quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Grandes Nomes da História – Furacão Sandy

Ninguém sabe direito qual é a diferença entre ciclone, tornado, furacão e tufão. Teóricos perdem muitas horas de suas vidas divergindo sobre aspectos técnicos, tão criteriosos, que o cidadão normal jamais entenderá o que é cada um. Numa definição mais simples, podemos dizer que todos são grandes perturbações na atmosfera terrestre. Uma grande perturbação, essa é a definição para um furacão.

Cuidado, Sandy, do seu lado
Dentro dessa definição, Sandy pode ser enquadrada muito bem. Ela vem perturbando a atmosfera terrestre nesses seus quase 30 anos de vida. Desde quando ela era uma criança de oito anos e fazia dupla com seu irmão, Júnior, que então se assemelhava a um extraterrestre de mullets. Na mais tenra infância eles já nos perturbavam com a sórdida canção da Maria Chiquinha, aquela trama rodriguiana de amor, sexo, traição, chiste, homicídio, esquartejamento e necrofilia.

Na medida em que Sandy foi crescendo, a perturbação ficou ainda maior. Como não se lembrar de Dig-dig-joy? Até chegarmos ao ápice que foi a clássica “Imortal” com seus ainda mais clássicos versos “o que é imortal, não morre no final”. As músicas de Sandy Júnior deixavam suas colegas de sétima série suspirando.

Ao mesmo tempo em que o furacão e seu irmão conquistavam o mundo com versões nacionais pavorosas de músicas internacionais (igualmente pavorosas), criava-se um mito sobre sua virgindade. Mito que começou, sei lá, quando ela tinha apenas 12 anos e já cantava sobre como é bom beijar. Creio que até hoje, as pessoas ainda perguntem para ela se ela é virgem e se toparia leiloar sua castidade na internet.

Com o tempo, as pessoas perceberam que o Júnior era apenas um apêndice na dupla e os dois se separaram em um processo não cirúrgico. Mas, como se fossem queijo e goiabada, nunca conseguiram repetir, separados, o sucesso que fazem juntos. Desde então, notícias sobre Sandy têm sido raras e ocasionais.

Como no caso em que ela deu uma entrevista a playboy e afirmou que achava possível que as pessoas sentissem prazer anal. Declaração que caiu feio uma bomba na internet e pessoas do mundo inteiro passaram a acreditar que Sandy era um furacão na cama, sem limites para o prazer. Logo, ela foi levada a fazer um comercial da cerveja Devassa, no qual ela dança em cima de um balcão, enquanto sua voz em off diz que todo mundo tem um lado devassa. Sua atuação não convenceu ninguém e passou a impressão de que ela chorou em posição fetal logo após a gravação ter sido concluída.

E como agora, quando Sandy finalmente chega aos Estados Unidos. Coisa que ela nunca conseguiu e olha que ela tentou enquanto fazia a dupla com seu irmão. Sandy chegou para arrasar. Para provocar uma grande perturbação na atmosfera. E jamais voltará a ser esquecida. Quanto ao Júnior, não tenho a mesma certeza.
Cuidado árvore, na sua frente!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Brasil após as eleições de 2012

Terminado o processo eleitoral deste ano, a grande pergunta que todos, analistas, psicanalistas, padeiros apedeutas, fazem é: o que será do Brasil após este momento? Após a festa da democracia sobrará apenas a ressaca? O CH3 responde estes questionamentos e traz as melhores opiniões, informações, estratagemas sobre o futuro brasileiro.

Primeiro, nós fomos consultar os grupos que se sagraram vencedores em cada cidade brasileira. Eles não tiveram dúvidas em apontar que o Brasil irá melhorar. “Foi a vitória das novas ideias”, disseram, unânimes. Para eles, nos próximos anos o Brasil crescerá a passos largos e ao final de suas administrações será possível caminhar em cidades modernas, saudáveis, estruturadas, seguras. "Quem ficar distraído poderá até achar que está em um cenário de filme futurista, mas não, será o Brasil mesmo", garantem.

Já para os grupos que foram derrotados no sufrágio, esta eleição foi marcada pela sujeira e assim será o Brasil no futuro. “Um país sujo”. Para eles, os próximos anos serão marcados por corrupção, descontrole da violência, caos na saúde e sucateamento da educação pública. "Quem se distrair vai acreditar que está em um cenário de filme futurista, do gênero apocalíptico. Mas é o apenas Brasil" alardeiam.
Transformando o Brasil num plano de fundo do Windows

A única certeza que esses grupos tem é que apenas um nome poderá apaziguar os conflitos entre esquerda e direita, socialdemocracia e republicanismo, trabalhismo e comunismo, populismo e democracia cristã, trotskismo e Michel Teló. Esse nome é o de Pai Jorginho de Ogum.

“Pai Jorginho de Ogum é o único que seria capaz de unificar os pensamentos divergentes dos vários grupos políticos brasileiros e fazer com que o povo caminhe junto para a evolução”, disse o presidente, um desses tantos presidentes de um partido brasileiro, um desses tantos partidos brasileiros.

