segunda-feira, 30 de março de 2015

Expectativas para o fim de semana

Para onde vamos? Por que estamos aqui? Por que e para o quê nós vivemos? Questões existenciais são difíceis de serem respondidas e parte da humanidade vai viver uma longa vida sem nenhuma razão específica e vai morrer sem saber a resposta. No entanto, muitas pessoas encontram uma razão para viver e essa razão é esperar pela sexta-feira.

Você acorda segunda-feira e uma preguiça mortal quer te impedir de levantar da cama. Maldita seja a vida que te obriga a sair do colchão em busca de nada. Se você consegue sair de lá, não é porque você tem um ponto para assinar e compromissos para cumprir. É porque há uma sexta-feira no horizonte. Vai demorar um pouco, você vai precisar superar todos os estágios burocráticos que te separam dela (terça, quarta e quinta), com os pontos e trabalhos que farão parte desse cotidiano. Mas a sexta-feira vai chegar. Ela há de chegar. Ela chegará. E é melhor ocupar esse meio tempo com alguma coisa.

A sexta-feira é um balão de expectativas. Nesse dia você sairá do trabalho livre da obrigação de acordar cedo no dia seguinte. Terá dois dias inteiros, 48 impressionantes horas para viver para você. E quanta coisa que você tem para fazer nesse tempo aparentemente interminável.

O fim de semana está chegando e agora, finalmente, você vai arrumar a gaveta de cuecas. Vai se livrar de todas as cuecas antigas, manchadas e com o elástico esgarçado. Vai aproveitar para arrumar a gaveta de meias também. Quem sabe não organiza seus livros e coloca a leitura em dia. Tem aquela revista para ler, aquele romance que há tempos está esperando na cabeceira. O fim de semana está chegando e dessa vez não passa.

Um bom dia também para fazer sua declaração de imposto de renda. Pegar seus comprovantes todos, baixar o programa e enviar os dados para a Receita Federal. Não leva muito tempo.

Para colocar a criatividade para funcionar e atualizar seu blog. Organizar as fotos das últimas férias. Tirar novas fotos. Tirar a bicicleta da parede e começar a pedalar. No parque, na universidade, pelas ruas.

Sair pelas ruas sem destino, ou com um destino inconsciente definido. Encontrar seus amigos e ir naquele lugar que tanto gostam. Comer uma boa comida, beber uma boa bebida e quem sabe pegar a estrada em direção a um ponto turístico aqui por perto. Um bom dia para ir na cachoeira, no rio, no mar, na montanha. Você tem toda a liberdade do mundo nas próximas 48 horas.

Mas o tempo passa e a vida se perde nas miudezas da improdutividade. O Imposto ficou para lá e tudo ficou desorganizado. Tudo permaneceu na garagem e as ruas nem sequer viram seu rosto. Os livros continuam pegando poeira, assim como os teclados. Não dá para saber o que você fez, mas, quando percebe, a TV já está passando o Faustão fazendo piadas grotescas e recebendo um artista datado. Logo começa o Fantástico e é hora de dormir.

A segunda-feira vai começara e maldita seja a vida que te obriga a sair do seu colchão. Ainda bem que a sexta-feira está logo aí.

sexta-feira, 27 de março de 2015

As críticas de Eduardo Escorel

É fácil saber quem é Eduardo Escorel. Todo e qualquer artigo escrito por ele trará sua biografia de diretor, roteirista, continuista, argumentista, montador e faz tudo em filmes clássicos do Glauber Rocha. Ao que tudo indica, ele é uma espécie de homem mais próximo de deus, sendo que deus nesse caso é o próprio Glauber.

Escorel entrou na minha vida, e acredito que na vida de um punhado de brasileiros, por meio da revista piauí (sim, acredito que pouca gente tenha o hábito de ler créditos de filmes do Glauber Rocha. Geralmente, poucas pessoas já os assistem de fato). Uns anos atrás ele começou a assinar um texto mensal sobre cinema e também foi parar na internet em um blog chamado “Questões Cinematográficas”. O texto da versão impressa rapidamente desapareceu, mas suas publicações permanecem na web até hoje.

Suas críticas tem uma característica fascinante. Nunca vi uma que fosse amplamente favorável a um único filme em toda a história. Aqueles que os mais rígidos críticos saem do cinema derramando lágrimas, os blockbuster, as comédias nacionais. Todos são devidamente esculhambados por Escorel.

Aliás, pode ser que alguns filmes já tenham sido elogiados por ele, mas é difícil perceber quando isso acontece. Escorel é um especialista na arte de elogiar destruindo. Os elogios são acompanhados de poréns, de apontamentos sobre diversas falhas que te fazem pensar “porra, como um filme pode ser bom se tem tantos problemas assim”.

Quando um filme é, digamos, verdadeiramente elogiado por ele – isso deve ter acontecido uma ou duas vezes desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, Escorel utiliza termos tão complexos que te fazem acreditar que aquilo é uma merda. Aliás, ele costuma a deixar claro que se você for merdinha inferior e incapaz de perceber a verdadeira arte, vai ficar incomodado. Verdadeira arte que é um sinônimo de filme de Glauber Rocha.

Geralmente é um balde água fria. Você gostou de um filme e o Twitter informa que EE escreveu sobre ele. Aliás, o massacrou. Você descobre que é um verme acéfalo que precisa comer muita merda para ter qualquer capacidade compreender qualquer coisa nessa vida.

Mas, para não dizer que suas críticas apenas acabam com a vida das pessoas, elas (as críticas) podem te ajudar em alguns momentos. Justamente quando você vê um filme que é sucesso de crítica e acha ele uma porcaria e se sente abandonado por não encontrar nenhuma voz de apoio no mundo, recorra ao Escorel. Com certeza ele falou mal do filme e você não vai mais estar sozinho nesse mundo.

E o melhor: ainda vai ganhar alguns argumentos técnicos para destruir o roteiro, a direção, as atuações, a fotografia, o figurino e todas as outras categorias do Oscar

quarta-feira, 25 de março de 2015

Segmentos Televisivos: Culinária

Programas culinários são uma verdadeira febre televisiva. Onde quer que você bata o olho, haverá um canal de televisão com um programa de culinária para você apreciar. Seja do cara que tem mestrado em culinária, o que faz receitas quânticas em um termodinamizador, seja o inglês com língua presa que faz uns pratos inúteis, aqueles vários franceses radicados no Brasil, seja a Carolina Ferraz. Sim, até a Carolina Ferraz tem um programa de culinária.
Vovó Palmirinha: ensinando receitas desde 1610.

Esse post tentará fazer uma análise sobre esse segmento televisivo.

