quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Agendando a Consulta

08 de fevereiro de 2017

- Clínica Saúde & Vida, boa tarde.
- Boa tarde, eu queria marcar uma consulta com o doutor Alcides.
- Pois não, qual é o convênio?
- Unimed. Se tiver algum horário para o início da tarde é melhor.
- Eu vou ter para o dia 14 de março, às 14h30, pode ser?
- Só dia 14? Não tem nenhuma data antes, em qualquer horário?
- A agenda está lotada senhor, mas se abrir uma vaga antes eu ligo para o senhor.
- Ok, eu fico no aguardo.
- Talvez o doutor cancele uma viagem que ele vai fazer em maio e eu possa antecipar.
- Maio? Mas maio fica depois de março.
- Ah, não, não, sua consulta é para 14 de março de 2018.
- Só tem vaga para o ano que vem?
- Sim, agenda cheia. O senhor está com sorte, porque essa vaga abriu hoje. Uma paciente que aguardava para fazer o risco cirúrgico morreu. A próxima data disponível é só em 26 de setembro.
- Uau
- De 2021
- Então tá bom. E para agendar os exames necessários?
- Precisamos aguardar o doutor fazer a consulta, para ver o que é necessário e jogar as solicitações no sistema.
- Tudo bem.

13 de março de 2018

- Boa tarde, neste telefone eu falo com o senhor Rodrigo?
- Sim, é ele.
- Aqui é a Fernanda do consultório do doutor Alcides, tudo bem com o senhor?
- Tudo sim.
- Estou ligando porque você tem uma consulta agendada com o doutor para amanhã, às 14h30.
- Ah, é verdade.
- Então. Estou ligando para estar informando que nós tivemos um imprevisto e a consulta vai atrasar um pouco. Se você puder ligar no dia 3 de abril para confirmar o horário eu agradeço.
- Tudo bem.

03 de abril de 2018
Temos poucos pacientes na sua frente

- Clínica Saúde & Vida, bom dia.
- Bom dia, aqui é o Rodrigo, eu tenho uma consulta marcada com o doutor Alcides, que era para o dia 14 de março e você me pediu pra ligar hoje para confirmar o horário.
- Ah sim, qual é o seu nome mesmo?
- Rodrigo. Rodrigo andrade
- Rodrigo, tem 16 pessoas na sua frente, você pode chegar aqui amanhã lá pelas quatro da tarde.

04 de abril de 2018, consultório

- Boa tarde, eu tenho uma consulta agendada. Rodrigo Andrade, meu nome.
- Ok Rodrigo, me passe o seu documento por favor.
...
- Rodrigo, o doutor precisou sair para fazer quatro cirurgias de emergência, mas ele logo volta. Tem só seis pessoas na sua frente.

(Doze horas depois, o médico chega).
- Rodrigo vamos fazer os exames, pra já ir adiantando.

Às 13h26 do dia 5 de abril de 2018, Rodrigo é finalmente atendido. A consulta demora nove minutos, tempo no qual o médico pergunta qual é a profissão do paciente (arquiteto) a razão da consulta (check up de rotina. O paciente completei 30 anos há dois anos atrás e achou por bem verificar como estava a sua situação), faz comentários genéricos sobre os exames realizados durante a espera e pede a realização de outros exames.

O paciente Rodrigo se embrenha por um lodo de exames a serem realizados. Conseguiu fazer o exame de sangue três dias depois, após um jejum de 14 horas (sim, o recomendado é 12 horas, mas demorou um pouco), depois de quatro meses conseguiu agendar uma ultrassonografia e em 16 de setembro de 2023 conseguiu retornar ao médico e descobrir que sua saúde estava ótima em 2018.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Miss Sem Fronteiras

A mais antiga e divulgada lenda envolvendo as mulheres que pretendem concorrer ao cargo de “Miss” alguma coisa, é a de que elas obrigatoriamente haveriam de ter lido o livro “O Pequeno Príncipe”. Há uma razão para esta estranha ligação literária. Por trás da beleza flagrante, os concursos de misses buscam escolher uma mulher dita perfeita, que alie a beleza ampla e irrestrita com um vasto conhecimento intelectual.

Por essas razões, tradicionalmente as fases finais dos concursos de misses contam com algumas perguntas capciosas, para testar os conhecimentos gerais das candidatas. Geralmente são perguntas genéricas sobre a felicidade global e outros temas que eram testados em oficinas de redação de vestibular.

“Qual é o seu livro favorito” é uma das tradicionais perguntas feitas às mulheres. Afinal, livros são um sinal de cultura, cultura é sinônimo de conhecimento intelectual, pré-requisito para alguém ser miss universo. O Pequeno Príncipe logo se consolidou como uma resposta favorita das candidatas, pelo fato de ele se situar numa zona mista de conhecimento.

Ninguém iria dizer que adorava uma subliteratura qualquer, um livro de autoajuda ou um best-seller vazio do momento, sob o risco de ser eliminado. “Aí, adoro Sidney Sheldon”, sinto muito, mas você não será a mulher perfeita que servirá de exemplo para toda a humanidade. Por outro lado, ninguém vai se arriscar a afirmar que adorava a obra de Dostoievski – no original, ou que leu Ulysses três vezes. Vai que o jurado manda você explicar a obra? Sonho terminado.

O Pequeno Príncipe, por outro lado, é um livro amplamente conhecido, mas com algum grau de respeitabilidade. Não é uma obra para retardados, mas não chega a ser complexo. Além disso, ele agrega valores como “generosidade”, “fraternidade”, “congraçamento dos povos mundiais”. É só soltar aquele papo de cativar daqui, se mostrar ansioso pelo sua presença por lá e ninguém precisa prestar atenção na viagem psicotrópica deste garoto que conversa com raposas sentimentais.

