sexta-feira, 30 de março de 2012

Parabéns para você: uma análise histórica

Durante boa parte de sua existência neste planeta, a humanidade conviveu com a dificuldade de saber quando alguém fazia aniversário. Lembrar-se de todas as datas de aniversário dos seus principais amigos e parentes era uma atitude ninja. Você teria que ter acesso à informação privilegiada, ou teria que fazer a pergunta pessoalmente e depois anotar a resposta em um bloquinho. Convenhamos que não é muito normal chegar em alguém e falar “e ai, nasceu quando?”.

Quando alguém se lembrava do seu aniversário e lhe parabenizava espontaneamente, era uma verdadeira prova de amizade. Quando a lembrança era recíproca, podemos dizer que estaríamos diante de um pacto de sangue. Mas, aos poucos isso mudou. Se em tempos remotos, as pessoas mal sabiam a data em que haviam nascido, com o advento do Orkut, parabenizar alguém se transformou no mais banais dos atos. Mais banal do que manter relações sexuais, consentidas ou não, no Big Brother.

Aniversário no Orkut
Aqui, vale lembrar que o Orkut era uma rede social baseada no tripé: data de aniversário, depoimentos emotivos e crises de relacionamento provocadas por scraps sacanas, fruto da falta de informação de algumas pessoas que acreditavam que os recados só podiam ser lidos pelo dono da conta. Sim, as datas de aniversário ocupavam o lugar de destaque da finada rede, era a primeira coisa que você via tão logo preenchia os campos de acesso e dava enter.

Assim sendo, quando o seu aniversário chegava, você recebia uma enxurrada de felicitações. Sua mãe, sua namorada, seu melhor amigo, seu colega de faculdade, aquele cara que estudou com você na oitava série, aquela menina da outra turma com quem você nunca havia falado, a ex-namorada do seu primo, aquele cara que, por céus, você tenta mas não consegue se lembrar de onde é que conhece ele, enfim, todos lhe desejavam os mais sinceros e profundos parabéns. Que você realize todos os seus sonhos, que você seja muito feliz hoje e sempre porque você é especial e você merece cara. Sim, você merece porra.

O aniversário deixava, então, de ser um evento no qual você convidava as pessoas e torcia para que elas comparecessem em um número suficiente para aparecer na fotografia. O aniversário passava a ser um evento em que as pessoas se autoconvidavam, insistiam para que você fizesse algo. Ficávamos todos extremamente envaidecidos e nos sentíamos importantes.

Então, o Orkut morreu e o Facebook surgiu de suas cinzas, tomando para si uma herança maldita de mensagens motivacionais. No entanto, na Era do Facebook, os aniversários perderam a importância outrora adquirida.

Piquenique com os amigos
Talvez porque o Facebook não dê o destaque necessário para o aniversário de seus usuários. A notificação aparece discretamente em um canto de página, ao lado das solicitações para usar algum aplicativo inútil. Muito mais importante, é mostrar que quinze amigos seus já curtiram o Luciano Huck e suas palavras de sabedoria universal.

Também é possível que o abuso do Orkut tenha provocado uma banalização das congratulações aniversariantes. De tanto receber parabéns esvaziados as pessoas adquiriram uma passividade diante do aniversário alheio. “Aniversário do Marquinhos? Foda-se. Hoje é ele e amanhã é outro. Ano que vem tem de novo. Azar dele que está ficando mais velho, maldito”.

O fato é que nos tempos atuais, os aniversários estão sendo cada vez menos parabenizados. Observo aniversariantes de todas as idades, todas as cores, todas as classes sociais, orientações sexuais e pedagógicas. Vejo que todos sofrem hoje com mirradas congratulações. Prevejo um futuro de baixa-estima para o nosso povo, o que pode acarretar em uma redução dura e literal do número de aniversariantes.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Blitz da Lei Seca


Nesta última madrugada, o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Luiz Antônio Verker Menezes, foi pego durante uma blitz da Lei Seca. Mano, como é conhecido, teria se recusado a realizar o teste do bafômetro e também dirigia sem a sua habilitação. Pelo seu erro, ele recebeu uma estrondosa multa e é provável que perca os direitos de dirigir, o que poderá resultar em sua saída do comando do escrete nacional.

No dia 9 de fevereiro, o striker Adriano também passou pelo mesmo problema. O ex-jogador Leonardo, o namoradinho do Brasil Bruno de Lucca, Daniele Winnits, Aécio Neves, Renato Gaúcho, Sandra de Sá, Maitê Proença, Boninho, Dado Dolabela, Índio da Costa, Boninho, Eri Johnson, Elimar Santos, Carolina Ferraz, Vanderlei Luxemburgo, Seu Jorge, Toni Garrido, Caio Castro e Sérgio Mallandro já tiveram problemas com as Blitz da Lei Seca.

Como se pode ver, a Blitz da Lei Seca não perdoa ninguém. Futebolistas, ex-BBB, atores, comediantes, reles mortais, todos podem ser pegos durante as ações policiais. O curioso, é que em muitas dessas ações, os delinquentes não estavam necessariamente alcoolizados. Sim, existem aqueles que estouraram ou recusaram o bafômetro. Mas, boa parte das infrações foi cometida por erros bobos: falta de carteira de motorista, falta de documentos dos carros, falta do licenciamento, falta do lacre na placa.

Enfim, a Blitz da Lei Seca não ocupa exclusivamente a função de punir aqueles que não a seguem. Ela funciona praticamente como uma instituição, responsável por autuar qualquer delito. Pode parecer um desvio de função. Pode parecer uma atitude de marketing. Se um famoso fosse detido na Blitz do Licenciamento Vencido, ninguém noticiaria. Agora na BLS não. Você já imagina o senador trôpego e esquecendo o próprio nome devido a cachaça.

Críticas à parte, eu acho que a Blitz da Lei Seca deveria ser melhor aproveitada em nossa sociedade. Ela já vem demonstrando nos últimos anos que é o maior instrumento da legalidade no território brasileiro. Acho que Ela deveria ser utilizada em outras situações, seria muito bom para resolver vários problemas da nação.