Na visão dos colunistas de jornal, Jorginho seria capaz de montar uma ditadura personalista, incentivando o culto a sua própria imagem. “O que faltou a ditadura militar foi um pouco de culto a imagem. Se o Figueiredo tivesse colocado estátuas dele em todas as praças do Brasil, até hoje estaríamos no poder”, afirmou um coronel do nordeste.

Sua personalidade emblemática seria capaz de censurar a grande imprensa, mas abastecer os seus cofres com grandes verbas de divulgação. Ele sucatearia o ensino público, mas entregará casas populares, desenvolvendo uma tênue harmonia que deixará elites e classes baixas felizes. “O sucesso do seu governo será conquistado a base do sangue dos seus opositores, mas com um mão no peito e sem orgulho de ser feliz”, disse me uma fonte privilegiada.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Quem quer viver para sempre?

Vi estes dias uma reportagem sobre a proibição da venda de comprimidos que prometiam retardar o processo de envelhecimento. Segundo os órgãos responsáveis, os comprimidos trazem efeitos colaterais indesejados e não cumprem o que garantem. Eu acho que estes comprimidos deveriam ser proibidos justamente por prometerem o retardamento da velhice. Todos devem envelhecer.

Matérias em revistas dizem que num futuro bem próximo, o ser humano irá viver até os 150 anos. Espero que eu não chegue até lá.

Sim, morrer é chato quando se é novo, quando ainda não se viveu o suficiente. Quando ainda se tinha muito a fazer e o que viver. Mas chega uma hora em que já se viveu o bastante. Viver 150 anos seria, antes de qualquer coisa, extremamente monótono.
Vá para a luz

Imagina o cidadão que agora tem 140 anos, nascido no distante ano de 1872. Imagine ele contando da emoção que foi presenciar a Proclamação da República quando tinha 17 anos. A tensão da 2ª Guerra quando tinha 67 anos. O seu centenário, em plena ditadura militar. A participação do comício das Diretas Já com 113 anos. A alegria de conviver com seu filho de 115, o neto de 90, o bisneto de 65, o trineto de 40, o tetraneto de 15. A alegria das reuniões familiares, quando eles precisam alugar o ginásio do Ibirapuera para caber toda a família.

Há outro lado peculiar nessa vida de 150 anos. Chegaria em um ponto no qual você não teria mais o que fazer. Porque numa vida em que todo mundo vive até 150 anos, existiriam duas opções:

A primeira seria que todos se aposentassem aos 65 anos como ocorre nos tempos atuais. Isso significa que você passaria 85 anos em casa sem fazer nada. E os Estados faliriam porque não teriam como sustentar um mundo de pessoas que não trabalham. Viveríamos em um mundo parecido com um filme de Ridley Scott.

Restaria então, a opção de todos trabalharmos até os 120 anos, restando ainda 30 longos anos após a aposentadoria. Você já imaginou o que é trabalhar por 100 anos? 100 anos de solidão. Já imaginou passar em um concurso público e ficar 100 anos no mesmo emprego? Cem anos trabalhando com as mesmas pessoas? Já imaginou se você tem uma discussão feia logo no primeiro ano, como seriam os próximos 99?

Por essas e outra, abaixo a vida eterna.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma análise da caixa de bombons

Diria Forrest Gump, que a vida é uma caixinha de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar. É, de fato, uma boa análise, mas que tem uma falha grave. Você sabe sim o que vai encontrar dentro da caixa: chocolate. Dos mais diversos tipos, mas, chocolate. Eu prefiro uma análise que certa vez foi feita por Vinícius Gressana, de que a vida é sim igual a uma caixa de bombons, porque o pior sempre fica para o final.

Eis uma verdade absoluta. O pior sempre fica para o final. Com seus chocolates de sabores sortidos, a caixa de bombons é uma metáfora para a vida. Nós temos várias opções e tentamos controlar as nossas escolhas, mas, chega em um momento em que só lhe sobram opções ruins.

Numa caixa de bombons nós temos os famosos chocolates ao leite, que sempre aparecem em grande quantidade. Eles são uma opção fácil, aquilo que nós escolhemos quando estamos em dúvida. Não porque seja bom, mas porque acreditamos que não irá nos decepcionar. É o equivalente a cursar Direito em alguma faculdade medonha, porque garante um futuro.

O Sonho de Valsa e seus similares dominam as caixas de bombom contemporâneas e sempre são disputados, mesmo não sendo grande coisa. Trata-se de um bombom extremamente doce e enjoativo, mas que transmite uma imagem de glamour, requinte. Tudo pelo seu papel brilhoso, seu nome pomposo. O Sonho de Valsa é um ingresso de camarote. A imagem é melhor do que o resultado. Avelã causa o mesmo fascínio que “cupcake” ou “open bar”.

O chocolate com coco pode ser comparado ao sadomasoquismo. Causa repugnância na maior parte das pessoas, mas tem seus fãs fiéis que nunca recusam um tapinha, ou melhor, um pedaço de coco preso entre os dentes.

Aquelas pessoas que gostam de contrariar, tomar posições contrárias, fugir do óbvio. Os transgressores, os alternativos. Eles escolhem o chocolate branco. Quem prefere o chocolate branco tem uma opinião diferente de 90% da humanidade e representa uma minoria combativa. Quando o chocolate branco cair na sua mão, entenda isso como se fosse uma oportunidade de intercâmbio na Suazilândia.

