quarta-feira, 22 de março de 2017

Notícias do Tempo (4ª parte)

Os telejornais, a internet, o Dráuzio Varella, todo mundo já cansou de explicar as causas da ressaca. Você bebe tanto álcool, que acaba sobrecarregando o seu organismo, que precisa arrumar um meio de eliminá-lo. O resultado é que você fica desidratado e isso provoca aquela dor de cabeça terrível, o gosto ruim na boca, o corpo dolorido, o estomago arrasado. Pior ainda do que a dor física é o sentimento psicológico de que você devia ter evitado, afinal, a sensação é conhecida e você deveria saber o que fazer para minimizar essa pequena tragédia pessoal.

Beber um copo de água entre uma e outra dose de álcool costuma a ser a maneira mais eficiente de evitar o sofrimento do dia seguinte. Uma estratégia que costuma a funcionar no começo, mas que aos poucos vai se perdendo. Não beber muito também parece fácil, mas há aquele momento, aquele pequeno momento de hesitação quando você já está suficientemente bêbado e pensa se deve tomar mais uma dose ou não. Seu cérebro diz que não, mas ele já perdeu um pouco o controle sobre o corpo. Você resolve tomar aquela maldita saideira e então a linha vira. Qualquer controle vai embora e você não para mais de beber e apenas a sorte determinará a sua sobrevivência.

Na última noite eu resolvi brindar o fim do mundo. No escuro da minha casa sem energia, sendo devorado pelos mosquitos que certamente me contaminariam com alguma doença fatal, me apossei de uma garrafa de vodca e misturei com Coca Cola, limão e gelo. Os ingredientes foram lentamente terminando assim como a noite só terminou quando a garrafa estava vazia e eu estava desmaiado no sofá.

Não deveria ter feito isso comigo, pensei quando acordei todo suado no sofá da sala e cheio de coceiras pelo corpo. Verifiquei que a luz ainda não havia voltado e fui checar que horas eram. Meu celular apontava 09h13 e 7% de bateria. Conferi no grupo de trabalho que não haveria expediente. “Vamos aguardar”. Entrei nas redes sociais e vi que vários pontos do Brasil estavam sem luz. Vi uma notícia no Facebook sobre um Nostradamus italiano que previu que o mundo acabaria logo depois que nevasse por dois dias seguidos na praia de Salento. As fotos mostravam a cidade coberta pela neve que caiu por dois dias seguidos pela primeira vez na história. Matteu Tuffari o profeta do apocalipse, que acho que estava certo.

Ainda conferi o termômetro em 45º naquela manhã e as 09h32 o meu celular apagou. Me senti completamente isolado do planeta e com aquela dor de cabeça terrível. Bebi três copos de água, tomei uma dipirona e fui tomar um banho – pretensamente gelado, mas realisticamente apenas morno. Bebi mais dois copos de água e deitei na cama, esperando pelo momento em que a energia iria voltar. Dormi de novo.

Despertei desnorteado e novamente suado. Bebi mais água e fiquei pensando que horas eram. Pensei que aqueles livros pretensamente escoteiros que lemos na infância poderiam ter me ajudado a descobrir as horas de acordo com a posição do sol no céu. Mas, como eu não teria uma resposta e não estava a fim de me queimar a toa, resolvi entrar no meu carro e conferir em seu relógio o horário: 13h06. Estávamos quase completando as primeiras 24 horas sem luz. Eu nunca havia visto isso, nem na época de chuvas intensas, quando árvores destroem postes, explodem transformadores. A situação era inédita e o fato de eu não ter como me informar sobre ela, sem celular, sem ter como acessar a internet foi me causando uma profunda angústia. Eu sou de uma geração plugada, que não sabe como é viver desconectada do restante do planeta.

Uma vez no meu carro, resolvi ir até o meu trabalho com um único objetivo: pegar meu notebook de lá e, com um modem de internet saber o que estava acontecendo. A piscina do condomínio estava lotada, mas as ruas estavam vazias, como em uma manhã de 1º de janeiro. Pouquíssimos carros, ninguém nas ruas, lojas fechadas. Imaginei um mundo de pessoas trancadas em casa, catatônicas e paralisadas diante da situação. Cheguei rapidamente ao trabalho, peguei meu notebook e voltei para casa. Me senti um clandestino naquele mundo sem pessoas.

Pensei que eu deveria comer alguma coisa, mas não havia um restaurante aberto. Fui para casa encontrei apenas pão, presunto e queijo. Pensei que esses seriam meus suprimentos até o fim dos tempos, isso se o presunto e o queijo não estragassem antes. Abri e fechei a porta da geladeira rapidamente. Me dei conta que com a junção da ressaca e do calor, eu ainda não havia ido ao banheiro naquele dia.

Liguei o notebook e vi poucos posts nas redes sociais. Todo mundo devia estar sem bateria no celular, deviam restar apenas alguns poucos sobreviventes, que tinham uma reserva extra, ou que deram sorte de ter 100% de bateria na hora em que tudo acabou. Os próprios portais de notícias estavam desatualizados. A energia elétrica fazia uma grande diferença em todas as nossas atividades. Uma pessoa comentou que algumas TV estavam fora do ar, provavelmente porque não era possível transmitir mais nada. Como ele sabia disso?

Depois de algum tempo, achei uma explicação oficial: com a onda de calor mais forte dos últimos anos, houve um excesso de demanda por energia elétrica, muito provavelmente por conta do número de aparelhos de ar-condicionado ligados, o que sobrecarregou os transformadores de energia, que acabaram sucumbindo em vários pontos do país. Técnicos das concessionárias tentavam reparar o problema, mas o calor os atrapalhava muito dentro daquelas roupas cheias de proteção para evitar que eles fossem eletrocutados. Não havia previsão para que o problema fosse solucionado, apesar do empenho de todos.

Havia sim uma previsão do tempo. A temperatura em algumas capitais poderia passar dos 50 graus na sexta-feira. Estávamos diante de um fenômeno climático, que os cientistas tentavam entender. O fato é que uma bolha de calor se estabeleceu em boa parte do hemisfério sul, afastando toda e qualquer massa de ar frio que quisesse passar por aqui. Os cientistas pensavam que era um efeito do aquecimento global, que alterou a trajetória de alguns ventos, de algumas correntes marítimas e bagunçou tudo. Todas as nuvens estavam indo para o hemisfério norte que, ao contrário de nós, estava cada vez mais gelado. Centenas de pessoas morriam congeladas todas as noites em vários países. Muitas cidades sofriam com a falta de energia elétrica, provocada pela sobrecarga no uso de aquecedores. A situação por lá estava dramática. Não havia o que pudesse ser feito.

Desliguei o notebook que ainda tinha 60% de bateria. Poderia me ser útil mais tarde, ou não. Peguei algum livro para ler, porque a essa altura era o que me restava. Tive dificuldades em manter a leitura e resolvi tomar outro banho. Após três minutos a água acabou. Chequei em outras torneiras da casa e realmente a água havia acabado. Bati na porta do vizinho e ele me confirmou que, sim, havia acabado. A portaria reforçou que o problema se repetia em todo o condomínio, eles iam buscar explicações com a fornecedora de água.

Voltei ao meu carro e saí pela cidade até lugares que eu conhecia. A Universidade estava sem água. Os shoppings estavam fechados. O segurança, com roupa empapada de suor e o rosto coberto de gordura, me avisou que o gerador de energia do estabelecimento havia aguentado apenas algumas horas e o shopping precisou fechar. Pensei em como estariam os hospitais em um momento desse. O meu trabalho estava sem água também. Parecia um problema geral de desabastecimento que, pensei eu, devia ter alguma razão semelhante a falta de energia: sobrecarga, ou sei lá o que.

Resolvi ir até a fornecedora de água e encontrei um pequeno aglomerado de pessoas na porta. Pensei que era assim que as coisas funcionavam antigamente, quando não havia internet ou telefone. Era preciso ir até o local. Havia um ar zumbificado em todas aquelas pessoas falando coisas sem sentido e desencontradas, enquanto uma mulher suada tentava afirmar que a razão do problema ainda estava sendo verificada, mas sua voz se perdia no meio daquela confusão sonora.