- Durante Blitz da Lei Seca realizada no Congresso Nacional, oito deputados foram detidos. Eles se recusaram a soprar o bafômetro e a Polícia constatou que eles estavam envolvidos num escândalo de superfaturamento de licitações para o fornecimento de comida a crianças carentes.

- A Polícia Militar do Rio de Janeiro realizou uma Blitz da Lei Seca nas sedes das Torcidas Organizadas de São Paulo. Ao total, 189 torcedores foram detidos por envolvimento em brigas de rua, tentativa de lesão corporal e homicídio. Eles também levarão 7 pontos na carteira por terem se recusado a soprar o bafômetro.

Ele não teve reação
- Durante uma Blitz da Lei Seca no Centro de Treinamento do Flamengo, a Polícia Militar organizou a defesa da equipe e multou dois jogadores, que se recusaram a soprar o bafômetro.

- A Blitz da Lei Seca reescreveu o último capítulo de Fina Estampa e multou o diretor Aguinaldo Silval em quase mil reais, por ter se recusado a soprar o bafômetro.

- A Polícia Militar encerrou um post do CH3 durante a Blitz da Lei Seca. Na ocasião, um cachorro sem braços foi multado por se recusar a soprar o bafômetro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Razões para postergar


Sempre, em qualquer momento, existirá uma razão para postergar suas tarefas.

Postergar o Poltergeist
Segunda-feira: Relaxa é começo da semana, ainda tem tempo. Todo mundo ainda tá meio devagar hoje, dá pra fazer amanhã.
Terça-feira: Calma, semana começou ontem, ainda tem bastante tempo.
Quarta-feira: Sabe como é, quarta-feira, semana ainda tá na metade.
Quinta-feira: Fica tranquilo, amanhã ainda é sexta.
Sexta-feira: Poxa, sabe como é, semana acabando, não adianta nada fazer agora, todo mundo só vai ver as coisas na segunda-feira.

As razões postergadoras também podem ser utilizados para os meses do ano.

Janeiro: Calma aí, o ano tá só começando, muita gente de férias, é difícil fazer agora.
Fevereiro: Pô, tem o carnaval no meio que complica tudo, tudo para, não vai dar pra fazer.
Março: Cara é época de quaresma, muita gente se dedica a religião agora, melhor deixar para depois.
Abril: Rapaz, agora tem a Páscoa, não dá pra fazer. Depois ainda vem Tiradentes.
Maio: Poxa é o mês do trabalhador, começa com um feriado, sabe como é. Além disso, é mês das noivas, muita gente envolvida em casamento, não vai dar.

Junho: Deixa pra depois cara, aproveita que é São João!
Julho: Férias escolares… realmente não vai dar.
Agosto: Sabe como é… Agosto é o mês do cachorro louco, melhor não fazer agora.
Setembro: Depois do feriado da Independência a gente vê.
Outubro: Cara, tem o feriado ali no meio, acho que não vai dar.
Novembro: Acho que depois do 15 de novembro, a gente senta e faz... hmm, mas ai tem o dia de Zumbi, sei não.
Dezembro: Pô, final de ano, todo mundo preocupado com as festas do fim de ano, as férias. Quando o ano começar a gente vê isso aí.

Imagens aleatórias de gostosas aumentam o índice
de atenção dos leitores
Também existem as muitas outras razões cotidianas.

“Cara, o Chico Anysio morreu hoje. Era muito fã dele, acho que não vou ter forças para fazer”.
“O Corinthians joga hoje na Libertadores. Já estou na expectativa aqui, não vai dar”.
“Rapaz, com essa crise do Euro, eu não tenho vontade pra fazer nada. Olha a imagem desses protestos cara! Tenho que acompanhar isso aqui”.
“A Nicole Bahls está com vaginite cara… pra você ver… acontece com qualquer um”.

Pois bem, a razão para eu não ter postado hoje é que eu estou viajando, sabe como é, não ia ter tempo. Peraí, isso não é um post? Veja você, as maravilhas da possibilidade do agendamento de postagem.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Costumes Superados

Nós sempre temos o hábito de olhar para o passado de maneira grandiosa. Temos a tendência de observar o mundo com olhos de Carlos Nascimento e pensarmos que já fomos mais inteligentes. Mas, nem sempre isso é verdade. Não quero aqui bancar o Roberto Carlos, mas é verdade que o mundo melhorou em alguns aspectos. Felizmente, com o passar dos anos, nós já abandonamos alguns hábitos chatos.

Imagine que você está dormindo no conforto do seu lar. De repente, você começa a escutar uma voz te chamando pela janela. Claro, o mais provável é que você se esconda debaixo dos lençóis e finja não estar em casa, com medo de um sequestro. Mas, você olha pela janela e vê um pretendente. Ele começa a cantar: “Seus olhos e seus olhares, milhares de tentações. Meninas são tão mulheres, seus truques e confusões se espalham pelos pelos¹, boca e cabelo”.
Chicos pierto de una mujer

Não, não é uma pegadinha do Mallandro. É uma serenata. Este hábito felizmente abandonado na sociedade contemporânea, já foi uma prática comum entre os amantes da antiguidade. Naquela época, parecia ser uma boa ideia acordar uma pessoa de madrugada, cantando uma série de músicas românticas.

Imagino que vários fatores encerraram o ciclo da serenata. O principal, é que as pessoas trabalham hoje em dia e não podem ficar vadiando de madrugada. Outro, é que antigamente as casas eram gigantes, então uma serenata na sacada do quarto da filha não seria percebida por mais ninguém. Hoje, você acordaria o pai e a mãe, os vizinhos. Toda sua ação seria filmada e colocada no youtube, inclusive o linchamento ao qual você seria submetido por acordar os vizinhos de madrugada.

Aliás, morar em castelos é outro hábito felizmente deixado para trás. Símbolo da opulência e da ostentação, morar em um castelo sempre me pareceu extremamente chato. Não deve ser legal olhar no Google Maps para encontrar o melhor caminho entre seu quarto e a cozinha. Além disso, de tão grande, dentro dos castelos moravam uma série de pessoas que você nem conhecia, parentes, amigos dos primos. Um monte de gente que não limpava um prato, não pagava uma conta e ainda organizava orgias dentro do estabelecimento.

