sexta-feira, 29 de abril de 2016

Tic Tac Pipoca: o sabor da morte

O exato momento em que uma pessoa morre é um assunto fascinante e intrigante para o ser humano. O que é que acontece no exato momento em que a consciência se dissipa, o corpo para e o coração deixa de bater? As hipóteses variam muito, de acordo com a sua fé ou o seu ceticismo. Há quem diga que um filme se passa em sua cabeça, quem acredite em uma viagem em direção à luz e o desprendimento do corpo, há quem pense por outro lado que tudo simplesmente acaba, que tudo aquilo que levou você a ser quem é, as experiências, os amores, os conhecimentos adquiridos, que tudo evapora e se transforma em um enorme nada. Simplesmente acabou.

A ciência não tem uma resposta exata para essa dúvida existencial. Experimentos em laboratório jamais poderiam ser feitos, porque isso envolveria o sacrifício humano, algo que não é muito aceito desde os tempos dos Astecas. Mas eu tenho a minha hipótese. Imagino que a sensação de morrer não deva ser boa. Deve ser algo muito ruim, algo parecido com o que você sente quando experimenta o novo Tic Tac sabor pipoca.

O Tic Tac é uma pequena balinha em formato de bastonete, extremamente popular no mundo inteiro. Foi inventada na Itália e chegou ao Brasil em meados da década de 90. No princípio existiam apenas dois sabores, que ainda existem até hoje e imagino que sejam os mais populares: menta e laranja. Ambos igualmente viciantes, capazes de levar pessoas saudáveis a ruína financeira e espiritual.

Outros sabores foram lançados, geralmente em um caráter especial e limitado, mas todos nós sabemos qual é a dos produtos produzidos em linhas limitadas: se for bom e bem aceito pelo público, será produzido ad eternum, atendendo aos apelos do público. Se for ruim, enfim, era só uma edição limitada mesmo. Veio um azul escuro de sabor extremamente forte, um sabor maracuja e cereja, outro com bolinhas rosas, um azul claro, um verde, enfim. Até que nesse ano surgiu a mais nova edição limitada, o já citado Tic Tac Pipoca.

Pensando em um primeiro momento, você imagina que não deve ser bom. Qual é a ideia de fazer uma bala doce mentolada com sabor de pipoca? Não poderia dar certo, mas pensamos que o Tic Tac é fabricado por uma das maiores confeiteiras do mundo eles não fariam algo que não fosse para dar certo. Fizeram.

Pense nas piores sensações que o mundo pode proporcionar, violência física, psicológica, perdas de entes queridos, experiências traumáticas. O Tic Tac pipoca está no rol dessas experiências. Ninguém que o prova consegue ser a mesma pessoa. Ninguém que coloca esse pequeno carocinho na boca tem condições de ser feliz novamente. Porque depois de experimentar o Tic Tac Pipoca o indivíduo se torna consciente das atrocidades que o ser humano pode cometer e que qualquer um está sujeito a passar por esses momentos de terror.

Recentemente, um estojo dessa bolinha açucarada de apocalipse chegou até o meu trabalho. Uma caixa de Tic Tac tem exatos 33 balas e acredito que apenas cinco tenham restado. Isso significa que ao longo do dia, 28 pessoas colocaram esse negócio na boca, o que foi, de certa forma, um ato de sadismo de quem já havia experimentado a bala. O mais correto a se fazer, caso você veja alguém prestes a colocar um Tic Tac Pipoca na boca, é correr em direção a essa pessoa, retirar o perigo de sua mão – caso a pessoa se mostre relutante, é necessário encontrar uma maneira de desacordá-la, correr até um lugar seguro em que o produto possa ser descartado seguramente: vaso sanitário, forno industrial ou uma barragem de chumbo e concreto.

Dessas 28 pessoas que experimentaram o Tic Tac Pipoca, apenas três consideraram que o gosto era razoável, mas sem nenhuma empolgação. Pessoas que provavelmente já passaram por experiências terríveis e são incrivelmente fortes no aspecto psicológico. Não mais do que dez pessoas conseguiu engolir a bala (diria que chuparam até o final, mas essa frase seria muito dúbia, pornográfica e maliciosa) - eu incluído, mais por uma questão de honra e pelo fato de me provar que eu era capaz de superar os maiores desafios.

Mas, a ampla maioria das cobaias cuspiu. Imagine, cuspir um Tic Tac é um ato extremo, uma última possibilidade, significa que não dá mais para seguir com aquilo.

