domingo, 8 de novembro de 2009

Pessoas Constrangedoras, volume 1

Pessoas que conversam com outras pessoas desconhecidas

Pessoas constrangedoras estão espalhadas em nossa sociedade. Elas podem estar em qualquer lugar. No supermercado, na mercearia, na quitanda, na quermesse, na funerária ou ao seu lado. Ou, essa pessoa pode ser você. Nessa nova série do CH3, iremos abordar, ou melhor, discorrer sobre essas pessoas. Porque abordar por si só já pode constranger.

Pois bem, o que são as pessoas que conversam com outras pessoas desconhecidas? O nome já não foi o suficiente para explicar? São pessoas que conversam com outras pessoas, que elas não conhecem. Existem algumas situações freqüentes que explicam bem por que esse tipo de pessoa é constrangedora.

Situação 1: no ônibus, no avião
A pessoa, que chamaremos de pessoa desconhecida está já sentada no banco, com um lugar vago ao lado. A pessoa constrangedora chega.
- Oi, posso me sentar aqui.
- Pode.
- Que bom, meus pés estão me matando.
- ...
- Você é aqui de Cuiabá.
- Sim.
- Hmm, e tá indo pra onde.
- Pra casa.
- Hmm sim. Cheio não?
- É.
- O ônibus, cheio, não?
- Sim.
- Você não gosta de conversar?
- Bem... não é isso.
- Ah sim, porque se eu estiver te incomodando é só falar que eu paro.
- Não, não.
- Ah sim. É casado?
- Olha, meu ponto chegou. Tchau.
- Tchau, foi um prazer.

Situação 2: em uma fila
A pessoa desconhecida está na fila do banco, com outras 10 pessoas a sua frente. É quando a pessoa constrangedora chega.
- Essa é a fila do caixa?
- Sim.
- Tem que pegar senha?
- Não.
- Fila grande, não?
- Pois é.
- Ai, pena que eu tenho que pagar hoje.
- Pois é né.
- Bom que pra passar o tempo a gente conversa né, hehe.
- É, he.
- Veio fazer o que aqui?
Notem que nessa situação não há a escapatória do ponto ter chegado. Para a pessoa desconhecida existem dois caminhos. A primeira é continuar no monólogo. Respondendo no máximo três palavras por vez e torcer para que a fila ande rápido. Ou então, partir para o ataque. Isso poder ser feito
Dando uma resposta cruel.
- Pagar a conta do caixão do meu pai, da minha mãe e dos meus três irmãos que morreram.
- Nossa, do que?
- A polícia acredita que foi um acidente. Mas eu matei eles. Com minhas próprias mãos. E não senti nenhum remorso. Eu poderia fazer isso com QUALQUER pessoa.
Dando uma resposta nonsense.
- Lavar minhas cuecas.
- Mas aqui não é uma lavanderia.
- Pena. Mas vou lavar assim mesmo.
Sendo uma pessoa constrangedora também.
- Pagar telefone e você?
- Pagar a conta de luz.
- E você gosta disso?
- Do que?
- De pagar conta de luz, ela é alta?
- Bem...
- Deixe me ver. (tire a conta de luz da mão da pessoa). Sim, é alta. Deixando muito a luz ligada de noite?
- É... não.
- O que você está fazendo para gastar essa luz toda, heim?

Fingindo que foi atacado por uma doença repentina, que o deixou mudo e surdo.
(não existe dialogo para essa situação)

Situação 3: Uma situação boba qualquer
A pessoa desconhecida está no supermercado observando alguns biscoitos amanteigados. Ao seu lado duas amigas conversam. A pessoa desconhecida olha para o lado, fitando o nada, para ver quem está conversando, sem nenhuma maldade no coração. Mal sabia ela que essa é uma pessoa que conversa com pessoas desconhecidas. E quando a amiga vai embora é que tudo começa.
- Era uma amiga minha.
- Oi?
- Ela era uma amiga minha, faz tempo que eu não via ela.
- Ahn...
- E eu gosto muito dela, mesmo. Mas fazia tempo que eu não via ela.
- Ah sim.
- E nossa, foi muita sorte ter encontrado ela hoje, justo hoje.
- É...
- Nossa, impressionante as coisas que acontecem na vida, não é.
- É.
Nesse caso o que a pessoa queria mesmo, era ser sincera.
- Olha, eu não estou nem um pouco interessado em saber sobre a sua vida infame e desinteressante. Eu só estou olhando a porra duns biscoitos amanteigados e se você puder me deixar fazer isso em paz, eu agradeceria ok?

