sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Gari da Geração Y


A geração Y, para quem não sabe, é composta por aqueles cidadãos que nasceram durante a década de 80. São pessoas que cresceram num mundo de revolução tecnológica, que entraram no colégio fazendo provas mimeografadas e se formaram na faculdade salvando a monografia em um pen drive. São eles que estão entrando no mercado de trabalho e entre eles estão incluídos os três criadores do CH3.

Dizem os sociólogos socialistas que nós somos filhos de uma geração que nasceu e cresceu no confuso mundo pós-guerra, esperando o apocalipse nuclear e com o conceito de trabalhar duro para garantir o futuro dos descendentes. Assim sendo, a Geração Y cresceu cheia de mordomias, sendo acostumada a pensar mais na própria satisfação do que no futuro das próximas gerações. Só que o mundo não quer saber de satisfação.

Somos uma geração de deprimidos, insatisfeitos com a vida e com toda a lógica do mercado atual. Daí é que surgem aqueles vídeos cheios de filtros do Instagram com pessoas fazendo poses em lugares amplos, dando cambalhotas no crepúsculo e sorrindo com o vento no rosto, dizendo que nós temos que ir em busca da felicidade porque todos nós estamos apenas no prólogo de nossas vidas.

Claro que essa geração também tem o seu próprio modelo de sucesso capitalista. Nada mais de engravatados workaholic dando hora-extra em grandes empresas. O novo empresário de sucesso é aquele cara jovial que tem muitas ideias, investe em tecnologia, mas pode tirar seis dias de folga para meditar num templo taoista. Sim, porque o novo empreendedor anda de bicicleta, é adepto de alguma dieta exótica e curte qualquer coisa inserida no marcador “oriental”.

Matérias adoram replicar a história do Fulano de Tal que investiu na criação de um aplicativo e tem uma banda hipster. Trabalha em casa, aliás, numa espécie de república estudantil com móveis despojados e com todos os moradores superestimando The Smiths. Eles investem em Startups, empresas moderninhas de tecnologia que ganham um status messiânico.

Tem o cara que passa o dia inteiro jogando golfe e no fim do dia liga um aplicativo e dá carona para pessoas na região de Las Vegas. Assim ele ganha a vida, para continuar jogando golfe que é o que ele gosta. E você pensa que legal seria passar o dia inteiro vendo putaria na internet e depois passar duas horas cobrando para dar caronas, ou em outro trabalho bobo, para passar as outras 22 horas vendo putaria na internet que é o que você quer da sua vida. E assim surgem os especialistas que dizem que no futuro todos irão trabalhar desta forma, reorganizando a lógica do mercado de trabalho, descentralizando as funções antes dominadas por grandes empresas.

Tudo muito bonito, tudo muito legal, mas eu vejo um problema nisso tudo. Todos esses negócios envolvem atividades até certo ponto prazerosas e que podem fazer bem para você e para os beneficiados com o seu trabalho. Mas e o trabalho sujo? Muito legal você dar carona para os outros ou fomentar os artistas de rua de Bangkok. Mas quem é que vai limpar a rua? Quem é o gari da geração Y?

Sim, nas cidades em que moramos nós temos milhares de pessoas invisíveis, mal remuneradas e vitais para o funcionamento da engrenagem. Pessoas que limpam a rua, desentopem fossas, cozinham em restaurantes, limpam os pratos, erguem, rebocam e pintam o muro. Em um mundo em que as pessoas trabalham duas horas por dia e passam o resto do tempo curtindo a vida, presumo que infelizmente ninguém irá querer limpar fossas alheias.

Ou haverá um aplicativo limpa fossa no Facebook que você irá ligar e uma pessoa disposta a limpar a sua fossa entrará em contato? Ninguém irá se oferecer para limpar as ruas por duas horas para passar o resto do dia jogando Call of Duty. Ou rebocando paredes uma vez por semana para montar uma ONG que ensina reiki para crianças carentes.
E os garis, Casoy?

Sem contar a questão da demanda para os serviços de tantos aplicativos. Como será um mundo cheio de pessoas ganhando a vida dando caronas e sobrecarregando o Android alheio? Pela lógica do mercado, em pouco tempo os serviços de tecnologia estarão baratos e os lavadores de prato e cozinheiros ganharão fortunas nos restaurante, aumentando os custos com alimentação, gerando desemprego, fome e caos urbano. E o iPhone não vai te salvar. O mundo não quer saber de satisfação pessoal.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O caso do check-in falso

O telefone tocou e o visor mostrou que era uma ligação de sua namorada. Abaixou o volume da televisão, apertou o botão verde e começou a escutar os mais diversos xingamentos. Foram ofendidas a sua honra, a sua postura, seu caráter, sua mãe, sua família em todas as gerações, acompanhada de um desejo que suas cavidades fossem violadas. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo ou falar qualquer coisa, ela encerrou a ligação entre um soluço e outro.

Ficou atordoado, olhando para a televisão com o volume baixo. Permaneceu assim por um tempo indeterminado, meio pensando no que iria fazer, meio não pensando em nada. Resolveu retornar a ligação, inseguro. O telefone tocou duas vezes e foi atendido por mais uma série de ofensas. Em uma breve brecha questionou o que havia acontecido e foi ironizado, foi citado junto com o Facebook e uma biscate, não nesta ordem necessariamente. Antes de desligar, ordenou que ele nunca mais a procurasse.

Continuava sem entender. Tentou ligar novamente, mas não foi atendido. Foi para o computador. Entrou no Facebook e percebeu que tinha três novas notificações. A primeira se referia a um convite para um joguinho besta. A segunda era de uma amiga que o havia marcado em um check-in no Lua Morena. Nem viu qual era a terceira. Foi direto no check-in e lá estava ele, supostamente no Lua Morena em uma noite agradável. “Biscate”, pensou.

Nunca conseguiu comprovar que estava apenas vendo o último capítulo da novela. Seu namoro terminou e a única medida prática que conseguiu foi mudar sua configuração de privacidade no Facebook.

Enquanto isso, em outro lugar do mundo, um cidadão passava pelo mesmo problema, tendo que explicar para a mulher que foi marcado por engano ou por maldade em um puteiro. Isso acontece todos os dias.

Proteja sua vida. Proteja sua privacidade. Solicite autorização para ser marcado no Facebook.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Olimpíadas de Inverno

A princípio a Noruega pode parecer um país meio fracassado. Sim, eles têm o maior IDH do mundo e devem viver em um conforto absurdo, com índices sociais invejáveis. Criaram um modelo de desenvolvimento a partir da exploração do petróleo que serve de exemplo para vários outros países que nunca conseguem colocá-lo em prática. Mas, convenhamos que você nunca escutar falar nada sobre a Noruega nem sobre sua capital Oslo, exceto quando um franco atirador aparece por lá.

Nos grandes eventos mundiais, a Noruega passa praticamente despercebida. É difícil se lembrar de alguma grande personalidade norueguesa. Eles participaram de apenas duas Copas do Mundo, com resultados discretos. Nas Olimpíadas eles também conseguem poucas medalhas, no Handebol (esporte coletivo mais coadjuvante de todos) e em provas de remo, canoagem e vela, herança dos povos vikings, provavelmente.

Uma busca pelo Google por “personalidades norueguesas” se revela inútil, com uma série de nomes desconhecidos, exceto o pintor Edvard Munch. Para que serve, afinal, a Noruega? Bem, para ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos de Inverno. Os noruegueses são uma potência nessa competição e acumulam conquistas em modalidades como o Biatlo e o Esqui Cross-Country.

Na teoria, os Jogos Olímpicos de Inverno tem o mesmo peso das nossas Olimpíadas normais, tanto que nos países nórdicos a distinção entre “de Inverno” e “de Verão”, é obrigatória. Para nós, pelo menos, os jogos de inverno são absolutamente sacais com a disputa de algumas categorias que não deveriam sequer ser chamadas de esporte.

O Biatlo, tão forte na Noruega consiste numa prova em que os atletas têm que esquiar na neve e depois atirar num alvo. Esquiam alguns quilômetros, param num lugar e tem que acertar alguns tiros no alvo. Voltam a esquiar, depois atiram de novo. Quem conseguir completar o percurso no menor tempo, ganha. Seria como se no Triatlo, os participantes tivessem que correr 10 km, disputar uma partida de boliche e ainda fazer algumas flexões.

Se contarmos ainda o Bob Marley, percebemos que a Jamaica é muito mais conhecida que a Noruega
Algumas provas são mais normais, como os diferentes tipos de esqui, a patinação (equivalente da ginástica rítmica das Olimpíadas de verdade) e o hóquei no gelo. Já o Bobsleigh ficou famoso depois do clássico “Jamaica Abaixo de Zero” e consiste numa descida de trenó em alta velocidade. Existem outras modalidades que também consistem nisso e nem os especialistas sabem explicar a diferença entre eles.

Os próprios noruegueses foram os responsáveis por criar uma modalidade conhecida como “combinado nórdico”, que envolve esqui cross-country e salto sobre o esqui. Uma combinação aparentemente aleatória e que para espanto geral, não é vencida pelos noruegueses desde os saudosos jogos de 1998. Na Noruega, a modalidade é conhecida apenas como Kombinert.

ô lá em casa
No entanto, a grande estrela dos Jogos Olímpicos Sem Graça, é o curling. Ele é a síntese da competição. Uma modalidade tão sem sal e nonsense que acabou ganhando uma série de adeptos. Até mesmo o campeonato mundial da categoria é exibido nas televisões pagas.

Consiste no confronto entre duas equipes munidas de rodos e pedras de sabão. Um cidadão arremessa a pedra e outros tantos esfregam. Essa pedra bate em outras pedras localizadas no meio de um círculo e ao final disso tudo, uma equipe se sagra vencedora sem que ninguém saiba o porquê.