Ele não percebeu que a colcha estava
presa no ombro
Um dos mais deploráveis hábitos que as pessoas de antigamente tinham, era o uso indiscriminado de perucas. Sim, hoje as pessoas ainda usam perucas, mas com outros objetivos. Hoje, quem usa peruca é porque não quer ser conhecido como “aquele careca bilionário” e sim como “aquele bilionário que usa peruca”. Antigamente não, as perucas também eram símbolo de poder.

Tudo bem, todo e qualquer elemento do vestuário da época é simplesmente vergonhoso. Mas a peruca é a cereja do bolo, aquilo que acaba de vez com a reputação de toda uma época. Imagine se o Lula, ao ser eleito presidente tivesse que usar uma peruca dessas? Duvido que ele seria reeleito ou que conseguiria fazer o seu sucessor. A Revolução Francesa, somente aconteceu porque o povo não queria mais um governante de peruca. O problema é que os revolucionários também as usavam, o que possibilitou a ascensão do desperucado Napoleão.

Aliás, um pouco mais recente, mas também detestável, o hábito de usar ternos em toda e qualquer situação foi abandonado. Em toda e qualquer foto do começo do século XX, nós vemos as pessoas de terno. As pessoas andavam na 13 de Junho em Cuiabá de terno, gravata e chapéu, ainda por cima. O abandono do terno é a principal razão para o aumento da expectativa de vida nos tempos atuais.

Aliás, naquela época, todo mundo sempre aparecia em fotos posadas. O que dizer da época em que as pessoas precisavam fazer toda essa pose para tirar fotos? A mulher segurando os ombros do marido, as criancinhas de fraque.

Juventude Bonita


Mas, sem dúvida o pior de tudo eram as privadas coletivas. Sim, você não tinha aquele espaço pessoal para realizar suas necessidades. Elas eram feitas em grandes lugares ao ar livre, onde todos podiam quebrar um paradigma em conjunto, batendo altos papos filosóficos. E olha que, na época, isso era um avanço para o saneamento básico.

Bem, talvez não seja o pior. Lembrei-me que até pouco tempo, era normal utilizar o Sérgio Mallandro como galã em filmes da Xuxa.

¹Observação: Parabéns, reforma ortográfica.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sacrifício Inútil (e extenso)

O despertador toca. Você acorda assustado e percebe que ainda é de madrugada e amaldiçoa o despertador. A ficha cai. Começou o horário de verão. Os relógios são adiantados em uma hora e o pior dia de nossas vidas começa. Seu sonho de estar pelado na escola é interrompido e você tem que ir para o trabalho uma hora mais cedo. Sei de pessoas que choram nesse momento.

Mas você sobrevive e vai se acostumando. Em pouco tempo, passa a achar que sempre viveu neste horário. Até que em um belo dia o horário de verão acaba. Você passa a ter a impressão de que está saindo mais tarde do trabalho, se sente com fome em horários inadequados. Os malefícios podem ser superestimados, mas é verdade que o horário de verão bagunça um bom tempo do seu ano.

Na primeira segunda-feira após o final do horário de verão, o jornal exibe aquela matéria, tão clássica quanto à matéria sobre o que fazer com os seus filhos em casa durante as férias. Uma espécie de balanção do Horário de Verão. Orgulhosamente, o apresentador informa que durante os quatro meses do horário de verão, Mato Grosso economizou 50 mil megawatts, o suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Chapada dos Guimarães por duas semanas.

É sério isso? Que fizemos esse sacrifício todo? Que estabelecemos toda essa mudança em nossas rotinas, colocando em risco a nossa saúde? Que tivemos que passar por essas duas bruscas adaptações hercúleas em nosso cotidiano? Tudo isso apenas para abastecer Chapada dos Guimarães durante duas semanas?

Não vale a pena. Não, não vale. Seria muito mais fácil deixar Chapada dos Guimarães sem luz elétrica durante duas semanas, já que a economia seria a mesma. Pense bem, poderiam aproveitar o inverno e fazer um projeto turístico: passe duas semanas rústicas em contato extremo com a natureza.
Um contato rústico com os prédios
Ou então, poderíamos fazer um rodízio entre cidades do mesmo porte de Chapada, como Canarana, Poxóreo, Comodoro. Cada uma ficaria sem luz elétrica durante um dia inteiro. Seria um impacto de um dia na vida de 250 mil pessoas. Bem melhor do que alterar a rotina de 3 milhões de pessoas durante 100 dias. Seria um sacrifício dessas cidades por um bem maior.

Existem alguns sacrifícios que realmente não valem a pena. É igual quando os médicos falam que para viver até os 80 anos, você tem que manter uma dieta rica em fibras, cortando açúcar, sal, gordura, cafeína, glúten, carne vermelha. Mas para que alguém vai querer viver até os 80 anos sem comer nada disso? Não vale a pena viver um ano sem churrasco, imagine 80 anos.

Ou aqueles caras que ficam montando castelos de cartas. O cara fica dois anos concentrado, sem ir ao banheiro, para construir a nova pirâmide de Quéops utilizando baralho suficiente para abastecer partidas de truco na Universidade durante oito anos. Pra que? Porque? Alguém espirra e o negócio caí.

Ou durante uma partida de xadrez. O cara fica dez minutos olhando o tabuleiro. E então, mexe um peão. Você se pergunta porque? Porque? Porra, pra mexer um peão ficou dez minutos! Ahhhh!

(Post interrompido. O autor foi detido pela polícia mental e será lobotomizado em breve).

segunda-feira, 19 de março de 2012

Entendendo: O Beach Soccer

Existem alguns saudosistas que dizem que o hoje malfadado Beach Soccer, ou futebol de areia, já foi um esporte interessante. Lá pelos idos de 1952, as partidas disputadas na praia de Copacabana apresentavam um nível técnico altíssimo, com os melhores jogadores do planeta. O atual time do Barcelona teria que assistir a partida do outro lado do calçadão, porque só os bons poderiam pisar na areia.