No entanto, os tempos mudaram e o mercado se mostra muito mais competitivo. Hoje em dia, não basta convencer os jurados com algum conhecimento básico literário e meia dúzia de frases cativantes decoradas de um best-seller. As candidatas se aprimoraram.

Neste último domingo, as Filipinas receberam a final deste tradicional concurso. Por trás de todas as escolhas relacionadas aos trajes de banho, vestidos de gala e roupas tradicionais, o concurso mostrava um pouco da história das mulheres que avançavam na disputa.

Havia sobreviventes de terremotos, mulheres que lutaram na guerra, que perderam parentes por razões terríveis, que passaram fome, que trabalhavam para descobrir a cura da cegueira. Quase todas desempenhavam funções sociais, acolhiam crianças carentes. Mais do que um concurso de beleza, o Miss Universo hoje é uma disputa de protótipos de Madre Teresa de Calcutá.

As perguntas também se mostraram extremamente complexas: “quais pontos você considera como negativos e positivos no mandato de Donald Trump”. Uau, ter que pensar em um ponto positivo para isso? Outra pergunta discutiu o fechamento de fronteiras. Complexo.


Como a tendência das coisas é só evoluir, imagino que nos próximos anos as perguntas fiquem ainda mais difíceis. “O que você acha da política aduaneira no canal do Panamá?”. “Como impedir o avanço do tráfico de nióbio?”, “qual é a sua opinião sobre o controle de natalidade enquanto política de estado para impedir o desemprego?”, perguntas quase impossíveis de serem respondidas.

Certamente as misses terão formações ainda mais avançadas. Mulheres que trabalham com fissão nuclear para a criação de próteses, na defesa da costa somaliana contra os ataques piratas, resgatando peixes abissais feridos, trabalhando para acabar com a fome mundial, oferecendo wi-fi gratuito em comunidades distantes subsaarianas, preservando a vegetação nativa do Malawi, em um laboratório de observação da pós-verdade.

Enfim, chegaríamos a conclusão de que se todas as candidatas se organizassem em uma ONG intitulada Misses Sem Fronteiras, os problemas do mundo acabariam.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Michel Temer volta atrás na decisão de voltar atrás

Em reunião com sua equipe de ministros na manhã desta quarta-feira, o presidente da República, Michel Temer, voltou atrás da decisão de convocar a reunião com os ministros. Em comunicado a imprensa, o mandatário nacional afirmou que a convocação para a reunião foi um mal entendido, um estudo preliminar que ainda não havia sido definido e foi publicado em sua agenda equivocadamente.

Após dispensar os seus ministros, afirmando que aquele encontro jamais havia ocorrido, Temer foi comunicado por um assessor direto que o cancelamento da reunião estava repercutindo muito mal entre os seus ministros. Diante da exposição negativa do caso, o presidente voltou atrás e decidiu convocar sua equipe novamente para uma nova reunião em que negou que havia convocado uma reunião anterior e que a mesma não havia sido cancelada, mesmo porque ela não existia. Temer disse que o equívoco era uma tragédia.

A declaração do presidente não foi bem recebida nas redes sociais, que o acusaram de mau uso da palavra tragédia. Diante do fato, Temer voltou atrás e explicou o sentido etimológico da palavra tragédia e alegou que havia sido mal interpretado, negando que estivesse eventualmente desrespeitando qualquer pessoa que pudesse se sentir desrespeitada por ter vivido algo que ela considera uma verdadeira tragédia, o que não seria o caso do cancelamento de uma reunião que jamais existiu porque nunca foi convocada.

Pouco antes do almoço, o portal globo.com trouxe a denúncia de que uma secretária de Temer havia confirmado que a reunião havia sido marcada. A reportagem mostrava cópias da planilha com a agenda do presidente, além de prints de conversas de Whatsapp do grupo ministerial de Temer, chamado “PLANALTO ELITE”, em que uma pessoa identificada como Michel Temer faz a convocação para que todos os ministros comparecessem no Palácio do Planalto na manhã desta quarta-feira.

A veiculação da reportagem provocou uma crise no núcleo duro do governo e a secretária de imprensa do Planalto convocou uma entrevista coletiva. Temer afirmou que não participa de grupos do Whatsapp, que desconhece a existência de um grupo de ministros, e que, uma eventual convocação para que os ministros comparecessem no Planalto seria apenas um ato cívico de ocupação dos espaços públicos, de maneira cordial e civilizada, como sempre deve ser.

Ao ser confrontado com conversas que Temer teve no Whatsapp com alguns jornalistas, o presidente voltou atrás e disse que havia desinstalado o aplicativo há duas semanas. Um jornalista mostrou uma conversa que os dois tiveram naquela manhã e o presidente novamente voltou atrás e mandou todos pra puta que pariu.

Após a coletiva, Temer se dirigiu a um restaurante da rede Subway, onde permanece a mais de cinco horas tentando montar o seu sanduíche.
A única coisa que não volta atrás é o tempo, que segue sua lenta e angustiante marcha rumo ao definhamento do corpo e da alma

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Guia CH3: Como organizar um seminário

O mundo corporativo atual é extremamente concorrido e exige qualificação dos seus profissionais. Por isso, podemos observar a realização de tantos seminários técnicos, organizados pelas mais variadas empresas. Um seminário é supostamente bom para os dois lados: para quem assiste, que irá matar um dia de trabalho adquirir novos conhecimentos para sua área de atuação; para a empresa organizadora que irá ganhar profissionais atualizados e, principalmente, demonstrar publicamente que se importa com seu corpo profissional e com toda a propaganda que poderá fazer por conta disso. Este Guia CH3 irá falar sobre a organização básica de um seminário, que dure apenas uma manhã.

