quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Armas Caseiras

Nota: Não deixe esse texto salvo em seu smartphone ou notebook, caso você esteja indo participar de alguma manifestação de rua. A polícia poderá te considerar um subversivo e poderá forjar morteiros escondidos no seu ânus.

Em 2005, os brasileiros tiveram que ir às urnas em uma situação atípica. Não era ano eleitoral, mas as competentes autoridades organizaram um referendo sobre a lei do desarmamento. O pleito colocou em lados opostos os pacifistas bundas moles incapazes de matar uma mosca, contra aqueles que acham que ter uma arma dentro do seu armário é um direito sagrado para proteger a sua família do mal que habita o lado de fora.

Não me lembro direito qual foi o resultado desta consulta popular, porque ela sempre me pareceu insignificante e incapaz de mudar os rumos do país. Quem quisesse ter uma arma em casa para fazer justiça com as próprias mãos, iria ter uma. Independente das leis. Até porque, todos nós já temos armas em casa, por mais que muitas vezes não tenhamos ideia disso.

Não falo aqui das poderosas facas ginsu e nem parto do princípio de que existam vários MacGyvers espalhados pelos mais diversos rincões de nosso Brasil varonil. Falo de objetos simples e comuns dos quais você não faz ideia do seu potencial letal.

Se quer uma dica, essa dica é: não
cozinhe com a cabeça sobre a panela
Você provavelmente tem uma panela de pressão na sua casa. Utensílio doméstico aparentemente inofensivo que se utiliza de alguma propriedade física para poder cozinhar os alimentos de uma maneira mais rápida. No entanto, mesmo parecendo ser incapaz de matar uma mosca (a não ser que essa mosca acabe caindo dentro dela), a panela de pressão pode ser mortífera.

Ela possuí um intrincado sistema de válvulas, que deve passar por limpeza e manutenção constante. Quando alguma coisa dá errado e o processo físico não ocorre da maneira adequada, a panela acaba explodindo e trazendo inúmeras consequências, que vão desde queimaduras de primeiro ou segundo grau, passando pela desfiguração total do rosto, traumatismo craniano e a morte provocada por queimaduras ou soterramento através dos alimentos. Fora isso, ainda vai ficar um monte de feijão espalhado pela casa e seu teto poderá ficar imprestável. Vai ser muito chato para os que sobreviveram. Por ano, cerca de 46 pessoas morrem em acidentes assim.

Todas as casas também têm privadas. Os vasos sanitários também estão presentes em diversos estabelecimentos públicos e comerciais. Diria que eles foram fundamentais para a evolução da humanidade, porque antes do seu advento, o povo era obrigado a cagar no mato e conviver com o mau cheiro. Os vasos sanitários levam todos os dejetos até um rio próximo, trazendo transtorno apenas para os organismos que vivem nesse rio. As privadas também são responsáveis por mortes dolorosas e agonizantes.

Circulam pela internet fotos de pessoas que passaram por isso e eu recomendo que você não procure por essas fotos. Geralmente, os acidentes acontecem em casas noturnas e geralmente com mulheres, que diante de uma privada infestada de dejetos, se recusam a se sentar nela. Por algum motivo, essas pessoas resolveram apoiar os pés na lateral para realizarem agachadas as suas necessidades.
Imagina isso tudo dentro de você.

O problema, é que os vasos sanitários não foram projetados para aguentar todo o peso de um ser humano e acabam se quebrando. Não queira imaginar a quantidade de estilhaços que são provocados por essa quebra e não queira imaginar como eles penetram na carne humana provocando cortes profundos e até mesmo membros decepados. Uma morte horrível.

Outros objetos caseiros também provocam mortes dolorosas, mas geralmente ela está associada às descargas elétricas provocadas pelos aparelhos, ou pela capacidade que as facas têm de cortar. Mas, esse são riscos dos quais as pessoas tem alguma noção, ao contrário das privadas e das panelas de pressão. E também das bigornas.

A bigorna, caso você não saiba, é um instrumento utilizado por ferreiros. É um bloco de ferro que pode pesar centenas de quilos e serve de apoio para o manuseio de outros objetos metálicos. O grande problema é que as bigornas tem o péssimo risco de cair do céu em momentos inoportunos e provocam sérios acidentes. Além disso, elas possuem um estranho poder que paralisa as pessoas que estão prestes a serem atingidas por elas. Felizmente, ela não provoca a morte, apenas um galo na cabeça e alguns hematomas, além da decepção por não ter alcançado o papa-léguas.

Compartilhem esse texto. Vamos contribuir para acabar com os acidentes domésticos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Nome da Rua

Andando pelas ruas da sua cidade, você passará por uma série de nomes. Figuras históricas, anônimos famosos, árvores, cidades, países, palavras completamente aleatórias. As ruas costumam a ser nomeadas por critérios que não são assim tão lógicos. No centro antigo, elas costumam a homenagear pessoas, enquanto que nos bairros, o critério fica por conta de quem fez o loteamento.

A figura mais onipresente no mundo dos nomes das ruas é Getúlio Vargas. O ex-ditador também é de longe o presidente que mais tem ruas em seu poder. O Juscelino tem bem menos ruas em sua homenagem, Jânio Quadros não deve ter nenhuma e eu vejo um grande potencial no futuro de Tancredo Neves. De qualquer forma, os presidenciáveis prediletos são aqueles que estiveram no poder antes do Estado Novo.

Os nomes regionais costumam a soar bem estranhos para quem não é da cidade. Aqui em Cuiabá nós temos Antônio Maria, Barão de Melgaço, Isaac Povoas, Pedro Celestino e toda a família Correa da Costa. Também temos a rua Cândido Mariano e a rua Marechal Rondon, mas, curiosamente, os dois são a mesma pessoa. No Rio Grande do Sul, chama a atenção a existência de um logradouro homenageando Borges de Medeiros em todas as cidades.

Mas é dentro dos bairros que os critérios são realmente legais. O cidadão que fez o loteamento resolve que todas as ruas irão homenagear um determinado país, ou um determinado braço da biologia. O meu, por exemplo, homenageia árvores e flores, por mais que essas árvores e flores não existam na maioria das ruas.

