quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Silêncio e como ocupá-lo

Nota: se você procura pelo jogador de vôlei conhecido com Silêncio, nós não iremos falar sobre ele. Se você quer saber como ocupá-lo, creio que devia ser melhor perguntar para ele sobre o que ele gostaria de fazer.

O silêncio tem um quê de mistério, diria Djavan. Olha ao seu lado. Falo sério, olhe ao seu lado. Você verá que existem muitas coisas que podem fazer barulho. Com esta variedade de objetos barulhentos é quase impossível imaginar que o silêncio possa acontecer. Mas, de vez em quando ele acontece. Faz-se o silêncio. E pode ser terrível.

Não, não falo aqui do silêncio do alto de uma montanha, no fundo do mar ou dentro do seu banheiro. Falo do silêncio repentino.

Existe a situação clássica das salas de aula. Está aquela bagunça homérica. Pessoas gritam, conversam, dançam macarena. Ao fundo, o professor de economia tenta explicar um conceito desinteressante de economia (interessante notar que professores de economia normalmente lecionam economia). Os alunos só ficariam em silêncio se o professor puxasse um 38 e atirasse pro alto.

Mas, de repente o silêncio acontece. Um silêncio total. Ou, quase total. Porque uma voz escapa solitária afirmando “seu filho da puta”. Uma voz solitária, que terá que enfrentar sérios problemas em sua vida.

Você já presenciou uma situação dessas. Diria que é um milagre, um milagre maldito talvez. Mais de vinte pessoas conversam e todas param ao mesmo tempo. O silêncio poderia ser gradativo. Mas, não é total e espontâneo. Quais são as chances de que isso ocorra? Deve ser a mesma de ganhar na mega-sena e ser atingido por um raio na seqüência. Mas acontece todos os dias.

Não há o que fazer neste caso. Não há prevenção, não há escapatória. There’s no surrender. Restar torcer para que isto não aconteça com você.

Mas existe outro silêncio, sim existe. O silêncio pode ser classificado por tipos definidos pela silenciologia. E este próximo silêncio tem solução.

Sabe quando cinco pessoas conversam animadamente, por horas? Há um momento em que o assunto se esgota e ninguém tem mais nada a dizer. Silêncio. Ninguém engatilha outro tema e mesmo se alguém dizer isso, não haverá empolgação para continuar. O destino é o silêncio. O silêncio consumiu as almas dos mortais. Mortal e constrangedor. O que fazer? Eis algumas soluções:

- Ir ao banheiro. Uma solução covarde, diria eu. Os outros ficam no silêncio e você escapa. O problema é se, ao voltar, as pessoas estiverem conversando. Você verá que o problema era você.
- Fingir que matou uma mosca, com um tapa ou com uma mordida. Pode ser substituído por um imitar de grilo. Uma solução babaca, mas que pode fazer sucesso.
- Ligar a televisão. É uma decisão. Significa algo como “ok, não temos o que conversar, vamos ver televisão”.
- Puxar uma revista de palavras cruzadas. Aproveite o silêncio e peça ajuda para a questão: “escritor inglês, sobrenome começa com W”.
- Comentar “gente, que silêncio!”. Você receberá desanimados “é” como resposta.
- Anunciar que você é gay. Pensando bem, não é uma boa idéia.
- Sugerir brincadeiras lúdicas, como a brincadeira do copo, roleta russa, verdade ou desafio.
- Sugerir aos amigos: “ei, porque não entramos no Blog CH3. É um blog com muitos assuntos interessantes, que com certeza vai nos ajudar nesta tarde!”.
- Explodir uma bomba.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Gargalo

É curioso o processo que faz com que uma palavra entre no noticiário. Diria até, que descobrir como tudo isso funciona poderia ser uma tese de doutorado. Vejamos o caso do Gargalo. Durante o sacrossanto ano de 1996, o gargalo mais famoso do Brasil era aquele sobre o qual Scheila Carvalho rebolava. Em todo o território nacional, centenas, diria milhares de mulheres e, até mesmo homens e crianças, ralavam nos mais diversos gargalos.

Além de estar na bunda, o gargalo também estava na boca do povo. Nos bares. Pessoas tinham a liberdade de ir até um destes estabelecimentos e pedir uma cerveja, uma tubaína, uma água ou o que for. Podiam escolher não tomar no copo, no saquinho ou no canudo. Podiam tomar no gargalo mesmo. Um direito garantido na constituição nacional.

Tempos passados. Agora o gargalo domina o noticiário de uma forma diferente. E não é que estejamos falando sobre garrafas. Não que queiramos proibir que se beba no gargalo, afinal, pode provocar as mais diversas doenças. E não que exista um revival da boquinha da garrafa. Mal sabemos por onde andam as Sheilas do Tchan.

A volta do gargalo é fruto da Copa de 2014. A boquinha da garrafa virou sinônimo de aperto, de problemas. Os lugares problemáticos das cidades. Os cruzamentos perigosos e congestionados. Os buracos no trânsito. O caos diário em nossas vidas. Tudo isso agora é conhecido modestamente como gargalo.

Se você fizer uma busca por gargalo Google, e, buscas no Google são rápidas, levam 0,14 segundos, você vai perceber. Nenhum resultado para o gargalo da garrafa. Pessoas explicam o significado do gargalo, ele ganha um bonito nome de “ponto de estrangulamento”. Os aviões são apontados como gargalos, os gargalos produtivos, gargalo na educação.

Sofremos uma overdose de gargalo. E vejam só que momento curioso. Daqui a 40 anos esta frase pode ter múltiplos significados. Se o gargalo voltar ao seu sentido original, pessoas podem pensar “o que as garrafas têm com isso”. Se o gargalo ainda for o problema, poderão pensar “ué, normal”. E se por um acaso gargalo ganhar um novo significado?

