quarta-feira, 31 de julho de 2013

A vida em cidades turísticas

Eu tinha 13 anos e estava passando férias na cidade de Gramado, na serra gaúcha. Cidade famosa por chocolates, cafés coloniais, casas em estilo colonial, festivais de cinema com uma premiação de nome engraçado, enfim, uma cidade turística.

Depois de uns quatro dias andando por aquelas poucas ruas limpas e cheias de restaurante, bares, pizzarias e lojas de artesanato, me bateu uma dúvida existencial: alguém realmente mora em Gramado? Onde é que essas pessoas moram? Já havia andando bastante pela cidade não havia percebido nada parecido com uma residência. Ou melhor, haviam algumas grandes mansões de ricaços que devem passar o final de semana por lá. Mas, onde é que esses garçons, cozinheiros, faxineiros e vendedores moravam? Será que eles pegam o ônibus até outra cidade? Será que eles moram em abrigos subterrâneos, escondidos dos turistas? Será que a noite, quando o comércio fecha, as trattorias se transformam em dormitórios? Eles dormem na rua?

Um dia, sorrateiramente, perguntei a uma caixa de uma loja onde é que as pessoas da cidade dormiam. Ela apenas riu e não respondeu. Será que ela estaria debochando da minha pergunta? Será que ela estava escondendo algo? A resposta eu jamais saberei, porque na época eu não pensava em ter um blog de jornalismo investigativo. Aliás, até hoje eu não penso nessa oportunidade, nem nunca pensei.

Cidades com portal de entrada cos-
tumam a ser ridiculamente turísticas
Provavelmente toda e qualquer cidade do planeta tem seus atrativos turísticos, com uma única possível exceção, que não citarei aqui por medo de processos e represálias. Em qualquer cidade haverá uma praça simpática, uma casa antiga, uma pequena reserva florestal, quem sabe uma cachoeira, um monumento a história da humanidade, um prédio construído na época do Império Romano. Se essas atrações turísticas são boas ou ruins, é outra questão, mas o fato é que toda cidade é turística. Existem aquelas que são muito turísticas e outras que são ridiculamente turísticas.

Cidades ridiculamente turísticas são essas, como Gramado. Aliás, deixo claro que acho Gramado uma cidade muito agradável que quando fui lá dormi em um hotel muito bom, comi bem todos os dias e tudo mais. Mas, digo que a cidade é ridiculamente turística porque ela parece existir apenas para isso. Chega a ser até um pouco fake ver aquelas ruas cheias de casas coloniais, os canteiros cheios de orquídeas. Tudo foi friamente planejado para agradar os turistas que querem passar um tempo de escape fora da realidade e gastar um bom dinheiro com isso. Existem outras cidades assim, como Campos de Jordão, Penedo, Porto de Galinhas.

Em todas essas cidades eu me pergunto onde é que as pessoas moram. Onde é que elas se escondem. Onde tem que ir se ficam doentes, onde as crianças estudam. Eles passam no mercado para comprar um pão? Eles compram roupas naquelas lojas caríssimas também, ou será que existe um lugar em que elas podem comprar um pacote de cueca, três por dez?

Quando eu era criança, tinha esse mesmo sentimento em relação a Chapada dos Guimarães. Para mim, a cidade se resumia a sua praça, sua igreja e o restaurante Mestrinho, onde sempre íamos almoçar. Um dia, algum dia, fui com meu pai em um lugar e descobri que existiam casas por lá. Foi uma surpresa. Ainda não descobri onde é que ficam as casas de Gramado, quem sabe um dia?

segunda-feira, 29 de julho de 2013

As Fabulosas e Inúmeras Opções do Mundo das Pastas de Dente

Sempre lançando uma pasta de dente cada vez mais eficaz. Eis uma indústria que nunca se acomoda.

Você com certeza já deve ter assistido a um comercial de pasta de dente, este curioso mundo em que equipes cinematográficas invadem banheiros alheios em busca de depoimentos sobre a saúde bucal das pessoas. Mas há uma coisa que me chama ainda mais a atenção nessas propagandas: eles sempre anunciam um produto novo que promete resultados cada vez mais eficazes. E ainda mais curioso é o fato de que os produtos novos não substituem os antigos. Temos inúmeras pastas de dente de várias marcas diferentes.

Fiz uma busca nas prateleiras dos supermercados e constatei uma enormidade de opções, só da Colgate eu perdi a conta. Fui até a internet para buscar a razão de cada uma.

A “Total 12” me parece ser o carro chefe da marca. Ela te protege de 12 problemas que podem atingir sua boca. São eles: bactérias, cárie (cárie não é bactéria?), cárie abaixo da gengiva (isso soa enrolação), gengivite, a perda de sais minerais, tártaro, placa bacteriana (não incluía nas bactérias?), mau-hálito, remove manchas, reforça o esmalte dentário, limpa entre os dentes e protege dentes sensíveis. Além disso, sua ação age durante cabalísticas 12 horas.

Falando assim, parece que a "Total 12" é o santo graal dos cremes dentais e que você não precisaria de mais nada além dela. Só que dentro da linha “Total 12”, ainda existem modelos específicos para clarear os dentes, proteger a gengiva, clarear os dentes ainda mais e refrescar o hálito. Me parece estranho, porque achei que todas essas ações já estavam previstas dentro dos trabalhos originais.

Na minha época só existiam duas
pastas de dente: Kolynos, ardida
feita pra macho...
Clarear os dentes, aliás, parece ser a maior obsessão dentro do mundo da saúde bucal. Há uma linha chamada “Luminous White”, que ainda tem escova de dente e enxaguante bucal. Ela promete clarear seus dentes em sete dias. Esse produto me parece destinado a quem só quer deixar os dentes brancos e está cagando para cáries ou qualquer outra coisa. Também existe a “Ultra Branco”, que promete dentes brancos em 14 dias. Eu pergunto: qual é o sentido de um produto que deixa os dentes brancos em 14 dias se existe um outro que faz a mesma coisa em sete? Ele é feito para as pessoas cautelosas que não querem uma mudança brusca em suas vidas? "Calma, vamos com calma".

