sábado, 31 de dezembro de 2016

Retrospectiva 2016

Em um futuro distante, ou próximo, quando os estudantes de então abrirem seus livros de história, acredito que eles terão um capítulo inteiro dedicado ao ano de 2016. Os garotos vão ler aquilo perplexos e exigirão explicações dos seus professores: o que aconteceu em 2016? Que ano foi esse? Acuados, os professores tergiversarão e arrumarão alguma desculpa. No final, terão que apelar para o bordão imortalizado por Kátia, a Cega: não está sendo fácil. Este não foi um ano fácil.

Vamos começar pelo fato que une todos os anos: mortes. Como morreu gente em 2016, mas muita gente mesmo. Gente que achávamos que já havia morrido, ou que nunca iria morrer, ou que não esperávamos que fosse morrer. Carrie Fisher e sua mãe, Leonard Cohen, Geneton Moraes, Muhammad Ali, Carlos Alberto Torres, Johan Cruyff, George Martin, Umberto Eco, João Havelange, Prince, Dom Paulo Evaristo Arns, George Michael, Ferreira Gullar, Guilherme Karan, Fofão, o David Bowie. Faltou a morte de uma grande personalidade mundial? Não, morreu o Fidel Castro e, goste ou odeie, não discorde que é um dos principais atores da história recente da humanidade. Faltou uma morte trágica? Não, o Domingos Montagner morreu afogado no rio São Francisco. Morreu muita gente que parecia ser legal, cujas ausências serão sentidas no mundo.

A política brasileira consumiu nossas energias ao longo do ano inteiro. Tivemos o longo processo de impeachment da Dilma Rousseff, que acabou por aumentar ainda mais o ódio em nossa sociedade. Ao fim do espetáculo midiático, tivemos a possessão de Michel Temer e o começo de uma nova série de escândalos, envolvendo uma série de ministros, reformas estruturantes que vão ferrar com a vida de muita gente. Assistimos cenas patéticas no Congresso Nacional, com deputados e senadores votando projetos polêmicos na calada da noite, transformando um pacote anticorrupção em medidas pró-corrupção, guerras institucionais, o Eduardo Cunha que finalmente foi cassado e preso, o Renan Calheiros que, quando será? Dezenas de novas fases da Lava Jato e a onipresença de Sérgio Moro. É praticamente impossível lembrar todos os fatos políticos brasileiros deste 2016 e, quer saber? Nem faz bem lembrar, para não dar úlcera.
2016 foi exatamente isso: Dilma pintada por Romero Brito

Se a situação por aqui não foi fácil, não adianta pensar que o mundo passou por dias mais tranquilos. O Donald Trump foi eleito para a presidência dos Estados Unidos. Um maníaco bufão, sem caráter, demagogo, sociopata, insolente, enfim, um lixo de ser humano. Sua escolha foi um longo processo que, como toda boa tragédia anunciada, nos recusamos a acreditar no início e vamos negando a aceitação até o momento em que não há mais como voltar atrás. A postura de Trump desde a eleição é assustadora e a contagem regressiva para sua posse se parece uma espécie de Final Countdown.

Tivemos o Brexit, a prolongada crise dos refugiados, a situação trágica na síria, o terrorismo chegando em lugares que não imaginávamos, assassinatos filmados, enfim. Temos assistido a crescente marcha do retrocesso e da intolerância, marcha que vai ganhando peso e volume e que parece nos tragar para o fundo de um lamaçal, de onde nunca iremos escapar. Vamos lá, se depois desse ano você ainda for um otimista você merece ser tema de matéria no programa da Ana Maria Braga.

Talvez o único momento de tranquilidade para os brasileiros no ano tenha sido as Olimpíadas. Durante duas semanas pudemos ficar absortos nas histórias de superação, assistindo grandes atletas, grandes histórias e pensar que tudo poderia dar certo. Mas foram apenas duas das 52 semanas do ano. O que restou para essas 50 semanas restantes? O caos, exatamente isso.

Para encerrar o ano, quando talvez ainda procurássemos algo de positivo nele, o que aconteceu? O acidente de Chapecoense. Esta tragédia sob tantos aspectos possíveis de categorizar uma tragédia foi a pá de cal, foi a mão que esmagou aquela pontinha de esperança dentro de nós, foi aquele sopro para derrubar o castelo de cartas de nossas vidas. Não há quem não tenha ficado completamente arruinado emocionalmente com esse caso.

