sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Perguntas que não poderiam faltar

Nas últimas semanas todos nós presenciamos um massacre em horário nobre. Todos os candidatos presidenciáveis foram à bancada do Jornal Nacional (exceto uma, que viu a bancada ir até ela) para serem fustigados com perguntas calientes, provocativas, que apontam constrangimentos, contradições, contravenções, falcatruas, crimes, confusões e aventuras.
Candidato, você é contra ou é a favor?

Claro que as entrevistas geraram polêmicas e isso não é nenhum mérito do Bonner e da Poeta, já que a polêmica é gerada espontaneamente, como as baratas da abiogênese. Mesmo assim, eu não gostei das entrevistas – não necessariamente pelo ar inquisidor dos entrevistados, mas porque achei que faltaram muitas perguntas que realmente revelariam a alma daqueles que querem comandar a nação.

Toda e qualquer entrevista deveria começar com a pergunta “Candidato, e as namorada?”. Quebraria todo o gelo inicial e levaria o presidenciável de volta para os tempos de infância, onde imperava a inocência e não havia media training, respostas treinadas e protocolares. Ele, ou ela, seria acometido por aquele terror infantil de ser perguntado pela tia avó sobre “as namorada”. Sua resposta revelaria seu caráter.

“Candidato, o que eu queria saber do senhor é se o senhor aprova o fist fucking”. Inadmissível que nenhum candidato tenha sido interrogado sobre esse assunto. É de fundamental importância saber qual é a reação de um candidato diante da possibilidade de um ser humano introduzir seu braço, até a altura do cotovelo, dentro do ânus de outro ser humano. Aliás, seria interessante colocar os candidatos diante do vídeo de Two Girls One Cup.

Não sabemos, se os nossos candidatos já praticaram a besuntação, mesmo que apenas para fins recreativos. “Untei, mas não lambuzei”, poderia dizer algum e assim o povo brasileiro poderia escolher melhor o nosso governante máximo.

Como os candidatos gostam de comer suas batatas? Eles já tiveram alguma experiência com balões de látex? Tem opinião formada sobre os ornitorrincos? Sabem dizer aonde é que se encontrariam dois trens, um que saiu de São Paulo, outro que saiu de Macapá, na mesma hora e na mesma velocidade? E se estes trens fossem se colidir matando mil pessoas, e eles pudessem desviar sua rota, mas este desvio provocaria a morte de três crianças e mais ninguém, eles desviariam a rota?

É preciso ir direto no cerne da questão.

Veja também:
Regras para um bom debate eleitoral.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Instantaneidade artística

A popstar Anitta é uma figura curiosa. Do tipo que faz selfies inoportunos, ela não chega a ser bonita, mas também não feia. Isso, no entanto, não significa que ela seja uma pessoa mediana. Na verdade, ela é bonita e feia ao mesmo tempo. Enquanto você bate o olho nela, seu cérebro fica processando os dados sem chegar à conclusão se ela é uma sex symbol ou se é parecida com um travesti. Algo bem curioso.

Ela ficou famosa no ano passado, quando o seu hit “O Show das Poderosas” conquistou o mundo como uma epidemia de Ébola. A letra, vocês sabem, é sobre uma garota que sofre com salivação excessiva e que fica incomodada com o jeito como Annita dança. Segundo a cantora, a letra e a melodia foram escritas rapidamente. Ela ainda acredita que a invejosa morrerá de raiva quando souber que a música é sobre ela.

Me atenho ao fato de que a música foi composta em poucos minutos. Vários artistas já usaram desse expediente para valorizar a sua composição. Paul McCartney simplesmente acordou com Yesterday na cabeça, tantas outras músicas foram feitas no intervalo entre o almoço e a sobremesa. Geralmente você pensa que o cidadão é um gênio para compor tão rapidamente.

Mas, eu diria que no caso do Show das Poderosas, isso é o mínimo que se poderia esperar. Uma letra tão ridícula com uma melodia tão batida não poderia ser composta em mais de dez minutos. Seria tempo suficiente para que a pessoa sentisse vergonha pelo o que ela estava fazendo e desistisse daquela ideia. Desistisse de compor uma música cheia de frases feitas de menina insegura do Orkut.

A instantaneidade é um valor apreciado em vários segmentos artísticos. Nem sempre acontece na música – imagino que o Rush nunca fez uma música em menos de dez minutos, até porque nenhuma música deles tem menos do que dez minutos – nunca vai acontecer na literatura – por mais que, sei lá, não dou mais de quinze minutos para escrever 50 tons de cinza, e acho que nunca no cinema. Mas nas artes plásticas...

Ah, nas artes plásticas. Pintar um quadro em cinco minutos já é o suficiente para que as pessoas prestem atenção nele. Se você fizer quarenta quadros pintados em cinco minutos, já dá pra fazer uma exposição. Se você fizer quarenta quadros em cinco minutos e filmar o processo, dá pra fazer uma exposição, ganhar um Oscar e quem sabe uma medalha Fields.
De certa forma, o Brasil promoveu uma obra de arte ao eternizar um instante aparentemente desconexo.

Os museus de artes modernas estão repletos de obras toscas, similares a pinturas infantis rupestres, que foram feitas em poucos minutos. Basta dizer que o artista quis captar a percepção momentânea sobre um determinado fato, captando a sensibilidade do instante, que pronto: todo mundo vai ficar babando nesta porcaria.

Ah outros casos, quando a arte é instantânea e pior ainda, sem nem mesmo ter tido influência humana no processo. Você enche balões com tintas de diferentes cores e depois estoura ele sobre uma cartolina: eis a arte. Captou as imprevisibilidades, captou um fragmento desconexo e o eternizou para sempre de maneira aleatória. Ah, vai a merda.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Filmes de Faculdade

Nos tempos do colégio, quando um professor anunciava que iria passar um filme para os alunos é como se ele assinasse um pacto de cumplicidade: eu finjo que isso aqui é uma aula e que tem um objetivo claro, enquanto vocês fingem que isso é importante e no final me entregam uma resenha, ou algo parecido. Era um momento muito bom para dormir.

Tempos Modernos, obra prima de Charles Chaplin, era o clássico supremo dos filmes de professor. Você o assistia por anos consecutivos, às vezes mais de uma vez por ano, em aulas de história, geografia, filosofia, português, sempre que o tema revolução industrial, relação homem x máquina, ou bigodes curiosos entrava em pauta.