Culinária Prática
Os programas de culinária prática estão sedimentados nas raízes da cultura brasileira. Acredito que a vovó Palmirinha seja a precursora desse tipo de programa, que tem o claro objetivo de ensinar as pessoas a cozinhar um prato diferente para o dia-a-dia, tarefa que parece plenamente alcançável na voz doce e suave de Palmirinha. Ana Maria Braga é discípula direta dela.

O inglês Jamie Oliver também. A intenção do programa é mostrar que qualquer um pode fazer qualquer prato em qualquer situação e ainda ser cool. Ele manuseia os alimentos com gestos rápidos, para dar a impressão de praticidade e no final o prato parece um grande amontoado de comida. No entanto, os cozinheiros da televisão acabam por virar celebridades, dando origem a outro tipo de programa.

Culinária Celebridade
Sem dúvida, a mais popular de todas. Jamie Oliver, com sua língua presa e seu sotaque britânico carregado é um grande exemplo. Mais do que suas receitas, as pessoas são atraídas por sua fala magnética e assistem ao programa para verem sua cara. Ninguém quer saber das suas receitas de rim com rúcula. Assim como aqueles dois franceses que vivem no Brasil. Ninguém quer ver as receitas que o Olivier Anquier descobre viajando pelo interior do país. Querem apenas vê-lo. Talvez preferissem um autógrafo do que uma receita.

E o que dizer do marido da Fernanda Lima e suas receitas que ele aprendeu com a avó? E a Carolina Ferraz ensinando a fazer salada. Ninguém está realmente interessado em seus pratos, apenas em seus corpos.

Culinária Voyeur
Muitos dos programas de celebridades acabam por ser programas de culinária voyeur. Aliás, algo interessante a se dizer é que muitos dos gêneros aqui citados se misturam em vários momentos.

Nesse tipo de programa, existe um fetiche pelos apresentadores, mas principalmente pelos seus pratos – maravilhosos, muito bem dispostos, com talheres requintados e aparência impecável. Você fica ali, babando diante daquele risoto, daquela carne, daquela torta, do bolo de seis andares e muito glacê, sonhando com esse gosto em sua boca. Mas é apenas um sonho. Você nunca vai conseguir fazer aquilo.

Culinária Impossível
Geralmente, toda culinária voyeur é impossível. Mas, nem toda culinária impossível é voyeur e por um único motivo: Felipe Bronze, o mago da cozinha. Dono de um restaurante fodalhão num dos bairros mais fodidos do Rio de Janeiro, Bronze é o responsável por introduzir conceitos quânticos nos mais diversos pratos. Sua preparação é impossível, porque muitas vezes envolve cozimentos na gravidade zero, navalhas ultra afiadas, maçaricos, aparelhos que parecem surgidos na história do Professor Pardal e osmose.

E por que a culinária dele não é voyeur? Porque várias vezes os pratos ficam horríveis, semelhantes ao vômito de um cachorro. Ou então, aquela cena do lendário filme do Peter Pan, em que o saudoso Robin Williams consegue materializar a comida invisível e ela consiste em bolas coloridas.

Culinária Saudável
Confesso que atravessei todo esse mar de lodo, apenas para chegar aqui, na culinária saudável. Porque poucas outras coisas fascinam tanto o ser humano quando a culinária saudável e pouca coisa no mundo pode ser mais inútil. As pessoas ficam vendo aquelas saladas coloridas, aqueles pratos orgânicos e integrais e imaginando que aquilo é bom, sendo que não é.

O exemplo máximo é a Bela Gil, filha do Gilberto Gil (Gilberto tem um gosto exótico para nomear suas filhas).

Em seu programa, Bela Cozinha, ela mergulha no pântano da cozinha macrobiótica, seja lá o que isso significa. Uma culinária saudável ao extremo. Tão saudável, que pode até matar. Ela recebe convidados que, coitados, experimentam seus pratos e precisam segurar para não vomitar em frente das câmeras.

Ok, é bonito, ensinar uma cozinha que vai fazer as pessoas viverem 100 anos, sem gordura, sem hormônios, sem teflon. Mas isso é fácil para a Bela Gil.

Ela mora em uma casa no campo, em que ela acorda com o barulho das cachoeiras, dos galhos de cerejeiras balançando e das asas do beija flor batendo. Ela passa a manhã andando por trilhas floridas, colhendo hortaliças em meio a borboletas coloridas e conversando com esquilos. Em determinado momento, passarinhos pousam em seu ombro, uma luz emana de seus olhos e um pônei cor-de-rosa surge no horizonte.

Ela passa horas batendo couve no liquidificador, cozinhando arroz cateto, centrifugando e moendo os alimentos mais saudáveis do mundo para servir aos seus convidados. Assim, é fácil.

Eu queria era ver a cozinha saudável do cara que mora na periferia e tem que pegar oito ônibus por dia. Que na hora do almoço só tem tempo de mandar qualquer coisa mergulhada em gordura para dentro do estomago. Que tem o fim de semana para resolver sua vida e almoça aquilo que é possível (geralmente, à quilo que é possível). Quero ver qualquer pessoa que trabalha oito horas por dia executando esses pratos. Quem ganha um salário mínimo pesquisando lojas especializadas para comprar os ingredientes caros que ela utiliza. Ai é que eu quero ver a cozinha saudável e Bela.

Fim.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Guia CH3: Como escrever uma nota oficial

Uma nota oficial é um poderoso instrumento de comunicação. Um texto em que uma pessoa se posiciona oficialmente, emite sua opinião, responde ou esclarece uma situação, geralmente uma grande polêmica. Um texto que não pode conter erros, caso contrário, pode provocar falência, descrédito, abatimento moral, crise na bolsa de valores e apocalipse nuclear. Um texto tão sério, que geralmente passa pelo setor jurídico, de comunicação e toda a diretoria antes de ser disparada para o público.

Na última sexta-feira, a Federação Carioca de Futebol (Ferj) – essa sigla não faz muito sentido – divulgou uma Nota Oficial que desde já entra para os anais da literatura mundial. Tão boa que sempre iremos nos referir a ela em maiúsculas. Uma peça textual de conteúdo forte, claro, sublime e ungido. Assim que eu li a Nota, não tive dúvidas que Ela merecia parar no CH3. Que Ela merecia virar um exemplo de como escrever uma nota em um Guia CH3.

Primeiro, precisamos saber o que motivou a nota. Nesse caso, foram as declarações do presidente do Fluminense sobre a Federação, declarações que, com certeza, denegriram a imagem da instituição e fizeram o seu presidente, Rubens da Costa Lopes Filho, espumar de raiva e babar na gravata. Não restou outra alternativa que não fosse confeccionar a Nota Oficial.

O texto começa da seguinte forma:

“Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6.16-19).

Sim, a nota oficial começa com uma citação bíblica. Com um provérbio bíblico. Não consigo imaginar nenhuma forma melhor de começar a escrever uma nota oficial que não seja com uma citação bíblica. Desde o começo você já mostra para o público e para os adversários que Deus está do seu lado. Épico.