Ainda podemos encontrar o "Whitening Plax", para branquear os dentes e ganhar como bônus o fim do mau hálito, e também o “Max White”, para dentes mais brancos, mas talvez não tão brancos como aqueles escovados com o "Luminous White". A diferença de preço entre os produtos não chega a dois reais.

Dentes sensíveis também são um mercado em crescimento. A Colgate oferece a linha “Sensitive” e “Sensitive Pró Alívio”, duas pastas de dente para quem tem dentes sensíveis e que também previnem a cárie, o tártaro e problemas de gengiva. Qual é o sentido de uma marca criar essa concorrência entre seus próprios produtos? A Total 12 também já não prometia todos esses serviços? Isso não é confuso?

Existe a “Tripla Ação”, que oferece dentes brancos, hálito fresco e proteção anticáries. Pode parecer uma inutilidade, uma vez que temos outro modelo que já oferece 12 ações. O detalhe é que essa é a pasta de dente mais barata e então, a inutilidade passa a ser aqueles modelos que clareiam o dente por um preço maior. Porque eu vou pagar caro em um produto que só clareia os meus dentes, se existe outro mais barato que ainda melhora o hálito e acaba com as cáries?

...e Tandy, para as crianças. Era tão
doce que você podia comer.
Curiosamente, também existe uma outra pasta que oferece “Máxima Proteção Anticáries”, o que me faz entender que as outras previnem a cárie, mas não tanto quanto poderiam. E o Max Fresh, que refresca. Só isso. Todos os outros modelos também dizem que refrescam e vocês querem me vender um que só refresca e mais nada?

Por fim, temos o modelo popular, bicarbonato de sódio. A empresa explica que este creme “possuí baixa abrasividade e pode ser usado todos os dias”. Como assim? As outras pastas de dente não podem ser usadas diariamente? Os dentistas estão enganando a humanidade durante esse tempo todo?

Ainda poderíamos ir para o mundo das escovas de dente, em que todas têm cabos anatômicos e removem mais bactérias que as escovas comuns, promovendo uma limpeza plena. Tudo bem, os modelos tem ampla diferença de preços e você tem que escolher se quer uma limpeza plena mais barata ou mais cara.

Por enquanto, encerro esse post com outro questionamento: os dentistas de comercial de pasta de dente são realmente dentistas ou são apenas atores contratados?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Profissões desgraçantes: motorista do papamóvel

Ser motorista não é das ocupações mais agradáveis, mesmo sendo uma profissão com boa oferta no mercado de trabalho. Em todos os lugares sempre há alguém que queira ter um motorista particular. Seja um dono de uma frota de táxi, ou aquele bilionário decadente que quer manter algum status tendo um cidadão vestido com uma roupa ridícula no volante do seu Jaguar. Ou o papa.

Para ser um motorista, talvez você não precise necessariamente de qualificação profissional. Carteira de habilitação, um bom nível de conhecimentos gerais e uma formação política ultraconservadora. Sim, é de bom tom que você seja um cara prudente, conhecedor das leis do trânsito e respeitoso. Mas, seu empregador talvez não ligue para isso. Se o seu empregador for o papa, você ainda precisará de paciência.

A graça de dirigir profissionalmente é conduzir máquinas potentes e atingir o limite de sua engrenagem. Mas você só chega lá se virar piloto de Fórmula 1 e para isso você precisará de um grande investimento. A desgraça de dirigir é ter que diariamente enfrentar o trânsito louco de nossas cidades, congestionamento, assassinatos, pequenos apocalipses que acontecem no semáforo mais próximo da sua casa.

Se você for o motorista do papa, irá dirigir um carro extremamente feio e pesado. Você jamais poderá dar uma acelerada a mais, porque o carro está ali para exibir justamente o papa, sorridente e acenante atrás de você. Ontem, em Copacabana, o motorista percorreu a orla da praia em uns 50 minutos. Se ele percorresse o caminho a pé, o teria feito mais rápido. Nada é mais frustrante do que dirigir um carro devagar. Imagino o motorista do papamóvel acelerando o carro na Dutra de noite.

Fora isso, você tem que parar o tempo todo. Para porque o papa quer dar tchau pra alguém. Para porque o papa quer beijar uma criancinha. Para pro papa tomar um chimarrão. Para pro papa contar uma piada. Para pra que joguem um balão de oxigênio para o papa, porque ele sofreu um atentado. Melhor não, além de dirigir este carro, você também é o segurança do papa, um piloto de fuga.

O pior de tudo é o assédio. Claro, o assédio não é para você, mas para o papa. Por onde o santo padre anda, a multidão grita. Gritos histéricos que devem deixar o motorista surdo, ainda mais porque o volume da comunicação interna deve ser ainda mais alto, caso o contrário, ninguém irá entender nada e o motorista não irá perceber que pediram para ele parar o carro porque um devoto está no meio da pista e você atropelou ele.

O motorista do papamóvel não deve durar muito tempo. Aposto que após uns dois anos ele já está surdo, psicótico e tomando remédios controlados de tarja preta. Tendo alucinações diárias e sonhos estranhos nos quais ele dirige no meio de uma multidão que grita o tempo todo, escutando vozes no ouvido. Bem, isso não é muito diferente de sua vida real.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Normalidade

Comprar xampu, definitivamente, não é uma tarefa para principiantes. Uma prateleira de xampus no supermercado é uma janela para o mundo com uma infinidade de tubos das mais diferentes cores, formas e especificações. Xampu para cabelos escuros, claros, tingidos. Cabelos lisos, ondulados, cacheados, crespos, étnicos. Cabelo seco ou oleoso. E também para cabelos normais. Intrigantes cabelos normais.