Se daqui a 40 anos, gargalo significar doença venérea, salada de frutas, bastião da sobriedade, sal de frutas, dança do ventre, creme de queijo. O que as pessoas entenderão da overdose de gargalo? Porque não? Se uma palavra muda de sentido em 10 anos, em 40 anos qualquer coisa pode acontecer.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Clichês de Ofício

Um homem e uma mulher. Eles correm por um caminho, um ao encontro do outro. Provavelmente em câmera lenta. Eles não se vêem há algum tempo. Há dois anos. Desde que ele partiu em um navio para defender as forças armadas no Haiti. Desde ontem a noite. Desde que ele perdeu a visão. Os dois estão felizes. Folhas caem lentamente no chão, é outono. Eles se aproximam e se abraçam.

Mas, não é um abraço qualquer. Na consumação do ato, os dois giram sobre o solo, com ela pendurada nos ombros dele. Casais se encontram assim no cinema, nos comerciais, nas novelas. Casais felizes não são realmente felizes sem um “abraço giratório”. Este movimento é essencial para demonstrar a saudade dos pombinhos. Mas não é uma manobra fácil.

Faça o teste. Junte-se a sua namorada (Vou falar como se você fosse um homem, ok? Se você for mulher, faça a inversão por conta própria, ou não). Se você não tiver uma, tente com uma amiga, uma prima. Se ninguém topar, peça ajuda para qualquer pessoa na rua. Como é uma simulação, pode ser em qualquer rua fedida. Peça para que sua parceira venha correndo em sua direção. No momento em que vocês se encontraram, tente dar o abraço giratório. Você, homem, ficará com fortes dores nas costas. Há risco de aleijamento.

Esta claro que o abraço giratório não é praticado indiscriminadamente nas ruas, nas fazendas e na porra toda. É apenas um clichê de comportamento.

Aliás, atentem-se ao local. Um bosque. O que porra é um bosque? Onde você pode encontrar um bosque? Em 24 anos de vida eu acho que jamais estive em um bosque. Conheço parques, florestas, reservas, mas, bosques? As definições para tal lugar são vagas. Você percebe que tudo pode ser um bosque, mas nada pode ser também.

Mas não tem graça falar que o casal se encontrou na fazenda. Na floresta. Em um parque. Eles se encontraram no bosque. A palavra bosque, pura e simplesmente cria um ambiente de magia. Um lugar com folhas que caem no outono, cheio de borboletas e outros animais de cunho homoafetivo.

É fácil perceber que bosques não existem. Nunca existiram. São apenas uma invenção das grandes corporações internacionais que querem transformar os seus filhos em qualquer coisa.

Outro lugar que eu tenho certeza que não existe é o escritório. Sim. Você deve trabalhar em um. Mas escritórios como os do filme não devem existir.

Vejamos, eles são todos iguais. Cheios de mesas cinzas, separadas por divisórias também cinzas. Pessoas de gravata, com paletós encostados nas cadeiras. Há a sala do chefe, isolada, com persianas ao fundo. Uma secretária gostosa que usa óculos. A hora do café. Pessoas que fazem piadas ridículas.

Mas, o mais curioso sobre um escritório é o que se faz nele. Relatórios. Relatórios. Tem que entregar um relatório pro chefe. Basta um raciocínio de três segundos (darei este tempo a vocês, vamos lá...)


(...pronto) para perceber que o mundo não tem demanda para tantos relatórios.

Mas é dessas coisas simples. “O chefe pediu aquele relatório”. Seria muito mais difícil falar que o chefe pediu um... sei lá, alguma coisa que não seja um relatório. Porque chefes vivem de ler relatórios? Não há tempo de se ler tanta coisa assim.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Lei da Compensação

A lei da compensação é uma das mais antigas leis do futebol. Mais antiga do que a Lei de Gil, do que a lei de Gerson. Antepassada da Lei de Impedimento, da Lei de Newton. Contemporânea da Lei de Talião. Enquanto o Código de Hamurabi dizia “olho por olho, dente por dente”, no sentido da plena vingança, a Lei da Compensação diz isso no sentido da ajuda. “Me salva um dente que te salvo outro”.

É aquela velha história de que uma mão lava a outra. Poderia agora, me alongar por parágrafos e mais parágrafos citando expressões populares e contextualizando-as com o tema deste texto. Mas não vou fazer isso, juro. Afinal, água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

A lei da compensação pode ser perigosa, gerando um incrível efeito dominó. Sim, isso também ocorre com a vingança. Sabemos que quando um vizinho arranha a lataria do seu carro, a vingança exige que você queime a casa dele. Mas, este é um caminho que leva a uma solução rápida. Todos estarão mortos antes que alguém tenha que apelar para uma versão ao vivo de Seres Humanos de Roberto Carlos.

Na lei da compensação é diferente. Ela busca que tudo esteja em total equilibro, em uma balança perfeita. Mas, como nós sempre queremos levar vantagem em tudo, sempre tentamos ficar com algum crédito a ser compensado futuramente. Vejamos o caso do juiz de futebol.

O juiz marca uma falta errada para o time A. Duas faltas erradas. Se o time A for o Corinthians, ele continuará marcando faltas erradas, pênaltis, expulsará o goleiro do adversário e ainda será promovido. Mas, se for qualquer outro time, ele ficará em dúvida quanto a sua ação.

Tanto que ele logo dará um cartão amarelo para o zagueiro do time A, em um lance bobo. Na seqüência ele marca um escanteio equivocado para o time A. Só que desse escanteio sai o gol. Logo, ele marca um pênalti inexistente a favor do time B. Para compensar isso, ele expulsa um jogador do time B. Anula um gol legal do time A. Dá um esporro no gandula. Logo ele começará a medir os seus erros, pensando nos próximos erros que ele terá que cometer. Ninguém poderá reclamar da imparcialidade, apenas da sua incompetência.