No glorioso Jardim Califórnia, todas as ruas homenageiam cidades e localidades norte-americanas. Como a quilométrica rua Hollywood, a Rua Sacramento (que começa onde termina), mas, ali no canto existe uma rua chamada Razão e Lealdade. Poderia ser uma música do CPM22 ou da Rosana. Porque esse nome ali no meio? Não sei. Só sei que Razão e Lealdade é o nome de rua mais brega do mundo, atrás de uma possível rua Fé, Foco e Força.

Já o criador do bairro “Praeiro”, decidiu que todas as ruas do bairro começariam com P. Palmeiras, Paquetá, Panorama, Panasco. Panasco? O que é isso? Um tempero novo do McDonalds?

No Jardim Leblon, o bairro de Pai Jorginho de Ogum, os pioneiros abusaram da criatividade e resolveram não seguir nenhum padrão lógico. Há homenagens para personagens (Couto Magalhães, Benedito Camargo), datas aleatórias (3 de janeiro, 4 de janeiro e 8 de Junho), nomes genéricos (Rua Nação, Rua Bela Vista) e tolas ruas numerais.

Aliás, por mais que as ruas tenham nomes exóticos, é melhor morar em uma rua com nome de pássaro do que em uma rua numeral. Nada mais broxante do que morar numa mera “Rua 6, na Quadra 8”. Ou nas igualmente broxantes ruas alfabéticas. Veja o caso de Brasília em que todas as ruas tem nomes de códigos genéticos e de prefixo de aeronave. É uma confusão danada.

Mas, nem tudo vale no mundo dos nomes de rua. Alguns assuntos, aparentemente são tabus. Fetiches é um deles. Você jamais viu um bairro com a rua da Podolatria, ao lado da rua do Loonerismo. Mas tudo bem, até entendo por que.

Agora, pássaro pode, cachorro não pode. Para cada Rua Sabiá ou João de Barro, jamais existirá uma rua Poodle e outra Pitbull. Cidades africanas também não são bem aceitas, assim como interpretes da música brasileira, ao contrário dos poetas. Flores são populares, mas vegetais leguminosos não. Há uma cadeia de prioridades no mundo dos nomes da ruas.

(Agradecimentos ao leitor Luan Germano, que, incomodado com a rua do lado da sua casa que inexplicavelmente se chama “Rua Cruzeiro”, motivou esse post).

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Polícia Indie

Se há alguma coisa boa que a internet permite é o patrulhamento ideológico que nós podemos exercer sobre cada um. Se antes você precisava se organizar em grupos que utilizavam capuzes e seguravam tochas para poder linchar pessoas e esses linchamentos tinham que ocorrer em praça pública, hoje você precisa apenas de um computador com acesso a internet.

Temos os Grammar Nazis, que julgam o português alheio, mas eu até os entendo porque na internet nós temos os mais diversos crimes cometidos contra a língua portuguesa. E um tipo muito comum e cada vez mais popular é a Polícia Indie. Esses policiais alternativos são os responsáveis por definir o que é bom e o que não é bom no mundo da música alternativa. Pelas liberações e criminalizações dos mais diversos gêneros e bandas.

Começo com um exemplo clássico: Los Hermanos. Começaram com o sucesso de Anna Júlia, lançaram um dos discos mais aclamados da história do rock alternativo e hoje são expressamente proibidos no território nacional. Aqueles que gostam da música do grupo dos barbudos tem que fazer isso na clandestinidade. Trancados no banheiro com a toalha na fresta pra não escapar nenhum barulho. Nas ruas, apenas com fones de ouvido e MP3 renomeados.

No momento em que alguém se revela fã de Los Hermanos, passa a ser visto como um barbudo de chinelo e camisa xadrez, estudante subversivo de ciências sociais que participa de fóruns na internet discutindo o significado de versos como “fiz aquele chá de habu pra te curar da tosse e do chulé”. Será marginalizado no convívio social e perderá o emprego, sem dúvida.

Como é que a Polícia Indie atua? Não sei. Eles são uma organização secreta. Um dia, você entra em algum site de música e os comentários estão massacrando uma banda ou enaltecendo outras. Acredito que deva existir alguma espécie de hierarquia, com líderes camuflados nos mais diferentes setores do establishment da internet. Acredito que eles tenham fakes nas redes sociais, invadam perfis e pratiquem lavagem cerebral.

A Polícia Indie foi a responsável por definir que no começo do século o bom era o rock sujo. Depois, que legal era escutar o revival dos anos 80. Definiram a supremacia do rock eletrônico em anos recentes e agora caminham para louvar a influência de ritmos tradicionais no som atual. Eles criaram o Vampire Weekend, o The XX, Arcade Fire e TV on The Radio.
Dado Dolabella, agente da Polícia Indie, tentando enquadrar João Gordo por suposta traição. A PI só tolera movimentos de raiz.

Eles também são responsáveis por definir quais são os ritmos liberados para que o Indies possam escutar. Foram eles que liberaram o technobrega e Gaby Amarantos nos últimos anos. Eles que estão abrindo o uso de É o Tchan para fins recreativos. E eles também que definiram que gostar de Bruce Springsteen é requisito necessário para abrir um crediário nas Casas Bahia (Em tempos remotos, essa exigência existia com o nome de Paul McCartney).

No entanto, assim como eles criam, eles também podem destruir. Veja o caso do Strokes que foi lançado pela Polícia Indie no começo do século e que hoje em dia está absolutamente criminalizado. Não basta não ouvir, é preciso ridicularizar a banda no Twitter para não ser preso. O Franz Ferdinand é a próxima banda que está seguindo por esse caminho.

Claro que há uma outra possibilidade de exercer sua liberdade auditiva, que é nos shows. A Polícia Indie ainda não conseguiu se infiltram nas maiores esferas de poder para proibir a reunião de criminosos em lugares públicos e tampouco andam armados para reprimir com violência essas manifestações. Aliás, muitos dos policiais até vão no show, apenas para constatar o declínio da banda. Não procede a informação de que, escondidos, eles até cantam alguma música.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Bem me quer, mal me quer

O chocolate estava em uma capa da revista Veja deste mês. “PODE COMER SEM CULPA” diz a chamada, explicando que a ciência é quem diz isso, ele contém dezenas de substâncias que ajudam a viver melhor e mais saudavelmente. A capa ainda traz uma foto da Marina Silva, mas acredito que a chamada sobre ela não diga nada sobre poder comer sem culpa, ou com culpa.