Os chocolates caramelizados são aquelas oportunidades que parecem ser únicas, mas que assim que você consegue, logo enjoa.

Quando você ia montar o seu time de futebol no colégio, sempre chegava a hora em que sobrava um gordinho desajeitado que você escolhia para ficar no gol. Sem nenhuma expectativa, ele cumpria seus objetivos, mas nem por isso se tornava popular ou era lembrado novamente. Estes são os chocolates com recheio de morango.

Mas no fim, não tem jeito. O que sobra é o chocolate com amendoim. Aquele que sempre fica para o final. Ele é a representação da morte. Quantas vezes você não pegou aquela caixa de bombons sobre a mesa e se deparou com dois Charges abandonados?

Como resultado de uma sociedade de padrões simplificados e de cultura replicada, as caixas de bombons têm cada vez menos atrativos. Quando eu era criança, lembro que havia uma enorme variedade, uma grande gama de opções. Hoje, elas se resumem a vários tipos de Sonho de Valsa. É a vitória das aparências, da falta de alternativas para viver.

Contra burguês, vote 16.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma ampla discussão sobre o horário de verão

Campanhas eleitorais quase sempre descambam para os temas considerados “polêmicos”. Aborto, legalização da maconha e outros temas similares que chocam a nossa sociedade laica. Esquecem-se todos de discutir um assunto muito mais interessante, muito mais importante e que influi diretamente na qualidade de vida da população: o horário de verão.
Indo trabalhar hoje de manhã

Não negue. Assim como em todos os primeiros dias úteis após o começo do horário de verão, foi difícil acordar hoje. O despertador toca e você pensa que o seu celular está com defeito, porque ainda é madrugada e você deveria dormir mais um pouco. Sim, ainda é madrugada, mas você não deve amaldiçoar todas as futuras gerações dos fabricantes da Samsung, Motorola, Apple, Nokia ou Aiwa. A culpa é do horário de verão.

Os defensores do horário alternativo costumam a enumerar as vantagens deste sistema. Vantagens que se resumem em um único item: economia de energia. Durante seus pouco mais de quatro meses de duração, há uma economia de 4%, redução de consumo no horário de pico, faz bem pro meio ambiente, pra pele e para a cabeça. Economiza-se energia suficiente para abastecer Recife durante um dia.

Também falam que as pessoas ganham uma hora a mais no dia para poder caminhar e fazer piqueniques no parque. Oras, esta é a típica motivação que dura apenas uma semana. Na semana seguinte, os parques voltarão a ser ocupados apenas pelas mesmas pessoas de sempre. Porque, quem quer fazer atividade física arruma algum horário.

Agora eu pergunto: vale a pena alterar a rotina de 100 milhões de pessoas apenas para economizar 15 dias de energia? Fazer com que você acorde mal, almoce mal, durma mal, apenas para fazer algumas pessoas caminharem no parque durante uma semana? É claro que não. E, para piorar, quando você finalmente está se acostumando ao novo horário, ele acaba. E vão-se mais algumas semanas de readaptação.

O horário de verão seria plenamente justificável se ele reduzisse o consumo energético do Brasil em um mês, vai lá. Não de uma cidade de 200 mil habitantes por um mês, mas do Brasil inteiro.

A história de que com o horário de verão você ganha uma hora a mais no dia é uma tremenda enganação. Na verdade, você perde uma hora. A hora em que você poderia estar dormindo, a hora em que você age como um sonâmbulo por não ter dormido.

Alterar a rotina de um país por motivos tão banais não deveria ser decidido com uma canetada. Deveria ser motivo para um plebiscito. Para protestos na rua. Para um banho de sangue!

Outro grande problema do horário de verão é o fato de que você olha para todos os relógios da casa e não sabe se eles já foram atualizados antes ou não, se o celular atualiza automaticamente, se alguém mexeu no relógio da cozinha. Mas, não sei se isso justificaria o banho de sangue.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Grandes dúvidas que não têm explicação (20)

As conversas eróticas no avião de Emmanuelle

A morte da atriz holandesa Sylvia Kristel comoveu uma geração. Kristel foi a intérprete original da personagem Emmanuelle, uma lenda do prazer solitário noturno nos anos 70. No filme original, ela interpretava uma mulher casada e entediada que durante uma viagem a Tailândia teve contato com as mais diversas experiências sexuais, com homens, mulheres,cachorros, árvores e o que mais aparecesse pela frente.

Pois é, a série foi nos anos 70 e nessa época nem eu, nem ninguém da minha geração era nascido. Dessa forma, Sylvia Kristel jamais será uma musa, deusa do prazer para este blog. Para nós, Sylvia será eternamente a velhinha do avião. Exatamente. A Emmanuelle que nós acompanhamos é a série francesa dos anos 90, na qual o papel de Kristel se resumia a de conversar com um senhor no avião.

Quem foi adolescente na virada do século sabe como era difícil ter farto acesso as mais diversificadas variedades de pornografia. Desta forma, o Cine Privê da Rede Bandeirantes era um clássico absoluto dos jovens, uma oportunidade única. Naquele momento era apenas você, o controle remoto e a luz azulada da televisão. Silêncio absoluto, todos os seus sentidos aguçados para evitar ser pego na cena do crime. Você seria capaz de escutar uma agulha caindo na sala ao lado e sem a ajuda do aparelho de surdez da Polishop. Porque a televisão estava no mudo, é claro.

