sexta-feira, 30 de maio de 2014

Insetos Comestíveis

Uma das maiores falácias do mundo contemporâneo é a história de que existem vegetais não comestíveis. Uma mentira repetida em programas de sobrevivência na selva, quando um cara qualquer mostra uma raiz e diz que ela não é comestível. Todo vegetal pode ser comido. O problema é que alguns são venenosos e podem te matar, mas existem muitas outras coisas que podem te matar e isso não significa que você não possa fazê-las.

Yakisoba apetitoso
Recentemente, aquele cara grupo Polegar foi além, ao mostrar que todo e qualquer objeto é comestível. Pilhas, tampas de caneta, bolinhas de gude, chumbinhos, lascas de mármore, é possível comer qualquer objeto existente no planeta terra. Só que, novamente, alguns desses objetos podem provocar náusea, vômito, perfurações nos órgãos internos e morte.

Assim, outra falácia é falar de insetos comestíveis como se houvesse insetos não comestíveis. Você é livre para pegar qualquer mosca, qualquer barata ou formiga que esteja perto de você, colocá-la na boca, mastigá-la e engoli-la.

O problema, você pode imaginar, é que maioria destes insetos caminha por lugares nem um pouco saudáveis e eles podem te transmitir doenças terríveis e mortíferas. Além disso, insetos costumam a ter um aspecto repugnante e as pessoas mais sensíveis vomitam só de imaginar na possibilidade de colocar uma larva de mosca na boca e mastigar a cabecinha da barata, sentindo toda aquela crocância e o creminho da barata se espalhando em sua língua.

No entanto, os especialistas apontam que os insetos irão promover a próxima revolução alimentar e poderão acabar com a fome planetária. São muitas as razões para isso. Primeiro, os insetos e suas larvas costumam a ser ricos em proteínas, presentes em quantidades muito superiores a de qualquer bife. Criar um inseto também não exige tantos gastos quanto os que são necessários para criar uma vaca ou um porco. Menos espaço, menos água, menos comida, enfim.

Garçom, tem uma abelha no meu omelete
Claro que também existem desvantagens. A primeira delas é que é complicado produzir cem quilos de insetos, já que a sua imensa maioria pesa algumas poucas gramas. Também há o já citado problema do nojo. Como convencer as pessoas a comerem uma porção de besouros torrados, como se fossem amendoim? Haja marketing.

É difícil romper essa barreira cultural. Em alguns países asiáticos, assim como entre algumas tribos indígenas, comer insetos é um hábito normal do dia-a-dia. Em alguns lugares do nordeste brasileiro, a população caça formigas tanajuras, coloca elas na panela com óleo e elas se transformam numa espécie de pipoca alternativa. Dizem que o gosto se parece com o de pipoca.

A solução para inserir os insetos na alimentação das pessoas seria utilizar um grande triturador e transformar todas essas larvas, baratas, besouros, formigas, cigarras e grilos em uma espécie de farofa que você poderia adicionar ao seu feijão para obter um suplemento alimentar. Quem sabe eles não poderiam ser transformados em um Shake para o povo que vai na academia substituir o Whey Protein?

O pesquisador e engraxate colombiano Alfredo Humoyhuessos explica que os insetos mais populares são os besouros, as formigas e os gafanhotos. “Borboletas também são boas, mas evite comer a asa. É pior do que espinha de peixe pra entalar na garganta”. Por outro lado, o consumo de piolhos não é recomendado, o que é uma falha na evolução humana. Se as pessoas comessem piolhos e sobrevivessem, as professoras de Jardim de Infância teriam muito menos problemas em suas vidas.

Entre os membros do CH3, com certeza aquele que mais comeu insetos é Hanz, o Pansexual. O velho alemão diz que já comeu de mosquitos a larvas de escaravelho e que sentiu muito prazer todas às vezes. Ele concorda que todos os insetos e objetos do planeta terra são comestíveis. “Os pilhas, porrr exemplo doem parra entrrrarrr, mas doem ainda mash parra sair. Mas ya sente muita prazerr na horra de entrrarr e na horra de sairr”. De qualquer forma, ele ainda disse preferir os mosquitos.

ATENÇÃO! ESTE POST ESTÁ SENDO INTERROMPIDO GRAÇAS A AÇÃO DA POLÍCIA FEDERAL ANTIPIADA GROTESCA. O OBJETO É EVITAR QUE HAJA ALGUM TROCADILHO COM CONATAÇÃO SEXUAL PARA A EXPRESSÃO “PICADURA DO MOSQUITO”.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Intervenção Urbana

Intervenção urbana é o nome dado a todo e qualquer objeto estranho que possa ser chamado de arte, localizado na região central de uma grande cidade. Geralmente são frutos da atuação de um coletivo de arte ou de um cara famoso e anônimo, tipo Bansky. A intervenção urbana transporta para as ruas aquele conceito do Cinema Novo, uma ideia na mão e uma mente na cabeça, ou algo parecido com isso. Só que, no caso, na mão os interventores carregam o instrumento necessário para sua arte.

O Flash Mob talvez tenham sido o precursor desse conceito de intervenção urbana. Lembro-me que o ano era 2003 e um amigo meu me falou sobre esse assunto, mas até hoje ele ainda é tratado como novidade na grande mídia e no espaço acadêmico. Várias pessoas se juntam em um único lugar e realizam o mesmo gesto. Deve ser uma sensação bacana para quem participa.

Bigodes desenhados nos postes, caras desenhadas em volta de bocas de lobo, estátuas psicodélicas da turma da Mônica na Avenida Paulista, bonecos gigantes boiando no lago do Paranoá, projeções holográficas em uma parede branca com ofensas a honra de um parlamentar, todas essas ações entram no rol das intervenções urbanas.

Há uma pequena linha que separa a intervenção urbana do vandalismo. Tudo depende da sua posição político, ideológica, social, econômica, filosófica, partidária. Se você é um tucano privatizador ou um petralha mensaleiro. Se você é um assassino de animais ou um vegetariano bunda-mole.