Não li a matéria, afinal, trata-se da revista Veja. No entanto, acredito que a reportagem fale sobre as novas descobertas da ciência, entreviste alguém que come chocolate todo dia e mantém muita disposição para o trabalho, dê voz aos produtores do chocolate, explique quantos empregos a indústria do cacau gera e culpe o governo do PT pela crise de desabastecimento da área, indo contra a chegada dos cacaueiros cubanos.

O chocolate é um daqueles alimentos que estão sempre sendo discutidos pelos cientistas e eles nunca chegam a nenhuma conclusão sobre o assunto. Por vezes, ele faz muito bem para a saúde, em outras ele é um veneno que mata lentamente, comer chocolate é tentativa de suicídio. Mas o doce proveniente do cacau não é o único nessa discussão. Existem muitos outros alimentos presentes no vai-e-vem da saúde científica. Existem, aliás, aqueles elementos que brigam pelo posto de “vilão da vez” da saúde.

(Muito provavelmente, a matéria da Veja deve explicar que o que faz bem é o cacau, portanto, quanto mais amargo for o chocolate, melhor ele será para a saúde e pior será para o seu prazer).

Açúcar: o açúcar teve um papel fundamental para o desenvolvimento da humanidade, tanto que os países europeus brigavam por terras onde era possível plantar cana de açúcar no período do colonialismo. Também, pudera, antes eles precisavam tirar açúcar da beterraba e imagina o que era tomar uma limonada nessa época. No entanto, seu consumo em excesso também mata. Atualmente, é um dos grandes vilões da ciência. Ultimamente um pouco atrás do sal.

Moral da história: pó branco faz mal.
Sal: O sal também foi fundamental na história da humanidade, tanto que na época do Império Romano os soldados recebiam o pagamento pelo seu trabalho em forma de punhados de sal. Como eles deviam morrer jovens, não tiveram tempo de descobrir a hipertensão, principal problema do sal. No atual momento, o sal ocupa o topo da lista de preocupações das autoridades sanitárias mundiais. Mas, sem ele, seria impossível ser saudável comendo salada.

Café: Sim, o café também já foi base da economia mundial. Muito apreciado pelos insones e por todos aqueles que preferiam estar dormindo, mas tem que ficar acordados, o café já foi um dos grandes vilões da sociedade. O fato é que o café pode provocar até alucinações, problemas nervosos, osteoporose e dentes amarelos se consumido em excesso. No entanto, atualmente o café está sendo melhor visto pela ciência graças ao seu poder antioxidante. Você não enferruja tomando-o.

Vinho e Álcool no geral: A grande questão de todos esses alimentos é que você não deve consumi-los em excesso. O mesmo ocorre com o álcool, que, vocês sabem, se consumido em excesso pode provocar embriaguez, cirrose hepática e caminhadas amnésicas em parques públicos, arremessando objetos contra autoridades públicas e depois acordar na manhã seguinte na casa de pessoas que você nunca viu na vida. Só que no entanto, nos últimos anos o vinho vem sendo tolerado e até estimulado. Uma dose diária seria responsável por melhorar a sua circulação e, quiçá, provocar a vida eterna. Em breve, o uísque deve aparecer como responsável por evitar queda de cabelo.

Ovo: O ovo é o maior mistério da humanidade e é claro que não estou falando aqui daquela polêmica boba entre o ovo e a galinha. Nunca ficou bem claro se o ovo faz bem para a saúde ou não. Ele já foi muito ruim, passou a ser bom, voltou a ser ruim tornou-se tolerável, ficou excelente e depois sabe-se lá. O fato é que a gema seria uma fonte pura de colesterol, e a clara teria albumina, boa para dar energia. Há quem diga que nem colesterol ele tem e outros que afirmam que ele faz peidar muito. Isso é verdade mesmo.

Pão Francês: A taxa de vilania do Pão Francês vem crescendo de maneira exponencial e nós aqui apostamos que em breve ele vai superar o sal no topo da lista de preocupações dos nutricionistas. O problema é que ele tem muito carboidrato e os especialistas recomendam que ele seja consumido sem o miolo. O que, convenhamos é um desperdício. Se for pra comer o pão sem o miolo, é melhor nem comer. Vamos lançar uma campanha pela descriminalização do miolo do pão.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dúvidas Sobre a Organização de uma Suruba

- Cara, estou organizando uma suruba lá em casa. Essa vai ser porreta! Aparece lá!
- É? Massa! Quem é que vai?
- Se você e sua namorada forem, já somos três.
Organizar uma suruba não deve ser uma tarefa fácil. Para que o bacanal ocorra com total tranquilidade, o organizador da festa precisa observar uma série de detalhes. Acredito que uma orgia má organizada tende a acabar em maneiras cruéis de assassinatos envolvendo rotweillers famintos, mesmo que esse assassinato ocorra um ano depois da festa.

Falando em piadas, vocês conhecem a da minhoca em caiu no meio da macarronada, não?
Quem estiver dispostos a receber alguns convidados para uma putaria desenfreada na sua casa tem que se atentar a relação entre o número de convidados e o espaço da festa. Não adianta chamar 100 pessoas para a sua kitnet, porque essa experiência seria, no máximo, parecido a encoxar alguém no ônibus das seis da tarde. Portanto, chame no máximo oito pessoas para a sua kitnet. Se quiser chamar 100 pessoas, arrume uma casa maior.

