quarta-feira, 26 de abril de 2017

Quem será o próximo presidente do Brasil?

As eleições presidenciais do ano que vem devem ser muito loucas. Em um cenário com partidos encurralados, classe política demonizada, instituições fragilizadas, recursos financeiros limitados e a população muito louca, é difícil prever o que vai acontecer.  Em um exercício de futurologia analítica, o CH3 reflete sobre os possíveis presidenciáveis de 2018.

Michel Temer
Quando certa manhã Michel Elias Temer acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em presidente da república e resolveu marcar o seu nome na história, mas, infelizmente para todo mundo, não de uma maneira positiva. O Governo Temer bate recordes de impopularidade e temos dúvida se os familiares do ex-vice-presidente o apoiariam em uma possível reeleição. Mesmo assim, sua candidatura em 2018 foi aventada por alguns aliados a beira de um surto psicótico. A hipótese parece improvável também porque além da falta de votos, Temer também poderia ficar impossibilitado de concorrer ao cargo por não ser ficha limpa. Neste cenário, nem o seu antigo aliado Satanás continuaria ao seu lado.

Lula

A Era Temer tem sido tão sombria que conseguiu fazer com que em pouco tempo Lula deixasse de ser um cadáver político e passasse a ser considerado como uma possibilidade para 2018 por uma parte da população que já sente saudade de outras épocas. As pesquisas mostram que ele lidera tanto as intenções de voto, quanto os índices de rejeição. Com uma base eleitoral fiel e proporcional a quantidade de pessoas que o odeiam, a principal dificuldade do ex-presidente é que não podemos descartar a possibilidade de que ele seja preso amanhã.

Marina Silva
Prestes a se tornar uma espécie de Enéas do novo século, Marina Silva pode ser novamente candidata à Presidência da República no ano que vem. Tentaria angariar votos da esquerda desiludida, do pessoal ecológico e ampliar os votos que recebeu nas últimas duas eleições. No entanto, Marina pode ser tragada pelo sentimento antipetista, pode ser vista como uma política profissional em um momento de ódio para/com a classe política, além das acusações de que ela some em períodos não-eleitorais. Para piorar, depois de tanto tempo, as pessoas podem finalmente se dar conta de que não conseguem entender o que é que ela fala.

Ciro Gomes
Ciro Gomes é um candidato que já circulou nos mais diversos espectros políticos desde a redemocratização. Atualmente, ele milita na esquerda combativa e se tornou extremamente popular nas redes sociais graças ao seu hábito de proferir xingamentos, acusações por vezes sem fundamento, enfim, pelo seu jeito franco, sem rodeios, típico da geração lacradora que ocupa grande espaço nas redes sociais. O problema é que esse seu jeito acaba por justamente envolvê-lo em polêmicas desnecessárias com questões sensíveis a sociedade e gerando ódio de parte da população. Além de ser difícil pensar em um presidente meme. Ou não.

Jair Bolsonaro
Protótipo fascista que figura no imaginário de expressiva parcela da população brasileira, principalmente em um momento de desencanto com a classe política e de crise financeira. Bolsomito, como falam seus débeis-seguidores, tem um discurso forte de ódio contra gays, mulheres, negros, comunistas e outras coisas que ele considera mazelas da sociedade, ao lado dos bandidos. Uma vez no poder, não sei o que ele poderia fazer contra estas pessoas que representam, não sei, 75% da sociedade, mas o pior e que não temos a menor ideia do que ele poderia fazer na economia e em outras áreas vitais do governo, uma vez que ele mesmo se diz ignorante sobre o assunto. Não sei se a pena de morte, a castração química de estupradores ou a institucionalização da tortura seria suficiente para diminuir o desemprego, por exemplo.

Aécio Neves
Segundo colocado nas últimas eleições, Aécio Neves parecia ser a bola da vez para assumir o poder após o fim do ciclo do PT. No entanto, o senador da República está um tanto quanto implicado no rol de delações premiadas divulgadas oficialmente ou em vazamentos, o primeiro a ser comido como diria um profeta nacional. Se eu fosse ele, eu me preocuparia em ganhar algum cargo eletivo no ano que vem, para não correr o risco de perder as benesses do foro privilegiado.