Veja o caso das pirocas desenhadas nas portas de banheiro de todo o mundo. Em colégios, faculdades, aeroportos, rodoviárias, repartições públicas, casas de show, não há porta de sanitário que escape dos desenhos de órgãos sexuais masculinos. Desenhos das mais variadas espécies, tamanhos, com os mais diferentes detalhes anatômicos. Há caralhos coloridos e há aqueles que têm asas, de acordo com a imaginação do artista.

Pois bem. Essas manjolas de banheiro são intervenções urbanas ou vandalismo? De acordo com o que eu disse, depende da sua posição político-ideológico-partidária. Veja os casos do polêmicos rolézinhos. Havia quem considerasse-os como manifestação intervencio-urbanística, e há quem defenda que os seus praticantes deveriam ser amordaçados e queimados vivos. Ocorre o mesmo como os pintos de lavabo. Isso sem contar as frases. "Amor livre é amor sem medo" pode ser poesia num muro velho, mas uma burrice na porta do banheiro.

Depende também da fama dos intervencionistas. O já citado Bansky pode, por exemplo, pode desenhar um enorme jogo da velha num muro podre de Bariloche que logo será considerado um gênio. Aqueles grafiteiros Gêmeos, que cagaram no avião que transportará a seleção brasileira durante a Copa, podem cagar fezes gêmeas no meio da Avenida Paulista que serão tratados como os Gêmeos Gênios. Os críticos olharão aqueles dois cagalhões no meio da avenida mais movimentada do país e falarão de como eles transformam o cotidiano, o cheiro repulsivo nos mostra as coisas que não queremos ver e que arte é isso, arte é mostrar o desconhecido para o público. Arte é chocar e chocar é arte e vice e versa.

Agora tente você soltar um barro em qualquer via pública e correrá o risco de ser estuprado pelos moradores, denunciado a polícia, preso, estuprado pelos policiais, estuprado pelos médicos legistas que farão o exame de corpo e delito, levado ao pronto socorro e estuprado pelos médicos e enfermeiros, morrerá e será estuprado pelo agente funerário, maquiador de defunto e levará uma última curra do coveiro.

Portanto, caro cidadão, pense duas vezes antes de desenhar um zíper no meio da sua rua, pintar um olho no muro da casa do vizinho ou soltar um barco cheio de bonecas infláveis na baia de Guanabara. Você precisa se tornar conhecido para que suas intervenções deixem de ser vandalismo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Vida e a Obra de Carlos Alberto Parreira


Carlos Alberto Parreira é um treinador que ficará eternamente marcado pela conquista do tetracampeonato mundial de futebol em 1994. Motivos existem para isso. Após dominar o cenário internacional nos anos 60, o Brasil já amargava 24 anos de jejum e parecia que o título jamais viria. Parreira foi o responsável por conduzir a equipe ao sonhado tetra.

Para melhorar a situação, houve a lendária narração de Galvão Bueno e seus gritos de “é tetra”. Mesmo quem não viu a cena ao vivo se lembra dela com a narração de Galvão. Seus gritos adicionaram um charme patético a situação e tudo o que aconteceu ao seu redor entrou para história. Poderia dizer que a história da humanidade pode ser dividida em antes e depois do grito de “É Tetra” e não cometeria nenhum exagero.

A seleção do tetra não era das mais brilhantes. Convenhamos que um meio campo com Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho não seria capaz de empolgar nem um torcedor do Bragantino. Por conta disso, esse título muitas vezes acaba sendo desdenhado, uma espécie de ovelha negra das conquistas brasileiras. Mas o fato é que ganhou e isso é o que importa. O fato é que Parreira vive sua vida por conta desse título.

Ele começou sua careira como preparador físico, formado em Educação Física, do São Cristovão. Foi o preparador dos atletas na Copa de 1970 e seu primeiro trabalho como treinador foi no Fluminense, seu time de coração, em 1975. Depois disso, embarcou para o Kuwait, para treinar a seleção de lá. Classificou o país para a Copa do Mundo e foi eliminado na primeira fase.

Teve uma breve passagem pelo Fluminense em 1984, conquistando o Campeonato Brasileiro e embarcou para o mundo árabe novamente, dirigindo a seleção dos Emirados Árabes Unidos na Copa de 1990. Foi eliminado na primeira fase novamente, terminando como a pior seleção do torneio. Voltou para o Brasil, para o Bragantino e acabou vice-campeão brasileiro. O suficiente para assumir a Seleção Brasileira nas eliminatórias para a Copa de 1994.

Classificou o país com o maior sufoco da sua história. Ganhou a Copa do Mundo e então sua carreira seguinte foi marcada por uma série de fracassos. Dirigiu o Valencia e terminou o campeonato espanhol em décimo lugar (no ano seguinte, sem ele, a equipe seria vice-campeã). Foi campeão turco pelo Fenerbahce e voltou ao Brasil, para dirigir o São Paulo. Acabou demitido depois de uns dez jogos.

Dirigiu a Arábia Saudita na Copa de 1998 e conseguiu a façanha de ser o primeiro técnico demitido durante a disputa da competição. De volta ao Brasil, conquistou o título da terceira divisão brasileira com o Fluminense. Fracassou com Atlético-MG, Santos e Internacional e quando foi anunciado como técnico do Corinthians em 2002, os torcedores pensaram que os dirigentes haviam enlouquecido.

Aí aconteceu o milagre. Parreira montou um bom time no primeiro semestre, em seu primeiro e último bom trabalho depois da Copa do Mundo de 1994. Ganhou dois títulos e foi reconduzido a Seleção Brasileira que havia acabado de conquistar o pentacampeonato. Parreira treinou aquela que provavelmente foi a mais talentosa geração brasileira dos últimos 25 anos. Mas não conseguiu montar um time, viveu apenas dos brilhos individuais e foi eliminado após levar um baile da França.

