segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Texto Igual Novela

Doze dias atrás publiquei um texto baseado na então nova novela das deis, aproveitando um gancho para falar sobre o quão curioso é o fato de que monges budistas considerem que alguém é a reencarnação de um fulano superimportante. Como um bom jornalista, pesquisei na internet e descobri que a obra se chama “Joia Rara” – a agora não tão nova novela das seis.

Naquela longínqua semana de estreia, o telejornal local trouxe uma matéria enorme sobre Joia Rara. Em cinco minutos, explicaram a história do clã familiar Hauser, a tragédia familiar no Tibete, quando um filho foi resgatado por monges budistas, a história do budismo, a corrida espacial, as tensões sindicais na indústria têxtil, enfim. Imaginei que eles estavam resumindo pelo menos metade da novela. Qual foi a minha surpresa ao descobrir que o cara que quase morreu no Tibete chegou ao Brasil logo no segundo capítulo?

O tempo é relativo, já diria Albert Einstein. As novelas comprovam isso. Elas narram um tempo fragmentado e distorcido. Seu primeiro capítulo resume a história da humanidade em cinquenta minutos, para depois ficar seis meses narrando um tempo indeterminado, recheado de conversas amenas no café da manhã, encontros casuais em padarias e casais que não trabalham, apenas ficam discutindo sua crise conjugal. Até que nos capítulos finais o tempo corre novamente, as pessoas se casam, morrem e o autor resume como será a vida na Terra ao longo do próximo milênio.

A seguir, apresentaremos a biografia de Alfredo Chagas em formato de novela.

Alfredo Chagas nasceu em Poxóreo, 1967, filho de dois garimpeiros revolucionários, que queriam um Brasil melhor. Com um ano de idade, Chagas estava nos protestos de maio de 68, escutou Jimi Hendrix no festival de Woodstock e apareceu na capa do disco Abbey Road. Em 1984, sentiu o cheiro da revolução e se juntou aos amigos para promover as mudanças que o país precisava. Sua tentativa de instalar uma ditadura oligárquica fracassou e ele fugiu para a Itália, onde levou a vida servindo de falso guia turístico na zona do baixo meretrício de Nápoles.

Em 2004, ele volta para Cuiabá, com um sonho na cabeça. No seu primeiro dia, ele acordou com o bafo quente que entrava pela janela de sua kitnet alugada no Despraiado. Resmungou algumas palavras e foi até o banheiro tentar escovar os dentes, mas percebeu que havia esquecido sua escova na Itália. Maldisse todos os italianos que havia conhecido e resolveu sair para a rua assim mesmo.

Saiu pela rua em busca de um lugar onde ele poderia matar a sua fome. Esperava o semáforo fechar para atravessar a rua quando um carro parou a sua frente e abaixou o vidro. Dentro dele estava Carminha, sua namorada nos tempos de adolescência. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, sem dizer nenhuma palavra. O sinal abriu e os carros começaram a buzinar. Carminha ofereceu uma carona.

Ela era loira, com olhos verdes e o rosto redondo. Alfredo jamais havia a esquecido, do romance tórrido que viveram na juventude. Agora olhava para ela e percebia suas rugas, os peitos caídos e os quilos a mais que preenchiam sua cintura. O tempo foi cruel para seu primeiro amor.

Os dois se lembraram dos velhos tempos e começaram a recordar suas vidas nos últimos 20 anos. Alfredo contou que viveu em um cortiço na Itália, ao lado de uma anã lésbica e de um frei polonês comunista que desafiou a máfia local e um dia apareceu morto com todos os dedos enfiados na garganta. Perguntou para Carminha como ela estava, se casou, se teve filhos.

Ela parou e suspirou. Fechou os olhos e contou que tinha dois filhos, o mais velho tinha 19 anos e se chamava Alfredinho. Uma homenagem a ele, porque o menino era filho de Alfredo Chagas, filho dos anos rebeldes. Ela mostrou uma foto de Alfredinho, que estava estudando arquitetura em São Paulo. Alfredo olhou bem a foto e viu que o menino era a cara do Paulão, companheiro de lutas da época. Fez esse comentário para Carminha, que contou que era casada com Paulão. Pediu perdão, porque na época acreditava-se que Alfredo havia sido enterrado em valas comuns no Araguaia, depois de ter os testículos enfiados no lugar dos olhos.

Alfredo desceu do carro arrasado, após descobri que era corno com 20 anos de atraso. Caminhou por ruas que ele não fazia a menor ideia de como se chamavam. Reconheceu a foto de um antigo companheiro de lutas que agora era candidato a prefeito. “Maldito imperialista”, reclamou. Chegou até uma lanchonete e pediu um misto para Odete, a animada dona do bar que dançava pagode e proferia bordões entre um pedido e outro. Na mesa do lado, um casal discutia a relação entre Júlia e Otávio, ela tinha câncer e ele um filho bastardo com a empregada. Alfredo foi embora.

Decidiu levar uma nova vida. Casou-se com Paulão e descobriu que não era gay. Montou uma Ong de adoção de menores de idade com escoliose, foi candidato a vereador em Poxóreu e organizou o festival do Porco no Rolete de São Gabriel d’Oeste. Instalou um Estado de exceção dentro da sua kitnet no Despraiado. Foi indicado ao prêmio Nobel da paz, mas cagou no tapete vermelho. Viveu feliz para sempre.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As Artimanhas que o Google utiliza para prejudicar o seu desempenho profissional e provocar sua ruína


Em 1999, a internet dava os seus primeiros passos no Brasil. Quando as pessoas assinavam uma revista, elas recebiam junto um disquete para instalar um discador no seu computador. Todos discutiam quem era melhor, Aol, Uol, Zap, Bol, IG. As famílias investiam em uma segunda linha telefônica, para poder acessar a internet sem comprometer o telefone fixo. Banda larga era um sonho. Era um mundo pré-histórico em que perdíamos horas digitando o endereço na barra do navegador (Netscape).