Todo e qualquer texto pode ficar melhor se você começá-lo com um provérbio bíblico apocalíptico. Se Luther Kings, antes de dizer que teve um sonho, tivesse dito que “There are six things the Lord hate”, com certeza ele não teria sido assassinado e o apartheid norte-americano seria imediatamente finalizado. Jesus só morreu porque na época dele não existia bíblia para ele poder citar.

Pois bem, após o começo épico, Rubinho – para os íntimos – emite o segundo parágrafo que é o maior momento da literatura mundial desde que os fenícios, ou um desses outros povos, inventaram o alfabeto.

O Presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, em seu nome, em nome da Federação e em nome de todos os filiados que tem sido atingidos pelas aleivosias do Presidente do Fluminense, vem a público manifestar seu repudio à suas declarações eivadas de catatimia, demonstrativas de elevado apreço à mitomania, revestidas de relevante turpitude, indutoras ao uso de anti-eméticos, carregadas de sementes de discórdia, ofensivas a todos os coirmãos e fomentadoras da desagregação.

Leiam de novo. Sim, façam esse favor para vocês. Leiam outra vez. Parem nas palavras que você não conhece e peguem um dicionário, para adicionar conhecimento as vossas vidas. Lastimem que, por mais que vocês tentem, jamais vão conseguir escrever um texto assim. Além de estar com Deus, Rubinho tem um intelecto superior que ninguém jamais vai alcançar.
Por alguma razão, a busca pela palavra aleivosias no Google resulta nesta simpática imagem

O parágrafo começa bem, porque o autor já diz que fala em nome de toda a população atingida pelas aleivosias do presidente do Fluminense. Por isso, ele vem manifestar seu repúdio. Sabe o que são aleivosias? São coisas que provocam repúdio.

“Declarações eivadas de catatimia, demonstrativas de elevado apreço a mitomania, revestidas de relevante turpitude, indutoras ao uso de anti-eméticos”. Não negue com os cabelos das suas axilas de arrepiaram com a maior frase jamais escrita por qualquer ser humano em todos os tempos. Desde Collor falando sobre parlapatões que deblateram no Congresso que não havia nada igual. Certeza que o Rubinho utilizou um gerador de frases aleatórias para chegar nesse ponto.

Eis a segunda lição desta Nota: confunda o leitor no segundo parágrafo. Escreva que as insinuações trepidantes do cataclisma hermético provocado pela disfunção peripatética do adversário contumaz provoca asco hereditário na família cosmopolita de maneira reativa a massuca que fera a malaxofobia anônima. Ninguém vai entender o que você quer dizer e, logo, ninguém vai rebater a declaração.

A Nota não acaba aqui, é claro. Temos um terceiro e breve parágrafo.

A falta de conteúdo pode justificar a falta de coragem e a permanente ausência, mas não podemos acreditar que sejam causadoras de manifestas crises de alucinação moral.

Simplesmente, ele afirmou que o presidente do Fluminense é um merda total, mas de uma maneira que não ofenderia nem uma criança de cinco anos. Eis a terceira lição: ofenda o seu adversário de modo simpático, afirme que ele apresenta contundente desfiguração de caráter, sofre de irremediável imperícia estética e necessita urgentemente de reparos intelectuais pré-uterinos.

O Texto termina com o quarto e último parágrafo.

Por fim não mais convidaremos o Presidente do Fluminense para um debate sobre o futebol do Estado do Rio de Janeiro, mas o desafiamos para que abandone as sombras e os porões, deixe de lado os espetáculos de pirotecnia, saia do escudo da mídia e compareça perante os demais filiados para que apresente e defenda seu ponto de vista, projetos, prove e justifique suas críticas, já que NUNCA teve a coragem de fazê-lo, durante todo o tempo de seu mandato.

Para terminar, um aviso de que o cara não faz mais parte do clube e um desafio: que ele seja homem. Que honre os testículos que ele tem no meio das pernas, algo que ele NUNCA fez. Aliás, esse detalhe estilístico de usar o NUNCA em caixa alta é muito bom. SEMPRE utilize esse artifício em sua nota oficial. Adiciona charme e estilo.

Ou seja, recapitulando sobre como escrever uma nota:
1) Comece com uma citação biblíca
2) Mostre sua superioridade intelectual e confunda o público
3) Humilhe os seus adversários.
4) Anuncie as consequências
5) Utilize uma PALAVRA em Caps Lock no final.

Depois é só assinar.

Rio de Janeiro, 20 de março de 2015
Rubens Lopes da Costa Filho
Presidente

sexta-feira, 20 de março de 2015

Grandes Dúvidas que não têm explicação (23)

Afinal, para o que serve uma CPI?

Sempre que uma CPI surge, ela é amplamente divulgada nos meios de comunicação. Sua sigla já é de domínio público, ninguém precisa explicar que ela significa uma Comissão Parlamentar de Inquérito para saber que vários deputados e senadores vão se reunir em sessões intermináveis no planalto. Tecnicamente elas são criadas, mas acredito que surgir é o melhor termo. Elas simplesmente surgem e vão e vem como as ondas do mar.
Respondendo a Chamada

No começo, as CPIs são mostradas com muito furor. A coleta de assinaturas, a escolha dos representantes, os longos depoimentos, as supostas revelações, deputados com o dedo em riste dizendo que esta casa jamais vai tolerar nenhum abuso, até o total ocaso da investigação e o relatório que não serve para nada e aponta tantas obviedades. Vira a popular pizza. Então, para que serve uma CPI?

Pense bem, o Estado possuí uma série de órgãos próprios para exercer o controle, investigar e fiscalizar as mais diversas situações. Temos a Polícia Federal, as Polícias Civis, os Ministérios Públicos, Tribunais de Contas. Esses órgãos contam com um corpo técnico formado por pessoas que estudaram e se prepararam para exercer essa função. E os deputados?

Temos deputados apresentadores de TV, pastores evangélicos, ex-celebridades, políticos profissionais, médicos, professores de parapsicologia. Qual é a formação deles para investigar quem quer seja? Eles têm capacidade técnica para construir os inquéritos? Uma vez que eles descubram malfeitos diversos durante o processo, o relatório deles tem alguma validade jurídica para levar alguém para a prisão? Não tem.

A CPI é apenas um espetáculo pirotécnico. Desde o processo para colher assinaturas, com as forças trabalhando para recolher ou desaparecer com as assinaturas. Depois as forças trabalham para obstruir, constranger, fazer convocações desnecessárias ou proteger peças fundamentais para o processo.