Geraldo Alckmin
Outro forte nome tucano na linha de sucessão presidencial, mas que infelizmente, pelo menos para ele, pode se complicar nesses meandros de operações da Polícia Federal que tanto afligem a classe política nacional. Com forte base eleitoral no mais populoso estado brasileiro, Alckmin também é famoso pela sua absoluta falta de carisma.

José Serra
Exceção feita ao próprio José Serra e talvez, eu disse talvez, alguns familiares e amigos muito fiéis, mas mesmo estes sem muita convicção, ninguém acredita que o vampiro brasileiro poderá ser um dia presidente da República. Mas, todo mundo tem o direito de sonhar e este direito não pode ser negado mesmo para ele que, adivinhem, também está implicado nas delações da Lava Jato.

João Dória
Com todos os nomes do PSDB sendo comidos conforme a profecia de Jucá, quem é que sobra? Ele, o prefeito de São Paulo, João Dória. Mesmo com dúvidas quanto a efetividade da sua gestão, o homem é um fenômeno das redes sociais e se comunica diretamente com a geração hashtag. Consegue aliar a imagem de gestor e a de não-político o que é um estranho fetiche atual da civilização brasileira. Uma vez presidente, o João Trabalhador teria ainda mais roupas para se fantasiar e sair às ruas para cavar poços artesianos, construir casas populares, privatizar o Banco do Brasil, a Petrobrás, nem sei direito quais órgãos ele poderia vender para alguém. Além disso, ele poderia não tomar nenhuma ação concreta e apenas iludir a população quanto a isso com o magnetismo que ele exerce em sua página no Facebook, um presidente entertainer, o pão e circo do século 21.

Luciano Huck
Em uma assustadora entrevista a um grande veículo impresso nacional, Luciano Huck, ele mesmo, o cara que lançou a Tiazinha e a Feiticeira, não refutou da possibilidade de ser candidato à Presidência da República. Sabe-se lá por quais razões, o homem tem uma boa imagem perante a população, é associado a caridade, tem uma esposa bonita e uma família feliz, enfim, coisas que o brasileiro gosta. Não precisaria gastar muito dinheiro na campanha, porque o seu nome já é suficiente massificado entre a população. Já percorreu todo o Brasil. Uma vez presidente, poderia entregar obras para o povo mediante a realização de tarefas pelos beneficiados. Angélica também poderia colocar os atores da Globo todos para realizar ações beneficentes e resolver os problemas do Brasil. Com um ministério formado por Marcelo Rosenbaun, Thiaguinho, Fernanda Souza, Bruno di Lucca, Bruninho Rezende, Rafael Zulu, o Palácio do Planalto sairia das páginas policiais e entraria de vez para a coluna social, além de resolver o problema da Globo, que não sabe mais onde enfiar artistas com contratos longos, uma vez que existe um limite para a quantidade de programas que podem ser exibidos no GNT, Multishow ou mesmo de apresentadores para o É de Casa. Tenham medo.

Sérgio Moro
Juiz popstar, ídolo nacional, Sérgio Moro é uma das poucas pessoas admiradas por larga parcela da sociedade brasileira. Seu nome é associado aos ideais da ética, da honestidade, do trabalho, da pureza, do milagre da reencarnação de Cristo. Caso ele decida sair do conforto e do clima fresco de Curitiba para disputar as eleições presidenciais, ele seria um nome obviamente forte. No entanto, há um pequeno problema nisso tudo: A grande qualidade profissional do juiz Sérgio Moro até o momento é a sua capacidade de mandar prender pessoas que cometem atos ilegais. Infelizmente, um presidente da República só pode mandar prender pessoas em Estados de exceção. Todavia, a prisão de pessoas não é também uma política pública de qualidade.