Craque do Bitch Soccer
Hoje em dia não é assim. O Beach Soccer consiste em um das mais irritantes práticas esportivas do Planeta Terra. Em quase todo final de semana, nós vemos os craques brasileiros desfilando sua arte pelas praias cariocas nos mais diversos desafios empolgantes. Ontem mesmo o Brasil conquistou a disputadíssima Copa América.

Você pode perguntar, o que fazem os jogadores Beach Soccer quando não estão defendendo a seleção brasileira? A resposta é simples: nada. Eles simplesmente jogam na praia, o tempo todo. O difícil é saber como alguém consegue ingressar na seleção de futebol de areia, se eles passam por um processo seletivo ou algo assim. Ainda mais, porque os cargos são vitalícios. Metade do time que foi campeão ontem, também esteve presente na histórica conquista do Mundial de 1988.

Acho que a overdose de futebol de areia surgiu quando a Rede Globo, sempre ela maldita, criou os Jogos Mundiais de Verão. Uma maneira de sobreviver ao período de recesso do futebol brasileiro, quando não é possível distribuir bonecos retardados para jogadores microcéfalos. Os JMV não continham apenas o futebol de areia, nós também poderíamos ver desafios de ciclismo, skate ou qualquer porra na qual seja possível soltar aquela vinheta de Brasil-il-il-il.

Mas o futebol de praia é o destaque. Sabe como é, verão é sinônimo de praia. Pode não ser no seu dicionário, mas é no livro da vida. Como o Brasil tem o maior litoral do mundo, e é um dos lugares em que as pessoas mais jogam futebol, o Beach Soccer nos oferece a oportunidade clarividente de assistirmos os nossos conterrâneos humilhando estrangeiros. Para isso, foi criada uma indústria de competições.

Sul-americano de Futebol de Areia: Como o nome já diz, competição que reúne a nata do futebol de areia do continente.  Países como Paraguai e Bolívia mandam seus escretes para ver a praia pela primeira vez e acabam dizimados pelo Brasil. Disputado anualmente na praia de Copacabana, o Brasil é o maior vencedor do torneio, com 18 títulos em 18 edições.

Copa América de Futebol da Areia: Aqui nós separamos os meninos dos homens. A competição reúne outros países da América e do Caribe. Os brasileiros ganharam as nove edições disputados alternadamente em Copacabana e Ipanema.

Copa Lusofonia: Os craques brasileiros enfrentam incríveis adversários que também falam português, como Portugal, Angola, Moçambique e aqueles outros países que nós nunca lembramos. O torneio oferece o desafio de enfrentar um adversário que fala a mesma língua que você, sem barreiras. Nós ganhamos as 12 edições do torneio, inclusive uma disputada excepcionalmente no Guarujá.

Copa do Mundo de Beach Soccer: A nata do Futebol de Areia mundial disputa um torneio equilibradíssimo com os melhores de cada continente. Em 14 edições disputadas na praia de Copacabana, o Brasil ganhou 14.

Mini Copa do Mundo de Beach Soccer: É como se fosse a Copa do Mundo, só que com um formato reduzido. O nível técnico é excepcional, já que temos a presença apenas do crème de la crème do esporte. O Brasil conquistou as 29 edições realizadas nas duras areias do Leblon.
Seleção campeã do histórico Mundial de 1976

Mundial de Beach Soccer: Parece que é a mesma coisa da Copa do Mundo, só que existem algumas diferenças, que apenas os inteligentes percebem. O Brasil conquistou todas as seis edições, inclusive uma disputada em Lisboa, derrotando os malditos português, lá na casa deles. Chupa Cabral!

Mundialito de Futebol de Areia: Torneio que conta com a participação de grandes nomes da nobre arte, que vem até o Brasil prontos para o abate. O Brasil foi o campeão da edição da semana passada e promete vir forte para edição do mês que vem.

Copa Latina: O diferencial dessa competição é a latinidade, que oferece toda uma carga dramática. Enquanto eu escrevia esse texto, o Brasil conquistou o octacampeonato invicto.

Grande Troféu Ney Latorraca de Futebol de Areia: Torneio disputado na casa do ator Ney Latorraca, na praia do Leme.

Desafio Internacional: Todo ano, na praia de Copacabana, a seleção brasileira recebe uma grande seleção estrangeira para um duelo de vida ou morte. Em 89 partidas, a seleção brasileira ganhou 90. A Polícia Federal investiga se o Beach Soccer é praticado em outro país do mundo, que não seja o Brasil.

Nos últimos tempos, o futebol de areia tem enfrentado um grande adversário: o showbol. Um esporte que fica no meio termo entre o futebol, o squash e a bocha, e que tem conquistado o público com barrigas sobressalientes. O showbol segue o ímpeto do Beach Soccer em criar torneios aleatórios. Ele ainda tem a vantagem de possuir clubes, o que possibilita a criação de campeonatos municipais, mesorregionais, estaduais, regionais, nacionais, internacionais e interplanetários.

Para que ambos sobrevivam, é provável que o Beach Soccer, devido ao seu aspecto caliente, tenha que se restringir ao verão. Já o showbol, graças ao seu cenário indoor, sobreviverá no inverno. Ou no inferno mesmo, os dois.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Deixe seu recado após o sinal

Vez por outra, surge algum novo objeto em nosso cotidiano que carrega em si o paradigma da modernidade. Um objeto que deixa sua simples condição e assume toda uma simbologia. É o caso da agenda eletrônica. Em 1996, a agenda eletrônica era o melhor presente que você poderia dar para alguém. Mais do que um aparelho funcional, você fornecia um mundo novo. Com uma agenda eletrônica, você finalmente deixaria para trás o mundo das trevas. Era como aprender a andar novamente.

Era assim também com os aparelhos de fax. Quando ele foi inventado, creio que os seus inventores se abraçaram com os olhos marejados. Colocaram Cidra em taças de cristal e brindaram a maior invenção da humanidade, invenção que jamais seria igualada.

Mas, eles sumiram repentinamente. Por mais que aparelhos de fax ainda sejam utilizados – sim, acredite – tanto o fax, quanto a agenda eletrônica, não marcaram seus nomes na história da humanidade. O advento do celular e da internet eclipsou as duas invenções, antes que elas pudessem ter dominado o nosso cotidiano. No futuro, ninguém se lembrará do fax, igual nós nos lembramos do telefone.