A internet promoveu uma verdadeira revolução na vida das pessoas, principalmente na busca pela informação. E neste quesito, o maior mérito está nos sites de busca. Basta um clique para que apareçam 5.890 resultados sobre Macumba na Polinésia Francesa. Hoje, é provável que o Google seja a sua página inicial, mas nem sempre foi assim.

Voltando novamente para a virada do século. Aquela era uma época de desconhecimento, trevas. Nós mal conhecíamos os sites de busca. Eles também não nos conheciam, não existiam buscas personalizadas. Neste mundo, era normal trocar informações sobre os melhores sites de busca durante o recreio, depois da professora de Ciências ter passado um trabalho sobre doenças transmitidas por bactérias.

O mais popular entre todos era o Cadê. Totalmente nacional, ele era objeto de culto entre os alunos. Mas eu não era totalmente satisfeito com o Cadê. Na verdade, achava-o uma porcaria. Preferia o Altavista e em menor grau o Yahoo, que poderia ser funcional em alguns casos (curiosamente, os três acabaram virando a mesma coisa em um momento posterior). Foi ai que eu descobri o Google e logo me encantei.

Posso dizer que em 2000 eu era um dos precursores do Google em Cuiabá. A maioria dos meus colegas não o conhecia e não levavam muito a sério a minha recomendação de que ele era perfeito para encontrar páginas sobre animais peçonhentos, até porque o Google sempre teve um visual bem simples, completamente diferente das páginas alaranjadas com marcas d’água no fundo, tendência da época.

Enfim, a história todos vocês conhecem. O Google cresceu demais. Virou um gigante mundial, com negócios que vão muito além da busca, com email, tradutor, mapas, sistemas operacionais, televisões, computadores, cafeteiras. Enfim. O Google hoje transcende a internet. Eles têm interesse em fabricar produtos para todas as áreas possíveis.

Bem, fiz essa longa introdução nostálgica apenas para chegar a seguinte afirmação: o Google faz parte de uma conspiração internacional para prejudicar o seu desempenho profissional.

Algum tempo atrás, eles resolveram inovar na sua página inicial instituindo o “Doodle”, marcas especiais referentes a algumas datas, que enfeitam a página durante um dia. Alguns são apenas artes diferentes, outros são animados. E tem os jogos. Ai que está a perdição.

Você já deve ter entrado no Google algumas vezes para procurar alguma coisa essencial para o seu trabalho, mas acabou traído pelo Pacman, pela Guitarra Virtual, pelo ET que queria voltar pra casa, pela prova dos 100 metros com barreira. Hoje mesmo aposto que você nem está lendo esse texto, porque na verdade está tentando conseguir derrubar 200 balinhas daquela estrela psicodélica. É o que eu vou fazer agora. Adeus para vocês.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Espionagem padrão Obama

A cara de quem sabe
O telefone tocou e eu atendi. Barack Obama estava do outro lado. Ele me disse que o começo desse texto não estava bom e me ligou para trocar uma ideia. Falou para eu prestar atenção em uma vírgula do terceiro parágrafo e aproveitou a conversa para dizer que eu deveria descartar todos os rascunhos salvos no sistema do blog, seu serviço de inteligência não viu nenhuma saída legal para eles. Terminou opinando que minha sala estava muito fria e que eu deveria diminuir a temperatura do ar-condicionado para não pegar um resfriado, afinal, minhas férias estão chegando.

O Obama sabe. Ele sabe que você mandou um SMS malicioso para sua colega de trabalho e depois apagou para que sua esposa não tivesse acesso. Ele sabe o que você tem assistido durante as madrugadas no seu computador. Ele tem conhecimento dos arquivos secretos que você mantém em uma pasta oculta do seu HD. E se pudesse, ele te avisaria que sua senha no Gmail é ridiculamente fácil, crie uma melhor.

O que mais você poderia esperar do homem mais poderoso do mundo? Ele não detém esse cargo apenas porque pode enviar mísseis tomahawk diretamente na dispensa da sua casa. Sim, também é por isso. Mas ele ocupa uma posição privilegiada em que ele sabe de tudo o que acontece no mundo. Ele simplesmente sabe e seu casamento, seu emprego, sua vida estão nas mãos do presidente of the United States of America. Isso é poder.

Não vamos ser tolos. Não foi Barack Obama que inventou a espionagem. Ela existe desde que o mundo é mundo e sempre foi uma questão prioritária para as grandes potencias internacionais. Se você quer dominar o mundo e impor suas vontades mesquinhas a todos os outros países mequetrefes do planeta, você tem que  saber o que eles estão fazendo, se antecipar aos fatos.

O que chocou todo mundo nesse caso é a revelação de que além de espionar empresas e figuras proeminentes do planeta, os Estados Unidos estavam espionando também pessoas normais. Eu, você, seu vizinho, meu vizinho, seu chefe, o Walter centroavante do Goiás. Bem, isso não deveria ser surpresa também. Desde que George W. Bush instituiu o Patriot Act em 2001, o governo americano tem o direito de espionar cidadãos, invadir casas e torturar suspeitos de praticar o terrorismo. Para isso, basta que os agentes definam que você é suspeito. Também é bom que você saiba que seu email e seu telefone não tem sigilo nenhum, independente disso.

Nos tempos de Mata Hari, você também
era espionado. Mas, pelo menos não
ficava na mão.
Para mim, o grande problema nessa história não é a espionagem em si, que sempre aconteceu e sempre acontecerá. O problema é que ela não está sendo bem aproveitada. De quantas coisas a Casa Branca não sabia e não impediu que acontecessem? Tragédias que poderiam ser evitadas com um simples telefonema de Obama ou de um de seus assessores.