Uma a uma, as pessoas colocavam a bala na boca faziam aquela cara de “hmm, diferente isso aqui”, seguida por uma cara de “hmm, isso aqui não é bom não”, concluída com uma cara de nojo extremo, de que “porra, eu vou morrer comendo isso aqui”. Vinha então a cusparada.

O pior de tudo, sim há o pior de tudo, é que o maldito gosto da pipoca, ou algo como se você comesse pipoca com Kolynos, fica na sua boca por algumas horas. Por alguns dias. Por toda a sua vida. O tempo demandado para eliminar o sabor da sua boca depende muito da sua força mental.

Eis uma desvantagem do Tic Tac Pipoca em relação a morte. Quando você vai a óbito, de certa forma você se livra da dor e das experiências traumáticas vividas. Com o TTPipoca não. Ninguém nunca morreu com um exemplar desse pedaço de maldição. Você sobrevive e precisará continuar sobrevivendo todos os dias, apesar dessa experiência terrível.

Acredito que logo a Anvisa, a ONU, a Nasa, o FBI, o Pacto de Varsóvia, alguém irá tomar alguma atitude e retirar essa atrocidade do mercado. Espero que os seus responsáveis sejam severamente punidos e que um dia nos lembremos do Tic Tac Pipoca com aquele misto de vergonha e alívio de saber que esta foi apenas mais uma terrível página virada da história. Ergueremos um memorial para suas vítimas e transmitiremos seu legado, para impedir que as futuras gerações voltem a cometer este erro.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Peixes Malditos

Recentemente, o apresentador, ator e protótipo de marido ideal, Rodrigo Hilbert, provocou polêmica em seu programa de culinário transmitido por um canal de TV paga cujo nome é formado por três consoantes do alfabeto romano. Tudo porque, ao investigar os hábitos alimentares dos povos que habitam o interior de Santa Catarina, ele e um outro caipira de lá mataram um carneiro, esquartejaram-no, assaram-no e serviram-no com acompanhamentos.
Não sei por quais razões, mas esta foto me lembrou...

O programa chocou por trazer a tona uma verdade inconveniente. Precisamos matar os animais para nos alimentarmos deles, pelo menos os animais de grande porte. Você pode comer insetos e pequenos animais enquanto eles ainda estão vivos, mas esta tarefa será muito difícil de ser realizada com um boi.

A morte pode ser provocada por uma pancada na cabeça, pela degolação, com a incisão de um objeto cortante em um ponto vital, pelo mergulho em água fervendo, enfim, são muitas as maneiras que nós encontramos para assassinar um bicho. Rodrigo Hilbert, se eu não me engano, preferiu a morte por incisão de objeto pontiagudo no corpo do animal. O golpe fatal não foi televisionado, os editores preferiram apenas cenas lúdicas de um balde recebendo todo o sangue que escorria do cadáver. Mas a polêmica se instaurou.

O fato é que a maioria de nós, carnívoros, queremos manter uma relação profissional com o nosso alimento. Não queremos saber que eles tiveram uma vida, que alguém precisou acabar com essa vida para que ele estivesse ali grelhado em nossa mesa, acompanhado de arroz, molho e batatas. Se nas embalagens de carne estivesse escrito que esse coxão mole pertenceu a Mimosa, filha de Rufalos III e Princesa, que ela mamou por três meses, que viveu em campos verdejantes por um ano, até que o seu Tobias acertou uma paulada na cabeça dela, possibilitando que este pedaço de carne esteja nessa gôndola, bem, se o mundo fosse assim, aposto que o número de vegetarianos aumentaria consideravelmente. Quando a Friboi fala da origem da carne, ela não fala de uma origem completa. Apenas a origem mercadológica.

Rodrigo Hilbert poderia ter chocado ainda mais as pessoas se, assim quando ele laçou o carneiro que seria morto, ele o pegasse no colo, se dirigisse a câmera e falasse: “Gente, esse aqui é o Pipo. Diz tchau pra câmera Pipo. Então, o Pipo é que a gente vai matar e vai assar ele. Tchau Pipo, diz tchau pra vida, Pipo”, com voz infantil. Sim, você não aguentaria isso.

Aproveito esse tema para voltar a um assunto que já foi discutido neste blog não muito tempo atrás. Por que nós não nos importamos com os peixes. Na verdade, cagamos para os peixes.

Nesse programa, Hilbert já matou sapos e também já pescou muitos peixes. Foi em alto mar, fisgou uma dúzia de peixes, matou-os e os serviu aos seus convidados. Ninguém, absolutamente ninguém fez textão no Facebook, nenhum post no Buzzfeed foi criado e enfim. Permanecemos insensíveis a vida dos peixes, que são tão seres vivos como nós. Assim como o carneiro, viveu uma vida inteira até o momento em que foi capturado por um ser humano que o matou e o levou ao fogo.