Isso fazia com que acompanhar a história do filme fosse muito mais complicado, porque ele era dublado. Não que você estivesse interessado na história, mas, depois de tantas repetições, uma dúvida começava a bater: do que será que esse filme trata? (Um breve parêntese: apesar de ridicularizado, Emmanuelle tinha um nível de erotismo bem maior do que a maior parte do acervo da Bandeirantes. Incluindo aí o famigerado “Emmanuelle no Espaço, no qual uma outra Emmanuelle introduz – sem duplo sentido – extraterrestres ao mundo do prazer sexual).

O roteiro de Emmanuelle era completamente não linear. Cenas de mulheres fazendo sexo em um país europeu seguidas por dois velhos no avião. Logo depois, a Emmanuelle estava em um barco, se transformava em outra mulher e os dois velhos voltavam a conversar. Tínhamos cenas de sexo na Alemanha, nas Filipinas, em Amsterdã. Várias mulheres, vários homens, várias situações e várias conversas entre os dois velhos no avião, naquele que deve ter sido o mais longo voo da história. E a conversa no avião era de fato, a parte mais (broxante) intrigante da história.

Basicamente, Emmanuelle é uma mulher que tem o espírito de todas as outras mulheres do planeta dentro dela. Para encarnar qualquer mulher, eu disse qualquer mulher, basta pingar duas gotas de um perfume mágico entre os seus peitos. Pronto.

Na versão anos 90, Sylvia Kristel interpreta a Emmanuelle velha que encontra seu grande amor, no caso o pior 007 da história, em um voo internacional. Eles passam então a conversar sobre o passado, numa conversa sobre sexo, basicamente. Vovôs tarados.
- Se lembra da Cristina? Ela não conseguia transar com ninguém, eu me transformei nela e a vida dela mudou.
- Se lembra aquela vez que nós transamos em Berlim? Foi ótimo.
- E a Claudinha que se vestia de homem e colocava duas laranjas dentro da calcinha para tentar enganar? Menina levada.

No final, Kristel volta a ser jovem, assim como o 007 e os dois transam dentro do avião. Nenhum dos outros passageiros se manifestou sobre o assunto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um panorama da situação das novelas no Brasil

Na época em que Carminha era boa
Na próxima sexta-feira irá ao ar o último capítulo da novela Avenida Brasil. Novela que é o assunto predominante em todas as redes sociais, em todos os sites de notícia do Brasil e quiçá do mundo. Todo mundo quer saber quem matou o Max, quem comeu a Isis Valverde, quem... quem quer que tenha feito qualquer coisa na novela. Mesmo, com todo este interesse envolvido, a novela é um fracasso, curiosamente.

Aliás, todas as novelas são um fracasso. Um curioso fracasso. No Brasil não existe uma única pessoa que assuma que assista novelas. Quem sabe o andamento da trama é porque tem o misterioso hábito de passar na frente de televisões misteriosamente ligadas e sintonizadas na Globo durante a exibição do capítulo. Creio que essas pessoas têm o estranho hábito de caminhar em frente de lojas de eletrodomésticos na hora da novela.

Mesmo assim, mesmo com esse desgosto geral pela novela, existe uma enorme indústria relacionada a elas. Centenas de revistas, centenas de sites, programas de televisão especializados apenas em desvendar os mistérios da teledramaturgia nacional. Da mesma maneira, os jornais sempre divulgam o resumo diário dos capítulos. Um mistério.

Uma das explicações está no fato de que, existem sim pessoas que assistem novelas. Mas, apenas uma. Apenas aquela. Em toda a sua vida, jamais assistiu nenhuma novela, apenas esta que ela está comentando. O que continua a ser um mistério incrível. Se cada pessoa assiste a apenas uma novela durante toda a vida, como é que elas têm um índice de audiência tão grande e que se mantém a cada nova edição? Manipulação do ibope, creio eu.

Gostar de novelas é um sinônimo de vergonha moral. Assumir que gosta de novelas é comparável a assumir que mantém relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, que gosta de uvas passas e que come cera de ouvido. Assumir que gosta de assistir a atual novela é certeza de demissão e de exclusão social. O noveleiro tem que viver seu prazer solitariamente.

Veja que, mesmo aqueles que assistem novelas, todas elas, e assumem isso, não gostam delas. Ninguém, nunca, em hipótese nenhuma, jamais falou “essa novela é boa”. A telenovela é sempre uma porcaria. Os personagens são ruins, as atuações são ruins, a trama não convence. Mesmo assim, a pessoa assiste. Um prazer solitário que é quase um sofrimento. Uma masturbação masoquista.

Sexta-feira, então, quando finalmente descobrirem que a Carminha matou o Max, as pessoas se decepcionarão com o final previsível. Mas, se o Max tivesse sido morto e sodomizado pela Inquisição Espanhola, às pessoas também reclamariam que o final foi ruim. Enfim, já deu para entender que tudo em uma novela é ruim e que é misterioso como o Murilo Benício e todos esses outros atores tem contratos milionários e estampam capas de revistas.