Era para sua carreira estar acabada. Mas ele ainda treinou o Fluminense, novamente, sendo eliminado por estar levando o time ao rebaixamento. E dirigiu a seleção da África do Sul, que disputava a Copa do Mundo em casa. Parreira entrou para história ao comandar a primeira seleção anfitriã a ser eliminada na primeira fase da Copa do Mundo.

O resultado o levou a anunciar a sua aposentadoria do cargo de técnico de futebol, após 35 anos e 12 títulos conquistados. Vinte e dois jogos disputado em Copa do Mundo e apenas uma vitória por outro time que não seja o Brasil.

Mas Parreira voltou, novamente, como um Jason. Quando Felipão foi anunciado como novo treinador da seleção brasileira no final de 2012, Carlos Alberto foi conduzido ao cargo de Coordenador Técnico. Um cargo que ninguém sabe exatamente o que faz. Ninguém mesmo, não dá nem para especular o que ele faz.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Hotel localizado no centro da cidade

Jornal matutino local da afiliada da Rede Globo. A jornalista irá conversar ao vivo com o secretário municipal de Trânsito, para falar sobre o leilão de carros apreendidos que a secretaria está por promover. Os dois estão em algum lugar genérico do Centro de Cuiabá e a repórter anuncia:
- O leilão será realizado em um hotel localizado no centro da cidade, na Rua General Valle.

Mais um pouco e o secretário confirma.
- O leilão será neste local que você falou.

A informação omitida é que existem pelo menos três hotéis na Rua General Valle, também conhecida como a rua do Pronto Socorro. Como o nome do hotel não foi fornecido pela reportagem, os interessados terão que passar em cada um desses hotéis perguntando “o leilão vai ser aqui?”, ou então fazer um trabalho de raciocínio lógico e pensar que o Hotel Roari é o maior de todos é que o leilão só poderia ser lá. Trabalho de raciocínio lógico que nem todos são obrigados a fazer. Assim sendo, a reportagem não estava completa, porque não indicava o local do evento. Apenas passava as coordenadas.
A parada vai acontecer aqui

A Globo tem essa linha editorial de não citar nomes de empresas, exceto quando são suas próprias empresas. Fazer uma matéria de oito minutos dizendo que o diretor geral participou de uma conferência em Nova York ou que a companhia de gás do dono da empresa ganhou um prêmio, isso pode. Falar que o leilão será no Hotel Roari não pode.

Na Fórmula 1, por exemplo, a Red Bull era misteriosamente chamada de RBR, mas por outro lado a Ferrari, Mercedes, BMW e Honda eram chamadas por seus verdadeiros nomes, mesmo sendo empresas iguais a Red Bull. Enquanto uma vende energéticos com o curioso efeito colateral de fazer voar, os outros vendem carros.

Interrompemos esse post para reescrevê-lo no Padrão Globo.

Jornal matutino local da afiliada de uma grande emissora nacional de televisão. A jornalista irá conversar ao vivo com o secretário municipal de uma pasta importante para a cidade, para falar sobre o leilão de meios de transporte populares que a secretária está por promover. Os dois estão em algum lugar genérico da região central da capital de um dos 27 estados brasileiros e a repórter fala:
O leilão será realizado em um hotel localizado em uma rua da cidade.

Mais um pouco e o secretário confirma.
- O evento será neste local que você falou.

A informação omitida é que existem pelo menos três estabelecimentos utilizados por pessoas que estão de passagem pela cidade nesta rua da cidade, também conhecida como a rua onde fica um lugar que as pessoas procuram quando estão com problemas de saúde. Como o nome do estabelecimento referido não foi fornecido pela reportagem, os interessados terão que passar em cada um desses lugares perguntando “o evento vai ser aqui?”, ou então fazer um trabalho de raciocínio lógico e pensar que um dos locais próprios para hospedagem é aparentemente o maior de todos e que o evento só poderia ser lá. Trabalho de raciocínio lógico que nem todos são obrigados a fazer. Assim sendo, a reportagem não estava completa, porque não indicava o local do evento. Apenas passava as coordenadas.

Esta emissora de televisão tem essa linha editorial de não citar nomes de empreendimentos lucrativos, exceção feitas aos possíveis empreendimentos dela própria. Fazer uma matéria com um determinado número de minutos dizendo que um cidadão que ocupa um cargo importante lá dentro participou de uma conferência em uma das principais cidades do mundo ou que uma suposta companhia que vende produtos metálicos recheados de um elemento em estado gasoso que talvez pertença a um dos principais executivos desta emissora se tornou vencedora em um eventos que qualifica alguns dos aspectos corporativos, isso pode. Falar que o evento de venda será em um estabelecimento cheio de quartos com camas, não pode.

Em uma disputa que envolve veículos projetados para alcançar altas velocidades, uma equipe que leva o nome de uma fabricante de bebidas que oferecem energia para os seus usuários era misteriosamente chamada de FDBQOEPOSUR, mas por outro lado uma fabricante de unidades propulsoras de um país do continente dito mais velho do mundo, outra fabricante deste mesmo continente, mas de outro país, outra fabricante do mesmo continente e do mesmo país da última citada, além de uma fabricante de um país em outro continente, eram chamadas por seus verdadeiros nomes, mesmo sendo empresas iguais a fabricante de bebidas que oferecem energia. Enquanto uma vende bebidas que oferecem energia dentro de recipientes metálicos com o curioso efeito colateral de fazer voar, os outros vendem veículos automotores terrestres.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Protesto Moderno

A notícia foi publicada nesta semana. Grupos de Black Blocks a paisana na internet, ensinaram maneiras de vandalizar as figurinhas da Copa do Mundo de 2014. Utilizando isqueiros, estiletes, canetas piloto e colas, eles conseguiam abrir os pacotes de figurinhas, adulterar as fotografias (no melhor estilo deste post) e então lacrar o pacote novamente. O objetivo é protestar contra a Copa do Mundo.
Reprodução da reprodução feita pelo jornal O Globo

Bom saber que os movimentos sociais da internet finalmente descobriram novas formas de protestar, saindo daquela santíssima trindade das passeatas, cartazes e pneus queimados. O negócio agora é sabotar os produtos relacionados ao alvo do protesto. Uma manifestação, sem dúvidas, muito inteligente.