Imaginem se Hilbert, ao laçar o carneiro, ficasse dando corda para ele, deixando-o correr de um lado para o outro e ficasse narrando a cena “ô bichão, esse é briguento. Mas não escapa não”. Depois mergulhasse o bicho numa piscina e o deixasse agonizando lá, até a morte. Provavelmente a Luiza Mell se materializaria na casa dos Hilbert, o caso iria para a Justiça e ele seria preso. A lei da prisão definiria um fim cruel para o galã global.
...esta daqui.

Pois, existem programas de pesca que fazem exatamente isso. Ferem animais, os deixam desesperados lutando pela vida, os sufocam e podem até eventualmente devolve-los ao seu habitat, mas após uma experiência traumática. Não é estranho. Por que ninguém fica chocado? Por que essa indignação seletiva?

O Instagram do homem que representa a personificação do marido ideal, foi invadido por pessoas que o chamaram de idiota, questionaram o que ele acharia se fizesse isso com os filhos deles. Isso, no caso, é inserir um objeto pontiagudo no corpo de um de seus filhos, que depois seria esquartejado, assado e servido com batatas em um moderno e complexo ritual canibal.

Pois bem, ninguém jamais perguntou para um cara de programa de pesca o que ele acharia de os filhos deles ficarem enganchados em um anzol, nadando de um lado até o outro por horas até morrerem asfixiados. Pensem nos peixeis.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Modelo de Justificativa

“Pelo Brasil. Por minha vó Bizantina que me resgatou das drogas quando eu tinha oito anos. Pelos rios de Tungstênio que brotam em jatos caudalosos por nossas florestas, eu voto sim”.

A semana passada foi uma semana muito estranha. O país pareceu de certa forma petrificado entre dois eventos importantes: a destituição de um chefe de Estado e um feriado nacional prolongado. Foi uma semana de apenas três dias, pouco tempo para esquecer aquele espetáculo surreal proporcionado pelos 511 deputados presentes na Sessão Solene que decidiu favoravelmente pelo avanço do encaminhamento do processo de investigação que pode culminar no afastamento definitivo de Dilma Rousseff.
Esse é o Tungstênio

“Pelo sangue, pelo suor e pelas lágrimas derramadas pelos gloriosos soldados dos países aliados na 2ª Guerra Mundial, que derrotaram o eixo e afastaram o mundo ocidental do jugo do nazi-fascismo, eu voto não”.

O processo sobre o impeachment de Dilma dizia respeito a apenas uma questão: pedaladas fiscais. Se este estranho evento atlético-contábil constituía crime de responsabilidade fiscal e se por isso ela deveria ser afastada do cargo que ocupa. Pesquisas realizadas durante a semana do processo já demonstravam que a imensa maioria dos deputados não sabia o que estava votando. Em seus votos, eles registraram novamente que não sabiam de nada e de certa forma nos fizeram de palhaços: horas e horas debatendo sobre algo que eles não sabiam para no final tomar uma decisão apenas política, decidida mais na base da expectativa de poder. Vai ser maior se ela ficar ou se ela sair? Eis o voto.

“Por Dona Iolanda, a quem serei eternamente grato por aquele bife à milanesa suculento que abateu minha fome durante o verão de 1966. Pelos Beatles, que eram melhores que os Rolling Stones e aqui não cabe nenhuma forma de discussão, eu voto sim”.

Quem votava pelo não ainda tinha um caminho mais facilitado, uma vez que poderia simplesmente dizer que achava que não havia crime que justificasse o impedimento. Mesmo assim, houve quem justificasse seu voto com base em Carlos Lamarca, Marighella, Zumbi dos Palmares e tantas outras pessoas mortas que, aposto eu, se estivessem vivas não teria motivos para se orgulhar da gestão realizada pelo PT.

“Pelo sol que nasce todas as manhãs por detrás das cordilheiras dos Andes, eternizado em um pôster pendurado na parede do meu quarto, bem acima da estante onde carrego uma foto dos meus três filhos: Hugo, já falecido, Ânderson e Roberto, o bastardo, eu voto sim”.

Entre os favoráveis, pudemos presenciar justificativas ainda mais bizarras, até porque elas foram em número maior. Pela paz em Israel, pelos maçons, pelos moradores de rua, pelos corretores de seguro, pelo sol que brilha em Angra dos Reis, pela família em geral, muitos são os motivos que justificam um impeachment. Teve gente que confundiu presidencialismo com parlamentarismo e até quem alegou que o quase ex-governo queria fazer as crianças mudarem de sexo nas escolas.