Mesmo sendo um blockbuster da sala de aula, é possível assistir Tempos Modernos fora do colégio. Eu, inclusive, assisti-o no sétimo semestre da faculdade de jornalismo. Foi um momento surreal quando a professora anunciou que exibiria esse filme e, principalmente, quando ela começou a comentar empolgadamente algumas cenas marcantes. Um momento em que fomos imaginariamente teletransportados para a 7ª Série.

A faculdade – principalmente se você fez um curso na área de humanas – é uma ótima oportunidade para ter contato com filmes que você não veria em mais nenhuma oportunidade. Talvez porque eles não existam foram daquele ambiente, talvez porque você não teria o menor interesse em assistir.

Ilha das Flores é uma espécie de Tempos Modernos do curso de humanas. Antes de entrar na faculdade você escuta as pessoas que já passaram por lá comentando sobre ele. Diria que não há nenhuma ritual, logo na segunda aula algum professor vai passar o curta de Jorge Furtado em sala de aula. Talvez exista uma espécie de disputa interna entre eles para ver quem vai ser o primeiro a passá-lo. Sim, o primeiro, porque você provavelmente assistirá ao filme algumas vezes no primeiro semestre e outras tantas até o final do curso. Mas, tudo bem, é um curta e, precisamos admitir, é bem foda.

O Ponto de Mutação é um filme que consiste no maior desafio de roteiro de todos os tempos. Baseado na obra de Fritjof Capra, o filme mostra a história de três adultos que vão passar o dia em um castelo e tem diálogos filosóficos sobre a vida com “nós nunca apertamos a mesma mão duas vezes”. Sim, o filme é basicamente um papo cabeça que dura um dia inteiro. Quase no final, o poeta Pablo Neruda é citado de maneira épica.

A coisa começa a ficar séria quando você assiste 1,99 – um supermercado que vende palavras. Tal qual os filmes de Charles Chaplin, 1,99 não contém nenhum diálogo. São apenas pessoas andando em um supermercado hermético que vende caixas com palavras como “qualidade”, “poder”. Uma crítica ao consumismo que é interessante no conceito, mas que logo ganha ares de tortura quando aquela brincadeira passa de meia hora. Há um clímax em que uma pessoa morre na disputa por um produto muito bom e uma cena de horror na qual um grupo que faz música batucando no próprio corpo entra nesse mercado e fica, justamente, batucando no próprio corpo. Uma cena interminável e cujo sentido é difícil de explicar e entender. Marca aquele momento em que você não sabe se aquilo é uma merda ou se você é um infeliz sem capacidade de compreender tudo.


Apresentações do Grupo Corpo, um grupo de balé contemporâneo. Eles dançam malucamente, esfregam a bunda no chão se contorcem e babam. Você com certeza não terá a oportunidade de ver isso em nenhum outro lugar. Sorte a sua. Edgar Morin explicando o dialoguismo? Só na faculdade.

Claro que há espaço para os filmes convencionais. Assim como no colégio a professora passava Inteligência Artificial e você se contorcia de ódio com aquele menino robô que insistia em não morrer jamais e pensa que esperto foi o Stanley Kubrick que morreu antes de filmar essa bomba, os professores da faculdade também passam filmes Hollywoodianos.

Um deles é Íntimo e Pessoal, romance com Robert Redford e Michelle Pfeiffer. O filme conta a história de uma jovem jornalista, Tally Atwater, incompetente, que começa a dar para o editor do canal de televisão dela. Ele ensina que, quando você está mal, tudo o que precisa é cortar o cabelo e pintá-lo de outra cor. Há uma cena constrangedora, quando os dois passam uma semana de amor num paraíso paradisíaco e a câmera filma só a cabeça da Michelle Pfeiffer, com cara de tesão e a câmera começa a descer e todo mundo achou que, caralho, vai mostrar o cara fazendo sexo oral nela, mas ele estava apenas cochilando. No final o Robert Redford morre numa guerra e a mulher corta o cabelo de novo e tudo fica bem.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Chapa 03: Até o talo


A Chapa 03 é uma organização cujo espólio político não pode ser negado nem por seus maiores detratores. Toda e qualquer eleição, seja ela para presidência do Brasil, para o conselho de segurança da ONU, para prefeitura de Cuiabá, presidente de bairro, síndico do condomínio Verona, ou presidente do fã clube do Charles Chaplin em Macaé, sempre passa por nossa participação.

Por isso, apresentamos abaixo um eixo de propostas para a cidade, o estado, o país, o mundo que nós queremos ser. Qualquer candidato que aceitar defendê-las, ganhará nosso apoio irrestrito e nossos milhares de votos que serão transferidos automaticamente.

Erradicar a pobreza: Para receber o nosso apoio, o governante tem que se comprometer a erradicar a pobreza. Essa tem que ser uma luta constante e não nos importaremos com o meio utilizado para que não exista mais nenhuma pessoa abaixo da linha da pobreza em todo o território nacional.

Fim do estacionamento preferencial para os idosos e gestantes: A literatura médica comprova que é importante que grávidas pratiquem exercícios para a sua saúde e para a saúde da criança que ela carrega no ventre. Nada melhor então do que já começar acabando com essas vagas e filas preferenciais que beneficiam uma minoria. A democracia deve ser igual para todos! Os idosos também precisam se exercitar, mas, pior ainda é a preferencial para mulheres com bebês de colo! Tem mulher que carrega o moleque nas costas até os 10 anos só pra furar fila!

E todos deverão colocar a mão no
peito quando o avistarem
Substituir o Brasão nacional por uma imagem do Dollynho: Ao invés de uma estrela besta e colorida, que não passa nada a ninguém, nossa nação passaria a ser representada pelo inigualável mascote que quer ser seu amiguinho. Símbolo do Governo que queremos, um Governo que seja amigo da população.

Criação da Polícia Virtual: É de conhecimento de todos que o Marco Civil da Internet deixou uma série de lacunas que precisam ser preenchidas com a mão vigorosa do Estado. Propomos criminalizar o compartilhamento de imagens com frases motivacionais, acabar com o Instagram e com as frases de Keep Calm.

Transformar as polícias: A Polícia deve ser um instrumento meramente de repressão, ao invés de garantir a segurança dos cidadãos. Todas as suas forças devem estar direcionadas para o lugar onde o mal realmente toma conta: a internet. Nas ruas, a Polícia só irá garantir a segurança para os ateus e agnósticos, uma vez que outros religiosos se dizem protegidos por Deus e a polícia jamais vai superar a proteção divina.