Diante deste cenário misericordioso, o que restou a sociedade? Buscar apoio neles, que traduzem os anseios de uma geração, oferecem conforto para as nossas angústias, apontam saídas, mesmo que sem querer: os youtubers. Certamente eles têm o que comemorar em 2016.

Por essas e outras que para mim a grande personalidade do ano de 2016 e Glória Pires. Também não sou capaz de opinar sobre ele.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

De Férias com o Ex

A antiga MTV (Music Television) é um canal que fez parte da adolescência e juventude de muita gente nascida nos anos 70 e 80, se bobear até dos 90. Eram tempos em que a internet tinha um alcance limitado, Spootify e Youtube eram projeções de um filme futurista. A televisão havia definitivamente substituído o rádio como figura central das comunicações domésticas e era na MTV que você conhecia as músicas mais populares.

Era lá também que você tinha a oportunidade de conhecer músicas novas e eventualmente se aprofundar sobre a banda em um programa rudimentar de compartilhamento de arquivos e vírus. Para fazer sucesso era imprescindível um clipe que chamasse a atenção do telespectador e muitos diretores de cinema emprestaram seu talento para esta arte.

No entanto, quando a internet banda larga chegou aos lares e corações de muitas pessoas, assistir televisão em busca de clipes musicais perdeu completamente o sentido, uma vez que qualquer clipe estava ao alcance das pessoas no Youtube. Aliás, os próprios videoclipes perderam um pouco o sentido e a música voltou a ser apenas escutada. Este processo que talvez pudesse ser explicado em um artigo científico levou a MTV Brasil a encerrar suas transmissões.

Encerramento estranho, já que no dia seguinte o canal foi recriado e numa espécie de reposicionamento mundial da marca, deixou de ser o canal da música e passou a ser um canal voltado, digamos, ao público jovem, público este que não queria saber mais sobre música e quer, justamente, saber de putaria.

A atual MTV tem uma programação com a mais diversificada variedade de putaria, falada nos mais variados idiomas e produzida das mais diferentes formas. Há um programa em que um grupo de pessoas é levado para passar as férias em algum destino paradisíaco e passam algumas semanas bebendo quantidades alucinantes de álcool, transando com dezenas de pessoas e brigando pelos motivos mais escrotos pelos quais as pessoas poderiam brigar. Hipnotizante, apenas alguns segundos do programa são necessários para destruir uma série de conexões neurais do seu cérebro.

No entanto, nenhum programa consegue ser tão ultrajante quanto o famigerado De Férias Com o Ex. Neste protótipo de roteiro do apocalipse, uma quantidade enorme de pessoas é levada para uma casa em uma praia de um lugar ridiculamente turístico. Confinados, eles passam o tempo inteiro, bebendo, transando e se divertindo de uma maneira absurdamente escrota. Mas, como nem tudo na vida é diversão, aos poucos eles são surpreendidos com seus ex-namorados chegando na casa.


Em pouco tempo, todos os participantes desse Big Brother da orgia terão ex-companheiros dentro da casa. E eles vão continuar bebendo. Vão continuar transando. Imagina a merda que isso vai dar, quando álcool, ciúme e completa falta de respeito se juntam. Pessoas saem no tapa, há cusparadas, orgias, triângulos, quadriláteros amorosos. Para terminar em grande estilo, no fim do programa todos são confrontados com as imagens dos seus parceiros e ex-parceiros na casa, é possível ver quem transou com quem, que o seu ex-namorado esteve com duas meninas, que o cara que você ficou no programa inteiro também esteve com outras três mulheres e, enfim, isso proporciona uma lavagem de roupa suja que nos ajuda a mostrar que a humanidade não tem solução.

O que realmente impressiona nesse programa, é uma espécie de descoberta antropológica. Descobrimos que pessoas como os participantes do programa realmente existem, fora da nossa bolha de convivência. Gente que não se importa minimamente com os sentimentos dos outros, machistas inescrupulosos, sem qualquer distinção de gênero.