Uma novela só se torna realmente boa, alguns anos mais tarde. Quando ela é repetida no Vídeo Show e todos repetem bovinamente “essa novela foi muito boa, esse Tonho da Lua era um gênio”. Um curioso caso de melhoramento tardio.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Salto, a Queda Livre e o Sentido da Vida

O austríaco Felix Baumgartner entrou para a história da humanidade ontem. Durante duas horas e meia, Felix subiu em um balão de hélio até atingir a altitude de 39 quilômetros, na estratosfera. Chegando lá, ele pulou de paraquedas e quebrou uma série de recordes. O mais alto voo com balões, a maior queda livre da história, o maior salto de paraquedas, a maior velocidade atingida por um ser humano sem a utilização de veículos motorizados.

Baumgartner poderia ter quebrados tantos outros recordes, se ele quisesse. O livro dos recordes tem dezenas de categorias absurdas, portanto, ele poderia quebrar o recorde de cusparada do lugar mais alto, maior quantidade de hambúrgueres ingeridos acima de 30 quilômetros de altitude e por aí vai. Mas, o que realmente chama a atenção em sua façanha, são os riscos que ele correu.

Sim, porque o austríaco poderia ter morrido das mais diversas, dolorosas e cruéis maneiras, uma morte que faria o padre Adelir dos balcões parecer um principiante. O balão poderia ter estourado, seu paraquedas poderia ter dado algum problema, qualquer trinco em seu capacete lhe faria sofrer uma combustão espontânea, além do risco de ele perder o controle e girar tanto, que quebrar a coluna seria a morte mais tranquila. Sufocado no próprio vômito seria a opção nojenta.

Mas, deu tudo certo e Baumgartner conseguiu aterrissar em segurança, escrevendo seu nome na história. Será? A grande questão que eu levanto é se vale a pena fazer o que Baumgartner fez. Será que vale a pena arriscar a vida de maneira tão absurda para garantir seu nome escrito em quatro lugares do Livro dos Recordes?

Vivemos em uma era imediatista e o nome de Felix Baumgartner não será lembrado daqui a dois anos, duvido até que seja lembrando no mês que vem. A sociedade atual não se emociona com os grandes feitos. Nossa geração não tem potencial para ter nenhum Neil Armstrong ou Edmund Hillary. Talvez por que com a evolução tecnológica, acreditamos que tudo seja possível.

Há outro lado, que é o da satisfação pessoal. Algo que não dá para mensurar. Para algumas pessoas, a satisfação é ter um carro novo, para outros é ter uma bela família com dois filhos em uma casa com jardim. Para Baumgartner, a satisfação pessoal só poderia ser alcançada com um salto da estratosfera. Cada um é cada um.

E agora, o que ele irá fazer da vida? Ele jamais conseguirá ter uma experiência tão intensa. O que ele poderia fazer? Pular de uma altura ainda maior? Qual seria a graça? Creio que, aos 43 anos, Felix é um aposentado. Eu jamais contrataria ele para a minha empresa, porque acho que ele não teria motivação suficiente para entregar pizzas ou cuidar da parte econômica da firma.

Queda por queda, a do Palmeiras irá durar muito mais tempo e será lembrada por mais tempo ainda.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Os tablets e a nova ordem mundial

Quando o primeiro tablet foi apresentado por Steve Jobs, todos ficaram impressionados. Sim, porque todos sempre ficavam impressionados com qualquer coisa apresentada por Jobs. Se ele, do alto de sua gola rolê, parasse na frente da plateia e apresentasse suas fezes com formas arredondadas, o público ficaria impressionado da mesma forma. Pouco importava o produto. Importava era a mágica e revolucionária presença daquele cidadão.

De fato, ninguém sabia direito para o que servia aquele iPhone gigante. Muitas pessoas fizeram filas para poder tocar logo na nova invenção, e depois ficaram com aquilo em casa sem saber o que fazer. Muitas empresas começaram a fabricar seus próprios tablets e eles ganharam o mundo. Mas, a humanidade média, em geral, ainda não sabe o que fazer com isso.

A principal função do tablet continua sendo a de se exibir em locais públicos. Bem, não dá para tirá-lo do bolso, porque ele não cabe no bolso, mas, quando você mostra que tem um, seu status social aumenta consideravelmente. Os outros começarão a pensar que você dirige carros importados, é bem remunerado e mantém relações sexuais gratuitas com mulheres famosas. Mas as funções práticas ainda são difíceis de imaginar.

Os tablets são ótimos para ver emails, sem dúvida. Mas ver emails não chega a ser a coisa mais importante do mundo e  você também podia fazer isso com um smartphone. Assim como os smartphones poderiam te manter conectado com  a internet o tempo todo. Eles também poderiam te manter distraído enquanto você espera o médico te atender, mas uma revista faria isso também. A revista poderia limpar sua bunda em um momento de necessidade, o que automaticamente faz com que as revistas sejam mais importantes do que um tablet. Você talvez não seja demitido se for para uma reunião sem ler um email, mas com certeza será se você estiver cagado.