Todo cabelo é uma apêndice cônico e fino, levemente ácido, que nasce na pele dos mamíferos. Tem como função primordial isolar termicamente a cabeça. Existem uma série de fatores genéticos inexplicáveis dentro da linha editorial deste blog que fazem os cabelos terem suas características. Da mesma forma é uma longa história que transformou os cabelos no principal item da vaidade humana. Mas, até onde eu saiba, todos os cabelos são normais.

A existência de um xampu para cabelos normais implica automaticamente na existência de cabelos anormais. Cabelos normais obedecem todas as especificações técnicas já citadas. E os cabelos anormais? Olhando ao meu redor não nota a existência de ninguém que tenha cabelos que não pareçam normais. Não vejo ninguém com um cabelo formando por pequenas víboras, que cospem fogo. Cabelos feitos de algodão ou que deem choque. Diria que todos parecem absolutamente normais.

Que tipo de xampu usa o Mauro Xampu?
No mundo dos cosméticos existem outros tantos produtos destinados a pessoas normais. Sabonete para peles normais, loção de barbear para pele normal. O conceito de pele normal me parece ainda mais assustador porque eu não consigo imaginar o que é uma pele anormal. Uma pele que derrete ao contato com produtos químicos? Uma pele que evapora? Uma pele que se parece com uma escama?

Imagino o momento em que o médico avisa a seu paciente: “O problema é que você... seus cabelos não são normais”. Motivo de choro compulsivo e consultas a psiquiatras que resultam na receita de centenas de remédios tarja preta. Não ter uma pele normal pode ser ainda mais perigoso. “Observe os sintomas: se seu filho volta para casa em carne viva e se ao tomar banho sua pele cai no chão e entope o ralo, procure um médico: ele pode ter pele anormal”.

Na verdade, o xampu para cabelos normais pretende excluir todos os cabelos que não atendem a critérios estabelecidos naquelas propagandas da L’Oreal. O cabelo oleoso é considerado anormal, mas poxa, um monte de gente tem. Um monte de gente tem pereba na pele mas isso não significa que... bem, não, pereba não é normal não. Mas nunca vi uma propaganda de sabonete para pessoas com pereba.

No mercado, nós poderíamos ter um molho de tomate para estômagos normais. Sim, temos várias pessoas que sofrem de azia ao comer uma bela macarronada ao sugo. Quem tem azia tem um estomago anormal. O activia é um iogurte para intestinos anormais. Desodorantes para sovacos normais e anormais. Tem uns que fedem tanto, que aquilo não pode ser normal. Carros com sensor de estacionamento para motoristas que são anormais na hora de estacionar seu carro.

Só um tipo de pessoa não tem cabelos normais: os carecas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A Glória de Acordar Cedo

Vamos pensar em dois colegas de trabalho que desempenham a mesma função. Devido à escala de trabalho, eles encaram suas jornadas em horários diferentes. O primeiro trabalha das 6h às 16h, enquanto o segundo encara a labuta entre às 10h e 20h. A mesma carga horária para os dois, a mesma quantidade de trabalho para ambos. Eles deveriam receber um tratamento semelhante perante a sociedade, certo? Errado.
Você tá indo e eu tô voltando
O cidadão que bate o ponto às 6h da matina terá uma vantagem moral enorme. Durante o dia, ele poderá se sobrepor aos concorrentes contando sua rotina. Que para estar às 6h da manhã no serviço ele precisa acordar às 4h30 da manhã. Entendeu? 4h30. Enquanto vocês todos ainda estão no conforto de suas camas, quentinhos e sonhando com um campo verdejante do qual você é misteriosamente teletransportado para o pátio da sua escola e você está nu durante a apresentação de um trabalho de história e misteriosamente há um chuveiro dentro da sala, enquanto isso, ele já está acordado. Dando bom dia para o sol e encarando de frente todas as dificuldades da vida, dando um mata leão nos problemas que aparecem, estrangulando-os sem piedade.

E você que entra no serviço às 10h? Uma menininha mimada que acorda às 9h. As nove? Nesse horário ele já atendeu quarenta clientes, já teve uma pausa no café e já deu duas mijadas. Enquanto você está se espreguiçando igual uma bichinha, ele já está na ativa derrubando a tapa todos os obstáculos do trabalho.

Pela lógica, essa diferença não deveria ocorrer, porque os dois trabalham a mesma quantidade de horas, tem a mesma quantidade de trabalho. Você pode até argumentar que ele vai embora às 16h, enquanto você permanece até às 20h. Que quando ele já está na casa dele debaixo do cobertor tomando sopa e assistindo a novela, você ainda está lá, pressionado pelo relógio para resolver os últimos problemas do dia. Mas não adianta.

Essa era a comunidade mais popular do Orkut.
Muito provavelmente, só tinha fakes
Acordar cedo é uma das características mais admiradas em nossa sociedade. Como não é fácil sair da cama, aqueles que vencem esse desafio ainda de madrugada acabam por ganhar status de super-herói. Veja que todo mundo sempre mente pra baixo o horário em que acordou. Se você levantou às 9h55, irá dizer que acordou lá pelas 9 e não lá pelas 10. De tal forma, falar que despertou em algum horário depois das 10h é motivo de desonra. Aqueles que acordam depois das 10h ficam envergonhados, lamentando que naquele dia miseravelmente perderam a hora. Acordar depois do meio-dia é motivo para execração pública.

Perceba, aliás, que ninguém acorda tarde. Converse com um grupo de amigos sobre o horário em que eles acordam no domingo e você receberá respostas do tipo “domingo acordei tarde, às 8h”. Algum corajoso admitirá o despertar após as 9h. Existirão aqueles que acordaram às 4h da manhã e dirão “você estava indo dormir e eu já estava acordado”. A lógica inversa seria a mesma “você já tinha dormido e eu ainda estava acordado”. Mas não há orgulho nessa frase.

