terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Miss Sem Fronteiras

A mais antiga e divulgada lenda envolvendo as mulheres que pretendem concorrer ao cargo de “Miss” alguma coisa, é a de que elas obrigatoriamente haveriam de ter lido o livro “O Pequeno Príncipe”. Há uma razão para esta estranha ligação literária. Por trás da beleza flagrante, os concursos de misses buscam escolher uma mulher dita perfeita, que alie a beleza ampla e irrestrita com um vasto conhecimento intelectual.

Por essas razões, tradicionalmente as fases finais dos concursos de misses contam com algumas perguntas capciosas, para testar os conhecimentos gerais das candidatas. Geralmente são perguntas genéricas sobre a felicidade global e outros temas que eram testados em oficinas de redação de vestibular.

“Qual é o seu livro favorito” é uma das tradicionais perguntas feitas às mulheres. Afinal, livros são um sinal de cultura, cultura é sinônimo de conhecimento intelectual, pré-requisito para alguém ser miss universo. O Pequeno Príncipe logo se consolidou como uma resposta favorita das candidatas, pelo fato de ele se situar numa zona mista de conhecimento.

Ninguém iria dizer que adorava uma subliteratura qualquer, um livro de autoajuda ou um best-seller vazio do momento, sob o risco de ser eliminado. “Aí, adoro Sidney Sheldon”, sinto muito, mas você não será a mulher perfeita que servirá de exemplo para toda a humanidade. Por outro lado, ninguém vai se arriscar a afirmar que adorava a obra de Dostoievski – no original, ou que leu Ulysses três vezes. Vai que o jurado manda você explicar a obra? Sonho terminado.

O Pequeno Príncipe, por outro lado, é um livro amplamente conhecido, mas com algum grau de respeitabilidade. Não é uma obra para retardados, mas não chega a ser complexo. Além disso, ele agrega valores como “generosidade”, “fraternidade”, “congraçamento dos povos mundiais”. É só soltar aquele papo de cativar daqui, se mostrar ansioso pelo sua presença por lá e ninguém precisa prestar atenção na viagem psicotrópica deste garoto que conversa com raposas sentimentais.

No entanto, os tempos mudaram e o mercado se mostra muito mais competitivo. Hoje em dia, não basta convencer os jurados com algum conhecimento básico literário e meia dúzia de frases cativantes decoradas de um best-seller. As candidatas se aprimoraram.

Neste último domingo, as Filipinas receberam a final deste tradicional concurso. Por trás de todas as escolhas relacionadas aos trajes de banho, vestidos de gala e roupas tradicionais, o concurso mostrava um pouco da história das mulheres que avançavam na disputa.

Havia sobreviventes de terremotos, mulheres que lutaram na guerra, que perderam parentes por razões terríveis, que passaram fome, que trabalhavam para descobrir a cura da cegueira. Quase todas desempenhavam funções sociais, acolhiam crianças carentes. Mais do que um concurso de beleza, o Miss Universo hoje é uma disputa de protótipos de Madre Teresa de Calcutá.

As perguntas também se mostraram extremamente complexas: “quais pontos você considera como negativos e positivos no mandato de Donald Trump”. Uau, ter que pensar em um ponto positivo para isso? Outra pergunta discutiu o fechamento de fronteiras. Complexo.


Como a tendência das coisas é só evoluir, imagino que nos próximos anos as perguntas fiquem ainda mais difíceis. “O que você acha da política aduaneira no canal do Panamá?”. “Como impedir o avanço do tráfico de nióbio?”, “qual é a sua opinião sobre o controle de natalidade enquanto política de estado para impedir o desemprego?”, perguntas quase impossíveis de serem respondidas.

Certamente as misses terão formações ainda mais avançadas. Mulheres que trabalham com fissão nuclear para a criação de próteses, na defesa da costa somaliana contra os ataques piratas, resgatando peixes abissais feridos, trabalhando para acabar com a fome mundial, oferecendo wi-fi gratuito em comunidades distantes subsaarianas, preservando a vegetação nativa do Malawi, em um laboratório de observação da pós-verdade.