O primeiro passo é escolher o nome do evento. É claro que é possível apenas escolher alguma coisa do tipo “I Seminário sobre jornalismo científico”, mas soa pobre e não atraí o público. Para escolher um nome marcante basta utilizar uma fórmula simples: escolher duas palavras que dialogam entre si, seguidas por dois pontos e uma frase vazia que mostre sentido de desafio, futuro e explicações simples.
Exemplos? “Marketing e informação: os desafios da comunicação institucional na era das redes sociais”. “Sustentabilidade e agronegócio: o desafio de alimentar a população em uma época de crise”. “Cultura e tradições: enfrentando os preconceitos linguísticos no século XXI”. Perceberam as duas palavras? A magia dos dois pontos? O uso de palavras-chaves como “desafio”, “enfrentamento”? Escolhido o nome é hora de organizar a estrutura do seminário, o que também só precisa seguir passos simples.

Para começar, o presidente da organização responsável pelo seminário, ou algum diretor, um CEO, enfim, alguém com grande importância dentro da corporação, ou pelo menos cujo cargo denote e transmita uma sóbria sensação de segurança que o que ele diz traduz o espírito da empresa, enfim, esta pessoa irá dar as boas vindas. Em uma fala de cerca de dez minutos – aberta invariavelmente com um “bom dia a todos, eu não pretendo me alongar muito”, ele irá pontuar os ideais da empresa organizadora, elencar os motivos que faz com que todos estejam ali presentes, e tentar dar algum sentido moral para a existência daquela palestra. Ele irá agradecer o público presente, as pessoas fundamentais para que tudo isso estivesse acontecendo e então irá chamar o palestrante principal ao palco.

O palestrante principal será um desses nomes conhecidos pelo nicho específico de pessoas que participam do seminário. Não será um desses popstars do Youtube como Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal, ou participante do Manhattan Connection. Esses reservam suas agendas para palestras específicas, aberturas de grandes eventos ou feiras. O nome escolhido será uma pessoa aparentemente desconhecida, rosto até desconhecido, mas cujo nome exercerá algum fascínio nos profissionais.

Terá um currículo influente, com trabalhos importantes em empresas importantes. Será o responsável por um caso que é um paradigma para a profissão que ele exerce. O cara que reverteu aquela situação tensa que é ensinada nas faculdades, virou um livro e tema de reportagem de um desses programas especiais do Globo News. Quando alguém perguntar quem é ele, outro alguém responderá “é o cara do caso Fazenda Serra Malte” e todos se olharão com espanto e irão aguardar ansiosos o encontro com o messias da carreira.
Pois, essa pessoa não irá fazer uma palestra ou algo do tipo. O que ele fará será uma breve provocação. Uma breve provocação geralmente não conterá nenhum tipo de ofensa e muito menos será breve. Ao longo de meia hora ou mais, a figura influente irá mostrar uma série de slides no Power Point mostrando que a situação está ruim, mas está muito ruim mesmo. Meu deus, está ruim e só nós não fizermos nada, nós apenas iremos piorar. Ele irá contar algumas breves experiências suas, conversas que teve com pessoas influentes de outras áreas, ou até mesmo de outros países, as percepções dessas pessoas sobre essa situação que, vocês não vão acreditar, está muito ruim mesmo e mostrar mais e mais dados. Irá mostrar como a situação está desesperadoramente ruim, uma tragédia debaixo dos nossos olhos e nós nem conseguimos perceber.

Irá contar algumas piadas que manterão a atenção da plateia entre um e outro riso frouxo. E ao final disso tudo, quando as pessoas já estiverem prestes a dormir ele encerrará com uma pergunta que basicamente significa “o que vocês vão fazer para melhorar essa situação”. Após 35 minutos de ladainha numérica e dezenas de gráficos, o experiente profissional não irá oferecer nenhuma resposta, apenas um “se virem moçada”, que é o que consiste a breve provocação. Os mais incautos pensarão que este exponente profissional é na verdade uma farsa, que deve ter passado a vida inteira apenas fazendo questionamentos e recebendo os louros pelas soluções alcançadas por outras pessoas desconhecidas, provavelmente profissionais mal remunerados que eventualmente aparecem na fila do desemprego.

O microfone será aberto ao público e após um breve silêncio, quando todos se sentem tímidos diante da possibilidade de entrar em contato com esta glória profissional no palco, finalmente as perguntaras começarão, fazendo elogios e perguntas que serão sempre respondidas com retóricas vazias e, enfim, ninguém vai sair dali sabendo exatamente o que fazer, mas com muitas dúvidas e a alma leve pelo encontro marcante com a excelência palestrante.


Será então a hora do Coffee Break, quando um buffet qualquer irá oferecer suas esfihas com massa mole e carne moída carregada no tempero, frituras que provocarão azia, eventualmente pequenos sanduiches e até canapés com um paté estranho. Refrigerante em jarras, água saborizada e um suco excêntrico, tipo, suco de melão.

Na segunda parte do seminário, é a hora de alguém contar um case de sucesso. O responsável por esta fala será alguém de dentro da organização responsável pelo evento, um profissional relativamente desconhecido, mas com alguma relevância, que seja bom de fala e responda por um setor vital dentro da indústria.

Ele terá algo em torno de 20 minutos para mostrar uma situação em que a empresa esteve a beira da tragédia diante de um caso que trouxe péssima repercussão para sua imagem. O profissional da casa irá mostrar como tudo começou, as estratégias tomadas e os resultados decorrentes deste trabalho. A palavra chave será transparência em todos os passos. Sim, haverá quem ache que as coisas mudaram um pouco no acaso, afinal, de vez em quando as coisas simplesmente acontecem.