Pois, este evento mágico está prestes a acontecer novamente, desta vez em Sóchi, cidade russa com 300 mil habitantes na beira do Mar Negro. Como não poderia deixar de ser, o CH3 não irá falar nada sobre essa competição.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

3 Propostas de Roteiro de Novela

Dia desses vai ao ar a nova novela das oito escrita por Manuel Carlos, provavelmente a sua última obra. Já sabemos o que esperar: muita bossa nova, famílias do Leblon com oito empregadas uniformizadas em casa, gravidezes complicadas, triângulo amoroso envolvendo o José Mayer e um drama pastelão envolvendo a personagem principal que se chamará Helena e um off meloso no videoshow celebrando as histórias que só o Maneco consegue contar.

(Nesta novela, Manoel Carlos tentará nos convencer que seria possível que Bruna Marquezine fosse filha de Julia Lemmertz e que a Julia (50 anos) e Gabriel Braga Nunes (41 anos) tem a mesma idade)

Isso não é culpa do Maneco. Novelas da Glória Pérez sempre envolvem pontes áreas inusitadas e a discussão estereotipada de algum tema social. Silvio de Abreu sempre promove algum assassinato misterioso. Tem aquele outro que sempre coloca uma temática de pescadores ao melhor estilo Jorge Amado. Novelas são sempre iguais.
Realmente, acho que vai ser a última novela dele

Pensando em diversificar os temas abordados na telinha, o CH3 propõe os seguintes roteiros para novela.

Roteiro 1
A novela se passa em uma comunidade judaica da Bessarábia durante a revolução comunista de 1917. O núcleo central conta com a família Werner que convive com o drama de ter um filho que quer aderir a Revolução. Um dia, o jovem Samuel conta que está indo para Moscou derrubar os czares, deixando para trás sua namorada e sua família. Confundido com um menchevique, Samuel é mandado para um campo de concentração na Sibéria, onde ele morre. Seu pai decide partir atrás do filho e também morre na Sibéria. Em uma série de eventos trágicos toda a família morre na Sibéria. Anos depois, primos distantes que migraram para o Brasil resolvem investigar a história e traçam uma estranha ponte aérea Rio de Janeiro/Moldávia. O protagonista finalmente chega a Sibéria e também morre. Fim. Ah, os atores irão aprender iídiche para a fase inicial da novela.

Roteiro 2
A novela se passa no Leblon. José Mayer interpreta um senhor de idade que traça todo os galãzinhos de malhação que aparecem na sua frente, tornando-se no primeiro garanhão homossexual das novelas. A trama se centra em uma família, com dois irmãos. Um é o filho predileto, que também é inescrupuloso, sustentado pelos pais e acusado de queimar um mendigo na Barra da Tijuca. O outro é o filho preterido, sempre teve que batalhar para ter tudo e tem um trabalho honesto. O filho inescrupuloso passa um golpe nos pais e fica com todo o dinheiro da família, mas consegue transferir a culpa para o irmão. O irmão vai para a cadeia, perde a namorada e os amigos, enquanto o inescrupuloso tem uma vida de farra e orgias nas boates mais chiques da cidade. Engravida uma menina e não assume a paternidade, mata os pais envenenados e coloca a culpa na empregada analfabeta. O irmão bonzinho e a empregada apodrecem na cadeia. O vilão se torna prefeito e estabelece uma rede de corrupção estatal e não para de enriquecer. Fim.

Roteiro 3
Um grupo de três amigos de São Paulo. Um é zoófilo, o segundo é fã do Bon Jovi e o outro comenta notícias no G1. Eles partem para uma viagem de bicicleta rumo a Amazônia, mas durante uma discussão provocada pela abstinência do terceiro em comentar notícias, o zóofilo para a bicicleta para molestar uma preá e eles acabam atropelados por um caminhoneiro bêbado na entrada de Guarantã do Norte. Desesperado, o caminhoneiro foge. Dirige mais de 2.000 km até sua casa no interior de Santa Catarina. Ao chegar no seu quarto ele pega sua mulher em uma suruba com dois anões e o Walter Mercado. Ele dá um tiro na cabeça. Assustados, os anões voltam para o circo em que trabalhavam. O circo segue seu caminho itinerante pelo interior do Paraná. Em Toledo, eles encontra um grupo de paraguaios refugiados da Guerra Civil espanhola. Ao serem informados de que a Guerra Civil acabou há pelo menos 70 anos eles embarcam para a Espanha onde acabam sendo confundidos com exploradores sexuais e são mandados para o Tribunal de Haia. O piloto do avião encontra Pedro Almodôvar e os dois vivem um tórrido romance. Um casamento é marcado, mas ninguém conhece os noivos. Em Guarantã do Norte, três amigos acordam e percebem que foram enterrados vivos. Os três eram catalépticos e não sabiam. Um circo pega fogo em Maringá. Paraguaios são presos. Almodôvar ganha o Oscar. Walter Mercado falta ao casamento com a viúva do caminhoneiro. Fim.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Guia CH3: viagens pelo interior

Enquanto você está lendo este post, eu estou na estrada, viajando pelo infinito insólito de Mato Grosso. Coisas do meu trabalho nos últimos dois anos. Pelo menos é uma oportunidade de colecionar histórias e conhecimentos. Irei compartilhar alguns neste guia, que irá te ajudar a sobreviver neste meio cruel – o interior de qualquer estado. Para evitar processos e constrangimento, irei omitir o nome de algumas cidades.

COMIDA
Nunca coma maionese. Repita isso como um mantra. Evite também coisas cruas e cremes que você não sabe se foram bem conservados. Isso irá te ajudar a não precisar vagar pela madrugada atrás de um hospital que muitas vezes pode nem existir. Dependendo do lugar, evite comer muito, principalmente se você for pegar uma estrada de chão. Os buracos podem revirar seu estomago.
Parece que há uma cabeça alienígena ali no meio, não?

Viajando pelo interior você também acaba engordando. Isso acontece porque em toda a parada o seu inconsciente acredita que aquele será seu último contato com a civilização e que talvez você nunca mais irá conseguir comer alguma coisa normal. Resista a esta tentação. Ao contrário da maioria dos bancos, a Coca Cola já chegou a todos os 5.570 municípios brasileiros.

Ah, sempre confira a data de validades dos produtos.

CIDADES
Nunca, em hipótese nenhuma, faça alguma piada sobre a situação de uma determinada cidade. Ela pode ser pobre, feia e você pode até sentir pena dos seus moradores, mas converse com eles e concorde que a situação está melhorando. Quanto menor é o conglomerado, maior é o bairrismo de seus moradores.

Atente-se aos hábitos locais. Em uma cidade cujo nome lembra a palavra “caravana”, as rotatórias são chamadas de queijinhos. Esta cidade também deveria ser mundialmente conhecida por conta das larguras de suas avenidas. Tão largas que os moradores devem dizer que “fulano mora longe, lááá do outro lado da rua”. Já em “Elevada Selva”, os retornos são em mão inglesa e você pode se envolver em acidentes de trânsito se não prestar atenção nisso.

HOTÉIS
Os mais chiques costu-
mam a ter um rodo de
brinde
Sempre leve um sabonete quando for viajar pelo interior. Sim, aqueles sabonetes de hotel são muito ruins, mas nem eles existem na maior parte dos hotéis. E, dependendo do horário que você chegar à cidade, não irá conseguir comprar um.

Faça suas necessidades fisiológicas antes de tomar banho. O boxe de banho é um item raro, tanto que até hoje me lembro de apenas dois hotéis em que eles existiam. Assim sendo, depois que você toma banho a privada fica molhada e sentar no vaso é muito mais desconfortável. Em “Elevado da Adequada Paisagem”, a privada ficava exatamente em frente ao chuveiro. Neste mesmo hotel, quase provoquei um curto circuito na hora em que liguei o chuveiro. Se você estiver dividindo o quarto com alguém, corra.

Sempre leve repelente. Em alguns lugares, irá ajudar a não deixar os insetos caminharem sobre você durante a noite.

Na hora de dormir, esqueça o ambiente ao seu redor e se concentre apenas na sua cama, que, em todos os casos, também tem boa chance de ser bem ruim. Em “Elevado Adequada Paisagem”, dormi em um quarto que tinha besouros rolando pelo chão. Em “Caravana”, dormi em um hotel razoável, mas cujas paredes estavam cheias de barro, dando a impressão de que alguém deitou na cama assim que chegou depois de brigar na lama. Já em “Não-antiga Clementina”, havia uma marca branca duvidosa na parede. Um colega meu perguntou “que porra é essa” e eu disse “isso mesmo”.

Sempre leve dinheiro. Como já foi dito, é uma mentira que existam caixas de banco em todos os 5.570 municípios do Brasil.

BANHEIROS
Caso você não tenha conseguido visualizar
Particularmente, acho que o sistema anti-
derrapante na lateral é um mimo
Mato Grosso é um estado continental e você pode rodar mais de mil quilômetros e ainda estar dentro dele. Viajando de carro você sempre terá que parar no meio do caminho para fazer algumas necessidades. Não deixe o seu preconceito de lado. Se você olhar um estabelecimento e ele parecer meio mal cuidado por fora, tenha certeza que o banheiro será pior ainda.

Em todo esse tempo, já passei por muitos banheiros ofensivos, mas apenas dois embrulharam o meu estomago. O primeiro ficava em “Caravana”, onde eu concluí que um cidadão havia morrido durante uma diarreia, porque ninguém que tenha cagado a ponto de sujar a borda da privada iria conseguir sobreviver. A outra vez foi em “Ponis”, onde o banheiro era daqueles com privada direto no chão e o cidadão havia errado a mira. Seus dejetos já estavam ali há pelo menos 40 dias e o banheiro cheirava a decomposição.

SEBRAE
Outro problema é que muitas das pequenas empresas do interior se constituem em negócios familiares e não exatamente por pessoas que se prepararam para gerir um negócio. Portanto, prefira pagar a diária do hotel na hora da entrada, para evitar que no dia seguinte alguém não reconheça o acordo feito com a pessoa da noite anterior. Da mesma forma, muitos lugares podem aceitar cheque e não dinheiro, o garçom pode não anotar os pedidos e enfim. Não pense que vai adiantar reclamar no Procom.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CH3 no BBB

Como os membros do CH3 se saíram caso participassem do Big Brother Brasil?