“Pelo povo que clama pelas ruas por um novo país, que precisaria ser reconhecido pelos países que participam da ONU, para, aí sim, constituir suas fronteiras legais, seu exército, sua burocracia estatal e, principalmente mais importante, sua seleção de futebol”.

Em certo momento, um dos caras da mesa diretora da Câmara, um cara grisalho com um bronzeado exagerado disse que o processo seria aprovado porque a presidente não dialoga com “esta casa”. Foi uma confissão velada de que pouco importa quais são as acusações. O presidente que quiser governar terá que ser uma putinha dos 513 deputados que lá estão. Ou pelo menos, de 172 deles.

“Pela memória de Lucy, minha labradora cega que morreu no fim do ano passado, em meus braços, por culpa desse governo ineficiente que não consegue cumprir o mínimo necessário para garantir a dignidade animal, eu voto sim”.

O que talvez poucas pessoas saibam, é que esse cidadão de cabelo grisalho e bronzeado excessivo é o primeiro-secretário da Câmara, uma espécie de ordenador financeiro. Menos pessoas ainda devem saber que ele responde a 47 processos na justiça, a maioria coisas da época em que ele foi prefeito, essas besteirinhas administrativas às quais todas nós estamos sujeitos. Mas, um desses processos é por trabalho escravo. Fiscais do Ministério do Trabalho encontraram mais de vinte pessoas em condições análogas à escravidão numa fazenda do cidadão, incluindo menores de idade, alguns com 14 anos.

“Pelo grito às margens plácidas, pelo povo heroico, pelo brado retumbante, pelos raios fúlgidos. Pelo meu pênis flácido, que não levanta mais nem com o uso de remédios caros e importados, receitados por médicos amplamente conceituados e que cobram uma verdadeira fortuna por cinco minutos de conversa em que eles não chegam a encostar, ou mesmo a olhar o meu órgão que apresenta esse problema que representa um verdadeiro golpe em minha autoestima masculina e provoca enorme constrangimento”.

Em sua defesa, o cidadão alegou que não sabia que tais práticas eram adotadas em sua fazenda e que ele não autorizou que ninguém fizesse isso. Uma defesa aliás, que em muito lembra o que Lula falava sobre o mensalão, ou o que Dilma diz sobre a Petrobrás. Ninguém nunca sabe de nada. Isso não é uma coincidência.
O cachorro não sabia que não devia comer a tarefa

A alegação de desconhecimento é um dos processos de defesa mais antigos que existem. Desde que o mundo é mundo, uma das nossas primeiras reações é falar que nós não sabíamos. Por quê você não fez a tarefa? Eu não sabia professora. O desconhecimento desarma nossos inquisidores, pensamos. Não há nada que possa ser feito contra uma pessoa que não sabia de nada. Mas, por incrível que pareça geralmente não funcionava e sempre acabávamos levando a punição cabível.

Talvez, a grande contribuição da sessão de votação sobre o prosseguimento do processo de impeachment da Câmara, tenha sido mudar definitivamente os modelos de justificativas que adotamos em nossos cotidiano. Não vamos negar que adoramos uma desculpa, ou inventar razões para justificar o injustificável, ou até mesmo o justificável, apenas para que ele fique mais interessante.

- Fernando, porque você não veio trabalhar ontem?
- Pela paz em Israel. Pelos maçons.

- Luciano, por que você não fez a tarefa?
- Pela luz do luar e pelo brilho do sol de Angra dos Reis.

Em último caso, basta apelar para a família.

- Afonso, isso são horas de chegar? O que você estava fazendo? Por que você chegou só agora em casa?
- Pela minha mãe, dona Nega, que completa 75 anos esse ano, pelo meu pai, que muito batalhou para que o Brasil fosse um país melhor.

Haverá jurisprudência para que suas justificativas sejam aceitas.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O que Dilma deve fazer?

A situação da presidente Dilma Rousseff está cada vez pior. A cada novo dia, mais 3.438 antigos aliados desembarcam do governo e passam a reforçar as trincheiras pró-impeachment. A situação é tão caótica, que a qualquer dia ela vai perder um F do sobrenome e acordar como Dilma Roussef. Há poucas coisas que ela pode fazer. Em contato com os mesmo velhos especialistas de sempre, o CH3 conseguiu apontar quatro caminhos que talvez levem a presidente a conseguir escapar do impedimento.