Vejamos. O manifestante terá que ir até uma banca de jornal e adquirir determinada quantidade de pacotes de figurinha, ao preço de um real cada. Ele também poderá furtar as figurinhas, mas isso pode resultar em embaraço e detenção provisória. Em posse dos pacotes, ele irá até sua casa, onde utilizará técnicas Ninjas para a violação do pacote e do seu conteúdo, sem deixar rastros de sua ação. Há o risco de que nem sempre a técnica seja bem aplicada, o que pode gerar prejuízo.

Quando finalmente as figurinhas estiverem com bigodes, cílios, máscaras do Mister M, pirocas desenhadas, enfim, o manifestante terá que arrumar uma maneira de reinserir sua arte entre os produtos originais. Os próprios tutores do protesto reconhecem que essa é a parte mais difícil do processo, que muitos acabam não encontrando maneiras de finalizar o ato. O que torna a situação meio ridícula, gastar vinte reais para ter 100 figurinhas enfeitadas com bigodes de Hitler.

Mas vamos considerar que tudo ocorra perfeitamente. Que as figurinhas adulteradas sejam reinseridas no meio dos pacotes originais. O que aconteceria? O dono da banca acabaria inadvertidamente revendendo esses pacotes para colecionadores azarados e crianças de nove anos. Que acabariam tendo uma enorme decepção ao ver que a difícil figurinha do Thiago Silva veio com dois dentes podres.

A pergunta é: quem esse protesto atingiu? Em primeiro lugar, a criança de nove anos que vai conviver com essa decepção. Em segundo lugar, o autor da sabotagem que gastou vinte reais para acabar com os sonhos de uma criança. O dono da banca se deu mais ou menos bem, porque lucrou duas vezes com a venda do mesmo produto, mas pode sofrer uma crise de imagem. Já a fabricante do álbum não sofreu nenhum prejuízo, porque já havia comercializado o material. A FIFA então, já teve os seus lucros milionários bem antes, quando fechou o contrato de comercialização do produto.

Será que esses manifestantes não tem nenhum tutorial que mostra como comprar fulecos, retirar a pelúcia de dentro deles e substituí-la por fezes de cachorro? E depois levar o Fuleco de merda de volta para a loja? Ou como adulterar camisas da seleção brasileira que custam mais de 200 reais, adulterar ingressos da copa de 800 reais, escrevendo CU ao final de todas as palavras. Várias opções.

Acredito que esses manifestantes, para protestar contra o sistema financeiro, ensinam como sacar mil reais no caixa eletrônico, escrever “pau no cu do capitalismo” em cada uma das notas e depois reinseri-las no caixa (a parte mais difícil). Assim, cada um que fosse sacar dinheiro lá seria surpreendido com notas revoltadas contra o sistema. Uma manifestação bem inteligente.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Quando alguém vira Seu

Edson e Eduardo poderiam formar uma dupla sertaneja de sucesso, se assim eles quisessem. Pelo menos um nome para o estrelato eles já teriam. No entanto, Eduardo e Edson eram os nomes de dois motoristas do jornal Diário de Cuiabá, na época em que eu trabalhei no referido veículo impresso. Os dois dirigiam carros parecidos e, de cabeça, não me parece que havia uma diferença discrepante de idade entre eles. Mas, havia algo que os diferenciava: um deles era conhecido como Seu, no caso, o Seu Edson.

Qual dos dois é conhecido como Seu?
No meu atual trabalho, dois dos quatro motoristas são conhecidos com Seu, os dois mais velhos. Temos dois auxiliares de fotografia por aqui, com o mesmo tempo de casa e a mesma idade. Apenas um deles tem a alcunha Seu antes do seu nome, o que tem mais cabelos brancos.

Quando chamamos alguém de Seu alguma coisa, demonstramos certo afeto, mas também um respeito. Só adquiri o título de Seu, aquele que tem muita história de vida, uma trajetória digna. É quase como um título honoris causa sem o uso de chapéus ridículos. É como ser condecorado pela rainha, mas sem precisar puxar o saco de ninguém.

Mas, quando e como é que uma pessoa passa a ser merecedora desta denominação? Podemos dizer que existe um momento chave, em que todo o mundo olha para o cidadão e percebe que aquele ali está um legítimo Seu. Voltamos ao Seu Edson. Podemos imaginá-lo a vida inteira sendo chamado de Edson, até que um dia alguém olhou para ele e disse “Seu Edson” e então um cenário dramático se fez e as pessoas passaram a reverenciá-lo.

Primeiro, não podemos negar que a questão da idade é fundamental. Jamais veremos um cara de 30 anos sendo chamado Seu Vinícius. Também há a questão do aspecto. Os Seus certamente utilizam sapato, calça social e camisa carcomida, ou não. Um Seu nunca será um cidadão de tênis, sapatênis, calça jeans desbotada ou camisa polo com brasão e número aleatório. Aliás, esses cidadãos são mais conhecido como tiozões fracassados.
Seu Jorge é uma clara exceção, uma vez que sua personalidade artística está acima da sua condição humana. Podemos ter certeza de que quando ele tiver 80 anos, será conhecido como Seu Seu Jorge

O nome também é importante. Nomes como Francisco e Benedito combinam melhor com um Seu do que nomes modernos como Lucas e Cauã. Você imagina que alguém será um dia chamado de Seu Cauã? Com certeza não.