Acabar com o Ensino de Literatura nos colégios: Precisamos acabar com as matérias frescas do colégio. Ninguém ganha nada estudando aqueles poemas parnasianos, todos nós sabemos que para o mundo profissional é muito mais importante um curso de manipulação de imagens. Para acabar de vez com a frescura nos colégios, propomos a volta da palmatória. Os alunos de hoje em dia estão muito folgados e não sabem lidar com as responsabilidades e liberdades adquiridas pelas gerações passadas.

Isenção de impostos para terreiros de macumba: Nosso Estado será realmente laico, mas todas as religiões merecem ser respeitadas e ter os mesmos benefícios e responsabilidades.

Não gastar um único centavo com asfalto: Automóveis, nós sabemos são meros poluidores do ambiente e geradores do caos urbano. Pesquisas indicam que metade dos infartos provocados por stress tem o trânsito como fator preponderante. Ruas esburacadas irão desestimular a compra de carros novos, fazendo que as pessoas andem mais a pé, morem mais perto dos seus locais de trabalho e tenham uma vida mais saudável. Além disso, as pessoas irão poupar seu dinheiro para coisas mais importantes, além da ostentação de uma marca com motor.

Apenas pela polêmica, iremos
pintar mamilos nas Justiça
Privatização das universidades públicas: Universidades, todos nós sabemos, só servem para dar trabalho para os governantes. Necessitam investimentos em infraestrutura e material humano e ainda agrupam jovens burgueses em busca da adrenalina alcançada por protestos contra o sistema do qual eles fazem parte e pelo uso de entorpecentes. Governantes tem que acabar com seus problemas, e a privatização da universidade irá acabar com um dos grande.

Reforma do Poder Judiciário: Existirão apenas duas instâncias de Justiça. Se foi condenado, pode recorrer uma vez e pronto. Os processos não poderão durar mais do que dois anos e os juízes que não cumprirem seus prazos serão aposentados compulsoriamente com duas balas na testa.

Deportação do Luciano Huck: O Brasil será um país muito melhor se isso acontecer. No seu lugar, sugerimos que Alexander Almeida comande algum talk-show.

Transformar o Congresso Nacional em uma enorme forma de pizza: Isso ajudará a acabar com o fome no país, quiçá no mundo.

Claro que para realizar todas nossas mudanças, nosso governante precisaria ser macho o suficiente para extinguir a atual constituição, rasgando-a em praça pública e posteriormente outorgando uma nova CF. Se fizer isso, terá nosso apoio.

Nosso plano de governo continuará sendo construído e acatará todas as boas sugestões que vieram das ruas.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Desafio do Gelo

Nos últimos dias você já deve ter percebido que o Desafio do Balde de Gelo é uma febre mundial. Trata-se de uma campanha de uma organização que combate um tipo de esclerose e que propôs o desafio para arrecadar dinheiro e chamar a atenção para a causa. Não iremos aqui criticar a ideia nem fazer qualquer piada sobre o assunto, porque, afinal, cada um luta com as armas que tem.

O fato é que algum famoso participou do negócio e desafiou outros três famosos a fazerem o mesmo. Com num verdadeiro telexfree da filantropia, pessoas do mundo inteiro começaram a derrubar baldes cheios de gelo no próprio corpo, filmando suas reações. Lógico que logo o Luciano Huck aderiu a causa. Quando ele aparece, é o exato momento em que uma causa nobre se torna fútil.

Se a moda pega, nos próximos anos poderemos ver uma série de desafios exóticos.

Desafio da Banheira de Gelo: Todos nós sabemos que anualmente, milhares de pessoas acordam dentro de banheiras de gelo, posteriormente descobrindo que seus rins foram extraídos em cirurgias ilegais. O desafio propõe que se mergulhe dentro de uma banheira de gelo, para alertar sobre os riscos de tomar bebidas oferecidas por desconhecidos.

Desafio do balde de melaço: O melaço é uma substância proibitiva até mesmo para os mais experientes praticantes da besuntação. Sua consistência melosa é um risco para os cabelos e pelos e para a própria pele. Derrubar um balde de melaço sobre a própria cabeça alertaria para as mais variadas causas dermatológicas.

Desafio do balde de brasa: Se as pessoas derrubam um balde de gelo, sentindo aquela agradável sensação de hipotermia, porque não derrubar um balde de brasa sobre o corpo, vivendo uma sensação completamente exposta? Não sei para o que essa campanha serviria, mas seria engraçado ver o Luciano Huck participando.

Desafio da transformação do balde de gelo em um balde de vinho, congelado: A cena em que Jesus promove a alegria da galera transformando água em vinho é uma das mais famosas passagens da bíblia. Poderia ser um bom desafio para o natal, lembrando das crianças que estão passando fome. Se alguém conseguisse vencer o desafio, um dos principais problemas dos judeus seria enfim resolvido.

Beber um balde de gelo: Virar um balde de gelo na cabeça não é nada! Quero ver é beber, numa virada só, um balde cheio de gelo. Isso sim. Seria uma boa para conscientizar sobre os riscos da cirrose.

Desafio do Saco de Gelo: Todos nós nos lembramos da clássica cena em que o Capitão Nascimento manda que um delinquente tenha sua cabeça inserida em um saco plástico, para que ele seja sufocado. Porque não, então, enfiar a cabeça em um saco de gelo? Uma forma de denunciar os abusos policiais. Também dá pra passar gelo no saco, mas essa daí vai exigir coragem de verdade.

Desafio do paraquedas: Muita obsessão com o gelo? Que tal deixar isso de lado e apostar em um desafio do salto de paraquedas? Todas as celebridades brasileiras engajadas iriam participar, com certeza o Luciano Huck. Aliás, no caso dele poderemos encher a mochila do paraquedas com gelo.

Desafio do Criança Esperança: Ligar no 0500-2014-020 para doar vinte reais pode ser uma boa ação e ajudar crianças carentes. Agora, quero ver é assistir o Criança Esperança. Aqueles shows pavorosos, a Xuxa em atuação pavorosa e o Didi Mocó contando histórias sobre morte e pão. Isso sim é desafio.

Desafio do Nudismo: Para alertar sobre os riscos da chuva em parques de diversão, pessoas correriam nuas em Universidades Federais de todo o Brasil.

Desafio da Depilação Masculina: Bem, acho que nesse mundo metrossexual, esse desafio seria um fracasso. Além do mais, todos iriam indicar o Toni Ramos, só pela zoeira.