Depois que você estiver com o número de participantes fechado, chega a hora de fazer o convite e lidar com o tabu das pessoas. Qual é a melhor forma de fazer isso? Com certeza não deve ser por meio de um papel decorado dentro de um envelope convidando vossa excelência para trepadas aleatórias em minha humilde residência. Também não dá pra sair chamando qualquer um “e aí, topa uma suruba lá em casa?”. Acredito que seja melhor chamar pessoas de confiança, por mais que como é que dá pra saber quem é confiável pra ir a uma suruba? Os convites devem ser feitos por telefone, para não correr o risco de apanhar na rua. Ah, sim. Tente manter uma proporcionalidade razoável entre o número de homens e o de mulheres. Afinal, quem tem cu, tem medo.
Então, vem o Marcão, o Rui, o Pereba, o Ronaldo e você

O local da festa também merece cuidados especiais. Será preciso guardar objetos frágeis e de valor para evitar prejuízos. Não deixe nada em cima da mesa, porque sempre pode ter algum convidado espasmódico. Tome cuidado com cenouras, pepinos e outros vegetais de duplo sentido que podem provocar acidentes e enterrar carreiras. Dificulte o acesso aos espetos de churrasco. E claro, não se esqueça de comprar camisinhas. Pelo menos umas 200. O que será que a balconista da farmácia vai pensar de você? Se for o caso e se ela parecer confiável, chame-a para o evento.

O Momento, finalmente
Por mais que a preparação seja um tanto complicada, o momento do evento é o mais difícil. Na hora marcada as pessoas começarão a chegar até sua casa. Elas já chegarão nuas? Fantasiadas? Irão logo se encostar na parede? E como é que você deve receber os convidados? Entra aí, a Lúcia e a Débora já estão se pegando lá nos fundos, opa, sem trocadilho. Sempre há, também, a possibilidade de que apareça um penetra, sem trocadilhos novamente.

Sendo que todos os que apareceram ao local já sabiam que iriam participar de uma suruba, uma hora ou outra todos irão participar. Bem, claro que sempre há a possibilidade de que alguém prefira ficar sentado no sofá comendo pipoca e assistindo UFC, observando o bacanal esporadicamente, ou quem resolva brincar com balões apenas. Novamente, mais dúvidas comportamentais.
É mais ou menos assim, só que sem roupa. E com algumas mulheres no meio.
Se um casal está engajado em um ato sexual, convém interrompê-los? Vale a pena chegar dando um beliscão, enfiando o dedo em algum orifício ou fazendo um montinho? Ou será que é preciso pedir permissão? Em uma suruba, você pode chegar em qualquer um ou é preciso perguntar antes? Eis a grande dúvida. Dono da casa tem vantagem, tal qual o dono da bola que sempre jogava no futebol?

A única certeza, é que depois vai ser uma merda pra limpar a casa.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Redação Enem nota 10: Mobilidade Urbana

(depois do sucesso da redação sobre sustentabilidade, o blog apresenta agora, orgulhosamente, um texto sobre outro assunto polêmico: a mobilidade urbana)

A questão da mobilidade urbana esteve no centro das discussões nacionais durante as manifestações que ocorreram nas ruas de várias capitais brasileiras no último mês de junho. É sempre bom lembrar que o estopim para o começo do movimento foi o aumento de vinte centavos no preço da passagem do transporte público em São Paulo.

As manifestações chamaram a atenção para um velho problema brasileiro: a mobilidade urbana. As más condições do transporte público, associado a péssima conservação da malha viária dificultam o cotidiano dos moradores das grandes cidades. Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino, de longe eu avistava a figura de um menino, que corria, abria a porteira e depois vinha me pedindo pra tocar o berrante. É preciso fazer algo.

É bom lembrar que o direito de ir e vir está garantido pela constituição brasileira. No entanto, as condições do transporte público dificultam esse direito. Sempre que entrava no ônibus lotado eu levava umas passadas de mão, beliscões, etc. Era inevitável, não tinha nem como reclamar, na verdade nem dava para saber quem era o autor das gracinhas. Certo dia numa dessas voltas senti um cara muito inconveniente me roçando na bunda insistentemente. Portanto, mobilidade urbana é uma questão constitucional.

Depois das manifestações, várias autoridades anunciaram medidas para melhorar o bem estar da população. No entanto, certo dia, antes de descer do ônibus, um homem sussurrou no meu ouvido: amanhã vem de saia e sem calcinha, que vou te levar a loucura. Isso me deixou muito excitada, o que será que aquele idiota pensava? Será que ele achava que ía me comer? Assim sendo, pouca coisa foi feita desde então.

Nas eleições do ano que vem, o assunto da mobilidade urbana deve estar presente nos debates entre os candidatos. Ele enfiou quase metade da pica e ficou bombando bem gostoso, ajudado pelo balançar do ônibus. Eu estava com medo de notarem minha excitação. Virei para ele e pedi para parar, pedi para descermos para fazer direito em outro lugar, pois eu estava muito excitada. É preciso oferecer transporte de qualidade para o povo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Medo de Avião

O cantor bigodudo Belchior sofria de um clássico medo de avião. Diz a lenda que no final dos anos 70 ele se envolveu em uma viagem psicotrópica misturando Beatles, conhaque e James Dean, da qual ele se aproveitou para passar uma cantada em uma aeromoça e segurar na mão de outra moça qualquer, quase em um roteiro de filme pornô. Um franco atirador esse Belchior. O medo de avião não impediu que ele escolhesse um avião para desaparecer no Uruguai, alguns anos depois.

O fato é que todo mundo tem medo de avião, em menor ou em maior grau. Todo mundo fica tenso na hora em que a aeronave dá aquele primeiro solavanco ao passar por uma turbulência. O seu autocontrole é que vai definir se você vai fingir que continua lendo o jornal normalmente ou se você vai se jogar no chão e gritar desesperado em busca do assento flutuável e das máscaras de oxigênio.

Eu também tenho medo de avião. Mas o meu maior medo é de que aconteça uma situação inusitada dentro do avião, da qual você não poderá escapar. O fato é que não há como você fugir de lá se, por exemplo, a Maria Gadú for convidada para fazer um pocket show em frente dos banheiros da parte da frente.

O único paralelo possível com o avião é o elevador e Silvio Santos soube explorar bem isso numa série clássica de pegadinhas. É muito desagradável estar com um caixão dentro do elevador porque se ele quebrar, você vai ficar um tempão preso com o defunto lá dentro. No avião também. Com a diferença de que se você estiver em um voo São Paulo/Manaus, vai demorar muito mais e a Maria Gadú vai torrar a sua paciência e, lembramos, que os assentos são apenas flutuáveis e não servem como paraquedas.