Uma equipe de reportagem da TV Gazeta chegou ao local. Estavam com um ar cansado e abatido, sensação que todas as poucas pessoas na rua aparentavam ter. O sol começava a se por e o clima estava um pouco menos infernal, ou, acredito que talvez estivéssemos nos acostumando aquela situação, aplicando na prática uma lógica Darwiniana.

Conhecia o cinegrafista da TV. Perguntei a ele quem iria assistir aquelas reportagens, uma vez que a cidade inteira estava sem luz. Ele riu, dizendo que apenas cumpria as ordens da chefia. Mas, confessou que isso estava acabando, aquela era a última bateria carregada para as câmeras. Fiz uma pergunta/piada sobre como ele se sentia filmando as imagens que ninguém jamais iria ver. Ele me respondeu que seria um bom arquivo, que daria até um documentário.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Notícias do Tempo (3ª parte)

Sem dúvida, o pior momento do dia sempre é o momento em que você acorda. São muitos os motivos: ter que sair da sua cama aconchegante, dos lençóis que tão bem te acolheram a noite e ir encarar o mundo. Ter que levantar da cama e deixar todo esse conforto para trás com o objetivo de ir trabalhar. Se fosse proposta uma enquete mundial perguntando as pessoas se elas preferiam continuar na cama ou levantar para ir trabalhar, duvido que alguém respondesse a segunda opção. Principalmente se a enquete for sigilosa e se as respostas não fossem mostradas para os chefes dos questionados.

Ok, admito que eu possa estar exagerando. Existem outros momentos no dia que podem ser igualmente ruins. O momento em que você sofre uma fratura. Quando você tem uma diarreia. Possíveis perfurações com armas de fogo ou armas brancas. Diversos momentos em que você pode ser exposto as mais diversas dores físicas ou psicológicas. Momentos em que você encontra uma pessoa que você detesta. Mas, estas são variáveis do dia-a-dia, podem eventualmente acontecer ou não. Acordar você vai ter que acordar todos os dias, até que você morra ou eventualmente entre em coma, induzido ou não.

Nesses dias tem sido ainda mais difícil acordar, por conta do calor. Sair do quarto gelado e adentrar a sala quente, para enfim chegar à cozinha não é fácil. Seria muito melhor se fosse possível se teletransportar apenas para ambientes já previamente climatizados. O ar-condicionado, coitado, resiste bravamente durante a noite, mas assim que ele é desligado o calor já começa a tomar conta de tudo.

Depois de todos os procedimentos padrões de uma manhã, fui para o meu trabalho. O prédio onde labuto fica localizado no alto de um morro – não que exatamente se pareça com um morro e sua visão estereotipada da mídia de massa, digamos então que ele fica em um lugar mais alto – e ao estacionar pude perceber pelo menos seis focos de fumaça pela cidade. Cuiabá é uma cidade com tendência a piromania e parece que qualquer mínima estiagem é o suficiente para que a população comece a incinerar restos de lixo, terrenos baldios, florestas inteiras, automóveis, cadáveres, enfim. Tudo, absolutamente tudo pode ser incendiado.

Mal sentei em meu posto de trabalho fui informado que a Defesa Civil já havia emitido um alerta para a população, para que evitassem aglomerações, a prática de atividades físicas nos horários de pico de calor, o que, muito provavelmente, significa evitar atividades físicas em qualquer horário. As escolas estaduais que ainda estivessem repondo eventuais aulas atrasadas devido a greve dos professores talvez tivessem que suspender as atividades. Se possível, seria publicado um decreto que obrigasse o uso de ar condicionado para manutenção da vida humana na cidade.

O calor era o único assunto possível entre as pessoas. Quem por algum acaso houvesse ido ao banco, saído para almoçar, enfim, tivesse por alguma desgraça qualquer precisado sair as ruas anunciava um cenário de caos, horror e destruição. A pele queimando, o bafo quente, o ar seco, a fumaça que começava a tomar conta do ambiente. O termômetro do celular anunciava que havíamos finalmente superado a barreira dos 40 graus centígrados. O telejornal local anunciava que a sensação térmica já superava os 50 graus. “Haja ar-condicionado”, brincava a apresentadora.

A onda de calor era nacional. Todos os estados registavam temperaturas absurdas mesmo para essa época do ano. Os hospitais na região sul recebiam um número maior de pessoas que viram suas pressões aumentarem, baixarem, enfim, que estavam passando mal por conta dessa temperatura para a qual o corpo delas não estava preparado. Por outro lado, o frio seguia forte no hemisfério norte. Estados norte-americanos, sem energia elétrica, mais de cem pessoas morreram congeladas apenas na última noite. A nevasca isolou algumas cidades polonesas. O expediente foi cancelado em várias repartições públicas devido ao frio mais forte dos últimos cem anos. O frio também chegou à China. A nuvem de poluição já havia ocupado um pequeno pedaço do território, conforme mostravam as imagens de satélite. O dia parecia noite, devido a camada de poluição. O governo chinês prometia tomar medidas drásticas.

A previsão do tempo era alarmante, por trás do sorriso sempre simpático do garoto do tempo. Mais calor para o Brasil. O mapa inteiro estava vermelho, com exceção a algumas partes alaranjadas no Amazonas, provavelmente em trechos de floresta densa e profunda. Os cabalísticos 40 graus eram previstos em pelo menos seis capitais, Cuiabá inclusive. “Haja ar-condicionado”, repetiu como em um deja vu a Sandra Annenberg.

Haja ar-condicionado, um mantra para esses dias. Mantra interrompido a partir do momento em que um silêncio se fez na sala do trabalho. A luz havia acabado, a energia havia acabado, não sei direito qual é o termo tecnicamente correto para dizer que o fornecimento de energia elétrica havia sido temporariamente interrompido pela concessionária responsável. Ficamos todos parados por ali esperando que a luz logo voltasse ou talvez em uma tentativa involuntária de fazer o mínimo esforço possível e não gerar calor, que logo iria aquecer o ambiente.

No entanto, estávamos no famigerado horário de volta de almoço, quando o pobre ar-condicionado por si só não consegue manter a temperatura agradável. O sol ardia nos vidros das paredes e não deve ter demorado muito mais do que vinte minutos para que todos começassem a sentir o suor escorrer pelas pernas. Ficamos ali, ardendo, esperando uma decisão superior, a vontade divina, ou o que fosse.

Não demorou muito e veio um aviso do setor de RH. A Secretaria de Gestão entrou em contato com a concessionária de energia que avisou que a queda era geral. Não havia energia elétrica em Cuiabá, nas cidades do entorno e sabe-se lá mais aonde. Não havia previsão de quando a energia poderia voltar e por conta disso o expediente estava suspenso naquela tarde.

Já havia presenciado situações semelhantes outras vezes em minha vida. O Centro Político Administrativo é um dos poucos lugares do mundo em que não é preciso treinar as pessoas para evacuar um local as pressas. Basta informar a todos os servidores que o expediente foi suspenso que em poucos minutos todas as baias estarão vazias, os equipamentos desligados e um silêncio sepulcral será escutado nos corredores. Se um dia pegar fogo no prédio em que eu trabalho, será necessário apenas falar as palavras mágicas “o expediente está suspenso, podem ir para casa”. Sem alarme de incêndio, sem avisos de fogo para não criar pânico. Em poucos minutos, o prédio será evacuado.

Claro que todas essas pessoas que abandonaram seus postos de trabalho vão embora para suas casas de algum jeito e o trânsito fica um inferno. As poucas ruas que dão acesso ao CPA ficam congestionadas, abarrotadas de automóveis. Não há solução possível para resolver o trânsito nesta situação e eu pensei que iria demorar mais de uma hora para chegar em casa. Bem, era difícil, mas pelo menos dentro do carro eu estaria no ar-condicionado e pensei por um instante que isso seria melhor do que arder na sala quente do meu trabalho.