Com os avanços da engenharia genética, chegaremos a um dia em que os pais poderão escolher todas as características de seus filhos. Creio que os pais não ligarão para a cor dos olhos, para o colesterol alto ou opção sexual. Mas todos pedirão para que seus filhos sejam capazes de acordar cedo.

Mas, veja que no mundo atual não existe motivo para acordar de madrugada, além da convenção social¹. Em tempos remotos, tínhamos que acordar cedo porque não existia luz elétrica e precisávamos sair da cama antes do sol sair, para dar tempo de cuidar da lavoura e caçar um bisão antes do sol se por. Era preciso dormir cedo porque não havia nada para se fazer na escuridão. Só que, desde que Thomas Edison inventou a luz elétrica após um longo processo de pesquisa envolvendo algodão e um estranho hábito de soltar pipa na chuva, nós estamos livres. Temos luz durante o dia todo (inclusive, todos os comércios e repartições públicas ficam com suas luzes acessas durante o dia) e podemos cumprir nossos afazeres em qualquer horário. Sem pressão social.

¹Nota: outro bom motivo para acordar cedo é ir até a selaria texana para comprar aquela linda sela com a qual seu marido estava sonhando, cavalgando no pasto, montado no Tango.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O homem que rima errado

A tua piscina está cheia de fatos, tuas ideias não correspondem aos ratos. O tempo não para. Eu tinha 13 anos e fui cantar essa música, sucesso recente do Cazuza, para impressionar uma garota. Ela riu de mim e eu fiquei sem entender qual era o motivo. As pessoas não gostavam de Cazuza? Ele fazia o maior sucesso naquela época. Será que é porque ele era gay?

Alguns dias depois eu fui contar para um amigo meu essa história e ele também começou a rir. Pensei se, por algum acaso, havia nascido um nariz de palhaço na minha cara. Antes que nós partíssemos para um embate físico ele me explicou que eu havia invertido a ordem das rimas. Na verdade, o correto é “A tua piscina está cheia de fatos”, ao invés de “cheia de fatos”. Pois é, é complicado explicar, mas eu sou um cara que inverte a ordem das rimas.

Então é natal e o que você fez?
O ano termina e começa outra
vez. Opa, essa porra não rima
Quando eu me dei conta disso, ou, quando me avisaram, porque para mim tudo parece normal, as coisas passaram a fazer sentido. Comecei a entender porque é que as pessoas riam da minha cara em apresentações musicais. Tive que desistir do meu sonho de virar cantor. Ok, para ser franco eu nunca tive esse sonho. Eu queria ser astronauta e virei funcionário de banco.

Quando eu contei para minha professora de psicologia que quando eu era recém nascido minha mãe me cantava “Nana Neném, que a cuca vem trabalhar, papai foi pra roça, mamãe vai te pegar”, ela me disse que isso era da ordem do horror. Mas, que Freud poderia explicar. No fundo, meu trauma era baseado na minha vontade de comer minha própria mãe, exaltada nessa rima incestuosa. Mandei minha professora à merda e reprovei de semestre.

Esse meu “problema” acontece em todas as músicas. Como nesse novo sucesso que diz “para o baile pra me ver babando, você com certeza vai ficar dançando”. Não fazia o menor sentido essa história de parar o baile para ver alguém babando. Meus amigos me explicaram que na verdade ela pede para parar o baile para ela babar ao invés de “babar”. Por essas e outras que acho que eu li James Joyce tranquilamente.

Quando eu digo que inverto a rima em todas as canções eu estou mentindo. Existe apenas uma canção que eu nunca erro: Construção do Chico Buarque. Eu sempre sei quando é última, única, pródigo, sábado. Por incrível que pareça, em um concurso realizado oito anos atrás, eu fui a única pessoa a acertar todas as rimas da canção. Na música seguinte que foi Cotidiano eu cantei “todo dia ela faz tudo sempre pontual, me sacode às seis horas de hortelã, me sorri um sorriso igual e me beija com a boca de manhã”. Fui desclassificado e meus amigos não sabem se eu sou um gênio ou um retardado.

Por essas e outras que meu gênero favorito é o Sertanejo Universitário.
Bara bara bara, bere bere bere, bara bara bara, bere bere bere. Sempre dá certo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Guia CH3: Como organizar uma festa surpresa de aniversário

Organizar uma festa surpresa de aniversário não é das tarefas mais fáceis para um ser humano. É um longo e tortuoso caminho que tem quer ser percorrido entre a concepção da ideia até o momento em que o aniversariante abre a porta e encontra toda a turma do ensino médio, que ele não via a 12 anos, escondida atrás da mesa do bolo, utilizando chapeuzinhos de aniversário.

Primeiro você precisa definir bem o perfil da pessoa que será surpreendida. O aniversariante não pode ser alguém que já esteja planejando uma festa por conta própria. Nesse caso, a festa não seria surpresa e não seria uma boa ideia tentar demovê-lo desta intenção.
- Então cara, meu aniversário e na sexta, vou fazer uma festinha lá em casa.
- Melhor não heim…
- Ué, porque não?
- Ah, ninguém gosta de você. Todo mundo aqui te odeia, você quer levar esse monte de filha da puta pra sua casa? Até quando você vai bancar o otário? Seu merda!

O aniversariante irá se transformar em um completo depressivo e muito provavelmente irá se jogar de cima do viaduto hoje mesmo. Caso ele sobreviva até o dia do aniversário, a surpresa da festa não irá recompensá-lo. Vai parecer que a festa foi pra se desculpar pelo incidente e não que o incidente serviu para promover a festa. O aniversariante poderá derrubar o bolo sobre os convidados e emitir gritos engraçados.

O perfil ideal para um aniversariante que pode ser surpreendido é aquele que age de maneira descompromissada em relação a data. Aquele que diz que não irá fazer nada, que não liga para essas coisas. Na sexta ele só vai ficar em casa escutando Simon & Garfunkel e, quem sabe, pedir uma pizza. Bem, esse tipo talvez seja meio depressivo.

