sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Pessoas Constrangedoras, Volume 13

Pessoas que apenas repetem o que você acabou de falar

Na fauna cotidiana, existem muitas pessoas que apenas repetem o que você acabou de falar. Atitude extremamente irritante e até mesmo patética, repetir a fala de outra pessoa nada mais é do que uma estratégia de sobrevivência. Repetindo o que a pessoa diz, você gera empatia e dá confiança para o interlocutor, fazendo o acreditar que ele está no caminho certo. Com isso, você abre o caminho para seu próprio sucesso. Bem, mesmo que até Darwin possa justificar essa atitude, isso não faz com que você deixe de ser uma pessoa constrangedora.

Situação 1: Repetição pura e simples

- Então cara, eu fui lá pra chapada nesse carnaval.
- Nesse carnaval.
- Eu fui lá e comi uma massa num restaurante legal.
- Num restaurante.
- Depois dei uma volta lá pela praça.
- Pela praça.
- Pessoal estava cantando aquelas marchinhas.
- Aquelas marchinhas.
- Porra, deixa eu falar, caralho.
- Caralho.

É importante salientar que esse tipo de pessoa constrangedora repete a última palavra da sentença fazendo um sinal assertivo com a cabeça e cara de profundo pensamento.

Situação 2: Pessoa que completa o final da sua frase.

- Acredito que nós temos que criar uma es...
- Estrutura.
- Isso, para poder amplificar os negócios que realizamos no...
- No interior.
- Isso mesmo, se estruturamos nossa empresa no interior do Estado, nós vamos alcançar um...
- Outro patamar.
- Outro patamar, exatamente, e eu acredito que com a qualidade da nossa equipe, nós vamos conseguir...
- Atingir nossos objetivos.
- Não porra, nós vamos conseguir foder com a concorrência.

Essa última situação poderia ser tipificada em outro tipo de pessoa constrangedora: as pessoas que tentam adivinhar o que você está tentando falar. Algo chato, uma herança daquela didática de professores que pedem para alunos completar a frase.

- Então, acredito que nós precisamos criar uma es...
- Estufa.
- Não, uma estrutura para poder amplicar os negócios que realizamos no...
- Puteiro.
- Não, porra. No interior do Estado. Assim, iremos alcançar...
- A velocidade da luz.
- Está demitido, filho da puta.

Situação 3: Pessoa que readapta seu discurso, dizendo exatamente o que você acabou de falar só que com outras palavras

- O que nós temos que pensar agora é no material que nós vamos produzir durante os próximos meses. Temos que pensar em assuntos que chamem o interesse das pessoas, uma forma de levar a nossa mensagem ao maior número possível de pessoas. E a forma que nós temos para fazer isso é humanizando o nosso material, encontrando personagens com os quais as pessoas se identifiquem. Alguém tem uma sugestão?
- Acho que nós temos que pensar no que nós vamos fazer agora, sempre pensando em atingir um grande número de pessoas e fazendo um material bem humanizado, essa é a minha ideia.

A pessoa constrangedora ainda saí da conversa com aquele ar de que ela é que amarrou toda a situação e fez com que os sonhos se transformassem em realidade.

Situação 4: Pessoas que repetem erroneamente o que você falou, numa tentativa de colocar palavras no seu pensamento e te fazer mudar de opinião.

- Olha, eu acho que isso aqui não está certo não.
- Está certo né.
- Não, está completamente errado. O Botafogo nunca ganhou a Libertadores.
- Foi campeão né.
- Não, nunca ganhou. E esse não é um pretexto razoável para pregar a extinção dos judeus. Nenhum povo merece morrer.
- Judeus merecem morrer né.
- Não porra, não é isso o que eu estou falando. Estou falando de direitos para todos os povos.
- Eles não tem que ter direitos né.
- Não, eles tem que ter sim. Você está querendo colocar palavras na minha boca.
- Você concorda comigo né.
- Não porra, você é um doente! Acho que você não pode ter nenhuma espécie de convívio social.
- Isso mesmo, acabar com essa espécie.
- Não!
- É você que está falando isso, só estou concordando!

Eu vejo pessoas constrangedoras. O tempo todo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Tarantino Way of Life

Quentin Tarantino é um cineastra que divide opiniões. Novamente, isso não chega a ser nenhum mérito dele, uma vez que neste mundo contemporâneo até beber água é capaz de dividir opiniões, provocar discussões e gerar polêmica. Mas, há quem ame Tarantino e o considere um gênio do cinema e há quem o considere um retardado apelativo que só consegue chamar a atenção pelo sangue derramado.
Em sua autocinebiografia, Tarantino iria explodir seus miolos na frente das câmeras

As fórmulas de seus filmes não chegam a ser nenhuma novidade. Há uma longa e sinuosa história de poder, muito submundo e sofrimento, que culmina em um final catártico, em que todos os pecados do mundo são lavados por sangue, muito sangue e vísceras. Fórmula que tem seu pé lá em taxi Driver e que funcionou muito bem em Bastardos Inglórios, mas encheu o saco em Django Livre.

O que não dá para negar é que geralmente os seus filmes nos deixam empolgados. Sentimos o gosto do sangue na boca e um prazer primitivo em escutar o barulho de corpos sendo dilacerados como forma de vingança pela humilhação. A justiça com as próprias mãos é realmente fascinante.

Em um ano como esse, em que os filmes que concorreram ao Oscar não chegaram a ser unanimidade e nem a provocar comoção generalizada, acredito que muitos deles seriam mais interessantes se fossem dirigidos por Quentin Tarantino.