Mas o juiz é um mediador. Alguém que age pensando nos dois lados. Como a lei da compensação ocorre quando apenas dois indivíduos estão na jogada? E aqui não falo de dois indivíduos nus em uma cama com lençóis sujos. Falo da sua vida rapaz, da sua vida. Das suas relações. Vamos todos botar a mão na consciência e pensar sobre isso.

Imagine que você está andando em algum lugar. Começa a tocar Seres Humanos de Roberto Carlos. Um amigo seu aparece e... bem, não há como fazer algo melhor por alguém que evitou que você escutasse Seres Humanos de Roberto Carlos. Exemplo anulado, vamos pensar em outra situação.

Digamos que você está andando na rua. Convenhamos que você anda e que eventualmente anda na rua. Começa a chover. Sim, neste exemplo a rua é sujeita a chuva. Seu vizinho aparece e te dá carona. Você fica agradecido a ele. Depois ele te pede ajuda para carregar um fogão. Você ajuda. Depois é ele que te ajuda a pintar um muro. Você empresta dinheiro para ele. Ele leva seu filho no colégio. Você agiliza a cota do churrasco. Ele pega as suas correspondências enquanto você saiu de férias.

Assim seguirá, até o momento em que alguém será cúmplice em um crime de ocultação de cadáver.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Caçadores de Relíquias

A Indústria dos Realities Shows é show. Digo, é sensacional. Tão sensacional quanto chamar qualquer coisa de indústria. Enfim, eles sempre têm uma incrível habilidade para criar novos temas para seus programas. A moda pode ser confinar pessoas numa casa, numa ilha. Acompanhar a rotina de um estúdio de tatuagens. Escolher alguém para algum cargo. Reformar carros, reformar casas, caras de pessoas.

Pois agora há este novo reality show. “Os Caçadores de Relíquias”. Trata-se da rotina de um casal gay americano, que viaja o país inteiro em uma van, procurando antiguidades. Não que eles colecionem essas coisas, eles apenas as revendem. Compram as velharias para lucrar. Sabe aquele seu tio que tem um quarto empoeirado cheio de coisas velhas? Então, é isso que eles procuram.

Tudo bem, é um trabalho como outro qualquer e pode ser um resgate da história. Mas não é isso que me chama a atenção. O que me chama a atenção é o valor dos produtos.

Tudo no mundo é muito caro. Coisas que estão sob a tag de “antiguidade”, “raridade”, “old school”, “retrô” são mais caras ainda. Logo você imagina que eles gastam uma fortuna naquilo, não? Mas não gastam.

Chegam a uma garagem e encontram uma moto utilizada na Segunda Guerra Mundial. Está meio enferrujada, sem dois parafusos. Deve custar uns 10 mil dólares, penso eu. Pois eles oferecem 200 dólares para o dono da moto, que aceita. Sim, isso mesmo.

E vão se enfileirando. Mil dólares num carro. Setenta dólares numa bicicleta de 1805, dez dólares num quadro de Elvis Presley, outros 20 em um conjunto de latas, trinta dólares numa bomba de gasolina velha. Você já está pensando em ir para os Estados Unidos quando quiser decorar sua casa. Mas ainda vem o pior.

Os produtos são avaliados, sobre qual seria o seu real preço. Então você vê que a moto de 200 dólares será vendida por 5 mil. A bicicleta de 70 saíra por 500. A bomba de gasolina, que custou 30 dólares poderá custar até 600. Até a foto de Elvis Presley custará 50.

Logo você chega a conclusão de que o casal, Mike Wolfe e Frank Fritz, são uns aproveitadores. Viajam os Estados Unidos inteiros aplicando golpes diversos em velhinhos iludidos, uns coitados inocentes que acham que estão fazendo um grande negócio ao vender aquela velharia, mas mal sabem que poderiam lucrar 10 vezes mais.

No entanto, ainda há algo que faz com que Mike e Frank sejam pessoas ainda piores. Por vezes eles perguntam para o dono da antiguidade:
- Quanto você quer nessa espada?
- 150 dólares.
- Ofereço 80.

O cara recusa, então o caçador explica que ele tem que lucrar, para que o negócio faça sentido. Chegam a um acordo e a espada é comprada por 100 dólares.

Depois, aparece a avaliação. A espada será vendida por 300 dólares. Entendem? Não bastou para o cafajeste ter um lucro de 100%, dobrar o valor investido. Ele quis triplicar! E mais, quis quase quadriplicar! No meu mundo, Mike e Frank deveriam ser presos. Por ganharem a vida fazendo um programa de televisão que mostra como sacanear idosos puros e leigos.

Ou então, eu devia ir logo pros Estados Unidos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Marcha do Churrasco

Aproveitando texto que escrevi para o Diário de Cuiabá.

A França me traz péssimas lembranças futebolísticas. Assistir Zidane subindo livre para cabecear duas vezes, em 1998, foi traumatizante demais para um garoto de 11 anos. Mas, anos depois eu passei a gostar de ver as partidas da França em Copas do Mundo. Eu gostava do hino francês, a Marselhesa. Seu verso “Marchemos, marchemos, nossa terra se saciará de sangue impuro”, cantado visceralmente.

A palavra e o ato de marchar sempre foram relacionados aos militares. Aqueles com cabeça de papel que iriam para o quartel. Ainda me lembro da marcha fúnebre e da marcha nupcial. Ou ainda, a marcha imperial para os fãs de Star Wars. Em um péssimo trocadilho, poderia citar as marchas do automóvel.