Enfim, chegaríamos a conclusão de que se todas as candidatas se organizassem em uma ONG intitulada Misses Sem Fronteiras, os problemas do mundo acabariam.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Michel Temer volta atrás na decisão de voltar atrás

Em reunião com sua equipe de ministros na manhã desta quarta-feira, o presidente da República, Michel Temer, voltou atrás da decisão de convocar a reunião com os ministros. Em comunicado a imprensa, o mandatário nacional afirmou que a convocação para a reunião foi um mal entendido, um estudo preliminar que ainda não havia sido definido e foi publicado em sua agenda equivocadamente.

Após dispensar os seus ministros, afirmando que aquele encontro jamais havia ocorrido, Temer foi comunicado por um assessor direto que o cancelamento da reunião estava repercutindo muito mal entre os seus ministros. Diante da exposição negativa do caso, o presidente voltou atrás e decidiu convocar sua equipe novamente para uma nova reunião em que negou que havia convocado uma reunião anterior e que a mesma não havia sido cancelada, mesmo porque ela não existia. Temer disse que o equívoco era uma tragédia.

A declaração do presidente não foi bem recebida nas redes sociais, que o acusaram de mau uso da palavra tragédia. Diante do fato, Temer voltou atrás e explicou o sentido etimológico da palavra tragédia e alegou que havia sido mal interpretado, negando que estivesse eventualmente desrespeitando qualquer pessoa que pudesse se sentir desrespeitada por ter vivido algo que ela considera uma verdadeira tragédia, o que não seria o caso do cancelamento de uma reunião que jamais existiu porque nunca foi convocada.

Pouco antes do almoço, o portal globo.com trouxe a denúncia de que uma secretária de Temer havia confirmado que a reunião havia sido marcada. A reportagem mostrava cópias da planilha com a agenda do presidente, além de prints de conversas de Whatsapp do grupo ministerial de Temer, chamado “PLANALTO ELITE”, em que uma pessoa identificada como Michel Temer faz a convocação para que todos os ministros comparecessem no Palácio do Planalto na manhã desta quarta-feira.

A veiculação da reportagem provocou uma crise no núcleo duro do governo e a secretária de imprensa do Planalto convocou uma entrevista coletiva. Temer afirmou que não participa de grupos do Whatsapp, que desconhece a existência de um grupo de ministros, e que, uma eventual convocação para que os ministros comparecessem no Planalto seria apenas um ato cívico de ocupação dos espaços públicos, de maneira cordial e civilizada, como sempre deve ser.

Ao ser confrontado com conversas que Temer teve no Whatsapp com alguns jornalistas, o presidente voltou atrás e disse que havia desinstalado o aplicativo há duas semanas. Um jornalista mostrou uma conversa que os dois tiveram naquela manhã e o presidente novamente voltou atrás e mandou todos pra puta que pariu.

Após a coletiva, Temer se dirigiu a um restaurante da rede Subway, onde permanece a mais de cinco horas tentando montar o seu sanduíche.
A única coisa que não volta atrás é o tempo, que segue sua lenta e angustiante marcha rumo ao definhamento do corpo e da alma

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Guia CH3: Como organizar um seminário

O mundo corporativo atual é extremamente concorrido e exige qualificação dos seus profissionais. Por isso, podemos observar a realização de tantos seminários técnicos, organizados pelas mais variadas empresas. Um seminário é supostamente bom para os dois lados: para quem assiste, que irá matar um dia de trabalho adquirir novos conhecimentos para sua área de atuação; para a empresa organizadora que irá ganhar profissionais atualizados e, principalmente, demonstrar publicamente que se importa com seu corpo profissional e com toda a propaganda que poderá fazer por conta disso. Este Guia CH3 irá falar sobre a organização básica de um seminário, que dure apenas uma manhã.