Você deve estar rindo agora desse medo sem sentido, afinal, na sua visão inocente, não há a menor chance de que a Maria Gadú presenteie os passageiros com sua brilhante discografia shimbalaiêsca. Engano seu. Esse risco existe.
Tá rindo?
Algum tempo atrás eu vi uma matéria da revista da Gol sobre uma ação de marketing feita pela companhia aérea durante a realização do Skol Beats, um evento de música eletrônica patrocinado por uma cervejaria. Na noite do show, os voos que chegaram em São Paulo foram animados por um DJ e teve venda de bebidas alcóolicas. Tudo bem, as bebidas não são de todo ruim, mas o DJ é insuportável. E sabe o que é pior? Ninguém sabia de nada. Os passageiros estavam indo alegremente em um voo noturno para São Paulo, quando foram surpreendidos com a presença de um DJ a bordo. Terrível.

Não muitas semanas atrás, eu também vi uma matéria no Globo News sobre um grupo que fez uma apresentação teatral dentro de um avião. Sim, isso mesmo. Nada contra o grupo e contra a divulgação da cultura mas deve ser terrível estar dentro de uma peça de teatro quando você imaginava que estava apenas se locomovendo entre duas cidades.

Em breve, qualquer dia, você vai estar lá indo para Recife num voo com três horas de duração e será interpelado por uma peça de teatro contemporâneo. E lá, dentro do avião, eles irão enfiar o saco na sua cara, cuspir na sua cara e simular sexo com as bandejas e, repito, você não vai ter como fugir. Isso é um risco. É um filme de terror. Qualquer dia os passageiros irão derrubar o avião no chão, como naquele filme sobre o 11 de setembro.

Outra questão, essa aposto que você tem medo, é de criança chorando dentro do avião. Tem medo porque já aconteceu com você. Aliás, acontece quase toda vez. Não importa o local em que você se sente, terá uma criança lá dentro chorando. E esse é um dos maiores dramas que você pode enfrentar numa viagem. Já vi crianças que choraram uma hora de relógio, ou mais.

O drama da criança chorando no avião mexe com todos. Aliás, uma criança chorando em qualquer lugar já é uma situação dramática, mas dentro do avião a situação é potencializada justamente pelo isolamento do local que obriga todos a encararem a situação de frente.

Sempre haverá alguma mulher experiente por perto que irá ensinar os pais a como cuidar da criança chorona. Trará longas experiências e ficará falando com voz infantil, irritando ainda mais a criança que logo aumentará o seu choro. A aeromoça tentará intervir. Será montada uma força tarefa para fazer com que a criança cale sua boca e em algum momento, a única solução vai ser fazer um pocket show do Belchior, renascido, cantando sobre apertar a mão da aeromoça.

Não há para onde fugir.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Bullying em retrospectiva

Cara, o que importa é que você sobreviveu
Já dá pra dizer que virou uma tradição na internet. Todo dia 12 de outubro, o Dia das Crianças, os usuários do Facebook alteram suas fotos de perfil para fotos de quando eles eram crianças. Geralmente uma foto fazendo alguma arte, porque criança não faz muita coisa além disso. As fotos também tem aquele ar nostálgico e solene que todas as fotos antigas têm.

As fotos geram uma reação praticamente unânime dos outros usuários. Todos falam sobre como a pessoa era uma criança bonita, fofinha, simpática e alegre. Algumas vezes dá até vontade de perguntar o que foi que te aconteceu meu filho, como é que uma criança assim tão charmosa pode ter se transformado nesse adulto feio como o cão. Porque a vida foi tão madrasta? Sensação que aumenta no Day After, quando as fotos adultas voltam aos perfis.

A criança simpática da foto de hoje, provavelmente era a criança que sofria Bullying dos coleguinhas. Porque era gordo, porque era magro, porque tinha dentes grandes, porque não tinha dentes, porque era alto, porque era baixo, porque usava óculos, porque tinha todo jeito de ser viado e não gostava de jogar futebol. Era a criança que apanhava dos colegas, era humilhada e teve que ter muita força mental para não aparecer no colégio portando uma arma para metralhar todos os coleguinhas na hora do recreio.

Seria um risco danado se a volta das fotos de crianças até os perfis do Facebook trouxesse de volta o espírito dessa época, com adultos travestidos de crianças fazendo comentários maldosos sobre essas crianças bonitinhas. Seria a volta dos traumas de outrora, agora já esquecidos.

- Hahaha, olha só o rolha de poço.
- Hahahaha, parece uma vassoura.
- Hahaha, bichinha desde sempre.
- Quatro olhos, hahahaha.
- Tampinha!

Pior ainda, seria se existisse um “Dia do Adolescente”. Primeiro porque seria uma data comercial fracassada. Os adolescentes sentiriam vergonha de receber presentes dos seus pais porque isso é coisa de criança. A única coisa que aumentaria seria o movimento nos shoppings, cheio de turmas de adolescentes indo comer um lanche e ver um filme ruim no cinema, além de dar uma olhada nuns tênis bizarros.
Não. Você jamais pegou a Ferrari do seu pai.

E seria ainda pior se as pessoas resolvessem colocar suas fotos de adolescente no Facebook. Acho que ninguém teria coragem de colocar aquela sua foto cheia de espinhos e todo desproporcional no Facebook. E, mais ainda, ninguém teria estomago e cara de pau suficiente para falar que aquele monte de jovens sebosos e ansiosos por acharem que eram os últimos virgens da sua sala eram bonitos. O Bullying dos comentários seriam terríveis também.
- Olha só a cara do virgem! Cabação! Hahahahahah!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

1001 Coisas para você fazer antes de morrer

Graças a uma das maiores campanhas publicitárias da história, todos nós sabemos que o Bombril¹ tem 1001 utilidades. De fato, a esponja de aço é responsável por limpar panelas e tubos de esgoto, matar pessoas (enfiando-o na garganta, esfregando até a morte) e, além do mais, o Bombril ajuda a melhorar a imagem da televisão se ele for preso na ponta da antena. Imagine o estrago que MacGyver seria capaz de provocar com ele?

O 1001 é um número místico desde pelo menos as 1001 noites na Arábia, uma lenda persa sobre um rei estuprador genocida, que só encontra a paz nos braços de Xerazade, uma das precursoras da aplicação do golpe da barriga. O 1001 também passa uma ideia de grandeza, afinal, é mais do que mil, que já é coisa pra caralho.