Vinícius Gressana seria um participante fraco. Ele iria por em prática tudo o que foi proposto neste texto do CH3, um dos seus favoritos. As pessoas poderiam relevar o fato de ele passar feijão no próprio corpo, mas de forma alguma iriam aceitar ele se deitando no sofá lambuzado de feijão.

Tackleberry não iria ganhar o programa, mas descobriria alguma maneira de desviar o dinheiro da premiação de forma a conseguir fugir para as Bahamas.

Guilherme seria aquele cara eliminado na primeira semana, com os participantes dizendo que não tem nada contra, mas que ele não se enturmou com o grupo.

Pai Jorginho de Ogum se tornaria uma liderança natural dentro da casa, apontando o caminho e desvendando as estratégias para a vitória. Seus dons sobrenaturais fariam com que ele ganhasse todas as provas de liderança, além do carro. Na hora H ele acabaria sendo eliminado no momento em que confrontasse algum bombadão acéfalo.

Marcão seria eliminado logo, porque as pessoas se sentiriam incomodadas com seus hábitos pouco higiênicos. Sério, um cara que nunca dá descarga não iria longe. Seus vídeos iriam fazer sucesso na internet, transformando-o em meme.

Cão Leproso seria aquele que ficaria de longe observando as mulheres bêbadas de biquíni na beira da piscina, ficaria de longe observando a fila da tequila e as pessoas no ofurô. Infelizmente, ele seria eliminado na primeira prova que exigisse alguma atividade manual.

Hanz, o Pansexual provocaria o primeiro caso de intervenção federal dentro da casa. Depois de começar a sodomizar a pia da cozinha durante uma entrada ao vivo, o BBB teria sua exibição proibida. A Polícia precisaria entrar no cenário para retirá-lo logo no segundo dia. Isso depois que todos os outros integrantes já estivessem trancados dentro de um quarto separado.

Alfredo Chagas se daria bem no começo, com sua fala magnética e seus discursos idealizadores. Sua formação marxista faria com que ele dividisse a casa em dois grupos, mas sua natureza dúbia lhe aproximaria dos dois lados e Alfredo seria eliminado no momento em que descobrissem que ele confabulava com oposição e situação. Antes, ele faria o maior discurso de despedida da história, obrigando a Globo a cortar a transmissão no meio.

Guilerme Original morreu, portanto, no máximo, ele só poderia me ajudar a ganhar o programa se eu chorasse quando descobrisse que meu boneco de isopor passou dessa para a melhor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Roteiro de um evento qualquer

O povo vai as ruas, o povo vai aos shoppings, o povo vai à merda. Não importa o movimento, ele sempre seguirá o mesmo roteiro.

1) O evento acontece. Foi marcado pela internet, por telefone ou por pombo correio. A população que não estava acostumada com isso fica chocada e a polícia não sabe como reagir. A imprensa notícia brevemente o fato e não dá muita importância.

2) O evento volta a acontecer. A situação toma ares de calamidade pública. A imprensa teme pela segurança da família brasileira e conclama que as autoridades solucionem o caso. As autoridades se pronunciam e prometem medidas duras para conter qualquer violência. A polêmica chega ao Facebook e as pessoas começam a se dividir entre apoiadores e contrários.

3) Novamente o evento acontece e a polícia desce o cacete nos envolvidos. A imprensa anuncia que a polícia usou da força para combater os vândalos e se dá por satisfeita. A violência policial choca parte do público que começa a questionar o porquê daquilo tudo. Autoridades defendem a ação da polícia. A polícia se defende.

4) Leonardo Sakamoto pública um texto defendendo as pessoas que participaram do evento. Surgem dezenas de vídeos mostrando abuso policial. A discussão começa a ganhar um ar filosófico e a imprensa começa a ser acusada de manipulação. Autoridades mudam o discurso e dizem que o evento é legítimo, desde que feito de maneira pacífica.

5) O embate começa a tomar ares de direita x esquerda. Surgem textos que claramente defendem o que ocorreu e prometem explicações definitivas para o que aconteceu, utilizando palavras como “etnologia”. Até quem era contra começa a se mostrar a favor e dar o seu ponto de vista. O Globo News faz um programa especial para discutir o assunto. Vários outros eventos são marcados em vários lugares do país.

6) O evento volta a acontecer. Metade dos seus participantes são estudantes de Ciências Sociais. O embate direita x esquerda vai para as ruas. Os velhos adeptos reclamam dos novos e criticam a apropriação de discurso de quem não tinha nada a ver com aquilo. A imprensa comemora o caráter pacífico do evento e lamenta a presença de poucos vândalos. A internet é infestada de vídeos de pessoas utilizando a máscara do V de Vingança prometendo guerra.

7) Os eventos acontecem todos os dias e o Globo News começa a transmiti-los ao vivo, de helicóptero. Os idealizadores do evento dizem que não tem mais nenhuma ligação com o que está acontecendo e volta pra casa. Surgem os Black Blocks.

8) O evento virá uma batalha de fotos do Instagram. As pessoas descobrem que o Mídia Ninja transmitiu todos os eventos realizados em São Paulo desde o começo. Um carro da imprensa é queimado.

9) O evento começa a perder a graça e os Black Blocks viram a única notícia. A população começa a cobrar atitudes da polícia que parece não estar nem aí, como se falasse “não estava ruim pra vocês? Olha no que deu”. Pablo Capilé é entrevistado na TV. A discussão passa a ser entre Velha Imprensa e Nova Imprensa.

10) Ninguém mais vai ao evento, ninguém mais comenta. O Globo News volta a discutir a inflação. Um reality show entra na sua reta final. Pablo Capilé responde críticas. Leonardo Sakamoto publica outro texto. Outra discussão idiota começa no Facebook. Pessoas postam fotos de comida no Instagram. Tudo continua igual.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Grandes Rolezinhos da História

Uma nova polêmica tomou de assalto a nossa rotina nesta semana. Jovens de classe baixa começaram a se organizar pela internet para ir até shoppings e atrapalhar as pessoas que não estão acostumadas com a sua presença naquele lugar, provocando correria desvairada e pânico doentio em eventos tipificados como “rolezinho”. A novidade provocou discussões entre psicólogos, antropólogos, antropófagos e psicotrópicos tentando definir se os rolezeiros eram marginais que devem ser condenados à forca ou se são jovens querendo diversão.

Pesquisadores falham apenas ao tratar o assunto como novidade. Desinformação. O rolezinho está presente na história da humanidade como convém lembrar abaixo.

Grécia Antiga
Como não poderia deixar de ser, os gregos foram os primeiros a registrar a prática do rolezinho. Aconteceu durante a Guerra de Troia, quando um grupo de jovens gregos insatisfeitos com a falta de opções de lazer na antiga Atenas resolveu invadir o território de Tróia. No entanto, Tróia era cercada por muros e não permitia o acesso de estranhos. Os gregos resolveram construir um cavalo gigante de madeira e se esconderam dentro deste cavalo e foram até a porta de entrada de Tróia e ofereceram o cavalo como um presente. Os troianos em nenhum momento acharam aquilo estranho e puseram os gregos para dentro. Lá dentro, eles assustaram os habitantes com seus hábitos estranhos, principalmente os seus beijos polêmicos.
Presente feio pra caramba, eu jamais deixaria entrar na minha casa

Rolezinho dos Bárbaros
Não era fácil ser um ostrogodo no começo do século IV. Não havia muitas ofertas de lazer e emprego e as cidades careciam de infraestrutura e sofriam com a superpopulação. Para piorar, Vikings e Hunos acabaram dando um rolezinho em suas terras. Os hunos, aliás, transformaram tudo em pasto de cavalo. Sem alternativa, os ostrogodos se juntaram a alguns vândalos e foram dar um rolezinho no Império Romano, que então era um modelo de comportamento para a humanidade. A presença dos Bárbaros incomodou os romanos que se assustaram com suas cantorias e o Império ruiu pouco tempo depois.
Gente diferenciada

Península Ibérica
Em um mundo globalizado, os muçulmanos do norte da África ficaram sabendo dos rolezinhos no começo do século VIII. Sim, na época a informação demorava um pouco mais para circular. Os mouros cruzaram o estreito de Gibraltar que os separavam da até então inacessível península ibérica, assustando os visigodos que já haviam expulsado os latinos de lá com os seus rolezinhos.

Cruzadas
O Oriente Médio é uma região complicada do ponto de vista geopolítico. O local onde hoje está situado o Estado de Israel possui terras sagradas para árabes, judeus e cristãos e se bobear até para os cientologistas. Todos eles queriam conquistar este território que no começo do segundo milênio era dominado pelos árabes, provocando insatisfação nos cristãos. Utilizando-se das redes sociais da época, os cristãos resolveram dar um rolezinho por aquelas bandas e provocaram altas confusões, mais tardes relatadas em um filme péssimo do Ridley Scott. Diferente dos rolezinhos atuais, os dessa época agradaram muito o comércio.

Gengis Khan
Certo dia, o líder do Império Mongol se cansou de fazer churrascos para a rapaziada e resolveu dar um rolezinho por aí. Ultrapassou a muralha da China, a China inteira, a Ásia. Seus rolezinhos ultrapassaram os 20 milhões de km² o que corresponde a uma área grande pra caralho.

Novo Continente
Com o tempo já não havia novos lugares passíveis de receber um rolezinho. Assim sendo, portugueses, espanhóis e até mesmo holandeses, ingleses e franceses, resolveram dar a desculpa de que iriam procurar Cravo e Canela e vieram dar um rolezinho na América. Chegaram aqui com suas roupas excêntricas, seus hábitos esquisitos e provocaram revolta nos frequentadores das atuais terras, que reagiram muito mal e iniciaram uma confusão danada.