Dráuzio Varella
Sim, até o momento ninguém lançou o nome do simpático Doutor Áuzio Varella para concorrer ao cargo máximo da nação, então o CH3 toma esta iniciativa. Ponderado, sensato, simpático e com amplo conhecimento em vários assuntos, Áuzio é o nome certo para governar o Brasil.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notícias do Tempo (7ª e última parte)

Meu carro ainda tinha algum combustível, acreditava que mais ou menos meio tanque. Se minhas previsões estivessem corretas, eu conseguiria andar algo em torno de 200 km. Diante do calor cada vez mais absurdo, fui tomado por uma espécie de sentimento jornalístico e resolvi sair de casa para ver o fim do mundo de perto, pelo menos o fim do meu mundo. Desisti de esperar o apocalipse me encontrar e fui ao encontro ao fim.

Coloquei o que me restava de água dentro uma garrafa pet de coca cola, que ficou cheia um pouco acima da metade. Abri a porta de casa pela primeira vez em alguns dias e vi a névoa de fumaça que havia tomado conta de tudo. Não era possível ver o fim da minha rua. Alguns carros estavam parados na frente da casa de alguns vizinhos, outros devem ter tentado fugir, ou jamais conseguiram chegar de volta em casa. Nunca vou saber. Um silêncio absoluto no meio daquele ambiente acinzentado.

Entrei no meu carro rapidamente e a sensação foi a de colocar o corpo dentro de um forno recém desligado. Liguei o carro e coloquei o ar-condicionado no máximo, mas isso não adiantou muito. Acho que a humanidade não chegou a inventar um aparelho com a potência necessária para neutralizar essa quantidade de calor. Provavelmente ela nunca achou que seria necessário. O marcador de combustível realmente estava próximo da metade.

Sai pela guarita do meu condomínio que parecia abandonada. Trafeguei pelas ruas pelas quais eu corria nos últimos tempos sem encontrar uma única pessoa. Cheguei a um ponto mais alto, de onde era possível avistar Chapada dos Guimarães. Não vi nada. Apenas uma cortina de fumaça espessa, que provavelmente escondia o fogo que consumia o Parque Nacional. Segui pela rua principal do bairro e os comércios estavam todos fechados. O supermercado, os bares, as distribuidoras que sempre estavam lotadas, a academia, as lojas de roupa, de manutenção de celulares. Cheguei a Avenida das Torres e a visibilidade devia ser de uns cem metros. Pisei fundo no acelerador e passei pelo radar de velocidade a mais de 100 km/h. Essa multa um dia chegaria? O radar ainda funcionava? Era meu pequeno manifesto de inconsequência diante do fim inevitável.

Passei pelas entradas de condomínios, pelos postos de gasolina, pelas rotatórias. Cheguei a Avenida dos Trabalhadores e vi todas as lojas de móveis fechadas. Ganhei a Miguel Sutil e desci para a Avenida do CPA. Experimentei uma solidão impossível de ser sentida na principal avenida da cidade. Acelerei até perto do meu trabalho e observei todos os centros comerciais melancolicamente abandonados. Parei ao lado do viaduto da Sefaz e lamentei não ter nada para escrever alguma mensagem naquele monumento ao mau gosto. Pensei em deixar alguma mensagem enigmática, uma pista errada para as futuras gerações. Uma piada sobre o fim do mundo atual, que ninguém entenderia.

Resolvi ver o Rio Cuiabá. Passei por toda Avenida do CPA, atravessei o Centro Histórico. No cruzamento com a Isaac Póvoas vi o corpo de um mendigo atirado embaixo de uma árvore da Praça do Ipiranga. Não havia pombos no local. Pássaros costumam a perceber tragédias naturais e migram para um lugar em segurança. Nesse caso, imaginei que os pássaros talvez estivessem tentando voar para fora da atmosfera terrestre.

Observei todas as lojas da XV de Novembro vazias. Não havia sinal de vandalismo, arrombamento, depredação. Percebi que realmente, o calor era tão extremo, que ninguém teve coragem de destruir nada, sob o risco de provocar sua autodestruição. Talvez, se as pessoas tivessem percebido o fim antes, teriam feita alguma coisa, em um último momento de loucura.