A organização da festa não é exatamente simples, porque uma boa festividade inesperada é organizada de última hora. Não por falta de planejamento, mas sim porque diminui as chances de alguém estragar tudo.
- Opa, até mais tarde Marquinhos!
- Até mais tarde?
- Opa, nada não, não vai ter uma festa surpresa pra você hoje, fica tranquilo.

Perceba que é preciso fazer um verdadeiro trabalho em equipe. Você precisa notificar todos os convidados de que a festa é surpresa e precisa trabalhar esta mensagem para que nada dê errado. Imagine manter a mentira durante um período longo? Pastores, maçons e membros do Telexfree tem mais facilidade em trabalhar desta maneira e por isso tem mais chances de organizar um bom evento.

Você também terá menos tempo para adquirir todos os itens necessários para organizar uma boa festa, como: cadeiras, mesas, comida, bolo, docinhos, copos, pratos, bebida, um freezer, estroboscópio, giroscópio, pirocóptero, DJ, caixas de som, chapeuzinhos coloridos, línguas de sobra, strippers, anões trapezistas, um mastro de pole dance besuntado em geleia de morango, capsulas de cianureto, piscina de bolinhas e um bode.

O local da festa também é uma preocupação e tanto. Se ela ocorrer na casa do aniversariante, você tem que dar um jeito de organizar tudo e levar várias pessoas até dentro da casa dele, sem que ele perceba. É mais fácil se você tiver a chave da casa ou se você subornar o porteiro. Em todo o caso, sempre vale a pena estudar a possibilidade de alugar um espaço, invadir a casa de uma pessoa ou realizar a festa na rua. #vemprarua

Também fica difícil se você for colega de trabalho, porque o aniversariante estranhará a sua ausência no local de trabalho. Ou então, estranhará o fato de que você está pesquisando o preço do aluguel de bodes. Fica a dica: se perceber alguém consultando o preço do aluguel de um bode, saiba que é para uma festa surpresa.

O último passo é convencer a pessoa a ir até o local da festa. Se a festa for na casa do aniversariante, uma hora ele irá aparecer por lá. Mas quando? E se vocês descobrirem da maneira mais cruel que ele se traveste de noite e leva clientes para casa? E como você vai convencer o cara a ir até um Buffet na saída da cidade? No mínimo ele vai achar que você quer assassiná-lo, ou estupra-lo. E se ele já marcou de jantar com a mãe dele nesse dia? Ai a casa caiu. Só resta uma última alternativa.
- Vamos lá que a gente te organizou uma festa surpresa, porra.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O curioso caso das festas juninas em Julho

Se há alguma coisa que marque o mês de junho, esta coisa é, ou são, as festas juninas. Se as festas juninas ocorressem em outubro, teríamos as festas outubrinas, que seriam um clamoroso fracasso de marketing. A Igreja católica foi certeira em seus objetivos quando optou por marcar os dias de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo para esta época do ano. Entre outras coisas, porque associaram a marca ao solstício de verão no hemisfério norte, uma comemoração tradicional para as antigas civilizações.

Na Europa eu não sei, mas no Brasil a festa junina é associada às festas caipiras. Uma oportunidade ímpar de comer cachorro quente, pastel, bolo, mais um cachorro quente, tomar um refrigerante, partir para o terceiro cachorro quente, tomar um porre de quentão, mais um cachorro quente, pensar em uma espiga de milho e morrer de congestão no quinto cachorro quente. A festa junina também é uma oportunidade para participar de dezenas de atividades lúdicas como:

Quadrilha: Vai ocorrer um casamento e os noivos, o padre e os convidados precisam passar por uma espécie de Via Crúcis para legitimar a união perante o divino. No meio do caminho existirão cobras, pontes quebradas, chuvas torrenciais e a emblemática figura do pai da noiva. Ou será que é tudo mentira? Antes de mais nada, a quadrilha é um exercício de sanidade mental, no qual você precisa seguir sua intuição.
Nada como uma atividade lúdica

Pau de Sebo: Jogo de cunho homoerótico em que as pessoas têm que subir em um pau gigante e escorregadio. Quem conseguir ganha um prêmio.

Pescaria: Crianças tentam capturar peixes fictícios em uma piscina de água ou de areia. Quem consumar o ato ganha algum brinde, que no começo pode até ser interessante, mas que no final acaba virando tupperware ou loção pós-barba.

Enfim, como já foi dito, a festa junina ocorre em junho. No entanto, nos últimos anos eu tenho percebido o fenômeno cada vez mais frequentes das festas juninas realizadas em julho. Neste ano mesmo, eu não fui convidado ou confrontado com nenhuma festa junina tradicional. No entanto, desde que julho começou eu já fui em uma e já ouvi falar de mais quatro.

Qual é a razão desse fenômeno social, comparado somente ao churrasco vegetariano? Seria uma crise de valores sociais sem precedentes do homem euro-hétero-macho-autoritário?

Bem, acredito que a culpa é desse mundo em que vivemos. Cada vez temos a sensação de que temos menos tempo para fazer as coisas. Assim sendo, só nos lembramos da existência das festas juninas e como é legal ganhar um tupperware na pescaria e morrer de overdose de cachorro quente, quando já estamos em junho. Só quando junho chega é conseguimos pensar em organizar uma festa junina, e então, ela só é posta em prática quando julho chega.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A Democratização da Vergonha Alheia

De repente lá está aquele cidadão exposto a uma situação completamente vexatória. É uma situação tão constrangedora que você se sente mal por ele, a última coisa que você gostaria na sua vida é estar na mesma situação que este cidadão. É a famosa vergonha alheia, um sentimento muito popular nos tempos atuais e foi exatamente isso que eu senti ao ver esse vídeo do jovem Max, de 12 anos.