Quando por um acaso, um deputado é chamado para depor, ele é tratado com tanta reverência, que chegamos a acreditar que ele morreu e as pessoas estão se lembrando respeitosamente dele. Sempre acontece do depoente que resolve não falar nada, resultando no já citado caso do deputado falando “essa casa não vai tolerar nenhum tipo de respeito”, com o dedo em riste e fazendo com seu terno fique muito engraçado.
É disso que eu estou falando
Após toda essa pirotecnia, nada acontece. Ou não. A CPI serve justamente para isso, para ser um espetáculo pirotécnico que nos traga um pouco de diversão durante o Jornal Nacional.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Escolha sua Intervenção

Nas manifestações realizadas no Brasil na última semana, chamou a atenção um número razoável de cartazes pedindo que alguém intervenha no país, para nos salvar do comunismo, ou coisa parecida. A intervenção mais popular é a militar, mas nós temos que ter em mente que existem várias outras opções. Se alguém resolver intervir aqui, precisamos democraticamente escolher a maneira como seremos subjugados e humilhados nos próximos anos. Por isso, o CH3 cita algumas das possibilidades.

Intervenção Militar
Os tanques sairiam dos quartéis do Distrito Federal e ocupariam a Esplanada dos Ministérios. Um a um, os 57 ministros da Dilma capitulariam até os canhões serem apontados para o Palácio do Planalto, onde a presidente teria que escolher entre a renúncia ou a morte. Decisão tomada, os militares interditariam o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal. Em outros estados, os militares também derrubariam os executivos, legislativos e judiciários estaduais e municipais.

Interventores seriam nomeados e um Estado de Exceção seria decretado, inclusive com toque de recolher, para impedir os tumultos. O acesso a informação seria controlado, opositores seriam perseguidos e torturados e veríamos vinte anos de liberdades individuais suprimidas.

Intervenção Divina
Atendendo aos apelos de seu povo, Deus resolveria intervir para tirar o PT do poder. Um dedo brilhante surgiria de um céu nublado e o Lago do Paranoá seria transformado em sangue. Depois, os animais morreriam, sapos invadiriam o Plano Piloto, moscas e piolhos atacariam a população, cairia uma chuva de granizo, feridas se abririam na cara dos petistas, até que, num golpe final, os primogênitos dos petistas morreriam e o povo de Deus assumiria o poder. Marcos Feliciano viraria rei, porque Deus adora uma monarquia.

Intervenção Alienígena
Ao som de uma música brega do Aerosmith, as naves alienígenas, pela primeira vez na história, não invadiriam Nova York e sim Brasília. Utilizando órgãos de igreja em código morse, eles perguntariam pelo líder do país. Seriam levados até Dilma, que seria aniquilada com um raio destruidor. Na sequência, toda a população seria escravizada e utilizada como cobaia nas mais diversas experiências científicas. Humanos seriam confinados e abatidos para servir de almoço extraterrestre. E seria o fim da humanidade.

Intervenção satânica
Belzebu, em pessoa, romperia o piso da Praça dos Três Poderes e o enxofre tomaria conta de BSB. Um tribunal de penitência seria montado e todos os pecadores seriam colocados em caldeirões de água fervente e não sobraria nenhum político para contar história. Orgias seriam realizadas em praça pública e seria criado um sistema de metalcracia.

Intervenção estrangeira
No dia 6 de junho, navios estrangeiros atracariam no porto de Santos, enquanto aviões gringos começariam a sobrevoar o território nacional. Os norte-americanos retirariam Dilma do poder e a enforcariam em um julgamento sumário. O Brasil seria divido em quatro partes, cada uma administrada por uma das potências mundiais. Um muro seria construído para separar a Brasília Oriental da Brasília Ocidental.

Intervenção Gay
Eles iriam implantar a Ditadura Gay, já citada nesse post e que causou tanta revolta no pobre ANTONIO.

Intervenção nudista
Os nudistas do país, que já fazem ações de militância isolada, se uniram e promoveriam uma invasão nudista ao Planalto. Ninguém conseguiria interceptá-los, já que ninguém detém um nudista. Todos ficam com medo de encostar na pingola alheia e assim eles ficam livres. Dilma seria tirada do poder suas roupas seriam tiradas também. O início da Revolução Nudista. Que geraria recessão no setor têxtil, mas aumentaria a venda de protetor solar. Também aumentaria o número de computadores infectados pelo vírus do "Enlarge your Penis".

Intervenção artística
Romero Britto pintaria o planalto com seus quadros abstratos e cor-de-rosa. Uma cadeira seria abandonada no meio da praça dos três poderes. Os extintores de incêndio do Senado seriam postos de cabeça para baixo. Um latão de lixo com lona alaranjada aparecia na porta de cada um dos ministérios. Na praça dos três poderes, um grupo dançaria ao som de um jazz tribal lento e corrosivo. Todas as autoridades do país decidiriam pela renúncia coletiva.

E aí, qual é a sua intervenção? Ligue para o telefone (65) 9952-6269 e dê sua opinião.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A Materialização dos Comentários de Internet

Por séculos a humanidade vem sendo atormentada por uma dúvida cruel: existe vista inteligente nos comentários de notícias na internet? Ainda não foi possível chegar a um consenso, mas uma minoria absoluta tende afirmar que não existe inteligência por lá. Ler os comentários do G1 é uma das experiências mais terríveis pelas quais um ser humano pode passar em sua vida terrena.

Claro, existem pessoas que gostam de ler esses comentários e até sentem um prazer mórbido na experiência. Mas, estas são pessoas estranhas que costumam a ter outros hábitos exóticos, como utilizar penicos, lamber axilas alheias e servir as próprias fezes para os convidados, informando que é um foei gras. E pior, comer as próprias fezes acreditando que é foei gras e ainda comentar que está uma delícia.

Os comentários da internet são uma verdadeira selva virtual, onde cidadãos protegidos pelo anonimato tendem a fazer os comentários mais sórdidos e as ilações mais irreais sobre os assuntos mais banais do nosso cotidiano. Sexismo, machismo e culpabilização do Bolsa Família são temas recorrentes. Pode ser em notícias sobre política, economia ou numa daquelas sobre gatos fofinhos. Sempre haverá um comentários culpando o PT por alguma coisa. Essa é a quarta lei de Nixon.

Por vezes, tendemos a acreditar que essas pessoas nem sequer existem. Não podem existir, não deveriam existir. Nunca as vimos nas ruas, é lógico que elas devem ser fruto da manipulação da Globo de uma ilusão virtual de ótica ou de computadores produzidos nos porões da NSA que querem controlar a opinião alheia sobre o mundo. Essa era uma teoria.

Até este domingo. Desde esse domingo, não dá para duvidar mais de nada. Essas pessoas existem sim e vão para as ruas. Levam cartazes nonsense em que pedem intervenção militar para acabar com a ditadura do PT (?). Usam camisas da CBF para protestar conta a corrupção (?). Somado ao protesto pró-governo da última sexta (Qual é o sentido de ir para as ruas para pedir que uma coisa continue exatamente do jeito que está?) as ruas brasileiras viraram um reflexo das discussões que já vimos no Facebook ao longo dos últimos meses.