Napoleão
Napoleão Bonaparte foi um imperador famoso por dar seus rolezinhos por aí, chegando até a Espanha, Sacro Império Romano-Germânico, Império Austríaco e Prússia. Incontrolável, ele resolveu ir até a Rússia e quebrou a cara. Os russos não permitiram o rolezinho e ele foi isolado em uma ilha no meio do Mediterrâneo. Insaciável, voltou e acabou dando seu último rolezinho em Waterloo, na Bélgica.

Rolê do Fuhrer
O pintor Adolf Hitler foi outra celebridade famosa por dar seus rolezinhos pela Europa. Dono de um discurso poderoso, ele convenceu milhares de alemães a tomarem Paris e todos os sobreviventes deste evento falam de como foi incomodo acordar de manhã e ver que os alemães haviam conquistado a cidade. Hitler, no entanto, incorreu no mesmo erro cometido outrora por Napoleão e resolveu dar um rolezinho na Rússia. O frio derrubou a rapaziada que não pode curtir um Wagner em alto volume. Inconsolável, Hitler tomou veneno, meteu um balaço no peito e queimou seu corpo. Suicida convicto.
Sábado, na balada.

Até hoje, a Rússia não tolera quem se mete a dar rolezinhos em seu território.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Selfies & Braggies

Self-fracasso
O dicionário de Oxford, que acredito que seja um livro ou uma entidade importante, escolheu “selfie” como a palavra do ano de 2013. Algo interessante porque eu e metade da humanidade¹ só soubemos de sua existência e conhecemos o seu significado, tirar uma foto de si próprio, a partir do momento em que a decisão do dicionário foi noticiada pelo mundo.

A decisão não deixa de ser algo interessante porque proporciona uma reflexão. Palavras são criadas. Observe todas as palavras utilizadas até o momento neste texto e pense que todas elas têm uma origem. Não sabemos quando elas entraram em nosso vocabulário. Elas pré-existem nossa existência e vagam constantes pelo espaço indefinido. Mas, todas elas um dia foram criadas, originadas do latim, do tupi ou de alguma onomatopeia popular em algum período.

Como vocês podem imaginar, este post não será sobre a origem das palavras, até porque eu não sou filólogo e não teria competência para falar sobre isso. Vamos falar mesmo é de internet.

Faz muito pouco tempo que “selfie” foi agraciada com o título de palavra do ano. O dicionário tomou essa decisão no final de novembro, provavelmente no momento em que eles fechavam a sua retrospectiva interna. Mal tomamos ciência de sua existência e a imprensa mal começou a utilizá-la de maneira descontraída, descolada e impune e já surge na internet uma corrente que defende que selfie é coisa do passado, só que a onda agora é namorar pelado. Digo, a nova moda é o “braggie”.

(Curioso que na divisão entre apocalípticos e integrados na internet sempre existe uma corrente que diz que alguma coisa já é ultrapassada, que já há uma novidade muito melhor. Era 2007 e a população mal tinham se acostumado a possibilidade de postar mais de 12 fotos no Orkut e algumas pessoas já decretavam a morte do site do Buiú. Era 2010 e eu li um artigo em que alguém questionava se era sério que as pessoas ainda utilizavam o MSN e quando três anos depois o MSN resolveu se integrar ao Skype o próprio Skype já estava superado. Agora, muitas pessoas já decretam a morte do Facebook. O motivo, acredito, é que nossos pais chegaram até lá. Mas, o mundo é cruel, vivemos em um ciclo e um dia nós é que seremos os pais estragando as redes sociais dos nossos filhos. No fundo, a internet vive em um constante fluxo de descoberta e de pessoas que se sentem privilegiadas por fazer parte de um grupo pequeno. O próprio “selfie” deve ter sido vítima deste comportamento, uma vez que agora ele é conhecido, deixou de ser legal. A culpa, provavelmente, é dos analistas de mídias sociais. Essa profissão meio idiota, mas que tem o meu respeito, porque acredito que todo fim de ano eles sofrem muito para explicar para os tios e avós o que é o trabalho deles e tem que aturar aqueles olhares piedosos de ‘coitado, não deu em nada pra vida’).

E que porra final serie esse “braggie”? Simples, consiste no fato de fazer as pessoas sentirem inveja de você na internet. Os “braggies”² mais comuns são: tirar uma foto fazendo pose em algum lugar paradisíaco, mostrar que você está num lugar super legal, muito bem vestido e comendo uma comida maravilhosa. Afinal, quem não queria estar assim?
Guilerme (in memoriam) bragueando a rapaziada

A princípio, o “braggie” me parece algo muito idiota. Por uma simples razão: a internet inteira é um “braggie”.

Sim, veja o instagram que é uma rede social baseada em tirar fotos de pratos de comida e de vocês em lugares paradisíacos fazendo coisas legais. Ele é uma rede “braggie”, desde antes de a palavra existir. Veja a sua timeline no Facebook e perceba que seus amigos também estão em lugares paradisíacos, bebendo cervejas legais, curtindo a vida numa balada muito legal enquanto você está aí no seu apartamento mofado pensando se seria legal bater punheta com a mão trocada.

Veja que o Facebook inteiro é composto por pessoas tentando dizer que estão fazendo coisas legais o tempo inteiro. Veja que o “braggie” é uma palavra inútil, porque o que ele tenta definir já é conhecido como “internet” há pelo menos 20 anos.

¹ No caso, a outra metade da humanidade não leu essa notícia porque tinha alguma coisa mais importante para fazer.
² Me imagino falando, “fazendo aspas” com a mão.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando o ano começa, afinal?

No Brasil é normal dizer que o ano só começo depois do carnaval. Por trás deste exagero, de fato existem muitas razões para postergar o começo do ano e o subsequente começo dos trabalhos mais sérios.

Tecnicamente, 2014 começou no exato momento em que o ponteiro dos segundos ultrapassou o 12, deixando o ponteiro dos minutos e das horas para trás. As pessoas gritaram, as pessoas comemoraram e pronto: estávamos em um ano novo. No entanto, Einstein já nos ensinou que o tempo é relativo, portanto, estar em um novo ano não significa necessariamente que ele começou. A noção do começo costuma a ser atrelada ao momento em que o trabalho chega.

Veja que o ano já começa com um feriado e em muitos lugares com um recesso. Janeiro é o período das férias e as capitais ficam vazias, com todas as pessoas se amontoando expostas ao sol em pequenas faixas de areia na beira de uma imensidão de água salgada. Logo depois, em algum momento indeterminado que fica entre fevereiro e março o carnaval chega e as pessoas voltam a se dedicar ao ócio. Para completar, as duas maiores cidades do país têm feriados municipais no começo do ano. Assim sendo, os dias entre o Réveillon e o carnaval passam em uma espécie de Stand By.

No momento em que o último envelope é aberto e a Beija-Flor é declarada campeã do carnaval carioca, o ano deveria começar. Mas, já é quarta-feira, o expediente volta só depois do meio-dia e o final de semana está logo aí. Não podemos esquecer também, que apenas 40 dias depois do Carnaval chega a Páscoa e logo depois já temos Tiradentes e o dia do Trabalho não está muito longe, isso sem contar finados. Quando acaba, nós já estamos em Julho, as crianças saem de férias, as coisas esfriam.

Então já vem a independência, o dia da padroeira, finados, proclamação da repúbica, consciência negra¹... e então já estamos no Natal, abraçando nossos inimigos e desejando que no ano que vem tudo vai ser melhor. Quando vamos ver já estaremos em 2015 e o ciclo começará depois e nunca mais irá se encerrar.

De certa forma então, é possível dizer que o ano nunca começa, nenhum ano jamais começou. O ano é apenas uma convenção é cabe a cada um de nós decidir quando ele vai enfim começar. Você pode ser desses ativos que acordam no 1º de Janeiro cheio de disposição, mas pode ser daqueles que acha que o ano não termina nunca no dia 1º.

Imagino que algumas profissões devam ter algum paradigma de começo de ano. O dentista sabe que seu ano começou quando ele fez seu primeiro canal. O repórter de polícia começa o ano no primeiro defunto e o coveiro no seu primeiro enterro. Para alguns, o ano já começou e, no entanto o mês já acabou porque o salário só deu pra 10 dias.

Na china eles estão no ano 4711. Para os judeus já passamos do ano 5 mil e para os árabes ainda estamos em 1435. Para os maias o mundo já não existe mais e para você, quando o ano começa?

¹Infelizmente, este não é o caso de 2014. Ano em que todos os feriados do segundo semestre irão cair em sábados e domingos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos – Epílogo


Acordei com meu celular tocando. Olhei no visor e eram 11h12. Subitamente fui acometido de um Déjà Vu e um mal-estar, mas logo percebi que eu estava na minha cama naquele dia 2 de Janeiro. Percebi que era o Elemento X que estava ligando.
- Fala XXXXX!
- E aí cara, como você está, encontraram o Tackleberry?
- Encontramos sim. Ele conseguiu chegar na casa dele.
- E onde ele estava?
- Bem, ele disse que acordou na City Lar, mas não sabe como chegou lá.
- Pois é, tenho algo pra dizer.

O Elemento X contou que teve acesso a imagens das câmeras de monitoramento das ruas que mostram o meu carro chegando em Cuiabá pela estrada de Jangada por volta das 6h da manhã. De lá, seguimos aparentemente direto até a City Lar da UFMT, onde estacionamos sobre a calçada.
- Você não acredita em quem também estava com vocês? O L...
- Sim, ele agora trabalha com o Vinícius.

Pela leitura labial, Tackleberry desceu do carro dizendo “vamos ver se tem alguns salgadinhos aqui”. Ele seguiu até a entrada, eu e o Vinícius ficamos um pouco para trás, o Fabinho na porta do carro. A loja estava trancada e subitamente o Fabinho correu para o carro numa clara tentativa de furto. Eu e Vinícius percebemos. Tentei entrar pela Janela com o carro já em movimento e Vinícius subiu em cima do capô. O carro arrancou e logo entrou em uma área não monitorada. Tackleberry ficou para trás ao lado do Lenilson e comentou.
- Que merda!
- E de novo não tem salgadinhos!