É claro que existem outros tipos de pessoas constrangedoras. Mas nós iremos falar sobre elas apenas em posts futuros.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Linchem-na! Queimem-na!

O boletim de ocorrências da delegacia de São Bernardo do Campo do último dia 22 de novembro relatava algo como: “As 21 horas uma viatura foi chamada até a Uniban para que pudesse retirar em segurança uma mulher de 20 anos que estava sendo hostilizada por outros indivíduos”.

Esse é o caso da estudante de turismo da Uniban, Geysi Arruda, que ao ir a faculdade utilizando um vestido rosa provocou uma rebelião entre seus colegas. Segue o relatório “muitos indivíduos se direcionaram até a sala onde a estudante estava para gritar palavras ofensivas”.

Não há dúvida de que o vestido utilizado por Geysi era curto, provocante e quiçá inapropriado para se freqüentar uma universidade. Ela poderia ter ido de calças jeans? Poderia.

Mas é fato também que no mundo em que eu conheço, eu jamais vi algo parecido. Se na faculdade onde eu estudei alguma garota fosse vestida assim, o máximo que aconteceria seria olhares indiscretos. Talvez alguém se excedesse no olhar e chegasse a fazer um comentário como “shhhh ah lá em casa!”. Mas provavelmente o autor do comentário seria mais recriminado do que a que o provocou. Conversando as pessoas ainda poderiam comentar "que roupa de puta".

Imagino que se Geysi passasse em frente a uma construção cheia de pedreiros abstêmios, ela receberia comentários maldosos e seria estuprada com os olhos. Mas não imagino que os pedreiros puxassem um coro de “puta, puta, puta”. Aliás, não imagino uma cena do cotidiano em que isso possa acontecer.

Já vi no colégio, e já participei assim como todos os homens de hoje em dia, dos coros de “bicha, bicha, bicha”. Já vi no jornal notícias de pessoas que cercaram bandidos. Já li notícias de mulheres linchadas na Arábia Saudita por terem olhado para um homem casado. Mas nunca vi nada relacionado a brados de puta na nossa sociedade democrática. É até meio difícil imaginar isso em uma faculdade, lugar de uma minoria.

As prostitutas estão em todos os lugares. E pode parecer que não, mas várias tem uma vida normal. Elas fazem compras, algumas estudam. Não imagino um grupo de clientes chamando uma menina de short curto de puta. Nem imagino pessoas se organizando para ir as zonas de meretrício para hostilizar prostitutas verbalmente. Mas, imagino até que muitos dos homens participantes dessa manifestação já fizeram uso dos serviços de garotas de programa.

Mas a cena é realmente surreal. As imagens mostram a menina entrando na sala já sobre os gritos de puta. E na seqüência uns... trezentos, talvez, alunos correm em direção a sala, abrem janelas. Tudo para o que? Para chamar Geysi de puta. É irreal imaginar que a vontade de chamar alguém de puta fosse tão grande assim.

Não sei se a Uniban é a Esparta brasileira. “Minissaia? Isso é a Uniban! Voadora no peito”. Ou se eles são uma espécie de Inquisição Espanhola. Casal andando de mãos dadas são agredidos verbalmente. Casais que se beijam são obrigados a se casar. Um ambiente de constante vigília e punição.

E então trezentas pessoas filmam uma cena patética e agressiva. Onde entre outras coisas dá pra escutar “ih, ali, ela tá chorando! Dane-se! Puta! Puta!”. Colocam isso no youtube, talvez orgulhosos. As pessoas assistem a cena e pensam “que bizarro, isso não faz sentido”. E os alunos se revoltam com a repercussão do caso. Queriam que seus atos Inquisidores passassem desapercebidos. Então, era mais fácil não filmar e não colocar no youtube.

Depois os alunos voltaram as aulas, com nariz de palhaço. E muitos ainda diziam “ela mereceu mesmo!”. É quase como aquela história “ela sabe porque foi estuprada”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sobreviventes

*ou, um post motivacional.

Pela primeira vez na história o CH3 faz um post para te motivar. Porque? Porque a verdade é que nós somos sobreviventes. Pode parecer que não, mas nesse nosso caminho, desde que éramos um simples espermatozóide, até hoje, poderiam ter fracassado em vários momentos.

Pense que o ambiente em um testículo é um tanto quanto competitivo. Milhões de espermatozóides, um do lado do outro, sabendo que apenas um, ou talvez dois, teriam futuro. Você poderia ter sido desperdiçado em várias oportunidades preliminares. E no momento em que você teve a chance, você conseguiu! Sim, você foi o mais rápido. Ninguém te superou. Você foi o Usain Bolt dos espermatozóides.