1) Renúncia
Dilma convocaria um pronunciamento em rede nacional e se dirigiria ao povo brasileiro. Com olheiras pesadas, ela diria que forças ocultas tramam contra o seu mandato e rondam o Palácio do Planalto, numa clara alusão ao demônio. Ela listaria seus feitos, admitiria alguns equívocos e diria que sai de cabeça erguida. A renúncia é seu gesto de coragem, sua abdicação do poder em prol da harmonia política brasileira. Sua cabeça é o alimento que saciaria os golpistas e poderia trazer de volta a estabilidade ao país. Seria uma saída melancólica, que a colocaria como uma covarde e talvez não vete o impeachment, porque o Congresso brasileiro é muito louco. Mas, é uma saída, literalmente.


2) Suicídio
Tal qual fez Getúlio Vargas, que disse ter dado sua vida pelo povo brasileiro e que agora vos ofereceria sua morte, Dilma colocaria um fim em sua vida. Os benefícios? Vilanizar a oposição, criar um clima de comoção nacional e fazer com que todos nós pensássemos que ela enfrentou uma barra pesada. Ficaríamos com peso na consciência, vai. Ela precisaria pensar na melhor forma de cometer esse atentado contra a própria vida e acho que se jogar do alto da torre de Brasília seja a maneira mais impactante. Por outro lado, precisamos lembrar que vivemos na era do meme e da falta de empatia e é provável que seu cadáver vire motivo de piada e algumas pessoas ainda iriam comemorar. Além do mais, é uma saída muito pesada.

3) Apelar para a violência
Pode não parecer legal, mas é sempre uma opção, que além de tudo, sacia alma. Dilma chamaria Michel Temer e Eduardo Cunha para uma reunião a sós em seu gabinete, sob o pretexto de um comunicado importante. Lá dentro, eles seriam surpreendidos por um grupo de capangas que aplicariam uma surra inesquecível nos dois sucessores da presidência. Ao conseguirem sair da sala, seriam filmados cheios de hematomas, roupas rasgadas e sangramentos pelas equipes de imprensa ávida por uma informação. Seriam humilhados. Deputados oposicionistas seriam arrastados para os banheiros da Câmara e obrigados a engolir suas gravatas. O Congresso Nacional viraria um filme de Quentin Tarantino. Dilma não sofreria o Impeachment porque talvez fosse presa, ou desse um início a uma Guerra Civil que resultaria em sua morte na guilhotina. Talvez ela escape por imposição. Ou talvez sofra o afastamento, mas pelo menos teria descontado a raiva.

4) Tocar o puteiro
Sem dúvida, essa seria a melhor saída para a crise nacional. Dilma chamaria um pronunciamento em rede aberta e diria ao povo brasileiro. “Hoje eu tenho uma proposta. A gente se enrosca e perde a linha a noite inteira”. Apenas isso e encerraria sua fala. Ficariam todos boquiabertos e sem reação. Merval Pereira questionaria se ela enlouqueceu, certeza confirmada com o início de novo pronunciamento em rede nacional no qual Dilma recitaria a íntegra de “Os Lusíadas” de Camões. A presidente ainda convocaria uma entrevista coletiva em que citaria todos os servidores públicos empregados por indicações políticas de parlamentares que agora integram a oposição. De noite, Dilma convocaria novo pronunciamento. Sentada em uma mesa de bar, aparentemente embriagada, Dilma passaria o horário inteiro do Jornal Nacional contando podres impublicáveis de Michel Temer e seus aliados. No domingo de votação na Câmara, Dilma iria até o Congresso e se sentaria na frente de Eduardo Cunha toda de preto. A cada voto pelo seu afastamento, ela choraria e gritaria, criando enorme clima de constrangimento. Talvez ela sofra o impeachment mesmo assim, mas pelo menos iria se divertir e não vai morrer de úlcera ou ataque cardíaco. Ah, claro, se ela for afastada, seu último ato seria usar a faixa presidencial para limpar a bunda de um cachorro, antes de entregá-la para seu sucessor.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Comissão do Impeachment

Não sei se todos os cidadãos brasileiros já tiveram a oportunidade de assistir a uma sessão do plenário do parlamento nacional em algum dia de suas vidas. Sei que não parece ser um dos programas mais atrativos, mas esta é uma experiência pela qual qualquer ser vivo deveria passar. Assistir as sessões deliberativas, ordens dos dias, reuniões de comissões ou quaisquer outros encontros com nomes diferentes é um mergulho antropológico nas razões que tornam o Brasil o que ele é.

Imagine um grupo de 500 e poucos loucos discutindo assuntos dos quais eles não tem a menor ideia do que se trata, mas sem humildade suficiente para assumir sua ignorância. Muitas brigas, discussões, falas absurdas, abruptamente interrompidas por um cidadão que começa a falar sobre um assunto completamente aleatório. O Legislativo brasileiro é uma reprodução exacerbada do Big Brother Brasil, com uma diferença: aquilo que eles estão fazendo lá vai impactar a sua vida. Muito provavelmente para pior.