Há uma espécie de efeito dominó nessa situação. A partir do momento em que a pessoa é reconhecida como Seu pela primeira vez, e assim ela é denominada publicamente, todos os outros passam a achar que seria uma espécie de desrespeito não chamá-lo assim. Exceto nos casos em que o sujeito já passou dos noventa anos, onde é praticamente impossível não chamar alguém de Seu. Menos os Cauãs, é claro. Ninguém chamado Cauã deve passar dos oitenta anos.

A vida, inclusive, pode ser torturante se você pensar que um dia você será uma pessoa conhecido com Seu Fulano. Ou o equivalente feminino, até mais ofensivo que é o Dona. Podemos ver todos esses cidadãos e ver suas fotos de criança e de certa forma perceber que eles já estavam marcados desde a hora em que nasceram. Nascemos, crescemos, nos reproduzimos, passamos a ser conhecidos como Seu e morremos. É o ciclo da vida.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Eu vim fazer uma provocação

O auditório do hotel está lotado. Em poucos instantes irá começar o 1º Encontro Estadual de Empregadores da Indústria Têxtil. Autoridades estão presentes e o dispositivo de honra será montado, com o governador, o prefeito, dois deputados, um vereador e o presidente do sindicato e da Federação das Indústrias. Todos irão fazer seus cumprimentos protocolares e depois um economista será chamado ao palco para a primeira palestra.
Sabem o que ele veio fazer? Uma provocação.

O economista é respeitado. Formado por uma universidade importante, pós-graduado na melhor do Brasil e doutor por uma do exterior. Ele vai falar sobre o desenvolvimento do Brasil, os desafios do empreendedorismo e o nome da sua palestra resume esse assunto de maneira vazia. Por ano, ele faz mais de 100 dessas palestras em encontros de várias categorias em todas as regiões do Brasil. Sempre o mesmo discurso, com uma ou outra piadinha cotidiana para descontrair o ambiente. Um stand-up da economia.

Em cima do palco, com paletó sem gravata, o economista segura o microfone em uma mão e uma caneta laser na outra. O Power Point está no ponto e ele afirma que não vai se estender muito e garante que não gosta de muitas formalidades. “O que eu pretendo aqui, é fazer uma breve provocação”.

Pausa. Se eu falasse para alguém que faria uma breve provocação, provavelmente diria algo do tipo.
- Aqui só tem viado!
- Sua mãe não é homem!
- Seu arrombado!
- Babaca! Chupador de rola!
- Duvido que alguém aqui jogue uma pedra naquela lâmpada? Ninguém? Ninguém? Heim? Ahhhh, bichinhas, tão com medo? Vão chorar com a mamãe?!

O que Bernardinho veio fazer?
Mas eu não sou um economista e muito menos faço palestras para os mais diferentes segmentos trabalhistas nos quatro cantos deste país. Portanto, o que eu considero como breve provocação, não é o que esses palestrantes entendem como breve provocação. Para eles, não tem nada disso de xingar e sair correndo.

Quando um economista vai provocar alguém brevemente, saiba que ele irá demorar pelo menos vinte minutos e que nesse tempo nenhuma mãe será ofendida e nenhum ânus será blasfemado. Ele vai falar sobre dados econômicos, mostrar como alguma coisa está errada nisso tudo e deixar no ar aquela pergunta de “o que nós podemos fazer para mudar isso?”. Ou melhor, “o que vocês vão fazer para mudar isso?”.

Para que fosse uma provocação de verdade, ele deveria pelo menos dizer “e aí, seus bundas moles, vão ficar sentados nessas cadeiras sem fazer nada? O mundo espera por vocês seus mariquinhas” e logo depois começar a marchar pela sala e chamar o público de “pelotão”. Mas nem isso acontece.

Quanto a resposta para a tal provocação, o que é que as pessoas vão fazer para mudar isso, a resposta é nada. Claro que ninguém vai fazer nada. Se eles quisessem fazer alguma coisa para mudar o mundo, o público estaria realmente fazendo alguma coisa, ao invés de ficar de ficar sentado num auditório contando o tempo para a breve provocação terminar, para que os salgadinhos finalmente sejam servidos, quem sabe um jantar, com bebida liberada e um bolinho vagabundo de sobremesa.

Termino este post com uma breve provocação. Nessa porra aqui só tem viado e jogador de futebol.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Conhecendo o Decorado


Em breve, um clube que existia perto da minha casa será transformado em um enorme residencial com apartamentos de dois e três quartos. A construtora responsável montou um stand de vendas a uma quadra do local e colocou em sua fachada aquela enigmática frase "CONHEÇA O DECORADO". Frase que é repetida em todos os lançamentos de conjuntos residenciais. Sempre quis saber quem era esse tal de Decorado e, como o negócio fica perto da minha casa, decidi que essa era a oportunidade.

Bati a porta da loja e fui simples e direto. "Quero conhecer o Decorado", falei. As recepcionistas pediram para que eu esperasse por um instante, digitaram alguma coisa em seus computadores, trocaram mensagens inteligíveis no seu sistema de comunicação interna, perguntaram meu nome e após alguns minutos me deram Ok.

Fui levado até uma sala com uma mesa de muito bom gosto, sofás confortáveis, quadros duvidosos e vasos de flores excêntricos. Sentei no sofá durante alguns minutos, até que a recepcionista bateu na porta e avisou "Sr. Guilherme, o decorado chegou e já vem falar com o senhor". Ao fundo, Chet Baker solava seu trompete.

Logo depois ele entrou. Utilizando terno de linho branco com corte preciso, uma camisa bem passada, gravata elegante e óculos de armação italiana, Decorado se sentou na minha frente. Sua fisionomia era incrivelmente boa. Posso garantir que ele tem um ótimo sono, alimentação saudável, pratica atividades físicas com regularidade e mantém seu intestino funcionando com a precisão de uma balança, sem precisar utilizar nenhum iogurte de propaganda.