Abri a porta do meu carro e senti que estava abrindo um forno, que poderia ter deixado uma pizza lá dentro que ela estaria pronta para comer. Creio que demorei pelo menos vinte minutos para conseguir sair do estacionamento do meu trabalho. Meu carro entrou na reserva e precisei parar em um posto de gasolina para abastecer. Havia um posto relativamente perto do meu trabalho, ao qual eu não demoraria mais do que cinco minutos para chegar em um dia normal, mas neste dia eu demorei outros vinte. Passei 40 minutos temendo que meu carro pudesse parar sem gasolina, o que me renderia uma multa, xingamentos pelo trânsito ainda pior provocado por mim e a miséria de caminhar no sol em busca de um galão que poderia, sei lá, entrar em combustão espontânea se exposto ao sol.

Cheguei ao posto e fui informado que o cartão não estava passando, porque as baterias das máquinas haviam acabado. O frentista lamentou o azar de, justo no dia em que acaba a luz, ninguém ter lembrado de colocar as maquininhas para carregar. Por sorte eu tinha uma nota de 100 reais na carteira, dinheiro guardado para pagar a academia no dia em que o clima me permitisse voltar até lá.

Já havia escutado um disco inteiro dos Strokes desde a hora que eu sai do trabalho e lá estava eu de volta a Avenida congestionada. O trânsito andava a milímetros por hora. Os ônibus estavam lotados. As pessoas nos pontos de ônibus pareciam duelar com a morte. O ar-condicionado do meu carro estava ligado no máximo, mas o ambiente lá dentro estava no máximo fresquinho. O sol que batia na janela do carro me fazia suar. O semáforo pifado não ajudava o trânsito a fluir. A fila de carros ia até o fim da minha visão. Naquele momento, naquela situação, eu tive a certeza de que nós não estávamos apenas vivendo uma grande onda de calor, estávamos sendo vítimas de algo muito maior. O aquecimento global havia começado pra valer. Ou talvez fosse uma dessas etapas bíblicas de provação, do sofrimento que precede a benção divina. Ali no meu carro, preso no trânsito eu tive a certeza de que não era apenas calor: o mundo estava acabando.

terça-feira, 14 de março de 2017

Disgaylândia

Na semana passada, o excelentíssimo deputado federal mato-grossense Victório Galli, membro do glorioso Partido Social Cristão e defensor da tradicional família brasileira, deu sequência a uma guerra declarada por determinados setores evangélicos a Disney. Tudo começou quando um desenho sobre Star Wars mostrou dois garotos se beijando e o Silas Malafaia defendeu um boicote ao tradicional estúdio norte-americana.

Galli reverberou as críticas em uma entrevista para uma rádio cuiabana. O deputado afirmou que Mickey Mouse é gay e que para comprovar isto basta fazer um estudo aprofundado, como ele fez. O parlamentar chegou a dizer que o relacionamento do rato com a Minnie seria de fachada, apenas para enganar as pessoas. Aprofundando suas críticas, o social cristão citou o Rei Leão, outro exemplo do gayzismo da Disney. Ele afirma que o leão deveria ser um animal forte e corajoso, mas no desenho ele aparece indefeso o que é um sinal de que é veado.

O congressista gostou de reforçar que ele fez um estudo, aprofundado estudo sobre o caso e não deixa de ser interessante imaginar ele assistindo horas e mais horas do Mickey Mouse e pausando o vídeo em determinados momentos e gritando “taí, é viado” (ele também não gosta do fato de que os personagens da Disney não tem pais, ou filhos, apenas tios e sobrinhos). Pois então, o CH3 resolveu fazer também um estudo, sério e aprofundado estudo, para mostrar como a baitolagem reina solta nos clássicos da Disney.

Bambi
Não sei se vocês já perceberam, mas o personagem principal deste desenho é um veado, animal que é amplamente associado aos gays na sabedoria pessoal. Com traços tipicamente afeminados, o veado veado vê sua mãe ser assassinada – mais uma prova de que a Disney não gosta de famílias tradicionais – e precisa se virar na selva ao lado de seus amiguinhos gays. O ano era 1942 e a Disney já fazia essa lavagem cerebral na cabeça das nossas crianças de então, que hoje são os nosso velhos e estão por aí dando a bunda, bando de bichas velhas.

Mogli
A história de um jovem que cresce apartado da estrutura familiar necessária, sendo criado por lobos e vira um adolescente que vaga pela floresta e muito provavelmente praticando a homozoofilia.

Aladdin
Talvez vocês já não se lembrem, iludidos pelo glamour das animações da Disney, mas Aladdin era um bandido que dá a sorte grande e fica milionário, mostrando que além dos gays, o estúdio também protege os marginais. O grande parceiro do criminoso é um gênio, que também se utiliza de elementos além dos previstos na lei, de corpo musculoso e durante todo filme fica subtendido que o desejo maior do Aladdin era ser enrabado por aquele conjunto de músculos azuis claros. No final, o assaltante deseja que o gênio fique livre, o que é uma maneira de ele mandar seu amor proibido embora e se casar por arranjo com uma princesa.

Toy Story

Esta animação homoafetiva dos anos 90 gira em torno da tensão sexual envolvendo um menino e seus dois bonecos – também homens e que por sua vez também são apaixonados. A única personagem feminina, que aparece no segundo filme – uma mulher da vida, pouco ligada aos afazeres domésticos que se esperam de uma fêmea, constrange os bonecos principais. No terceiro filme há uma cena pornográfica em que os personagem estão com medo – coisa de boyolas – e se dão a mão diante da morte, inclusive homens segurando a mão de outros homens e mulheres de mulheres, sendo que todos nós sabemos que segurar a mão já é o primeiro passo do sexo.

Branca de Neve e os Sete Anões
Não precisa ser muito espero para imaginar o que sete anões fazem juntos em uma casa no meio da floresta. Estas aberrações esquecidas por deus certamente estão libertando seus fetiches pervertidos distante dos olhos da sociedade – mas não dos olhos de deus. Esse filme é uma nanosuruba gay demoníaca.

Zé Carioca
O típico malandro carioca que foge do casamento porque certamente é apaixonado pelo Pedrão, em cuja imagem ao lado podemos observar, tenta comer o cu do papagaio em uma cena doentia mostrada para nossa crianças.

Pinóquio
Não precisamos dizer que esse é um filme sobre a excitação provocada pela mentira, o boneco sofre ereções em ambientes masculinos toda vez que mente, sendo que a grande mentira é a sua sexualidade. Há explicitamente a insinuação de que aquele velho pervertido é o responsável por diminuir a paudurescência do Pinóquio, com aquela metáfora fajuta de cortar o nariz com um serrote.

Up - Altas Aventuras
Um velho pederasta some no mundo com uma criança e os pais dessa criança não fazem nada. O começo do desenho mostra a vida do velho com sua esposa e, confesso que chorei até, mas os dois nunca tiveram um filho mostrando que a Disney odeia as famílias! Provavelmente o velho, além de tudo comunista porque se recusa a vender sua casa e impede o avanço da sociedade, usa drogas e inicia o pobre escoteiro em algum ritual satânicogaymaconhista.

Acabaram de me ligar aqui avisando que na verdade esse desenho é da Pixar, mas isso só prova que o complô da fanta uva está dominando Hollywwod inteira.

No próximo post voltaremos mostrando que Rambo, Taxi Driver, o Exorcista e La La Land são apologias ao gayzismo.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Notícias do Tempo (2ª parte)

Acordei naquela madrugada de terça-feira com o barulho de um raio. Não era um simples raio. Parecia realmente que o teto da casa havia se partido ao meio, que um muro havia desabado, que algum grande objeto havia caído de uma altura considerável a uma distância muito próxima de onde eu estava. A esse grande estrondo se seguiram outros três, de uma intensidade menor, mas ainda assim assustadores. Fiquei naquele estado meio sonâmbulo em que imaginamos as coisas, mas não temos muita certeza se estamos acordados ou sonhando. Pensei em ir desligar alguns eletrodomésticos, mas não tive força. Passei o resto do período teoricamente reservado ao sono vagando entre a vigília e os devaneios, sem conseguir me aprofundar neste exercício diário de recuperação corporal.

