quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Drama da Especificidade

Uma das maiores graças dos Jogos Olímpicos e demais competições poliesportivas está em assistir aqueles esportes baseados na precisão e sincronia de movimentos e que são avaliados subjetivamente por um corpo de jurados especializados. Aliás, a graça não está nos esportes, que são insuportáveis e dedicados apenas as mulheres. Você ali, querendo ver um basquete, um lançamento de dardos que seja, e a mulher querendo ver aquela mulherada dançando e jogando laços para cima ao som de uma música terrível. E o nado sincronizado? O que pode ser mais chato do que aquelas meninas insossas com prendedores de cabelo no nariz se vestindo como se fossem elfas?
O movimento foi impreciso
Mas, veja o caso do salto ornamental. É um esporte tecnicamente rigoroso. O cidadão sobe em uma plataforma ou em um trampolim e salta de três ou dez metros de altura. Durante a trajetória, ele faz uma série de manobras corporais, que incluem cambalhotas, mortais, giros duplos, triplos e quádruplos, até uma queda triunfal na piscina. (Vez por outra, um cara erra a distância e soca a cabeça na borda da piscina, gerando muito sangue, traumatismo craniano e sequelas para toda a vida. Em alguns casos, morte mesmo).

Um esporte para especialistas - sempre eles. E que nós, reles leigos não entendemos nada. Justamente por isso, sempre que alguém se arrisca nesse mergulho acrobático, o narrador fica impressionado e comenta a plasticidade dos movimentos, como aquele cara mandou bem em sua performance, que ele merece uma nota dez e que certamente será medalha de ouro e motivo de orgulho nacional. Aí entra o comentarista especialista. Alguém que já foi técnico, praticante e exímio observador do esporte.

Ele simplesmente desanca o competidor.

Começa a descrever como seus movimentos foram errados, não manteve o corpo numa angulação correta, errou o tempo da segunda cambalhota e o mergulho, ah o mergulho, foi completamente errado. Uma apresentação pífia e ele deveria logo desistir do resto da competição e voltar para casa, envergonhado, buscando outra profissão porque aquilo não é para ele. Logo começa o replay, você não consegue ver todos esses erros mas acaba concordando e os jurados concordam também. Dão um 5,5 pro cara que faz cara de lamentação.

Um a um, os competidores são elogiados pelo narrador e humilhados pelo comentarista. O mesmo acontece na ginástica, no pífio nado sincronizado. Quando um narrador enxerga um erro e fala “mandou mal” o comentarista corrige que foi uma apresentação perfeita e que teve apenas essa pequena falha no final, mas que vai descontar no máximo três décimos da pontuação total. Favorito ao ouro.

Imagine o Rodrigo Pimentel, vendo toda aquela
incompetência para matar bandidos no morro
Esses esportes são para especialistas. E a vida de um especialista também não é fácil. Sim, no último post falamos da dificuldade de sair da sua zona de conforto específico para encarar as generalidades do mundo, mas viver dentro da bolha também não é fácil.

Especialistas se tornam intolerantes. O especialista em abrir vidros de palmito não tolera que outras pessoas falhem nesse objetivo, porque para ele é tudo muito simples, um conhecimento tão óbvio que quem não consegue no mínimo foi criado a base de fezes equinas.

Assim agem todos esses conhecedores específicos. Seja o especialista em rebocar paredes e passar cantadas em mulheres banguelas, o especialista em fazer pratos com banana verde, ou nas misteriosas forças que regem a movimentação dos corpos celestes.

Esse é o drama do especialista. Ele julga a capacidade das pessoas com base em seus conhecimentos. Isso também não é bom, provoca câncer e corrimento nasal.

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