Atualização Bônus:
Desafio Pederneiras: As pessoas teriam que segurar em cachos de uva que misteriosamente dão choques. Uma homenagem ao grande Lasier Martins e também uma forma de alertar para os riscos da falta de companheirismo no ambiente de trabalho.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Almeida, cadê você?



Observe essa propaganda do Outback¹, inversamente proporciona a fama da sua costela barbecue. Eu sei que ela também te incomoda e você não sabe o motivo exato. Talvez seja pela narração ruim, pela temática medíocre ou porque a utilização de termos na internet na vida real é irritante. Talvez é pelo fato de que este comercial brinca com uma das situações mais constrangedoras que o ser humano pode viver, que é ser surpreendido pelo chefe em um lugar no qual você não deveria estar. (Outra propaganda dessa série mostrava o mesmo personagem num encontro secreto com sua nova namorada e todos nós sabemos como isso é ruim).

Mas o que realmente incomoda é o fato de o cidadão pego no flagra ser chamado de Almeida. Puxe na sua memória e você verá que conhece várias pessoas com sobrenome Almeida e nenhuma delas é conhecida desse jeito. Você estudou com o Thiago e com José, trabalha com o João, Alberto, Roberto, Ernesto e Florisvaldo. Mas, com o Almeida nunca.

Não sei por qual motivo em vários comerciais e na teledramaturgia, escritores gostam de criar personagens conhecidos pelos seus sobrenomes. Ao lado do Almeida, nós temos o Cardoso, o Fonseca, o Tavares e o Lacerda. Na vida real eles não existem.

Nós vivemos em um país em que até os presidentes são conhecidos pelo primeiro nome. Tivemos o Getúlio, o Juscelino, o Jânio, a Dilma e o Itamar. Sobra espaço até para os apelidos, como Jango, FHC e Lula. Não é por acaso que o único presidente civil eleito, conhecido pelo sobrenome, sofreu um processo de impeachment. As pessoas não deviam se sentir próximas dele.
Se você procurar por "Almeida" no Google, terá esta cidade de formato exótico como principal resultado

Não somos iguais aos Estados Unidos com seus Clinton, Obama e Bush. Nossa seleção jogou a última Copa do Mundo com Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo, Paulinho, Oscar, Neymar, Hulk e Fred e não com Espíndola, Alves, Silva, Marinho, Vieira, Dias, Maciel, Emboaba, Santos, Souza e Guedes.

Sim, existe quem seja conhecido pelo sobrenome, mas geralmente são pessoas com sobrenomes diferentes, tipo o Gressana - e mesmo assim. Jamais, e eu disse jamais, uma pessoa será conhecida como Almeida em um ambiente de trabalho, ou em um ambiente familiar. Só no exército, é claro, em que todo mundo é conhecido pela patente e pelo sobrenome.

Agora, porque os comerciais e a teledramaturgia insistem em chamar pessoas de Almeida, Cardoso e Pereira? Falta de criatividade, eu chutaria. Quem já teve que inventar um nome de um personagem, mesmo que para a redação de terceira série da escola, sabe como é difícil. Um nome ruim pode afundar um personagem brilhante e a própria história.

Quando você chama o cara de um sobrenome genérico, o problema é afastado temporariamente. O cara é o Almeida é todo mundo sabe que aquilo ali é uma brincadeira. Mas, era melhor chamar o cara de Carlos, Roberto, Afonso, qualquer coisa. Almeida não.

¹O CH3 reforça aqui que não recebeu nenhum dinheiro para exibir esta propaganda. Reinteramos aqui que de maneira nenhuma nossos membros estão sendo remunerados e que de forma alguma estamos todos agora comendo bifes, costelas barbecue e cebola.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Dados alterados

O presidente da Corporação CH3, Alfredo Chagas, concedeu uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira (15.08) para fazer graves denúncias. Segundo Chagas, a página do CH3 teria sido alterada por computadores com endereços ligados ao Palácio do Planalto. “O único intuito dessa atitude pérfida é vilipendiar o sagrado direito do cidadão de se informar sobre as incertezas do mundo”.

Como prova da invasão, Alfredo Chagas mostrou a imagem abaixo, claramente contrária aos princípios editorais do CH3 e claramente inserida por fontes do planalto que querem prejudicar a imagem do veículo.

Alfredo vociferou contra a burguesia estampada nas páginas do jornal e lembrou que jornalistas a serviço do capital já foram vitimados por esta estratégia sórdida. “Aquele porco do Merval Pereira foi ofendido em seu túmulo por agentes neocolonialistas que querem propagar uma mensagem mesopotâmica no colunismo social de vanguarda!” disse, sob o aplauso de militantes enraivecidos.

O presidente prosseguiu dizendo que a luta contra o capital é monástica e secular. “Desde os tempos em que Karl Marx caminhava sob o Jardim do Éden que sacristãos e filisteus foram convocados a pegar em armas e por abaixo o estandarte da democracia ocidental. A elite predadora e seu estereótipo euro-hétero-macho-autoritário querem cercear a retaguarda protestante!”, ao que foi abatido por tiros. O enterro já está marcado para amanhã e aguarda apenas a confirmação da morte.

Mais sereno, o vice-presidente Pai Jorginho de Ogum prosseguiu com a coletiva. Disse que forças ocultas tem atuado contra integrantes do CH3. Afirmou que uma página da Wikipédia teve suas referências alteradas, para colocar o CH3 como fonte de um artigo sobre o jogo paciência. “Tudo isso com a intenção de confundir a população e reverter a imagem de credibilidade que nós conquistamos ao longo dos anos”.

Jorginho de Ogum ainda culpou o Planalto pelo recente boato de que Vinícius Gressana teria sequestrado uma garota e a mantido em cárcere privado. Também vieram de Brasília as ordens para que o Facebook de Jorginho fosse invadido e que fotos, claras montagens, dele participando de uma orgia sexual fossem postadas. “Não imaginam o quanto isso tem dificultado a relação com minha mulher. É difícil fazer ela acreditar que eu estou sendo perseguido pelo Palácio do Planalto. Mas reafirmo aqui que eu nunca estive, não estou e nunca estarei em uma orgia sexual no Facebook”.