Por fim, a grande felicidade do programa é que, como o nome dele diz, as pessoas que se encontram lá são ex-namorados. Esperamos, inclusive, que nenhum dos casais furtivamente estabelecidos no programa tenha uma relação duradoura. Pessoas como eles não podem misturar seus genes por aí.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Amigo Oculto CH3 2016

Não há muito para onde escapar. O fim do ano sempre chega - exceção feita às pessoas que morreram - e os sobreviventes acabam se reunindo para festejar que mais um ano se passou, temos um ano a menos para viver. São dezenas de confraternizações com os mais diversos grupos de amigos, conhecidos, colegas, pessoas que você não gosta, mas com as quais infelizmente tem que conviver devido aos protocolos sociais.

Como se tanta convivência social assim já não fosse suficientemente desgastante, algumas pessoas tem a brilhante ideia de adicionar um charme a mais, que consiste em uma entrega de presentes aleatórios a pessoas pré-determinadas por sorteio, evento popularmente conhecido como Amigo Oculto.

No CH3 não é diferente e este ano nós chegamos a nossa 10ª edição de amigo oculto, um feito e tanto. Claro, a vontade de participar de um amigo oculto é inversamente proporcional a vontade de viver e, deus sabe - caso ele exista - as dificuldades perpassadas para realizar o AOCH3. Nos últimos anos tivemos que apelar para as mais sórdidas atitudes - Amigo Oculto Ladrão, sequestros relâmpagos, manifestações explícitas de ódio - para que o evento se concretizasse.

Esse ano, como não poderia deixar de ser, foi muito difícil novamente. Sem saídas para a organização, fui falar com o pesquisador macrobiótico colombiano Alfredo Humoyhuessos. Pedi sua ajuda, para que ele, com seus conhecimentos de diplomacia internacional e cerimonial de crise, conseguisse convencer todos a realizar deste grandioso Amigo Oculto, e é claro que ele conseguiu. Fez todos os contatos, organizou tudo e só me passou os detalhes. Perguntei para ele quanto ele cobraria pelo serviço e ele respondeu que nada, que a felicidade dos amigos e a infelicidade dos inimigos não têm preço.

Humoyhuessos resolveu seguir uma ideia apresentada aqui no CH3 no começo deste ano em um post que falava sobre outros tipos de amigos ocultos. Ele ficou encantado com a ideia do Amigo Conta, em que as pessoas vão para um bar com comandas individuais e, no final, é feito um sorteio para ver quem é que vai pagar a conta de quem. O colombiano acredita que essa é uma iniciativa inédita, um experimento social para testar as pessoas, além de possibilitar uma espécie de carma instantâneo. “Imagina um cidadão que pede o bar inteiro, já que outra pessoa vai pagar e no fim das contas ele acaba sorteando sua própria comanda. Seria fantástico”.

Rompendo o Pacto de Arizona, não nos reunimos na Casa de Diversão Noturna Carnicentas, mas sim no bar mexicano El Pancho. É um lugar com comandas individuais, opções de pratos relativamente caros, bebidas e um clima decadente, cortesia da banda vestida com sombreros cantando clássicos em portunhol.

Estivemos todos lá nesta quarta-feira. Vinícius Gressana veio direto de Curitiba - vale ressaltar que ele não está preso na Polícia Federal, Tackleberry arrumou uma brecha na sua agenda. Todos os oito membros restantes do CH3 estavam lá, além de Alfredo Humoyhuessos que não participou do amigo oculto – “questões éticas e profissionais”, ele disse. (Acho que sempre adotarei essa resposta agora) - que provavelmente nos usou como cobaias em um experimento que irá render um livro super difícil de ser entendido em um futuro breve.

Bem, conversamos durante algumas horas, discutimos com garçons que insistem em arremessar pratos no chão em momentos de empolgação, e no fim, com frio no estomago, resolvemos embaralhar todas as contas dentro de um chapéu. Alfredo Humoyhuessos já havia definido que a ordem de retirada das comandas seria a ordem alfabética “a mais antiga ordem e sobre a qual não há nenhuma contestação, pois ela já vem carregada com uma carga determinista de ancestralidade”.

Assim sendo, Alfredo Chagas, visivelmente embriagado de tequila e com um ar de bêbado melancólico, foi o primeiro. Enfiou a mão no chapeu e de lá retirou a comanda do Cão Leproso. Urrou de felicidade. Cão Leproso havia pedido apenas uma água que, rosqueada, permaneceu fechada a noite inteira. Dirigiu-se ao caixa e foi embora, até agora não sabemos se ele - felizmente - veio a falecer.