(Atenção: o texto abaixo pode conter spoilers. Caso vocês não saibam, um spoiler é quando você conta o final de um filme ou um elemento decisivo para o desenvolvimento de uma intricada trama televisiva a qual você teve acesso por meio de informações privilegiadas)

Assim seria a capa do disco
Whiplash é uma fábula de adolescente punheteiro que sonha em impressionar o mundo tocando bateria até as suas mãos sangrarem, sendo que no máximo, suas mãos sangravam de tanta assistir o redtube. No final consagrador, o garotão mostra ao seu professor que tem talento fazendo um solo modorrento de jazz, deixando todos impressionados. Se o filme fosse dirigido por Tarantino, o baterista entraria no palco com suas baquetas e furaria os olhos do professor com elas, furaria sua jugular e então mataria toda a banda.

Selma aborda as manifestações sociais realizadas no Alabama em 1965. Com Tarantino no comando, os negros matariam e degolariam integrantes da Ku Klux Klan e Martin Luther King viraria um assassino em série.

A Teoria de Tudo é a cinebiografia de Stephen Hawking, mostrando todo o seu declínio físico até o momento em que ele passa a se comunicar apenas com os olhos. Tarantino daria um jeito de construir um exoesqueleto que o faria se vingar de todos que praticaram bullying contra ele.

O Jogo da Imitação é um filme sobre a guerra contra os nazistas e vocês sabem como é que os nazistas terminam nos filmes de Tarantino. Uma vez que os códigos secretos são decifrados, teríamos muitos escalpelamentos e Hitler sendo morto dentro de um cinema em chamas enquanto todas as suas mensagens cifradas homossexuais são exibidas no telão.

O Grande Hotel Budapeste, como é de se imaginar, se passa em um hotel no leste europeu. O que isso significa? Um dono sádico, que tortura seus hóspedes. Globos oculares perfurados, sangramentos e um inferno danado. Ao invés de Bill Murray, teríamos Christoph Waltz em um papel secundário brilhante.

Sniper Americano: Muitos tiros, muitas gangues iraquianas e muito sangue. Aposto que seria um filme bem melhor com Tarantino no comando.

Boyhood foi filmado ao longo de 12 anos pelo seu paciente diretor. Apesar desse trabalho de fôlego, muitas pessoas criticaram a película por não contar nada demais. São 12 anos na vida de um garoto, mas 12 anos muito chatos e entediantes, dizem os críticos (como se qualquer um tivesse vivido um início de adolescência sensacional). Pois, Tarantino certamente colocaria o garoto dentro de uma gangue em que as pessoas são conhecidas pelo nome de cores e no final todos acabam se matando em uma cena absurda.

Birdman já é pirado demais. No máximo, Tarantino iria colocar algumas cenas de eletrochoques nos preparativos para a peça.

Bônus: 50 tons de cinza

Apesar de alguns elogios das fangirls, em geral o público reclamou da falta de erotismo no filme. Não sei se Tarantino deixaria o filme erótico, mas a parte do sadismo fetichista do Mr. Grey seria bem mais realista e dolorida. Pobre menininha virgem.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Onipresença do Bolsa Família

Segunda-feira de manhã, primeiro dia útil após o fim do horário de verão. Vejo as pessoas mais dispostas por não precisarem acordar com o dia ainda escuro para ir ao trabalho. Estou na minha academia, prestes a começar um dessas séries de exercícios. Um desses Summer Eletro Hits da vida embala o ritmo do exercício e a televisão está ligada na Globo, passando o Bom Dia Brasil. O relógio marca 7h30.

Nesse horário, a academia não costuma a ser muito movimentada. Não é como ir às 19h e ter que batalhar por um espaço nos aparelhos. Não é como ir de tarde e encontrar aqueles ratos de academia discutindo supinos e suplementos. Às 7h30 da manhã a academia tem apenas três pessoas: eu, um senhor e uma senhora fazendo exercícios honestos.

Pois, justamente antes de começar um desses exercícios o senhor comentou sobre uma matéria que passou no Bom Dia MT. A reportagem informava que a Defesa Civil iria interditar o viaduto da UFMT nos dias de chuva forte. Devido a erros de projeto, toda vez que chove o viaduto alaga. Ele comentou que aquilo era uma brincadeira, só no Brasil mesmo. Argumentei que a Defesa Civil não poderia fazer nada nesse caso, que eles só podem evitar o desastre. Evitar que pessoas fiquem presas no meio do alagamento e morram por lá.

Foi nesse momento em que a senhora entrou na conversa e eu aproveitei para fazer o exercício. Terminada a série repetida de dez movimentos, ela já estava falando “mas isso é que dá, nesse país, com esse monte de bolsas, ninguém quer trabalhar”. “É, tendo o dinheirinho pra cachaça, ninguém quer saber de nada”, completou um homem. Em poucos segundos, uma reclamação sobre uma obra malfeita em Cuiabá foi direcionada para um programa de assistência social.

O programa Bolsa Família é a grande estrela do governo PT, iniciado em 2003. Um governo que apresenta uma série de falhas, vários pontos em que pode ser criticado. Mas volta e meia, o principal alvo das críticas é o programa assistencialista, propagandeado como o responsável por tirar milhares de pessoas da linha de pobreza.

Aliás, no mundo atual, toda e qualquer discussão sobre os problemas do Brasil vai terminar no Bolsa Família. Escândalo da Petrobrás “isso que dá, com esse bolsa esmola as pessoas não querem trabalhar, querem apenas roubar”. Estupros: “isso que dá, o que esperar de um país com essa imoralidade do Bolsa Família”. Fim do Globo Esporte: “também, num país em que se dá dinheiro para comprar votos, travestido de programa social”.