Foram outros tempos. Agora somos atacados diariamente pela palavra “marcha”. Ela está disseminada na internet, na imprensa. Marchar virou uma forma de protesto, de reivindicação. Não sei dizer como a moda começou. Talvez tenha sido a Marcha da Maconha, transformada em Marcha da Liberdade de Expressão, vítima da Marcha do Politicamente Correto. Ainda vimos a Marcha com Jesus no Coração (ou algo assim), Marcha dos Solteiros e a Marcha das Vadias. Marcha das Vadias?

Eis algo que é difícil de entender, algo que é ótimo para visões estereotipadas. Vi jornais dizendo que era uma marcha pelo direito das mulheres se vestirem como vadias (?) e até mesmo, que era uma marcha que defendia a vadiagem (??).

Na verdade, este protesto surgiu pelo direito das mulheres se vestirem do jeito que elas quiserem. Tudo por conta de uma palestra de um policial em uma universidade de Toronto, no Canadá, que disse que as mulheres deviam “evitar se vestir como vadias para não serem estupradas”. Entendeu a lógica?

É claro que a invasão de marchas viraria motivo para piada. Tudo o que é feito em excesso logo perde seu sentido original. As marchas já foram ridicularizadas nas redes sociais da internet. No Facebook, começaram a divulgar a “Marcha da Lambada”. Sim, lambada, a dança proibida daquele histórico filme da Sessão da Tarde. Também surgiu a “Marcha dos Bons Drink” (com o plural errado mesmo). Acredito que surgiu até a Marcha pelo Direito de Marchar Simples e Livremente sem pressões políticas. A Marcha pela Marcha.

Imagino que as marchas tendem a perder espaço. Já emerge em nossa sociedade uma nova e revolucionária forma de protesto. Trata-se do churrasco. Um evento que tem apelo junto a manifestantes e mídia. Começou com a gente diferenciada de Higienópolis e chegou a Cuiabá.

O churrasco talvez seja capaz de integrar a sociedade de uma maneira melhor. Um evento que mistura carne, cerveja, piscina, mulheres, futebol na televisão. O sal grosso poderá mobilizar a opinião pública. A picanha mal passada vai derrubar governos. Todo aquele sangue impuro irá saciar a nossa terra.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Orgulho Alcoólatra e o Bulliyng da Sobriedade

Você vai a um bar. Bebe uma cerveja. Bebe duas. Três cervejas. Quatro. Vinte e sete drinques. Você fica bêbado. Completamente fora de si. Deu em cima das mulheres mais feias da história. Pegou o elevador e achou que tinha subido uma escada espiral. Demora alguns minutos procurando as chaves no bolso. Chega a cogitar dormir no tapete do lado de fora (se você estivesse em um filme americano, as chaves estariam embaixo dele, problema solucionado).

Quando finalmente consegue abrir a porta. O que você faz?
a) Deita e dorme.
b) Come alguma coisa doce e vomita.
c) Vai tomar banho e vomita.
d) Continua bebendo, chama duas amigas e grava um filme erótico.
e) Liga o computador e começa a postar no Facebook.

Pesquisas recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Recentes do Massachusetts revelam que 87% das pessoas agem conforme a opção “e”. São pessoas que entram bêbadas na internet e correm para as redes sociais.
- Esotua auiq baenod nofaceah no paoaoara.

Nos tempos do Orkut, glorioso Orkut, você ainda iria entrar em comunidades sobre o prazer de beber, o orgulho de beber, as coisas que se faz quando se bebe. Tudo porque existe um orgulho alcoólatra. O álcool é um sinônimo da braveza humana. Você bebe, faz merda, se diverte, diverte os outros. Por conta disso, não basta beber. É preciso que as pessoas saibam que você bebe.

É difícil ver no Twitter alguém falar que comeu um torresminho delicioso. Que bebeu uma água geladinha. Tomou um suquinho de goiaba delicioso. Você dificilmente acompanhará a rotina gastronômica das pessoas, mas saberá da sua ficha corrida alcoólica. Todas as vezes que ele bebeu cerveja – incluindo a marca – o vinho, a vodca, a caipirinha, a caipiroska, o absinto, o rum, a cuba libre, o gim, o vermute, o Martini, o licor, a cachaça, o saquê, a tequila, o champanhe, o pisco, o campari.

Ninguém diz em alto e bom tom:
- Consigo tomar dois litros de Coca Cola!
Mas sem dúvida falam:
- Eu consigo beber oito garrafas de cerveja!

Quem não bebe é humilhado. Excluído. Tratado como um loser. Como alguém que não se diverte. Na sociedade atual, a felicidade só pode ser encontrada no álcool.

Nota do autor: Já dizia o outrora legendário Tackleberry. Ou melhor, não era ele quem dizia. Ele dizia que seu avô, também lendário, já dizia as sábias palavras: “a verdade está no álcool”. Uma frase sensacional, que o blog gostaria de citar em todo e qualquer texto. Uma frase para os anais da humanidade, uma vez que eles não tem dono, quando se está bêbado.

Eis que chegamos à sexta-feira e ao sábado. Dias que devem ser dedicados a porralouquice total e ao estilo Ferris de ser.

Entre no MSN numa sexta-feira a noite. Você verá que está sozinho. Você ficará envergonhado e logo ficará offline, torcendo para que ninguém tenha visto que você entrou por lá. E provável que na seqüência (o CH3 jamais abolirá a trema! Jamais! Jamais! Ahhh!) você tome uma dose de steinhäger apenas para postar no seu Twitter. E postará pelo celular, para que ninguém saiba que você está em casa.

Um dia isso poderá se virar. Cansados da humilhação, os abstêmios poderão pegar em armas, submetralhadoras uzi e partam para o massacre em bares, como vingança.