Depois os dois acabaram dormindo no chão e foram observados por alguns curiosos que tentaram checar se eles estavam mortos e tiraram algumas fotos.

Agradeci ao XXXXXX pelas informações e então, tudo passou a fazer sentido.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 7

Diante do silêncio de Tackleberry no telefone resolvi puxar o assunto.
- Cara, como que você tá, onde você está?
- Eu estou na minha casa.

Naquele segundo comecei a pensar em mil coisas. Maldito fosse o menino Fabinho que deixou o Tackleberry em casa e falou que ele sumiu, nos fazendo de bestas rodando pela cidade com um Papai Noel traficante. Mas, porque o irmão dele estava procurando por ele de manhã?
- Porque você está com meu celular? – perguntou Tackleberry e só então eu lembrei que ele ainda estava sob o efeito do guaraná cristalizado amnésico.
- Cara, é uma longa história. Eu estou aqui com o Vinícius, a gente vai te levar o seu celular e a gente te conta.
- Pode ser mais tarde? Estou com dificuldades em explicar aqui porque eu cheguei em casa sem meu carro e sem meu celular e eu não consigo lembrar de nada.
- Como você chegou em casa?
- Peguei um taxi. Preciso desligar.
- Beleza. Ah, quer um conselho? Toma um copo de leite com Toddy e Nescau misturados.
- Por quê?
- Ah, você vai entender.

Então pensei que poucas pessoas devem ter Toddy e Nescau em casa. Geralmente você tem um ou outro. A vida é assim. Você pode mudar de religião, de time de futebol, de partido político, de opção sexual e de sexo. Mas ou você prefere Nescau ou prefere Toddy. Isso nunca muda.

De certa forma era um alívio saber que Tackleberry estava vivo, restava a curiosidade em saber onde ele estava. Combinei com o Vinícius de passar no Carnicentas para ele pegar o carro dele e mais tarde eu passaria na sua casa, para irmos até o Tackleberry.

Chegamos até a casa de diversão norturna e eles estavam assando um pernil na área externa. Jorginho de Ogum perguntou como estavam às coisas e eu disse que pelo menos sabíamos que o Tackleberry estava vivo e na casa dele, só não sabíamos como ele chegou lá. Expliquei que Hanz foi preso por esfregar o pênis em alguns carros e Jorginho disse que não. Que já havia ido buscar ele na cadeia e a história dos carros foi só o começo da sua noite, depois ele fez coisa muito pior. Eu não quis entrar em detalhes.

Jorginho disse que aquele amigo esquisito nosso também tinha passado por aqui, pegou o carro e foi embora sem falar nada. Bem, isso era um sinal de que ele não morreu por nossa culpa. Contei que ao que parecia, nos envolvemos em uma pequena confusão no centro político e depois fomos até Jangada, onde o Papai Noel quis dar uma mijada na curva em que o Chico Gil morreu...
- Esse cara é um barato – interrompeu o Borboleta.
- E enfim, foi isso o que nós sabemos que aconteceu. – completei.
- Pelo menos ninguém foi violado sexualmente – argumentou Jorginho.

Vinícius foi para sua casa e eu me despedi do pessoal no momento em que Alfredo Chagas apareceu com uma garrafa de Marajá e uma bíblia debaixo dos braços, falando sobre a importância de estar sempre em movimento. Olhei o carro de Tackleberry estacionado sozinho e me lembrei de uma festa na faculdade em que um colega de curso teve que deixar seu carro estacionado no local porque havia perdido as chaves. As chaves, por sua vez, estavam no bolso do Tackleberry. Pensei em como a vida era cíclica e sempre haverá alguém chegando em casa sem o seu carro.

Olhei os papeis da City Lar no chão do carro e pensei em jogá-los fora na hora em que chegasse em casa, uma espécie de resolução de ano novo. Só então percebi que um panfleto anunciava a liquidação pós-natal. Estranhei, porque eu não havia ido para a referida loja nem em qualquer lugar que entregasse papeis da City Lar nos últimos 10 dias. Será que foi em um semáforo? Pensei.
***
O primeiro dia do ano já se encaminhava para seu terço final quando eu cheguei na casa do Vinícius para irmos até o Tackleberry com o seu celular e algumas explicações. Pensei com o Vinícius, que tomara que ele não tenha feito nenhuma tatuagem na cara, arrancado um dente ou algo parecido, porque sempre tem alguém que carrega marcas eternas em situações assim. Vinícius disse que a nossa sorte é que era feriado, então não tinha nenhum lugar aberto. Concordei.

Não demoramos muito para chegar porque o trânsito estava ótimo no feriado. Chegamos até a casa do Tackleberry e ele parecia perturbado. Perguntei se ele tinha tomado o leite e ele disse que não, porque ninguém tem Toddy e Nescau em casa e todos os supermercados estão fechados. Deixei que ele falasse.

Ele explicou que só se lembrava de abrir a geladeira para pegar alguma coisa e depois de acordar num sol escaldante em um lugar desconhecido que ele então reconheceu ser a City Lar em frente a UFMT. Estava deitado no chão.
- E cara, vocês não vão acreditar em quem estava dormindo ali também. Era o L...
- Sim, ele agora trabalha comigo – disse o Vinícius – faz um mês mais ou menos.
Tackle então viu que estava sem o celular no bolso, apenas com sua carteira e resolveu pegar um taxi.
- E o L...
- Ficou lá.

Começamos a explicar então tudo o que aconteceu. Que ele havia ido à Carnicentas para a festa de Réveillon, que lá nos bebemos um pouco e acabamos desafiando Alfredo Humoyhuessos a produzir um coquetel amnésico e então saímos para aprontar altas confusões na rua, ao lado também do Menino Fabinho, do Hanz e de um cara vestido de Papai Noel.

Tackleberry escutava a tudo atenciosamente. Expliquei que o Toddy com Nescau era o antídoto para as frutas cristalizadas. Mas que ao que nós descobrimos, participamos de uma briga provocada por um acidente de carro no Centro Político, depois fomos até Jangada por sua sugestão, e enfim. Depois disso as coisas ainda estavam meio nebulosas, não saberíamos dizer como é que ele foi parar na porta da City Lar e, enfim, era isso o que tinha acontecido.
- O Hanz não sabe de nada?
- Não, ele foi preso por atentado ao pudor.
- O Papai Noel também não?
- Não, ele estava preso no porta-malas.
- E o Fabinho?
- Ele já estava em Primavera do Leste quando acordamos. Ninguém tem o contato dele.
- E o L...
- É, ele talvez se lembre, mas ninguém falou com ele.

Dei uma carona para Tackleberry até a Casa de Diversão, para que ele pegasse seu carro. Ele ainda parecia não acreditar em nada. Chegando lá, o clima estava decadente, com Marcão dançando sozinho uma música de Reginaldo Rossi, enquanto os outros descansavam. Borboleta olhou para o Tackleberry como quem via um fantasma e Tackle me perguntou quem era esse cara. Levei-o até o bar, aonde ele tomou a mistura mágica e voltar a se lembrar do que aconteceu na festa.

Resolvemos voltar para nossas casas e assim terminava aquele primeiro dia do ano conturbado. Antes de sairmos, Pai Jorginho de Ogum disse.
- Vão por mim. Tem coisas que é melhor que vocês nem lembrem que aconteceram.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 6

Paramos no primeiro semáforo e o telefone do Tackleberry voltou a tocar novamente. Novamente era uma ligação a cobrar. Desliguei. Não é possível que alguém ainda faça ligações a cobrar em pleno 2014. Perguntei ao Papai Noel se, mesmo no porta-malas, ele havia percebido o carro parado em algum lugar, se havia escutado alguma coisa. Ele disse que o carro parou algumas vezes, mas ele estava muito ocupado para prestar atenção em qualquer coisa.

Perguntei pro Papai Noel o que ele fazia no resto do ano enquanto não estava entregando presentes para as criancinhas, invadindo chaminés e tudo mais. Ele disse que dava seus pulos. Perguntei se não havia nenhuma atividade específica e ele disse que não ia responder, porque nós somos amigos de PM. “Você acha que tem só brinquedo nesse saco aqui, porra?” disse irritado.

Começou uma espécie de silêncio constrangedor e eu resolvi ligar o rádio. Quase perdi o controle e bati em um poste. O aparelho estava sintonizado na Rádio Easy e tocava uma música do Roxette em volume ensurdecedor. Papai Noel riu. Comecei a imaginar sete pessoas em um carro tocando Roxette na estrada de Jangada e ri também. Abaixei o volume e mudei para o meu pen-drive, que tocava Black Dog do Led Zeppelin.

Segui em direção da casa do Papai Noel no Jardim Europa. No meio do caminho olhei pelo retrovisor e vi que ele estava dormindo. De sua boca saia uma espuma amarelada e por um instante pensei se não seria melhor parar em um pronto-socorro. Vinícius achou melhor não. Pensamos sobre o que aconteceria se ele morresse no banco de trás. Mas ele logo acordou e, resmungando, limpou a espuma no antebraço.

Cheguei a porta da casa do Papai Noel e desci para levantar o banco, porque meu carro não é quatro-portas. Me despedi e ele disse para o chamarmos quando tivesse outra noitada. Disse que com certeza faria isso. Antes de ir embora fiz uma última pergunta. Porque ele considerava o Menino Fabinho um delinquente, se ele não fez nenhum comentário sobre a atuação do garoto durante a noite. Papai Noel sorriu e disse:
- Eu sou o Papai Noel, porra. Eu sei quando os garotinhos se comportam bem ho ho ho.