Mas, o objetivo do case de sucesso relatado pelo profissional não muito famoso é dar a todos algumas respostas que faltaram na breve provocação, mas também mostrar para o público presente que qualquer um pode encontrar as respostas nos momentos mais difíceis, mesmo sem ter um MBA em Oxford. A plateia sairá do seminário motivada e convencida de que irá começar a desempenhar um trabalho melhor.
Para finalizar, haverá a famosa mesa-redonda, montada em um lugar que não conta com nenhuma mesa, muito menos redonda, apenas cadeiras alinhadas em um formato de semicírculo. Haverá um mediador – geralmente algum profissional da casa um degrau abaixo do responsável pela abertura – e dois ou três convidados. Um profissional respeitado que trabalhe em uma empresa concorrente da organizadora (para mostrar a imparcialidade e pluralidade de opiniões), alguém que escreve artigos no jornal e já é reconhecido por dar opiniões e a terceira pessoa pode ser alguém que more em outra cidade do Estado – o objetivo é mostrar realmente que ali é um debate sério aberto para diferentes visões do mundo.

Durante 50 minutos, o mediador introduzirá temas simples, mas utilizando uma linguagem que fará com que eles pareçam muito complexos, e os debatedores irão expor suas opiniões, discordando como quem concorda, concordando como quem discorda, enfatizando convergências e aliviando divergências, sempre querendo mostrar que o que todos buscam é um bem comum.

Hora dos agradecimentos a todos, o reforço na mensagem que a manhã tenha sido bastante proveitosa e a expectativa de que outros encontros assim possam se repetir. Ao final dessa manhã gloriosa, todos poderão ir para suas casas com aquela sensação de que preencheram suas almas de conhecimento e que suas vidas serão gloriosas daqui para a frente.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Expectativas frustradas para a continuidade do ano


Afinal, é realmente isso o que você quer para o seu ano?
Entre as expectativas mais estranhas que a humanidade nutre, certamente a de pensar que as primeiras horas de um novo ano irão influenciar todo o seu decorrer é a mais inexplicável. Na virada do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro, as pessoas se prestam aos mais insólitos costumes para que eles supostamente tragam energias positivas para o novo ciclo da terra em torno do sol.

É aquela baboseira toda de escolher uma roupa de uma determinada cor, como se o fato de usar uma camisa amarela, ou uma cueca amarela no milésimo de segundo em que um ano termina e outro começa, como se isso fosse trazer dinheiro. Se a sua maldita roupa branca fosse responsável pelo vago conceito de paz. Se uma roupa vermelha fosse capaz de fazer você conseguir sexo e que, caso fosse verdade, isso não significasse sexo em demasia, até o ponto em que seus órgãos genitais ficariam em carne viva.

Romãs, lentilhas, cerejas, frutas secas. Uma dieta toda específica capaz de trazer boas vibrações para encarar o desafio anual da sobrevivência. Fantasia. Correr com uma mala ao redor da casa para atrair viagens. Uma lenda, já que a pessoa provavelmente sonha com um circuito Paris-Roma-Londres-Nova York, mas pode fazer 47 viagens para Itiquira por conta de sua superstição de ano novo.

Uma das lendas mais curiosas que eu conheço, é uma que tenta estabelecer uma relação entre a chuva do começo do ano com a chuva de todo o ano. Choveu no dia 8 de janeiro? Isso significa que o mês de agosto será chuvoso. Há uma relação ainda mais sofisticada entre a hora da chuva e o período da chuva. Chuva por volta das 13h do dia 9 de setembro equivaleria a chuva no dia 16 de setembro. De madrugada.

(Ano passado, por exemplo, choveu praticamente de maneira ininterrupta entre a virada do ano até o dia 22 de janeiro em Cuiabá. Quem viveu se lembra que desgraça era para secar a roupa no varal. Se a superstição estivesse correta, hoje a cidade já teria sido evacuada, com a população vivendo em lugares altos e a área urbana transformada em um grande lago).

Pois bem, o que as pessoas de certa forma não percebem é que muitos dos costumes da virada do ano acabariam por desgraçá-lo por completo.

O que é que as pessoas fazem para comemorar a chegada do novo ano? Participam de pequenas aglomerações, bebem quantidades mesopotâmicas de álcool, comem pra caramba, dançam e pulam até ficarem completamente extenuadas.

Pense bem: participar de pequenas aglomerações. Se você foi passar o ano novo na Avenida Paulista, muito provavelmente iniciou 2017 cercado por pessoas que você não conhece, que provavelmente agiram de maneira desagradável porque estão alcoolizadas. Logo seu ano será cercado de pessoas com as quais você não gostaria de conviver.

Beber para caramba, misturando as mais diversas variedades alcoólicas resulta geralmente em uma ressaca monumental. Dor de cabeça, fadiga, enjoo. Uma péssima maneira de começar um ano e que certamente influenciará os dias restantes: muita dor de cabeça e cansaço, reforçado por se ir dormir tão tarde.

Comer até passar mal também é um prenúncio das merdas que virão. Da obesidade que irá te acompanhar e que irá frustrar todas as suas expectativas de superá-la.

Para piorar, esse ano começou em um domingo o que significa que aquela sensação frustrante de que o Fantástico já começou veio cedo. O ano mal começou e já era segunda-feira. Uma prévia das frustrações que virão ao longo do ano?

Pelo jeito, mal sabemos, mas realmente as primeiras horas de um novo ano acabam por influenciar todo o conjunto. Mas, da maneira que nós queríamos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Cidadão Ken

Um dos primeiros atos do novo prefeito de São Paulo, João Dória, foi anunciar que no dia seguinte ele estaria de manhã cedo se vestindo de gari no centro de São Paulo. Ele, seu vice-prefeito e todos os seus secretários fariam parte de uma ação inovadora de limpeza da cidade intitulada “Cidade Linda”. “Estaremos vestidos de garis como gente simples que recebe seu trabalho para dar demonstração de humildade, igualdade e capacidade de trabalho”, afirmou o prefeito.