O primeiro passo é escolher o nome do evento. É claro que é possível apenas escolher alguma coisa do tipo “I Seminário sobre jornalismo científico”, mas soa pobre e não atraí o público. Para escolher um nome marcante basta utilizar uma fórmula simples: escolher duas palavras que dialogam entre si, seguidas por dois pontos e uma frase vazia que mostre sentido de desafio, futuro e explicações simples.
Exemplos? “Marketing e informação: os desafios da comunicação institucional na era das redes sociais”. “Sustentabilidade e agronegócio: o desafio de alimentar a população em uma época de crise”. “Cultura e tradições: enfrentando os preconceitos linguísticos no século XXI”. Perceberam as duas palavras? A magia dos dois pontos? O uso de palavras-chaves como “desafio”, “enfrentamento”? Escolhido o nome é hora de organizar a estrutura do seminário, o que também só precisa seguir passos simples.

Para começar, o presidente da organização responsável pelo seminário, ou algum diretor, um CEO, enfim, alguém com grande importância dentro da corporação, ou pelo menos cujo cargo denote e transmita uma sóbria sensação de segurança que o que ele diz traduz o espírito da empresa, enfim, esta pessoa irá dar as boas vindas. Em uma fala de cerca de dez minutos – aberta invariavelmente com um “bom dia a todos, eu não pretendo me alongar muito”, ele irá pontuar os ideais da empresa organizadora, elencar os motivos que faz com que todos estejam ali presentes, e tentar dar algum sentido moral para a existência daquela palestra. Ele irá agradecer o público presente, as pessoas fundamentais para que tudo isso estivesse acontecendo e então irá chamar o palestrante principal ao palco.

O palestrante principal será um desses nomes conhecidos pelo nicho específico de pessoas que participam do seminário. Não será um desses popstars do Youtube como Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal, ou participante do Manhattan Connection. Esses reservam suas agendas para palestras específicas, aberturas de grandes eventos ou feiras. O nome escolhido será uma pessoa aparentemente desconhecida, rosto até desconhecido, mas cujo nome exercerá algum fascínio nos profissionais.

Terá um currículo influente, com trabalhos importantes em empresas importantes. Será o responsável por um caso que é um paradigma para a profissão que ele exerce. O cara que reverteu aquela situação tensa que é ensinada nas faculdades, virou um livro e tema de reportagem de um desses programas especiais do Globo News. Quando alguém perguntar quem é ele, outro alguém responderá “é o cara do caso Fazenda Serra Malte” e todos se olharão com espanto e irão aguardar ansiosos o encontro com o messias da carreira.
Pois, essa pessoa não irá fazer uma palestra ou algo do tipo. O que ele fará será uma breve provocação. Uma breve provocação geralmente não conterá nenhum tipo de ofensa e muito menos será breve. Ao longo de meia hora ou mais, a figura influente irá mostrar uma série de slides no Power Point mostrando que a situação está ruim, mas está muito ruim mesmo. Meu deus, está ruim e só nós não fizermos nada, nós apenas iremos piorar. Ele irá contar algumas breves experiências suas, conversas que teve com pessoas influentes de outras áreas, ou até mesmo de outros países, as percepções dessas pessoas sobre essa situação que, vocês não vão acreditar, está muito ruim mesmo e mostrar mais e mais dados. Irá mostrar como a situação está desesperadoramente ruim, uma tragédia debaixo dos nossos olhos e nós nem conseguimos perceber.

Irá contar algumas piadas que manterão a atenção da plateia entre um e outro riso frouxo. E ao final disso tudo, quando as pessoas já estiverem prestes a dormir ele encerrará com uma pergunta que basicamente significa “o que vocês vão fazer para melhorar essa situação”. Após 35 minutos de ladainha numérica e dezenas de gráficos, o experiente profissional não irá oferecer nenhuma resposta, apenas um “se virem moçada”, que é o que consiste a breve provocação. Os mais incautos pensarão que este exponente profissional é na verdade uma farsa, que deve ter passado a vida inteira apenas fazendo questionamentos e recebendo os louros pelas soluções alcançadas por outras pessoas desconhecidas, provavelmente profissionais mal remunerados que eventualmente aparecem na fila do desemprego.