Enquanto você estava no útero materno, você teve várias chances de morrer. O óvulo não poderia se fixar. Sua mãe poderia ter tomado alguma substância abortiva, sem saber que já estava grávida. Ela poderia ter tido uma dor de dente, e o raio-x seria fatal para você. Nas aulas de biologia você aprende o tanto de coisas que poderiam te matar durante a gestação e são tantas coisas, que é surpreendente que isso não tenha acontecido com você.

E você é composto por milhares de genes. E nós sabemos que genética é uma merda. Se apenas um deles tivesse falhado, você teria problemas. E na genética, nós só herdamos coisas ruins. Pressão alta, colesterol, pedra no rim, diabetes, tendência a calvície. E outros problemas que poderiam te matar.

Você nasceu. E era um organismo frágil. Você poderia ter morrido sufocado quando regurgitou. Dormindo de barriga pra baixo. Qualquer coisa poderia te atingir acidentalmente e você não conseguiria fugir. Você cresceu em um mundo cheio de bactérias, vírus e fungos. E por uma sorte incrível, nenhuma delas te matou.

Você foi ao colégio. E lá sobreviveu a qualquer trauma psicológico. Você, garoto, sobreviveu a sexta série! Você praticou esportes e nenhum deles foi capaz de te matar. Você teve brinquedos perigosos, pontiagudos. Você não se engasgou com tampas de caneta, não sufocou com balas soft, não engoliu peças pequenas. Não caiu do telhado, ou da árvore. Não bateu a cabeça no fundo da piscina.

Depois, você começou a sair de casa e ir a festas. Você sobreviveu primeiro ao papo de peru. Você sobreviveu ao barata voa. Sobreviveu a demência de qualquer bêbado, que poderia fazer alguma coisa. Sobreviveu ao álcool.

Você começou a dirigir. E sobreviveu ao trânsito! Isso é formidável. Seu carro nunca quebrou nenhuma de suas milhares de peças, que se quebradas poderiam te arremessar contra um poste. Você jamais foi atingido pelo tanto de pessoas que dirigem muito mal e estão a solta no meio da nossa sociedade. E se isso aconteceu, o cinto de segurança, ou seja lá o que for, te salvou.

Você sobreviveu a possibilidade de contrair doenças venéreas. Você nunca esteve em um lugar onde um maníaco homicida surtou. E ele poderia estar no banco, na farmácia ou até mesmo dentro da sua própria casa. Você passou imune aos acidentes domésticos. Um asteróide jamais caiu na sua cabeça. Você não se engasgou com um caroço de azeitona. Nenhum animal resolveu te atacar de maneira fatal. Um raio não caiu na sua cabeça. Você não foi atropelado. O seu ventilador não desgrudou do teto e te atingiu enquanto você dormia. O prédio onde você estava não desabou. Nenhum erro médico te atingiu. Você não foi mal interpretado por um psicopata. Você não foi vestido de bermuda e chinelo no shopping Goiabeiras. Uma bigorna não caiu na sua cabeça.Você não foi atingido por uma bala perdida. Seu microondas não causou estranhas reações em um mosquito. Você não foi confundido com um boneco de Judas.

São tantas, inúmeras e variada situações que poderiam ter te matado desde que você começou a existir, que é até surpreendente que você esteja vivo. Por isso, você pode se orgulhar. Você sobreviveu a viver.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Guia CH3: Como citar obras inexistentes

Existem muitas maneiras de ganhar uma discussão com alguém. Trazer vários amigos seus, para que eles apóiem cada fala sua em detrimento do adversário, estudar as mais modernas táticas psicológicas para destruir a alma do seu oponente com apenas um olhar, ou ainda, simplesmente, partir pra porrada pura e simples, desde que você seja mais forte e ágil.

Mas existe uma maneira que é muito mais eficiente. É uma tática que pode ter sua origem, ou talvez, um exemplo bem claro, nos debates políticos. Trata-se de citar obras inexistentes. Vá dizer que nos debates políticos, não é (ou, não era) um grande momento quando um dos candidatos pegava um calhamaço de papel debaixo de sua mesa e dizia “tenho aqui provas irrefutáveis de que vossa excelência excedeu os gastos!”. A tensão era criada no ambiente e o candidato do calhamaço seria o claro vencedor do debate.

Mas, vocês por algum acaso já viram o conteúdo desse calhamaço se tornar público? Ou que a acusação feita pelo oponente repercutisse na imprensa nos dias seguintes? Não. O calhamaço estava ali apenas como uma figura simbólica de uma grave acusação.