E ai, eu falo sobre a secretária eletrônica. Uma invenção dos anos 80, que por tempos significou o domínio do homem sobre a natureza. Você ligava para alguém e, se este certo alguém não estava em casa, ou não queria atender o telefone, você poderia deixar uma mensagem na secretária eletrônica. Quantos filmes não têm a clássica cena do homem chegando e casa e conferindo a secretária eletrônica, em busca de alguma mensagem nova? Conferir a secretária eletrônica era o equivalente ao nosso checar o Twitter.

A ideia da secretária eletrônica ainda existe. Sim, quando você telefona para algum celular e o infeliz não atende, você tem a possibilidade de deixar uma mensagem de voz. Mas, convenhamos. A literatura universal desconhece qualquer caso de pessoas que deixem mensagens de voz nesses casos. A polícia federal jamais registrou uma situação em que alguém tenha escutado alguma mensagem deixada. Até porque, escutar uma mensagem de voz consiste em uma missão impossível.

Mas, nos áureos tempos da secretária eletrônica, não existia essa frieza robótica. Creio que a grande graça do aparelho e o que faz com que ela seja mais lembrada que a agenda eletrônica, são as mensagens que o proprietário do aparelho deixava.
- Oi, você ligou para o Émerson. No momento eu não estou em casa, mas você pode deixar o seu recado.

Essa era a maneira mais formal de comunicar a ausência. O nervosismo com a gravação, fazia com que sua voz soasse igual ao robô do número certo. Mas muitas pessoas optavam pela descontração.
- Oi, você ligou para o Dani…
- … Para o Joey…
- E para a Cris!
(Todos em coro: eeeeeeeeee)
- No momento, nós não estamos em casa.
- Au, au
- Opa, o Tommy está
- hahahah
- Mas, como ele não atende o telefone, deixe o seu recado que nós vamos retornar.
- Tchau!
- Yeeee.

Eram grandes momentos colaborativos em família. Imagino que o patriarca reunia seus filhos em volta da mesa de jantar e eles planejavam o roteiro da mensagem da secretária. Só jantariam depois que a mensagem estivesse gravada. O bom-humor era fundamental. Ter uma mensagem de secretária eletrônica séria, faria você se transformar em um loser, vítima preferencial de bullying. Era melhor não ter.
- E ai, você deu um toque pro Deivid. Se liga na parada, no momento eu não estou, mas pode rolar o papo ai que eu devolvo, morô? Fui!

É isso que faz com que a secretária eletrônica esteja acima do fax, por exemplo. Ela fez parte das nossas vidas mais intensamente – mesmo quem não dispunha do aparelho, já telefonou para pessoas que tinham – e traz uma lembrança. Aquela lembrança no meio termo entre a nostalgia e a vergonha. Algo parecido com as pochetes e Dirty Dancing.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Relatos Reais de Pessoas Que Foram Vítimas de Correntes da Internet

Eu me lembro muito bem como foi que tudo começou. Eu fui me encontrar com uns amigos em um bar no final de semana. Estava esperando no balcão, quando uma loira sensacional passou por mim e me encarou. Pensei “é hoje”. Ela se sentou ao meu lado, pediu uma cerveja e começamos a conversar. Depois de meia hora, ela me chamou para ir até o apartamento dela. Foi o começo do meu drama.

Conferi no bolso e vi que eu tinha uma camisinha guardada. Aceitei o convite. Como estava sem carro, ela me deu uma carona. Ainda no carro, começamos a ficar. Cheguei ao apartamento dela, no auge da excitação. Ela me deitou no sofá e foi buscar mais uma cerveja. Já estava desabotoando a calça quando ela voltou e me serviu uma latinha. Foi minha última lembrança.

Pode acontecer com qualquer um
Depois disso, só me lembro de acordar, sentindo um frio desgraçado. Virei para pegar um cobertor e então eu percebi que estava dentro de uma banheira de gelo. Me assustei com aquilo e dei um pulo para fora da banheira, tremendo. Pensei que porra era aquela. Mal sentia o meu corpo. Vi que havia um recado escrito com batom vermelho no espelho do banheiro. Dizia que eu devia ligar para um determinado número, caso o contrário eu morreria.

Fiquei assustado. Percebi que aquele era o número do SAMU. Me arrastei até o corredor, onde encontrei meus pertences pessoais organizados sobre uma mesa. Vi que não haviam me roubado nada. Peguei meu celular e liguei. Liguei, com medo de que do outro lado alguém me falasse “seven days”. A essa altura, temia que tivessem me sequestrado para alguma experiência estilo Centopeia Humana. 

A telefonista me atendeu friamente. Acho que ela pensou que eu estava passando um trote. Até que, eu mencionei a banheira de gelo. A mulher mandou que eu fosse para frente de um espelho. Demorei alguns segundos, pela dor e por não saber onde haveria um espelho naquela casa. Ela sugeriu que eu olhasse as minhas costas. Notei então, dois cortes profundos.

Comecei a chorar, imaginando que havia sido vítima de algum ritual de magia negra. Procurava câmeras escondidas no teto. Foi quando ela me informou que infelizmente os meus rins haviam sido roubados. Ela mandou que eu voltasse logo para dentro da banheira e que iria mandar uma ambulância. Perguntou o endereço onde eu estava, mas eu não sabia. Estava muito chapado na noite anterior.

Depois de meia hora a ambulância chegou. Tempo no qual eu imaginei que iria morrer congelado. Comecei a pensar em toda a situação. No sórdido truque da mulher, que me seduziu. Que peitos ela tinha, ai, ai, apenas na minha imaginação. Pensei em todo o trabalho, de comprar várias barras de gelo, para encher uma banheira. Eles poderiam ter me deixado sangrando até a morte no chão. Não faria diferença para eles. Mas, eles me queriam vivo, provavelmente.

Os meses seguintes foram árduos. Fiquei preso aos aparelhos que me mantinham vivo, procurando um doador compatível. Porque eles não levaram apenas um rim? Poderiam ter tido um meio termo. Ou me matavam, ou me deixavam vivo com um rim. Porque vivo e sem rins? Fora isso, ainda teve a pneumonia que eu peguei. Vocês não sabem nem o que é pegar um resfriado sem os dois rins. Pensei que iria morrer.