Como promessa é dívida, no dia seguinte João Dória estava lá na Avenida Nove de Julho, vestido de gari, ao lado de um monte de gente. Varreu a rua simbolicamente por cerca de dez segundos e mostrou enorme dificuldade para segurar a pá de lixo e jogar os restos varridos dentro de uma lixeira. Não sei se Dória tem ideia da quantidade de memes que esse seu primeiro dia de trabalho poderá proporcionar em um futuro não tão distante.
Diga onde você vai, que eu vou varrendo
Como desgraça pouca também é bobagem, o novo prefeito afirmou que irá se vestir de gari todas as semanas. Uma incrédula repórter confirmou a informação e ainda perguntou se o fato iria se repetir durante todo o seu mandato. “Durante quatro anos”, respondeu um convicto Dória para a perplexidade geral da nação, como se um prefeito não tivesse mais trabalho para fazer além de se vestir de gari toda semana para tirar fotos enquanto varre ruas por dez segundos.

Claro que nós não podemos descartar a possibilidade de que Dória esteja descobrindo uma nova vocação e que a partir de 1º de janeiro de 2021 ele adote a vassoura e saía por aí cantando o hit do Molejo e varrendo ruas, com uma habilidade desenvolvida ao longo das 208 semanas de seu mandato. Por outro lado, não podemos também ignorar a hipótese de que tudo isso seja um fetiche, que o prefeito sempre sonhou em se vestir de gari e nunca antes teve a possibilidade. Imagino que não é fácil encontrar fantasias de garis em Sex Shops e que não dá pra simplesmente chegar na Companhia de Lixo e falar “oi, eu queria me vestir de gari”. Convenhamos, uma das principais graças de um fetiche é poder se exibir dentro dele.

João Dória foi um fenômeno da última campanha eleitoral. Empresário do ramo das publicações que ninguém lê e promoter de eventos, ele conseguiu sair da rabeira das pesquisas eleitorais para uma vitória acachapante no primeiro turno, isso em uma cidade que nunca antes na história conseguiu ficar em casa no dia de um segundo turno de eleições, desde que os segundos turnos existem.

Para alcançar essa vitória, Dória conseguiu vender a imagem de que ele é um self-made man, um trabalhador, ele conseguiu convencer as pessoas de que ele trabalha! Isso foi impressionante e provavelmente será um dos grandes cases publicitários de um futuro também não muito distante.

A grande pecha sobre ele é a de que ele seria um coxinha, como ficou popular nos tempos atuais. Em tempos remotos ele poderia ser chamado de almofadinha, engravatadinho, mauricinho, são várias as opções. Isso não chegou a ser um problema na cidade que é considerada a mais coxinha do país, conforme as eleições provaram.

No entanto, uma parte do eleitorado ainda demonstra resistência com a sua imagem de figurante do Programa VIP. Justamente por isso é que imagino que alguma brilhante mente - talvez esta mente brilhante seja justamente a do prefeito - pensou em colocar o alcaide vestido de gari numa avenida grande no dia 2 de janeiro de 2017. Vamos pra cima, vamos arregaçar as mangas, vamos mostrar que aqui é trabalho e, pelo jeito, a ideia fez tanto sucesso que o prefeito já confidenciou que pretende repeti-la pelo menos mais 200 vezes.

No entanto, eu acho que essa sua promessa não é satisfatória. Dória precisa abrir os olhos e perceber que os garis representam apenas uma entre as centenas de funções existentes dentro de uma administração pública. Eu penso que nas 207 oportunidades restantes para o prefeito, ele deveria se vestir e simular a atuação em uma profissão diferente. Vamos pensar em um Dória vestido de enfermeiro, em um Dória professor, Dória motorista de ônibus, Dória eletricista e tantas outras profissões com menor ou maior índice de proletariado.

Podemos melhorar essa ideia. Todos nós sabemos que Dória é um fashionista arraigado, que promove encontros bafônicos na Ilha de Comandatuba e em tantos outros lugares do mundo, em que os convidados devem se trajar de acordo com um dress code restrito, que indica inclusive as cores permitidas. Ele já levou essa tendência para a prefeitura, quando pediu recentemente que seus secretários participassem de um evento utilizando calças ou saias azul-marinho e camisa branca.

Assim sendo, ao final do seu mandato teríamos Dória encarnado 200 profissões com um look sempre impecável. Seria tema para um ótimo livro fotográfico, digno de uma exposição em alguns dos tantos espaços culturais paulistanos.

Indo um pouco mais longe, ele poderia lançar inclusive uma linha de bonecos Dória, para competir com o boneco Ken, namorado da barbie, casal que já foi lançado em mais de mil versões estilizadas. Certamente faria o maior sucesso, até porque nunca ouvi falar de uma Barbie Gari.
Pior que tem

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As previsões para 2017


Se pararmos para pensar é melhor não criar muitas expectativas para o ano de 2017. O ano começou em um domingo, o que significa que logo nas primeiras horas do ano a população inteira foi submetida a exibição de matérias emotivas no Globo Esporte. Momentos depois, quando a ressaca estava sendo curada ou mantida, todos já podiam assistir ao Domingão do Faustão. Que coisa terrível.

Pois, foi neste momento nebuloso da existência humana que eu me dirigi à lendária Casa de Diversão Noturna Carnicentas para conversar com Pai Jorginho de Ogum e ter acesso as previsões para o ano de 2017. No ano passado, o pai-de-santo surpreendeu a todos e teve um desempenho arrasador, praticamente oferecendo spoilers do ano que estava começando.

Cheguei no local e encontrei Pai Jorginho de Ogum visivelmente embriagado, ao lado do pedreiro Marcão e algumas garotas. Eles faziam a coreografia de “Deu Onda”, o hit do verão composto por um MC qualquer aí. Constrangido com o flagra, Jorginho tentou fazer o que todas as pessoas fazem quando se veem surpreendidas bêbadas: fingem normalidade. Perguntou se estava tudo bem, falou que já iria fazer o que fosse preciso e soluçou.