Nos últimos anos, foram lançados uma série de livros com 1001 coisas que você deve fazer antes de morrer. O início da série foi baseado em atividades culturais que você poderia realizar antes de passar dessa para a melhor, mas com o tempo, ela foi incrementada com aspectos surreais. Até porque, o título do livro te lança o desafio, para você ver se consegue cumpri-lo antes de bater as botas.

Eu tenho o “1001 discos para ouvir antes de morrer”. Acredito que ele é um bom guia musical e a tarefa não é das mais complicadas, uma vez que você pode escutar discos no carro, no ônibus, enquanto corre, só caminha ou até mesmo enquanto trabalha. Dá pra escutar um disco por dia e terminar a tarefa em três anos, com alguma folga.

1001 filmes para assistir antes de morrer” é uma tarefa mais ingrata, porque você precisa reservar um tempo para se dedicar a ele. Acredito que em cinco anos você conseguiria zerar o livro, mas até lá, já haveria uma nova edição com novos filmes e esse ciclo se repetiria eternamente.

Uma grande ironia é o “1001 livros para ler antes de morrer”, porque ele não estará incluso em sua própria lista, então, enquanto você o lê, perde tempo para chegar aos 1001 livros. E convenhamos, você vai morrer antes. Mesmo com uma incrível média de um livro por semana, 52 por ano, você precisaria de 20 anos inteiros dedicados a leitura. Com certeza vai ter um livro do James Joyce pra te atrapalhar. Mais fácil tentar  as “1001 histórias em quadrinho para ler antes de morrer”, se você conseguir encontrá-las.

Por outro lado, existem as “1001 músicas para ouvir antes de morrer”, que é sem graça porque você conseguirá escutá-las em no máximo dois meses e provavelmente usando só o Youtube. Pois bem, agora vamos enfim para a parte nonsense do negócio.

Vi na livraria o “1001 videogames para jogar antes de morrer”. Além de ser impossível conseguir isso, principalmente se você pegar aqueles jogos que tem 8 mil fases dificílimas, boa parte desses jogos nem devem existir mais e não vai ter a menor graça testá-los em simuladores na internet.

Para a minha surpresa, existem muitas outras variações dessa série que eu encontrei na internet. Cada uma pior do que a outra.

1001 Carros para dirigir antes de morrer: Existem tantos carros assim? Imaginem o custo da pesquisa para encontrar esses 1001 carros. E você precisa fazer o que? Tirar da garagem, dar uma volta no quarteirão, ir para o trabalho pegar a estrada de Santos ao lado do Rei Roberto e morrer em um dos mil e um.

1001 Prédios para ver antes de morrer: Eu realmente não acredito que ninguém esteja disposto a fazer isso. Pode ser muito perigoso se você estiver dentro de um avião, você pode nem ver e morrer.

1001 Piadas para ler antes de morrer... de rir: O trocadilho é tão óbvio que eu acredito que todas as piadas devam ser péssimas.

1001 Guitarras para sonhar em tocar antes de morrer: Bem, sendo que você vê quais são as guitarras, você pode sonhar em tocá-las rapidamente. Na verdade, não dá pra imaginar que alguém vai comprar isso.

1001 Quadros para ver antes de morrer: se o livro tiver a reprodução dos quadros, você mata na hora.

Pode confessar. Você achou
que eu estava de sacanagem
1001 Buracos de Golfe para Jogar antes de morrer: Sem comentários.

1001 Comidas para provar antes de morrer: de obesidade.

1001 Cervejas para beber antes de morrer: uma boa desculpa para você viajar o mundo em busca das mais diversas variedades de cerveja. Não tome tudo de uma vez, você chegará ao coma alcoólico na página 20.

1001 Vinhos para beber antes de morrer: Também conhecido como “1001 ressacas de vinho que você preferia morrer antes de ter”.

1001 Uísques para experimentar antes de morrer: esse é batata. Cirrose hepática na certa.

1001 punhetas para bater antes de morrer: esse aqui é só minha sugestão de pauta.

¹ Para quem não sabe, o Bombril é o mais popular Bombril do mercado, superando de longe outros bombris genéricos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Conhecido Anônimo

Todo dia eu, minto, estou dramatizando. Com alguma frequência indeterminada que pode ser de dois dias seguidos ou de uma vez por semestre, eu encontro um cidadão quando estou voltando do almoço para o trabalho. Parcialmente calvo, barba por fazer, cabelos que podem ser considerados ruivos. Ele trabalha em um prédio ao lado do meu e eu não sei o seu nome. Mas eu conheço ele.

Aliás, sei exatamente de onde é que eu o conheço. Certo dia, fui a uma premiação de jornalistas e me sentei na mesma mesa que ele. Não, ele não é jornalista. Apenas é casado com uma. Que eu também não sei o nome, nem nunca mais vi na minha vida novamente. Pois enfim, este cidadão estava ali na mesma mesa que eu, comentamos os locais onde trabalhávamos e desde então nos encontramos em períodos esparsos, sempre na volta do almoço. Minto novamente. Segunda-feira eu o encontrei indo embora pra casa.
Eu era aquele cara de verde nos protestos de 7 de agosto.

Você deve (des)conhecer inúmeras pessoas assim. O ex-namorado de uma prima da sua amiga, a irmã do chefe da sua mãe, o pai da namorada de um amigo da sua namorada. Você sabe quem é ele, até sabe de onde é que o conhece, mas dificilmente conhece o seu nome. Você sabe que ela sabe quem você é também. Que você é amigo da prima da ex-namorada dele, namorado da amiga do ex-namorado da filha dele, filho de um funcionária do irmão dela.

O problema é justamente o encontro, esse encontro casual. Vocês se olham enquanto puxam pela memória o lugar de onde se conhecem. Busca o nome em vão e se cumprimentam com leves acenos de cabeça acompanhador por sorriso. Ficam pensando se o outro se lembrou de você e concluí que já deve ter cumprimentado muitas pessoas que não conhece. Quando se lembra o nome pensa se não foi muito seco com a pessoa. O que será que ela vai pensar de mim?