Recentemente com o popular processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, muitos brasileiros terão a primeira oportunidade de acompanhar esse bando de loucos em ação. Certo que o fato de o tema ser bem importante e restrito tira muito da graça das imprevisibilidades que acometem as sessões do Parlamento. Vai ser difícil que, depois de um deputado fazer um discurso acalorado que praticamente convoca a população a pegar em armas para combater alguma coisa, outro parlamentar entre em cena e comece a falar da gentileza do povo de Canabrava do Norte que está comemorando aniversário e pedir uma moção de aplausos para a cidade, seguido por um relato de sua última viagem aos confins da Amazônia para conferir a situação da população do vilarejo de Brejo da Cruz.

Mesmo assim, não deixe de tentar assistir este espetáculo pelo menos uma vez. Esses dias, os nobres deputados discutiam o processo de impeachment e o parecer do relator. Mais de 100 deputados pediram a palavra em uma discussão que durou mais de 12 horas, tempo no qual muitas pessoas - incluindo participantes da comissão - dormiram. Foi um grande acúmulo de merda, suficiente para entupir todo o sistema Cantareira. Basicamente ninguém comentava as porras das pedaladas fiscais, se elas significam crime de responsabilidade que é o que, afinal, motiva o pedido do encerramento do mandato da Dilma.

Em um momento, um deputado convidou outro a se converter e encontrar Jesus Cristo, que é a única salvação para o momento em que o Brasil vive. Conforme eu já disse aqui em outro post, acho que Jesus está em dívida com o povo brasileiro, já que temos muitos dizimistas e o que eles nos dá em troca é Eduardo Cunha. Outro deputado ainda comparou os anti-impeachment a Judas e disse que, tal qual o traidor do Senhor, eles irão se suicidar porque não aguentarão o peso da traição contra o povo brasileiro.

Meu momento favorito, no entanto, foi quando uma deputada de Rondônia pediu a palavra para ler um poema. Ela era a favor do impeachment e usou seu precioso tema para ler um poema bem ruim, desses que as pessoas publicam no Facebook sobre fotos de crepúsculos e atribuem sua autoria a coitada da Clarice Lispector. Fiquei sentado em frente a TV, paralisado, admirando o surrealismo da classe política brasileira. Magnetizado pela mediocridade.

Não sei se alguém irá superar esse momento nos próximos dias. Eu torço, sinceramente, para que sim. Espero que algum deputado leia uma receita de miojo e diga que o macarrão é o Governo do PT e a água quente é o povo brasileiro, que vai desmanchar esse governo artificial, enquanto que a oposição é o tempero sabor galinha caipira, responsável por tentar salvar essa porcaria. Certamente alguém vai cantar o hino nacional. Talvez alguém puxe o seu órgão genital para fora e o compare de maneira abstrata a praça dos três poderes que no caso seriam seu pênis e seus dois testículos. Vai rolar bundalelê? Teremos uma grande festa no apê do Latino?

Espero que sim. Espero que os deputados nos entreguem o que eles prometem.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um Vs Outro

Recentemente, os cinemas brasileiros, quiçá mundiais, foram tomados por uma série de filmes que mostram confrontos entre personagens que até então conviviam em paz e harmonia ou que jamais haviam se comunicado, talvez não se conhecessem nem pelas redes sociais. Falo da película Batman x Superman (talvez o pior filme da história) e também de um que ainda não estreou, que envolve disputas entre o Capitão América e o Homem de Ferro.

Essa recente onda me lembra os idos de 2003 e 2004, quando os cinemas também foram tomados por produções desse tipo. Lembro do imprestável Alien x Predador, que conseguiu transformar dois clássicos da ficção científica dos anos 80/90 em uma enorme massa de bosta. Ainda existiu um Jason x Freddy Krueger, um filme cujo ridículo nonsense tem até alguma graça.

Bem, pouco importa que esses filmes sejam uma porcaria, um espetáculo grotesco de cinema ruim em busca de um público bovino que seria estuprado dentro do cinema desde que a pipoca estivesse salgada. O negócio é aproveitar o momento do mercado e é por isso que o CH3 sugere alguns dos duelos a seguir que em breve poderiam estar no cinema.


Chico Bento x Cebolinha
Um sonha em ser o lei da lua. O outro é o senhor do campo. Um controla um grupo de meninos de seis e sete anos, incluindo um prodígio mirim da ciência. O outro controla um rebanho enorme de animais. Os dois são próximos, mas nunca se encontraram. Quando um tentar invadir o espaço do outro, o conflito será inevitável.