E o pior, a discussão do Facebook foi para as ruas e volta para o Facebook e gera notícias que são comentadas e o mundo acaba de descobrir um sistema retroalimetador. E vira um lugar muito pior de se viver. Essa cadeia de acontecimentos jamais irá se encerrar e quando menos esperarmos, estaremos todos soterrados nesse mar de lama de comentários da internet.

sexta-feira, 13 de março de 2015

SACH3 – O Retorno

Paro e percebo: céus, faz um século que eu não publico um SACH3 (Serviço de Atendimento ao Consumidor CH3) comentando os comentários que são feitos nesse blog! Bem, fazer o que se para ter comentários suficientes para um texto eu preciso de um século de comentários. Vamos a eles.

Gethulio dos Reis em: Profissões desgraçantes: Câmera man
Essa 'postagem' foi sarcástica, não?

Não.

Lauren Luz em: The Farsa Voice Brasil
Nem sempre são esquecidos, está ai a Thaemy que participou e foi vencedora de um concurso desses e está sendo conhecida, gravando seus cd's e tudo o mais. Fazer o que se no pais do faz de conta pode tudo né? nós vamos concertar??

Está aí a Thaemy, né? Quem é Thaemy? Onde ela está, de onde ela veio? De qualquer forma, não entendi o contexto do desabafo final sobre a situação do Brasil.

Diversos comentários sobre as redações nota 10 do Enem.
Sobre a da Lei Seca, Lucas Passos afirmou:
Essa redação não tem nada de nota 10, muito pelo contrário, ela está desestruturara, fugindo um pouco do tema central, com expressões do dia a dia, sem argumentos significativos e com muito blá blá blá sem ter apontado nenhuma solução para o problema inicial abordado no tema, ou seja a pergunta: quais os efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil?

Parabéns, Lucas! Você é um garoto muito esperto. Acredito até que você deveria parar de pesquisar redações na Internet.

Já a francinalda silva discorda
Parabéns, sei que não tem nada a ver, contudo, bato palmas pela sua forma de se expressar. Obvio que caso eu fizesse isto, nossa! Meu futuro estaria arruinado. shsuhsushsu. Parabéns, tchauzinho.

Tchauzinho francinalda, boa sorte.

E o David Albuquerque polemiza.
Desculpa!! Mas esse seu "Fuderam" tá errado. Foderam, vem do verbo foder. Eu me fodi tu se Fodeste ele se fodeu Nó se fodemos vós se fodestes eles se foderam Logo se escreve com fOderam.

Pode até ser David. Mas Foderam não tem a expressividade de Fuderam e esse blog sempre estará do lado enfático da vida.

Por último, a Laís faz uma pergunta na sobre Mobilidade Urbana.
nota 10?

Nota 10. DEEEEEZ.

L@UR@ FERN@ND@ em Guia CH3: Como se livrar de visitas indesejadas
EU AMO OS MEUS TIOS BETO E JURA E TIA MARLENE,MAS EM 3 ANIVERSÁRIOS,DESDE 2011-MEUS 30 ANOS,ELES VIERAM PARA MINHA CASA E TEM SIDO BEM CHATO DESDE ENTÃO:EM 2011,CHEGARAM QUANDO EU ESTAVA TOMANDO BANHO E DEPOIS DE ALGUNS CUMPRIMENTOS, FUI TERMINAR DE ME ARRUMAR PORQUE IRÍAMOS ALMOÇAR FORA, ELES INVADIRAM O MEU QUARTO SEM PEDIR LICENÇA.EM 2012,MINHA TIA MARLENE,COMEU QUASE TODA A TORTA-QUE MINHA MÃE HAVIA COMPRADO E ERA PEQUENA E NO ANO PASSADO, ELA SUGERIU DE MANDAR BOLO PARA QUEM NÃO HAVIA VINDO-AS FILHAS DA NAMORADA DO MEU PRIMO-FILHO DOS MEUS TIOS BETO E JURA!! COMO ESSE ANO, MEU ANIVERSÁRIO CAI NO 2º JOGO DO BRASIL NA COPA-17/06, ACREDITO QUE ELES NÃO VIRÃO!!!

Temo que qualquer dia vamos ver uma notícia sobre sobrinha que assassinou tios durante sua festa de aniversário. VOCÊ PRECISA DE AJUDA L@UR@

marcio_augelli.com em Caçadores de Relíquias
mike é casado e frank tb não é gay, e se fossem é problema deles. Se não gostam do programa, mudem para outro ou desliguem.

Eu sempre me surpreendo com o fato de que, a piadinha boba “casal gay” que aparece uma vez discretamente em um parágrafo do texto, ser o assunto mais comentado nesta épica postagem. Quase sempre de gente falando “NÃO ELES NÃO SÃO GAYS, VAI SE FUDER”. As pessoas sempre dão mais atenção aquilo que as interessa.

ANTONIO ROBERTO GONÇALVES em Ditadura Gay
Eu nunca li algo tão ridículo e tão absurdo como esse. Como alguém pode ser tão doentio a ponto de imaginar todas essas babozeiras. O mundo não é nem jamais será isso que o autor deste texto disse, não existe comportamento heterofóbico, o mundo sempre foi e continua sendo machista e preconceituoso, agora querer se passar por vítima escrevendo algo como isso é o cúmulo da insensatez, se sentir ameçado pelos homossexuais o medo de um domínio doentio dos homossexuais achando que os homossexuais seria capaz de uma represália diante de comportamentos desumanos de uma maioria de héteros mal resolvidos, que sentem sua masculinidade ameaçada é muita viadice pro meu gosto. Que perda de tempo em ter lido isso.

ANTONIO ROBERTO: Rezarei por sua alma.

Jessika Francielly em: Formigas Atômicas
Muito bom... Li para algumas pessoas e elas não souberam dizer o que é verdade e o que é ficção neste texto! rsrsrsrsr.....

Obrigado Jessika. Mas é tudo ficção.

Aline Viana em Microcosmo Taxista
Você mudou a minha vida! sempre me perguntei porque os taxistas amam o Maluf. Obrigada.

De nada, Aline.

Jjj em: O incompreendido fetiche por balões
onde compro esses da qualatex q nao acho em lugar algum

Looners deste planeta: o Jjj precisa de ajuda. Ninguém jamais respondeu onde é que ele pode comprar esses malditos balões de qualatex.

Por último, o Viciado em Guaraná em: O Drama da Generalidade
Mas abrir vidro de palmito é uma obrigação moral de todo macho. Não precisa ensinar na escola. Se você é homem, já nasce sabendo fazer isso.