O estranho é que essa pessoa não é íntima sua ao ponto de que vocês troquem duas palavras. Ele é tão íntimo seu quanto a caixa do supermercado que você vê todo dia, o drogado que pede dinheiro no sinal. Aliás, menos íntimo, porque você o vê menos que o drogado do sinal. Só que você se sente obrigado a cumprimentar a pessoa e fica até frustrado se o cumprimento não for correspondido. Parece que existe algum laço pelo fato de você já ter sentado na mesma mesa de jantar que o indivíduo.

Quando esse encontro é rotineiro, como é o meu caso com o ruivo marido da jornalista que sentou na mesma mesa em que eu estava num prêmio da categoria há quase dois anos atrás, fica ainda pior. Depois de um tempo, quando você já não tem mais paciência para acenos de cabeça acompanhados de sorriso, os dois passam a fingir que já se esqueceram e nem se olham, para evitar qualquer contato visual que resulte em um cumprimento. Bate aquela dúvida de "será que ando mais rápido pra evitar ele?". Uma dúvida. Não há o que fazer.

Ainda há o problema maior. Qualquer dia desses pode ter algum outro evento de jornalistas e pode ser que por algum azar eu me sente novamente na mesma mesa que ele. E por isso, tenhamos que voltar a nos cumprimentar formalmente e, quem sabe, com o aumento dos laços afetivos, tenhamos até que perguntar como é que vai a família, sua esposa vai bem?

Fora o terrível dia em que talvez nós nos encontremos dentro de um supermercado. Nos evitaremos na seção de frutas e verduras, depois na seção de produtos de limpeza e se o azar for muito grande, pegaremos a fila do queijo, a fila do pão e a fila do caixa do supermercado.

Conhecer pessoas é uma merda.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Lendas que não fazem sentido

Bem-te-vi, o pássaro X9
Quando eu era criança, ouvi uma história de que um bem-te-vi teria denunciado Jesus Cristo de alguma maneira e que, como resultado disso, Jesus foi parar na cruz e a humanidade foi amaldiçoada. Por algum motivo essa história voltou a minha memória nessa semana, com aquela dúvida se eu realmente escutei isso ou se foi apenas uma alucinação infantil. Joguei no Google e encontrei o seguinte resultado.

Diz uma lenda que o bem-te-vi foi quem denunciou Jesus Cristo, quando procurado pelos Judeus. Outra versão da lenda diz que a denúncia foi feita quando Jesus era menino e seus pais fugiam com ele para o Egito, para evitar ser morto. Por conta disso é tido em alguns lugares como pássaro amaldiçoado e há relatos de que chega a ser perseguido por isto.

Essa lenda me parece muito interessante porque ela é um tanto quanto surreal. Chamamos o bem-te-vi assim, porque o seu canto parece estar dizendo “bem-te-vi” e dizem que ele sempre canta quando a chuva está chegando. O problema, é que bem-te-vis não falam português. Então, ele não está dizendo que viu nada, está apenas expressando seus sentimentos mais profundos com o seu canto.

Aliás, tampouco os romanos, os judeus ou os egípcios falavam português (O bem-te-vi não se chama, well-I-saw-you em inglês). Assim sendo, se um pássaro se postou na frente de Jesus Cristo e disse ‘bem-te-vi’, isso não significou nada para o pássaro, para a família de Jesus ou para os seus perseguidores. Parece-me mais uma desculpa para quem quer fazer um guisado de passarinho.

A incompatibilidade entre óculos e água
Também na minha infância eu fazia aula de natação e uma parte da turma ficou espantada com o fato de que uma professora entrou na piscina usando óculos de grau. “Ela vai perder os óculos”, disse alguém. “Porque?” perguntei eu. “O óculos perde o grau se entra na piscina”, respondeu alguém, fatalista.

Essa lógica sugere que existe uma misteriosa combinação física entre a água e o cloro que seria capaz de acabar o grau da lente, transformando-a apenas em um pedaço de vidro liso. Acredito que o cloro faça parte da equação, porque a lenda jamais falou em lentes estragadas com água do chuveiro, da pia ou da chuva.

Bem, é claro que isso não é verdade. A água da piscina talvez acabe com a armação do óculos, mas não há a menor possibilidade de as lentes serem estragadas por isso. Mais do que um complô internacional das fabricantes de óculos, acredito que é coisa de mãe, para impedir que seus rebentos quatro-olhos entrem com os óculos na piscina. Sabe como é, criança se joga na água, mergulha, o negócio ia cair no chão e ser sugado pelo ralo, no mínimo.

Não sei se essa história persiste até hoje, ou se o advento das lentes de policarboneto mudou o cenário.

Bônus: Histórias mais antigas
Causa Mortis: leite com manga
Um dos mitos mais populares da humanidade é o de que tomar leite com manga mata. Felizmente, essa história foi desmistificada com o tempo, apesar de que alguns setores mais crédulos da sociedade continuam acreditando nisso. Por isso, vale a pena lembrar: leite mata se for tomado com arsênico, chumbo, veneno de rato ou estricnina, absolutamente não com manga. Mangas por sua vez, só matam se caírem na sua cabeça.

Uma outra coisa bem estranha, mas que está no passado: masturbação faz com que pelos nasçam na palma da mão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

The Farsa Voice Brasil

Assisti apenas um episódio do famigerado The Voice Brasil no ano passado. No entanto, isso não me impede de ter uma opinião enfática e totalmente esclarecida de que o programa é uma farsa. Para piorar, uma farsa insuportável de se assistir.
Se há um jeito do programa melhorar? Sim. Quatro balas.

Vamos dizer que o ar teatral do programa é de dar ânsia de vômito. Nenhum ser humano decente, que pague suas contas em dia, consegue assistir a Cláudia Leitte apertando o botão dos escolhidos apenas com o pé. Mas, Claudinha para os íntimos, nem é a pior de todas as coisas do programa. Nem o Daniel, que é uma figura inútil.

O que pode ser pior do que o Lulu Santos interpretando o papel de bicha emotiva e espantada? O que pode ser pior do que suas caras e bocas na hora em que alguém canta bem ou mal? Carlinhos Brown. Ele é esse mal.