Louro José x Guinho
Dois fantoches bizarros que participam de programas de culinária e assuntos gerais comandados por mulheres que avançam para dentro da terceira idade. Quando uma delas estiver em perigo, os fantoches terão que entrar em ação e começar uma guerra de piadas desnecessárias e absolutamente sem nenhuma graça. Em algum momento chave do filme, quando tudo estiver parecendo perdido, vai aparecer o Dollynho, que dará dicas para o lado que de alguma forma será o vencedor.


Sérgio Moro x Joaquim Barbosa
Dois heróis nacionais que repentinamente são colocados em lados opostos em um caso de grande repercussão. Uma guerra de liminares, de apoios públicos em páginas no Facebook, de campanhas difamatórias no Whatsapp e de manifestações em avenidas movimentadas de grandes cidades. Só haverá um vencedor, mas as consequências serão imprevisíveis.

Fofão x Topo Gigio
Dois ícones dos anos 80. Duas estrelas no ostracismo que enxergam a oportunidade de voltar ao sucesso. Um mundo pequeno demais para os dois. Um confronto de proporções épicas com a inusitada participação da Carreta Furacão.


Pato Donald x Donald Trump
Dois bonachões homônimos que participam de famílias poderosas. Há muito em comum entre esses dois personagens, tirando o fato de que um é cheio de carisma e o outro é um apresentador de Reality Show.

Aquaman x The Flash
O duelo entre os dois super-heróis mais inúteis de todos os tempos (pelo menos nos quadrinhos mainstream) seria uma grande decepção. De um lado, um cara que tem o incrível poder de se comunicar com plânctons e pepinos do mar além de nadar rápido pra caralho. Do outro, um cara que corre rápido pra caralho. O nível de tensão seria o de um filme iraniano, em que todo mundo espera que algo ocorra, mas nada acontece. Um dá a volta ao mundo correndo e outro a nado e o resto da população continua de boa.

Faustão x Sérgio Mallandro
Once Brothers. Parceiros. Amigos. Irmãos Camaradas, companheiros na falta de humor. Até que uma briga pelos direitos autorais do Rap do Ovo leva os dois para uma guerra civil no formato Stand Up. Em palcos opostos, eles desfilam piadas grosseiras e preconceituosas, enquanto o mundo sofre as terríveis consequências da Stand Up Comedy. A trilha sonora para esse filme seria MC Bin Laden.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O que iremos dizer para as próximas gerações?

Muitas decisões tomadas ao longo da história são difíceis de entender fora de seu contexto original. Se olharmos para alguns fatos passados, hoje, muitas vezes somos tomados por uma corrosiva dúvida: será que eles não perceberam que alguma coisa estava errada? Foram incapazes de perceber a merda em que estavam se metendo?

Sempre penso nas crianças alemãs que devem perguntar para seus avós se em nenhum momento eles se questionaram se as ideias de Hitler não estavam erradas, que não fazia o menor sentido escravizar minorias consideradas inferiores e futuramente promover um extermínio em massa delas. Será que não havia ninguém capaz de dizer “ei, isso tá errado”? Imagino o senhor que um dia fez parte da juventude nazista explicando que os tempos eram outros, que o país estava com a moral devastada, que Hitler fazia discursos hipnóticos e que as pessoas acreditaram em qualquer coisa e enfim, está na hora do neto ir tomar banho e dormir.
Somos tão joooooooooveeeens

Acredito que as novas gerações sempre fazem esses questionamentos para os seus antepassados. Os últimos troianos devem ter questionado seus tios se eles não achavam que havia algo de errado com os seus inimigos mortais endereçando um enorme presente para eles e que ninguém ficou ali, prestando atenção se aquilo não poderia ser um truque.

Algumas das situações vividas no Brasil atual, certamente serão alvo de questionamento de nossos descendentes. Quando eles se depararem com os livros de história – isso se os livros ainda existirem em um futuro próximo, não tiverem sido substituídos por chips de implante de conhecimento – e verem o que acontece no Brasil nos anos atuais, eles perguntarão e nós, já idosos e com saudades dos bons tempos, se nós não percebemos que aquilo estava errado?