Gracias @DadoDoria

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Apresentação de Quadrilhas

Uma apresentação de quadrilha sempre foi um evento bobo. Um evento bobo que era ensaiado exaustivamente nas escolas. Eram horas e horas de ensaio, para que todos chegassem à perfeição na arte de desviar de cobras, pontes caídas e chuvas. Horas em que todos se perguntavam o que raios, afinal, era o anarriê.

Quadrilhas tinham um ar recreativo. Tanto que era algo que facilmente descambava para a putaria. Homem com homem, mulher com mulher, seres travestidos e alcoolizados. Não havia a menor competição no assunto. Claro, você já deve ter percebido que falamos das quadrilhas juninas. E não dos grupos que se unem para praticar atividades ilícitas. Muito menos se eles usarem roupas xadrezes.

No entanto, quadrilhas deixaram de ser apenas uma diversão. Uma diversão chata, mas diversão. Você pode até me perguntar porque eu falo sobre isso em agosto, sendo que o ápice da quadrilha ocorre em junho. Digo que é para não chamar a atenção. Digo também que eu é que mantenho este maldito blog e escolho o que faço aqui.

Em alguns lugares do nordeste, existem competições de quadrilhas. Algo que para nós, que vivemos nesse nosso mundo em que quadrilhas são apenas um evento colegial chato, é assustador. Qual a competição que pode existir em algo assim? Como eles fizeram para equiparar uma quadrilha a um desfile de escolas de samba? Existe uma ala da ponte caiu? Uma nota para o noivo e noiva? Outra pro padre? Existe enredo? A história não é sempre a mesma? Como assim?

Pois é. Eu também não sei como a coisa funciona. Já tentei entender, mas não entendi. As pessoas vêm competição naquilo lá, sorte delas, ora. Isto significa outra coisa para mim. É um traço do aumento da competitividade do ser humano. Estimulados por Max Gehringer, a humanidade quer cada vez mais estar preparada, superar adversários. Não basta fugir do pai da noiva. É preciso ser o melhor nesse quesito.

Imagino que no futuro, todos os traços culturais, rotinas, se tornarão competições. Imagino algumas.

Natal: Uma competição pelo melhor Papai Noel. Os diversos Noéis do planeta entrarão numa enorme gincana. Distribuirão presentes, beijos e abraços. Ganharão pontos por atendimentos certos. Perderão pontos por crianças chorando. Bônus por barba e cabelo verdadeiros. O ganhador ganha um... passeio de trenó pelo Ártico.

Independência: Desfile militar com jurados. Avaliarão a evolução, a qualidade e a confecção das camuflagens. O timbre dos instrumentos. A batida. A sincronização da marcha.

Réveillon: Fogos? Não bastarão apenas fogos. Grupos organizarão seus próprios foguetórios que se transformarão em super produções. A sincronia, as cores, a altura. A trilha sonora. Poderão ser utilizados homens suspensos no ar para acompanhar as explosões. Com o aumento dos interessados, logo o réveillon será dividido em dois dias, assim como acontece com o carnaval carioca.

Finados, Corpus Christi ou Dia de Zumbi: Competição de Zumbi Walk. A liga LZW deverá decidir a melhor data.

Páscoa: Encenações da Via Crúcis dos mais diversos grupos. Atores globais bonitões sendo disputados para o papel principal. Meninas chamando Jesus de gostoso e outras coisas.

Contribuam com outros eventos que poderão ganhar competitividade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Teoria de Benjamin Button

O Curioso Caso de Benjamin Button é um filme chato. Tudo bem, ele nasceu velho e morreu novo, que caso curioso. Fora isso, a vida dele foi chata. Não mereceria mais do que uma reportagem de 5 minutos no Fantástico. Ele passou anos perdendo tempo naquele barco, depois ficou dias fazendo sexo com sua namorada. Ok, isso significa que a vida dele pode não ter sido tão chata, mas não foi interessante.

Pois, o Brasil tem um quase Benjamin Button. É o Zagallo. Nesta semana, o velho lobo completou 80 anos. Velho Lobo. Sim, muito velho. Zagallo não vai morrer jovem, mas tenho certeza de que ele já nasceu velho.

Você vê imagens da Copa de 1958, com Zagallo marcando um gol na final. Você vê claramente que ele está lá, com cabelos brancos e ralos, rosto rosado, marcando o gol e apontando para as câmeras dizendo “vocês vão ter que me engolir, cretinos”. Você vê Zagallo velho na Copa de 70. Em 1998 ele estava prestes a ser embalsamado. Mas vejam só, ele é tetracampeão em vencer o tempo.
Só que o velho lobo Jorge não é o único. Existe também ele, Erasmo Carlos. Já que falamos do rei Roberto, falemos agora do seu eterno parceiro, amigo de fé, irmão camarada.

Erasmo Carlos nunca foi novo. Nunca. Busque na sua memória. Você o verá apenas com uma espessa cabeleira branca contraposta a sua calvície. Não se lembrará dele com os cabelos pretos, pele sem rugas. Agora, faça a busca no Google. O resultado será o mesmo. Por pelo menos uma vez, sua memória equiparou o Google.

Esta pode ser a síndrome de dom Pedro II. Aquele cara, que virou imperador do Brasil aos 5 anos de idade, mas cujos registros o mostram como um eterno velho. Sempre está lá, Pedro Segundo, com sua barba imperial, sua cara de mal humor monarca.

Também temos os casos contrários. Das pessoas que nunca envelhecem. Deste grupo, destaco Dinho Ouro Preto. Você vê o cantor do Capital Inicial nos anos 80 e vê aquele adolescente chato dizendo que o mundo vai acabar e ela só quer dançar. Quase 30 anos depois, Dinho Ouro Preto continua do mesmo jeito. Chato, cantando sem camisa, falando caralho e dando cambalhotas quase mortais.