Depois dos raios, veio um temporal alarmante, desses que nos fazem pensar em rios subindo, barrancos despencando, tragédias naturais que receberão cobertura exaustiva no Jornal Hoje. A chuva deveria ser uma resposta ao calor terrível da segunda-feira, quando, ao contrário dos dias anteriores, nenhuma gota caiu do céu e o calor permaneceu insuportável o tempo inteiro.

Quando a manhã finalmente chegou, havia uma vaga expectativa de que o clima estivesse mais ameno, graças ao dilúvio da madrugada, mas essa expectativa durou o tempo suficiente de abrir a porta do quarto e perceber que o sol brilhava fortemente do lado de fora e já era capaz de ofuscar a visão. Abri a janela e a umidade associada ao calor fazia com que Cuiabá parecesse a maior sauna do mundo.

Como Cuiabá é uma cidade em que o calor predomina durante mais de 300 dias do ano e, em alguns deles, com tons dramáticos para a existência humana, todos os carros tem ar-condicionado, boa parte do transporte coletivo é refrigerada e quase todos os locais de trabalho tem um desses aparelhos, ou pelo menos grandes ventiladores que irão aliviar um pouco a agonia existencial provocada pelo calor. Desta forma, sofre-se com o calor no trajeto entre o carro e os locais, ou em eventuais caminhadas ao céu aberto.

Cheguei ao meu trabalho e observei o céu sem nenhuma nuvem. A chuva absurda da madrugada parecia ser alguma lenda, talvez um sonho. Só precisei sair do ar condicionado na hora do almoço. Caminhei até o restaurante próximo ao meu trabalho e senti durante o breve trajeto que esse dia iria me render algum câncer de pele no futuro. Imaginei que eu seria um exemplo de reportagem sobre o que não se fazer nessa época do ano. O clima estava tão insuportável que o almoço no obtuso restaurante do Centro Político ficou ainda pior. Mal consegui comer e pensei comigo mesmo que nos próximos dias eu devesse optar por não almoçar, a fome não seria pior do que esse calor.

Na volta ao serviço, o céu continuava absolutamente limpo sem nenhum sinal de chuva, aquela chuva que refrescava um pouco o fim do dia. A volta do almoço é tradicionalmente o momento do dia em que o ar condicionado do serviço mais sofre. Há a sensação térmica terrível após ter enfrentado o sol mesmo que por alguns poucos minutos e há também o fato de que esta é cientificamente a hora mais quente do dia. Cientistas teriam sérias dúvidas em definir se é pior se expor ao sol neste horário ou tomar veneno.

Mas nesta terça-feira a coisa parecia muito pior. O ar condicionado foi reduzido a um mero aparelho de barulho, responsável por aumentar ainda mais a irritação das pessoas que estavam ali trabalhando. O calor parecia uma barreira insuperável e eu sentia o suor das minhas costas em contato com a minha camisa que fazia contato com o encosto da cadeira e provocava um incomodo terrível.

Aproveitei o que restava do meu horário de almoço para ler algumas notícias aleatórias, dessas que você não tem a menor vontade de ler, mas invariavelmente é chamado pelo título, clica para que ela seja aberta em uma nova aba, volta a ler o título na nova janela e percebe que não há nada de interessante nisso. Mas, de certa forma, o ato de abrir a notícia e ler o seu título em uma janela própria é uma espécie de confirmação, um reforço de que aquilo realmente aconteceu. Tudo o que você precisava saber estava no título que já estava lá capa, mas apenas quando a notícia é aberta é que ela parece ser verdadeira.

Perdido no tédio, olhei a previsão do tempo. A tendência em Cuiabá é que o clima ficasse ainda mais quente a cada novo dia. Os cabalísticos 40º estavam se aproximando e é claro, não há nada que pudéssemos fazer para que eles sejam evitados. Talvez esse seja um dos motivos para que o clima seja tão discutido por pessoas que não tem assunto. Nós não temos o menor controle sobre ele em um curto e médio prazo. A ciência já até provou que em longo prazo a humanidade exerce um impacto miserável sobre o clima planetário e que nossas emissões de gases poluentes vão fazer com que tudo fique cada vez mais extremo. Curiosamente, podemos trabalhar para evitar nevascas, tempestades e ondas de calor daqui a 50 anos. Mas não há nada que se possa fazer para evitar a chuva que ameaça cair daqui a pouco, por mais que alguns índios discordem dessa opinião.

Me lembrei das notícias sobre o frio no hemisfério norte e dei um google sobre o assunto. Mais seis pessoas morrem na Polônia, mais vinte na Europa, o número de mortos já supera 80, Moscou registrou temperatura de 30 graus negativos, o que provocou o ano novo ortodoxo mais frio dos últimos 120 anos. O frio matou pessoas nos Balcãs, voos cancelados. Morte, morte, caos.


Resolvi pesquisar também por calor e descobri que Florianópolis registrou sensação térmica acima dos 50 graus. Uma notícia afirmava que este era o dia mais quente em Cuiabá no ano, o que me pareceu um tanto idiota já que estávamos apenas no décimo dia do ano. Não era uma façanha, mas a notícia informava que estávamos quatro graus acima da média histórica de calor nesta época do ano. Calor no rio. Recorde de calor em Campo Grande. Calor em Belo Horizonte. Atores de novela reclamam de calor. Ao que me parecia o mundo estava bem dividido em polos de calor extremo e de frio extremo.

A tarde demorou a passar em meio as reclamações de que o clima estava insuportável. Vez por outra entrava no Facebook e era confrontado por imagens de pessoas que aproveitavam suas férias de janeiro em piscinas, praias, lagos, enfim, em qualquer lugar em que fosse possível banhar o seu corpo em água. O Facebook já é uma rede social baseada na intenção de exibir a existência de uma vida plena e perfeita, mas essas pessoas que estavam mergulhadas dentro de água certamente provocavam uma sensação ainda maior de perfeição. Chegava a ser um pouco humilhante. Diria que ultrajante.

Tenho a impressão de que fui embora do trabalho um pouco mais tarde do que o usual. Estamos no horário de verão e o sol já se põe mais tarde normalmente. Mas neste dia o sol estava tão forte que se alguém por algum acaso caísse em uma espécie de coma sonífero e acordasse às 18h, muito provavelmente ao acordar, ainda atordoado, perguntaria se estava na hora do almoço. A impressão era um pouco a de que o sol jamais iria se por e viveríamos como naquelas cidades próximas aos polos, onde o dia dura alguns meses em algumas épocas do ano. Quando fui ver, já era quase oito da noite quando o céu ganhou sua característica alaranjada de fim de dia. O calor persistia.

Olhei pela janela do meu trabalho e vi que o recém inaugurado parque da lagoa estava praticamente vazio, sem o trânsito caótico que o marcou desde sua inauguração no fim de 2016. Talvez um sinal de que as pessoas já não conseguissem mais sair de casa para fazer nada. O parque tinha uma lagoa, mas essa não era uma lagoa própria para o banho, era muito mais um grande recipiente de dejetos humanos. Passado o breve efeito novidade, não havia motivos plausíveis para deixar o conforto do lar e fazer o que quer que fosse.

O trânsito para casa estava absolutamente tranquilo. Em parte por conta do horário mais avançado, em parte por conta do período de férias escolares que esvazia bastante as ruas das nossas cidades. Mas dentro de mim, criava uma teoria pessoal de que o calor impedia as pessoas de saírem às ruas. Imaginei os bares vazios, seus alto-falantes tocando música sertaneja para ninguém, exceção feita a um bando de garçons que odiavam sua existência mais do que nunca naquele dia. As pessoas não teriam o que fazer fora de casa. Estavam todas petrificadas, magnetizadas pelos seus ares-condicionados, que, antes de mais nada, são uma palavra difícil de acertar no plural.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Entendendo: Reformas do Governo Temer

A palavra reforma está de certa forma atrelada ao atual presidente do Brasil, Michel Temer, e ao seu governo. Em um comunicado enviado a imprensa no fim de 2016, o mandatário nacional afirmou que seu governo não vai parar e que será reformista. Em um encontro recente com empresários paulistas, Temer voltou a bater no peito e dizer que é reformista. Com tantas reformas anunciadas, às vezes fica fácil se perder no meio de tanta informação e é por isso que o CH3 explica do que se tratam algumas dessas mudanças que Temer e sua base aliada julgam tão necessárias para o país.