Perguntado sobre os motivos do ataque, Jorginho disse que a provável razão é o medo. “Eles tem medo que o CH3 chegue ao poder. Mas, queremos dizer que esse não é o nosso interesse, por enquanto”. Jorginho, então, passou a palavra para Marcão, diretor de assuntos estratégicos, que disse que não tinha nada a declarar. Como ninguém quis falar sobre o assunto, Jorginho pegou o microfone novamente e afirmou que o CH3 já teve, sim, o objetivo de conquistar o mundo, mas que a estratégia foi redefinida e postergada.

Hanz, o Pansexual, deu a última palavra e disse que o único objetivo do CH3, ou pelo menos dele, é manter relações sexuais com o diretor do Facebook. Hanz negou que o blog esteja fortemente armado com canhões misseis teleguiados que poderiam implodir a praça dos três poderes a qualquer momento. Negou veementemente que esse ataque estaria planejado para a próxima segunda-feira (18.08), às 14h17. Muito menos, que a senha para detonar a ação seria 182792 e que o controle remoto estaria no apartamento 62 do nº 22 da rua Sucupira em Paranatinga.

Ao final da coletiva, todos foram informados que Alfredo Chagas passa bem, que os tiros o atingiram apenas de raspão. Mesmo assim, a expectativa é de que ele seja enterrado amanhã.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Guia CH3 de Etiqueta para nudistas no Templo de Salomão

Recém-inaugurado em São Paulo, o Templo de Salomão é um prédio que só pode ser descrito com palavras como “suntuoso”, “megalomaníaco”, ou “extremamente metódico nos procedimentos de construção”. A grandiloquente festa de inauguração contou com a presença da presidente da república e de vários representantes da classe política. E olha que, ao que escutei falar, nem era Open Bar.
O Templo foi construído com tijolos de Israel e o melhor material disponível no mercado, incluindo as palmeiras das Bahamas

O templo rapidamente se converteu em ponto de peregrinação para os evangélicos pentecostais, neopentecostais, não pentecostais, antipentecostais, do Brasil e do Mundo. O enorme fluxo de pessoas criou uma preocupação para os administradores do templo – no caso Deus, que criou um guia de etiqueta ensinando as mulheres a se vestirem de maneira correta no Templo.

Como não poderia deixar de ser, o caso gerou polêmica na internet. Tudo gera polêmica na internet. Trechos do Guia foram reproduzidos nos mais diversos veículos de comunicação e todos nós soubemos que mulheres devem abolir as calças legging de suas vidas e tudo que deixe qualquer parte do corpo marcada. Tudo para colocar a mulherada assanhada no eixo.

No entanto, ninguém até agora divulgou um guia de etiqueta para os nudistas que desejam frequentar o novo ponto turístico de São Paulo. Mais uma vez, mais uma prova de como os nudistas são excluídos pela sociedade mesquinha. Cidadãos como tantos outros, privados do direito de ir e vir como bem quiserem. Os nudistas já são excluídos do espaço de trabalho, dos espaços de lazer e agora dos espaços espirituais. Mas não aqui, não no CH3. Aqui é a porra da tribuna livre dos cidadãos brasileiros. Preparamos um Guia de Etiqueta para os nudistas que queiram visitar o Templo de Salomão.

Não perca, em breve, o Guia de etiqueta para
manequins que queiram ir no Templo
Uma das principais preocupações dos autores do Guia de Roupas Femininas, é que as mulheres não usem roupas que fiquem marcadas em seu corpo. A grande vantagem dos nudistas é que nenhuma roupa ficará marcada no seu corpo. Você não precisa se preocupar com aquela cueca cavada marcando seus cocos, ou com o farol acesso na blusa de malha. Aliás, uma preocupação que os nudistas nunca tem é com a roupa que eles vão usar.

A nudez alheia é um tabu? Sim. Ela provoca incomodo nas outras pessoas? Com certeza. Portanto, você precisa saber que estará automaticamente numa situação de desvantagem. Não falo aqui apenas do Templo, mas de todos os lugares nos quais você colocará os seus pés assim que deixar sua residência. Pode ser no hall do elevador, na esquina da sua casa, enfim. As pessoas vão querer te linchar, te estuprar, cutucar o seu toba com gravetos e outras atitudes inconvenientes.

Então, estando nu, é preciso adotar uma postura defensiva. Não vá tentando esfregar seus órgãos genitais nos símbolos sagrados do Templo de Salomão. Em primeiro lugar, porque não é nem um pouco agradável passar uma parte tão sensível do corpo por objetos de madeira frios e cheios de farpa. Em segundo lugar, porque isso irá despertar o ódio alheio e, novamente, outras pessoas podem querer te linchar, estuprar e cutucar teu toba com gravetos. Aliás, uma boa dica de etiqueta para a vida é: não esfregue seu órgão genital em objetos e/ou em outras pessoas, sem o consentimento delas.

Você também poderá ser excomungado, mas isso é o de menos. A Madonna, por exemplo, foi excomungada depois que fez aquele clipe com um Jesus sensual. O pessoal religioso pode dizer que a vida dela entrou em declínio, mas o fato é que ela continua fazendo sucesso e enchendo o cu de dinheiro, e, inclusive, manteve um romance com um cara chamado Jesus.

Não fique olhando para as outras pessoas nuas – caso elas estejam lá. É constrangedor em qualquer ambiente nudista. Também não fique olhando para as pessoas com cara de tarado, pode provocar eletrochoques. Não corra, não faça movimentos bruscos, não faça um pirocóptero, não pise na grama, não ultrapasse a linha amarela, não cutuque o toba dos outros, não coma merda, não alimente os animais, não atire nos pombos. Não tente equilibrar os papeis com cânticos e salmos no seu pênis. Não urine em público.

Procedendo assim, sua visita nua ao Templo será tranquila. Mas, em todo caso, se prepare para conviver com a violência alheia. Por isso, é melhor ir armado para lá.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Dia dos Pais de Pai Jorginho de Ogum

Os críticos mais azedos podem reclamar que o dia dos pais é apenas mais uma data comercial, criada pela indústria para vender produtos. Talvez seja verdade, e é provável que o Dia das Mães, dos Namorados, da Criança e até mesmo o Natal e a Páscoa sejam datas meramente comerciais. Será que Jesus Cristo nasceu e morreu na cruz servindo ao Deus Mercado e promovendo a venda de roupas e chocolates?

Mas o fato é que o Dia dos Pais existe e que boa parte das pessoas celebra a data, homenageando seus pais com fotos no Facebook, almoços em lugares superlotados e camisetas polo compradas na Riachuelo, aproveitando as facilidades de crediário que o estabelecimento oferece. Também há quem mande o pai a merda e aproveite a data para assistir desenhos japoneses subversivos, afinal a vida é vasta em opções.