Poderia discordar de você. Mas, como disse, o CH3 estará sempre do lado enfático do mundo e por isso gostamos do seu comentário. Enfático.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Redação Enem Nota 10: Conflitos na Ucrânia

Ao longo deste ano, a humanidade tem se mostrado preocupada com o clima da Ucrânia. Ao que tudo indica, apesar do constante derretimento das calotas polares e do gelo nos topos das montanhas mais altas do mundo, a Ucrânia continua sendo um país bastante frio. O frio continua sendo capaz de gelar os bagos da população de Kiev, Donetsk e tantas outras cidades ucranianas, que ninguém sabe o nome, nem mesmo os próprios ucranianos.

O fato, é que esse frio não impediu que grupos rivais passassem a se digladiar nas ruas do gélido país. Partidários da aproximação com a União Européia e saudosistas soviéticos que preferem laços mais fraternos com a Rússia promovem carnificinas a céu aberto, em uma série de eventos que já derrubou um presidente, fez com que uma parte do país fosse anexada pelos russos, derrubou um avião e gerou dezenas de manchetes no New York Times.

O conflito, mostra, sem dúvida, a face oculta do imperialismo. Um sistema totalitário e brutal que acaba com os sonhos das crianças, que diariamente são dilaceradas por rajadas de fogos impiedosas, vitimando o futuro da nação, diante dos olhos de país incrédulos que não tem tempo sequer para uma despedida porque estão com suas mãos sujas pelo sangue de um sistema opressor que acaba com o que há de melhor na vida. Os líderes mundiais precisam pensar numa solução rápida.

Se o conflito não for encerrado, com certeza veremos a aparição final do anti-cristo, personificado na figura de Vladimir Putin utilizando calcinha fio dental e dançando uma daquelas típicas danças cossacas, côsaco de fora se vocês perdoarem o meu trocadilho. Está descrito na bíblia em uma das suas partes difíceis que isso irá ocorrer e não teremos para onde escapar. Por isso, não é possível tolerar a negligência por parte das grandes potências mundiais.

Por fim, cabe lembrar que a utilização correta do Google em pesquisas não faz parte da grade curricular de nenhuma escola e não está na lista de exigências para nenhuma grande faculdade do país. No entanto, utilizar corretamente os mecanismo de busca da internet é um requisito básico para ingressar na faculdade da vida. Além do mais, os estudantes tem que caprichar na interpretação de texto e análise do contexto. No mundo atual, a redação do Enem é avaliada com uma nota que vai de 0 a 1000. Portanto, uma redação nota 10 não te classificará para nenhum curso de medicina.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Impeachment

Você se lembra o que estava fazendo no dia 29 de setembro de 1992? Eu lembro. Na tarde desse dia eu estava na casa da minha avó no bairro da Morada do Ouro em Cuiabá, enquanto deputados votavam pela abertura de um processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor. Eu tinha cinco anos e entendia muito pouco daquilo, mas lembro que cada um dos 33 deputados que votou contra o processo foi tratado como um leproso.
Naquela época o Congresso já aprontava essas de cantar o hino nacional quando corrigiam alguma merda feita por eles próprios

Lembro que o presidente iria sair depois daquilo e aquilo me parecia um consenso nacional. Collor deve ter sido o presidente mais odiado do país, desde o dia em que bloqueou as cadernetas de poupança e fez com que muitos trabalhadores liberais ficassem sem acesso as suas economias. Era uma medida para tentar bloquear o consumo e consequentemente bloquear a inflação. Medida que fracassou, assim como o governo Collor.

As pessoas foram as ruas pedir sua renúncia, apoiados numa série de denúncias e depoimentos que afirmavam que o político alagoano era beneficiado em um esquema de corrupção, operado por PC Farias. Desviava dinheiro público para fins público e tudo isso foi uma bomba. Collor saiu execrado do poder, entrou com um processo na justiça e anos mais tarde foi absolvido de tudo. PC Farias foi misteriosamente assassinado e Collor virou senador. Hoje, já existe quem diga que Elle foi um injustiçado.

O evento com Collor ajudou o impeachment a entrar na boca do brasileiro. Com seis anos de idades, todos meus colegas sabiam falar a difícil palavra, mas todos nos assustamos quando descobrimos como é que ela era escrita. Palavra que ficou sumida do noticiário nos últimos anos, mas que agora volta com tudo contra a presidente Dilma Rousseff.

Para destituir Dilma de seu mandato, o principal argumento é o caso de corrupção na Petrobrás, associado ao mau momento econômico do país, que segundo os mais gabaritados especialistas, aconteceram por culpa dos erros de Dilma. Curioso é que os problemas parecem que pioraram depois que Joaquim Levy, aclamado pelo mercado como um messias da austeridade, assumiu o comando da Fazenda nacional.
Esse esbranquiçado aí é o cosmos potente do Levy

O governo Dilma no geral é difícil de ser defendido. É uma gestão que parece gastar todas suas energias no jogo político com o mostro fisiológico do PMDB e de toda a base aliada e não tem gás para realizar nenhuma mudança. Para piorar, Dilma é um poço de falta de carisma, mas não vejo razões para que a mulher seja tirada de lá, se não houverem provas de que ela usou o cargo de presidente para obter recursos públicos utilizados em fins particulares.

O pior do movimento de impeachment que ecoa em panelas de teflon em algumas cidades brasileiras, é a absoluta falta de desconhecimento de boa parte da população sobre o processo sucessório. A maior parte das pessoas age como se com Dilma retirada de lá, Aécio Neves assumisse o cargo utilizando uma capa de super herói. Mas não é isso que vai acontecer. Quem assume é o vice-presidente Michel Temer, do PMDB. Depois seria a vez do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também do PMDB, seguido pelo ilustríssimo Renan Calheiros, presidente do Senado e também do PMDB.

Pior ainda são os adeptos da ditadura militar. Imagine um regime que tenha endividado o país, promovido uma série de atrasos na indústria e suprimido direitos individuais da população, perseguindo, torturando e matando seus opositores. Esse regime existiu e existem pessoas que o querem de volta. São pessoas perigosas que utilizam uma retórica muito forte de que se baseia no "eu estou certo e você está errado".

Naquele lendário dia no final de 1992, o futuro não parecia ser tão perigoso como agora.

sexta-feira, 6 de março de 2015

World War Web

“A Entrevista” é um filme lançado recentemente e que eu não vi. Não vi porque ele parece ser uma bomba, sem duplos sentidos. A sinopse, sobre dois caras da pesada que arrumam altas confusões enquanto tentam matar um ditador norte-coreano em um plano sinistro bolado por uma turminha da pesada, é simplesmente terrível. E todas as críticas que eu li, confirmam que o filme é mesmo horrível. Um comentário dizia “e pensar que a terceira guerra mundial vai começar por conta de um Zorra Total Gringo”.