Reforma Trabalhista
O objetivo é flexibilizar a utilização deste cidadão, fazendo com que ele tenha menos carimbos do que um passaporte
Polêmica reforma defendida, curiosamente, mais pelos empregadores do que pelos empregados, que acreditam que algumas relações precisam ser flexibilizadas para gerar mais renda - para os empregadores. A jornada de trabalho poderá ser maior, horário de almoço menor, férias menores, enfim, claro, desde que o trabalhador concorde com isso em acordos firmados junto aos seus sindicatos. “A convenção coletiva vai definir, desde que seja vantajosa para o trabalhador”, disse o ministro do Trabalho deixando claro que apesar de parecer péssima para o trabalhador, a flexibilização das leis trabalhistas, muito pelo contrário, vão ser ótimas.

Reforma Tributária
A legislação tributária brasileira, informam todos os especialistas no assunto, é extremamente complicada. O Governo Federal pretende, então, encampar uma reforma tributária para que todos continuem pagando a mesmas quantidade de imposto - talvez mais - só que de maneira mais simples. O objetivo é, adivinhem, gerar competitividade estimular o empreendedorismo e a congregação universal dos povos.
O vistoso portal Brasil 247 utilizou esta virtuosa montagem para ilustrar uma matéria sobre o assunto

Reforma do Ensino Médio

Há quase um consenso entre educadores e estudiosos da área de que é preciso mudar alguma coisa nas escolas brasileiras, para melhorar os índices de educação, diminuir a evasão escolar e realmente ensinar alguma coisa para estes jovens multiconectados dos tempos atuais. Há também um consenso de que esta mudança precisa ser amplamente discutida entre todos os profissionais da área, respeitando as necessidades específicas locais, dando amplitude para as mais diferentes opiniões. Infelizmente, o Governo Federal não entendeu desta forma e decidiu que era melhor editar uma Medida Provisória sobre o assunto.

O governo afirma que o objetivo é, adivinhem, flexibilizar seja lá o que for, o que nos possibilita chamar Temer de Michel, o Flexibilizador. Em uma propaganda na televisão, o Governo garante que o objetivo é melhorar a vida da população, apesar das impressões contrárias.

A reforma falha, sobretudo, em não adicionar a grade temas importantes como: utilização do Whatsapp (que deveria ocupar pelo menos metade da grade curricular atual, explicando entre outras situações que: quando você quer falar com uma pessoa, você pode mandar uma mensagem direto para ela, não precisa avisar em um grupo que quer fazer isso e que é infrutífero mandar bom dia para pessoa, esperar ela responder para perguntar tudo bem e só depois dessa resposta entrar no assunto desejado, desperdiçando metade da manhã), utilização das redes sociais em geral (certamente, as crianças tem que aprender desde cedo que mandar imagens de bom dia é um crime hediondo), verificação de veracidade dos fatos e economia doméstica.

Reforma da Previdência
Fila de espera do INSS

Há uma tendência mundial de envelhecimento da população, isso é verdade. Dois motivos basicamente impulsionam a idade média da população: a moderna medicina e os seus tratamentos cada vez mais inovadores que prolongam a vida de homens e mulheres; as pessoas têm cada vez menos filhos e em um médio prazo isso significa menos pessoas em idade ativa. Por isso, entende-se que realmente seja preciso fazer uma reforma, para evitar que pessoas se aposentem aos 55 anos e depois vivam mais 30 anos aposentadas - como é o caso do presidente Michel Temer.

A reforma se consiste basicamente em fazer com que as pessoas que hoje tem menos de 45 anos tenham que trabalhar até morrer para receber o benefício integral da aposentadoria. Ou, se aposentar recebendo menos dinheiro, o que é uma ótima solução, sem dúvida, para diminuir os gastos previdenciários. Em uma série de propagandas na TV, o governo alega que a reforma será ótima para a população, mesmo sem dar nenhuma informação sobre o seu funcionamento.

Reforma Política
Sem dúvida, uma das reformas mais discutidas em todos os tempos e que nunca irá acontecer, porque, entre outras coisas, pode diminuir o número de partidos políticos, encerrando vários postos de trabalho em um momento de crise econômica. Michel Temer disse que apoia a reforma política, sem chegar a dizer que reforma seria essa.

Reforma do Palácio Alvorada
Polêmica reforma que custou R$ 24 mil para instalação de uma tela que visava proteger a vida de Michelzinho Temer - definido como menino muito danado pelo seu pai. Após uma semana na nova casa, a família resolveu voltar para o Palácio do Jaburu, muito mais aconchegante, segundo fontes da família. Temer também classificou o Alvorada como muito distante, mesmo que o lugar fique curiosamente a menos de 20 minutos de caminhada do Jaburu.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Notícias do Tempo (1ª parte)

O calor finalmente havia chegado a Cuiabá. Esta é uma frase estranha de ser dita, uma vez que Cuiabá é notoriamente uma das cidades mais quentes do Brasil e o calor que faz por aqui chega a ser absurdo, surreal, inimaginável para os povos que vivem em outras civilizações.

No entanto, desde o fim de 2016 nós liámos as notícias sobre a onda de calor que invadiu cidades do sul e do sudeste. Parentes do Rio Grande do Sul passaram um natal desesperador naquela terra em que as pessoas não fazem um investimento consistente em aparelhos de ar-condicionado e ventiladores. Turistas assando em Florianópolis. Pessoas passando mal em São Paulo. As praias lotadas no Rio de Janeiro, com direito a dezenas de reportagens de jornalistas engraçadinhos que capricham nos trocadilhos caricatos. Até em Curitiba, vejam só vocês, Curitiba a capital nacional do frio inigualável, até lá estava fazendo um calor imprevisível.


Não que aqui em Cuiabá não estivesse calor, entendam, o calor é um estado natural para nossa espécie. Mas era um calor totalmente suportável, um calor até agradável e surpreendentemente menos quente do que nas cidades do sul e do sudeste. Estava sim é chovendo muito, a cidade enfrentava algumas das maiores tempestades jamais vistas por essas bandas. Andando pela minha vizinhança podia observar todos os meus vizinhos realizando obras estruturantes para evitar que suas residências fossem tomadas por alagamentos. Eu mesmo fiz isso, depois de chegar um dia e encontrar minha sala submersa em dois dedos de água. O gramado da minha casa vivia encharcado. Andava por ele sentido a água espirrando e já era possível perceber a terra por baixo da grama com uma aparência lodosa, como se estivesse sendo tomada por musgos, prestes a apodrecer.

No entanto, do calor nós não poderíamos reclamar. Era possível sair de casa e encontrar as ruas com receptivos 30 graus de temperatura. Passávamos o dia inteiro dentro dos ambientes climatizados em que trabalhamos, estudamos, ou, enfim, sobrevivemos. Quando chegávamos em casa de noite era possível tomar um banho e até sentir um frescor, dormir com ventilador como se nosso clima fosse civilizado. As contas de luz nunca estiveram tão baixas.

Bem esse tempo acabou. Não sei dizer exatamente qual foi o ponto de ruptura, mas deve ter sido na sexta-feira, primeira sexta-feira do ano em que nós nos olhamos e percebemos: estava muito quente. O fim de semana foi bastante sofrido, com pessoas enfurnadas em suas casas, abusando do ar-condicionado, indo aos shoppings centers para não extrapolar a conta de energia. O clima ficou um pouco mais ameno depois que mais uma chuva monstruosa caiu sobre a cidade, criando diversos rios urbanos por lugares onde antes havia avenidas. No domingo, novo dia de calor insano, procedido por mais uma chuva dessas que estão descritas na bíblia, que derrubou árvores, muros, gerou matérias emotivas no jornal matinal.