Há no pensamento popular, uma relação de causa e consequência entre o Bolsa Família e os problemas do país. As merdas acontecem por culpa do Bolsa Família. Se torcedores se matam na porrada em um estádio de futebol, muito provavelmente isso aconteceu porque milhares de pessoas passaram a fazer duas refeições por dia e agora, bem nutridos, podem dar pauladas alheias. Se eles ainda passassem fome, iam ter outras preocupações na vida, mas ao invés de ensinar a pescar, o governo deu o peixe. Com dinheiro pra cachaça, ninguém trabalha e engenheiros podem construir viadutos péssimos que drenaram recursos públicos e não a água que cai embaixo dele.

Entenderam? O governo promove um programa de transferência de renda. Isso faz com que essas pessoas não trabalhem. A ausência de trabalho dessas pessoas desestimula outras. Assim sendo, engenheiros projetam um viaduto de maneira equivocada. E tudo isso é misturado em meio a uma sessão de exercícios numa academia em plena segunda-feira de manhã.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Oscar 2015

É domingo que a grande festa popular de Hollywood ganhará as televisões brasileiras. A cerimônia de entrega do Oscar 2015 irá agraciar os melhores e as melhores em tudo no mundo do cinema norte-americano. Melhores filmes, atores, atrizes, diretores, roteiristas, sonoplastas, maquiadores, figurinistas e outros quesitos técnicos que ninguém com um mínimo de vida social consegue definir se é bom ou se é ruim. Nesse post, o CH3 irá falar sobre os filmes que concorrem ao prêmio e os favoritos nas outras categorias principais.

Whiplash: O famoso site de rock/metal brasileiro, ganha as telas em uma interpretação comovente. O filme conta a história do fundador do site, que sonhava em ser baterista de jazz. Seu sonho foi interrompido por um professor carrasco que humilhava os alunos. Desiludido, ele se vendeu ao lado negro do rock e criou um site fanboy. Um filme bom para quem gosta de ver humilhações e bullying, mas nesse caso você pode dar a desculpa de que está curtindo jazz.

Boyhood: Um diretor resolve filmar a história de um menino durante vinte anos. Começa a filmá-lo quando ele era criança, até chegar faculdade. Parece que nada demais acontece na vida do garoto, mas talvez aí fosse querer demais.

Birdman: O homem pássaro foi um dos mais bizarros personagens criados pelos estúdios Hanna-Barbera (só não tão ruim quando o Space Ghost, que anos mais tarde ganhou um talk show bizarro no Cartoon Network). Um herói que não fazia nada demais e que foi materializado por Michael Keaton em uma atuação exuberante. Um dos filmes mais doidos do ano.

O Grande Hotel Budapeste: Wes Anderson filma suas manias caricatas mais uma vez, só que dessa vez ele está concorrendo ao Oscar. Para variar, Bill Murray está no filme.

Convenhamos que o cartaz também é
pavoroso. Esse cara com essa cara de cu
e a sensação de que esse cartaz já foi
utilizado em uns 1823912 filmes antes
O Jogo da Imitação: Um drama sobre um cara muito estranho que era um gênio da matemática e acabou com a guerra decifrando os códigos nazistas. Tem gente que acha que é bom, tem gente que acha que é ruim. Mas, com certeza, esse é um dos piores nomes de filme da história. Eu só consigo imaginar um filme sobre um mímico com esse nome.

Sniper Americano: Um filme que mostra como os soldados americanos sofrem em matar pessoas em territórios estrangeiros. Mas, fazer o que, a guerra é assim.

A Teoria de Tudo: Um filme que mostra o sofrimento daquele físico fodão que escreve best-sellers mas que o nome me fugiu agora. Aquele que sofre de esclerose e que se comunica com os outros apenas com o movimento dos olhos. Então, é isso.

Selma: Selma é Oprah Winfrey, famosa apresentadora de programas de auditório nos Estados Unidos. Mas, ninguém entendeu direito as razões que levaram esse filme a concorrer ao Oscar. É daqueles que daqui uns 15 anos as pessoas vão olhar e pensar "isso aqui concorreu ao Oscar?", assim como acontece atualmente com Apollo 13.

Melhor ator: Um cara que passou por uma enorme transformação: perdeu peso, ganhou peso, ficou gago, mudou o nariz, amputou um braço. Aquele que preencher esse requisito, leva o Oscar. Apostamos no cara que interpretou o físico que eu ainda não me lembrei o nome.

Melhor atriz: Mulher bonita fazendo papel de mulher feia. Sempre dá isso. Pode não ser uma personagem extremamente feia, mas se tiver um pouquinho desajeitada, já dá.

Ator e atriz coadjuvante: O CH3 é da opinião de que se o cara concorre ao prêmio de melhor ator coadjuvante, isso significa que ele não foi tão bom coadjuvante assim. É um dilema da vida.

Melhor diretor: Rinchard Linklater filmou um garoto durante cinquenta anos e fez uma história qualquer sobre isso. Não dá pra ele não ganhar essa porra.

Melhor roteiro: Não tenho opinião formada.



Melhor maquiagem, figurino, cenário, montagem e etc: Filme de época espalhafatoso.

Melhores efeitos em tudo: Transformers 819.

Melhor fotografia: Grande Hotel Budapeste, prêmio de consolação.

Melhor canção: Uma bem ruim de desenho da Disney.

Melhor filme estrangeiro: Nos último ano foi um filme poético, no outro um drama pesado. Aposto que nesse ano eles vão premiar um filme cabeça e cheio de metáforas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Fobias Infantis

O CH3 já realizou um histórico podcast sobre fobias, os medos insanos que as pessoas têm. Um mundo louco e perverso, no qual cidadãos de bem desenvolvem medo de serem observados por patos, de lugares amplos ou de lugares fechados, ou das duas coisas ao mesmo tempo e muito mais, num raro caso de fobia de tudo.