Confesso que não soube o que perguntar para o Decorado. Sua figura era um tanto quanto imponente e ele nunca tirava um sorriso do rosto enquanto me olhava falando. Parecia que ele sabia tudo o que eu faria e que estava me achando um completo idiota, mas que seria nobre o bastante para não demonstrar o incomodo em estar perdendo o tempo dele comigo. Ele também parecia estar o tempo todo prestes a me interromper para perguntar se eu aceitava um suco, um café, uma água e até mesmo biscoito Passatempo, se bobear.

Decorado está há muito tempo nesse ramo. Nem ele sabe explicar, mas o fato de as fachadas das construtoras convidarem as pessoas a conversar com ele faz com que muitas unidades habitacionais sejam vendidas. Talvez seja pelo seu charme pessoal? Por sua simpatia? Ele não sabe. Decorado não dá respostas afirmativas, ele apenas quer fazer com que você se sinta confortável.

Ele contou que já foi caixeiro viajante e me convidou para ver a planta do apartamento que estava sendo vendido naquele local. De fato, os apartamentos passavam uma imagem muito confortável, mesmo sendo apenas projeções sobre um papel couche 170g. Em certo momento, Decorado mencionou massagear meus ombros, mas refutei a hipótese e ele disfarçou. No final, já estava quase realizando um financiamento de R$ 175 mil para comprar o apartamento, mas me lembrei que estava ali pelo jornalismo e voltei atrás.

Minha recusa não interferiu em nada no humor do Decorado. Nenhuma ruga ou veia saltou em seu rosto e sua expressão continuou serena. Ele manteria essa aparência ao final de uma maratona, numa micareta ou dentro de um caixão.

Despedi-me e disse que a conversa foi um prazer. Ele garantiu que o prazer era todo dele, me recomendou fazer dez flexões ao acordar, mudar a posição do calendário na minha mesa de trabalho e beber um copo de suco cítrico em jejum, ao acordar. Talvez eu siga suas recomendações.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

As frases nos ônibus da Copa

Em 2010 a Fifa inventou uma novidade: os ônibus que transportariam as seleções durante a Copa do Mundo da África do Sul carregariam frases criativas para impulsionar os times ao título mundial. A ideia foi mantida para 2014 e hoje a Fifa divulgou que frases são essas. Tal qual fizemos naquela vez, iremos analisar estas construções verbais (procurem no arquivo, estou com preguiça de procurar).

Ein Land, ein Team, ein Traum
Como pátria-mãe da propaganda moderna, os alemães escolheram um slogan simples que prega uma ideia de unidade. “Um país, um time, um sonho”, sendo o sonho a conquista da competição e não aqueles doces de chocolate. Escolha elegante, e todos os outros países usaram apenas variações desse tema, com algumas exceções.

Os argelinos se saíram com “Guerreiros do deserto no Brasil”. De fato, 80% do território da Argélia é coberto por um deserto e como o país não teria chance de fazer nada na Copa, é melhor apelar para a geografia.

“Não somos um time, somos um país”. Os argentinos resolveram apelar para o emocional e para o ufanismo barato, dando orgulho ao Galvão Bueno. A ideia foi repetida por outras equipes. A Colômbia ficou com “aqui não viaja só uma equipe, viaja todo um país”. Honduras escolheu “Somos um povo, uma nação, cinco estrelas no coração”. Para quem não entendeu, os hondurenhos tem cinco estrelas em sua bandeira.

Mais criativa foi a Austrália: “Socceroos: pulando para a glória”. Uma opção divertida para um país que vai levar ferro na competição. Mesma estratégia dos sul-coreanos com “Vamos nos divertir, Vermelhos!”. Isso aí, vamos nos divertir, porque ganhar mesmo nós não vamos.

Já a Bélgica se saiu com “Espere o impossível”. O que é esse impossível? Ganhar na Mega Sena e ser atingido por um meteoro e um raio ao mesmo tempo? Difícil saber.

افتخار ایران
A estreante Bósnia vai percorrer o Brasil com “Dragões no coração, dragões em campo”, numa referência ao seu mascote imaginário e um dos tantos países que escolheu a palavra ‘coração’ para o seu ônibus. Seus vizinhos balcânicos da Croácia escolheram “Com fogo em nossos corações, um por todos e todos por um, Croácia” ao melhor estilo três mosqueteiros. Juntam-se a eles o Equador com “Um compromisso, uma paixão, um coração. Tudo por você, Equador”, a Inglaterra com “O sonho de um time, as batidas de coração de milhares” e a Espanha com “Dentro de nossos corações, existe a paixão dos campeões”, mostrando que os espanhóis podem ser campeões do futebol, mas jamais ganharão concursos de frases.

O Brasil vai a estrada com “Preparem-se, o hexa está chegando!”, simples e direto.

A seleção de Camarões se mostra filosófica com “Um leão sempre será um leão”. Sempre! Eis um slogam com uma verdade absoluta. Ao contrário da França que escolheu “A palavra ‘impossível’ não existe em francês”. Consulte um dicionário e veja que eles mentem descaradamente.

“Chi, chi, chi, le, le, le, Viva Chile”, o grito da torcida chilena vai ser exibido no ônibus do país, mostrando que ao contrário do que mostra o filme “No”, o marketing não está em alta por lá.

Gana vem ao Brasil com “As Estrelas Negras chegaram para iluminar o Brasil”, o que é meio difícil. Já os iranianos vão se sair com a breve “Honra da Pérsia”, que poderia ser o nome de um esmalte.
Ήρωες παίξει ως Έλληνες

A Grécia se saiu com “Os heróis jogam como os gregos”, afirmativa presunçosa, que mostra que heróis são ruins de bola. Assim como os suíços que passearão com a monótona “Ponto final: 13/07/2014 – Maracanã”, o dia e o local da final da Copa do Mundo. A única chance do ônibus suíço chegar lá é se esse for o local e dia de devolução do ônibus.

Echte mannen dragen oranje
Os holandeses resolveram provocar seus adversários dizendo “Homens de verdade vestem laranja”, o que
significa que além deles, só a Costa do Marfim não vai ter uma série de mariquinhas em campo. A Itália vai de “vamos pintar o sonho da Copa do Mundo de azul”. Até bocejei.