Você assiste isso e pensa, por céus, onde é que estavam os pais desse menino que não impediram seu filho de passar esse constrangimento mortal. O que esse menino de 12 anos está fazendo, tentando sensualizar com sua voz infantil, cantando que já foi para Londres, citando meninas bronzeadas, só de biquíni. Vai estudar Max. Vai tentar corrigir esta chaga imposta em sua vida. (seu punheteiro)

Acredito que o sentimento de vergonha alheia surgiu junto com os meios de comunicação de massa. Em épocas pré-históricas, o homem da caverna poderia passar por uma situação constrangedora, mas só seu pequeno grupo saberia. E eles já viviam pelados, não tinham muito mais o que sofrer. Da mesma forma, os grandes constrangimentos tinham dimensão reduzida nas primeiras civilizações. Você precisava presenciar o fato com os próprios olhos.

Os jornais ajudaram a divulgar constrangimentos alheios, mas a televisão foi a primeira grande mola propulsora. Neste meio, as imagens são tudo. Saber que alguém chorou pela derrota do Anderson Silva é uma coisa. Assistir sua imagem é outra. No entanto, as televisões atendem a lógica de mercado é só compartilham o constrangimento de alguém se isso for de seu interesse.

A internet sim foi a responsável por essa bolha de vergonha alheia que vivemos atualmente. Qualquer um pode humilhar outra pessoa. Muitos constrangidos são os responsáveis pela divulgação da sua própria humilhação. Como é o caso dessa bela propaganda da Selaria Texana.



Não há como negar que é um trabalho harmônico, com roteiro, atuação e direção no mesmo nível.

Hoje em dia é muito fácil para qualquer um se constranger diante da humanidade. É fácil se vestir de celular Motorola e sair dançando e ensaiando chutes na bola. É muito fácil gravar um vídeo dublagem de uma boy band inglesa contando a história da sua vida e como os seus pais são demais. É muito fácil constranger o mundo com sua presença.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Lendas e Tragédias Infantis

Semana passada eu estive em uma escola de Primavera do Leste, a capital nacional do Bullying. Lá, vi umas crianças fazendo aquelas coisas que elas sempre fazem, pulando de escadas, subindo em muretas. De repente, vem uma voz adulta de algum canto que disse “desce daí menino, você vai acabar se machucando. Já teve gente que morreu assim”. Gente que morreu pulando da mureta. Será que é verdade?

Voltando as lembranças do meu tempo de colégio, lembro que em 1996 a direção do colégio deu início a ousada construção da quadra coberta. Para isso, teve que derrubar um pequeno bosque, aterrar o terreno e tudo mais.  Tratores operavam por ali e no começo o local da obra se transformou em um enorme lamaçal, espécie de parque de diversões para os alunos.

Um dia veio a notícia: uma criança morreu atropelada por um trator. Chocados, ninguém nunca mais desceu até o local da obra, mesmo que não houvesse uma única máquina na pista. Outra tragédia no colégio ocorreu durante a época da festa junina, em que se promove o nefasto concurso de Rei e Rainha da Escola, que estimula os alunos a venderem votos. Um estudo antropológico seria capaz de apontar que a semente da corrupção de nossa sociedade é plantada nesta época.

Pois bem. Desesperadas para ganhar o concurso, crianças se jogavam na frente de carros vendendo os votos. Um dia veio a notícia: uma menina morreu, atropelada, enquanto buscava votos para ser eleita rainha do colégio. Ninguém nunca mais vendeu votos na hora do rush. Aquela sombra negra permaneceu sobre a instituição durante alguns anos. Mas hoje eu penso que não era nada além da velha psicologia infantil tentando amedrontar as crianças.
Carlinhos morreu no Gira Gira
Penso que se uma criança tivesse morrido patrolada por um trator, as aulas seriam suspensas. A notícia seria transmitida no Jornal Nacional. País retirariam seus filhos do colégio, os pais da criança morta processariam o colégio e o colégio iria falir. Quem deixaria seu filho estudar em um colégio em que crianças são esmagadas por máquinas? Que morte horrível. O atropelamento durante a compra de votos também seria terrível.

Há o que me faça pensar assim. Anos depois, um aluno da sexta-série morreu atropelado, não no colégio, mas em Chapada dos Guimarães. Foi um clima de comoção, aulas suspensas, alunos liberados para o velório e para a missa. Porque nada disso ocorreu com o aluno triturado por um trator? Fomos liberados da aula até quando o padre Raimundo Pombo¹ morreu.

A psicologia infantil é a única explicação. Como deter aquelas crianças que insanamente correm de um lado para o outro aprontando muita confusão? Fala que ele vai morrer se pular do quarto degrau da escada, vai morrer se subir na árvore, vai morrer se falar palavrão. Enfim, tudo mundo vai morrer um dia.

¹Aliás, esse foi um momento curioso da minha vida escolar. O diretor chegou na sala e disse:
- Pessoal, vocês estão sendo liberados...
- (eeeeeeeeeee)
- Porque o Padre Pombo morreu.
- (eeeeeeeeeeee)
Na época ninguém sabia quem era o Padre Pombo. Faça uma busca no Google e descubra a história desse ilustre mato-grossense.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Regra é Clara

Pio XII, pacata cidade no centro do Maranhão com 22.016 habitantes, foi o palco do fato futebolístico da semana. Um fato que eclipsou a conquista brasileira na Copa das Confederações, a volta do Campeonato Brasileiro ou o jogo entre Cuiabá e Santa Cruz.

Tudo começou quanto o volante Josemir Abreu desferiu um violento carrinho no atacante adversário. Diante da entrada, o juiz Otávio Catanhede não hesitou e decidiu expulsar Josemir de campo. Inconformado com a atuação do árbitro, Josemir passou a desferir socos e pontapés em Otávio, que novamente não hesitou. Retirou uma faca que ele guardava na cintura e a introduziu na barriga de Josemir, que não resistiu aos ferimentos e morreu. A torcida não gostou nem um pouco do que viu e invadiu o gramado para tirar satisfações. O juiz Otávio foi então agredido e apedrejado até a morte, seus restos mortais foram serrados e sua cabeça foi presa em uma estaca.