No entanto, não abordamos as fobias infantis. Bem, no caso não significa o medo de criança - conhecido como pedofobia - mas o medo que crianças têm. Elas têm muitos medos, vários deles completamente irracionais e inexplicáveis numa visão superficial.

Um medo tradicional das crianças é o medo de palhaços. Essas agradáveis figuras de rosto pintado e gestos extravagantes deveriam divertir os pequenos, mas não é isso que acontece geralmente. Imagine que você é uma criança, que conhece pouco da vida e que reconhece como seres humanos pessoas normais, que não tem o rosto pintado e usam roupas discretas. Imagine encontrar um cara com o rosto branco, peruca colorida, boca e nariz vermelhos, adornados por uma roupa espalhafatosa. Só pode ser um extraterrestre, um monstro, não dá para agir normalmente ao ver um bicho desses. Isso explicaria também porque muitas crianças choram quando vão tirar fotos com o Papai Noel, a lógica é a mesma.
O medo de papais noéis também pode ser explicado pelo fato de muitos estabelecimentos insistirem em utilizar papais noéis completamente assustadores, como esse daí da foto. Com certeza esse cara é do tipo que se masturba no porta-mala

(Há também outra explicação para o medo de palhaços entre as crianças. Havia um filme com palhaços assaltantes que passava na Sessão da Tarde. A melhor forma de traumatizar crianças. Culpa dos editores da Globo que só olham a capa e pensam “filme com palhaço, as crianças vão adorar” e traumatizam uma geração. A mesma coisa que levou muitas pessoas a terem fobia de excursões infantis, graças ao filme “Enchente: quem salvará nossos filhos”).

O medo do escuro também é tradicional. Imagine, as coisas são feitas no claro. Mas, por alguma razão inexplicável em um determinado período do dia as luzes são desligadas e tudo fica escuro. Isso não é normal. Talvez você sinta vergonha, mas saiba que você não era o único: boa parte das crianças ficava escondida embaixo do lençol, na expectativa de que isso as protegesse dos perigos da escuridão. Sim, por alguma razão, o rosto poderia ficar de fora. (Essa razão deve ser fisiológica: a respiração).

Agora, falo de um medo meu que eu sempre me lembro nessa época de carnaval. Eu tinha absoluto pavor do mestre sala e da porta bandeira. Não sei o que é, mas lembro que eu era criança e nos intervalos da Rede Manchete eram exibidos os sambas enredos, sempre com o mestre sala e a porta bandeira rodopiando para lá e para cá e eu não gostava de ver. Acho que as fantasias espalhafatosas me assustavam. Não era normal ver aqueles pavões humanos ao som de um samba indecifrável.

Olha essa cara de quem esconde cadáveres no porão
Eu também sentia um pavor de perucas. Sabe aquelas perucas bizarras, brancas, que sempre aparecem em representações de juízes, ou em filmes históricos? Achava terrível. Detestava ver filmes da época do Mozart por conta das perucas. Até hoje, acho Amadeus, filme ganhador de Oscar, péssimo. Muito provavelmente por conta das perucas.

Não vejo uma explicação racional para isso. Os psicólogos talvez encontrassem alguma coisa, Freud diria que meu desejo reprimido de comer minha própria mãe fez com que eu desenvolvesse essa fobia infantil, assim como o palhaço assusta muita gente. Espíritas diriam que na minha vida passada eu tive algum problema com pessoas que usavam perucas brancas, mas eu acho difícil. Eu não era o único com esse medo.

Existia uma comunidade no finado Orkut que comprovava isso: ela reunia pessoas com medo do velho da Quacker. Qual o motivo para esse medo, que não a peruca branca que esse velho maldito usava?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Carnavalesco Sincero

Se há alguma coisa que o desfile das escolas de samba é, ele é uma enorme embromação. Durante oito horas seguidas, que invadem a madrugada, diversos grêmios recreativos passam pela Sapucaí sambando enredos surreais, que só uma pessoa desconectada da realidade conseguiria perceber um sentido.
A águia da Portela é a mesma há 47 anos. Mas, todo ano dizem que ela está mais moderna e tecnológica.

Sério, acho que já falei sobre isso, mas todo ano eu fico revoltado. Escola após escola nós vemos sambas com rimas que fariam minha professora de quinta série reprovar um aluno, conexões variadas que sempre remetem a Grécia, Egito, Escravos, Interior do Brasil, Nordeste, Orixás, auto referências e merchan livre e indiscriminado. Não dá para ver sentido nisso.

Só há uma pessoa que consegue concatenar toda essa suruba de significados: o carnavalesco. Afinal, ele é que é o criador, o mantenedor, o responsável por juntar todas essas informações e vesti-las de um significado uniforme. Toda aquela confusão de cores, plumas e penas surgiu da cabeça do carnavalesco. Então, por mais que nem ele consiga entender o que ele criou, pelo menos ele tem que fingir que entende.

Acredito que nem ele entenda. Mas, no carnaval, assim como na vida, não há espaço para a sinceridade. O carnavalesco sincero morreria de fome, porque ele não conseguiria justificar todo o investimento realizado para montar aquela porcaria.

Esse ano, essa fantasia representa a
gourmetização que atinge a culinária
tradicional. Ano passado ela represen-
tava a ostentação que os escravos ja-
mais conseguiram alcançar
O Salgueiro passando com seu enredo sobre a culinária mineira e lá está uma ala cheia de pessoas com plumas negras sambando. A ala se chama “Explosão de Sabor” e a explicação é de que ela representa as sensações paladares proporcionadas pela culinária mineira. Bem, você olha lá e segue vendo pessoas com plumas negras dançando. Qual é a relação entre o feijão tropeiro e pessoas com plumas negras dançando?