A princípio o tablet seria apenas um meio termo entre o celular e o notebook. Mas eu tenho a impressão de que eles são um projeto de domínio mundial. No futuro os tablets substituirão celulares, computadores, televisões, jornais, revistas, talheres, roupas, conversas em família. Todos viverão isolados dentro de bolhas se relacionando com os outros por meio ds seus dispositivos, numa espécie de livro de George Orwell. Substituirão até o papel higiênico.

Este foi o primeiro post do CH3 escrito em um tablet. No futuro será uma prova do projeto de dominação mundial, mas, por enquanto é apenas o post mais cansativo que eu já escrevi. I got blisters on my fingers.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Humilhação do Voto Solitário

Logo que os votos são totalizados os jornais começam a contar a história dos campeões das urnas. A professora que teve a maior votação proporcional do país em Natal, o recordista de votos no Rio de Janeiro, o gari eleito em Cascavel. Todos aproveitando o seu sucesso no sufrágio. A imprensa também dedica espaço para as (sub)celebridades e os seus muitos, ou poucos votos.

Só que existe o outro lado. O lado marginal, o lado dos Perdedores com P maiúsculo. Aqueles que ocupam as posições mais baixas das listas de vereadores.

Sempre há uma curiosidade relacionada àqueles que não têm nenhum voto. Mas eu vejo as pessoas que zeraram nos votos com certo desprezo. São pessoas que entraram na disputa apenas para fazer figuração, que não concorreram de verdade. Foram indeferidos, impugnados, ou simplesmente desistiram. Não fizeram campanha, nem eles próprios votaram neles.
Prazer Solitário

Os grandes humilhados para mim são àqueles que têm apenas um voto. Um único voto solitário. Provavelmente o seu próprio voto.

Não que receber dois votos signifique muita coisa. O desempenho pode ser igualmente pífio. Mas, com dois votos, significa que você teve pelo menos um amigo, um admirador, alguém em quem confiar. Uma pessoa que poderá estar com você nos piores momentos. Quem teve apenas um voto, nem isso.

Imagino o cidadão que foi na urna e votou em si próprio. Voltou para casa, confiante na apuração. Talvez não com a expectativa de ser eleito, mas de ser reconhecido, de receber alguns votos, a confiança de alguns eleitores no seu projeto, o apoio da família e dos amigos. Quando os resultados são totalizados ele descobre que apenas ele votou nele. Não foi votado nem pela própria mãe.

Imagino ele chegando no quarto e falando para a esposa:
- Recebi apenas um voto.
- Ééééééé... poxa heim, que coisa. O que será que aconteceu?
- O Ricardo, nosso vizinho solteiro, recebeu dois.
- Ééééééé, deve ter sido a mãe dele.

Imagino a cara dele para encarar os amigos, os colegas de trabalho, todos que falaram que o candidato poderia contar com ele. Todos com aquela cara de que não há nada que possa ser dito. Que coisa estranha, deve ter sido um erro na contagem. Todo mundo havia contado com a possibilidade de que outros iriam votar nele e então todos poderiam dizer “meu voto foi teu”. Mas, agora não teria como. Desde, é claro, que um dos colegas não seja extremamente cara de pau.
- O que foi cara, teve algum problema? Não votou?
- Votei sim.
- Ah, é porque eu vi no resultado que só eu votei em você, achei que tivesse desistido.

O cidadão do voto solitário andará humilhado pelo resto da sua vida. Sem a confiança dos seus amigos, da sua família. Talvez, apenas do seu próprio cachorro. Que não tem título eleitoral.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coberturas Especiais

Dizem para aqueles que se interessam em seguir uma carreira na área do jornalismo, que uma das vantagens (ou desvantagens, dependendo do seu TOC) é que essa profissão não tem rotina. Cada dia é um novo dia, repleto de novas pautas, novos assuntos, novas aventuras em ruas esburacadas, leilões de gado ou na antessala da presidente da república. Parte disso é verdade. Existem as famosas coberturas especiais.

As eleições são dessas ocasiões em que as redações se organizam a cada dois anos para fazer as mesmas pautas de sempre. São elas:
- Cobrir os candidatos votando. Consiste em tirar uma foto do presidenciável fazendo sinais positivos enquanto vota nele próprio. Depois, o candidato é entrevistando e diz que está confiante na sua vitória, fruto de uma campanha coerente e que pensou o país como um todo.
- Encontrar um jovem de 16 anos na sua primeira eleição e uma senhora de 137 anos que ainda continua votando.
- Cobrir a apuração. Muito melhor quando é na televisão, porque os apresentadores ficam horas divagando sobre o projeto presidencial para 2014 baseado no resultado da prefeitura de Curitiba.

Pudemos acompanhar outra dessas situações na semana passada, durante o velório da apresentadora Hebe Camargo. Jornalistas tem um fetiche em realizar coberturas especiais dos velórios das celebridades. Cobertura que começa no momento em que a pessoa está hospitalizada.
- Um repórter fica na porta do hospital sírio-libanês trazendo as últimas notícias sobre o estado da saúde do cantor. Mesmo que essas notícias sejam que não há notícias.
- Quando a morte é anunciada, as pessoas no estúdio ficam relembrando a vida da pessoa, lembrando histórias, conversando com outras pessoas enquanto a câmera fica fixa no saguão do hospital mostrando pessoas indo e vindo. Vez por outra, os apresentadores são focados fazendo cara de pesar. Tudo isso até que seja preparado um VT com os melhores momentos da carreira do defunto.
- No velório, a TV mostra o cortejo por imagens aéreas, com aquele som da hélice do helicóptero ao fundo enquanto o jornalista conta pausadamente a história do falecido.
- Toda essa saga é resumida em dois minutos para o Jornal Nacional.