A Coreia do Norte, vocês devem saber, vive em uma ditadura. E como em toda ditadura, os líderes máximos exercem firmemente o culto a sua imagem. Alguns norte-coreanos realmente não gostaram da sátira e invadiram o site da Sony e postaram mensagens antiamericanas, quase um chamado para a guerra. O presidente Barack Obama reagiu e, olha, realmente quase surgiu uma guerra por conta disso. Como os dois países possuem tecnologia nuclear, vivemos um flash back histórico.

Durante uma parte recente da história da humanidade, Estados Unidos e União Soviética dividiam o mundo em dois grandes polos e disputavam qualquer pedaço de terra sem lei, incluindo a lua. Promoviam guerras periféricas e golpes de Estado para alcançar seus objetivos. Os dois se odiavam, mas se temiam por um único motivo: eles possuíam ogivas nucleares que poderiam provocar uma hecatombe que extinguiria a humanidade no estalar de um botão. Por isso era melhor ficar só na ameaça, no famoso late-mas-não-morde, do que explodir tudo. Eis a Guerra Fria.

Com o tempo, a URSS acabou, os russos voltaram a ter relações com os norte-americanos, outros países dominaram a tecnologia nuclear e há quem defenda que só não corremos o risco de um novo conflito mundial por causa dessas bombas aniquiladoras. É melhor partir para a diplomacia.

No entanto, nesses últimos tempos podemos observar que o conflito está partindo do mundo real para o campo virtual. Temos o Estado Islâmico, que pratica seus pequenos genocídios, degola estrangeiros, mas utiliza a Internet para divulgar esses vídeos sanguinolentos. Eles conquistam contas no Twitter para divulgar as mensagens. Seus soldados são @’s e eles deram um novo sentido para a expressão “guerrilha virtual”.

O recente caso provocado pelo filme trapalhão mostra esse lado. Norte-americanos, em retaliação a invasão internética norte-coreana, invadiram sistemas do país comunista. A situação ficou realmente tensa e podemos acreditar que os dois países não partiram para os finalmentes justamente pelas bombas atômicas. Mas, acredito o ditador norte-coreano seja louco o suficiente para não ligar para isso.

A guerra só não acontece agora por conta da internet. Pelo medo da invasão da internet. Se hackers resolverem, eles quebram qualquer criptografia de segurança e invadem milhares de e-mails, contas em redes sociais, conversas de Whatsapp e tudo mais. Os Norte-coreanos poderiam fazer isso com milhares de norte-americanos e divulgar tudo em um Wikileaks da vida. Seria uma tragédia e uma crise que derrubaria todos os governantes. Imagina, suas conversas de Whatsapp expostas?

São reflexos dos novos tempos. Se te dessem a opção de explodir o mundo inteiro com bombas atômicas ou revelar suas conversas no Whatsapp, não tenho dúvida que você preferiria o apocalipse nuclear. Aliás, você e 98% da humanidade. Antes a extinção da raça humana do que essa mesma raça tendo acesso as suas DMs do Facebook.

E é por isso que não teremos uma guerra mundial tão cedo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

As 10 pragas do Egito

A bíblia é, sem dúvida, o livro de ficção mais vendido da história. Uma obra cheia de passagens curiosas, com homens que andam sobre a água, que abrem o mar, multiplicam peixes e fazem cadeirantes andar. Ok, o Novo Testamento ainda tem muito relato histórico, mas o Velho Testamento é uma espécie de precursor do tão aclamado realismo fantástico de Gabriel García Marquez.

Cobras falantes, muito, mas muito ódio, com pais matando filhos, irmãos matando irmãos (aliás, essa é minha favorita: Adão e Eva tiveram dois filhos homens, o que já não era muito razoável se formos pensar em um projeto macro de povoamento do mundo. Um irmão mata o outro e então vai embora de casa. O que ele vai fazer? Povoar o mundo com sua esposa. Mas que esposa é essa, se Adão e Eva eram os dois primeiros seres humanos, criados a imagem e semelhança de Deus, Caim e Abel seus dois únicos filhos? Onde está o Ricardão nessa história?) e uma longa saga que envolve os israelenses e os egípcios.

Uma das passagens mais brilhantes é a que versa sobre “As 10 Pragas do Egito”. Numa breve contextualização, os israelenses haviam sido escravizados no Egito e em determinado momento conseguiram fugir, abrindo o mar ao meio e alcançado a terra prometida. Para conseguir liberar o seu povo, Deus resolveu mandar 10 pragas em um jogo no qual ele fazia com que o Rei egípcio cometesse erros, apenas para justificar as pragas. Sim, Ele não gostava dos egípcios. Mas, qual quer que seja o pecado, a reação foi muito, mas muito desproporcional. Vamos conferir.

1) As águas do Rio Nilo viraram sangue.
O Rio Nilo é famoso por competir com o Rio Amazonas pelo posto de maior rio do mundo. O Nilo leva vantagem na extensão total, enquanto que o Amazonas ganha no quesito maior volume d’águas (Brasil-il-il). O rio nasce em Uganda e deságua no Egito, passando por 10 países e sendo a principal fonte de água em uma região árida do planeta. Então, para libertar alguns escravos, Deus transforma esse rio em sangue.

Olha que sacanagem. Imagina o pessoal que estava de boa tomando um banho no rio e de repente sente aquele gosto de ferro na boca. Deve ter deixado muita gente catatônica. Se para liberar os judeus escravizados, Deus transformou um rio em sangue, o que ele deveria ter feito para liberar os judeus dos campos de concentração? No mínimo, ter transformado o Rio Reno em Guaraná Dolly. Mas ao que tudo indica, ele não se preocupou muito com o Holocausto.

Outra questão interessante é: em que ponto é que o rio se transformou em sangue? Foi todo o rio? Ou foi só a partir do momento em que ele entrou em território egípcio? Se foi o rio todo, foi uma grande sacanagem com os ugandenses.

2) O Egito é invadido por sapos
Se não bastasse ter transformado o maior rio do mundo em sangue, eis que Deus resolve promover uma infestação de sapos. As mulheres devem ter entrado em pânico e acredito que essas duas primeiras pragas já seriam suficientes para fazer qualquer povo pedir perdão. Mas, tem mais.

3) Infestação de piolhos
Cara, o povo já não tinha água para beber e para tomar banho, a cidade está cheia de sapos e você ainda resolve colocar um monte de piolhos na cabeça do pessoal? Aquela puta coceira, aulas suspensas. Precisava? Não, não precisava. Mas, de qualquer jeito, imagino que os piolhos surgiram pela pura e simples falta de banho da população.

4) Moscas atacam a população
Essa era meio inevitável. O cheiro de sangue, a carniça no ar, é lógico que ocorreria uma infestação de moscas. Mas, eis um problema: sapos comem moscas e de certa forma, a segunda praga iria anular a ação da quarta. Um claro exemplo de falta de planejamento.