O microfone será aberto ao público e após um breve silêncio, quando todos se sentem tímidos diante da possibilidade de entrar em contato com esta glória profissional no palco, finalmente as perguntaras começarão, fazendo elogios e perguntas que serão sempre respondidas com retóricas vazias e, enfim, ninguém vai sair dali sabendo exatamente o que fazer, mas com muitas dúvidas e a alma leve pelo encontro marcante com a excelência palestrante.


Será então a hora do Coffee Break, quando um buffet qualquer irá oferecer suas esfihas com massa mole e carne moída carregada no tempero, frituras que provocarão azia, eventualmente pequenos sanduiches e até canapés com um paté estranho. Refrigerante em jarras, água saborizada e um suco excêntrico, tipo, suco de melão.

Na segunda parte do seminário, é a hora de alguém contar um case de sucesso. O responsável por esta fala será alguém de dentro da organização responsável pelo evento, um profissional relativamente desconhecido, mas com alguma relevância, que seja bom de fala e responda por um setor vital dentro da indústria.

Ele terá algo em torno de 20 minutos para mostrar uma situação em que a empresa esteve a beira da tragédia diante de um caso que trouxe péssima repercussão para sua imagem. O profissional da casa irá mostrar como tudo começou, as estratégias tomadas e os resultados decorrentes deste trabalho. A palavra chave será transparência em todos os passos. Sim, haverá quem ache que as coisas mudaram um pouco no acaso, afinal, de vez em quando as coisas simplesmente acontecem.

Mas, o objetivo do case de sucesso relatado pelo profissional não muito famoso é dar a todos algumas respostas que faltaram na breve provocação, mas também mostrar para o público presente que qualquer um pode encontrar as respostas nos momentos mais difíceis, mesmo sem ter um MBA em Oxford. A plateia sairá do seminário motivada e convencida de que irá começar a desempenhar um trabalho melhor.
Para finalizar, haverá a famosa mesa-redonda, montada em um lugar que não conta com nenhuma mesa, muito menos redonda, apenas cadeiras alinhadas em um formato de semicírculo. Haverá um mediador – geralmente algum profissional da casa um degrau abaixo do responsável pela abertura – e dois ou três convidados. Um profissional respeitado que trabalhe em uma empresa concorrente da organizadora (para mostrar a imparcialidade e pluralidade de opiniões), alguém que escreve artigos no jornal e já é reconhecido por dar opiniões e a terceira pessoa pode ser alguém que more em outra cidade do Estado – o objetivo é mostrar realmente que ali é um debate sério aberto para diferentes visões do mundo.

Durante 50 minutos, o mediador introduzirá temas simples, mas utilizando uma linguagem que fará com que eles pareçam muito complexos, e os debatedores irão expor suas opiniões, discordando como quem concorda, concordando como quem discorda, enfatizando convergências e aliviando divergências, sempre querendo mostrar que o que todos buscam é um bem comum.

Hora dos agradecimentos a todos, o reforço na mensagem que a manhã tenha sido bastante proveitosa e a expectativa de que outros encontros assim possam se repetir. Ao final dessa manhã gloriosa, todos poderão ir para suas casas com aquela sensação de que preencheram suas almas de conhecimento e que suas vidas serão gloriosas daqui para a frente.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Expectativas frustradas para a continuidade do ano


Afinal, é realmente isso o que você quer para o seu ano?
Entre as expectativas mais estranhas que a humanidade nutre, certamente a de pensar que as primeiras horas de um novo ano irão influenciar todo o seu decorrer é a mais inexplicável. Na virada do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro, as pessoas se prestam aos mais insólitos costumes para que eles supostamente tragam energias positivas para o novo ciclo da terra em torno do sol.