Cheguei a ponte do Rio Cuiabá. Desci do carro ligado e senti o vapor quente do lado de fora. Observei o rio quase parado lá embaixo, reduzido praticamente pela metade de sua largura. Várias ilhas se formaram em sua extensão, mostrando suas perigosas diferenças de altura, seus degraus que já vitimaram tantos banhistas amadores. Sua coloração era ainda mais barrenta do que o normal. Era melancólico olhar o rio daquela forma, pensando em quanto tempo ele ainda sobreviveria.

Segui adiante e entrei em Várzea Grande. Lembrei de uma piada de um amigo meu, que dizia que cada vez que ele entrava em Várzea Grande ele se sentia em Mad Max, a estrada da fúria. Nunca essa comparação fez tanto sentido. Resolvi ir até o aeroporto. As portas automáticas estavam fechadas e apenas consegui olhar lá dentro os guichês vazios, uma mala perdida por alguém que jamais vai voltar. O que nossos futuros ocupantes pensarão de todas as estruturas que deixamos para trás?

Resolvi então ir até o setor de hangares. Encontrei um com o portão aberto e de lá tive acesso a pista do aeroporto. Experimentei a curiosa sensação de andar por aquela enorme faixa de asfalto e ver que ela é muito maior do que parece quando estamos dentro da aeronave. Encontrei um avião da Azul na pista. Provavelmente uma aeronave que não conseguiu decolar por conta do clima. Senti uma forte tentação de fazer algo diferente, como, não sei, andar sobre as asas do avião, justamente naquela parte em que dizem que não se deve pisar em cima. Mas não vi meios de fazer isso e também não vi sentido. Sofri um profundo vazio existencial diante da situação.

Bebi o que me restava de água e tomei o caminho de volta. Olhei os vagões abandonados do VLT. Olhei as avenidas de Várzea Grande e pensei aonde é que eu poderia ir. Diante do fim do mundo não havia pensando em uma única possibilidade de um lugar em que gostaria de ir uma última vez, até porque esse lugar não existiria mais. Então simplesmente peguei meu carro e saí andando em linha reta, iria até onde o combustível aguentasse. Sentiria, como novidade, a sensação de ver a gasolina do carro acabando.


Segui pela Avenida da FEB, tornei a atravessar o Rio Cuiabá, segui pela XV de Novembro na contramão, avancei pela Avenida do CPA, peguei a Estrada de Chapada. Dirigi lentamente, em meio a fumaça e o fogo dos dois lados da rodovia, desviando dos animais mortos no meio da estrada. Quando vi já estava em Chapada. O paraíso dos fins de semana cuiabano estava abandonado e mal se conseguia ver nada. Segui adiante e passei pelo mirante, rumo a Campo Verde. Passei por enormes plantações de soja queimadas. Cheguei a Campo Verde e suas casas construídas no meio das plantações devastadas. Segui adiante, rumo a Primavera do Leste e em algum momento da BR-070 o motor começou a falhar e meu carro apagou. Estava sem gasolina no meio da rodovia.

Procurei no meu pen drive um disco dos Beatles. Pensei que seria interessante que o mundo acabasse enquanto eu escutava minha banda preferida. O clima dentro do carro passou a ficar insuportável e eu decidi sair. O calor excessivo e a fumaça me deixavam com os olhos praticamente fechados. Andei por alguns metros, quase me arrastando e parei, cansado. Sentia uma espécie de vapor emanando do asfalto, de tudo o que estivesse a minha volta.

