriam tolerados. O cara de óculos deu uma ênfase muito grande ao churrasco, o que talvez fosse um sinal de crise de abstinência. Não deve haver churrasco bom no Japão. As pessoas lá costumam a comer a carne crua mesmo. O jornal ainda anunciou para o próximo bloco: Alagoas enfrenta sua maior seca nos últimos anos, com imagens aéreas mostrando açudes secos. Calcei os sapatos e fui para o trabalho.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os melhores sambas-enredos de 2017

Neste fim de semana a Marques de Sapucaí será a passarela do samba e foliões do planeta inteiro se dirigirão até a Avenida para ver carros alegóricos aleatórios, fantasias cheias de pluma, referências bibliográficas duvidosas e muitas genitálias. Cumprindo uma tradição recente, o CH3 faz uma análise dos cinco melhores sambas enredos do sagrado/profano ano de 2017.

1) Mocidade Independente de Padre Miguel
Tradicional escola, apartada das conquistas desde que o seu patrono Castor de Andrade veio a óbito. Para este ano, eles tentarão em vão recomeçar uma era de conquistas com o tema “As mil e uma noites de uma Mocidade pra lá de Marrakesh”. O trocadilho maroto do título já antecipa a qualidade do enredo, explicado da seguinte forma pelo carnavalesco da agremiação: “Fizemos do Saara uma passarela, e no reino do Marrocos, o nosso conto transformou minutos em mil e uma noites de alegria e prosperidade, ao vestirmos a fantasia, tecemos um tapete mágico onde desfilaram os sonhos da Mocidade”. O Melhor trecho do samba: “Põe Alladin no agogô, tantan na mão de Simbad. Meu ouvido é de mercador”, uma união de fábulas infantis com instrumentos musicais, fechada com uma afirmação completamente desconexa da realidade.
Na fantasia criada pela Mocidade, Aladdin conhece o índio Papa Capim e juntos criam uma aliança global pelo planeta

2) Beija Flor de Nilópolis
A eterna campeã do carnaval avançará pela passarela com um enredo sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, aquele livro chato pra cacete do José de Alencar que te obrigaram a ler no Ensino Médio e que até hoje é responsável por uma geração de pessoas que acham que não tem saco para a leitura. A letra é uma espécie de resumo simplificado rimado da obra dos quais dois trechos podem ser destacados: “pega no amerê, areté, anama” e “A jandaia cantou no alto da palmeira, no nome de Iracema, lábio de mel, riso mais doce que o Jati, linda demais cunhã-porã iterei, vou cantar jureme, jureme, jureme, vou cantar jurema, jurema. Uma história de amor, meu amor”. Vai pra cunhã-que-te-porã.
Iracema chega na Avenida dançando até o chão

3) Unidos da Tijuca
Escola responsável pela revolução carnavalesca dos últimos anos, ao misturar Michael Jackson com Ayrton Senna e samba, a Unidos da Tijuca desfilará o enredo “Música na Alma, Inspiração de uma Nação”. O tema aparentemente simples, capaz de ser preenchido por qualquer coisa se torna mais complexo uma vez que, por trás da generalidade do título, a intenção da escola é falar sobre um encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong nos anos 60. A partir deste encontro, eles resolvem encaixar todos os ritmos possíveis na letra, incluindo aqueles que não têm nenhuma origem com nenhum dos dois artistas, como a country music e o rock. Destaque para o refrão “Pura Cadência de bambas juntou guitarra e pandeiro”. Eram dois caras que tocavam instrumentos de sopro, não tinha relação com guitarra e pandeiro e além de tudo a letra evocou a expressão “bambas”, sempre devidamente ridicularizada neste blog.
A beleza da mulher em cima de carros alegóricos encantou estes dois famosos artistas


4) São Clemente
Agora a coisa começa a ficar séria. Esta escola que não é conhecida por nenhum motivo específico, resolveu apelar para o enredo “Onisuáquimalipanse” que é uma expressão em francês, ou algo do tipo. O nome do enredo já é ridículo e ele pretende retratar a vida e obra do rei Luís XIV, o rei sol. A letra, narra a trajetória do monarca como se estivesse sendo escrita por uma criança de 12 anos que acabou de aprender sobre o tema no colégio. “Daí então o ministro do tesouro, ergueu a peso de ouro, um palacete e convidou o soberano que encantou-se nos jardins com a beleza se mirando nas águas do chafariz. Foi assim que descobriu nessa festança que havia comilança em sua pátria mãe gentil”, que merda, não.
Réplica do Palácio de Versalhes

5) União da Ilha
Se há uma escola que se empenhou em construir um samba nonsense, cheio de referências místicas e inteligíveis, essa escola é a União da Ilha do Governador. O enredo “Nzara Ndembu - Glória ao Senhor do Tempo”, fala sobre o orixá do tempo e criou a peça literária mais complexa concebida desde o último livro do James Joyce. O começo já é suficientemente épico “Dos bantos nzambi o criador, giram ampulhetas da magia. Salve rei kitembo, nzara ndembu em poesia”. Imagino a arquibancada cantando isso. Ou então, “Sagrada é a raiz nzumbarandá, Katendê, segredos preserva e avermelhou, kiamboté nos fez caminhar na luta entre o bem e o mal, forjou kiuá, senhores sagrados irão celebrar kukuana é fartura, natureza a festejar, ndandalunda a me banhar”. A única coisa que eu consigo pensar sobre isso é: caralho.

A letra ainda cita Nzazi, Kalunga e Matamba, até explodir no refrão que será cantando a plenos pulmões pelo público enlouquecido:
êh êh no girê, êh no girê
macurá dilê no girá
é o tempo de fé, união
o tambor da ilha a ecoar
Nzazi, Kalunga, Matamba, Katendê, Kiuá, Kukuana, Kiamboté, Ndandalunda, Nzara Ndembu e seus bluecaps

Inesquecível.