Mas a dúvida que me consome mesmo, é apenas uma: será que eles comeram o meu cu enquanto eu estava desacordado? Eles podem ter feito isso e tirado os meus rins apenas para que eu não percebesse. Será que comeram? Eu nunca vou saber.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Sintomas do Fim do Mundo (4)


Do pó vieste, ao pó retornaras

Em um tempo distante, na época em que as pessoas ainda falavam latim por convenção, um célebre anônimo pronunciou a frase eterna: “pulvis es et in pulverem reverteris”. Não se sabe de que maneira o cidadão disse isso. Se foi em um jantar de família, numa roda de amigos. Se ele falou isso durante a passagem de som da festa junina. Não se sabe. Infelizmente, naqueles tempos não existiam os modernos recursos de gravação audiovisual.

Naqueles tempos, também não existiam as modernas táticas de reprodução gráfica. Fazer um desenho não era das coisas mais fáceis do mundo. O material não era farto, você não poderia retocar nada no photoshop. Mal existia uma superfície sobre a qual fosse razoável desenvolver uma pintura.

Tanto, que as primeiras pinturas da humanidade consistem naqueles rabiscos feitos nas paredes das cavernas pelos homens considerados da caverna (coincidência assombrosa). Com tintas feitas a base de sangue, folhas e fuligem, eles desenhavam bisões, seres antropomorfos e registravam outras casualidades da estafante vida das cavernas.

A evolução, veio é claro. Diversas técnicas foram desenvolvidas e estudadas, tudo melhorou. Várias escolas artísticas surgiram, em busca da perfeição do retrato, da liberdade de imaginação, exposição de sentimentos. Artistas fizeram sucessos e ganharam dinheiro com as suas obras. Um mercado negro de compra e venda dessas obras surgiu.

Com a evolução da fotografia, o surgimento do computador, as obras mudaram seu foco. Retratar algo com perfeição pode continuar sendo um mérito, mas deixou de ter uma importância vital para a sociedade, porque uma máquina de fotografia fará isso melhor e mais rápido.

Depois de todas essas divagações artísticas, chego no tempo em que nós vivemos. Estamos em 2012. Entro na internet e tudo o que eu encontro são rabiscos tortos que fariam um pintor rupestre comentar “que técnica bem simples, essa que vocês utilizam”.

Nos tempos atuais, a única forma que nós encontramos de exprimir nossa felicidade, nossa tristeza, nossas lembranças, são trolls e similares. A única forma existente para registrar e retratar o mundo em que nós vivemos, os fatos que presenciamos, são esses rabiscos. Montagens toscas feitas no paint são o equivalente ao dedo na fuligem de milhares de anos atrás.

Do pó nos viemos e ao pó, finalmente estamos voltando. É o mundo que está acabando. Você ganhou, Carlos Nascimento.

Outros sintomas:
Michel Teló avança na Europa
A explosão de Bueiros
Sílvio Santos Falido

sexta-feira, 9 de março de 2012

Hábitos Estranhos

Matéria especial publicada na revista “Pessoas Desinteressantes”.

Pessoas têm hábitos. Em inglês, eu poderia dizer que as pessoas têm hobbies. Carla Perez tem um hobbie cor-de-rosa, que é o seu favorito. Fomo as ruas e escutamos as pessoas. Elas nos falaram sobres os hábitos estranhos que elas têm. Listamos a seguir, depoimentos de pessoas que apresentam alguns dos hábitos mais frequentes.

José Silva, burocrata.
- Eu tenho o estranho hábito de andar a 40km/h na pista da esquerda de avenidas movimentadas. Sempre que eu caio em uma avenida, vou logo pegando para a pista da esquerda e ando o mais devagar que eu posso. Não importa se não há nenhum carro na minha frente, se todos buzinam e gritam palavras ofensivas para mim. É mais forte do que eu. Também tenho o hábito de diminuir a velocidade aleatoriamente em pistas de alta velocidade e passar no quebra-molas com o carro atravessado. No trânsito eu também costumo a esperar que não haja nenhum carro no horizonte para sair de uma rua. Mas, não sei por que, eu sempre avanço os sinais fechados. O único momento em que eu ultrapasso os 50km/h.

Carlos Maciel, bibliotecário.
- Eu sempre deixo todas as portas abertas. Quando saio de casa eu deixo a porta aberta e os cachorros entram. Se eu passo por uma sala fechada, eu abro a porta, vejo quem está lá dentro e deixo a porta aberta. Se eu estou em um vestiário, eu saio e deixo a porta aberta. Eu deixo qualquer porta aberta. As pessoas parecem contrariadas com isso, mas eu não sei por quê. Também tenho o hábito de deixar todas as luzes acessas e a tampa da privada levantada.

Marcelina Moraes, apresentadora de TV.
- O meu hábito estranho é fazer coraçõezinhos com a mão. É involuntário. Sempre que eu presencio um casal fofo, escuto um soneto de Vinícius, marco um gol, ou sou focalizada por câmeras de televisão em cenários paradisíacos.

Luis Vitão, administrador de empresas.
- Eu tenho o estranho hábito de assistir filmes dublados. Por mim, todos os filmes do planeta seriam dublados. (O depoimento de Luis foi interrompido. As forças do bem que compõe a Sociedade Civil Organizada o sacrificaram, pelo bem da humanidade).

Outros hábitos citados com frequência pelos nossos entrevistados:
- Matar moscas aleatórias.
- Babar e enxugar a baba na gola da camisa.
- Coçar partes aleatórias do corpo, sem motivo aparente.
- Gostar de filmes com o Nicolas Cage.
- Desejar Boa Noite para a Fátima Bernardes. Mesmo ela tendo saído do Jornal Nacional há quatro meses.