O Japão afirma “Samurais, chegou a hora de lutar!”, vou dizer que não é ruim. Ao contrário do México que diz “Sempre unidos, sempre aztecas”. Não acho uma boa ideia falar que eles são astecas, um povo dizimado a mais de 500 anos, é quase um “jogamos como nunca, perdemos como sempre” com laços históricos.

A Costa do Marfim escolheu “Elefantes rumo ao Brasil”, a Costa Rica a longuíssima “Minhas paixões são futebol, minha força, minhas pessoas, meu orgulho”, os Estados Unidos “Unidos por um time, guiados pela paixão”, a Nigéria com “Só juntos poderemos vencer” se saem com as frases mais desinteressantes que não serão comentadas.

Honrando a tradição de Camões, a frase portuguesa é “O passado é história, o futuro é a vitória”, com rima e tudo. Ok, essa frase não venceria um concurso de poesia, mas Portugal também não venceria a Copa do Mundo. A Rússia vai de “Ninguém pode nos alcançar”, típica frase de quem encheu a cara de vodca e saiu barbarizando no volante.

E no fim, o Uruguai com “O sonho de três milhões... Vamos Uruguai”. Enquanto segundo menor país da copa, não será o maior dos sonhos. Seria mais interessante se eles apostassem numa provocação barata contra os brasileiros, lembrando 1950 ou falassem do Mujica.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Utilizando o Seguro

O seguro é aquela típica coisa que você tem mais pelo medo do que poderia ocorrer caso você não tivesse um. Sabe como é, esse mundo nos deixa sujeitos a muitos riscos. Nossos carros e casas podem pegar fogo espontaneamente, podem ser atingidos por árvores, por motoqueiros possuídos pelo demônio, por mamutes selvagens renascidos após experiências científicas. E se isso acontece... ai meu amigo, o prejuízo vai ser enorme. De uma hora para outra o seu patrimônio se desfez ao sabor do vento.
"Sinto muito senhor, o seguro não cobre acidentes com asteroides"

Nessas horas que o seguro entra em ação. Ele está ai para prevenir seus eventuais prejuízos caso o seu carro seja atingido por um meteorito. Por um preço módico parcelado em algumas vezes, seu patrimônio estará garantido e seguro durante o ano.

A princípio, montar uma seguradora parece um péssimo negócio. Você recebe R$ 2.000 e garante que irá bancar qualquer prejuízo que o cidadão tiver no carro dele, incluindo o prejuízo total depois que o automóvel despencar no Portão do Inferno. Há um precipício não literal entre o valor recebido e o valor que precisa ser pago. Dinheiro que não aparece assim, tão facilmente.

Mas é claro que não é assim. Se tantas empresas gigantes investem no ramo do seguro patrimonial e elas têm rendimentos anuais bilionários, deve ser porque é um bom negócio. E realmente é, diria que um ótimo negócio. Seguradoras lucram com tragédias que nunca vão acontecer e relutam até o último momento para pagar as indenizações que elas deveriam pagar.

Uma bigorna caiu do céu e acabou com toda a parte mecânica do seu carro. A seguradora vai dizer que a culpa é de quem derrubou a bigorna e que você deve procurar essa pessoa para que ela te ressarça. Você irá sofrer um bom tempo argumentando que é impossível acessar o deus que joga bigornas do céu.

Se você resolver assumir o prejuízo ou tiver culpa no cartório, irá ter que pagar a franquia, um valor bem razoável, acima de mil reais. Qualquer dano abaixo desse valor o seguro não irá cobrir e é provável que eles digam que arrumar o teto do carro que está tocando o assoalho vai ficar abaixo do valor da franquia.
"Seu reparo não atingiu o valor da franquia"

Se eles finalmente aceitarem restaurar o automóvel, os seus problemas ainda não terão acabado. Será preciso peregrinar pela oficina autorizada que provavelmente tem 821.291 vítimas de pombos que comeram chumbo. O relatório da seguradora esqueceu de apontar que as duas portas e o para-choque traseiros também precisam ser trocados e será preciso realizar um novo pedido e no fim da história você receberá seu carro em seis meses.

Tempo no qual você precisou utilizar o carro reserva, que é claro, não cobriu todos os dias do reparo. Quando você for ver, perceberá que em dez anos gastou mais de trinta mil reais com seguro para trocar um farol e desamassar o para-choque. É isso o que acontece com 97% dos segurados, os outros 3% são aqueles que tiveram perda total ou morreram nos acidentes.

Ainda uma surpresa extra. Se você tiver que utilizar o seguro uma única vez para trocar aquele vidro trincado, na próxima renovação irá pagar um preço maior. Você usou o seguro, você é um irresponsável, um perigo ambulante que precisa pagar mais para garantir a segurança de todos os motoristas e pedestres. Se você for homem, solteiro e com menos de 25 anos, ai então você é um assassino em série atrás do volante. Não devia nem sair de casa.

Mas você tem que fazer o seguro. Porque, sabe-se lá o que pode acontecer se você não tiver um. A Lei de Murphy costuma a pegar pesado.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pessoas constrangedoras, volume 12

Pessoas que conversam com pessoas desconhecidas, dão conselhos amorosos excêntricos e ainda traduzem a conversa para um estrangeiro.