Falei para ele das previsões e lembrei sua alta performance no começo do ano passado. Ele disse que não sabia se conseguiria fazer isso de novo e começou a chorar, numa atitude típica do bêbado que entra na fase da negação da própria capacidade (certamente ele já havia passado pela fase da euforia, no momento em que dançava. Em um breve momento ele começaria a fazer declarações para as pessoas e depois iria vomitar).

Respondi seu questionamento dizendo que se ele não fosse capaz eu iria ligar para o Walter Mercado e perguntar o que ele achava que iria ocorrer em 2017. Logicamente ele acreditou, porque pessoas alcoolizadas não tem muito senso crítico. Provocado, ele disse que ninguém ia fazer previsões para a porra do meu blog não. Pegou uma caixa de lápis de cor e fez uma réplica de Romero Brito em poucos segundos e vaticinou 7 previsões para este ano.

1) Você vai se decepcionar muito neste ano: vai se decepcionar com pessoas que você gosta, vai se decepcionar com a política, com aquele filme que você quer ver.

2) Você vai tentar reparar erros passados e não vai conseguir: você já quebrou a cara tentando fazer isso, vai tentar de novo e vai quebrar a cara de novo.

3) O seu dinheiro não será suficiente para comprar tudo o que você quer: entre outras coisas porque o dinheiro não compra a felicidade e, não sei se você percebeu, você não será feliz neste ano.

4) Alguma celebridade estrangeira terá sua carreira destruída após discutir com a internet brasileira: o pior é que você nem conhecia ela antes da polêmica.

5) Você vai se humilhar em situações inesperadas: você achou que iria apenas ajudar, mas acabou se saindo como a pior pessoa do planeta terra.

6) O Brasil não conquistará a Copa das Confederações: situação que aumentará exponencialmente as chances de ganhar a Copa de 2018.

7) Muita gente vai morrer ainda: porque o sistema é foda parceiro.

Finalizadas as previsões, Jorginho me abraçou e disse que gostava pra caralho de mim, me considerava muito, que enfim, eu podia contar com ele para o que fosse. Fui embora antes que ele vomitasse.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Retrospectiva 2016

Em um futuro distante, ou próximo, quando os estudantes de então abrirem seus livros de história, acredito que eles terão um capítulo inteiro dedicado ao ano de 2016. Os garotos vão ler aquilo perplexos e exigirão explicações dos seus professores: o que aconteceu em 2016? Que ano foi esse? Acuados, os professores tergiversarão e arrumarão alguma desculpa. No final, terão que apelar para o bordão imortalizado por Kátia, a Cega: não está sendo fácil. Este não foi um ano fácil.

Vamos começar pelo fato que une todos os anos: mortes. Como morreu gente em 2016, mas muita gente mesmo. Gente que achávamos que já havia morrido, ou que nunca iria morrer, ou que não esperávamos que fosse morrer. Carrie Fisher e sua mãe, Leonard Cohen, Geneton Moraes, Muhammad Ali, Carlos Alberto Torres, Johan Cruyff, George Martin, Umberto Eco, João Havelange, Prince, Dom Paulo Evaristo Arns, George Michael, Ferreira Gullar, Guilherme Karan, Fofão, o David Bowie. Faltou a morte de uma grande personalidade mundial? Não, morreu o Fidel Castro e, goste ou odeie, não discorde que é um dos principais atores da história recente da humanidade. Faltou uma morte trágica? Não, o Domingos Montagner morreu afogado no rio São Francisco. Morreu muita gente que parecia ser legal, cujas ausências serão sentidas no mundo.

A política brasileira consumiu nossas energias ao longo do ano inteiro. Tivemos o longo processo de impeachment da Dilma Rousseff, que acabou por aumentar ainda mais o ódio em nossa sociedade. Ao fim do espetáculo midiático, tivemos a possessão de Michel Temer e o começo de uma nova série de escândalos, envolvendo uma série de ministros, reformas estruturantes que vão ferrar com a vida de muita gente. Assistimos cenas patéticas no Congresso Nacional, com deputados e senadores votando projetos polêmicos na calada da noite, transformando um pacote anticorrupção em medidas pró-corrupção, guerras institucionais, o Eduardo Cunha que finalmente foi cassado e preso, o Renan Calheiros que, quando será? Dezenas de novas fases da Lava Jato e a onipresença de Sérgio Moro. É praticamente impossível lembrar todos os fatos políticos brasileiros deste 2016 e, quer saber? Nem faz bem lembrar, para não dar úlcera.
2016 foi exatamente isso: Dilma pintada por Romero Brito

Se a situação por aqui não foi fácil, não adianta pensar que o mundo passou por dias mais tranquilos. O Donald Trump foi eleito para a presidência dos Estados Unidos. Um maníaco bufão, sem caráter, demagogo, sociopata, insolente, enfim, um lixo de ser humano. Sua escolha foi um longo processo que, como toda boa tragédia anunciada, nos recusamos a acreditar no início e vamos negando a aceitação até o momento em que não há mais como voltar atrás. A postura de Trump desde a eleição é assustadora e a contagem regressiva para sua posse se parece uma espécie de Final Countdown.

Tivemos o Brexit, a prolongada crise dos refugiados, a situação trágica na síria, o terrorismo chegando em lugares que não imaginávamos, assassinatos filmados, enfim. Temos assistido a crescente marcha do retrocesso e da intolerância, marcha que vai ganhando peso e volume e que parece nos tragar para o fundo de um lamaçal, de onde nunca iremos escapar. Vamos lá, se depois desse ano você ainda for um otimista você merece ser tema de matéria no programa da Ana Maria Braga.

Talvez o único momento de tranquilidade para os brasileiros no ano tenha sido as Olimpíadas. Durante duas semanas pudemos ficar absortos nas histórias de superação, assistindo grandes atletas, grandes histórias e pensar que tudo poderia dar certo. Mas foram apenas duas das 52 semanas do ano. O que restou para essas 50 semanas restantes? O caos, exatamente isso.