Voltei para dentro do carro e comecei a conversar com Vinícius.
- O que a gente faz agora?
- Sei lá, faz um B.O.
- E como que a gente faz um B.O. dizendo que estávamos num carro com um adolescente de 14 anos dirigindo, um cara vestido de Papai Noel e...
- É...
- Mas sei lá. A gente deve ir no IML? Avisar a família?
- Avisar a família é foda. Como que a gente diz pra mãe dele que, olha, o Tackleberry foi pra uma festa de Réveillon com a gente, mas ele sumiu.
- Ou que ele morreu. Não sei como o irmão dele não ligou de novo.
- A família já deve estar procurando a essa altura.
- Daqui a pouco nós vamos ser procurados pela polícia.
- Foda que imagina o noticiário depois.
- Publicitário morre após noitada com pansexual, adolescente e Papai Noel.
- Hahahahaahahahah
- Ex-colegas são principais suspeitos.
- Pelo menos ainda vai ter um obituário foda.
- E ainda tem o L...
- Nem me fala. Pessoal do banco vai ficar puto com ele.
- Sim, sacanagem morrer nessa época do ano... principalmente se não terminou todo o trabalho.
- Pior.
- Pior que a gente nem pensou no que pode ter acontecido com ele. Ele deve ter família também, amigos que vão sofrer com isso.
- Dúvido.
- É...
- Brincadeira. Foda, ai são dois mortos. Ou dois desaparecidos.
- O XXXXXX¹ disse que ia avisar se soubesse de alguma coisa.
- É. Se dois caras tivessem morrido na noite do Réveillon, ele já estaria sabendo.
- Mas, o foda é que vai saber por onde a gente andou nessa noite. Acho que nunca saberemos. Só se a gente encontrar o L...
- Quando voltar ao trabalho eu pergunto pra ele, se ele estiver vivo.

O relógio do carro apontava que já estávamos além das duas horas da tarde. O tempo estava nublado naquele primeiro dia do ano e nós estávamos num semáforo da Avenida Beira Rio quando o telefone do Tackleberry voltou a tocar. Pensei, foda-se, vou atender de uma vez.

- Alô.
- Oi, quem tá falando?
- É... esse aqui é o telefone do Thiago, mas ele... ahn, quem tá falando aqui é o Guilherme.
- Opa cara, aqui é o Tackleberry.

Fiquei em silêncio. Ele também.

¹Nunca revelamos o nome do Elemento X, para evitar problemas profissionais.

Continua

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 5

O Papai Noel tinha um hábito curioso de xingar todos os motoristas que demonstrassem um mínimo de hesitação em qualquer ação do trânsito. Passou devagar no quebra-molas, pegou um buraco em cheio, fez a curva fechado demais, cortou a rotatória ao meio, furou o sinal descaradamente, não importa. O mais curioso é que não eram simples palavrões. O Papai Noel criava expressões idiomáticas excêntricas para ofender os outros motoristas. “Seu aprendiz de chupeteiro!” dizia para um, “engolidar de rolas rotundas”, dizia para outro, os motoqueiros eram motobichas e alguns mereciam o status de “filha da puta completo”. Quando se deparava com um “filho da puta completo”, ele passava a discorrer sobre a espécie, como se estivesse diante de um animal imponente.

Entre uma ofensa e outra ele começou a nos contar o que havia acontecido naquelas primeiras horas do ano. “Vocês falaram que iam para a rua e um pessoal resolveu ir junto. Aquele delinquente juvenil tomou o volante, aquele velho tarado sentou no banco da frente e vocês resolveram ir todos espremidos no banco de trás”. Bom saber que mesmo alterados, nenhum de nós havia perdido o senso totalmente.
- A rua estava vazia, nenhum filho da puta nela. Então meu telefone tocou, um parceiro meu disse que estava numa merda e pediu minha ajuda.
- O que aconteceu?
- Ele foi desviar de um buraco, perdeu o controle do carro e acertou dezenove carros que estavam parados no centro político.
- Porra, dezenove carros!
- Ele é foda, ele bota pra quebrar!
- Mas o que aconteceu?
- Não houve sobreviventes.
- Caralho! Morreu todo mundo?
- Não, não tinha ninguém no carro, então ninguém sobreviveu a batida, hahahaha, porra.
- E quem é esse cara?
- Amigo meu, vocês não conhecem.

Neste momento, já estávamos nos dirigindo até o local do incidente, como se para poder ver tudo aquilo com nossos olhos. Lá havia três carros ainda parados e quatro cidadãos conversando com dois policiais. Estacionei o carro e na mesma hora um dos caras apontou.
- São eles! Olha o Papai Noel!

Armado com um pedaço de pau ele veio em nossa direção perguntando onde é que estava aquele viado barbudo. Papai Noel achou que era uma provocação e a Polícia precisou intervir. Neste momento, por sorte, pude observar que o policial era um amigo nosso. Ele começou a nos contar que os quatro cidadãos estavam fazendo um B.O., dando conta de que deixaram os carros estacionados ali porque estavam nas proximidades do local, quando escutaram um barulho e se deram conta de que um sujeito não identificado havia atingido todos os 19 carros que estavam estacionados. Eles discutiam amigavelmente o que seria feito, quando um veículo estacionou e de dentro dele desceu um sujeito vestido de Papai Noel, gingando capoeira e arremessando balas de caramelo contra eles. Antes que pudessem ter qualquer reação, outro cidadão seminu – era você Vinícius? – surgiu do nada e começou a esfregar seu pênis nos carros. Chocados com a cena, tentaram conter o cidadão que passou a molestar todos os presentes e enquanto isso o Papai Noel e o provocador do acidente fugiram.

Questionei o que eles estavam fazendo no Centro Político de madrugada e eles desconversaram. Insisti na pergunta e um deles falou “deixa pra lá pessoal, essas coisas acontecem”. Foi então que outro dos protestantes apontou para o Vinícius e falou “eu conheço você de algum lugar”. Fez-se um silêncio sepulcral enquanto os dois se encaravam. O cidadão pensou um pouco e disse. “Peraí, você é o Feliz?”. Vinícius confirmou e os dois passaram a conversar sobre quadrinhos, videogames e o sujeito ainda pediu um autografo.

Aproveitei para conversar com o policial e avisar que Tackleberry estava desaparecido. Perguntou que informações nós tínhamos sobre o caso e eu contei tudo o que eu sabia. Ele me disse que assim que soubesse de alguma coisa, ele me avisaria. Perguntei se seu número de celular ainda era o mesmo de sempre e para variar, não era.

Voltei com Vinícius e com o Papai Noel para o meu carro. Perguntei ao Papai Noel o que havia acontecido depois deste incidente no CPA e que eu daria uma carona até a casa dele. Ele falou que nós fugimos e pegamos a estrada da Guia. O Tackleberry falou que já estava com fome e o Vinícius deu a sugestão de ir comer um pastel em Jangada. Todo mundo achou a ideia muito divertida e nós fomos até lá. Infelizmente, não havia uma única pastelaria aberta na cidade e todas as pessoas pareciam estar dormindo. Resolvemos voltar com o estomago vazio e ele disse que queria dar uma mijada, mas não uma mijada qualquer, tinha que ser na curva em que o Chico Gil morreu. Ele deu a sugestão de que nós poderíamos assistir o nascer do sol ali. Também resolveu surrupiar uns milhos que cresciam na beira da estrada e abriu o porta-malas para guarda-los. Neste momento, nós o empurramos para dentro e fechamos a porta. O carro ainda circulou algum tempo e ele tirou um cochilo. Depois de um bom tempo parado, resolveu tocar umazinha.
- Como você consegue dormir no porta-malas? – perguntou o Vinícius.
- Estou acostumado. – respondeu o Papai Noel.
- Como assim?
- Vocês não conhecem nada dessa porra dessa vida.

Neste momento o telefone de Tackleberry começou a vibrar no painel do meu carro. O número não estava registrado na agenda. Atendi e era uma chamada a cobrar. Resolvi desligar, não ia fazer uma sacanagem dessa com o cara.

Continua

domingo, 5 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 4

Diante daquele cenário só nos restava tentar entender o que havia acontecido depois que o Dolly com frutas cristalizadas entrou em nosso organismo. Precisávamos de alguma forma encontrar o Tackleberry. Pensei que deveríamos ligar para ele, então ele atenderia o telefone diria onde é que ele estava ou então alguém atenderia o telefone e diria o que estava acontecendo e um dia nós ainda iríamos rir muito disso tudo. O celular sempre nos cria uma ilusão de que irá resolver todos os problemas da nossa vida.

Vinícius discou os números e no momento em que seu celular completou a ligação, um telefone começou a tocar em cima do balcão do bar. Por alguma razão, todos nós resolvemos sair do Carnicentas sem levar nossos celulares. Será que temíamos um rastreamento? O que temíamos? Perguntei ao Vinícius:
- Você tem o telefone do L...
- Nem.
- É, aí complica.
- Sem dúvida.
- Mas, pensando bem...
- É, ele sumiu durante seis anos, não faz diferença se ele sumir mais seis.
- Segunda ele aparece lá no seu trabalho, ele sobreviveu ao interior do estado esse tempo todo.
- Verdade.

Encontrar o Papai Noel e o Hanz nem era uma grande preocupação. Talvez o primeiro fosse o responsável por tudo e o Hanz deveria estar preso novamente. Aliás, seria muito mais fácil se ele permanecesse preso o tempo inteiro. Pai Jorginho de Ogum disse que ele tem até o telefone da Delegacia de Crimes Sexuais, que sempre liga até lá nos períodos em que o Hanz desaparece. Pedi para ele fazer isso e não deu outra, ele estava lá e o delegado perguntou quando é que alguém ia busca-lo.

Borboleta deu a sugestão de que nós deveríamos ir até a delegacia buscar o Hanz e tentar entender o que é que havia acontecido. Refutei a ideia, Vinícius também. Se saíssemos com Hanz novamente, iríamos começar um novo ciclo de terror e nunca mais conseguiríamos resolver nada, passaríamos o resto das nossas vidas apenas tentando nos salvar.

O telefone de Tackleberry começou a tocar novamente. Olhamos no visor e conferimos que já eram 12h37 e que quem estava ligando era o seu irmão, o popular Senhor M. Atendi e falei que Tackleberry estava no banheiro. Senhor M pediu que avisássemos para que ele voltasse logo, a família estava esperando-o para o almoço. Respondi que ele não precisava se preocupar.