Nenhuma, é claro. Mas pense, o desfile tem oito carros alegóricos, noventa alas, quatro mil integrantes, centenas de fantasias e como é que você vai bolar 180 fantasias relacionadas a comida mineira? É impossível. Então, o que importa é enrolar e tentar fazer com que as pessoas acreditem que tudo isso faz sentido. Que há um enorme fio cósmico que amarra o sentido de tudo.

O carnavalesco sincero, perguntado sobre aquela ala, diria que são apenas centenas de pessoas com plumas negras dançando. Que ele achou que ficaria bonito colocar uma ala cheia de pessoas com plumas negras para dar uma quebra no colorido geral e para justificar isso, resolveu dizer que elas representavam o feijão.

E essa fantasia aqui? “Na verdade é igual a do ano passado. Só que ano passado nos a usamos no contexto de Cleópatra na Senzala, e esse ano está como Estrela Guia da Sapucaí”. Aquele carro alegórico com folhagens? “Nós já usamos há cinco anos, assim como aquela passista nua representando a deusa vênus. Ninguém percebe, mas 80% das fantasias são absolutamente iguais as que nós usamos no ano passado, a crise financeira está pegando”.

Com sua sinceridade, o carnavalesco revelaria toda essa farsa e o negócio iria ruir. Acabaria com o sistema. Se fosse nos tempos dos bicheiros, provavelmente ele seria morto. Hoje em dia, com sorte, ele ficaria apenas desempregado. Tudo isso porque o sistema é foda parceiro. Ainda vai morrer muita gente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Noite de 50 tons


A noite desta quinta-feira (12.02) ficará para sempre no imaginário popular do povo brasileiro. Estreou nas salas de cinema do nosso país a adaptação cinematográfica para o best-seller literário 50 tons de cinza. Estreia aguardada por mulheres das mais diversas idades, que queriam conferir com os próprios olhos o corpo sarado de Christian Gray, o quarto vermelho da dor e todos os apetrechos de tortura anteriormente apresentados apenas em palavras.

O CH3 não estava lá e a partir de agora conta o que não viu.

A história do livro, e consequentemente do filme, todos vocês já sabem. Uma menina virgem, inocente e dócil conhece um multimilionário e se entrega ao amor carnal. O Sr. Cinza a leva para passear de helicóptero, mergulhar nas cataratas do Niágara e o caralho, mas guarda um segredo: ele é sadomasoquista. Só consegue gozar se der uns tapinhas na mulher, amarrar os olhos dela, dar uns beliscões, enfiar um espanador no cu da parceira e etc. A mulher, protagonista do filme que eu não me lembro o nome e não estou afim de procurar no Google, talvez não tenha gostado, mas a vida tem dessas.

Ao que tudo indica, a continuação da trilogia softporn vai parar no cinema também. Qualquer porcaria, desde que tenha lucro garantido, vai parar no cinema e fica por lá durante alguns anos. No fim da história, o Dr. Cinza vai ficando mais romântico, para de dar umas caceteadas na mulher e eles vivem felizes para sempre, só no papai e mamãe.

Todas as pessoas minimamente sérias que eu conheço e que chegaram a ler o livro (sei que pode parecer impossível uma pessoa minimamente séria ler esse livro, mas eu já disse, a vida tem dessas) afirma que o texto é uma porcaria. Subliteratura que só pode agradar quem não tem o costume de ler nem romance de banca de jornal. O que vale ali é a putaria, que nem é tanta assim, mas em um mundo em que as mulheres são tão reprimidas sexualmente, só a possibilidade de ler sobre um cara bonitão e rico que gosta de ir um pouco além na cama já é motivo de prazer. Não se enganem: o que move o livro não é o exercício intelectual. Apenas o exercício manual, mesmo, se é que vocês me entendem.

O filme, que como já disse, o CH3 não viu e jamais irá ver, também tende a ser uma merda inominável. Frustra quem achava que ia ver uns peitinhos e etc (ao que tudo indica, nem um peitinho é mostrado durante o filme) e frustra qualquer pessoa com um mínimo de capacidade intelectual. Só vai agradar, como eu disse, quem nunca viu nem uma porra de um best seller e está no cinema apenas pelo exercício manual.

Bem, isso não impediu que os shopping centers, onde ficam localizados todos os cinemas do Brasil, amanhecessem lotados ontem, desde as incríveis sessões do meio dia. Várias mulheres fizeram um horário de almoço mais prolongado, dizendo que estavam esperando a entrega de um ar condicionado, apenas para ir no cinema conferir 50 tons. A noite, quem estava lá, diz que os shoppings estavam lotados de mulheres sozinhas, em duplas, trios, grupos, bondes da siririca loucas por C.Gray.