Agora, como é o dia dos Pais daquele que é o pai do Passado, do Presente e Futuro? O senhor das trevas, da luz, das sombras e da penumbra? Do Pai da Matéria? Aquele que veio, viu, venceu e já sabia de tudo? Como Pai Jorginho de Ogum comemora essa data que está impressa em seu nome, em sua identidade, como se fosse uma ação definidora de caráter?

Pai Jorginho escolheu a roupa do Luxemburgo
Encontrei o mestre na sua residência, no Jardim Leblon, pacificamente assistindo o começo do jogo entre Flamengo e Sport. Contou que havia almoçado uma galinhada feita por sua mulher e que tinha certeza que o Flamengo iria vencer. Ele sempre tem essa certeza.

Perguntei como era o Dia dos Pais para ele, que era pai de tantas coisas. Neste exato momento um prato caiu no chão e se quebrou na cozinha e sua mulher praticamente se teletransportou para a sala, portando uma faca e perguntando que história era essa, que ela queria explicações. Jorginho se virou bem e contornou a situação em cinco minutos, mostrando que, assim que ele concluir o curso de Direito na Unic, será um ótimo advogado.

Pai Jorginho de Ogum me disse que para ele, esse é apenas mais um dia, igual a tantos outros, com a diferença de que sua filha – mundialmente conhecida por ser muito feia – o presenteia com camisas polo compradas no crediário da Riachuelo. Não é um dia de folga, é um dia de trabalho. “Quem é pai de santo, o é 24 horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas ao ano, quantos anos forem necessários. Não escolhemos hora para trabalhar”.

Neste domingo, Jorginho recebeu centenas de pessoas em busca de um contato com o pai já falecido. O Mestre distribuiu autógrafos, bebeu cachaça e incorporou pelo menos 14 pais que já passaram dessa para melhor. “Eu substituo esses pais”, disse, com olhar maroto. Jorginho também passou o dia pendurado no telefone, encomendando galinhas, farofa, pipoca e cachaça para os seus fornecedores, que também não descansam nunca.

A noite, nosso pai de santo preferido colocou para funcionar a Casa de Diversão Noturna Carnicentas. Afinal, nem todo mundo tem filho para criar, família para cuidar e, os que têm, muitas vezes estão em busca de novidades. Além do mais, a noite é uma criança. Jorginho misturou drinques, contou piadas sujas, detalhou seu projeto de estrelar um show de Stand Up no palco do Carnicentas e ainda incorporou Odair José.

Quando resolvi voltar para minha casa, passei pelo Cão Leproso que deitava esplêndido embaixo de uma árvore com folhas secas. Parecia estar dormindo e fiz silêncio para não incomodá-lo. Mas, ele se levantou e disse para que eu esperasse. Falou que ia pegar um negócio. Quarenta minutos depois ele voltou, segurando (não me perguntem como) um par de óculos Oakley claramente falsificados com hastes azuis. Disse que eu deveria entregá-los para Vinícius Gressana, como uma lembrança para esse Dia dos Pais. “Eu nunca me esqueço dele”, disse.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Teste Cego


O teste cego já é um momento de mitologia da propaganda televisiva brasileira. Você com certeza já assistiu algum comercial em que um cientista, ou alguém que impõe respeito por meio do uso de jalecos brancos, vai até a rua e propõe que as pessoas façam um teste cego de determinado produto, geralmente uma cerveja.

O objetivo do teste cego é desmistificar a imagem que o produto tem de ser uma porcaria. Em uma análise mais profunda, podemos dizer que o que esses testes querem, é mostrar como nós somos influenciados pela comunicação de massa e consumimos muito mais a imagem do produto do que a sua qualidade. O fato de essa temática ser discutida justamente em um comercial – algo que vende imagens – pode criar uma grande confusão mental em um momento Matrix.

O teste também quer te fazer mudar de ideia e, incrivelmente, todas as pessoas que participam de um teste cego propagandístico, acabam mudando sua percepção sobre o mundo. Ao experimentarem aquela cerveja com cor turva, aspecto e cheiro de mijo de bode, mas sem saberem que ela tinha todos esses defeitos, acabam por aceitar que ela é a melhor do mercado.

Bem, isso era o mínimo que se poderia esperar. Uma empresa não investiria milhões de reais para contratar pessoas com jalecos brancos, colocá-las no centro da cidade para oferecer cerveja para as pessoas e posteriormente veicular essa propaganda no horário nobre da Globo, se as pessoas provassem a cerveja e falassem “que porcaria isso aqui, parece Kaiser”. Acredito até que os “voluntários” do comercial recebem alguma espécie de compensação financeira para esconder a cara de nojo e não cuspir o líquido na própria camisa.

Em casos mais graves, acredito que a equipe coloque o cidadão vendado diante de um pelotão de fuzilamento e pergunte “tem certeza que você não acha a cerveja B melhor?”. Aliás, o fuzilamento e outras formas de execução sumária podem ser considerados testes cegos, já que o cidadão é vendado diante da morte e tem ali uma última oportunidade para testar a sua fé.

Uma coisa curiosa nos testes cegos é que geralmente as pessoas estão com seus olhos bem abertos. Não, elas não estão com vendas nos olhos, ou em casos mais drásticos, nenhum dos voluntários, ao assinar o termo de que aceita participar da experiência, foi atacado por um maníaco de camisa roxa que esfaqueou seus olhos, ou pingou colírio de ácido sulfúrico nas retinas. O teste cego, na verdade, é um teste sem rótulos. Acredito que só letreiros em brailes tem testes cegos de verdade.

Os produtos de higiene também podem passar por testes deste tipo. Nele, a dona de casa é instigada a lavar a roupa toda cagada do seu filho com diferentes marcas de sabão em pó e, curiosamente, vai constatar que a marca da propaganda é a que deixou a camisa mais branca. Pergunto-me se o pessoal não mistura aquilo tudo e no final diz que a melhor é a sua, sem nem saber qual é qual ali no meio. Existe algum código de ética para a realização de testes cegos? José Saramago não abordou isso em sua obra.

Seria muito divertido que o Activia, porque não, realizasse um teste cego. Uma pessoa tomaria Activia todos os dias, outro tomaria iogurte normal, um terceiro ficaria com mingau de aveia e o último comeria merda. Ao final de quinze dias, veríamos quais eram os efeitos, quem cagou, quem não cagou, quem teve prisão de ventre e quem subitamente morreu por infecções generalizadas. Aliás, fica aí a minha dica para os publicitários da marca: coloquem a Dira Paes para comandar essa prova.