Olhei para o lado e visualizei um pequeno grupo de árvores, praticamente secas, no meio da plantação. Provavelmente são as remanescentes da floresta nativa, protegidas pela força da lei que instituiu um percentual mínimo de vegetação nativa nas propriedades rurais. Me arrastei até elas, que estavam mais longe do que pareciam. Passei por uma cerca e procurei um lugar com um resto de sombra. Sentei no chão, fechei os olhos, respirei fundo e senti o ar quente preenchendo meus pulmões.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O fim do EGO

Nesta segunda-feira, o mundo amanheceu chocado com a decisão do Grupo Globo de encerrar as atividades do EGO. Por mais de uma década, o portal foi o braço global voltado à divulgação virtual de conteúdo relacionado ao cotidiano de pessoas que de alguma forma podem ser consideradas famosas. Por 11 anos, foi uma das principais ferramentas do entretenimento humano, nos possibilitando saber quem estava caminhando aonde e qual era o estado de espírito desta caminhada.

O frio comunicado veio com aquele velho discurso sobre a mudança do mundo, o reposicionamento da marca, novo direcionamento para investimentos, otimização dos recursos e a garantia de que o consumidor final não será prejudicado. Resumindo, a Globo precisou cortar gastos (vagas de emprego) e dissolveu o site de notícias supérfluas.

A notícia é deveras complicada neste momento de crise nacional. Teremos uma equipe de jornalistas, muito provavelmente frustrados e entregues ao alcoolismo pelo ocaso de suas vidas profissionais, fotógrafos especializados em flagras de pessoas famosas, programadores, técnicos de informática, enfim, dezena de pessoas que ficarão desempregadas.

Mas, muito pior do que isso, vejo que toda uma cadeia produtiva de futilidade poderá ficar desaquecida. Pense em Nana Gouvêa, pense onde ela vai deixar a calcinha a mostra e pense que essa notícia não poderá ser divulgada. Qual será a motivação de Nana Gouvêa deixar a calcinha ao descer de carros em eventos públicos, e consequentemente a motivação para que ela saia de casa e em último e grave estágio, qual será a sua motivação para viver uma vez que isso não será divulgado em um grande portal da internet.
O que será da vida desta mulher?

Geisy Arruda, Andressa Urach, Alguma Coisa Minerato, dezenas de pessoas que tiraram seus sustentos nos últimos anos a partir da divulgação de suas atividades incipientes. Talvez estas ainda consigam sobreviver, graças a fama já consolidada, mas dezenas de pessoas não terão mais essa oportunidade. Ficarão para sempre no amadorismo, na expectativa da fama. A pirâmide social da subcelebridades estará cada vez mais difícil de ser escalada.
E esta mulher que eu não tenho muita certeza sobre quem ela é. Continuará atravessando a rua? Andará por aí distraída?
Tal qual o Uber para os taxistas, acredito que a criptonita dos sites dedicados a cobertura de fatos insignificantes da vida real, é o Instagram. Mais precisamente a função Stories, que faz com que qualquer mané consiga ter acesso à mais alta intimidade das pessoas famosas, sem precisar de um site para isso, sem precisar fazer um curso de nível superior de oito semestres para saber que Grazi Massafera precisou ir ao banheiro durante um filme e que Bruna Marquezine estava séria no corredor de um shopping.
Chico Buarque continuará se alimentando? Será que ele mudou seus hábitos alimentares, porque comer duas baguetes monstruosas destas em uma tarde é um convite ao acúmulo de gordura abdominal e subsequentes doenças coronarianas
A solução é claro, é se reinventar e virar funcionário público ou lançar uma startup.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Notícias do Tempo (6ª parte)

Passei o sábado inteiro sentado no sofá da sala. Me levantava eventualmente para beber a água que ainda restava em casa ou para ir ao banheiro cada vez mais insalubre. Dormia quando o cansaço conseguia vencer o calor insuportável. A essa altura eu já estava entregue ao fim do mundo.

A bateria do meu notebook havia acabado por volta das 18h30 da sexta-feira e desde então eu estava entregue no sofá. Apenas tomava nota da passagem do tempo pela luz opaca que entrava pela brecha da cortina, indicando que o sol estava de fora novamente. O calor continuava aumentando e o céu já estava completamente cinza, tomado pela fumaça das queimadas que a essa altura já consumiam o mundo.