Mas no final, o que precisa ser dito é que o filme é, antes de qualquer coisa, um retrato da importância do dinheiro em nossa sociedade. Pense num cara que humilha a mulher, obriga ela a vestir determinadas roupas, bate e tudo mais. Qual é a diferença entre um sex symbol imaginário mundial e um cara indiciado pela lei Maria da Penha? Alguns bilhões de dólares e apenas isso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Drama da Especificidade

Uma das maiores graças dos Jogos Olímpicos e demais competições poliesportivas está em assistir aqueles esportes baseados na precisão e sincronia de movimentos e que são avaliados subjetivamente por um corpo de jurados especializados. Aliás, a graça não está nos esportes, que são insuportáveis e dedicados apenas as mulheres. Você ali, querendo ver um basquete, um lançamento de dardos que seja, e a mulher querendo ver aquela mulherada dançando e jogando laços para cima ao som de uma música terrível. E o nado sincronizado? O que pode ser mais chato do que aquelas meninas insossas com prendedores de cabelo no nariz se vestindo como se fossem elfas?
O movimento foi impreciso
Mas, veja o caso do salto ornamental. É um esporte tecnicamente rigoroso. O cidadão sobe em uma plataforma ou em um trampolim e salta de três ou dez metros de altura. Durante a trajetória, ele faz uma série de manobras corporais, que incluem cambalhotas, mortais, giros duplos, triplos e quádruplos, até uma queda triunfal na piscina. (Vez por outra, um cara erra a distância e soca a cabeça na borda da piscina, gerando muito sangue, traumatismo craniano e sequelas para toda a vida. Em alguns casos, morte mesmo).

Um esporte para especialistas - sempre eles. E que nós, reles leigos não entendemos nada. Justamente por isso, sempre que alguém se arrisca nesse mergulho acrobático, o narrador fica impressionado e comenta a plasticidade dos movimentos, como aquele cara mandou bem em sua performance, que ele merece uma nota dez e que certamente será medalha de ouro e motivo de orgulho nacional. Aí entra o comentarista especialista. Alguém que já foi técnico, praticante e exímio observador do esporte.

Ele simplesmente desanca o competidor.

Começa a descrever como seus movimentos foram errados, não manteve o corpo numa angulação correta, errou o tempo da segunda cambalhota e o mergulho, ah o mergulho, foi completamente errado. Uma apresentação pífia e ele deveria logo desistir do resto da competição e voltar para casa, envergonhado, buscando outra profissão porque aquilo não é para ele. Logo começa o replay, você não consegue ver todos esses erros mas acaba concordando e os jurados concordam também. Dão um 5,5 pro cara que faz cara de lamentação.

Um a um, os competidores são elogiados pelo narrador e humilhados pelo comentarista. O mesmo acontece na ginástica, no pífio nado sincronizado. Quando um narrador enxerga um erro e fala “mandou mal” o comentarista corrige que foi uma apresentação perfeita e que teve apenas essa pequena falha no final, mas que vai descontar no máximo três décimos da pontuação total. Favorito ao ouro.

Imagine o Rodrigo Pimentel, vendo toda aquela
incompetência para matar bandidos no morro
Esses esportes são para especialistas. E a vida de um especialista também não é fácil. Sim, no último post falamos da dificuldade de sair da sua zona de conforto específico para encarar as generalidades do mundo, mas viver dentro da bolha também não é fácil.

Especialistas se tornam intolerantes. O especialista em abrir vidros de palmito não tolera que outras pessoas falhem nesse objetivo, porque para ele é tudo muito simples, um conhecimento tão óbvio que quem não consegue no mínimo foi criado a base de fezes equinas.

Assim agem todos esses conhecedores específicos. Seja o especialista em rebocar paredes e passar cantadas em mulheres banguelas, o especialista em fazer pratos com banana verde, ou nas misteriosas forças que regem a movimentação dos corpos celestes.

Esse é o drama do especialista. Ele julga a capacidade das pessoas com base em seus conhecimentos. Isso também não é bom, provoca câncer e corrimento nasal.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Drama da Generalidade

O mundo é composto por uma série de pessoas com conhecimentos específicos. Delimitamos áreas de conhecimento para estudarmos e dentro dessas áreas existem outras especialidades, que se dividem em outros e em outros, até o fim dos tempos. Temos o especialista em crustáceos, o especialista em testículos bovinos, na música produzida em Viena na segunda metade do século 17 e por aí vai.

É uma grande felicidade quando a pessoa consegue se especializar e dominar um assunto que ela gosta, mas nem sempre isso é possível. O mundo não vê muita utilidade em alguém que sabe tudo sobre centromédios do Bangu na década de 40 ou um especialista em discos de rock psicodélico lançados na Inglaterra em 1967 e 1968. Ou em um especialista em juntar palavras desconexas tentando criar um sentido para elas, como é o meu caso.

Trabalho de um não especialista
Acredito que boa parte das pessoas nasça, cresça, se reproduza e morra sem descobrir seu talento nato e específico. Mesmo assim, é provável que essas pessoas se dediquem a alguma especificidade durante toda a sua vida e que sofra ou não dê a mínima para essa questão. É confortável viver dentro da sua pequena bolha de conhecimento.

O problema é quando precisamos romper essa bolha e explorar um novo mundo. Não é uma questão de abraçar o mundo e tentar palpitar em tudo o que existe. O problema é quando nos deparamos com coisas simples, que todos nós deveríamos saber fazer, mas que não temos a menor ideia sobre como proceder.

Cito um exemplo besta: abrir uma garrafa de vinho. Pode não parecer, mas retirar a rolha daquele gargalo é uma tarefa complexa, digna de especialistas, apesar de sua simplicidade. Na teoria, basta encaixar o saca-rolha na referida, rodar, e puxar que pronto: o vinho poderá ser servido. Mas, na prática não é isso que acontece. A rolha não irá sair, você tentará agir com naturalidade, dará as mais diversas justificativas, culpará o saca-rolha, dirá que fez o encaixe errado, que esse vinho está duro. Destruíra a rolha enquanto tenta segurar as lágrimas de vergonha pela sua incapacidade.