A justiça vive em um
eterno teste cego
Teste cego de campari. Teste cego de óleo de fígado de bacalhau. Teste cego de gel lubrificante. Teste cego de discos do Steve Wonder. Teste cego de pinturas renascentistas. Teste cego de comprimidos para dor de cabeça, que logo se transforma em uma experiência científica, já que um dos comprimidos será apenas placebo. Teste cego de lâmina de barbear, um terror absoluto seguido pelo teste cego de loção pós-barba.

Fora o grande teste cego da besuntação. Pessoas com os olhos vendados recebem potes aleatórios com as mais diversas substâncias aromáticas e poderão espalhá-las pelo corpo, sentindo todo aquele prazer sem culpa, sem saber o que é que escorre pelo pele.

Grazie @DadoDoria

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Histórias bobas com final trágico

Sabe que sempre que eu passo por aqui, eu me lembro de uma história. Na década de 90, eu passava por essa estrada todo dia. Eu trabalhava dirigindo um caminhão de uma fazenda, transportando fruta. Passava por aqui de manhã cedo, levando coco, melancia, mamão, laranja, tudo quanto é fruta que você imagina. Aquela estrada ali de Campo Verde, ainda não era asfaltada, tinha vezes que eu passava na terra, às vezes eu passava por aqui mesmo.
Depois de deixar as frutas em Cuiabá, eu voltava pra fazenda no fim da tarde. Todo o dia, na hora em que eu estava passando, uma menina de uns 14 anos e o irmão dela estavam indo para a escola agrícola. Então, eu sempre dava carona para eles. A menina era bonitinha, rapaz, usava uma mochila rosa. Eu perguntava para ela se ela não tinha medo de pegar carona com os outros, medo de que acontecesse alguma coisa. Ela dizia que até tinha medo sim, mas o que ela poderia fazer? Era o jeito que ela tinha para chegar na escola, senão ia ter que caminhar uns 10 quilômetros a pé, na serra, cheio de subida.
Em 1997 eu saí desse emprego e nunca mais vi essa garota. Anos depois é que eu fui saber. Ela foi estuprada e assassinada por um caminhoneiro. O corpo dela e do irmão dela foram encontrados na beira da estrada, carbonizados. Coitada rapaz, ela só queria estudar e deu nisso aí. Então, sempre que eu passo por essa estrada, eu me lembro dessa garota de mochila rosa e das caronas que eu dava pra ela.

No nosso convívio social, temos a tendência a contar apenas histórias descontraídas, principalmente quando nós estamos em grupo. No meio da roda, ninguém pede a palavra para contar sobre aquele dia em que você foi atacado por cachorros e que essa é a razão do seu olho de vidro.

Mesmo as histórias mais trágicas, aquelas que envolvem lesões, fraturas, amputações, perfuração craniana, perda de massa encefálica, mortes ou múltiplas mortes, acabam ganhando um tom leve e descontraído. “Hahaha, se lembram daquela vez que eu perdi o meu pé? Foi um jacaré que mordeu! Mas parece que depois ele morreu, não aguentou o chulé! Hahahaha”.

Quando criticamos uma obra ficcional pela sua obviedade e pelo seu final feliz, acabamos nos esquecendo que nós mesmos sempre esperamos que as histórias que escutamos sejam legais e divertidas. Se numa conversa informal alguém resolver contar a história sobre como seus cachorros nasceram sem patas e como isso provoca sofrimento na vida de todos, aposte que ninguém quer escutar.

Se alguém começa a contar a história sobre como ocorreu o divórcio com o seu ex-marido, você espera uma história cheia de passagens bobas, que mostre como a vida nos surpreende. “Você acredita que a gente brigou de vez por conta do cartão de crédito?”, dirá a pessoa. “Ele veio me cobrar uma conta e eu perguntei qual era o problema, que eu não devo explicação para ele sobre minhas compras, ele me chamou de egoísta e não saber o é um relacionamento e eu mandei ele praquele lugar, sabe?” hahahahah, claro que sei.
Ah, mas essa história tá muito boa

“Então, ele me puxou pelo braço e enfiou a mão na minha cara. Mas foi um soco de mão fechada no meio do meu nariz. Na hora eu senti os dentes bambeando e o nariz sangrando. Caí no chão e ele me acertou um chute na costela que eu urrei de dor. Fui me arrastando pelo chão enquanto ele me chutava e arremessava objetos em cima de mim. Até que eu consegui me trancar no banheiro e fiquei lá dentro chorando, ele batendo na porta e dizendo que iria me matar e eu rezando para aquele tormento acabar logo. Até que a polícia chegou, algum vizinho graças a deus escutou aquilo. Mas, felizmente, hoje nós damos bem, se ele quisesse, eu voltava pra ele”.

Veja, você estava naquela história sobre como a vida nos prega cada peça, não é mesmo? Ah, nem tudo dá certo, bola pra frente, mas peraí. O cara te espancou! Te bateu como se você fosse um Judas de Sábado de Aleluia. Você não prestou queixa? Esse cara tá solto e você ainda quer voltar pra ele? Que história trágica.

Histórias bobas com finais trágicos são as piores que existem. Você estava na expectativa apenas por algum sorriso besta e descompromissado, não por esquartejamentos e cadáveres ocultados. Você não estava vendo Peppa Pig imaginando que os porquinhos fossem virar bacon, não acreditava que um dos Teletubbies iria morrer de câncer e que o outro fosse ter uma overdose de cocaína no banheiro. Aquela música do Menino da Porteira é sordidamente triste porque o pobre menino que gostava de escutar o berrante acaba morrendo.

Não era para ser assim.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

José Mayer não perdoa ninguém

Símbolo sexual, galã televisivo, touro reprodutor, responsável direto pelo Baby Boom. Faltam palavras para definir a atuação e a vida de José Mayer. Um traçador compulsivo de Helenas e Ninfetas, empregadas e patroas, enfim, não há mulher que resista ao charme sedutor do sexagenário ator, que há trinta anos interpreta o mesmo e glorioso papel, levando para cama pelo menos oito gerações diferentes de atrizes brasileiras.