Todo hábito estranho deve ser monitorado. Eles podem ser indícios de doenças mais sérias, como conjuntivite, gonorreia purulenta, pubalgia ou Síndrome de Strauss-Kahn. Se você apresentar algum hábito estranho, procure o seu médico. Caso você não tenha um, adquira na banca de jornal mais próxima da sua casa. Ele poderá lhe indicar o tratamento adequado, como fisioterapia, lobotomia, ou extirpação dos órgãos internos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A morte na era da Internet

Imagino que matar alguém nunca foi fácil. Matar alguém não é como pegar um ônibus, por mais que pegar um ônibus não seja exatamente fácil. Mas, você não chega para alguém e fala: Morre! Bem, você até fala. Mas isso não significa que vai dar certo. Você pode desejar a morte de alguém várias vezes, mas o desejo não se cumpre sozinho. Você precisa de ação.

Um tiro na cabeça, uma facada no peito, sufocar com um travesseiro. Até mortes mais elaboradas, que envolvem emboscadas, roldanas e uma estaca que atravessa a veia femoral. Fora as dificuldades logísticas, há toda a questão psicológica. A frieza necessária para executar o ato e toda a descarga emocional. E o peso na consciência? As consequências judiciais?

Definitivamente, não é fácil matar alguém. Tanto que mortes insólitas sempre chamam a atenção. O cara que morreu no dia do aniversário, o cara que foi atropelado por um elefante, o cara que foi serrado ao meio, acidentalmente, por uma motosserra no dia do seu aniversário (do cara, não da motosserra), o cara que se engasgou com um espinho. Ou os famosos, os que morrem cedo. Por mais que seja um destino natural, a morte sempre para no jornal. E, dizem alguns, vende jornal.

Definitivamente, não é fácil matar alguém. Ou melhor. Não era. Hoje é. Muito fácil. Você pode matar alguém a qualquer momento. E nem vai precisar de facas, revolveres, travesseiros, barras de ferro, canetas bic, jamantas amestradas. Nada de furos, nada de cortes, nada de sangue. Para matar, bastam palavras. Basta saber divulgar essas palavras.

Sim, palavras matam desde os tempos de Shakespeare. Uma morte figurada, um sacrifício da alma. Hoje, as palavras matam ficcionalmente. Para matar alguém, basta publicar uma foto com texto no Facebook.
A televisão mexicana Televisa, anunciou a pouco que o Seu Madruga
morreu em um acidente de carro. Se você admirava o trabalho deste
artista, compartilhe.
Pronto. Seu Madruga está morto. Nos últimos tempos, todos os personagens do Chaves já morreram catorze vezes, cada um. No twitter, sei lá como, várias mortes aleatórias vão parar nos sempre misteriosos Trend Topics. Você entra e lá está um #RIP Madonna. Você joga no Google e o primeiro resultado é “Madonna é morta no Twitter”. As pessoas passam então a comentar que a morte de Madonna não ocorreu. Uma situação sempre descrita como “uma brincadeira de mau gosto”.

Matar alguém, hoje em dia é fácil:
1) Escolha sua vítima. De preferência a artistas estrangeiros. É essencial que as pessoas pensem que ele realmente poderia morrer. E que sintam a falta dele.
2) Escolha uma foto poética do artista. Uma na qual ele está rindo, ou fazendo uma pose.
3) Abre seu Facebook e faça o upload dessa foto.
4) Escreva um texto, afirmando que uma televisão do pais natal do artista está noticiando a morte do artista. Compartilhe.
5) Espere a comoção nacional.
6) Faça um brinde com um champanhe.
7) Espere o artista convocar uma coletiva para negar os boatos que ele esteve na pior. Digo, que ele esteve morto.

E a pergunta é: e no dia em que alguém realmente morrer no Facebook? Tipo, morte fulminante enquanto compartilhava uma montagem colorida?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Mulheres Ricas


Uma grande obra de arte mexe conosco. Aquele grande filme que nos surpreende, que nos faz pensar, refletir. Aquele livro que nos mostra outro mundo, nos choca. Uma obra de arte é aquilo que te dá a certeza que você nunca mais será a mesma pessoa, depois que ela passar por sua vida. Arthur Schopenhauer já dizia “sogra boa é igual cerveja, gelada em cima da mesa”, ou algo parecido.

Sob esse ponto de vista, o grande programa de televisão do ano é: Mulheres Ricas, da TV Bandeirantes. Eis uma obra que surpreende, choca, nos faz refletir. Apresentado sutilmente como “conheça o cotidiano de cinco mulheres da alta sociedade brasileira”, Mulheres Ricas é um estudo antropológico sobre as castas brasileiras. É um programa que abre a janela para um mundo novo.
Sacolão na 25 de Março

Foi no último sábado, que eu pela primeira vez assisti ao programa. Digo que eu ainda não me recuperei completamente do choque. Tenho passado os últimos dias tentando entender o que foi que eu vi. E é difícil entender. Tal qual um livro de James Joyce ou José Sarney, ou uma pintura de Picasso.

Como já foi dito, o programa conta a história de cinco pessoas: Brunete Fraccarioli (sério que realmente existem pessoas chamadas Brunette?), arquiteta nascida em berço de ouro que coleciona barbies; Lydia Sayeg, joalheira que faz cinco refeições diárias, ricas em ípsilons; a onipresente Narcisa Tamborindeguy, cuja riqueza vem de família; a ex-musa dos sem-terra e piloto de caminhão (?), Débora Rodrigues; e Valdirene Marchiori, que se define como linda, loira e magra. Cientistas trabalham duro na tentativa de descobrir qual é a ocupação de Valdirene.

O programa é focado em mostrar a contribuição destas cinco brilhantes mentes para a humanidade. Como elas ocupam o seu tempo andando de cavalo, jogando golfe, bebendo champanhe, fazendo drenagens, bebendo champanhe, comprando joias, falando mal uma das outras, bebendo champanhe, enfim, uma rotina extensa. Confesso que perdi 20% da minha massa encefálica depois de assistir ao programa.

Barbie exibe sua coleção de Brunetes
Imagino a árdua tarefa dos editores do programa, para conseguir resumir em uma hora a estressante rotina das participantes da atração. Uma é cover da Barbie, outra pontua todas suas frases com um Helloooouu, todas adoram dizer “que linda”. Ah, e a coitada da Débora parece meio deslocada. Ela parecer ser a única que já trabalhou um dia.