No único dia em que eu assisti ao programa tive o desprazer de ver o inventor da Caxirola, anunciando o seu voto de quem não seria degolado no programa. Durou uns 55 minutos, tempo no qual ele filosofou, tocou berimbau, improvisou um campeonato de repente, plantou bananeira, passeou pelo público incentivando o grito da galera. Um tempo em que eu passei a admirar o cidadão que atirou uma garrafa de água nele durante o Rock in Rio de 2001. Queria estar eu, ali, naquele momento, armado com garrafas, quiçá garrafões de água.

E para mediar tudo isso, Tiago Leifert, o responsável pela idiotização do jornalismo esportivo, pela joãosorrização da sociedade. Sua função é chamar os comerciais e tentar encaixar uma piadinha ou outra, nos poucos minutos de atenção que lhe restam.

Mas, se há a farsa da teatralização, há ainda a farsa dos concorrentes. O The Voice não premia necessariamente o melhor cantor, mas aquele que tiver mais capacidade de mobilizar as pessoas na internet, uma vez que o voto popular define o ganhador. Os participantes criam verdadeiras guerrilhas em suas cidades de origem, para garantir o seu avanço nas fases.

Lembro que no único episódio do programa que eu assisti, em 80% dos casos, a pior atração venceu graças a internet. Havia uma cantora lá da Bahia, que fez uma apresentação horripilante da pavorosa canção “Amor e Poder” e passou. Ela esganiçava ao longo da música, mas foi a escolhida porque era divertida e gritava “PÁ” o tempo todo, como se fosse uma espécie de tique nervoso.

Também ainda há a farsa sobre a vida dos ganhadores. O vencedor do The Voice irá ser esquecido em um prazo de três meses, assim como o vencedor do Fama, do Ídolos, de sei lá mais qual programa.

Nesse mundo do download fácil na internet, quem irá comprar um disco ou ir em um show de uma pessoa que apenas interpreta canções de outros? Para que pagar para um negócio que você escuta de graça (em alguns casos, pagando para não escutar) em praças de alimentação de shopping?

Não há resposta, tudo é uma farsa.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Conferência Mundial de Atalho

Taxistas, mototaxistas, taxidermistas e motoristas de repartição pública de todo o mundo, se reuniram semana passada em Oslo, na Noruega, para a 1ª Conferência Mundial de Atalho. O objetivo do encontro foi esquematizar o processo de obtenção de atalhos e também discutir questões relativas ao futuro dos atalhistas no mundo. O encontro marcou os primeiros passos para a regulamentação da atividade.

Atalho pra chegar no palco



Foi um consenso geral entre todos os presentes que os “atalhistas” estão desprestigiados na sociedade atual, por inúmeras razões. O primeiro é o advento do Google Maps, que possibilitou que qualquer pessoa com um computador, tivesse acesso aos mais variados atalhos do mundo. “Hoje qualquer Zé Mané conhece vielas, becos, passagens, ruas no meio de terrenos baldios que ele viu na internet. Isso banalizou a descoberta de atalhos. No meu tempo, era preciso ir pra rua, farejar o atalho, batalhar anos na base do erro e do acerto”, disse Marcos Rosa, que é taxista no Rio de Janeiro.

A chegada do aplicativo de Mapas para celulares parece ter sido o golpe de misericórdia na categoria. Em uníssono, eles reclamaram que qualquer perdido anda nas ruas de São Paulo como se fosse especialista no trânsito da cidade. Benedito Édson, representante de Cuiabá, disse que o trânsito de sua cidade está passando por muitas obras, o que promove bloqueios e a utilização de desvios. “Todo mundo agora passa pelas ladeiras que antes só eu conhecia”, afirmou com desprezo.

Outro problema que atinge os atalhistas é a figura que ficou convencionada como “fode-atalho” (shortfuckers no inglês). O fode-atalho é aquele cidadão que costuma a trafegar por atalhos em velocidades incompatíveis com quem tem pressa. “Afinal, quem está no atalho está com pressa”, diz Bjorn Gunnar Olsson, anfitrião do encontro. O fode-atalho também tem o péssimo costume de perder tempo ao passar por buracos e cruzamentos perigosos, duas condições características dos bons atalhos.

“Isso aí é uma consequência justamente da banalização dos atalhos”, prosseguiu Bjorn Gunnar Olsson. “O cara vê no Google Maps um atalho e passa a achar que pode andar lá. Esquece que atalho é coisa para profissional. Você precisa estar preparado para enfrentá-lo. Ninguém chega ao atalho de graça”, completou.

Em assembleia geral, os atalhistas de todo o mundo propuseram a criação de um conselho mundial da categoria, com a emissão de uma carteirinha especial que permita circular em atalhos. Uma comissão ficaria responsabilizada de definir o que é um atalho ou não e também seria a responsável por fiscalizar o cumprimento da determinação, com o descumprimento sendo punido com a morte.

Flagrante de pedestres atrapalhando atalho
Uma voz ponderada se levantou nesse momento e questionou como ficaria a situação de alguma pessoa morar em um desses atalhos e precisar utilizá-los apenas para chegar em casa. A maioria do plenário votou pela desapropriação desses moradores, sob o argumento de que a presença de pedestres e casas contribuí para a precarização dos atalhos em todo mundo.

Por fim, a plenária também decidiu que é preciso radicalizar o processo de obtenção de atalhos. “Amigos, sempre haverá uma porteira aberta, um terreno baldio sem muro, uma varanda espaçosa que poderá nos ajudar a chegar mais rápido nos nossos destinos finais”, afirmou um taxista eslovaco de bigodes, que eu me esqueci de anotar o nome, porque estava muito ocupado traduzindo a sua fala.

Ao final das discussões, foi realizado o primeiro campeonato mundial de atalho nas ruas de Oslo. Os participantes foram divididos na categoria “moradores da cidade” e “estrangeiros”. Os juízes somaram pontos para diversas ações, como pequenos trechos na contramão, atravessar o meio fio e total de quilômetros percorridos em ruas não pavimentadas. O uso de mapas acarretava na eliminação do candidato.

O cantor Bruce Springsteen cantaria no encerramento da Conferência, mas ele ficou preso no trânsito. A 2ª Conferência Mundial de Atalho irá acontecer em Lagos, na Nigéria, em 2015. O CH3 não estará lá.