Outro que nunca foi novo foi Pai Jorginho de Ogum... minto, esqueci deste post.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Teoria da Farsa de Roberto Carlos

Assistam ao seguinte vídeo:

O CH3 oferece um prêmio a quem conseguir assistir os 342 segundos deste vídeo, que claramente, trata-se de um dos piores momentos da história da humanidade. Que contribuí para que você passe a duvidar ainda mais dos seres humanos. Perceba que tudo, absolutamente tudo na música é detestável.

Começa pelo fato de Roberto Carlos estar cantando um rap. Porque? Porque ele fez isso? Em momento nenhum ele convence. A música é ruim enquanto rap e consegue ser ainda pior enquanto música de Roberto Carlos. Ele atira no vazio e acerta o nada.

Quando o “Rei” começa a cantar tudo piora. Ok, não é tão péssimo assim no início, até chegar a passagem “Nós somos seres humanos/só queremos a vida mais linda/não somos perfeitos/Ainda”. A partir daí, a argumentação de Roberto Carlos para defender os seres humanos se equipara a uma redação de quinta série, com ênfase no trecho “não podemos ser julgados pela minoria, nós somos do bem, e o bem é a maioria”.

Atire uma pedra quem não se sentiu constrangido com a cara de verdade de Roberto Carlos, exigindo-a, naquele trecho que geralmente é cantado pela Fergie. E chegamos ao refrão que é o ápice. Sua cara de sofrimento e seus versos que o reprovariam na redação da terceira série. “Não adianta me dizer coisas que não fazem sentido/que tal olhar as coisas que a gente tem conseguido/o mundo hoje é bem melhor do que há muito tempo atrás/e as mudanças deste mundo o ser humano é quem faz”.

Perceba a estratégia de negação “coisas que não fazem sentido”. Que coisas? E que história é essa de que o mundo hoje é bem melhor do que há muito tempo atrás? E que prolongação foi essa no faz, Roberto Carlos? Puta merda meu. No começo da segunda parte eu desisti. Na hora em que ele começa a citar os avanços. “O telefone, o rádio, a luz elétrica”. E então faz uma pausa de quatro segundos, com cara de “que rima eu vou fazer?” e manda “o computador, avanços na engenharia genética”. Parei.

Agora explico a farsa sobre Roberto Carlos. Depois de toda essa minha argumentação, você já deveria ter se convencido disso. Um cara que compõe e grava essa pérola devia automaticamente perder todo o seu prestígio e o seu título de nobreza, de “Rei”. A farsa de sua carreira me foi alertada por Duas pessoas. Não citarei seus nomes espontaneamente, para preservar a vida deles. Falar mal de Roberto Carlos no Brasil pode provocar execução imediata.

Não precisaria aqui dizer que ele canta mal, tem uma aparência ridícula e outras questões meramente pessoais. O fato, é que qualquer pessoa em sã consciência não conhece mais do que 10, exagerando, 15 músicas de Roberto Carlos, a maioria de composições feitas em parcerias.

Mesmo assim, ele tem esse tratamento de rei. Rei do que? Sua carreira é incrivelmente inferior a de outros artistas contemporâneos. E ele é que tem o especial na Globo todo ano. Especial que é sempre anunciado da mesma maneira.
Introdução de meu amigo de fé
O Rei Roberto Carlos canta seus grandes sucessos
(Roberto cantando “quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo”.)
Recebendo participações muito especiais (cenas dele com Erasmo Carlos e uma cantora da moda)
E emocionando a multidão (Roberto atirando rosas para a multidão, sorrindo).

Ou seja. Ninguém conhece sua carreira. Ele vive das mesmas coisas há anos. Como Roberto Carlos pode ser o “Rei”? Esse seu título de nobreza é uma farsa. Convocamos a multidão revoltada com essa mentira para marchar pelas ruas de nosso país.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Teoria da Numerologia Musical

O maior legado deixado pelos Power Rangers é a formação bumerangue. Aquela formação, em que o líder do grupo se posta a frente, sendo seguido por duplas que se posicionam estrategicamente um passo atrás. Certo, talvez essa formação seja uma invenção dos pássaros migratórios, mas eles usam isso apenas para voar. Existe uma grande diferença entre voar e salvar o mundo de terríveis seres de lama.

Voar quilômetros só para fugir do frio é chato. Salvar o mundo de terríveis seres de lama que soltam faísca é fundamental para a sobrevivência da humanidade. Sim, pode ser que a formação bumerangue não tenha muita influência no salvamento do planeta. Mas é ótimo para fotografias. E hoje em dia, imagem é tudo. Não adianta nada salvar o mundo, se você não souber posar que sabe.

A posição bumerangue foi amplamente adotada por grupos de pagode. Um colega meu, que não revelarei o nome por motivos óbvios, confessou certa vez ter um CD do Só Pra Contrariar. O encarte deste CD é cheio de fotos nessa formação. Liderados por Alexandre Frota, digo, Pires, os nove integrantes do grupo se postam bumeranguisticamente. Claro há uma grande diferença entre salvar o mundo e aporrinhar as pessoas. Mas isso não importa. O que importa é a imagem. O que importa são os números.

Nove. Sim, nove. Nove integrantes de um grupo de pagode. Um número suficiente para indicar formação de quadrilha. Porque são necessárias nove pessoas para fazer música ruim? Porque? Porque?

Pode se explicar que cada um toca um instrumento. Ou que esse número seja necessário para a realização das suas complexas coreografias, quando eles se apresentam em auditório com playback. Coreografia que consiste em: 1) passo lateral para a direita; 2) passo lateral para a esquerda; 3) repetir os passos, estalando os dedos da mão mais próxima ao líder do conjunto.