- Oi.
- Opa.
- Vou contar uma história para vocês, para vocês verem como nesse mundo tem um monte de louco.
- Hehe.
- Eu e o Steven estamos juntos há dez anos, ele é americano.
- Hmm, vocês moram lá ou aqui?
- Ele mora lá e eu moro aqui, mas ficamos viajando sempre. Eu o conheci em um bar, ele não sabia ler o cardápio eu fui traduzir e estamos juntos até hoje. I’m telling them that I met you in the bar, because you can’t understand what was in the menu.
- Interessante.
- Então, nós estamos juntos há dez anos e aí, três anos atrás eu resolvi dar uma aliança para ele, sabe. As mulheres tem que tomar a iniciativa, porque senão o homem vai ficar enrolando até os 65 anos. É um anel bem romântico, delicado, deixa eu mostrar pra vocês. Give me the ring. Olha só, ele gira, estão vendo?
- Aham.
- I’m telling them that I gave you the ring three years ago. Há quantos anos vocês estão juntos?
- Quase sete.
- Sete? Então menina, dá um anel pra ele. Ele é tímido, se você não tomar atitude ele vai esperar até os 65 anos. They are together for seven years! I tell her to give a ring for him. Ele disse I understand para você, ou seja, que ele entende.
- Hehe.
- Aliás, você tem que dar um anel e uma cueca box bem bonita pra ele. Porque quando eu conheci o Steven, ele só usava umas cuecas horríveis, que parecia de vovô, eu olhava isso e dizia ‘o que é que tem de errado aqui’. Você pode também comprar uma lingerie nova, mas tem que explicar pra ele, essa cueca é pra você usar, a lingerie é pra você me olhar usando, entendeu? I’m telling them that...
(Vamos pedir a conta logo?)
... Eu expliquei pra ele que eu contei para vocês que...
(Garçom, a conta, por favor)
... e vocês vão vir na parada amanhã? Eu não tenho nada contra...
(Seu troco senhor)
... desculpa se eu estiver falando muito, é que eu tomei uma caipirinha ai fico mais animada e...
- Opa, estamos indo embora, até mais hehe.

Pessoas constrangedoras, atrapalhando programas noturnos desde 2009.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Regular o chuveiro

Não sei se algum sociólogo, antropólogo, ou turismólogo já escreveu sobre o assunto, mas eu acredito que o chuveiro é um aparelho essencial para o desenvolvimento da sociedade contemporânea. Se as pessoas não pudessem tomar banho todos os dias, dificilmente conseguiríamos trabalhar em lugares fechados, morar em apartamentos, frequentar restaurantes.

Um mundo com pessoas que cheiram mal seria um mundo de pessoas distantes, com baixa taxa de natalidade e com muitas mortes provocadas pela falta de higiene, cadáveres decompostos em vias públicas e guerras por expansão territorial. Tomar banho contribuí para um melhor convívio pessoal, sucesso profissional e a paz mundial.

Pelos motivos acima citados, todas as pessoas costumam a ter um chuveiro na sua casa. Por mais que o chuveiro seja um aparelho como tantos outros, que podem ser adquiridos em finitas prestações nas Casas Bahia, eles estabelecem uma relação diferente com seus donos. Você talvez não tenha noção de que é a única pessoa capaz de acertar a temperatura do chuveiro da sua casa. Bem, você e as outras pessoas que o utilizam diariamente.

Uma das maiores frustrações do ser humano é tomar banho em um banheiro desconhecido e não conseguir achar a temperatura ideal da água. Aquela que você tão bem conhece no seu chuveiro, jamais será reproduzida facilmente em outros lugares. Sem falar na questão da vazão, algo que te faz se sentir em casa. Você vai se queimar ou vai se congelar na casa do seu tio, ou no hotel, ou aonde quer que seja.

O modelo de chuveiro mais popular nos hotéis é aquele que vem com uma chavinha em cima, oferecendo as opções inverno e verão. Ele tenta vender uma aparente simplicidade, num esquema oito ou oitenta de acordo com a temperatura ambiente. No entanto, essa simplicidade é uma falácia. O chuveiro tipo inverno/verão costuma a oferecer duas opções de água: fervendo ou congelando.

O cidadão que deixou a chave nesta posição, cla-
ramente tenta cometer suicídio
Na opção inverno, a água sai tão quente como um jato de um gêiser. Na opção inverno ela praticamente congela antes de tocar o chão. Ainda há a possibilidade de colocar o chuveiro no modo desligado, mas ninguém que tentou essa função conseguiu sobreviver sem perder partes do corpo necrosadas pelo frio. Muitos morreram de hipotermia.

Para piorar, esse sistema ainda prega peças. Certa vez, tomei banho em um no qual a opção verão te queimava e a opção inverno descolava a pele do seu corpo e logo você começava a cheirar a churrasco. Nesses casos, só lhe resta àquela opção de ficar longe da água, se molhando com as mãos e sofrendo em silêncio.

Os hotéis também costumam a investir em um modelo neutro, com duas torneiras na parede, uma responsável pela água quente e outra pela água fria. Teoricamente, você conseguiria controlar tranquilamente a temperatura da água e tomar um banho prazeroso, mas a verdade é que é preciso ter um diploma em química para ajustar a temperatura da água corretamente.

O problema já começa na disposição das torneiras. Muitos hotéis se esquecem de sinalizar as torneiras com os tradicionais Q ou F ou nas cores azul e vermelha. Você precisa descobrir na prática, torrando ou necrosando o seu braço.

O procedimento padrão consiste em ligar uma das torneiras e descobrir qual é a sua temperatura. Depois, você vai dosando a outra torneira aos poucos, faz um ajuste aqui, outro ali e após uns vinte minutos e uma hidrelétrica ralo abaixo, você chega no ponto ideal, depois de pensar que faltava só um pouquinho, mas ter aberto a torneira demais e enfim. É um inferno.

Isso quando o chuveiro não tem um tempo de resposta demorado e você confunde qual é o quente e qual é o frio e quando acha que a água está boa ela subitamente esquenta e você morre ali mesmo, o corpo se dissolverá no calor e jamais será encontrado.

Por essa e outras a solução é só tomar banho em casa.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

CH3 News, edição 22

Caros CHnautas, após um longo e tenebroso inverno o CH3 retorna com o seu polêmico jornal, o CH3 News em sua 22ª Edição. Confira tudo o que você sempre teve que saber. Boa leitura. Veja também por aqui, em um tamanho maior.