No caso dos homens isso é um problema. Não quero aqui vitimizar o gênero, abrir espaço para uma discussão sobre o papel social cruel que também é imposto às mulheres, mas geralmente se espera que o homem seja um grande faz tudo braçal doméstico. Trocar lâmpadas, chuveiros, desentupir pias, abrir vidros de palmito. Qualquer homem deveria saber fazer isso, mas infelizmente não nos ensinaram na escola, nem na escola da vida. Só resta arrumar desculpas, tentar passar o tempo esperando que a situação se resolva sozinha, igual quando o carro pifa e abrimos a tampa do motor apenas para olhar toda aquela geringonça e fingir que estamos testando alguma coisa.

Esses dias eu estava no shopping e enquanto esperava o meu almoço olhei para o Bob's da praça de alimentação. Um atendente tentava trocar um daqueles painéis com as fotos dos sanduíches, que devem ter passado por algum reajuste de preço. Sim, aqueles painéis não surgiram lá por geração espontânea, alguém precisou afixá-los. Só que quando é preciso mudá-lo, não há dentro da empresa um gerente júnior de troca de painéis com fotos do sanduíche. Um cidadão normal é que precisa fazer o trabalho.

Esses painéis consistem numa moldura com lâmpadas florescentes dentro. O painel nada mais é do que uma fotografia protegida por um pedaço de acrílico. Essa junção de foto e acrílico precisa ser precisamente encaixada na moldura. Parece simples, mas não é nem um pouco. O funcionário ficou o tempo inteiro tentando realizar a troca, o papel caía no chão, depois o acrílico, um lado encaixava e o outro não. Ele tentava manter a calma dos especialistas, como se fosse um, mas era nítido que ele não suportaria olhar nos olhos de ninguém e mostrar que era incapaz de fazer aquilo.

Mas nem precisava disso. Ninguém ali seria capaz.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O Rabo da Lagartixa

Muitos animais provocam verdadeira repulsa e pavor no ser humano. Geralmente são pequenos animais, que se fossem friamente analisados, não deveriam representar nenhuma preocupação. Muita gente tem medo de barata e quase ninguém tem medo de hipopótamos. Pare para pensar: racionalmente, o medo deveria ser invertido.

As baratas podem ser facilmente mortas com um chinelo, enquanto que um hipopótamo não. Você poderá se cansar de dar chineladas nele, que isso não irá nem provocar um hematoma. É provável que esse monstro resista a tiros de escopeta e não se engane: apesar de sua aparência amigável, o hipopótamo seria capaz de te matar sem o menor esforço. Mas ninguém tem medo nele.

O máximo que uma barata conseguiria fazer é voar de maneira frenética na sua frente. Suas ações parecem completamente inconsequentes, ela se move de maneira confusa e desordenada e seu plano de voo não obedece a menor lógica. O ser humano tem pavor de coisas que quebrem a lógica mundana.

Cobras também provocam pânico, o que pode ser explicado pelo fato de muitas delas serem venenosas, mortíferas e se moverem de maneira repugnante. Ratos: pequenos e assustadores. E os sapos? Provocam pavor intenso e calafrios. Um sapo não pode fazer nada com você, além de ficar parado no seu caminho e te encarando. Sapos são afeitos a jogos psicológicos e são capazes de te destruir mentalmente, olhando nos seus olhos. Mas fora isso, ele não pode fazer mais nada com você.

Entre estes pequenos animais assustadores, um dos casos mais curiosos é o da lagartixa. Um pequeno réptil que habita o lar de muitas famílias brasileiras. Completamente inofensiva, ela ainda come vários tipos de inseto, o que deveria transformá-la em uma aliada doméstica. Mas isso não acontece. Lagartixas são assustadoras para boa parcela da sociedade.

Digo que eu entendo este pavor. Por trás da aparência inofensiva, as lagartixas são verdadeiramente demoníacas. Além de andar por paredes, as lagartixas conseguem andar no teto e de cabeça para baixo. A lei da gravidade é aplicada em todos os animais, exceto ás lagartixas. Até mesmos aqueles que já estranhamente sobrem paredes, como formigas e as próprias baratas, despencariam do teto se tentassem andar de cabeça para baixo. Só um animal possuído pelo demônio conseguiria andar pelo teto. Só a menina do exorcista. E as lagartixas.

Fora esse detalhe, há outro aspecto macabro nesses répteis. Eles são capazes de perder o rabo e sobreviver. Tente amputar um membro de qualquer animal e ele irá urrar de dor, sangrar até a morte de maneira agonizante. A lagartixa não. Ela perde o rabo e segue sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido, como se fosse apenas mais um dia normal nesse nosso mundão de deus.

E o seu rabo também.
Infelizmente, não encontrei nenhuma foto do rabo da lagartixa. Informações dão conta de que nenhuma pessoa que já tenha presenciado o momento tenha encontrado forças para fotografar este momento assombroso

O que é verdadeiramente apavorante é o fato de que, mesmo longe do seu corpo de origem, o rabo é capaz de reagir a estímulos. Cutuque um rabo de lagartixa abandonado e ele irá se mexer como uma minhoca com calafrios. As formigas tentarão pegar este rabo abandonado e ele irá se retorcer, provocando uma cena dantesca e horripilante. Isso não é uma coisa de um animal de bem.

O rabo abandonado é uma estratégia de defesa pessoal (ou lagartixal). Justamente por ser pequena e inofensiva, a lagartixa abandona uma parte de seu corpo e essa parte – sabe-se lá como – continua a se mexer, provocando horror no agressor que resolve não mexer com esse animal para evitar piores consequências metafísicas.