Esta não é a razão. O alto número de integrantes em um grupo de pagode é fruto de um paradigma da numerologia musical. Orquestras têm números determinados de músicos, porque o pagode não poderia ter? O pagode trabalha com esse paradigma numeroso, sempre ímpar. Sete ou nove, para poder formar o bumerangue.

Todas as Boy Bands que surgem tem cinco integrantes. Reparem, são cinco. Até as boy band formadas por mulheres tem cinco pessoas. Porque cinco? Porque deve ser um número bom para agrupar as mais diferentes etnias e conquistar segmentos de mercado. Um negro, um loiro, um ruivo, um oriental e um anão eunuco. Fora isso, o número impar deixa de sugerir a formação de casais, algo que ajuda a diminuir as piadinhas sobre a reputação gay das Boy Band.

No sertanejo, nós temos as duplas. Em um tempo remoto, as duplas tinham um significado. Um deles cantava e o outro tocava a viola, fazendo a segunda voz. Essa formação perdeu o sentido desde os tempos de Leandro e Leonardo. Nenhum dos dois toca nada e um deles mal cantar, canta. São acompanhados por uma banda completa que faz todo o trabalho sujo.

Para fazer sucesso no mundo sertanejo é preciso estar em uma dupla. Imaginem o jovem cantor sertanejo perambulando por bares até encontrar o seu parceiro, torcendo para que ele não tenha gonorréia. Você pode até seguir uma carreira de sucesso se o seu parceiro morrer. Mas notem, Daniel nunca foi o mesmo sem João Paulo.

Mas isso pode mudar. Graças a Luan Santana. Ele pode quebrar o paradigma numeral. Ele surge como o primeiro cantor solo sertanejo a fazer sucesso sozinho. Sim, existe Sérgio Reis, mas ele é fruto da jovem guarda.

É difícil prever o impacto disso na sociedade brasileira. Como iremos sobreviver a partir do momento em que os cantores saíam em carreira solo, duplicando o número de sucessos sertanejos? Teremos que pedir asilo político, provavelmente.

Luan Santana pode significar o que Ivete Sangalo significou para a Axé Music. Antes dela, os grupos tinham nome e sobrenome e tocavam as mesmas músicas. Existe uma espécie de domínio público no Axé. A partir do momento em que ela deixou a Banda Eva e partiu para a sua carreira solo, ela alavancou tantas outras “divas” do estilo. Ela quebrou o paradigma. Agora, cantoras têm nome e sobrenome e cantam sempre as mesmas músicas.

Em tempo, no funk não existe numerologia, apenas putaria.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Estudo Orçamentário

Você chama uns amigos na sua casa para um churrasco. Sua casa tem piscina. Um amigo chega com um violão. Vocês colocam uma carne na brasa. Chega um amigo advogado com uns pãezinhos de alho. Um queijinho frito, cervejinha. Seis horas da tarde o primeiro amigo diz que vai embora e logo na seqüência todos vão. Aposto que você gastou pelo menos 500 mil reais nesse churrasco.

Sim, é claro. Você mal gastou 200 reais, divididos entre o pessoal. Mas é porque é um churrasco seu. Se fosse um churrasco oficial da Copa do Mundo, esse preço se exorbitaria. Não sei se é o selo “FIFA World Cup” ou o que é. Mas no geral, qualquer obra, realização pública tem um preço incrível.

Tome por exemplo o sorteio das eliminatórias, realizado no Rio de Janeiro, sábado passado. Um evento fajuto, desimportante, apresentado por globais e com shows bregas. Custou 30 milhões de reais. Paro e penso nos gastos de um evento desse. Cerimonial, segurança, cachês, transporte, hospedagem, aluguel. Como se chega a 30 milhões? Mal comparando foi uma mega-formatura, dessas que custam 200 mil.

Aqui no meu bairro, construíram um muro em volta de um campo de futebol. O valor? 83 mil reais. Isso para colocar um daqueles muros feitos de placa de concreto, demorou três dias pra ficar pronto. Mas custou o preço de uma casa. A pavimentação de uma rua gira em 500 mil reais. Acho que se tudo fosse feito dessa forma, nossa vida seria complicada.
- Quanto é o estacionamento?
- 800 reais. Seis mil se for com manobrista.
- E a cerveja?
- 300 reais. 600 a porção de frios e a macarronada bolonhesa saí por 800 mil. Mais os 10% do garçon, vai para 6 milhões de reais.

Mas é claro. Se você achar esse número exorbitante, é bem provável que exista um estudo que o comprove. No mundo atual existem diversos estudos sobre tudo. Estudos que provam que é preciso trocar todos os postes da cidade por modelos de titânio, numa operação que custará 60 bilhões de reais. Estudos que provam que esse investimento será recompensado, porque os postes de titânio atraem mosquitos, evitando que eles transmitam dengue, fazendo que o governo economize 10 reais por dia no combate a malária.

Imagino que exista uma fábrica de estudos. Uma empresa especializada em escrever estudos sobre determinados assuntos, tal qual as pessoas que escrevem monografias por dinheiro. Ou os estudos sejam apenas um grande recurso da Arte de Citar Fontes Inexistentes (ACFI – A Arte de não criar iniciais engraçadas ANCIE).

Ah, esse post me custou 39 mil reais.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

#joaosorrisão

A humanidade sempre tem que achar um culpado. Alguém que carregue em seus ombros a culpa por um fracasso individual ou coletivo. O piloto que derrubou o avião. O cara que puxou o coro por Barrabas. Assim sendo, eu escolho o Tiago Leifert. Escolho-o culpado por transformar o mundo em um lugar mais idiota.

Quando ele surgiu no comando do Globo Esporte, foi tratado como o novo Messias. Foi o responsável por alavancar a audiência do programa e reformular seu aspecto. O programa sempre teve o mesmo ambiente, desde a época em que o Léo Baptista era virgem. Um apresentador aparecendo da cintura para cima, gesticulando com as mãos em frente a um fundo chroma-key.