A verdade é: suas palavras e seus argumentos se tornam muito mais fortes se você se embasar em obras de terceiros, ou em figuras que demonstrem o que você quer dizer. Mas é muito difícil que você tenha um calhamaço de papel durante uma discussão sobre a existência de vidas em outros planetas. E você também corre o risco de que seu debatedor diga “me deixa ver isso”. E que ele encontre seu trabalho de psicologia da comunicação no meio daquela papelada.

Então, nesse caso, o mais fácil a se fazer é citar obras de terceiros. Porque seu oponente jamais terá a coragem de negar o que foi dito por uma pessoa que teve o trabalho de escrever um livro sobre o assunto. E ele jamais terá como provar ali na hora que o autor não existe. Você ganhará a discussão e ainda poupará seus punhos.

Uma maneira bem fácil é citar um documentário. Quer algo mais vago do que um documentário? Hoje em dia trocentos documentários são lançados por dia. E devem existir sobre os mais variados assuntos. Imigração Búlgara da década de 40, o sexo dos castores. Você pode ter visto esse documentário na internet, ter baixado ele de uma única fonte no Soulseek, ou ainda, ter visto de madrugada no Discovery. “Mas, uma vez eu vi um documentário que dizia que existem fungos que se adaptaram a sobreviver na beira de vulcões. Em uma condição inóspita. Poderia existir alguma forma de vida que se adaptasse em condições consideradas, para nós, adversas, em outros planetas”.

Citar um livro também é bom. Diga que você leu o livro de um escritor francês, faz muito tempo, que você não se lembra direito o nome dele, mas que era algo como Pierre Lovèrdam, e que ele dizia exatamente isso que você está falando. Que a fragmentação da pós modernidade é resultado dos acontecimentos do pós guerra na Polônia.

Um vídeo no youtube também é uma boa fonte. “Mas, to te dizendo. Tem no youtube o discurso do Obama falando que ele irá roubar a Amazônia dos brasileiros. E ele diz também que seu filme favorito é o Pequeno Príncipe”. A pessoa irá procurar no youtube, e não irá achar. Mas ele pensará que a culpa é dele, por não ter capacidade de procurar direito.

Uma entrevista em uma revista também. “O Fernando Henrique disse em uma entrevista para a revista Balacobaco, que a melhor coisa em ser presidente, é poder se besuntar na Granja Comary”.

Existem, porém, citações que não devem ser feitas. Se você as fizer, elas poderão te fazer perder a credibilidade. Falar que você recebeu por e-mail, informações de um homem que perdeu os dois rins e acordou em uma banheira de gelo. Não, não dá certo. Tente também evitar dizer que você leu isso em um blog, porque em blogs qualquer lunático pode escrever qualquer besteira que vem na cabeça dele. Geralmente as mentiras são facilmente identificadas, mas infelizmente existem pessoas que tem dificuldade em interpretar. E existem lunáticos que escrever coisas absurdas, mesmo.

sábado, 31 de outubro de 2009

Capiodicofobia

Está é uma fobia normal na nossa sociedade contemporânea. Trata-se da fobia de que o seu nome se torne popular. Como o seu nome se torna popular? Simples, se ele estiver em uma música que toque bastante nas rádios. Ou que seja o nome do personagem principal da novela. E porque alguém teria medo disso?

Bem, imagine como era a vida de uma Carla quando aquela música do LS Jack fez sucesso. Qualquer lugar que ela fosse escutaria “Oh Carla!”. Ou as Inaras escutando “Inara, Inara, Inaraí, Inaraí, Inaraííí”. Ou ainda o tanto de Renatas que foram chamadas de ingratas. É ou não é um motivo para se ter medo.

O mesmo acontece se o seu nome virar o nome de algum personagem principal da novela. Imagine quantas Floras não tiveram problema para arrumar um emprego depois, ou durante a novela. Assim que ela chegasse para uma entrevista de emprego, ou dinâmica de grupo e dissesse “Oi, meu nome é Flora”, várias piadinhas infames já seriam ditas. “O, ainda bem que não tem nenhuma Donatela aqui”.

O mesmo acontece em menor grau com atores famosos.
- Oi, meu nome é Luiza...
- Hmm, Luiza Brunet?


No caso de você ter sobrenome de famoso também.
- Hmm, Guilherme Blatt, é parente do Caio Blat?
Essa pergunta me é feita sempre que eu preencho algum cadastro, tenho que mostrar algum documento. A resposta varia de acordo com o dia.
- Hehehe, não.
- Sim, ele é meu filho, posso não parecer, mas na verdade eu tenho 58 anos.