Isso explicaria porque elas comem baratas. Só o capeta faria isso mesmo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sorte e Azar em dobro

Um jovem de 17 anos e morador do interior de São Paulo é provavelmente o grande personagem deste ano. Por mais que o ano ainda esteja tecnicamente em seu começo que muita coisa ainda possa acontecer pela frente, dificilmente alguém irá repetir sua façanha. No período de uma semana, este cidadão foi atingido por dois raios. E sobreviveu. Dois Raios. Uma Semana. Sobreviveu.
Jovem é atingido por dois raios ao mesmo tempo. Seu nome é Vinícius Gressana

A história deste highlander brasileiro já suficientemente interessante. Mas, é possível pensar em uma série de desdobramentos que a torna ainda mais fascinante. Paulo Pereira, que é como ele se chama, reúne um caso incrível de sorte e azar em dobro.

A chance de qualquer cidadão brasileiro ser atingido por um raio é relativamente baixa, de uma em um milhão. Não sei se isso significa que a cada um milhão de pessoas, uma será atingida por um raio, ou se a cada um milhão de raios, um irá atingir uma pessoa. Uma chance baixa, mas bem superior a possibilidade de ganhar na Mega Sena, que é de uma em 50 milhões. Pensando assim, diria até que é grande a chance de você ser atingido por um raio. Diria até que é uma certeza que isso vá acontecer com você um dia.

Mas, as chances são baixas. Pense que você não deve conhecer ninguém que sobreviveu a um raio, muito provavelmente porque ele morreu. E aí é que está: mais difícil do que ser atingido por um raio, é sobreviver a descarga elétrica provocada por ele. Um choque tão forte que pode fritar todos os seus órgãos internos, tostar sua pele, acelerar seu coração até que ele exploda, provocando hemorragias e uma morte horrível.

Isso é o que torna a história de Paulo Pereira sensacional. Ser atingido por um raio é um azar tremendo. Sobreviver ao raio pode ser considerado uma sorte. Ser atingido por dois raios no período de uma semana é um azar improvável, mas sobreviver aos dois pode ser considerado um milagre.

Paulo habita uma zona cinzenta do espectro humano. Não é possível olhar para ele e garantir que ali esta um sortudo ou que ali está um azarado. Ele é os dois ao mesmo tempo. Um cara capaz de perder o bilhete premiado da Mega Sena por duas vezes. Um cara que você não sabe se é bom ou ruim andar do lado dele. O cara do ano.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O País do Football

Entre os eventos esportivos do planeta, o SuperBowl é provavelmente aquele em que o esporte menos interessa. A final do campeonato norte-americano de Futebol Americano está entre as maiores audiências mundiais da televisão e é uma verdadeira máquina de negócios. As propagandas espetaculares, os shows no intervalo, tudo transforma o evento em um espetáculo. O jogo mesmo é um detalhe.

Até pouco tempo atrás, o futebol americano estava devidamente criminalizado no Brasil. Os poucos fãs do esporte poderiam ser devidamente ridicularizados. Poderíamos persegui-los nas ruas e queimá-los em praça pública que ninguém se incomodaria. Eram tão poucos, que ninguém notaria suas ausências. E poderíamos dizer que eles não fariam falta nenhuma.
Vale agarrão no saco?
 Porque nada é mais ridículo do que futebol americano. Tudo bem, eu estou exagerando. Temos aí o beisebol, a corrida do queijo, as baladas hard rock, o Congresso Nacional e outras coisas que podem ser visualmente mais ridículas. Mas convenhamos, um esporte que se chama Football e não usa nem o pé e nem bolas não pode ser coisa boa.

Se você acompanhar uma partida, irá perceber o quão enfadonho esse jogo é. São 22 caras em campo utilizando uniformes ridículos. Dos 11 jogadores do time, apenas um pensa, o quarterback. Ele é o responsável por armar todas as jogadas de ataque da equipe, enquanto que os outros dez apenas correm de um lado para o outro e dão trombadas aleatórias e violentas. Vez por outra o juiz vê uma infração, acredito que quando alguém perde pedaços de cérebro pela orelha.

Os times tem nomes absolutamente ridículos. Os Golfinhos de Miami, os Patriotas de New England, os Cowboys de Dallas. (Ok, os times de beisebol, pra variar, são ainda piores. Como alguém tem coragem de torcer para alguma coisa chamada “Meias Vermelhas de Boston”?)

Pois bem, não há a menor graça nesse esporte. Ele era ótimo enquanto era assistido apenas nos Estados Unidos e nós podíamos rir dos norte-americanos que assistem essas bobagens. Mas, tal qual a Stand Up Comedy e o Halloween, o Football Americano invadiu o Brazil. Tem uma legião de fãs que assistem às partidas e outra que se expõe a selvageria de praticar isso. Sério, tem gente que vai no bar pra ver o Football.
Stage Dive Radical

Ontem foi realizada a 49ª edição do SuperBowl. E o Brazil parou para assistir. Nas redes sociais não eram poucos aqueles que comentavam o jogo, declaravam torcida e postavam fotos da partida. O inferno senhoras e senhores, nada menos do que isso.

O evento é aquela chatice. O Futebol Americano, em si, mal é um esporte, é muito mais uma prática esportiva inventada para vender produtos. O jogo inteiro é planejado para ter anunciantes. Aquele bolo todo em campo, alguém manda a bola para trás, a porrada come solta enquanto o quarterback lança a bola para frente, para um cidadão que logo é interceptado e sofre um montinho criminoso. Jogo parado, propaganda de alguma coisa e o processo começa novamente até que alguém atravessa a linha de fundo.

Os times vão tentando avançar as jardas, o narrador fala na quarta tentativa para 25 jardas e sinceramente é melhor nem entender como isso funciona. Só resta constatar que esse é um caminho sem volta e em breve nossos filhos estarão jogando futebol americano no colégio. Salvem a família brasileira.