É aquela baboseira toda de escolher uma roupa de uma determinada cor, como se o fato de usar uma camisa amarela, ou uma cueca amarela no milésimo de segundo em que um ano termina e outro começa, como se isso fosse trazer dinheiro. Se a sua maldita roupa branca fosse responsável pelo vago conceito de paz. Se uma roupa vermelha fosse capaz de fazer você conseguir sexo e que, caso fosse verdade, isso não significasse sexo em demasia, até o ponto em que seus órgãos genitais ficariam em carne viva.

Romãs, lentilhas, cerejas, frutas secas. Uma dieta toda específica capaz de trazer boas vibrações para encarar o desafio anual da sobrevivência. Fantasia. Correr com uma mala ao redor da casa para atrair viagens. Uma lenda, já que a pessoa provavelmente sonha com um circuito Paris-Roma-Londres-Nova York, mas pode fazer 47 viagens para Itiquira por conta de sua superstição de ano novo.

Uma das lendas mais curiosas que eu conheço, é uma que tenta estabelecer uma relação entre a chuva do começo do ano com a chuva de todo o ano. Choveu no dia 8 de janeiro? Isso significa que o mês de agosto será chuvoso. Há uma relação ainda mais sofisticada entre a hora da chuva e o período da chuva. Chuva por volta das 13h do dia 9 de setembro equivaleria a chuva no dia 16 de setembro. De madrugada.

(Ano passado, por exemplo, choveu praticamente de maneira ininterrupta entre a virada do ano até o dia 22 de janeiro em Cuiabá. Quem viveu se lembra que desgraça era para secar a roupa no varal. Se a superstição estivesse correta, hoje a cidade já teria sido evacuada, com a população vivendo em lugares altos e a área urbana transformada em um grande lago).

Pois bem, o que as pessoas de certa forma não percebem é que muitos dos costumes da virada do ano acabariam por desgraçá-lo por completo.

O que é que as pessoas fazem para comemorar a chegada do novo ano? Participam de pequenas aglomerações, bebem quantidades mesopotâmicas de álcool, comem pra caramba, dançam e pulam até ficarem completamente extenuadas.

Pense bem: participar de pequenas aglomerações. Se você foi passar o ano novo na Avenida Paulista, muito provavelmente iniciou 2017 cercado por pessoas que você não conhece, que provavelmente agiram de maneira desagradável porque estão alcoolizadas. Logo seu ano será cercado de pessoas com as quais você não gostaria de conviver.

Beber para caramba, misturando as mais diversas variedades alcoólicas resulta geralmente em uma ressaca monumental. Dor de cabeça, fadiga, enjoo. Uma péssima maneira de começar um ano e que certamente influenciará os dias restantes: muita dor de cabeça e cansaço, reforçado por se ir dormir tão tarde.

Comer até passar mal também é um prenúncio das merdas que virão. Da obesidade que irá te acompanhar e que irá frustrar todas as suas expectativas de superá-la.

Para piorar, esse ano começou em um domingo o que significa que aquela sensação frustrante de que o Fantástico já começou veio cedo. O ano mal começou e já era segunda-feira. Uma prévia das frustrações que virão ao longo do ano?

Pelo jeito, mal sabemos, mas realmente as primeiras horas de um novo ano acabam por influenciar todo o conjunto. Mas, da maneira que nós queríamos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Cidadão Ken

Um dos primeiros atos do novo prefeito de São Paulo, João Dória, foi anunciar que no dia seguinte ele estaria de manhã cedo se vestindo de gari no centro de São Paulo. Ele, seu vice-prefeito e todos os seus secretários fariam parte de uma ação inovadora de limpeza da cidade intitulada “Cidade Linda”. “Estaremos vestidos de garis como gente simples que recebe seu trabalho para dar demonstração de humildade, igualdade e capacidade de trabalho”, afirmou o prefeito.