O Show das poderosas, por exemplo. Obama sabia que a música estava sendo gravada, provavelmente com microfones escondidos dentro do estúdio. Ele teve acesso aos arquivos salvados digitalmente e as trocas de email que discutiam a estratégia de divulgação. E o que ele fez para impedir que essa bomba caísse sobre os nossos ouvidos? Nada.

Ele poderia ter simplesmente telefonado para Anitta e falado “para com essa merda”. Poderia ter acusado o Brasil de estar produzindo uma arma de destruição em massa, apontado o ato terrorista e ter nos ameaçado com sanções econômicas. Creio que nossas autoridades resolveriam o problema e todos nós teríamos mais qualidade de vida.

O Zorra Total, o programa da Fátima, o sertanejo universitário, a saída do Mano Menezes do Flamengo. O Obama sabia de tudo e não fez nada.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rock in Rio 2015

Samuel Rosa, o vocalista do Skank, declarou em uma entrevista para revista de avião desse mês, que “o Rock in Rio é a Copa do Mundo do Rock”. Tal comparação não faz sentido, porque a Copa do Mundo ocorria com uma frequência maior. Agora, parece que o evento vai acontecer de dois em dois anos, se aproximando cada vez mais de ser o Mundialito de Beach Soccer do Rock.

O CH3 aqui dá uma sugestão de atrações para a edição 2015 do RiR, promovendo uma diversidade de estilos cada vez maior, preços cada vez mais abusivos e atrações contratadas por quem não tem a menor ideia da música, apenas dos nomes.

Noite 1: Noite do Gospel
Nada melhor do que começar o maior evento de música do mundo com uma ode ao sagrado. A abertura seria feita com uma missa campal do Papa Francisco (se ele ainda for o papa em 2015). Na sequência, um tributo ao carismático Papa João Paulo II, onde Frejat, Tico Santa Cruz e o cara do Jota Quest reproduzem grandes falas do santo padre. Nos shows, teríamos Regis “faz um milagre em mim” Danese e um encontro entre o Padre Fábio de Melo e o Padre Marcelo Rossi. No encerramento, show do Switchfoot.
Simpático, o Francisco foi ao meio do público e repetiu o clássico "o papa é carioca"

Noite 2: Noite do Pop
Sábado, dia de ir na balada ver a galera começar a dançar. David Guetta precisou passar o fim de semana em Ibiza, mas entrou ao vivo via Skype e selecionou um playlist para animar o público. Frejat, Tico Santa Cruz e o cara do Jota Quest conduzem um tributo para Michael Jackson, o rei do pop que já morreu. No Palco Sunset, a banda Twister realiza um show acústico, mas ninguém realmente percebeu a existência desse palco. Anitta entra em cena e toca o Show das Poderosas por duas horas consecutivas até receber Ivete Sangalo para juntas cantarem “Love of my Life” enquanto o telão mostra imagens de Freddy Mercury em 1985. Ivete Sangalo assume o comando da micareta na hora seguinte e para fechar a grandiosa noite, o show de retorno dos Backstreet Boys.

Estudos mostram que Frejat mora na
cidade do rock
Noite 3: Noite do Metal Pesado
O dia dos cabeludos vestidos de preto irem bater cabeça na cidade do rock. A programação começa com Frejat, Tico Santa Cruz e o cara do Jota Quest realizando um tributo a Chorão e Champignon, os mártires do Charlie Brown Jr. Depois, Sepultura (única banda de metal do Brasil). O Metallica toca pela terceira vez seguida no Rock in Rio e pede música no Fantástico. Encerrando a noite, mais uma apresentação do Iron Maiden.

Noite 4: Noite do Funk
Frejat, Tico Santa Cruz e o cara do Jota Quest comandam um tributo a dupla Claudinho & Buchecha, expoentes do funk nacional. No meio do show, Buchecha aparece no palco e a plateia descobre que só o Claudinho morreu. No restante da noite, o Bonde do Tigrão, Lacraia e todos esses muleks representantes do funk com sonoplastia se apresentam no palco principal. A apresentação é encerrada abruptamente por uma invasão da PM, que instala uma UPP na Cidade do Rock.

Noite 5: Noite do Sertanejo Universitário
Roberto Medina, sempre um visionário, percebe a necessidade de se investir no crescente gênero do Sertanejo Universitário no Brasil. A Cidade do Rock é transformada em uma enorme arena de rodeio. Frejat pegou um resfriado por conta da chuva do dia anterior e acabou faltando ao tributo a Milionário e José Rico. No palco Sunset, Chimbinha e Joelma do Calypso tocam Strokes em ritmo de sertanejo tecnobrega ao lado de Rick & Renner. Como a maioria das atrações sertanejas não tem mais do que três músicas para cantar, pelo menos 25 atrações sobem ao palco principal cantando em playback. Ao final da noite, o retorno do grupo Amigos, agora conhecidos apenas como Migos. Veja a foto, vocês entenderão.

Noite 6: Noite do Rock
Para dizer que o Rock in Rio ainda tinha Rock, os organizadores consultam uma lista do Disk MTV de 2002 para conhecer os grandes nomes do rock mundial e trazê-los até o Brasil. Frejat e o Barão Vermelho, Skank, Creed, Linkin’ Park e Avril Lavigne (sim, ela ainda está viva e completará 30 anos durante o festival) são as atrações, naquela que pode ser considerada a pior noite de um festival da história.