Esse medo acontecia também no colégio. Era sempre assustador para qualquer Carlos quando o livro de história aberto na página 37 falava do Rei Carlos V da França. Todos ririam e diriam apontando para o Carlos “ahhh, Rei Carlos”. É impressionante, mas, crianças tem a incrível capacidade de apontar para outras e dizer “ahhh” seguido de alguma coisa, que pode ser provocativa ou não.

Essa fobia está ainda mais comum graças a maligna propaganda do toque de celular personalizado. Aquele, que se você mandar uma mensagem SMS para tal número, com o seu nome, receberá um toque personalizado. E você poderá ficar dançando enquanto uma música “Pedrinho, te ligam, Pedrinho, te ligam” toca. Imagino como será essa música para um caso de “Reineclaudislene te ligam, Reineclaudislene te ligam”.

Se você ainda não sofria dessa fobia, é provável que a partir de agora, sofra.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dossiê Activia: Parte 2, o direito de resposta

O assunto estaria esquecido. Era apenas mais um post na história do CH3. No caso, o post de número 444, sobre a polêmica do iogurte Activia. Seria ele feito a base fezes de grandes animais? Seria ele bom? Ele funciona? Suas propagandas são engraçadas? Constrangedoras? Pois bem.

O assunto estava realmente esquecido. Até o dia 19 de outubro de 2009 as 16h10. Foi nesse horário que Aline Almeida da Ketchum Estratégia entrou em contato com o blog, por e-mail. O que ela queria? Ela trabalha para essa empresa que faz assessoria da Danone. E ela queria esclarecer alguns pontos sobre a postagem.

Como nós somos um blog pretensamente de humor, não demos bola a princípio. Se não fosse por um detalhe. No fim do e-mail ela pedia para que as informações do e-mail também fossem publicadas em nosso veículo. Sim, em nosso veículo. O fato de o CH3 ter sido pela primeira vez chamado de veículo mexeu com nossos brios. Massageou os nossos egos. E então, para Danone do Brasil, a oportunidade bate em sua porta.

Vamos começar pelo começo então. Tudo começou no dia 6 de outubro, quando eu recebi um e-mail de uma amiga. Não citarei seu nome em respeito à ética jornalística. Ela re-encaminhou um e-mail de uma fonte sua, para falar sobre os e-mails conspiratórios. Ela me sugeria que o assunto poderia dar um post para o CH3.

A fonte no caso é um terapeuta, que defende o estilo de vida saudável. Judeu, vegetariano, santista e abomina o pão branco. O título do e-mail original é “O que é Activia?”, contendo um texto assinado pela nutricionista paulista Marília Duarte. A idéia do texto é que os bacilos DanRegularis são bactérias retiradas das fezes humanas, e o iogurte te faz cagar porque irrita o seu intestino. Talvez você já tenha recebido esse e-mail.

O texto é como tantos textos que você recebe em seu e-mail. É igual acordar na banheira com gelo e sem os rins, ser assaltado pelo vendedor de perfumes. No mundo da internet a coisa mais fácil do mundo é juntar um monte de informações sem valor, assinar como se fosse um especialista na área e mandar por e-mail. Ninguém vai parar pra conferir se as informações tem sentido, ou se a pessoa que escreveu realmente existe. O botão de encaminhar é mais rápido.

Nós mesmos, do CH3 sabemos como isso é. Uma vez que alguns textos nossos vão parar no Yahoo Respostas e em trabalhos de crianças de terceira série. Tudo isso no fundo é parte do mundo dos Leitores Que Não Lêem.

O e-mail ainda tinha mais um texto, de Patrício Jr, contando as suas experiências ao fazer o teste do Activia. É um texto de certa forma engraçado, com passagens brilhantes como “Passei, como posso dizer, a gaseificar fervorosamente os ambientes pelos quais circulava”, “um cheiro que posso descrever como o de um burro morto por envenenamento com creolina e enxofre”.

O texto então foi publicado no CH3, e imagino eu, que o blog não tenha propagado teorias conspiratórias adiante. Recebemos o e-mail, nosso ego foi massageado e começamos a pensar na resposta. E hoje é foi o dia escolhido.

Tudo porque ontem, no jornal da TV Centro América, uma matéria que durou cerca de 10 minutos falou sobre o tema da dificuldade de evacuar. Pessoas respondiam sobre a sua dificuldade em ir ao banheiro, sobre o mau humor da prisão de ventre que as deixavam enfezadas (perceberam a origem da palavra?). E a apresentadora do jornal estava muito empolgada com o assunto, demonstrando claramente que ela sofre de prisão de ventre. O interesse dela em saber sobre os efeitos do mamão foi comovente.