No domingo a noite o clima estava ameno, mas existia um calor entranhado nos objetos da casa, o que fazia a temperatura ambiente subir. Abrimos a janela para que ele se dissipasse e ainda foi possível dormir com alguma tranquilidade.

Acordei às 6h na segunda-feira para correr, como eu geralmente faço às segundas-feiras. Coloquei minha roupa e calcei meu tênis. Enquanto eu tomava o meu café da manhã, as minhas costas já estavam ensopadas de suor. Olhei pela janela e o sol ardia. O gramado estava finalmente seco e em alguns pontos parecia esturricado, como folhas de alface em um sanduíche quente. Pensei em desistir por um momento, mas acabei dando sequência a minha missão.

Minha expectativa era correr pelo menos seis quilômetros, quem sabe um pouco mais, dando duas voltas pelo trajeto que eu elaborei, passando por algumas subidas e descidas em frente aos condomínios da região em que moro. Em um dia normal, este seria um percurso que eu levaria 40 ou 45 minutos para percorrer, a tempo de chegar em casa, tomar um banho e me arrumar para ir ao trabalho.

Ganhei as ruas e logo após a primeira subida eu comecei a sentir minha testa quente e o suor escorrendo pelas pernas. Meu batimento cardíaco disparou como se eu já estivesse em um trecho final da corrida e eu mal havia completado meu primeiro quilômetro. Prossegui mais um pouco, completei o segundo quilômetro e já sentia que eu não mais corria, apenas me arrastava pelo chão. Mais ou menos na metade do terceiro quilômetro eu desisti, antes de completar a primeira volta. Cheguei a pensar em sentar no chão e lamentei que o teletransporte continuasse sendo apenas um elemento da ficção científica.

Voltei a passos lentos para minha casa, com o coração acelerado e com o corpo envolto em uma ilha de calor. Percebi que eu era a única pessoa que havia saído para correr naquela manhã, sendo que geralmente eu sempre encontro uma dezena de cidadãos se dedicando a atividade física ao ar livre. Lembrei que estávamos no dia seguinte a Corrida de Reis e muitos corredores amadores já haviam cumprido seu objetivo no ano e mereciam um descanso. Mais do que isso, muitos deveriam estar descansando, se recuperando depois de percorrer dez quilômetros no calor infernal que já fazia no domingo de manhã. Deveriam estar se hidratando ainda e não duvido que boa parte da chuva do dia anterior foi proveniente do suor que evaporou de seus corpos.

Cheguei em casa e fui a cozinha para beber dois copos de água. Senti um princípio de dor de cabeça, provavelmente provocado pela desidratação. Fui logo tomar um banho, que teoricamente deveria ser gelado, mas a água saiu morna dos chuveiros, provocando uma sensação desagradável. Sai do banho praticamente seco e me vesti. Percebi no relógio que, como minha corrida havia sido curta, eu ainda tinha uns 20 minutos de folga antes de ir para o trabalho. Liguei a televisão para assistir o Bom Dia Brasil, sempre naquela expectativa de saber se alguém já havia sido preso em uma nova fase da Operação Lava Jato.

Acompanhei as notícias esportivas desinteressantes dessa parte do ano e logo depois o clima pautou o noticiário. Como sou jornalista, sei que as matérias sobre o tempo ganham um destaque extra no começo do ano pela pura e absoluta falta de pautas. Recesso parlamentar, muita gente de férias, nada acontece de muito sério, feijoada. Por isso, assistimos matérias de seis minutos sobre o calor e a chuva, pessoas sofrendo com o suor e com a inundação. Não era muito diferente nesta segunda-feira, mas dessa vez eu até entendia. Realmente o calor correspondia aos atributos da notícia.

O noticiário se deslocou até o hemisfério norte. Os Estados Unidos enfrentavam a maior onda de frio dos últimos tempos. Nova York registrou 15 graus negativos. Um acidente com 20 carros que deslizaram no gelo fechou uma rodovia. Camadas de neve cobriam a Pensilvânia e uma das duas Viríginas, não sei qual delas direito. O repórter brasileiro informava que sentiu sua orelha congelada e se questionava se iria perder ela. Os moradores entrevistados blasfemavam contra o clima. Um deles afirmava que no Brasil é que as pessoas deveriam ser felizes, porque naquele frio ninguém conseguia ser feliz. O gelo provocava lama, que provocava sujeira. A situação parecia mesmo melancólica. O repórter brasileiro até havia aberto a matéria dizendo que os brasileiros estavam reclamando do calor, mas que eles lá também tinham o direito de reclamar. Realmente parecia que tinham.

Na sequência, Cecília Malan entrou direto de Londres utilizando um cachecol que me parecia um tanto quanto exagerado para um ambiente fechado e certamente com climatizado. Ela trazia notícias sobre o frio que também se abatera na Europa. Vinte pessoas haviam morrido na Itália e também na Polônia, quase todos moradores de rua. Londres sofrera com nevascas. Uma daquelas fontes milenares da Itália havia congelado e as imagens mostraram o gelo grudado melancolicamente naqueles pedaços de pedra. Para finalizar até mesmo as ilhas gregas estavam cobertas de neve. Lugares paradisíacos abençoados pelo sol eterno estavam congelados.

Ainda assisti a uma matéria daquele carinha de óculos que é correspondente no Japão, cujo nome eu nunca me lembro, mostrando a situação caótica em Pequim. A poluição havia chegado a níveis jamais vistos e o governo chinês resolveu criar uma espécie de polícia que iria prender civis que poluíssem o ambiente. Nem os churrascos seriam tolerados. O cara de óculos deu uma ênfase muito grande ao churrasco, o que talvez fosse um sinal de crise de abstinência. Não deve haver churrasco bom no Japão. As pessoas lá costumam a comer a carne crua mesmo. O jornal ainda anunciou para o próximo bloco: Alagoas enfrenta sua maior seca nos últimos anos, com imagens aéreas mostrando açudes secos. Calcei os sapatos e fui para o trabalho.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os melhores sambas-enredos de 2017

Neste fim de semana a Marques de Sapucaí será a passarela do samba e foliões do planeta inteiro se dirigirão até a Avenida para ver carros alegóricos aleatórios, fantasias cheias de pluma, referências bibliográficas duvidosas e muitas genitálias. Cumprindo uma tradição recente, o CH3 faz uma análise dos cinco melhores sambas enredos do sagrado/profano ano de 2017.

1) Mocidade Independente de Padre Miguel
Tradicional escola, apartada das conquistas desde que o seu patrono Castor de Andrade veio a óbito. Para este ano, eles tentarão em vão recomeçar uma era de conquistas com o tema “As mil e uma noites de uma Mocidade pra lá de Marrakesh”. O trocadilho maroto do título já antecipa a qualidade do enredo, explicado da seguinte forma pelo carnavalesco da agremiação: “Fizemos do Saara uma passarela, e no reino do Marrocos, o nosso conto transformou minutos em mil e uma noites de alegria e prosperidade, ao vestirmos a fantasia, tecemos um tapete mágico onde desfilaram os sonhos da Mocidade”. O Melhor trecho do samba: “Põe Alladin no agogô, tantan na mão de Simbad. Meu ouvido é de mercador”, uma união de fábulas infantis com instrumentos musicais, fechada com uma afirmação completamente desconexa da realidade.
Na fantasia criada pela Mocidade, Aladdin conhece o índio Papa Capim e juntos criam uma aliança global pelo planeta

2) Beija Flor de Nilópolis
A eterna campeã do carnaval avançará pela passarela com um enredo sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel, aquele livro chato pra cacete do José de Alencar que te obrigaram a ler no Ensino Médio e que até hoje é responsável por uma geração de pessoas que acham que não tem saco para a leitura. A letra é uma espécie de resumo simplificado rimado da obra dos quais dois trechos podem ser destacados: “pega no amerê, areté, anama” e “A jandaia cantou no alto da palmeira, no nome de Iracema, lábio de mel, riso mais doce que o Jati, linda demais cunhã-porã iterei, vou cantar jureme, jureme, jureme, vou cantar jurema, jurema. Uma história de amor, meu amor”. Vai pra cunhã-que-te-porã.
Iracema chega na Avenida dançando até o chão