Vinícius comentou que deveríamos olhar no carro e ver se encontrávamos alguma pista. Falei que era uma boa ideia, que esse é um clichê de filme que geralmente dá certo. Sempre pode ter alguém preso no porta-malas e tudo mais. Era hora de ir para a rua. Nos despedimos daqueles que ainda ficavam, menos de Alfredo Chagas que continuava dormindo abraçado numa garrafa de uísque paraguaio. Enquanto saíamos, Alfredo Humoyhuessos soltou o tema de Armageddon nos alto falantes do bar. Este velho anda muito brincalhão, alguma coisa aconteceu com ele.

Dentro do meu carro havia um livro sobre a história de Mato Grosso e alguns panfletos da City Lar. Mas, eles não diziam nada, já que estavam ali há algum tempo. Sim, estou precisando limpar o meu carro. Não havia nada de interessante ou que pudesse ajudar. Vinícius abriu o porta-malas e o clichê se completou, o Papai Noel estava lá dentro. Se masturbando. Rapidamente ele se recompôs e disse “ho ho ho, porra, feliz natal seus filhos da puta”.

Por um momento pensei em vender o carro. Pensei que merda estava acontecendo. Diante do silêncio meu e do Vinícius, o Papai Noel falou “que foi porra, nunca viram o saco do Papai Noel”. Questionei apenas que era um tanto quanto doentio se masturbar trancado no porta-malas de um carro. “Você não conhece nada da vida, porra”, o Papai Noel disse.

Gaguejando levemente, Vinícius perguntou se ele havia tomado Dolly com frutas cristalizados e o Papai Noel respondeu “olha pra minha cara porra, vê se eu tenho cara de quem toma uma merda dessa”. Quer dizer então que ele se lembrava do que aconteceu de noite? Ele disse que sim, que nós tínhamos ido curtir a vida e perguntou se eu tinha isqueiro, fazia um tempão que ele não fumava um. Respondi que não e ele disse “merda”.
- Eu me lembro de tudo o que aconteceu. Pelo menos até o momento em que vocês me pegaram desprevenido e me trancaram no porta-malas.
- Quando é que isso aconteceu?
- Quando nós paramos para ver o sol nascer na estrada pra Jangada.
- Caramba, nós estávamos em Jangada?
- Vocês não lembram? Fomos até lá para tentar comer um pastel, mas estava tudo fechado.
- E quem trancou você no porta-malas?
- Não sei porra, eu estava de costas na hora em que isso aconteceu.
- Mas, quem estava lá em Jangada?
- Vocês dois, aquele adolescente delinquente... um cara que vocês chamavam de Taco e outro cara estranho.
- E o Hanz? O Pansexual.
- Argh, aquele velho filho da puta.
- Ele também estava em Jangada?
- Não, ele já tinha ficado pra trás. Acho que foi depois daquela briga que teve no Centro Político.
- Briga?
- Porra, vocês não lembram? Vou dar uma mijada e já volto.

Continua

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 3

Cheguei na Casa de Diversão Norturna Carnicentas por volta das 21h do dia 31 de dezembro de 2013. Sim, Diversão Norturna. Pai Jorginho de Ogum havia feito uma reforma no lugar e a pintura na parede saiu com um erro de português. Quando cheguei ao lugar, encontrei Vinícius Gressana com um copo na mão e conversando animadamente com o Cão Leproso. Cumprimentei os dois e então reparei em um cara sentado no sofá e mexendo no celular.
- Cara, aquele ali não é o L...
- Sim, é ele mesmo – respondeu Vinícius.
- Cara eu não via ele desde o... terceiro semestre. Achei que ele tinha morrido.
- Eu também achava. Mas esses dias ele virou meu colega de trabalho. Acabei convidado ele pra vir aqui. Ele veio.

Fui cumprimentar o indivíduo também. Ele disse que se lembrava de mim. Falou de um dia em que foi comigo e com o Tackleberry num mega feirão da City Lar, no intervalo de uma aula de sábado, para ver se nós encontrávamos uns salgadinhos. Disse que foi o dia mais feliz da vida dele. Perguntei por onde é que ele andava ultimamente e ele disse que andou ai pelo interior do estado, não quis dizer o que estava fazendo, só falou que a vida não estava fácil. Concordei e encerrei a conversa.

Parei em frente ao local onde os Benga Boys montavam o palco. Perguntei se os instrumentos estavam afinados e eles responderam que isso pouco importava. Tratei como um bom sinal. Passei por Pai Jorginho de Ogum e fiz uma piada sobre o Norturna pintado na parede. Ele reconheceu que não foi uma boa ideia colocar Marcão na supervisão geral de toda a reforma. Perguntei por onde o Marcão estava e Jorginho disse que ele ia chegar mais tarde, uma vez que ele e sua mulher estão brigados, porque ela alega que Marcão a transmitiu leishmaniose. Por conta disso, ela incendiou todas as cuecas do pedreiro e ele precisa resolver essa situação.
- Comprar cuecas novas? – Perguntei.
- Não exatamente – respondeu Jorginho.
Acho que compreendi o significado e segui em frente. Jorginho disse para tomar cuidado com Alfredo Chagas que está numa fase meio mística.

Logo encontrei Alfredo. Perguntei para ele como ele estava, se já desistiu da sua contrarrevolução da oligarquia proletária e ele me respondeu:
- E você acha que isso foi motivo para eu desistir? Para eu jogar tudo para o alto e não ousar mais em meus princípios? Que eu alguma vez blasfemei contra deus? O todo poderoso que unge sobre nós de maneira convicta e imponderável regendo os modernos princípios da taxidermia?
Fingi que Hanz, o pansexual estava chegando e fui embora.

Já passavam das onze da noite quando Tackleberry chegou na festa, me encontrou e me perguntou.
- Cara, aquele ali sentado no sofá é o L...
- Sim, é ele mesmo.
- Cara, achei que ele tinha morrido.
- Parece que ele é colega de trabalho do Vinícius agora. Pergunta pra ele.

Mais um pouco e vi Pai Jorginho de Ogum, Marcão e um cidadão de bata amarela conversando animadamente. Logo reconheci que era o Borboleta e parei para conversar com ele e ele falou exatamente a mesma coisa que me falaria na manhã seguinte. Quando avistei o menino Fabinho do outro lado do saguão, perguntei para Jorginho se o garoto havia sido revistado.

Finalmente encontrei o reverendo Alfredo Humoyhuessos no comando do bar. No balcão também estava sentado um cidadão vestido de Papai Noel. Por um instante pensei que era Hanz, o Pansexual, mas logo vi que era o Papai Noel que eu havia acompanhado na noite do natal. Logo que me viu, ele me xingou de filho da puta e diante da minha apreensão, pediu desculpas e disse que era assim mesmo que ele agia quando estava longe daquelas crianças catarrentas que pedem presentes. Virou duas doses de uísque de uma vez e eu me lembrei que o alcoolismo é considerado um problema sério no mundo dos papais noéis. Pedi alguma coisa para Humoyhuessos e não sei o que era, mas estava muito bom. “Anos de estudo”, ele me garantiu.

Quando a meia-noite estava se aproximando, Hanz apareceu com várias garrafas de cidra grudadas de maneira senxual no seu corpo. Por sorte, Jorginho havia escondido uma garrafa de champanhe e coube ao Cão Leproso estourar a rolha ao final da contagem regressiva. Por motivos de segurança, resolvi não tomar nada que me oferecem no meio do salão.

Minha impressão era de que os Benga Boys já haviam tocado todas as suas músicas pelo menos uma quatorze vezes, mas essa é a impressão que se tem mesmo quando se está ouvindo hardcore. No meio daquele barulho resolvi fazer logo as previsões para 2014 com Jorginho de Ogum. Pensei, que quem sabe nos primeiros minutos do dia ele não consegue um resultado melhor.

Depois que todos já tinham se cumprimentado e desejado um monte de coisas uns aos outros, voltei até o balcão de Humoyhuessos, onde o Papai Noel permanecia impassível aquele tempo todo. Tackleberry e Vinícius se juntaram a mim e como havia um bom tempo que não nos reuníamos começamos a repassar todos assuntos do ano. E então no fluxo da conversa e de drinques, veio a pergunta sobre “Se Beber não case”. Minha última lembrança é a de Vinícius segurando duas garrafas de Dolly, uma em cada mão. Depois, só me lembro de acordar no meu carro às 11h12 do dia primeiro de janeiro.
Continua

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos - Parte 2

Na verdade eu ainda tinha muitos questionamentos. Como assim nós perdemos o Tackleberry? Quem era esse outro cara conosco? O que um cara vestido de Papai Noel estaria fazendo dentro do Carnicentas? Jorginho de Ogum demonstrava um olhar vazio, como se não tivesse nada que pudesse fazer por nós. Borboleta se sentou ao seu lado e me olhava da mesma maneira. Por um momento, pensei que os dois poderiam formar uma dupla sertaneja bizarra.

Vinícius continuava sentado, com aparência desolada. O pedreiro Marcão acordou e disse que precisava cagar. Eis que surge, impecável em linho 120, Alfredo Humoyhuessos o professor pesquisador colombiano que também é coreógrafo. Sempre que o vejo, penso em fazer alguma reverência. Perguntei por que ele estava ali e ele disse que havia sido convidado por mim para participar do Réveillon.
- Você me disse que o Amigo Oculto do blog foi terrível e que vocês iriam fazer uma grande festa de ano novo. Me ofereci para fazer os drinks.