Foi a vez do Cão Leproso retirar a comanda de dentro da caixa, o que demorou um tempo constrangedor. Ele finalmente conseguiu retirar a comanda com o nome de Vinícius Gressana - surpreendente como os dois sempre se encontram nos nossos amigos ocultos. Gressana havia consumido cinco cervejas e o Cão Leproso não tem carteira nem lugares para guardar o dinheiro. Sem saída, ele resolveu urinar no pé da mesa e foi expulso do bar porque finalmente as pessoas perceberam que ele era um cachorro e que não poderia estar lá dentro.

Eu era o próximo na lista e de dentro do chapéu retirei a comanda com o nome da Hanz, o pansexual. O velho pornográfico havia comido apenas uma salada, com sua conta totalizando 29 reais. Paguei.

Hanz, o próximo na lista alfabética, retirou o nome de Alfredo Chagas que confirmou seu estado de alcoolismo, já que sua comanda registrava 17 doses de tequila. O velho pansexual foi para uma área reservada do restaurante, onde acreditamos que ele tenha pago a conta de maneira pouco usual.

Pai Jorginho de Ogum - consideramos a letra J e não o P em seu nome - foi o próximo a pegar o chapéu e retirar a comanda com o nome de seu velho amigo Marcão. Jorginho se fodeu de maneira gloriosa, porque o analfabeto pedreiro havia pedido uma série de coisas que ele nem sabia o que era e sua conta deu um valor astronômico de R$ 370. Sorte que Jorginho é um bem sucedido empresário do ramo da exploração sexual profissional e conseguiu pagar.

Marcão, por sua vez, mal tinha coordenação motora para pegar uma comanda e quando a pegou, é claro que não conseguia saber de quem era e o que havia nela. Ele pegou a minha comanda, na qual constavam dois mojitos e uma água. Como ele não costuma a ter reservas financeiras pagou a conta de R$ 40 lavando pratos.

Estávamos então com Tackleberry, que, vejam vocês, pegou a sua própria comanda. Isso acabaria acontecendo, cedo ou tarde. Ele havia bebido quatro cervejas, pagou sua conta e ainda ganhou um desconto propondo uma permuta de herbalife.

Para finalizar, Vinícius Gressana retirou a comanda de Jorginho de Ogum e é claro que Vinícius se deu mal. O pai de santo comeu um rodizio, bebeu oito drinks metidos a besta e ainda comeu duas paletas mexicanas, não é a toa que Jorginho está tão gordo e com cara de que em breve irá sofrer um infarto enquanto dorme. Vinícius poderia ter um enorme prejuízo financeiro, mas fez como todo artista faz: desenhou uma caricatura do dono do bar e dos garçons, abatendo sua dívida.

Finalizado o experimento sociológico fomos todos para nossas casas e certamente só iremos nos ver no Amigo Oculto do ano que vem.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A era da porcentagem

Por alguma razão que eu não sei bem explicar, eu sempre gostei e sempre fui bom com os cálculos de porcentagem e estatística. Lembro bem que essa foi justamente a primeira matéria estudada em matemática, quando eu comecei a cursar o Ensino Médio e, na primeira prova daquele primeiro ano, eu tirei 10.

No entanto, essa minha facilidade não era acompanhada por boa parte da população, pelo menos não pela amostragem dos meus colegas de sala. Com dificuldades para interpretar os gráficos, ninguém repetiu minha nota. Poucos ficaram acima da média de 6 e muitos chegaram a zerar. Assim sendo, eu fui tratado como um fenômeno. Os colegas olhavam para mim em misto de admiração, ódio e inveja, pensando em como este meu aparente talento sobrenatural poderia beneficiá-los no futuro. Eu era um Einstein, pensavam.

É claro que as coisas não eram assim. Eu era um terror em todas as outras partes absurdas da matemática e sofri durante o resto do ano para me manter acima da média. Mas, as pessoas não entendiam isso e na sequência daquela fatídica prova de porcentagem elas iam me perguntar sobre trigonometria e quando eu dizia que não sabia, elas achavam que eu era um anticristo, arrogante, egoísta, metido e passavam a me tratar mal. Demorou até perceberem que eu não era um gênio das exatas.

Após esta maçante introdução acadêmico/escolar/pessoal, cuja principal intenção era mostrar a dificuldade que as pessoas sentem com relação a porcentagem - inclusive uma questão linguística, já que não há uma definição clara se devemos falar porcentagem e suas variantes como porcentual, ou se devemos usar percentagem e sua variante percentual - para constatar que vivemos numa estranha época em que o % está na boca do povo.