Mas nada é pior do que cobrir o Réveillon em Copacabana. Aliás, Réveillons em geral. Você perde a sua folga para fazer reportagens sobre a comemoração das outras pessoas. Mas, creio que o ápice do constrangimento seja fazer a narração da explosão dos fogos.
- Começa a queima de fogos. Uma bonita festa, as pessoas animadas. Vejam só, os fogos, azuis, amarelos. Continuam queimando.
(meia hora depois)
- Os fogos continuam queimando.

Uma merda de vida.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Slogans Imbátiveis

“A Força da Juventude”

Jovem como você
Estávamos no ano da graça de 2004 e eu ainda estava no colégio. Eu era um jovem de 17 anos e durante as inesquecíveis campanhas eleitorais daquele ano, eu me lembro de um candidato a vereador que havia sido estudante da minha escola. Devia ser uns três ou quatro anos mais velho, devia estar com uns 20 anos. Seu slogan de campanha era algo parecido com “jovem igual a você”.
“Fé na Renovação”
Corta o flashback e voltamos para 2012. Novamente estamos em eleições e novamente o referido cidadão é candidato a vereador. Se nada mudou nesse tempo todo, acredito que ele continua sendo três ou quatro anos mais velho do que eu. E seu slogan continua sendo algo relacionado à juventude, “o poder da renovação”, ou algo parecido com isso.
“Trabalho garantido por uma Cuiabá Melhor”
Tudo bem, ele ainda não deve ter chego aos 30 anos, pode ser considerado um jovem neste mundo em que as pessoas estão cada vez mais próximas de viver até os 100 anos. Todo mundo é jovem, todo mundo pode andar em picapes rebaixadas com som alto na porta da boate, mirando as gatinhas. Todos podem se sentir do jeito que quiserem.
“Vereador de Luta”
Mas, eu bem sei que esse candidato já ocupou os mais diversos cargos públicos comissionados da administração pública desde aquela sua primeira candidatura há oito anos. Neste tempo, ele se transformou em um político profissional, muito tempo para quem propaga a força, a fé, o poder na renovação. Creio que nas eleições de 2032, ele continuará sorridente e clamando o poder da juventude.
“A Força da Mulher, mãe, filha, neta, esposa, guerreira, batalhadora”
Jovem, como você
Só que ele não é o único. Conte nos cavaletes espalhados em nossas ruas quantos candidatos não se apropriam dos valores da juventude, da renovação, do novo, com sorrisos púberes e estampando o dúbio clarão róseo em seus rostos. Isso, porque, a juventude é uma das mais caras mercadorias que podemos vender.
“Esse é de confiança!”
Acreditamos que tudo que é novo é bom. Computadores novos são bons, celulares novos são bons, logo, vereadores novos são bons. Vereadores novos chegarão até a Câmara com seus sistemas operacionais novos, sua memória funcional, seu disco rígido de uma capacidade maior irão formatar todo o sistema sem fazer backup. Nem sempre é assim.

“Um dia seremos felizes”

Este post não defende nenhum candidato, seja ele um recém-nascido ou um Matuzálem político.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Vivendo de Luz

Samambaias: um exemplo
Cada vez mais, eu escuto histórias sobre pessoas que decidiram viver de luz. Sim, pessoas que não comem nada, não bebem nada e vivem apenas da luz e do ar. Pessoas que podem ter uma vida chata, mas que pelo menos economizam um bom dinheiro com restaurantes e papel higiênico.

Quando se fala de seres que vivem de luz eu lembro de uma vez, há muitos anos atrás, quando um destes cidadãos iluminados foi entrevistado pelo Jô Soares. Sua entrevista provocou polêmica no meio médico e um nutricionista foi até o programa dizer que aquilo era uma farsa. Eu imaginei que a solução para o impasse seria a criação de um Big Brother Iluminado. Mentira, naquela época ainda não existia o BBB, mas, que fique aqui a minha sugestão.

Dia desses, eu estava conversando com um amigo meu, interessado em se transformar em um luxfago, sobre como seria a rotina de uma dessas pessoas. Convenhamos, deve ser muito diferente de uma vida comum.

Como será o dia em que uma pessoa decide viver de luz. Será que ela acorda e pensa “a partir de hoje eu vou viver só de luz” e olha com desprezo para aquele pão fresco disposto sobre a mesa do café? Como que é comunicar isso para a família? Para os amigos?
- E ai vai uma carninha?
- Não, obrigado, eu não como.
- Virou vegetariano?
- Não, eu não como nada.

De onde concluímos que a ida de uma dessas pessoas até um rodízio não deve ser das melhores.
- Tem preferência de lugar?
- Perto da janela.