Noite 7: Noite da Nostalgia
O Rock in Rio resolve pegar o espírito das escolas de samba, que sempre dão um jeito de se auto-homenagear no final do desfile, e vê no encerramento uma oportunidade de lembrar os grandes momentos do festival. Abrindo a noite, Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Herbert Vianna, o cara do Jota Quest e Frejat participam de um tributo surpresa ao próprio Frejat que é sacrificado ao final do show e tem seu sangue oferecido aos deuses do Rock. Freddy Mercury volta em holograma para cantar Love of My Life e James Taylor retorna de uma catacumba para relembrar que em 1985 ele estava num momento ruim da sua vida quando o Rock in Rio o reergueu. Dinho Ouro Preto coloca um nariz de palhaço, quebra o recorde mundial de expressões adolescentes e anuncia que ele e Marcos Mion são a mesma pessoa. Para encerrar a noite, Axl Rose comanda mais uma volta do Guns N' Roses e o vocalista confirma que tem um contrato de exclusividade com o Roberto Medina.

Não estou querendo pensar em quem é que vai transmitir o show pelo Multishow.

tks @dadodoria

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A graça do piloto de avião

O solitário piloto não pode falar para ninguém que ele não tem a menor ideia da função desses botões no teto

Dirigir um avião não deve ser uma tarefa fácil. Boa parte de nós mal consegue estacionar um carro popular em um espaço de três metros, que o diga pilotar um avião. Cruzar os ares com aquele veículo gigante, com suas longas e expressivas assas. Manobrar o avião na pista, encaixá-lo na tromba de embarque e desembarque, sem permitir nenhum acidente, que teria consequências terríveis para os envolvidos.

Assim sendo, um piloto de avião deve gostar de exibir seu talento. Quando sai com os amigos para tomar um bom vinho sinuelo, tinto suave, ele exibe suas façanhas sobre-humanas. Quando conhece um grupo novo de pessoas, é rapidamente apresentado como piloto de avião e todos ficam espantados com sua presença, garantindo sexo fácil.

No entanto, o piloto de avião não tem como se exibir enquanto pilota sua aeronave. Qualquer cidadão em um carro esportivo popularizado em música sertaneja faz isso, sendo que ele tem muito menos mérito que o piloto. Este não pode dar cavalos de pau, parar no semáforo com o vidro abaixado e ligar o som alto. Na verdade, viajar de avião é um ato totalmente impessoal e tão mecânico, que muitas vezes não vemos o piloto e nem nos lembramos de sua presença. Jamais saberíamos se dentro daquela cabine estivesse um robô ou o Dinho Ouro Preto com nariz de palhaço.

Deve ser uma enorme frustração para o piloto. Por isso, ele precisa arrumar alguma forma para chamar a atenção para sua presença. E o único jeito que ele encontra é ficar falando sem parar durante o voo. Ele e sua tripulação estabelecem um jogo de divertimento, que consiste em não deixar que os passageiros durmam.

A maior parte dos voos é operada em horários catastróficos para a manutenção de um sono saudável. Ou você chega de madrugada, ou precisa acordar de madrugada, ou passa a madrugada esperando dentro do aeroporto, ou do avião. A aeronave não é o lugar mais confortável do mundo para dormir, mas geralmente essa é a única alternativa que resta.

Logo que você chega e acomoda sua bagagem de mão, o comandante se apresenta, fazendo algum comentário sobre o horário previsto de voo. Geralmente esse horário é diferente do que foi impresso no bilhete. Os comissários montam aquela encenação artística sobre os procedimentos de segurança e lembram que os assentos são flutuáveis. O curioso é que em 98% das rotas, o assento não terá a menor função. Se o avião cair, ele irá explodir e a chance de que ele pouse sobre a água é ridícula, exceção feita a aterrissagens malsucedidas no aeroporto Santos Dumont. Temo que ninguém jamais tenha testado se todos os assentos realmente flutuam. O aviso de sua existência faz parte do jogo psicológico.

Quando o avião decola, o piloto volta a falar do tempo estimado até o destino final. Você volta a relaxar e está quase dormindo quando o sistema de som afirma que o serviço de bordo será servido. Antigamente, até poderia ser interessante, mas, hoje em dia, a Gol te acorda para falar que vão passar o cardápio e se você quiser comer, que pague. A Tam informa que vão servir água. Sacanagem te acordar para oferecer água.

Em breve, as aeromoças farão um lúdico
"barata voa", para entreter os passageiros.
O serviço de bordo fake costuma a ser oferecido no primeiro terço do voo. Em uma viagem de 1h30, isso significa que você terá algo em torno de 45 minutos para dormir, depois que os comissários passarem recolhendo o lixo. Mas isso não é possível. O comandante irá lhe privar desse direito, te acordando para tecer algum comentário inútil.

Ele irá te acordar para passar informações técnicas desnecessárias justamente na metade do tempo entre o serviço de bordo e o procedimento de aterrissagem. “Nossa altitude é de 40 mil pés e a velocidade de cruzeiro de 460 nós”. Como se, para nós reles mortais incapazes de identificar o manche naquele painel gigante, fosse possível entender se isso é bom ou se isso é ruim.

Nos voos entre Cuiabá e Brasília, o comandante sempre te acorda para avisar que nós estamos sobrevoando Barra do Garças. Tudo bem, Barra pode até ser a capital do universo, mas não é interessante acordar para vê-la lá embaixo. A não ser que houvesse um disco voador pousando no discoporto da cidade neste exato momento. Qual será a importância da Barra na vida dos pilotos?

O piloto voltará a te acordar para avisar que em breve ele irá começar a descer o bagulho e que a temperatura no destino final é de 18º, céu aberto. Geralmente eles erram feio na previsão do tempo. Uns cinco minutos depois, novo aviso de que agora sim a descida começou e que todos devem afivelar os cintos, voltar às poltronas para a posição vertical e certificar que as bandejas estão travadas. O procedimento de descida começa quarenta minutos antes da aterrissagem em si. As comissárias de bordo passarão em todas cadeiras acordando quem ainda estiver dormindo para avisar qualquer irregularidade, inclusive cadarço desamarrado.