3) Unidos da Tijuca
Escola responsável pela revolução carnavalesca dos últimos anos, ao misturar Michael Jackson com Ayrton Senna e samba, a Unidos da Tijuca desfilará o enredo “Música na Alma, Inspiração de uma Nação”. O tema aparentemente simples, capaz de ser preenchido por qualquer coisa se torna mais complexo uma vez que, por trás da generalidade do título, a intenção da escola é falar sobre um encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong nos anos 60. A partir deste encontro, eles resolvem encaixar todos os ritmos possíveis na letra, incluindo aqueles que não têm nenhuma origem com nenhum dos dois artistas, como a country music e o rock. Destaque para o refrão “Pura Cadência de bambas juntou guitarra e pandeiro”. Eram dois caras que tocavam instrumentos de sopro, não tinha relação com guitarra e pandeiro e além de tudo a letra evocou a expressão “bambas”, sempre devidamente ridicularizada neste blog.
A beleza da mulher em cima de carros alegóricos encantou estes dois famosos artistas


4) São Clemente
Agora a coisa começa a ficar séria. Esta escola que não é conhecida por nenhum motivo específico, resolveu apelar para o enredo “Onisuáquimalipanse” que é uma expressão em francês, ou algo do tipo. O nome do enredo já é ridículo e ele pretende retratar a vida e obra do rei Luís XIV, o rei sol. A letra, narra a trajetória do monarca como se estivesse sendo escrita por uma criança de 12 anos que acabou de aprender sobre o tema no colégio. “Daí então o ministro do tesouro, ergueu a peso de ouro, um palacete e convidou o soberano que encantou-se nos jardins com a beleza se mirando nas águas do chafariz. Foi assim que descobriu nessa festança que havia comilança em sua pátria mãe gentil”, que merda, não.
Réplica do Palácio de Versalhes

5) União da Ilha
Se há uma escola que se empenhou em construir um samba nonsense, cheio de referências místicas e inteligíveis, essa escola é a União da Ilha do Governador. O enredo “Nzara Ndembu - Glória ao Senhor do Tempo”, fala sobre o orixá do tempo e criou a peça literária mais complexa concebida desde o último livro do James Joyce. O começo já é suficientemente épico “Dos bantos nzambi o criador, giram ampulhetas da magia. Salve rei kitembo, nzara ndembu em poesia”. Imagino a arquibancada cantando isso. Ou então, “Sagrada é a raiz nzumbarandá, Katendê, segredos preserva e avermelhou, kiamboté nos fez caminhar na luta entre o bem e o mal, forjou kiuá, senhores sagrados irão celebrar kukuana é fartura, natureza a festejar, ndandalunda a me banhar”. A única coisa que eu consigo pensar sobre isso é: caralho.

A letra ainda cita Nzazi, Kalunga e Matamba, até explodir no refrão que será cantando a plenos pulmões pelo público enlouquecido:
êh êh no girê, êh no girê
macurá dilê no girá
é o tempo de fé, união
o tambor da ilha a ecoar
Nzazi, Kalunga, Matamba, Katendê, Kiuá, Kukuana, Kiamboté, Ndandalunda, Nzara Ndembu e seus bluecaps

Inesquecível.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Seis filmes que inexplicavelmente concorreram ao Oscar

Será que daqui alguns anos sentiremos vergonha de La La Land? Será que vamos olhar para seu título escroto, finalmente perceber que ele é um filme com pessoas cantando e pensar como é que esta porcaria fez tanto sucesso? Como ele foi capaz de ganhar todas as premiações possíveis e aquelas que foram inventadas apenas para contemplá-lo?

Pode parecer uma heresia nos dias atuais, mas eu sempre me lembro de Titanic que no primeiro semestre de 1998 era facilmente apontado como a maior façanha já produzida pelo homem em todos os tempos e que hoje é um filme que nos causa um pequeno constrangimento. Ganhou 11 Oscars, mas isso não significa muita coisa.

Pensando nisso, o CH3 elaborou esta lista, com seis filmes que concorreram ao Oscar e, caramba, como é que isso aconteceu?

1) O Artista (2012)

A história de um ator de cinema mudo que vê sua carreira entrar em declínio a partir do momento em que as películas passam a ser faladas. O argumento do roteiro não seria dos piores, mas o diretor resolveu fazer um filme mudo, igual aos da época em que se passava o filme. Uma paródia vagabunda, provavelmente o primeiro filme premiado no Oscar por ser assumidamente ruim. Cinco anos depois, duvido que alguém o assista impunemente.

2) Avatar (2010)
Meu saudoso amigo Dyolen desenvolveu uma teoria interessante. Segundo ele, Avatar seria um bom entretenimento, caso ele fosse rodado no dobro de velocidade, efeito que pode ser simulado em aparelhos de DVD.
Avatar foi um dos filmes mais caros da história e inaugurou a era do cinema 3D, 4K, ou qualquer outra sigla que signifique imagens ultrarrealistas, alta definição e a sensação de estar dentro da tela. No entanto, a história do conflito futurístico em um planeta imaginário de seres azuis e suas três horas de duração fazem com que Avatar seja o filme mais chato da história e um desperdício de dinheiro. Ok, deu um trabalho monstruoso pro cara fazer esse filme, mas tem muita gente há anos ai se esforçando para fazer merda e que não ganha prêmio nenhum.

3) Seabiscuit (2003)

Não sei dizer qual é o motivo, mas o pessoal do Academy Awards tem uma queda por cavalos. Todo e qualquer drama que envolva um cavalo em um papel central já é candidato ao prêmio. Cavalos amigáveis, cavalos selvagens, superação de desafios na relação humano-animal, tanto faz o plano de fundo. Seabiscuit, um cavalo que fez sucesso durante a grande depressão norte-americana, é uma história legal para a Sessão da Tarde, mas o fetiche equino da Academia o levou a disputar o prêmio de melhor filme. Perdeu, é lógico.

4) Shakespeare Apaixonado (1999)

Um triângulo amoroso envolvendo Shakespeare, que passava por um período de bloqueio de ideias. Uma comédia romântica boba, daquelas que jovens casais vão ver no cinema para ter um desculpa de se pegar na hora em que as luzes de apagam. Esta porcaria ganhou sete Oscars derrotando o Resgate do Soldado Ryan e a Vida é Bela. Indefensável.

5) Babe – O Porquinho Atrapalhado (1995)

Eu assisti Babe quando tinha nove anos de idade e naquela época eu não fiquei impressionado. É um filme infantil besta como são muitos filmes infantis, talvez ainda mais bestas que outros filmes do gênero. Não há uma explicação lógica para que a história do porquinho que quer ser pastor e faz amizade com outros animais tenha concorrido ao Oscar de melhor filme. Caralho gente, é um filme de animais falantes! O pessoal de Hollywood deve ter fumado muita maconha nesse ano.