Quando Zé foi anunciado no elenco da nova novela Império, todos nós passamos a olhar o elenco e pensar quais mulheres ele levaria para cama, muitas delas pela segunda vez. Leandra Leal, Nanda Costa, Marina Ruy Barbosa, Lilian Cabral, Letícia Birkeheuer, Regina Duarte, Marjorie Estiano, não importa se as personagens viveram em épocas diferentes, o tempo e o espaço são indiferentes a piroca ao sex appeal do José Mayer.

(Inclusive, se ele estivesse participando desta novela O Rebu, ele seria capaz de manter relações sexuais com as mulheres antes, durante e depois da noite em que se passa a história. Ao que consta, Mayer nunca participou de uma novela de temática espírita porque em determinado momento ninguém saberia se ele estava encaçapando a mulherada na vida, na morte, no purgatório, em outra vida, no limbo e enfim).

Mas eis que, para a surpresa de todos, Mayer não vai interpretar um homem maduro que seduz mulheres jovens. Não, dessa vez ele será um homossexual de meia idade que tem um relacionamento com um cara mais novo, um ninfeto. Uma quebra de paradigmas. E uma novidade.

Sim, a partir de agora, ao que tudo indica, Zé Mayer não vai mais escolher quem leva para a cama. Se antes havia apenas um critério e este critério era anatômico, agora ele não vai mais ver cara nem coração. Passará por cima de qualquer ser com polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido.

Podemos apostar que Alexandre Nero, Caio Blat, Othon Bastos, Tato Gabus Mendes, Rômulo Neto, Paulo Betti, o tal do Chay Suede, o Fiuk e o Fábio Jr (talvez eles não estejam na novela, mas isso não importa), o Zé vai passar o rodo em todos eles. Ele vai partir pra cima do elenco da novela das seis, das sete, do elenco jovem de malhação, para os apresentadores do Jornal Nacional, do Zorra Total, do Louro José... ou, talvez ainda não. José Maier ainda não

Como diria a lendária cantora baiana Marli, não há para onde escapar, não há para onde correr. José Mayer vai abaculhar todo mundo. E em pouco tempo, ele será escolhido para interpretar Hanz, o pansexual, no filme do CH3.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Cruzeiro CH3

A notícia saltou diante dos meus olhos em algum dia semana passada. Uma empresa iria promover um cruzeiro temático pela América do Sul para os adeptos do Swing, a troca de casais. Saindo do Rio de Janeiro e passando por Búzios, Punta del Este e Buenos Aires, o barco viverá alguns dias de bacanal desenfreado, com casais fazendo sexo entre si ao doce balanço do mar.
Um Cruzeiro da putaria já tem que começar com muita sacanagem pros seus ouvidos

Algumas questões merecem ser explicadas. Primeiro, o preço da passagem é individual e, sendo que o objetivo é justamente pegar a mulher do outro, acredito que nenhuma passagem deveria ser vendida individualmente. Deveria, no mínimo, ser exigida a certidão de casamento. Outra, é que há diferença de preço entre os pacotes. Acredito que num cruzeiro de Swing isso não faz muito sentido, porque uma suruba deve ser sempre democrática.

No entanto a dúvida que realmente permeia a alma humana é o motivo que leva alguém a embarcar no Navio da Putaria. A resposta é a privacidade. Ao invés de entrar num clube noturno em que todo mundo sabe que o objetivo é comer a mulher dos outros e nos quais os curiosos de plantão ficam na calçada para olhar a cara dos participantes, os swingers preferem entrar num navio e bancar o turista puro e simples em busca de diversão em alto mar.

Em todo caso, existem pessoas que pagam para participar de um cruzeiro com o Roberto Carlos e, sendo que sexo é melhor do que Roberto Carlos, os participantes do cruzeiro da perdição estão perdoados.

O fato é que nos percebemos um nicho. Cruzeiros temáticos são uma aposta para o futuro e quem entrar nesse ramo vai se dar bem. Afinal, o Cruzeiro é uma espécie de enorme Las Vegas e o que acontece lá fica por lá. O CH3 não poderia ficar para trás e por isso contratamos a National Sea Research para criar uma série de cruzeiros temáticos com o selo CH3 de qualidade.

Balsa do Swing
Diariamente, uma balsa realizará o trajeto Rio-Niterói com entrada exclusiva para os swingers. No entanto, em atenção as leis federais sobre o pudor, seus tripulantes precisarão estar devidamente vestidos ao final dos vinte minutos da viagem.

Cruzeiro da besuntação
Um barco partirá de Jericoacara passando por Budapeste, Guarujá e Montevideo. Ao longo da viagem, a tripulação poderá praticar a besuntação livre, solitária ou em grupos. Salas temáticas irão explorar os diversos aromas e serão disponibilizadas substâncias pastosas como doce de leite, creme de leite, leite condensado, geleia, mel, creme de barbear, sorvete de creme, melado, cola cascolar, clara de ovo, graxa, mousse de maracujá e caldo de feijão. Enfim, um mundo de sabores e sensações.

Cruzeiro do cabide
Ao invés de ficar no meio termo, nas linhas implícitas, este é o cruzeiro que realmente convida os seus participantes para a putaria. Os cabides são distribuídos logo na entrada e os passageiros são convidados, forçados e obrigados a pendurar suas roupas por ali. Nus, no meio do oceano, eles poderão deixar aflorar os seus instintos mais primitivos. O navio sai de Riga, capital da Letônia e chega até Tegucigalpa, na calorosa Honduras. Como a viagem dispensa bagagem é possível levar 50% mais passageiros, garantindo uma suruba diversificada.

Cruzeiro dos Benga Boys
Saindo de Acorizal, os passageiros embarcarão num navio abastecido por pasteis e caldo de cana de Jangada. Eles vão descer o Rio Cuiabá até algum ponto do Pantanal onde o barco irá inevitavelmente encalhar. Ao longo do trajeto, os Benga Boys vão estourar tímpanos e testículos com seu som visceral. No meio do nada, os passageiros terão que escolher entre a roda punk e o mergulho no meio do rio com jacarés e piranhas. Uma oportunidade de se conhecer melhor e impor desafios para a sua vida.

Cruzeiro do Feliz
Vinícius Gressana irá oferecer seu corpo nu em nome da arte. Saindo de Dubai com direção a Marrakesh, depois Orlando e enfim Nairóbi no Quênia, ele irá realizar uma performance trascendental, munido apenas de um lápis, dois bodes e uma garrafa de Dolly guaraná cheia de Nutella. Quem curtir sua página no Facebook ganha 50% de desconto.