Quando o avião pousa, as aeromoças tentam em vão conter as pessoas que soltam os cintos. Se elas tentassem com dardos tranquilizantes, talvez desse certo. Em um último momento de humor, eles avisam que você deve se certificar da posição dos seus objetos pessoais ao abrir o compartimento de bagagens, porque eles podem ter se deslocado durante o voo. Nessa hora, é impossível não pensar que aconteceu um Toy Story bagageiro durante a viagem.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A reencarnação de fulano

Estava assistindo ao programa da Fátima Bernardes na última segunda-feira. Sim, eu sei que isso é uma pequena vergonha, mas esses programas matinais são uma ótima fonte de inspiração. Como eles vão ao ar todos os dias, seus roteiristas tem que se esforçar muito para desenvolver pautas diárias e, assim, eles sempre levam ao ar algum assunto muito bizarro, digno de estar no CH3. Um assunto que eu gostaria de ter pensado.

Nesse caso, era uma reportagem sobre um menino de cabeça raspada e que vestia uma manta grená e laranja. Aparentemente, ele é brasileiro e é a reencarnação de alguma liderança budista. Mais tarde, descobri que o motivo dessa matéria, era a estreia da nova novela da Globo. Aliás, o telejornal local trouxe uma matéria tão detalhada sobre a trama, que eu acredito que eles contaram toda a história até o seu final. Já reparam que quem assiste novela não se importa muito com spoilers?
Outra questão interessante, é que a doutrina espírita costuma a sofrer muito preconceito de grande parcela da população, mas, curiosamente, temos inúmeras novelas que abordam o assunto.

Enfim, nessa novela, há justamente uma menina que, segundo os monges budistas, é a reencarnação de um líder deles, um cara com nome engraçado e propício ao duplo sentido, mas que agora não me vem à cabeça. Ao que eu entendi, um núcleo da novela é composto por monges que vem ao Brasil buscar essa menina reencarnada com o espírito do grande mestre.

Não pretendo aqui fazer nenhuma análise preconceituosa com o budismo ou qualquer doutrina que acredite na reencarnação. O CH3 é a favor da liberdade religiosa. Todo mundo pode acreditar ou desacreditar no que quiser, desde que não encha o saco das outras pessoas por conta disso. O fato é que eu não posso negar que essa história de ser a reencarnação de alguém importante é um tanto quanto engraçada.

Imagine você, meu senhor, minha senhora, sentado no sofá assistindo ao Domingão do Faustão, esperando pela rodada do brasileirão enquanto digere aquela macarronada carregada de molho de tomate que te deixou cheio de azia. Toca a campainha. Sua mulher te xinga, achando que você chamou algum amigo para uma partida de bozó, e vai direto para o quarto. Você abre a porta e lá estão três senhores vestidos de grená e laranja, cabeças raspadas e que dizem.
- Viemos pegar seu filho.

O Carlinhos pode sair para brincar?
Em um primeiro momento, você não vai entender nada. Dificilmente os monges budistas falarão português e você não deve falar tibetano. Assim sendo, o “Wǒ lái dào nǐ de guòlǜ” deles, não fará muito sentido aos seus ouvidos. Depois de apelar para a mímica ou para um interprete (creio que não será fácil encontrar um interprete de chinês em um domingo a tarde), você poderá ter muitas reações a proposta.

Poderá achar que aqueles senhores são uma espécie de providência divina, pegar a criança e jogar no colo deles dizendo “toma esse estorvo”. Sua mulher pode até gritar do quarto e mandar os monges levarem você junto. Mas, o normal é que você pergunte porque eles querem seu filho? Será que esses carecas são traficantes internacionais de órgãos, pedófilos internacionais?

O debate não será fácil. Os monges estarão irredutíveis, afinal, para eles o seu filho é o novo Buda. Você também ficará irredutível, porque é o seu filho e a ideia de que esses carecas levem sua prole para um internato eterno no Tibete não parece ser a coisa mais interessante do mundo. Uma hora, um dos dois lados vai ter que ceder. Será que existe uma jurisprudência para casos assim?

Também tem o lado da criança. Será que ela acha interessante essa história de ir para um país completamente diferente para liderar espiritualmente um povo? Ou será que ela só queria ficar em casa, jogando videogame? Será que não tem um meio termo? Você vai lá, passa um final de semana, se gostar, vai ficando.

E será que a criança concorda com o que ela foi na outra encarnação? Se descobrirem que Hitler voltou no corpo do seu vizinho e os neonazistas passassem a fazer vigília na porta da casa dele. Às vezes, o Hitler neonascido pode ser um humanista. Ele pode chegar na janela e falar “gente, nada haver. Judeus são legais, ciganos também. Explode Coração foi minha novela favorita”.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Legado Grego para o Mundo

Renato Aragão sempre conta uma história sobre uma criancinha que, durante uma grave seca no nordeste, perguntou a sua mãe se havia pão no céu, e morreu. Já eu, costumo a me perguntar se existe pão francês na França, e não morro. Bem, a resposta para os dois questionamentos é negativa. Não existe pão no céu e o pão francês, tal qual nós conhecemos, não existe na França. Sim, todo pão feito na França é francês, mas não é pão francês.

Aqui no Brasil nós também temos sorvete italiano, maçã argentina, bolo inglês, pão sírio, alface americana, canivete suíço. Exceção feita aos canivetes, nenhum dos itens citados deve ser realmente proveniente do outro país. Será que os italianos tomam sorvete italiano? Se você chegar na Inglaterra e pedir “may I have a piece of english cake?” o garçom irá te entender? Ou vai ficar olhando para você com uma cara de “sir, we only have english cakes”.