A morte sempre esteve presente na história do futebol, apesar de, ao contrário do MMA, esse não ser o objetivo principal. Inúmeros jogadores já morreram dentro de campo, vítimas de problemas cardíacos ou cotoveladas. Milhares de torcedores já caíram da arquibancada, foram esmagados contra as grades ou mesmo baleados. Mas, desde que os ingleses inventaram o esporte, jamais foi registrada uma situação assim.

Consultamos nossos especialistas em arbitragem e chegamos a conclusão de que o lance foi totalmente irregular. O STJD tem como obrigação interditar o estádio onde o fato de desenvolveu por falta de segurança. Josemir também dever ser fortemente punido pela agressão ao árbitro, sua morte não pode ocultar sua culpa. Quanto ao juiz desmembrado, tudo dependerá da análise das imagens, para saber se ele errou ou acertou ao aplicar o cartão vermelho da discórdia. Caso tenha errado, passará por um período de reciclagem.
O juiz perdeu a cabeça

Vamos por partes.

O jogador Josemir errou ao aplicar um carrinho no adversário. O carrinho é uma jogada perigosa que deve ser utilizada como último recurso, porque pode machucar o adversário. Uma jogada é passível de exclusão da partida.

Não sabemos se o árbitro Otávio Catanhede acertou ao aplicar o cartão vermelho, porque não temos a imagem da entrada de Catanhede. No entanto, é um lance de interpretação e não pudemos julgar o árbitro que agiu no calor do momento.

Josemir errou ao partir para a violência contra o apitador. Agredir o árbitro não faz com que ele volte atrás na sua decisão e ainda pode acarretar em pena de seis meses de suspensão dos gramados.

Otávio também errou ao tirar uma faca da cintura e enfiar na barriga do seu oponente na luta. Juízes não devem entrar armados em campo e não se deve trazer facas para uma briga de socos. É antiético.

Da mesma forma, os torcedores falharam ao matar o juiz a base de pauladas e depois promover seu esquartejamento. Todos nós sabemos que em situações de descontrole, a população tende a praticar linchamentos sumários e, deste ponto de vista, matar alguém a base de pedradas ou pauladas coletivas não deixa de ser um ato expressivo e tradicional. No entanto, o esquartejamento foi desnecessário. Decepar as pernas e os braços de alguém é uma atitude difícil e que exige o uso de ferramentas específicas, demonstrando que os esquartejadores já foram para o jogo preparados para matar. Trata-se de crime premeditado.

Já a cabeça na estaca é uma imagem forte e que passa uma mensagem certeira. No entanto, talvez por desconhecer a história, os assassinos do juiz não jogaram sal grosso na sua casa e tampouco espalharam seus membros pela cidade, para dar visibilidade ao ato. “Um esquartejamento amador”, garantiu Jack the Ripper.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Plebiscito da Reforma Política

Eu tinha seis anos em 1993 e era muito novo para ter memórias claras sobre os acontecimentos históricos. Mas, eu me lembro que neste ano foi realizado um plebiscito para definir o sistema político brasileiro, algo que estava previsto na constituição de 1988. Os brasileiros deviam ir as urnas e escolher entre monarquia e república, e entre parlamentarismo e presidencialismo. Mais informações você pode encontrar neste hilário artigo da Wikipédia, provavelmente escrito por um Orleans de Bragança.

Mesmo com seis anos, eu já achava essa história de monarquia muito estranha. A propaganda tinha uma coroa no fundo e eu ficava pensando: “qual é o sentido de voltar a ter um rei?”.


Agora, um plebiscito volta à pauta de discussões da sociedade brasileira. Os eleitores talvez devam ter que voltar as urnas para discutir temas sérios e complexos, como voto distrital, financiamento público de campanha e eu imagino como vai ser difícil explicar pra todo mundo o que é que tudo isso significa.

Por isso eu sou a favor da volta do espírito nonsense de 1993 ao plebiscito. Em um momento de revolta popular poderíamos consultar novamente a população sobre o sistema político do país.

Monarquia Absolutista
Quem resiste a este charme?
Monarquias absolutistas estão em baixa nos últimos anos, mas este sistema foi dos mais utilizados ao longo da história da humanidade. A monarquia absolutista concentra todo o poder sobre um homem, O Escolhido, que também tem o privilégio de promover festas luxuosas e utilizar roupas e perucas bizarras. Além disso, a concentração de poder permite a volta das perseguições políticas que podem resultar em genocídios por meio da guilhotina, uma das mais belas formas de promover execuções sumárias. Outra vantagem é a volta das guerras de descendentes pelos direito de ascender ao trono.

Monarquia Presidencialista
Um sistema misto que combina o luxo, opulência e gastos excessivos da monarquia, com a carismática figura de um presidente. Teríamos alguém para os eventos sociais, alguém para os eventos políticos e ninguém para mandar.

Ditadura Islâmica
Um regime baseado no alcorão. Permite entre outras coisas, o desenvolvimento das estradas do país – visto que precisaremos de estradas diferentes para os islâmicos e não islâmicos, além de um aumento nas ofertas de vagas de trabalho. Com as mulheres vivendo trancadas dentro de casa, vestidas de burca e sendo condenadas a morte por terem sido estupradas, teríamos empregos de sobra para os homens.

Com uma nova constituição, poderíamos pensar na mudança da bandeira do país também. A positivista frase da “Ordem e Progresso” pode ser revista. Pensamos em uma série de possibilidades como:
“Amor e Poder”
“Raça, Amor e Paixão”
“Ousadia e Alegria”
“Samba no pé”

No entanto, acreditamos que o melhor a se fazer é seguir a tendência atual do planeta e comercializar esse espaço com uma grande marca. Fazer uma bandeira padrão Fifa.