O médico entrevistado alertou para a importância de notar o aspecto das fezes e também da força necessária para o ato. Tudo isso na agradável hora do almoço.

Voltamos ao direito de resposta. A Danone gostaria de esclarecer que:

- A Danone tem conhecimento dessas informações que circulam por aí. Portanto, se vocês acham que eles não sabem, estão errados, porque eles sabem.
- A nutricionista que assina o texto do e-mail não existe no Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo. Ou seja, o texto deve ter sido feito por um Ghost Writter.
- O Activia, ao contrário do especulado, não é feito a partir de fezes humanas. Na verdade ele é feito com cepas de iogurte tradicional, com um fermento especial, os tais bacilos DanRegularis, que não irritam o estomago. Essa cepa probiótica é armazenada em Paris, que por sua vez fica na França. Confesso que tirando a parte do fato de que Paris fica na França, eu tive dificuldades em entender o resto também.

Ou resumindo, o Activia não é feito de merda, a nutricionista não existe e o bacilo do Activia é normal. Para mais informações vocês podem acessar o www.activiadanone.com.br ou ligar para o DAC 0800 701 7561. Ou talvez, consultar o seu farmacêutico.

Agora nos só esperamos o contato da nutricionista inexistente, para que ela possa dar o seu direito de resposta. E dessa maneira, esse tema jamais será encerrado.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A stripper do bolo-surpresa

Quem nunca teve um aniversário com um bolo gigante e de dentro desse bolo saiu uma stripper? Ou que isso tenha acontecido em uma despedida de solteiro. Ou até mesmo no seu batizado. Ou... bem, de fato isso nunca aconteceu comigo. E provavelmente não aconteceu com você. Entre outras coisas porque deve ser difícil construir um bolo gigante onde seja possível colocar uma stripper.

Talvez poderia ser construído apenas um bolo fictício, um grande suporte de papelão em forma de bolo, para que a stripper fosse lá depositada. Mas, convenhamos que não teria graça comer a stripper se você não puder comer o bolo. Ou vai me dizer que você não gosta de bolo?

Mas enfim, realmente existiram momentos na história da humanidade em que amigos resolveram fazer uma surpresa para outro, colocando uma stripper dentro do bolo. E foi isso o que um grupo de amigos resolveu fazer em 30 de agosto de 1997 na cidade de Cosenza na Calábria, Itália.

Na cidade de 180 mil habitantes, os amigos comemoravam o aniversário de 26 anos de Luigi Fachetto, provavelmente comendo uma pizza Calabresa. Acompanhado de um bom vinho tradicional da região. Talvez estivesse frio, talvez estivesse quente. Chegou a hora sempre superestimada dos parabéns e os amigos trouxeram o bolo.

Ao ver aquele bolo gigante, Luigi disse “oras, o que vocês colocaram dentro desse bolo!”. Ele falou isso gesticulando loucamente, assim como todos os italianos fazem. Os amigos disfarçaram com um sorriso maroto. Cantaram os Parabéns, e assim que as 26 velinhas foram apagadas sofregamente, todos disseram: “Sorpresa!”. E nada aconteceu.

Repetiram o grito novamente. E a surpresa novamente não aconteceu. É claro que a essa altura a surpresa já estava estraga, e o amigo gay com roupas de lantejoula já lamentava esse fracasso. Chorava escandalosamente “è tutto l'errato!”. Alguns mais raivosos já queriam encher a stripper desatenta de porrada. Bateram na tampa do bolo. Mas nenhuma reação aconteceu.

Começaram a pensar então se por um acaso eles haviam esquecido de colocar a stripper lá dentro. Se eles haviam esquecido de pagar ela e ela fugiu. Se eles haviam esquecido de ir procurar uma stripper disposta a fazer o serviço.

Pensaram durante um tempo e resolveram abrir o bolo, para garantir que ela realmente não estava lá dentro. Abriram e a viram deitada no fundo “Sonno profondo di catsu!”. Balançaram ela e ela não acordou. Até que perceberam o fato: ela estava morta.

Gina Lalapola, cidadã napolitana morreu dentro de um bolo, sufocada. Ficou uma hora presa lá dentro.