Para encerrar o ano, quando talvez ainda procurássemos algo de positivo nele, o que aconteceu? O acidente de Chapecoense. Esta tragédia sob tantos aspectos possíveis de categorizar uma tragédia foi a pá de cal, foi a mão que esmagou aquela pontinha de esperança dentro de nós, foi aquele sopro para derrubar o castelo de cartas de nossas vidas. Não há quem não tenha ficado completamente arruinado emocionalmente com esse caso.

Diante deste cenário misericordioso, o que restou a sociedade? Buscar apoio neles, que traduzem os anseios de uma geração, oferecem conforto para as nossas angústias, apontam saídas, mesmo que sem querer: os youtubers. Certamente eles têm o que comemorar em 2016.

Por essas e outras que para mim a grande personalidade do ano de 2016 e Glória Pires. Também não sou capaz de opinar sobre ele.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

De Férias com o Ex

A antiga MTV (Music Television) é um canal que fez parte da adolescência e juventude de muita gente nascida nos anos 70 e 80, se bobear até dos 90. Eram tempos em que a internet tinha um alcance limitado, Spootify e Youtube eram projeções de um filme futurista. A televisão havia definitivamente substituído o rádio como figura central das comunicações domésticas e era na MTV que você conhecia as músicas mais populares.

Era lá também que você tinha a oportunidade de conhecer músicas novas e eventualmente se aprofundar sobre a banda em um programa rudimentar de compartilhamento de arquivos e vírus. Para fazer sucesso era imprescindível um clipe que chamasse a atenção do telespectador e muitos diretores de cinema emprestaram seu talento para esta arte.

No entanto, quando a internet banda larga chegou aos lares e corações de muitas pessoas, assistir televisão em busca de clipes musicais perdeu completamente o sentido, uma vez que qualquer clipe estava ao alcance das pessoas no Youtube. Aliás, os próprios videoclipes perderam um pouco o sentido e a música voltou a ser apenas escutada. Este processo que talvez pudesse ser explicado em um artigo científico levou a MTV Brasil a encerrar suas transmissões.

Encerramento estranho, já que no dia seguinte o canal foi recriado e numa espécie de reposicionamento mundial da marca, deixou de ser o canal da música e passou a ser um canal voltado, digamos, ao público jovem, público este que não queria saber mais sobre música e quer, justamente, saber de putaria.

A atual MTV tem uma programação com a mais diversificada variedade de putaria, falada nos mais variados idiomas e produzida das mais diferentes formas. Há um programa em que um grupo de pessoas é levado para passar as férias em algum destino paradisíaco e passam algumas semanas bebendo quantidades alucinantes de álcool, transando com dezenas de pessoas e brigando pelos motivos mais escrotos pelos quais as pessoas poderiam brigar. Hipnotizante, apenas alguns segundos do programa são necessários para destruir uma série de conexões neurais do seu cérebro.

No entanto, nenhum programa consegue ser tão ultrajante quanto o famigerado De Férias Com o Ex. Neste protótipo de roteiro do apocalipse, uma quantidade enorme de pessoas é levada para uma casa em uma praia de um lugar ridiculamente turístico. Confinados, eles passam o tempo inteiro, bebendo, transando e se divertindo de uma maneira absurdamente escrota. Mas, como nem tudo na vida é diversão, aos poucos eles são surpreendidos com seus ex-namorados chegando na casa.


Em pouco tempo, todos os participantes desse Big Brother da orgia terão ex-companheiros dentro da casa. E eles vão continuar bebendo. Vão continuar transando. Imagina a merda que isso vai dar, quando álcool, ciúme e completa falta de respeito se juntam. Pessoas saem no tapa, há cusparadas, orgias, triângulos, quadriláteros amorosos. Para terminar em grande estilo, no fim do programa todos são confrontados com as imagens dos seus parceiros e ex-parceiros na casa, é possível ver quem transou com quem, que o seu ex-namorado esteve com duas meninas, que o cara que você ficou no programa inteiro também esteve com outras três mulheres e, enfim, isso proporciona uma lavagem de roupa suja que nos ajuda a mostrar que a humanidade não tem solução.

O que realmente impressiona nesse programa, é uma espécie de descoberta antropológica. Descobrimos que pessoas como os participantes do programa realmente existem, fora da nossa bolha de convivência. Gente que não se importa minimamente com os sentimentos dos outros, machistas inescrupulosos, sem qualquer distinção de gênero.

Por fim, a grande felicidade do programa é que, como o nome dele diz, as pessoas que se encontram lá são ex-namorados. Esperamos, inclusive, que nenhum dos casais furtivamente estabelecidos no programa tenha uma relação duradoura. Pessoas como eles não podem misturar seus genes por aí.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Amigo Oculto CH3 2016

Não há muito para onde escapar. O fim do ano sempre chega - exceção feita às pessoas que morreram - e os sobreviventes acabam se reunindo para festejar que mais um ano se passou, temos um ano a menos para viver. São dezenas de confraternizações com os mais diversos grupos de amigos, conhecidos, colegas, pessoas que você não gosta, mas com as quais infelizmente tem que conviver devido aos protocolos sociais.

Como se tanta convivência social assim já não fosse suficientemente desgastante, algumas pessoas tem a brilhante ideia de adicionar um charme a mais, que consiste em uma entrega de presentes aleatórios a pessoas pré-determinadas por sorteio, evento popularmente conhecido como Amigo Oculto.

No CH3 não é diferente e este ano nós chegamos a nossa 10ª edição de amigo oculto, um feito e tanto. Claro, a vontade de participar de um amigo oculto é inversamente proporcional a vontade de viver e, deus sabe - caso ele exista - as dificuldades perpassadas para realizar o AOCH3. Nos últimos anos tivemos que apelar para as mais sórdidas atitudes - Amigo Oculto Ladrão, sequestros relâmpagos, manifestações explícitas de ódio - para que o evento se concretizasse.