Imagino até, que alguém deveria investir neste ramo do mercado, criando o primeiro restaurante especializado em alimentação a base de luz.
- O que vocês vão querer?
- Uma daquelas pulseirinhas iluminadas de tira-gosto.
- Ótimo. Vão querer um prato principal? As lâmpadas incandescentes estão ótimas hoje.
- Queria algo mais leve, tem uma fluorescente? Talvez um neonzinho.
- Acho que você vai gostar do nosso led.
- Pode ser.
Mulher-samambaia: pioneira?
- E para senhorita? Vai querer Halógena?
- Olha, eu prefiro algo mais natural. Tem isqueiro?
- Tenho.

Pessoas que se alimentam de luz também podem passar por situações constrangedoras durante um jantar romântico.
- Vou cozinhar para você hoje, amor. O que você vai querer?
- Ah amor, pode ser alguma coisa que você gosta.
Mais tarde
- Olha, jantar a luz de velas! Que romântico!
- Gostou?
- Gostei! Mal posso esperar pra ver qual é o prato.
- Como assim? O jantar é a luz das velas.
- Ahn?
- Não gostou? Claro né, nunca está bom para você mesmo.

Creio que as pessoas que se alimentam de luz deveriam ser treinados pelo exército. Com um exército assim, o país não precisaria racionar seus suprimentos para manter a guerra. Bastaria um carro com teto solar. À noite, os faróis também poderiam deixar os soldados bem alimentados. O problema, é que eles teriam dificuldades para superar os russos, tal qual Hitler e Napoleão.

Os iluminados tem a sorte de não precisarem levantar a noite se estiverem com fome, basta fazer uma boquinha no abajur. Eles não precisam tirar um horário para o almoço, creio que seriam muito mais eficientes no trabalho. Imagino que eles possam dominar o mundo. Desde que a máfia da comida não crie um boicote internacional.

Grazie, @gutopera

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Roteiro do Fenômeno Literário

O fenômeno literário do momento se chama "50 tons de cinza", obra de uma autora inglesa, cujo nome estou com preguiça de pesquisar no Google. Superficialmente, podemos dizer que o livro conta a história de uma jovem virgem que se rende aos excêntricos desejos sexuais de um multibilionário. Superficialmente, podemos concluir que o livro é a prova de que o dinheiro faz qualquer coisa, até com que virgens aceitem serem amarradas de quatro por um cara que ela conhece a pouco tempo, mas que pilota helicópteros.

A meia centena de tons conquistou mulheres do mundo inteiro, vendeu bilhões de exemplares, despertou o ódio dos críticos e vai parar nos cinemas. Um roteiro básico, seguido por todo autor de Best Seller. Roteiro pormenorizado aqui.

Tudo começa com uma fracassada que escreve um livro. Sim, uma encalhada, desempregada que resolve escrever um livro como escape para a sua realidade medíocre. Seja uma história de bruxinhos que lutam contra o mal ou sobre uma menina que tem orgasmos levando palmadas na bunda de um cara que pilota helicópteros.

Sem nada para fazer, a autora começa a procurar editoras que poderiam estar interessadas em publicar o livro. Pelo menos uma dúzia de editoras consideram que aquilo é uma porcaria e mandam a escritora voltar para casa. Quando ela começa a cogitar a possibilidade do suicídio, uma alma caridosa, de uma editora que não tem nada a perder, resolver publicar o seu trabalho.

O problema é que ninguém compra a obra. As pessoas passam na livraria e não tem o menor interesse por um negócio chamado "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o que faz com que o autor tenha que ganhar a vida limpando pratos em uma lanchonete da periferia.

Mas então o milagre ocorre. O livro começa a fazer sucesso misteriosamente e, como se fosse um passe de mágica, ele começa a frequentar a lista e mais vendidos da Veja, tornando-se um Best Seller. A autora vira então uma celebridade. Requisitada para entrevistas, vira um símbolo entre as mulheres, suas frases começam a pipocar no Facebook.

O Velho e o Mar, parte II
O sucesso do livro começa a chamar a atenção dos críticos, que param por um instante de ler T.S. Eliot para analisar o Best Seller. Analisar não. Detonar, esculhambar, dizer que aquilo é um produto da subliteratura destinado a pessoas acéfalas e sem a mínima capacidade de conviver em sociedade. Os críticos passam a ser atacados pelas fãs do livro no Twitter.

Depois do sucesso, vem o segundo volume. Delírio coletivo. Filas nas porta das livrarias. O que faz com que a outrora fracassada autora se transforme em uma multimilionária, capaz de dar tapas na bunda de quem ela quisesse. Invariavelmente, ela se transforma em uma espécie de ombudsman (ombudswoman?) da humanidade.

A parte final da trilogia é lançada no momento em que as pessoas já não ligam tanto assim para a história e os críticos voltam a ser aceitos pela sociedade. As pessoas leem o final apenas por curiosidade, para saber que fim levará aquele cara que luta contra o encanto das sereias. Antes que a obra pudesse ser esquecida, ela é levado para o cinema. Claro, o filme é uma porcaria que desagrada todos os públicos possíveis.

E então, em um milagre inverso, todos voltam a não ler o livro. Mas, a essa altura, a autora já não precisa mais disso, porque a sua aposentadoria está garantida.

Provável que ela nunca escreva mais nada na vida - se escrever algo, será massacrada, portanto, é melhor viver da fama para sempre. Os livros começaram a se amontoar nos sebos e, provavelmente, terão que ser incinerados um dia.