Estragou assim o aniversário e a vida dos que tiveram a idéia. E também estragou a vida do menino que adorava bolo, que pretendia comer o bolo, mesmo o bolo já tendo sito um depósito de cadáver. Mas não deixaram e jogaram o bolo fora. Falaram que ele não poderia gostar tanto assim de bolo. E ele disse, em pé ao do bolo “vocês não sabem o que eu já fiz por bolo”. E permaneceu em pé.

domingo, 25 de outubro de 2009

Grandes dúvidas que não tem explicação (8)

Alfaces decorativas

Foi esses dias que eu estava em um estabelecimento alimentício e ao receber uma porção de batatas fritas, a mesma veio com uma folha de alface em baixo. Aliás, o sanduíche veio com uma folha de alface embaixo. Não tenho certeza se os refrigerantes vieram apoiados em folhas de alface também.

E esse costume não é exclusividade de tal estabelecimento. Por mais que as alfaces decorativas não sejam tão intrigantes ao ponto de serem comparadas ao morango decorativo de Alto Caparaó, elas me intrigam assim mesmo.

Alguém poderá vir aqui e me dizer “você não pensou no que era óbvio, era um simples enfeite de sua refeição, que era comestível, ou seja, você poderia comê-lo”. Sim, isso é óbvio. Mas ao ver a tal alface decorativa, eu me posto como se fosse um cientista observando um objeto de estudo.

Bem, sobre a parte comestível. Eu duvido que alguém realmente vá comer uma alface dessas. Não imagino que alguém olhe aquela folha verde toda queimada pelo calor da batata e pense “vô mandá essa delicinha pra dentro, hehe”. Aliás, até imagino encontros de amigos e eles apostando “duvido que você é homem de comer essa alface”.

E quanto a parte decorativa, imaginem quantas folhas de alface não são jogadas foras diariamente apenas para servirem de decoração para bandejas de petiscos. Imaginem a decepção da folha quando ela é avisada “você vai ficar escorando batata frita, enquanto todas as outras folhas vão pra salada”. E quantas pessoas essas folhas não poderiam alimentar? Bem, talvez não muitas, já que alface não é a coisa que mais enche barriga nesse mundo.

E outra coisa é o ponto de vista estético. Eu não me sinto mais tentado a comer a porção de batata frita por ter uma folha de alface queimada em uma borda.

Alfaces poderiam ser usadas, talvez, para decorar ambientes. Ramos de alface em cima de mesas. A noiva jogando um buquê de alfaces para trás. Folhas de alfaces grudadas nas paredes. Restaurantes futuristas cuja arquitetura foi baseada em uma alface. Pés de alface como brindes de jantares de gala.

E o mundo então seria um pé de alface.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

This is War

O War é um jogo de tabuleiro que promove a integração entre as pessoas. Eu nunca joguei, e sei que isso pode parecer assustador. Mas eu digo também que só joguei banco imobiliário duas vezes.

O jogo de War pode trazer algumas situações constrangedoras. Há o famoso caso que aconteceu com um membro desse blog (que vocês sabem, não sou eu) que estava jogando com alguns amigos. Todos foram na cozinha e quando voltaram havia um tolete em cima do tabuleiro. O que, é claro, é uma sacanagem para/com a diversão dos outros. Além de ser uma imundice. O jogo não prosseguiu.

Vários incidentes diplomáticos já foram causados quando chefes de Estado resolvem brincar com o jogo. Empolgados eles dizem “vou invadir a União Soviética!”. A frase e o contexto vão sendo mudados lentamente, através do famoso processo de telefone sem fio e quando a informação chega à União Soviética, a guerra está de declarada. A sorte de todos é que ela não existe mais.

Mas, de fato, chefes de Estado e políticos governantes em geral gostam do jogo de estratégia. Eles imaginam o território do seu país como se fosse um grande tabuleiro. Vocês sabem porque a capital do Brasil mudou do Rio de Janeiro para Brasília? Porque o lugar onde Brasília fica é considerado mais estratégico. O Rio de Janeiro ficava a beira do mar e era mais vulnerável do que Brasília. Vulnerável a que? A possíveis ataques militares aéreos de outros países. Sim, parece meio estranho que alguém quisesse atacar o Brasil e que por isso fosse tão importante ir a Brasília.

Mas de fato, se alguém quiser atacar o Brasil, terá que fazer uma baita viagem por sobre o território brasileiro. Ou então terá que se contentar em explodir o Rio de Janeiro, enquanto os políticos estarão tranqüilos tomando uísque no centro do país.

O Brasil tem atualmente 5564 municípios. Mas até o fim dessa frase o de número 5565 poderá ter sido criado. Perto de 1/5 desses municípios fica no estado de Minas Gerais e boa parte desses não tem restaurantes bons.