No episódio que eu assisti sábado, dois momentos realmente me chamaram a atenção. No primeiro, Valdirene, Brunete e uma amiga de Valdirena – cuja função é dirigir a limusine enquanto as outras duas bebiam champanhe – foram jogar golfe. Entre tentativas públicas de humilhação entre as duas ricas, a tal amiga comentou a longa viagem até o campo de golfe. "Foi difícil porque a Val (nome artístico da Valdirene) não ficava quieta. Ela não tem paciência pra andar de carro, só anda de helicóptero”.

Um momento sublime. Você que se queixa de ter que esperar o ônibus, carpir um quintal, carregar um saco de batata nas costas. Você não sabe o que é chato. Chato é andar de limusine, ao invés de andar de helicóptero. Nesse momento eu desisti dos meus problemas, coloquei um boné na cabeça e disse “Enriquecer é glorioso”, como um mantra.

Ainda durante a partida, Valdirene arremessou sua bola de golfe num pedaço de areia. Depois de falhas tentativas de retirar a bola do local ela disse para o seu carregador de tacos. “Vem cá, por mil reais você joga a bola lá longe?”. Ele concordou. Claro que concordaria. Por mil reais, o que ele não faria? Capaz que servisse de bicicleta humana para Valdirene. E sim. Ela pagou mil reais pra um cara, por um motivo desses. Mil reais. Pra tirar a bola da areia. Imagina se fosse algo sério.

Em outro momento, eu diria que lendário, Lydia Sayeg fala sobre uma experiência transcendental. Sua filha seria operada de alguma coisa, não se sabe o que, mas ela sobreviveu. Lydia conta que dormiu às 2h e acordou as 4h, organizou tudo, a equipe de segurança, enfim, e acordou a filha para ir. “É tanta coisa que às vezes nem eu sei como eu consigo”.

Realmente Lydia. Nem eu. Já perdi horas de sono tentando entender como é que você conseguiu realizar uma tarefa tão complexa. Como é que você teve a capacidade. Diante da mortal expectativa de acordar, organizar a equipe de segurança e ir para o hospital, não sei o que eu faria. Acho que eu sentaria e choraria em posição fetal às margens do Rio Piedra.

Antes que eu amarrasse uma corda em volta do pescoço e atirasse na minha cabeça, eu parei de assistir o programa. Mas, não tenho dúvida. Esse reality show (realidade?) é o programa do ano de 2011. A televisão não conseguirá produzir algo nesse nível tão logo. O fim de Mulheres Ricas deixará uma lacuna impreenchível em nossas almas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Guia Ofensivo dos Estados, Parte 2

Ele está de volta. O Guia do Pecado. O Guia do horror. Com todos os estados que não foram humilhados na primeira edição do Guia. Memorize as informações. Elas podem ser úteis quando você se transformar em uma comediante que é entrevistada pelo Jô Soares.

Acre: O Acre, como todos nós sabemos, é um estado que não existe, uma espécie de buraco negro. O que existe em um lugar que não existe? Eis uma questão existencial.

Amapá: O Amapá passa a imagem de ser o lugar mais distante do planeta. Viajar para sua capital, Macapá parece ser mais difícil do que ir até a lua.

Cacildis!
Ceará: Todo cearense é igual ao Didi Mocó. Pelo menos, seria mais divertido se realmente fosse assim. Ou, menos divertido. No Ceará, vive um povo de testa avantajada e de fala estranha. Eles costumam a organizar caravanas periódicas para São Paulo, sem passagem de volta. No meio da civilização, eles mantém seus costumes primitivos, como a alimentação a base de bode e o forró.

Distrito Federal: No momento em que você pisa na capital mundial da corrupção, você já começa a superfaturar tudo o que vê pela frente. Brasília também é a terra das quadras compulsivamente arrumadas. No entanto, creio que a grande graça da capital federal, é colocar o pé na rua e ver se os motoristas realmente param pra você atravessar. O problema, é que não vai ser legal se eles não pararem.

Maranhão: Um estado que fica em segundo plano diante da imagem de José Sarney. O influente político que moldou toda a percepção de seu Estado. Quem chega em terras maranhenses é obrigado a fazer o sinal da cruz e alisar o bigode, diante de sua imagem. Mas, bizarramente, ele é senador pelo longínquo Amapá.

Amapá (de novo): Estado pelo qual José Sarney se elege senador.

Paraíba: Como diria Edmundo: “a gente vem na Paraíba, jogar contra um time Paraíba e colocam um Paraíba pra apitar!”. Isso, quando um juiz cearense apitou um jogo de um time potiguar no Rio Grande do Norte.

Paraná: O Paraná é uma espécie de Europa brasileira, de um povo extremamente culto, educado, enfim, europeu. Terra de Freud, Nietzsche, Paulo Francis, e tantos outros grandes nomes da história. A culpa deve ser da água.

Piauí: Um estado associado a Fome, Miséria, Desgraça. Praticamente um quadro de Portinari.

Rio de Janeiro: Uma terra de taxistas safados – que irão te levar de Copacabana a Ipanema pela Barra da Tijuca. Assaltantes a cada esquina, a cada semáforo. Policiais corruptos que podem te espancar e pedir suborno por qualquer motivo. O risco real de ser baleado por um tiroteio, durante alguma ocupação da Rocinha. Personagens caricatos que falam em um linguajar caricato. Enfim, o Rio de Janeiro é uma terra sem lei.

Rio Grande do Norte: Voltando ao Edmundo: uma terra de paraíbas.

Rondônia: Estado que normalmente é confundido com Roraima.


Roraima: Estado que geralmente é confundido com Rondônia.

(Conclusão: os dois se confundem num loop eterno)

O surfista do Saibro (te cuida Bial)
Santa Catarina: Por mais que 80% do território de Santa Catarina seja ocupado por criadores de porcos, o estereótipo catarinense é o do manézinho da Ilha. Uma população composta por covers do Gustavo Kuerten.

São Paulo: A cidade que nunca para. O seja, paulistas são insones. Vivem naquele caos da Marginal Tietê, com um congestionamento que aumento a cada dia. Terra onde todas as construções são gigantes. Aliás, essa história do estado ter o mesmo nome da capital, acaba por eclipsar todo o interior.