- Vovô, o que foi que aconteceu na política brasileira em 2015 e 2016.
- Ah meu neto, é uma longa história.
- Porque a presidente sofreu um impeachment?
- Foi uma longa disputa por poder.
- Como assim?
- O PT assumiu o poder em 2002 e começou a implantar uma série de políticas sociais, que de certa forma desagradaram alguns setores mais conservadores da sociedade. Por outro lado, eles também roubaram muito dinheiro e a soma desses dois fatores criou um enorme sentimento ant-ipet-ista¹. No entanto, mesmo assim, eles conseguiam ganhar as eleições seguintes graças aos votos das pessoas beneficiadas pelos programas sociais. E isso foi aumentando cada vez mais a tensão.
- Quem é esse Michel Temer que assumiu a presidência?
- Era o vice-presidente.
- Mas o vice-presidente também não era ladrão?
- Também era.
- Mas porque o povo não odiava ele.
- Ele era de outro partido.
- E esse partido não roubava?
- Roubava e muito. Praticamente todos os partidos roubavam.
- O vice-presidente não ficou triste com a presidente sofrendo impeachment?
- Não, ele inclusive articulou politicamente para derrubar a presidente.
- Mas se ele não gostava dela, porque ele foi vice-presidente dela?
- Porque ele era do maior partido do país e teoricamente a presença dele enquanto vice-presidente garantia apoio do poder legislativo nas ações do presidente. Mas isso não aconteceu e o legislativo derrubou a presidente.
- O legislativo era bom.
- Não, tinha muitos corruptos, pessoas com ideias retrógradas, falsos moralistas.
- Nossa! E como essas pessoas chegavam lá se eles eram tão ruins?
- A população votava neles.
- E porque a população votava neles?
- Acho que está na hora de você ir dormir, meu neto. Já está tarde.

Não é só a política que provocará comentários perturbadores dos nossos herdeiros. Como iremos explicar que o Dunga era o técnico da seleção brasileira de futebol?
- Vô, esse Dunga era bom treinador?
- Não, meu filho, era péssimo.
- Então porque ele dirigiu o Brasil em duas Copas do Mundo?
- Foi um momento confuso, depois daquele dia em que o Brasil perdeu de 7x1 da Alemanha, resolveram chamar o Dunga de volta.
- Mas ele tinha ido bem na primeira passagem?
- Não, ele montou um time razoável, mas que foi eliminado por perder a cabeça e um jogador que só o Dunga e o Arnaldo Ribeiro, um comentarista da época, gostavam foi expulso no jogo decisivo. Então ele foi mandado embora, não fez nenhum trabalho bom em quatro anos e voltou a dirigir a seleção.
- Mas o que alegavam para ele estar lá?
- Quem quer bolo? Você quer um bolo de chocolate?

O que vamos falar para nossas futuras gerações sobre a gourmetização dos hambúrgueres?
- Vô, é verdade que na sua época o hambúrguer custava caro?
- Bem, nem sempre foi assim. O hambúrguer era uma opção de alimentação barata até uma época. Até que ficou caro.
- O que aconteceu?
- Boa pergunta. Acho que foi a ascensão da nova Classe C, as pessoas passaram a ter mais dinheiro e começaram a querer se diferenciar dos outros pelo consumo de alimentos bem elaborados. Foi uma era gourmet, em que todo alimento era gourmet. Os hambúrgueres foram os principais expoentes dessa era. Todo e qualquer restaurante, bar, boteco, enfim, todos os lugares da cidade começaram a vender hambúrguer gourmet.
- O que é gurmê?
Funcionava assim: Eles pegava o hambúrguer, colocavam
cheddar, molho barbecue, uma maionese temperada,
cebolas queimadas - ditas caramelizadas, e mais algum
ingrediente fresco, como cogumelos ou tomate cereja
- Um conceito difícil de explicar. É uma comida normal, só que bem elaborada e bonita nos pratos. As pessoas pediam também para poder tirar fotos e postar nas redes sociais.
- O que é rede social?
- Ahn... eram ambientes virtuais em que as pessoas encontravam seus amigos, buscavam informações sobre os assuntos que gostavam, discutiam ideais...
- Ah, mais ou menos como minha escola.
- Um pouco. Só que era um lugar em que as pessoas também contavam sobre sua vida, postavam vídeos, fotos.
- E como era esse lugar?
- Não era bem um lugar. Eram vários lugares, várias redes sociais. Começou com o Orkut, que era um lugar de compartilhamento de gostos em comum, seguiu com o Facebook, o Twitter, o Instagram em que as pessoas só postavam fotos de comida e de gatos...
- Sério?
- Sério. Tinha o Snapchat também, em que as pessoas gravavam vídeos de dez segundos mostrando como era a vida delas.
- E as outras pessoas se interessavam por isso?
- Sim, de certa forma sim.
- Hahahahahahaha, vovô, as pessoas na sua época eram muito estranhas!
-...

¹Note que daqui alguns anos a regra de utilização do hífen será atualizada de uma maneira que poucas pessoas entenderão.