6) Ghost do outro lado da vida (1991)

Ghost é um filme que faz muita sucesso com algumas tias suas, pode ter certeza. Apaixonadas pelo Patrick Swayze defunto, muitas mulheres choraram ao ver a cena do molde de barro ao som dos Righteous Brothers cantando Unchained Melody (ooohhh, my looooove). Esta é, certamente, uma das cenas mais bregas da história do cinema mundial, que coroa mais uma atuação pavoroso do Swayze. Demi Moore está tão convincente quanto uma atriz de malhação e só a Whoopi Goldberg confere alguma graça ao filme. O roteiro rocambolesco – o cara é morto por descobrir uma fraude na empresa e seu fantasma fica vagando por aqui para tentar a vingança – cenas incrivelmente sombrias e mal feitas de espíritos agarrando as almas penadas e uma cena final que, caralho, a cena final é inacreditavelmente ruim. Esta porcaria concorreu ao prêmio de melhor filme e ainda ganhou o Oscar de melhor roteiro, mostrando que nem sempre dá pra levar a Academia a sério.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Agendando a Consulta

08 de fevereiro de 2017

- Clínica Saúde & Vida, boa tarde.
- Boa tarde, eu queria marcar uma consulta com o doutor Alcides.
- Pois não, qual é o convênio?
- Unimed. Se tiver algum horário para o início da tarde é melhor.
- Eu vou ter para o dia 14 de março, às 14h30, pode ser?
- Só dia 14? Não tem nenhuma data antes, em qualquer horário?
- A agenda está lotada senhor, mas se abrir uma vaga antes eu ligo para o senhor.
- Ok, eu fico no aguardo.
- Talvez o doutor cancele uma viagem que ele vai fazer em maio e eu possa antecipar.
- Maio? Mas maio fica depois de março.
- Ah, não, não, sua consulta é para 14 de março de 2018.
- Só tem vaga para o ano que vem?
- Sim, agenda cheia. O senhor está com sorte, porque essa vaga abriu hoje. Uma paciente que aguardava para fazer o risco cirúrgico morreu. A próxima data disponível é só em 26 de setembro.
- Uau
- De 2021
- Então tá bom. E para agendar os exames necessários?
- Precisamos aguardar o doutor fazer a consulta, para ver o que é necessário e jogar as solicitações no sistema.
- Tudo bem.

13 de março de 2018

- Boa tarde, neste telefone eu falo com o senhor Rodrigo?
- Sim, é ele.
- Aqui é a Fernanda do consultório do doutor Alcides, tudo bem com o senhor?
- Tudo sim.
- Estou ligando porque você tem uma consulta agendada com o doutor para amanhã, às 14h30.
- Ah, é verdade.
- Então. Estou ligando para estar informando que nós tivemos um imprevisto e a consulta vai atrasar um pouco. Se você puder ligar no dia 3 de abril para confirmar o horário eu agradeço.
- Tudo bem.

03 de abril de 2018
Temos poucos pacientes na sua frente

- Clínica Saúde & Vida, bom dia.
- Bom dia, aqui é o Rodrigo, eu tenho uma consulta marcada com o doutor Alcides, que era para o dia 14 de março e você me pediu pra ligar hoje para confirmar o horário.
- Ah sim, qual é o seu nome mesmo?
- Rodrigo. Rodrigo andrade
- Rodrigo, tem 16 pessoas na sua frente, você pode chegar aqui amanhã lá pelas quatro da tarde.

04 de abril de 2018, consultório

- Boa tarde, eu tenho uma consulta agendada. Rodrigo Andrade, meu nome.
- Ok Rodrigo, me passe o seu documento por favor.
...
- Rodrigo, o doutor precisou sair para fazer quatro cirurgias de emergência, mas ele logo volta. Tem só seis pessoas na sua frente.

(Doze horas depois, o médico chega).
- Rodrigo vamos fazer os exames, pra já ir adiantando.

Às 13h26 do dia 5 de abril de 2018, Rodrigo é finalmente atendido. A consulta demora nove minutos, tempo no qual o médico pergunta qual é a profissão do paciente (arquiteto) a razão da consulta (check up de rotina. O paciente completei 30 anos há dois anos atrás e achou por bem verificar como estava a sua situação), faz comentários genéricos sobre os exames realizados durante a espera e pede a realização de outros exames.

O paciente Rodrigo se embrenha por um lodo de exames a serem realizados. Conseguiu fazer o exame de sangue três dias depois, após um jejum de 14 horas (sim, o recomendado é 12 horas, mas demorou um pouco), depois de quatro meses conseguiu agendar uma ultrassonografia e em 16 de setembro de 2023 conseguiu retornar ao médico e descobrir que sua saúde estava ótima em 2018.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Miss Sem Fronteiras

A mais antiga e divulgada lenda envolvendo as mulheres que pretendem concorrer ao cargo de “Miss” alguma coisa, é a de que elas obrigatoriamente haveriam de ter lido o livro “O Pequeno Príncipe”. Há uma razão para esta estranha ligação literária. Por trás da beleza flagrante, os concursos de misses buscam escolher uma mulher dita perfeita, que alie a beleza ampla e irrestrita com um vasto conhecimento intelectual.

Por essas razões, tradicionalmente as fases finais dos concursos de misses contam com algumas perguntas capciosas, para testar os conhecimentos gerais das candidatas. Geralmente são perguntas genéricas sobre a felicidade global e outros temas que eram testados em oficinas de redação de vestibular.

“Qual é o seu livro favorito” é uma das tradicionais perguntas feitas às mulheres. Afinal, livros são um sinal de cultura, cultura é sinônimo de conhecimento intelectual, pré-requisito para alguém ser miss universo. O Pequeno Príncipe logo se consolidou como uma resposta favorita das candidatas, pelo fato de ele se situar numa zona mista de conhecimento.

Ninguém iria dizer que adorava uma subliteratura qualquer, um livro de autoajuda ou um best-seller vazio do momento, sob o risco de ser eliminado. “Aí, adoro Sidney Sheldon”, sinto muito, mas você não será a mulher perfeita que servirá de exemplo para toda a humanidade. Por outro lado, ninguém vai se arriscar a afirmar que adorava a obra de Dostoievski – no original, ou que leu Ulysses três vezes. Vai que o jurado manda você explicar a obra? Sonho terminado.

O Pequeno Príncipe, por outro lado, é um livro amplamente conhecido, mas com algum grau de respeitabilidade. Não é uma obra para retardados, mas não chega a ser complexo. Além disso, ele agrega valores como “generosidade”, “fraternidade”, “congraçamento dos povos mundiais”. É só soltar aquele papo de cativar daqui, se mostrar ansioso pelo sua presença por lá e ninguém precisa prestar atenção na viagem psicotrópica deste garoto que conversa com raposas sentimentais.

No entanto, os tempos mudaram e o mercado se mostra muito mais competitivo. Hoje em dia, não basta convencer os jurados com algum conhecimento básico literário e meia dúzia de frases cativantes decoradas de um best-seller. As candidatas se aprimoraram.

Neste último domingo, as Filipinas receberam a final deste tradicional concurso. Por trás de todas as escolhas relacionadas aos trajes de banho, vestidos de gala e roupas tradicionais, o concurso mostrava um pouco da história das mulheres que avançavam na disputa.

Havia sobreviventes de terremotos, mulheres que lutaram na guerra, que perderam parentes por razões terríveis, que passaram fome, que trabalhavam para descobrir a cura da cegueira. Quase todas desempenhavam funções sociais, acolhiam crianças carentes. Mais do que um concurso de beleza, o Miss Universo hoje é uma disputa de protótipos de Madre Teresa de Calcutá.

As perguntas também se mostraram extremamente complexas: “quais pontos você considera como negativos e positivos no mandato de Donald Trump”. Uau, ter que pensar em um ponto positivo para isso? Outra pergunta discutiu o fechamento de fronteiras. Complexo.


Como a tendência das coisas é só evoluir, imagino que nos próximos anos as perguntas fiquem ainda mais difíceis. “O que você acha da política aduaneira no canal do Panamá?”. “Como impedir o avanço do tráfico de nióbio?”, “qual é a sua opinião sobre o controle de natalidade enquanto política de estado para impedir o desemprego?”, perguntas quase impossíveis de serem respondidas.

Certamente as misses terão formações ainda mais avançadas. Mulheres que trabalham com fissão nuclear para a criação de próteses, na defesa da costa somaliana contra os ataques piratas, resgatando peixes abissais feridos, trabalhando para acabar com a fome mundial, oferecendo wi-fi gratuito em comunidades distantes subsaarianas, preservando a vegetação nativa do Malawi, em um laboratório de observação da pós-verdade.

Enfim, chegaríamos a conclusão de que se todas as candidatas se organizassem em uma ONG intitulada Misses Sem Fronteiras, os problemas do mundo acabariam.