Morreram. Todos.
5) Uma peste mata os animais
Egípcios adoravam gatos e então esses gatinhos todos morrem. Eles, mais os animais de tração, os animais do campo. Pobres animais que não tinham nada haver com a história. Eles não escravizaram ninguém, sabe-se lá em que condições é que eles viviam. Mas, de certa forma, com um rio transformado em sangue, os animais logo iriam morrer. O fato é: a primeira praga já era sacanagem demais, não precisava das outras nove. Aliás, acho que boa parte delas é consequência da primeira e as pragas divinas foram superestimadas.

6) Feridas na cara das pessoas
Sim, os egípcios foram cobertas por feridas purulentas e aposto que ficaram cheios de bernes de moscas varejeiras. As associações de Direitos Humanos da época deveriam ter reclamado da situação insalubre.

7) Uma chuva de granizo destrói as plantações
Essa foi até leve, não? Se os egípcios fossem espertos, teriam recolhido as pedras de gelo em cisternas para ter o que beber. Mas aposto que eles estavam mais preocupados com outras coisas, como tentar se livrar dos bernes e piolhos em suas cabeças.

8) Chuvas de gafanhotos
Ok, teoricamente deus foi mandando mais e mais pragas porque os egípcios não libertavam os israelenses. E, se eles resistiram até aqui, essa é uma prova de sua determinação. Eu já teria desistido faz tempo. Mas eis então, que gafanhotos começam a cair do céu, numa cena surreal. Paul Thomas Anderson curtiu isso.

Imagina a reação das pessoas na hora quem isso aconteceu? O relato diz que os gafanhotos acabaram com as plantações, mas eu pergunto que plantações, se a chuva de granizo ali atrás já não havia acabado com todas? Existem várias barrigas nesse roteiro. Nesses tempos de responsabilidade fiscal, Deus teria suas contas reprovadas no Tribunal de Contas Divino.

9) Escuridão cobre o Egito por três dias
Ok, nós sabemos que é impossível apagar o sol apenas em alguns lugares. Ou deus desligou a luz do mundo inteiro, ferrando com a vida de civilizações primitivas ao redor do mundo, ou ocorreu o maior eclipse da história (então noticiado no Cairo News como o último em 490 anos). Ou então, as pessoas estavam todas cobertas por gafanhotos e não viram nada. Mas, quer saber? Acho que numa situação bizarra como essa, ficar na escuridão deve ter sido ótimo. O que os olhos não vêm, o coração não sente.

10) Os primogênitos morrem
Veja a perseverança dos egípcios. Os caras chegaram até aqui. Passaram por todas essas provações e seguiram sem liberar os seus escravos (imagino que os escravos ficavam em uma região misteriosamente iluminada e que eles conseguiram outro meio de beber água e que os grilos e sapos não chegaram até lá por uma espécie de campo magnético). Então, Deus resolver matar os primogênitos (Aliás, ele tinha uma tara pela morte de filhos mais velhos).

Não importa se era um arrimo de família que sustentava a mãe viúva e desdentada ou se era um filhinho de faraó que participava de rachas com camelos. Morreram todos. É a justiça divina.

Pois, os egípcios resistiram banho de sangue, grilos, moscas, sapos, apagão total, mas matar primogênito não. Matar primogênito foi demais e finalmente os israelenses foram embora. Não sem antes abrir um mar ao meio, acho que só por ostentação. A essa altura, o povo do Egito já tinha percebido que Deus os odiava.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Flip Chart

Em uma de suas últimas postagens no Café do Feliz, Vinícius Gressana chamou a atenção para um elemento aparentemente oculto do Planeta Terra: o Flip Chart. Por essa e por outras é que Vinícius é um empresário bem sucedido que comanda um site de sucesso e tem milhares de seguidores na internet e no mundo real. O Flip Chart é o principal objeto de convencimento desse mundo.

Caso você ainda não esteja associando o nome ao objeto, eu explico: o Flip Chart é aquela coisa que parece uma prancheta, que sempre é usado em representações de reuniões de negócios em filmes norte-americanos. Aliás, não apenas nas representações. Vocês talvez não estejam acostumados com o mundo corporativo, mas o Flip Chart é usado no mundo real mesmo.

Você pode até dizer que ele ficou para trás, obsoleto, com o advento dos microcomputadores, seguido pelo pacote Office com Power Point e futuramente o Data Show. Quem precisa de uma prancheta vertical quando você pode comandar tudo em um ambiente virtual que não precisa ser rasurado, não gera papel jogado fora, além de ser hightech? Você está enganado.

O Power Point no Data Show não dá à informação a materialidade que é fornecida pelo Flip Chart. Além disso, o PP geralmente conta com fundos lamentáveis (árvores, gotas de água, mar) e efeitos de transição bregas. Sinceramente, ninguém jamais consegue aprovar nada com aquelas letras sumindo e aparecendo, girando, desligando e ligando. Um gráfico no FC é muito mais convincente.

Tudo o que você precisa
Sim, a graça do Flip Chart está em mostrar um gráfico, geralmente mostrando um decréscimo brusco seguido de um crescimento (ou vice e versa) e no interlocutor utilizando uma vareta explicando aquilo ali. Ninguém vai duvidar de você. Todos vão acreditar na sua solução. Não tem como não dar certo.

Muito provavelmente, o Flip Chart é o responsável por algumas coisas que hoje, vistas friamente, parecem ser um tremendo de um equívoco. O holocausto por exemplo. Não duvido de que Hitler tenha chamado uma série de acionistas majoritários da República de Weimar e tenha mostrado um plano cartesiano com o eixo mostrando a relação entre o nascimento de judeus e qualquer coisa. Apontando aquilo ali ele convenceu as pessoas que era preciso provocar um extermínio em massa.

Imagens em satélite? Nada. George W. Bush se convenceu a invadir o Iraque após ver uma apresentação em um Flip Chart com um gráfico qualquer. Poderia ser um gráfico mostrando quantas maçãs o presidente comeu em cada mês do ano, mas não há o que fazer. Diante de um gráfico no Flip Chart, você vai concordar com tudo o que o apresentador falar. Não há, no mundo, nenhuma grande decisão que não seja tomada após uma conferência com essa prancheta.

Por essas e outras, é preciso ter cuidado para manusear o objeto. Como mostra o exemplo do holocausto, Flips Charts colocados na mão de psicopatas podem provocar grandes riscos para a humanidade. Ele só deve ser usado para manipular pessoas visando o bem comum.

É por isso que algumas pessoas tem tentado criminalizar a prancheta. Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei do deputado Geraldo Villela do PDH-RD que aponta para a necessidade de um laudo de sanidade mental para comprar um Flip Chart.

Medidas radicais, sem dúvida, e que precisam ser analisadas com cuidado. O Flip Chart é importante para a humanidade e eu posso te convencer disso. Só preciso te mostrar uns gráficos nele.