Quase todos os municípios do Brasil têm uma localização estratégica. Foram ali posicionados porque um dia alguém olhando o mapa pensou “Sim. É aqui. Entre o Rio Codorna e o Monte das Oliveiras que vamos criar um novo município. Criar dezenas de cargos públicos e empregar meus parentes”.

Por isso, não ache estranho quando você encontrar um município no meio do nada e que aparentemente é inútil. Ele está lá cumprindo uma função cívica no nosso país. Que é a de estar ocupando um lugar estratégico entre rios e morros. Impedindo assim que a tropa Soviética, o exército Nazista ou os Incas Venusianos incomodem a paz reinante no território brasileiro.

Fique de pé e cante o hino nacional, agora.

O tema desse post foi uma sugestão de Adérito Schneider (nota: pronuncia-se: Adérito Schneider). Envie sua sugestão de matéria para o nosso e-mail, ou nos siga através do Twitter. Em Cuiabá neste momento o céu está parcialmente nublado e a temperatura é de 29,6 graus Celsius.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Apelido

Foi um tempo atrás. Veio a notícia que durante uma ação policial em uma favela, um dos chefes do tráfico na região foi morto. Um homem cruel e sanguinário chamado: Geléia.

Eu não sei vocês, mas eu não ficaria intimidado diante de um homem com esse apelido. Ou melhor, acharia até humilhante ser morto por um cara chamado assim. Imagine você, se você tivesse cometido alguma besteira no morro.
- Qualé Mané, agora tu vai vê neguim, tu vai morrer. Geléia vai caba coce!
- Geléia? Pfffffff.
Seria muito mais digno se você fosse morto por um cara chamado Marcelo Três Coco, Roberto Ranca-Olho ou Toninho do Diabo.

Um apelido pode trazer respeito ou indiferença a sua vida. Imagine se Bill Gates fosse se apresentar em suas reuniões de negócio.
- Olá, meu nome é Bill Gates. Mas pode me chamar de Cuequinha.
Sim, ele não teria ganho nem mil dólares.

De vez em quando no canal Sportv passam algumas propagandas sobre a Luta Livre. Aquele esporte nefasto no qual homens de sunga se agarram e se espancam no chão. E os lutadores são anunciados. Rodrigo Minotauro, Brutamonte, Felipe Shogun e... William Parrudinho. O Parrudinho já entra pra luta com uma clara desvantagem. Ele já entra desmoralizado. É até possível imaginar o momento em que esse apelido surgiu. O William devia estar malhando na academia quando um amigo passou.
- Ae William tá malhando heim... ah... tá parrudinho rapá!
Todos começaram a rir e a chamar ele de parrudinho.

Qual é a respeitabilidade que alguém chamado Xereca? Um pai deixaria sua filha namorar um cara chamado Xereca? Ou ainda um cara com apelido de bebida alcoólica?
- Pai esse é o meu namorado. O Xoxota.
- Que, como, quando, onde? – engasga e enfarta.

É como o caso de um amigo meu, que certa vez eu vi ligando para um outro amigo.
- Ae Ursão, aqui é o Mãozinha, vai ver o jogo aonde?
Qual é o peso de ter um filho apelidado de Mãozinha? Sendo que ele nem era maneta, ou tinha a mão atrofiada.

Por outro lado, um apelido pode te trazer muita respeitabilidade. Quem iria mexer com um cara cujo apelido é Caveira? Ou, Cemitério? Franky Quatro Dedos? Eu é que não.
- Cara, você mexeu com a namorada do Caveira. Sabe porque esse é o apelido dele?
- Não, porquê?
- Ele tem um esqueleto completo só com as vitimas dele. Um osso por vítima.

Normalmente alguém lhe dá um apelido. Existem pessoas que são especialistas em apelidar os outros. Pessoas que apenas batem o olho em alguém e dizem “Manteiga. Teu apelido é manteiga” e o apelido pega. Nada é pior do que um apelido frustrado.

Frustradas costumam a ser as tentativas de se auto-apelidar.
- Oi, meu nome é Antônio mas todo mundo me chama de Júpiter.
- Júpiter... nada haver.
- Mas eu gosto que me chamem de Júpiter.
- Nada haver Boizinho.
- Boizinho?
- Sim, você tem cara de boizinho.
O Antônio sem dúvida vai colocar no MSN e até fazer um e-mail júpiter@hotmail.com na vã tentativa de que todos o chamem assim, mas isso jamais vai acontecer.

Carlinhos diz:
- Fala Boizinho!
Júpiter diz:
- ¬ ¬

E você... você tem cara de Lamparina!