A mais recente invasão internacional no nosso país foi a do Iogurte Grego. Nos supermercados, já é praticamente impossível arrumar um iogurte que não seja grego. Sua diferença para os iogurtes tradicionais, dizem, é que ele é um pouco mais consistente. Me pergunto se antigamente os iogurtes que nós comprávamos no mercado não eram vendidos como “iogurtes belgas”, até se banalizarem. Se daqui a alguns anos, todos os iogurtes serão gregos e o mercado precisará inventar um “iogurte paquistanês”.

A Grécia é um ótimo país para se atribuir a origem de um produto. Ela é considerada o berço da civilização moderna. Uma sociedade habitada por filósofos pederastas, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Sófocles, Charisteas, responsáveis por todas as ciências que nós conhecemos e por toda a matemática que nos tortura no colégio. Eles são os responsáveis pelos logaritmos.

Por isso, quando alguma coisa é “grega”, nós a olhamos com respeito. O objeto proveniente da Grécia carrega uma carga secular de conhecimento, que irá garantir a sua qualidade. O Iogurte Grego é o iogurte que Platão tomava enquanto escrevia o mito da caverna, quebrando pratos e sodomizando um de seus discípulos adolescentes. Se o iogurte fosse “cipriota” (o Chipre é ali bem perto, há chances de que eles tenham culpa no cartório), ninguém ia nem pensar em comprar esse negócio.

Observe o tanto de coisas de origem grega, com as quais nós convivemos em nosso cotidiano. Sendo que talvez a mais antiga de todas seja a luta greco-romana. O esporte mais idiota das Olimpíadas, que consiste em dois homens em macacões ridículos tentando fazer um fist fucking no seu adversário.

Há tempos que as ruas de São Paulo estão infestadas pelo Churrasco Grego. Uma maçaroca escatológica de carne, vegetais e coliformes fecais que é presa em um espeto e que fica girando de maneira deprimente em locais próximos aos pontos de ônibus. É de se duvidar que os gregos, com toda sua carga intelectual, sejam capazes de realmente serem os inventores disso. E de fato, uma busca no Google revela que o Churrasco Grego, na verdade é Turco. Mas, você encararia alguma coisa surgida na Turquia? Provavelmente não.

Tempos atrás, com a popularização da literatura de Bruna Surfistinha, o Brasil passou a conhecer o “beijo grego”, que consiste em lamber o cu alheio. Há de se duvidar se os gregos realmente tem esse costume estranho de sair lambendo tobas por aí, ou se um grego um dia chegou no Brasil querendo beijar no cu de todo mundo e tomou umas porradas e morreu com infecção generalizada. Ou se o fato de os gregos terem inventando a democracia, fez com que as pessoas entendessem que eles entendem de foder os outros.

Por fim, voltando ao ramo culinário (aliás, você percebeu que tudo na Grécia é voltado para comer algo ou alguém?), temos o Arroz à Grega. Um tradicional arroz de festa, literalmente falando, que leva tudo o que sua imaginação pode pensar. Geralmente é cenoura, pimentão, ervilha e uva passa. Sim, as próprias. O que mostra que esse maldito item de nossa culinária vem se perpetuando em nossa espécie desde os tempos mais remotos. O que mostra que a sociedade ocidental não poderia dar certo. Que a crise financeira e social na Grécia é mais do que justificável, apenas pelo fato de eles terem popularizado as uvas passas. Um verdadeiro presente de grego.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A crise no desenvolvimento de ideias


Quando você tem um problema, a maior dificuldade é aceitar que ele existe. Você já deve ter lido isso em alguma entrevista sobre vício em drogas, ou numa propaganda sobre disfunção erétil. Você tem que olhar no espelho e encarar a realidade: você é maconheiro. Você é brocha. Ou, você não consegue mais escrever um texto.

Aconteceu comigo. Não, eu não brochei nem cheirei, só estou tendo graves dificuldades para conseguir escrever textos para o CH3. Eu até tenho as ideias em mente, as anoto no meu celular para não esquecer depois. Mas, quando eu abro a folha do Word para começar a desenvolvê-las, começa o meu sofrimento. Brigo com o teclado durante algumas horas. Abandono o que estou escrevendo porque vejo que aquilo não vai pra frente. Tento outro texto que também não funciona. Qualquer besteira acaba me distraindo do meu foco. Estou travado, com bloqueio mental. A postagem acaba saindo na marra, quando o dia já está acabando.

Vejo que foi assim com o último texto sobre o Guilerme foi assim. Aconteceu no texto sobre o TobaCard. Está acontecendo nesse post. E outros textos, que não foram exatamente o que eu esperava, porque eu não via mais saída naquilo. Meu celular mostra 28 ideias de post anotadas. Nenhuma me motiva a seguir adiante. Tenho oito rascunhos salvos no blog. Todos imprestáveis.

Procurei ajuda no Facebook e contratei Luiz Eduardo Doria como palpiteiro oficial do blog. Ele ajudou a desenvolver o post sobre os drones e deu inúmeras contribuições para um post sobre professores, que, quem sabe, um dia eu conseguirei escrever. Meu problema está em escrever, justamente.

Venho aqui expor meu problema. Não sei se existe algum tratamento para ele. Estou apenas aceitando-o publicamente. Olhando no espelho virtual e admitindo.

Um problema sério para este blog, que em seus sete anos de existência, jamais tirou férias e desde que se propôs a ter uma periodicidade de posts, jamais falhou em seus objetivos. Bem, exceto uma vez que o Tackleberry esqueceu e outra vez que eu tive dengue. Vocês sabem o quão foda é ter dengue? Você acha que vai morrer.