E você? Tem algum tema para a reforma política?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A burocrática arte de enrolar

Na teoria a burocracia serve para dividir as responsabilidades sobre um determinado assunto. Se você chega a uma repartição pública precisando de um alvará para sua boate, você deve ir até o setor de emissão de alvarás para boates. O problema é que logo criam um setor para as boates vermelhas e outra para as boates azuis. Depois do pedido protocolado, os fiscais deverão ir até o estabelecimento para concluir se a boate é realmente azul. Você tem que passar por 35 departamentos até chegar ao seu objetivo final, o que te faz dar um tiro na cabeça e desistir do alvará e da vida.

Na prática a burocracia serve para te irritar. E para permitir o sagaz trocadilho com burrocracia.

Enfim, a burocracia é a principal maneira de se enrolar alguém. Mas, prestadores de serviço em geral, adoram te enrolar. Acontece quando sua internet malditamente sai do ar e você já esgotou seus recursos próprios para resolver o problema. Após alguma insistência, um especialista será enviado até a sua casa em 48 horas. Ele chega e vai ver o modem.
- Não tem nada de errado com o modem.
- Sim, eu sei.
- Você usa filtro de linha?
- Uso.
- Hmm... Tem que ver, quando é isso é o filtro de linha.
- Mas o filtro tá funcionando.

Ele então tira um sagrado filtro de linha da mochila e constata que o problema não é esse. Para um pouco e pensa.
- Você tem cerca elétrica?
- Sim.
- Hmm... Com alarme?
- Sim.
- Hmm... Ligada no telefone?
- Sim.
- Hmmmm... Geralmente é isso, a banda larga não funciona com cerca elétrica ligada no telefone. Tem que ter duas linhas diferentes.
- Mas eu tenho a internet e a cerca há dois anos e tava tudo funcionando até ontem.
- É, mas não tem como.
- Então, como é que estava funcionando até ontem?
- Ó, vou ver, mas quase com certeza é isso.

Quando constata que o problema não é a cerca elétrica, o técnico volta a pensar.
- Tem TV a cabo né... se for conectada no telefone, não tem jeito.
- É por satélite.
- Então...
- Mas também, estava funcionando até ontem.

O técnico passará pelas mais remotas hipóteses. Na sua região não tem sinal de ADSL. O problema é no cabo do seu computador. Todos vão caindo, até que o cidadão resolve ligar na operadora, reconfigurar algumas coisas e resolver o problema. Demora uma meia hora e ele poderia ter resolvido isso há muito tempo, mas ele preferiu te enrolar na tentativa de te convencer que você é o culpado pelos males do mundo e tentar ir embora sem fazer nada.

Acontece quando você tenta resolve um problema na sua assinatura.
- Eu ainda não recebi a revista.
- Não tem problema nenhum na sua assinatura.
- Mas eu não recebi a revista.
- Tá previsto aqui que chega amanhã.

No dia seguinte você volta a ligar e descobre houve um erro no envio que seu exemplar será reenviado. Isso não acontece e você descobre que a assinatura já terminou, mas ninguém teve a capacidade de te informar isso. E você passa a entender o Michael Douglas em um dia de fúria.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Comentários gerais sobre a gloriosa Copa das Confederações

Daniel Alves e Dante
Os dois baianos da seleção brasileira não tiveram uma atuação destacada em campo. O lateral direito foi discreto e o zagueiro jogou poucos minutos. No entanto, o fim do jogo mostrou que eles são a reencarnação da dupla Edilson e Vampeta e comandam a roda de samba. Supersticioso que é, Felipão irá manter a dupla e ainda mandará Zeca Pagodinho compor uma nova canção para o grupo.

Fred
O centroavante do Fluminense começou mal o torneio, talvez debilitado por uma fratura na costela e overdose de caipisaquê. Aos poucos ele melhorou de produção e passou a fazer gols de rebote, gols de canela e até mesmo um incrível gol deitado no chão, na grande final. Na comemoração, ele foi para a galera, ser abraçado pelos torcedores. Aproveitou a oportunidade e deu um selinho em três torcedoras, pegou o telefone de outras sete e arrumou um esquema para o fim da partida.

Neymar


Jádson e Jô
No final da decisão contra a Espanha, Luiz Felipe Scolari resolveu apelar, colocando Jádson e Jô em campo. O objetivo era apenas um: humilhar os adversários, dizendo que eles foram derrotados por um time que tinha os dois em campo. Se o adversário fosse um pouco mais exaltado, poderia ter interditado avenidas e depredado o Maracanã. Os espanhóis resistiram e ganharam o Troféu Fair Play.

Os Reservas
Muitas pessoas se assustaram quando viram o Jádson ajeitando o calção para entrar em campo na final. “Ele foi convocado?”, questionavam. O susto foi ainda maior quando Jean subiu na tribuna para receber sua medalha. O único reserva que chamou a atenção foi o discreto Diego Cavalieri, mas por motivos pós-jogo.

Surubas
Meca do turismo sexual internacional, o Brasil talvez tenha encontrado um novo aliado em busca do hexacampeonato: o charme da mulher brasileira. Diz a lenda que após a exuberante atuação espanhola na estreia contra o Uruguai, os jogadores da Espanha participaram de uma orgia com garotas de programa do Recife. A primeira de muitas, praticadas por jogadores de vários países. Os empresários do ramo do entretenimento adulto já estão buscando uma forma de lucrar com o negócio e ainda ajudar o país, uma forma de exploração sexual nacionalista. Já os treinadores das equipes estrangeiras, já estão pensando em trazer os jogadores junto com suas esposas e namoradas.

O glorioso Taiti
Foram apenas três jogos, mas jogos que entraram para a história. O Taiti levou incríveis 24 gols e se consagrou como o maior saco de pancada da história das competições internacionais. No entanto, nosso gosto por equipes ridículas transformou os carismáticos taitianos em personagens centrais da competição. Agora, é esperar que eles retribuam a gentileza oferecendo pacotes turísticos gratuitos para seus fãs brasileiros.