Os filmes apocalípticos que sempre assistimos costumavam a retratar um fim repentino para uma grande parcela da humanidade. Havia um alerta de tsunami e as pessoas começavam a fugir das regiões costeiras, mas eram apanhadas pela onda no meio da estrada. Um terremoto espetacular destruía prédios, casas e metade da civilização norte-americana em poucos segundos. Os sobreviventes se reuniam e tentavam escapar daquela situação e iam morrendo em grandes levas a medida em que a terra voltava a tremer. Tommy Lee Jones estrelou um filme em que o apocalipse era provocado por um vulcão.

Outros tantos filmes tratavam sobre a chegada de meteoros, que proporcionaram um fim rápido e praticamente indolor para boa parte da população mundial. O impacto proporcionado pelo pedregulho gigante provocaria um grande rastro de destruição e os poucos sobreviventes, sempre eles, precisariam se unir para procurar uma solução naquele ambiente de barbárie. Sylvester Stallone, ou Bruce Willis, ou algum outro astro seria o responsável por guiar aquele grupo despreparado para a vida selvagem.

Mas, creio que de longe os fins mais pensados para a humanidade são aqueles provocados por invasões alienígenas. Os desenvolvidos seres de outros planetas chegam até nós com ideias conquistadoras e disparavam seus poderosos raios aniquilantes, capazes de varrer Nova York – sempre ela – do mapa em poucos segundos. A humanidade tenta resistir como pode, enquanto mais e mais pessoas são mortas de uma vez só. Bem, claro que geralmente nesses filmes a humanidade não é extinta de uma vez, a resistência humana liderada por Will Smith consegue obter uma resposta e contra-atacar os alienígenas, subjugá-los e iniciar o processo de reconstrução das façanhas humanas no planeta.


Todos esses filmes tem algo em comum. Um impacto imediato sobre a população e a resistência, uma maneira de tentar encarar o problema e dar a volta por cima. Há uma mensagem de esperança, de que nos momentos difíceis a humanidade é capaz de se unir em busca de uma solução. A luta pela sobrevivência é capaz de unir todos.

Mesmo os filmes de zumbis – e eu preciso confessar que odeio filmes de zumbis, considero todos eles iguais e baseados em um princípio ridículo, de que os mortos voltariam a viver e passariam a atacar a humanidade, que novamente, precisa se unir para superar esse problema e etc, etc, etc, esses filmes também mostram resistência a um impacto, que digamos, não é imediato, mas é um problema que vai aumentando dia após dia.

Lembro de cabeça de um filme que mostra uma tragédia ganhando corpo a cada dia e ameaçando a existência humana terrestre: “O Dia Depois do Amanhã”. Assisti a esse filme em 2004, no cinema, na saída de uma oficina de redação no colégio. Estava ao lado de uns seis ou sete colegas de sala e assistimos aquele filme, rindo um pouco da situação, daquele frio que em poucas horas congelava o hemisfério norte inteiro. Um amigo meu questionava “e o Brasil? Continua todo mundo na praia tomando caipirinha e sambando?”. Não é um grande filme certamente, mas é o filme que vem a minha cabeça como um exemplo de um apocalipse não-repentino, crescente.

Mas, novamente, mesmo nesse filme, há uma espécie de cooperação entre os sobreviventes. Que tentam se ajudar, se refugiando em lugares protegidos, queimando livros em fogueiras na tentativa de se manterem aquecidos, fugindo para o México. Toda produção apocalíptica hollywoodiana trata da união dos povos para enfrentar os problemas e de certa forma isso nos sugestionou a pensar que o fim, caso ele realmente chegasse um dia, seria dessa forma. Muitos mortos, mas os sobreviventes tentando se ajudar, lutando até onde fosse possível pela sua sobrevivência.

Creio que todo mundo já pensou em como seria seu próprio comportamento assim, caso você desse a sorte de não ser um dos atingidos pelo raio laser mortal alienígena, ou pelos blocos de concreto que despencaram sobre cabeças alheias após o terremoto. Seria um líder do grupo? Alguém que seguiria a ordem dos líderes? Sempre pensei que eu seria alguém desinteressado, que talvez esperasse a morte chegar, pensando se realmente valia a pensa todo aquele sacrifício apenas para continuar vivo num mundo cheio de mortos. Qual é o sentido de continuar vivendo em uma situação assim?