Assim sendo, pela primeira vez esse blog pegará uma folga. Quarta-feira, estarei viajando a trabalho e não terei a oportunidade de escrever nada. Não vai ter post. Sexta-feira, quem sabe, talvez tenha, talvez não. Vamos ver como é que vai ser. Segunda-feira, com certeza eu volto.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Guilerme, o original, sofre um acidente e precisa de sua ajuda


O boneco de isopor Guilerme, o original, sofreu um acidente na manhã da última quinta-feira (05.09). Ele foi atingido por uma forte rajada de vento que entrou pela janela do seu quarto e acabou caindo no chão. Como resultado da queda, ele se partiu parcialmente ao meio, sofrendo lesões em sua cartolina e em seu isopor.

Guilherme Blatt, seu irmão proprietário, explica que ele acordou de manhã e percebeu que Guilerme estava caído no chão. Ele diz que o fato já se repetiu algumas vezes e, como sempre fazia, levantou o boneco. Ao colocá-lo de pé notou uma fragilidade maior em sua estrutura e então percebeu que o lugar que junta às duas cartolinas que formam seu corpo estavam se separando. Essa separação acabou forçando a sua estrutura de isopor que também começou a rachar. Guilherme acredita que a tendência é que a lesão aumente cada vez mais, provocando talvez o desaparecimento de Guilerme.

Fontes ligadas ao boneco informam que ele vinha sofrendo com o desgaste do tempo nos últimos meses. Guilerme completou sete anos há dois meses e já havia perdido um braço e apresentava diversos buracos provocados pelos alfinetes que prendiam esse braço perdido. O isopor atrás de sua cabeça estava esfarelando, e Guilerme também apresentava excesso de poeira e um suporte do pé quebrado. A perícia ainda vai estudar se a falta desse suporte facilitou a sua queda.

Guilerme Original é uma criação dos publicitários Vinícius Gressana e Tayane Pasetto. Nenhum dos dois trabalha atualmente com publicidade, mas o fato de dizer que publicitários criaram alguma coisa traz certa representatividade para o fato. O boneco foi entregue como presente de aniversário para Guilherme em 2006. Como Vinícius era o desenhista, inicialmente Guilherme atribuiu o presente apenas a ele, o que causou um remorso eterno de Tayane.

Extremamente expressivo e talentoso, Guilerme começou a tomar o lugar de Guilherme. Em poucos dias, o boneco de isopor já tinha mais amigos no Orkut, era convidado para festas no lugar de Guilherme, roubou seus amigos e família e também passava o rodo em atrizes, modelos e apresentadoras de TV. Seu sucesso imediato o levou até Hollywood, onde estrelou filmes e pegou a mulherada de geral.

Nos últimos anos ele começou a sofrer de problemas estruturais, abandonou o cinema e passou a viver recluso em casa. Abandonado pelos amigos que o acompanhavam em seu auge, felizmente ele não se afundou na cocaína, até porque, ele não tem nariz.

Notável membro do CH3, Guilerme é responsável por inúmeras histórias de sucesso deste blog. Agora, nesse momento de dificuldade, o CH3 pede a sua ajuda. Colabore com a campanha #salvemoguilerme, doando dinheiro, cestas básicas ou roupas novas para ele ou adicionando "Guilerme Original" ao seu sobrenome no Facebook. O valor não pode ser abatido do imposto de renda.

No céu tem isopor?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Era dos Drones

Sem dúvida, um mundo mais sorridente
Neste exato momento, você pode estar sendo filmado por câmeras de segurança afixadas no poste da sua rua, ou na parede do seu trabalho ou da sua casa. Talvez, você esteja sendo filmado sem saber por uma equipe de reportagem investigativa e só vai descobrir amanhã, quando todo mundo vai comentar que você apareceu na TV coçando o saco. Talvez, você esteja sendo filmado por um drone.

Olhe ao seu lado. Monitore o ambiente ao seu redor e veja se você encontra alguma mosca, ou algum outro desses insetos voadores. Observe-a parada na parede ou voando cambaleante. Um inseto aparentemente inofensivo, exceto pelo fato de que pode transmitir doenças como dengue, malária, fimose e AIDS. Exceto pelo fato de que agora, esse inseto pode ser um drone e ele pode estar te filmando.

Caso você não saiba, drones são veículos voadores não tripulados. No começo, eles eram mais utilizados como aviões de guerra sem piloto, controlados a distância por algum militar craque no joystick. Os drones são ótimos para a guerra porque você pode mandá-lo para os lugares mais inóspitos do planeta a fim de explodir a cabeça de um árabe, sem correr o risco de perder seu efetivo. “Se morrer, morreu”, diria Ivan Drago. Talvez o Japão tivesse mais sucesso na Segunda Guerra, caso os drones já fossem populares nos anos 40.

Presente pro seu filho
Com o tempo, os drones foram diminuindo de tamanho, ficando parecido com protótipos de aeromodelismo. Modelos que podem não ser tão eficientes para provocar hecatombes nucleares, mas que são ótimos para outra função: espionagem. Um pequeno aviãozinho não tripulado, que voa inocentemente pelos nossos ares armado com uma câmera de vídeo que transmite em tempo real as imagens de áreas secretas dos países inimigos. Se o drone for capturado, não há problema. As imagens já estão salvas em um HD externo do Pentágono.

Claro que o uso de drones não ficará restrito ao competitivo ambiente da conspiração internacional. Logo eles começarão a se popularizar no meio civil e a tecnologia permitirá que os drones sejam cada vez menores. Logo surgirão os modelos em tamanho de avião de papel ou no formato de pombos. Ninguém irá desconfiar daquele pombo parado em cima do muro, até o momento em que comece a chover e o pombo entre em curto-circuito.

Chegará o dia em que os drones serão do tamanho de uma mosca. E aí, a vida será um inferno. Será o paraíso do governo norte-americano, dos casais desconfiados, dos detetives e dos voyeurs extremos, que poderão comprar seu próprio drone para vigiar a vizinha trocando de roupa, tomando de banho e fazendo suas necessidades fisiológicas. Existe tara para tudo no mundo.