Como promessa é dívida, no dia seguinte João Dória estava lá na Avenida Nove de Julho, vestido de gari, ao lado de um monte de gente. Varreu a rua simbolicamente por cerca de dez segundos e mostrou enorme dificuldade para segurar a pá de lixo e jogar os restos varridos dentro de uma lixeira. Não sei se Dória tem ideia da quantidade de memes que esse seu primeiro dia de trabalho poderá proporcionar em um futuro não tão distante.
Diga onde você vai, que eu vou varrendo
Como desgraça pouca também é bobagem, o novo prefeito afirmou que irá se vestir de gari todas as semanas. Uma incrédula repórter confirmou a informação e ainda perguntou se o fato iria se repetir durante todo o seu mandato. “Durante quatro anos”, respondeu um convicto Dória para a perplexidade geral da nação, como se um prefeito não tivesse mais trabalho para fazer além de se vestir de gari toda semana para tirar fotos enquanto varre ruas por dez segundos.

Claro que nós não podemos descartar a possibilidade de que Dória esteja descobrindo uma nova vocação e que a partir de 1º de janeiro de 2021 ele adote a vassoura e saía por aí cantando o hit do Molejo e varrendo ruas, com uma habilidade desenvolvida ao longo das 208 semanas de seu mandato. Por outro lado, não podemos também ignorar a hipótese de que tudo isso seja um fetiche, que o prefeito sempre sonhou em se vestir de gari e nunca antes teve a possibilidade. Imagino que não é fácil encontrar fantasias de garis em Sex Shops e que não dá pra simplesmente chegar na Companhia de Lixo e falar “oi, eu queria me vestir de gari”. Convenhamos, uma das principais graças de um fetiche é poder se exibir dentro dele.

João Dória foi um fenômeno da última campanha eleitoral. Empresário do ramo das publicações que ninguém lê e promoter de eventos, ele conseguiu sair da rabeira das pesquisas eleitorais para uma vitória acachapante no primeiro turno, isso em uma cidade que nunca antes na história conseguiu ficar em casa no dia de um segundo turno de eleições, desde que os segundos turnos existem.

Para alcançar essa vitória, Dória conseguiu vender a imagem de que ele é um self-made man, um trabalhador, ele conseguiu convencer as pessoas de que ele trabalha! Isso foi impressionante e provavelmente será um dos grandes cases publicitários de um futuro também não muito distante.

A grande pecha sobre ele é a de que ele seria um coxinha, como ficou popular nos tempos atuais. Em tempos remotos ele poderia ser chamado de almofadinha, engravatadinho, mauricinho, são várias as opções. Isso não chegou a ser um problema na cidade que é considerada a mais coxinha do país, conforme as eleições provaram.

No entanto, uma parte do eleitorado ainda demonstra resistência com a sua imagem de figurante do Programa VIP. Justamente por isso é que imagino que alguma brilhante mente - talvez esta mente brilhante seja justamente a do prefeito - pensou em colocar o alcaide vestido de gari numa avenida grande no dia 2 de janeiro de 2017. Vamos pra cima, vamos arregaçar as mangas, vamos mostrar que aqui é trabalho e, pelo jeito, a ideia fez tanto sucesso que o prefeito já confidenciou que pretende repeti-la pelo menos mais 200 vezes.

No entanto, eu acho que essa sua promessa não é satisfatória. Dória precisa abrir os olhos e perceber que os garis representam apenas uma entre as centenas de funções existentes dentro de uma administração pública. Eu penso que nas 207 oportunidades restantes para o prefeito, ele deveria se vestir e simular a atuação em uma profissão diferente. Vamos pensar em um Dória vestido de enfermeiro, em um Dória professor, Dória motorista de ônibus, Dória eletricista e tantas outras profissões com menor ou maior índice de proletariado.

Podemos melhorar essa ideia. Todos nós sabemos que Dória é um fashionista arraigado, que promove encontros bafônicos na Ilha de Comandatuba e em tantos outros lugares do mundo, em que os convidados devem se trajar de acordo com um dress code restrito, que indica inclusive as cores permitidas. Ele já levou essa tendência para a prefeitura, quando pediu recentemente que seus secretários participassem de um evento utilizando calças ou saias azul-marinho e camisa branca.