De certa forma eu já estava assim. Apenas esperando o tempo passar. Estamos vivendo o nosso dia depois do amanhã, estamos em nosso momento ficção barata blockbuster eu pensei. Acho que o mundo foi congelando em uma parte e queimando em outra de maneira menos repentina do que no filme supracitado, que deve ter sido a primeira produção global que tratava das mudanças climáticas, talvez até precedendo o trabalho realizado pelo Al Gore.

Mas, de certa forma, acho que não havia a resistência tão alardeada nos filmes. Estávamos todos entregues ao calor. Ninguém estava nas ruas tentando, sei lá, controlar queimadas ou desviar o curso dos rios, não sei o que pode ser feito para combater o calor, porque certamente este esforço resultaria na morte dos envolvidos. Acho que todos os filmes de fim de mundo não pensaram na nossa dependência atual de tecnologia, de como ficaríamos inertes sem ter um celular, conexão a internet, o que dirá da energia elétrica? O fim não anunciado também nos pegou de surpresa. Acredito que lá nos primeiros dias, quando o calor ainda estava dentro dos padrões previamente registrados pela ciência, se alguém tivesse nos avisado que aquilo era o começo do fim, talvez pudéssemos ter feito alguma coisa, por mais que eu não sei que coisa é essa. Não dá para mudar o clima do planeta imediatamente.

Será que alguém havia cogitado o suicídio como uma forma de abreviar o sofrimento? Diante da falta de possibilidades, da lenta agonia do fim, da morte inevitável, o suicídio seria uma rala forma de controle das variáveis. Ou não. Que suicídio que as pessoas têm a sua disposição, exceto aquelas que se prepararam para isso? Perfuração com facas, pulos de grandes alturas e outras situações que de certa forma não garantem a morte imediata, mas nesse mundo distópico poderia garantir algumas horas a mais de sofrimento com fraturas expostas e hemorragias incontroláveis, sem qualquer possibilidade de socorro.

Pensei que talvez ainda houvesse algum lugar seguro, ou habitável na Terra. Alguma faixa intermediária, entre o calor e o frio extremo em que as pessoas conseguiriam viver por mais tempo, até que ou o frio, ou o calor dominassem a situação inteira. Ou até que tudo milagrosamente voltasse ao normal e essas pessoas pudessem espalhar as façanhas humanas por todo o planeta. Voltei a dormir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Menino do Acre


A foto que abre esse texto é muito semelhante a uma exposição da Bienal de Arte Moderna de São Paulo. As paredes brancas com escritos precisamente simétricos são uma provocação estética, que não deixam de ter alguma beleza. No centro do quarto, uma estátua macabra, transmite uma sensação de choque. O quadro em que um alienígena segura os ombros de um ser humano, com ambos parecendo prontos para participar de um ritual satânico é o toque surreal que completa a paisagem da instalação. Por último, quando nos aproximamos da parede o que vemos lá não são letras do alfabeto latino, mas uma coleção de símbolos aparentemente inteligíveis.

A obra, no entanto, não é de nenhum mártir da arte pós-moderna e nem está exposta no pavilhão da Bienal. Ela foi realizada pelo jovem Bruno Borges, estudante de psicologia de 24 anos, em seu próprio quarto em um apartamento na capital do Acre, Rio Branco, e é resultado, ao que tudo indica, do longo processo de enlouquecimento do jovem Bruno, coitado, que no momento se encontra desaparecido.

Caso você, assim como o Bruno, esteve sumido nos últimos dias, ou caso tenha sido abduzido pelo extraterrestre do retrato, aí vai um breve resumo do caso: Os pais do jovem saíram de férias e ele ficou trancado no quarto realizando a intervenção supracitada, só que ninguém da sua família sabia de nada. Os pais voltaram, ele almoçou com a família e logo depois desapareceu e só então os pais abriram a porta do quarto e encontraram o tal cenário, além de uma série de 14 livros identificados por numerais romanos, todos escritos a mão e criptografados. A família só sabia que ele trabalhava em um projeto para o qual não deu muitas explicações, mas que ele dizia ser uma teoria inovadora, que o faria ser conhecido mundialmente rapidamente.