Com Tiago, o programa ganhou um cenário expansivo, jovial, descolado, clima de azaração. Deve ter feito sucesso com as mulheres, comprado carros.

Só que tudo fica repetitivo. Ainda mais quando alguma coisa aposta na descontração. Para deixar de ser descontraído e passar a ser apenas idiota, é um pulo. Fora que com o tempo, as pessoas passam a apostar no lado mais fácil do sucesso. Ah, era um programa engraçado e inteligente. Então, como é difícil ser inteligente, vamos ser apenas engraçados. O Fator Leifert se tornou o culpado pela idiotização do jornalismo esportivo da Rede Globo de Televisão.

Ok, as reportagens esportivas da Globo nunca foram grande coisa. Sempre foi duro ver Tino Marcos com aquele sorriso no canto do rosto explicando o jogo como se fosse um professor da primeira série. Régis Rösing fazendo metáforas entre a lua cheia e a bola. Roteiros dramatizados. Momentos de consagração acompanhados por uma péssima música orquestrada. Perguntas idiotas para atletas que não tem o que falar.
- Cielo, feliz com a medalha?
- Eu (fôlego) estou muito (fôlego) feliz (fôlego) sim aaah.

Fora as malditas tentativas de pegar o Gol na hora certa.


Mas agora, todos estão idiotas. A Glenda Kolowoskoski se transformou em uma chata ambulante. Se empolga com qualquer coisa. O Tande, coitado, faz papel de retardado mental. É um papel sempre triste, mas fica ainda pior quando você tem mais de 40 anos. E pior ainda quando você tem mais de 2 metros de altura.

Os programas esportivos da Globo são uma filial do chato CQC. Mas, lembre-se. Tudo pode piorar. Depois do NX0 vem o Restart.

E na minha avaliação, foi a sementinha de descontração plantada por Tiago Leifert, anos atrás, que germinou e cresceu até se transformar nisso, que é o pior momento da humanidade. O João Sorrisão.

A idéia de premiar com um joão-bobo, chamado João Sorrisão, cada jogador que fizer a dança do joão-bobo ao fazer um gol, dança esta que tem uma música composta por um grupo de axé, é uma idéia tão idiota, mas tão idiota que é difícil acreditar como ela se transformou em realidade. A pessoa poderia não ter a idéia. Ela poderia ter e achar que é ridícula. Ela poderia contar para alguém que diria “meu, é ridículo”. Existiram dezenas de pessoas que poderiam dizer “cara, que merda de idéia”. E, aprovada e levada adiante, os jogadores de futebol poderiam dizer “porra, imitar joão-bobo? Nem fudendo”.

Mas acontece. Agora, em todos os jogos sempre há um maldito jogador disposto a comemorar o gol da pior maneira possível. Quando um jogador do meu time faz essa comemoração eu fico envergonhado. Passo a torcer para que o infeliz quebre a perna. O João Sorrisão vai, aos poucos, matar o futebol brasileiro, espantar torcedores do estádio. Provocar o fim da humanidade.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Grandes Nomes da História (11)

O Outro e o Mesmo

O Mesmo é uma das grandes figuras de nossa sociedade contemporânea. Aquele cara que fica espalhando o terror por elevadores de todo o Brasil. É provável que você não o tenha visto, mas sabe que ele existe. Afinal, sempre que você vai entrar em um elevador, lá está o misterioso aviso: “antes de entrar no elevador, verifique se o Mesmo está no andar”.

Poucas pessoas já encontraram o Mesmo. E ninguém sabe o que fazer, caso ele realmente esteja lá. Isso é um bom sinal? Ou você deveria fugir? O Mesmo irá te matar, extirpar seus órgãos vitais e comer as suas vísceras temperadas com limão e orégano? E em que lugar do andar ele estará? Dentro do elevador, com o zíper abaixado? Pendurado no lustre, pronto para lhe oferecer um champanhe safra 86?

Ninguém sabe. Temos apenas que conviver com esse medo que corrói as nossas almas. Mas, enfim, falemos da vida deste nobre cidadão. Ele nasceu um dia, cresceu e sempre manteve a coerência. Todos os seus amigos dizem que ele sempre foi o Mesmo. Habita elevadores por motivos desconhecidos. É provável que seja um fetiche por aquele sobe e desce interminável. Há quem sinta desejo sexual por patos, porque não sentir tesão por um elevador? Aquele ambiente metálico, cheio de botões e espelhos. Fim.

Agora, falemos sobre o Outro. O Outro é uma pessoa simples, mas sempre misteriosa. Ninguém sabe aonde ele vive, mas vive de dizer frases. Você nunca viu uma pessoa dizendo “como diria o outro: rapadura é doce, mas não se enfia no cu”? Então. É provável que você tenha imaginado que este era apenas um recurso estilístico, uma lição sobre a arte de citar fontes inexistentes. Mero engano.

O Outro realmente existe. Dizem que ele talvez seja um louquinho de bairro, que seja um messias perdido. Ninguém sabe aonde ele vive, mas vive de dizer frases. O Outro atende pelo número de celular 9200-2891. Você liga para ele e pede uma frase. Ele te dirá. Todas as frases da história do universo foram proferidas por Outro. Tirando algumas frases desse texto, que fui eu quem escreveu.

Foi o Outro que disse “tomai todos e bebei, este é o meu sangue”. Também foi Outro que falou “Minha terra tem Palmeiras aonde cantam os Sábias”. E também foi o Outro que disse “mulek preiboi, funkero séquisso anal, a chatuba de mesquita pega as mulé de geral”.

Mas, nunca se esquece. O Mesmo não é Outro. E o Outro não é o Mesmo, não que isso seja um julgamento de caráter, entenderam?