Assim sendo, ao final do seu mandato teríamos Dória encarnado 200 profissões com um look sempre impecável. Seria tema para um ótimo livro fotográfico, digno de uma exposição em alguns dos tantos espaços culturais paulistanos.

Indo um pouco mais longe, ele poderia lançar inclusive uma linha de bonecos Dória, para competir com o boneco Ken, namorado da barbie, casal que já foi lançado em mais de mil versões estilizadas. Certamente faria o maior sucesso, até porque nunca ouvi falar de uma Barbie Gari.
Pior que tem

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As previsões para 2017


Se pararmos para pensar é melhor não criar muitas expectativas para o ano de 2017. O ano começou em um domingo, o que significa que logo nas primeiras horas do ano a população inteira foi submetida a exibição de matérias emotivas no Globo Esporte. Momentos depois, quando a ressaca estava sendo curada ou mantida, todos já podiam assistir ao Domingão do Faustão. Que coisa terrível.

Pois, foi neste momento nebuloso da existência humana que eu me dirigi à lendária Casa de Diversão Noturna Carnicentas para conversar com Pai Jorginho de Ogum e ter acesso as previsões para o ano de 2017. No ano passado, o pai-de-santo surpreendeu a todos e teve um desempenho arrasador, praticamente oferecendo spoilers do ano que estava começando.

Cheguei no local e encontrei Pai Jorginho de Ogum visivelmente embriagado, ao lado do pedreiro Marcão e algumas garotas. Eles faziam a coreografia de “Deu Onda”, o hit do verão composto por um MC qualquer aí. Constrangido com o flagra, Jorginho tentou fazer o que todas as pessoas fazem quando se veem surpreendidas bêbadas: fingem normalidade. Perguntou se estava tudo bem, falou que já iria fazer o que fosse preciso e soluçou.

Falei para ele das previsões e lembrei sua alta performance no começo do ano passado. Ele disse que não sabia se conseguiria fazer isso de novo e começou a chorar, numa atitude típica do bêbado que entra na fase da negação da própria capacidade (certamente ele já havia passado pela fase da euforia, no momento em que dançava. Em um breve momento ele começaria a fazer declarações para as pessoas e depois iria vomitar).

Respondi seu questionamento dizendo que se ele não fosse capaz eu iria ligar para o Walter Mercado e perguntar o que ele achava que iria ocorrer em 2017. Logicamente ele acreditou, porque pessoas alcoolizadas não tem muito senso crítico. Provocado, ele disse que ninguém ia fazer previsões para a porra do meu blog não. Pegou uma caixa de lápis de cor e fez uma réplica de Romero Brito em poucos segundos e vaticinou 7 previsões para este ano.

1) Você vai se decepcionar muito neste ano: vai se decepcionar com pessoas que você gosta, vai se decepcionar com a política, com aquele filme que você quer ver.

2) Você vai tentar reparar erros passados e não vai conseguir: você já quebrou a cara tentando fazer isso, vai tentar de novo e vai quebrar a cara de novo.

3) O seu dinheiro não será suficiente para comprar tudo o que você quer: entre outras coisas porque o dinheiro não compra a felicidade e, não sei se você percebeu, você não será feliz neste ano.

4) Alguma celebridade estrangeira terá sua carreira destruída após discutir com a internet brasileira: o pior é que você nem conhecia ela antes da polêmica.

5) Você vai se humilhar em situações inesperadas: você achou que iria apenas ajudar, mas acabou se saindo como a pior pessoa do planeta terra.

6) O Brasil não conquistará a Copa das Confederações: situação que aumentará exponencialmente as chances de ganhar a Copa de 2018.

7) Muita gente vai morrer ainda: porque o sistema é foda parceiro.

Finalizadas as previsões, Jorginho me abraçou e disse que gostava pra caralho de mim, me considerava muito, que enfim, eu podia contar com ele para o que fosse. Fui embora antes que ele vomitasse.