Este caso é certamente um dos mais intrigantes que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Certo que pessoas desaparecem o tempo inteiro e muitas vezes não sabemos se ela morreu, foi devorada por cachorros, viajou para outro país ou esqueceu o carregador de celular em casa. No entanto, o Menino do Acre tem muitos fatores que o tornam notícia:

1) O caso aconteceu no Acre, que certamente é o Estado mais insólito do Brasil, um Estado que nós ganhamos em troca de um cavalo com a Bolívia, cujo acesso terrestre é extremamente difícil e que nos proporcionou a Adreles, que imortalizou o Acre em uma canção e fez que o país inteiro soubesse das precárias condições de segurança no parque da maternidade. Isso já não é o suficiente?
2) Sério, olha esse retrato que o cara tinha na parede do quarto dele

Enfim, pelas informações que constam na matéria, Bruno não me parecia ser alguém que estava em pleno domínio de suas faculdades mentais. A mãe o descreveu como alguém muito generoso, cujos melhores amigos eram portadores de distúrbios mentais e mendigos. Ele lia muito e tinha um nível intelectual assombroso, capaz de conversar apenas com desembargadores, juízes, algo parecido com a passagem bíblica do Jesus entre os doutores. O jovem era aficionado pelo filósofo italiano Giordano Bruno, morto pela inquisição e, aliás, é justamente o indivíduo representado pela estátua macabra.

Ele foi financiado em R$ 20 mil por um primo médico, que disse que o fez por acreditar no Bruno, que tinha umas ideias que batiam. A mãe disse que leu um dos livros com uma teoria que o jovem queria patentear e, na terceira leitura, finalmente entendeu a ideia, uma teoria que ela descreveu como perfeita.

Por muitas vezes, nós não conseguimos notar os problemas que se desenvolvem dentro do nosso seio familiar. Conseguimos rapidamente ver a degeneração na família e na vida dos outros, mas temos dificuldades em perceber que algum problema acomete uma pessoa tão próxima de nós. Por isso, me parece que a mãe, coitada, teve dificuldades em ver que o filho tinha algum problema. Todas essas ideias malucas - pelo o que foi traduzido de uma página criptografada, nada do que o rapaz diz faz sentido - amizade com pessoas estranhas, enfim (onde é que um jovem de 24 anos arruma desembargadores para conversar?). Difícil acreditar que uma pessoa saudável seria capaz de escrever 14 calhamaços de papel criptografados, copiar os textos pelas paredes da casa e depois sumir.

Possibilidades

Bem, uma das hipóteses para este caso é justamente essa: Bruno enlouqueceu, está no meio de um surto maníaco e saiu vagando pela selva acreana como um andarilho lunático, balbuciando palavras desconexas para o restante da humanidade. Drogas? Talvez sim, talvez não.

Mas, pode ser que tudo isso não passe um plano, elaborado por uma mente um tanto quanto enfraquecida, é claro, mas um plano de divulgação. O cidadão havia falado ao seu primo financiador que sua teoria faria com que ele fosse rapidamente conhecido no mundo inteiro e não vejo realmente uma ideia melhor de divulgar uma ideia filosófica do que a de montar uma instalação artística no seu quarto e desaparecer no mundo. Realmente muitas pessoas devem se interessar no que ele escreveu, mesmo que seja uma porcaria criptografada pelo Manuel dos escoteiros da Disney.

E se a história é genial e o cara enlouqueceu? Se ele armou tudo e escreveu um monte de merda? Se é um teaser da nova série do Netflix? Se ele é um youtuber que está apenas trollando a mãe?


O menino do Acre é certamente um candidato a best-seller, um caso memorável deste mundo louco em que vivemos.