Os drones também provocarão mudanças nas reportagens com câmera escondida do Fantástico. O mundo das reuniões secretas ficará profundamente abalado e, sem conseguir promover treinos secretos, Vanderlei Luxemburgo ficará ainda mais acabado enquanto treinador. Evitar a cola em uma prova será praticamente impossível. Os drones também acabarão com o esconde-esconde e com o blefe no pôquer e no truco.

O drone que posou  na sua sopa
Será um mundo em que ninguém se sentirá a vontade para trocar de roupa ou ficar pelado. A taxa de fecundidade do planeta irá despencar, assim com o número de pessoas infectadas com doenças venéreas. A prisão de ventre se transformará no mal do século e os fabricantes do Activia investirão fortunas nas novas tecnologias de fabricação e transmissão de dados dos drones.

Será preciso frear o crescimento acelerado dos pequenos espiões. Os países irão criar as suas leis regulamentando o uso de drones, mas nós sabemos que isso não vai adiantar nada. A NASA precisará desenvolver uma antena que bloqueia a transmissão de dados entre drones, mas isso afetará profundamente o mercado das telecomunicações. A ONU precisará intervir, criando protocolos de desdronização.

Porque em boca fechada, não entra drone.

Grazie @DadoDoria

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Conversas Profissionais Excludentes

Se você já teve a oportunidade de conversar com um militar ou de escutar dois deles conversando, deve ter se impressionado com a incrível capacidade que os militares têm de saber as patentes de todo o quartel. Não sei dizer qual é o elemento que diferencia um do outro, para que eles saibam quem é o sargento, ou soldado ou o major. Talvez seja a roupa, talvez o corte de cabelo ou algum gesto específico feito com a mão. Eles podem se reconhecer mesmo quando estão a paisana¹.

Ainda mais assustador é o fato de que eles sabem todo o histórico de ascensão hierárquica da corporação.
- Coronel Heiderson foi promovido no governo Quércia?
- Não, não, ele veio do R37, aquele programa que formou 42 coronéis em 1992.
- Ah, verdade, ele não é da reserva.
- Sim, ele era praça lá no 22BPM e conseguiu entrar nesse curso.
- Ele não fez o CFOA? Foi igual o Major Baptista?
- Não fez não. O Baptista não é capitão?
- Não, o ato foi revogado.
Temos na foto o Cabo Messias, Cabo Andrade, Soldado Wellington do 12BEC, Sargento Garcia, Cabo Andrade, Tenente Farias, Coronel Rodisberto, que chegou ao posto depois de virar motorista de um deputado, cabo Fonseca, Major Pereira, Soldado Divino, o Jean que jogou no Fluminense e o tenente-coronel Edmar, oriundo da geração 83 do Curso Técnico.

Para quem não está inteirado nos assuntos militares, a conversa é totalmente excludente.

A carreira militar costuma a ser admirada por diversos segmentos da sociedade. Existe uma grande parcela da humanidade que vive com o sonho de se transformar em polícia. Existem pais que sonham de olhos abertos, mirando o horizonte com a cabeça perdida em meio aos devaneios sobre a visão do seu filho fardado como oficial da marinha, do exército ou da aeronáutica.

A minha teoria, é que as conversas profissionais excludentes são essenciais para que uma profissão seja respeitada. A partir do momento em que os leigos não conseguem entender a conversa dos profissionais, a categoria sobe de nível. Repare em dois técnicos de informática conversando sobre processadores e placas. Repare no respeito que você nutre por esses profissionais.

Advogados podem conversar horas sobre habeas corpus e outros termos que quem não postula uma carteira da OAB jamais vai entender. Médicos podem ser enigmaticamente incomunicáveis por meio de seus bilhetes escritos a mão. Economistas passam a vida inteira falando coisas que ninguém consegue traduzir, assim como os membros de coletivos culturais. É uma forma de subjugar o adversário por meio de sua ignorância. Utilizando de uma conversa excludente, a atividade adquire um ar místico e sobrenatural de conhecimento atávico.

Lei da oferta e da procura no meio-fio
Porque os garis são tão ignorados por Boris Casoy? Porque ele não tem nenhuma conversa excludente, eles apenas varrem as ruas. Se pudessem encaixar um benchmarking entre suas vassouradas, tenho certeza de que eles seriam pequenos milionários. Veja o caso dos mecânicos. Eles têm sido mais respeitados pela sociedade porque as novas gerações entendem cada vez menos de mecânica e suas conversas sobre correia dentada, filtro de ar, rolamento e alternador são cada vez mais incompreensíveis. Em um futuro próximo, mecânicos serão profissionais altamente remunerados².

E nós, jornalistas? Nossa conversa não é nem um pouco excludente, somos doutrinados a falar de um modo compreensível e nosso único jargão é o lead, que não é lá tão impressionante. Veja que no nosso meio, os fotógrafos são mais impactantes, porque quando eles se juntam, conseguem conversar por horas sobre os seus equipamentos. Eles demonstram um conhecimento, nato, legítimo e ungido.
- Essa sua lente é uma 300?
- Uma 400. Tem uma abertura muito boa.
- O obturador é automático?
- Prefiro manual, dá pra trabalhar com um tempo de exposição maior.
- Essa é boa pra movimentos?
- Boa, mas nem tanto como a P460.

¹ Se você quer uma dica para sua vida, essa dica é: não tente entrar em um jogo de adivinhações de patente. Chamar um tenente-coronel de capitão é o suficiente para que você seja levado até uma sala escura, decorada com instrumentos de tortura medieval, onde você será golpeado de maneira cruel até acertar a patente do oficial. Na dúvida, chame qualquer um de coronel.
² Em compensação, eles continuarão a dirigir carros velhos. Dirigir um carro velho que parece que vai desmontar a qualquer momento é pré-requisito para um mecânico confiável.