De fato, Humoyhuessos carregava uma fama de ser ótimo barman. Ele contou que chegou e logo começou a realizar grandes misturas entre destilados, fermentados, sucos, frutas e sua imaginação e estudos. Jorginho opinou que foi a melhor gin tônica que ele já havia tomado.
- Vocês já estavam bem animados, quando começaram a falar que corriam o risco de fazer igual aquele filme “Se Beber não Case” e me perguntaram se existia um drink que provocasse amnésia profunda. Eu disse que sim e vocês falaram que duvidavam. – contou Alfredo.
- E daí? – eu disse.
- Se há algo que eu não tolero, é que duvidem de mim. Portanto, eu preparei um drink que apagou a memória de vocês. Aliás, não só do que vocês haviam feito depois, mas do que fizeram antes do drink. – prosseguiu Alfredo.
- É, você nos dopou? Que droga foi essa? – perguntei.
- Não tinha droga nenhuma. Eu apenas misturei Guaraná Dolly com frutas cristalizadas. O corpo resolve apagar todas as memórias. É um mecanismo de defesa para esquecer o sabor. – disse Alfredo.
- Porra, mas aí pegou pesado. – comentou Borboleta.
- Todo mundo bebeu isso? – eu perguntei.
- Não, só você, o Vinícius e o Tackleberry que beberam.

Então, Jorginho de Ogum contou que eu, Vinícius, Tackleberry, um cara vestido de Papai Noel, um amigo nosso, Hanz, o Pansexual e o menino Fabinho havíamos saído no meu carro para curtir as primeiras horas do novo ano. Falei que, caramba, éramos sete no meu carro e todos estávamos bêbados. Jorginho disse que o menino Fabinho foi dirigindo. Porra, ele tem 14 anos, argumentei. Mas... se nós não nos lembramos de nada, como é que vocês sabem que nós perdemos quatro pessoas?
- Quando você, o Vinícius e o Fabinho chegaram, ele disse que os quatro haviam desaparecido em algum momento da noite. Ele não sabia como. – disse
- Caramba, onde que ele tá? Ele pode nos dizer o que aconteceu.
- Não dá. Eu já o levei pra Rodoviária às 8 da manhã. Aliás, vocês chegaram nesse horário porque ele ia pegar o ônibus para Primavera do Leste. Disse que tinha uns assuntos pra resolver por lá.

Marcão saiu do banheiro, passou pelo catatônico Vinícius e nos perguntou o que havia acontecido. Mostrei as fotos para ele e ele se indignou. Começou a brigar com Vinícius, dizendo que a Dalila era uma menina de ouro e antes que Marcão esfregasse as mãos na cara de Gressana, ele se levantou, renascido. Chegou perto de onde eu, Jorginho, Borboleta e Alfredo estávamos. Expliquei para ele o que tinha acontecido e Vinícius disse que já sabia. Que toda a cena já havia acontecido com ele na hora em que ele acordou, inclusive com os Benga Boys dizendo que iriam embora, Jorginho dizendo que estava dormindo no seu quarto e Humoyhuessos surgindo em um terno de linho 120. Borboleta falou que agora os Benga Boys já haviam ido embora mesmo. Vinícius completou.
- Agora Humoyhuessos vai dizer que ele tem o antídoto pra fazer a gente se lembrar do que aconteceu. Mas eu NÃO QUERO me lembrar do que aconteceu.

Eu estava disposto a aceitar o desafio. Humoyhuessos falou então que eu me lembraria apenas do que aconteceu antes de eu tomar o Dolly com frutas cristalizadas, porque o que aconteceu nas horas seguintes o meu corpo nunca iria se lembrar. Que isso era Darwin puro. Vinícius disse que, porra, se fosse o que aconteceu antes ele aceitava lembrar também e porque Humoyhuessos não havia avisado isso.

Um pouco ressabiados, aceitamos um copo de leite com Toddy e Nescau misturados. Parecia inacreditável que aquilo pudesse dar certo. Mas, incrivelmente, no momento em que eu terminei o copo, as memórias voltaram a aparecer na minha cabeça.

(Continua)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Previsões, Perdas e Danos

Acordei e demorei alguns segundos até perceber onde eu estava. Primeiro percebi que eu estava dentro do meu carro que estava estacionado em algum lugar que não era a minha casa. Olhei no relógio e vi que eram 11h12 da manhã. Foram mais alguns segundos enquanto a confusão mental se acalmava e eu percebi que era o dia 1º de Janeiro. Olhei em volta e reconheci que eu estava no estacionamento da Casa de Diversões Noturnas Carnicentas.

Lembrei que todo dia 1º de Janeiro eu vou até aquele local para falar com Jorginho de Ogum e pegar suas previsões sempre furadas sobre o ano que vai começar. Em 2013 este maldito charlatão acertou metade das previsões apenas, mas nenhuma delas foi espantosa. Mas porque raios eu estava dormindo no meu carro na frente do estacionamento? Por um segundo pensei no risco que eu estava correndo mas logo lembrei que ninguém assalta a Carnicentas. O único que tentou fazer isso teve a sua casa invadida por um alemão que usava um fio-dental de látex e que molestou todos os objetos da casa, inclusive o revólver.

Resolvi entrar no estabelecimento e a situação era deprimente. Bem, sempre é. Encontrei Marcão dormindo enrolado em uma guirlanda florescente. Alfredo Chagas estava abraçado em uma garrafa de uísque paraguaio. Olhei em um canto e vi Vinícius Gressana sentado, encostado na parede, com os braços abraçando seus joelhos. Ele estava acordado e com o cabelo molhado, típico de quem havia acabado de tomar banho. Vinícius não esboçava nenhuma reação, apenas fitava o nada com os olhos perdidos, enquanto o Cão Leproso babava ao seu lado.

Cumprimentei Vinícius e ele não me respondeu. Parecia não estar muito a fim de conversa. Perguntei o que estava acontecendo e ele não me respondeu. Foi quando alguém me cutucou e disse “é isso o que estava acontecendo”. Era Cláudio Defunto, o baterista do Benga Boys. Ele me mostrou um celular com fotos comprometedoras do Vinícius ao lado de uma garota de aparência... ahn, digna das garotas do Carnicentas.

Cláudio estava acabando de embalar seus instrumentos em papel celofane, quando os outros integrantes do Benga Boys chegaram e avisaram que só estavam esperando ele, que o ônibus passaria em quatro minutos. Perguntei espantado se eles haviam adquirido um ônibus para a banda e se isso significaria aquele retorno a maldita época das micaretas. O vocalista Zé Coveiro falou que não era porra nenhuma disso, a linha 411 ia passar em quatro minutos e depois ia demorar pra caramba pra passar de novo, dia 1º é foda.

O que me espantou nesse momento foi que eles sabiam quando é que um ônibus iria passar em Cuiabá. Em qualquer dia isso já é difícil, o que dizer do primeiro dia do ano?
- Aquele cara ali que falou. Ele não erra uma.

Enquanto os Benga Boys iam embora (a noite hoje foi boa, disse Pedro Tolete) olhei para o lado que eles apontaram e vi um cidadão utilizando uma bata de cetim amarelo dormindo em uma rede. Olhei para ele e ele acordou no mesmo instante. Fiquei assustado. O rosto não me era estranho. Observando minha perplexidade ele se apresentou, era o Borboleta, amigo de Pai Jorginho de Ogum que eu havia conhecido em Paraty em meados de 2008 quando o velho charlatão havia desaparecido.

Ele me explicou que havia se conectado telepaticamente com Jorginho de Ogum, que o convidou para passar o Réveillon em Cuiabá. Me disse que estava cansado de vender pedras magnéticas em Paraty e aceitou o convite. Logo depois falou.
- Estou vendo aqui, vocês aprontaram nesta noite.

Estava vendo aonde? Vocês quem? Neste momento a menina que estava em algumas fotos com Vinícius passou pela sala. Sorriu para Gressana, se despediu e disse que iria esperar o desenho que ele prometeu. Borboleta me explicou que a garota se chamava Dalila e que conhecia Vinícius dos tempos de colégio em Tangará da Serra. Na época ela era a menina mais bonita da sala, mas o tempo não foi muito grato com ela. Disse que isso era normal com as meninas mais bonitas da sala, Borboleta assentiu. Naquele momento eu pensei que deveríamos contratá-lo para fazer previsões no lugar de Jorginho de Ogum e que Jorginho deveria ser mandado para Paraty. Perguntei se era por isso que o Vinícius tinha tomado banho e o Borboleta me explicou que ele tomou banho umas oito vezes desde que nós havíamos chegado.

Chegamos? Então eu me dei conta de que estava no primeiro de janeiro e que não me lembrava de como havia passado a virada do ano. Senti um frio na espinha. Olhei o celular com as fotos comprometedoras do Vinícius e só então percebi que era meu celular. Comecei a olhar as fotos e lá estavam fotos de uma noite louca em que ainda apareciam o Tackleberry, Hanz o Pansexual, o Menino Fabinho e um cara vestido de Papai Noel. Caramba, o que havia acontecido?

Na lista de arquivos do meu celular encontrei um áudio gravado às duas da manhã.
- O Brasil vai ganhar a Copa e foda-se o resto. Se ganharmos a Copa ninguém vai querer saber de mais nada. Ah, coloca aí que o povo irá decidir seus novos governantes.
- Porra Jorginho, isso aí é a constituição que decidiu!
Era o áudio com as previsões para 2014 feitas por Pai Jorginho de Ogum.

O pai-de-santo apareceu na minha frente. Explicou que estava dormindo no seu quarto e disse que, se quisesse, ele faria novas previsões. Eu disse que só queria que ele explicasse o que estava acontecendo. Ele perguntou se eu não lembrava do Réveillon do Carnicentas e das coisas que aconteceram depois? Falei que não.
- Então o negócio foi forte.

Perguntei que negócio? E Jorginho de Ogum se sentou em uma cadeira e falou para eu me sentar. Recusei. Disse que preferia ficar em pé. O mestre então contou que nós havíamos exagerado um pouco na comemoração da festa e que, enfim, a festa foi longe demais, mas que pelo menos, ao que ele sabia, ninguém foi violado sexualmente, o que era um bom sinal.

Ainda estava sem entender, mas pelo menos estava satisfeito em saber que nada de pior havia ocorrido, quando Jorginho em tom pesaroso lembrou.
- Só tem uma coisa. Perdemos o Tackleberry. E também o Hanz. Ah, um cara vestido de Papai Noel também desapareceu. Além de um amigo de vocês que eu não sei quem é.

Continua.