Creio que a música sertaneja seja atualmente o estimo musical preferido de 52% do público brasileiro. E o ritmo vem explorando este símbolo cujo significado em nível de design eu não consegui compreender direito, de acordo com a explicação da Wikipedia.

Tudo começou, muito provavelmente, quando deus disse faça-se a luz, ou digo, quando os fenícios inventaram a matemática Marcos & Belutti com a participação de Wesley Safadão - talvez seja ao contrário, lançaram “Aquele 1%”.

Você, certamente, já teve a infelicidade de escutar está fábula do falso Don Juan que cita seus hábitos de abrir a porta para as donzelas, pagar a conta do jantar, e que é 99% um anjo, perfeito, mas cujo aquele 1%, ah, aquele 1% é vagabundo, safado. E elas gostam.

Do ponto de vista aritmético não há nenhum erro, mas do ponto de vista lógico há uma série de questionamentos. Creio que seja muito difícil dividir um ser humano em escalas de porcentagem. Se formos pensar em um homem normal de 75 kg¹, 1% dele equivale a exatamente 750 gramas. Talvez seja o peso de um pênis com o saco escrotal, sinceramente não sei, nunca coloquei o pau na balança, mas se for isso, criaria uma conotação ainda mais sacana para música que talvez não tenha passado pela cabeça dos compositores. Talvez alguma parte específica do cérebro pese 750 gramas e seja responsável por essa parte vagabunda presente em Marcos & Belutti.

Aliás, em aprofundadas pesquisas no Google, descobri que Belutti - no caso, caso vocês não tenham percebido, Marcos & Belutti não é uma pessoa, mas sim, duas pessoas e Belutti é uma delas - perdeu recentemente 7 quilos, o que deve equivaler a quase uns 10% do peso dele. Caso ele pesasse os referidos 75 quilos e antes ele era 1% vagabundo, agora podemos dizer que ele é 1,1% vagabundo.

Se o aspecto for moral, é ainda mais difícil equalizar esta conta. A vida não é um teste de Facebook que consegue apontar defeitos e qualidades morais em porcentagens exatas.

Anos depois - na verdade, creio que se passaram apenas alguns meses - Maiara e Maraísa, a dupla de irmãs gêmeas tocantinenses que está levando a sofrência feminina para o Brasil, estourou nas rádios com o hit "10%". No caso a música relata um diálogo com um garçom - personagem clássico do universo de sofrimento brega, e acusa este funcionário de agir com má-fé para obrigar os clientes a sofrerem e beberem mais, provocando um aumento na gorjeta dos referidos profissionais, o famoso 10%.

Sim, não é impressionante que em menos de um ano duas músicas sertanejas com % toquem na rádio? neste universo que há pouco tempo era acostumado com onomatopeias sem sentido? Neste mundo cujo único % possível era o de 100% jesus nos para-choques de caminhões, nos adesivos grudados nos vidros traseiros de alguns carros dirigidos por pessoas que se sentem agraciadas pelo bom deus, na faixa presa na testa do atleta Neymar no momento em que ele recebe uma medalha de ouro olímpica? Curioso.

Eis que agora, estreia a primeira série brasileira no Netflix e qual é o nome dela? 3%. Olha a porra da porcentagem aí de novo. O princípio da série é a de um mundo pós-apocalíptico no qual apenas 3% da população tem direito a uma vida digna em uma ilha. No Brasil, de acordo com a expectativa do Censo para 2016, isso equivaleria a 6.182.443 pessoas. Isso equivale mais ou menos a população da cidade do Rio de Janeiro sem o bairro de Campo Grande.

Ainda é cedo para dizer que reflexos isso terá para a população brasileira, mas só posso imaginar que eles serão terríveis. Todo e qualquer conteúdo emanado por cantores sertanejos, que tenha no sertanejo universitário a sua força motriz será um conteúdo de devastação e miséria moral que levará o povo para o abismo da existência.

¹Com isso, eu não quero dizer que pessoas que não pesem 75 kg não sejam consideradas normais. Pessoas normais pesam os mais variados pesos e existem muitos anormais com 75 kg também. O valor foi escolhido por sorteio realizado na sede da Caixa Econômica Federal.