Esse ano, como não poderia deixar de ser, foi muito difícil novamente. Sem saídas para a organização, fui falar com o pesquisador macrobiótico colombiano Alfredo Humoyhuessos. Pedi sua ajuda, para que ele, com seus conhecimentos de diplomacia internacional e cerimonial de crise, conseguisse convencer todos a realizar deste grandioso Amigo Oculto, e é claro que ele conseguiu. Fez todos os contatos, organizou tudo e só me passou os detalhes. Perguntei para ele quanto ele cobraria pelo serviço e ele respondeu que nada, que a felicidade dos amigos e a infelicidade dos inimigos não têm preço.

Humoyhuessos resolveu seguir uma ideia apresentada aqui no CH3 no começo deste ano em um post que falava sobre outros tipos de amigos ocultos. Ele ficou encantado com a ideia do Amigo Conta, em que as pessoas vão para um bar com comandas individuais e, no final, é feito um sorteio para ver quem é que vai pagar a conta de quem. O colombiano acredita que essa é uma iniciativa inédita, um experimento social para testar as pessoas, além de possibilitar uma espécie de carma instantâneo. “Imagina um cidadão que pede o bar inteiro, já que outra pessoa vai pagar e no fim das contas ele acaba sorteando sua própria comanda. Seria fantástico”.

Rompendo o Pacto de Arizona, não nos reunimos na Casa de Diversão Noturna Carnicentas, mas sim no bar mexicano El Pancho. É um lugar com comandas individuais, opções de pratos relativamente caros, bebidas e um clima decadente, cortesia da banda vestida com sombreros cantando clássicos em portunhol.

Estivemos todos lá nesta quarta-feira. Vinícius Gressana veio direto de Curitiba - vale ressaltar que ele não está preso na Polícia Federal, Tackleberry arrumou uma brecha na sua agenda. Todos os oito membros restantes do CH3 estavam lá, além de Alfredo Humoyhuessos que não participou do amigo oculto – “questões éticas e profissionais”, ele disse. (Acho que sempre adotarei essa resposta agora) - que provavelmente nos usou como cobaias em um experimento que irá render um livro super difícil de ser entendido em um futuro breve.

Bem, conversamos durante algumas horas, discutimos com garçons que insistem em arremessar pratos no chão em momentos de empolgação, e no fim, com frio no estomago, resolvemos embaralhar todas as contas dentro de um chapéu. Alfredo Humoyhuessos já havia definido que a ordem de retirada das comandas seria a ordem alfabética “a mais antiga ordem e sobre a qual não há nenhuma contestação, pois ela já vem carregada com uma carga determinista de ancestralidade”.

Assim sendo, Alfredo Chagas, visivelmente embriagado de tequila e com um ar de bêbado melancólico, foi o primeiro. Enfiou a mão no chapeu e de lá retirou a comanda do Cão Leproso. Urrou de felicidade. Cão Leproso havia pedido apenas uma água que, rosqueada, permaneceu fechada a noite inteira. Dirigiu-se ao caixa e foi embora, até agora não sabemos se ele - felizmente - veio a falecer.

Foi a vez do Cão Leproso retirar a comanda de dentro da caixa, o que demorou um tempo constrangedor. Ele finalmente conseguiu retirar a comanda com o nome de Vinícius Gressana - surpreendente como os dois sempre se encontram nos nossos amigos ocultos. Gressana havia consumido cinco cervejas e o Cão Leproso não tem carteira nem lugares para guardar o dinheiro. Sem saída, ele resolveu urinar no pé da mesa e foi expulso do bar porque finalmente as pessoas perceberam que ele era um cachorro e que não poderia estar lá dentro.

Eu era o próximo na lista e de dentro do chapéu retirei a comanda com o nome da Hanz, o pansexual. O velho pornográfico havia comido apenas uma salada, com sua conta totalizando 29 reais. Paguei.

Hanz, o próximo na lista alfabética, retirou o nome de Alfredo Chagas que confirmou seu estado de alcoolismo, já que sua comanda registrava 17 doses de tequila. O velho pansexual foi para uma área reservada do restaurante, onde acreditamos que ele tenha pago a conta de maneira pouco usual.

Pai Jorginho de Ogum - consideramos a letra J e não o P em seu nome - foi o próximo a pegar o chapéu e retirar a comanda com o nome de seu velho amigo Marcão. Jorginho se fodeu de maneira gloriosa, porque o analfabeto pedreiro havia pedido uma série de coisas que ele nem sabia o que era e sua conta deu um valor astronômico de R$ 370. Sorte que Jorginho é um bem sucedido empresário do ramo da exploração sexual profissional e conseguiu pagar.

Marcão, por sua vez, mal tinha coordenação motora para pegar uma comanda e quando a pegou, é claro que não conseguia saber de quem era e o que havia nela. Ele pegou a minha comanda, na qual constavam dois mojitos e uma água. Como ele não costuma a ter reservas financeiras pagou a conta de R$ 40 lavando pratos.

Estávamos então com Tackleberry, que, vejam vocês, pegou a sua própria comanda. Isso acabaria acontecendo, cedo ou tarde. Ele havia bebido quatro cervejas, pagou sua conta e ainda ganhou um desconto propondo uma permuta de herbalife.

Para finalizar, Vinícius Gressana retirou a comanda de Jorginho de Ogum e é claro que Vinícius se deu mal. O pai de santo comeu um rodizio, bebeu oito drinks metidos a besta e ainda comeu duas paletas mexicanas, não é a toa que Jorginho está tão gordo e com cara de que em breve irá sofrer um infarto enquanto dorme. Vinícius poderia ter um enorme prejuízo financeiro, mas fez como todo artista faz: desenhou uma caricatura do dono do bar e dos garçons, abatendo sua dívida.

Finalizado o experimento sociológico fomos todos para nossas casas e certamente só iremos nos ver no Amigo Oculto do ano que vem.