quarta-feira, 30 de julho de 2014

Se eu fosse o dono de uma academia, inevitavelmente estaria falido

Quando eu comecei a frequentar academias de ginástica no ano de 2010, a música da moda era “I Gotta a Feeling”, do Black Eyed Peas. Ela tocava todo dia enquanto eu estava me exercitando, geralmente quando eu ainda estava na esteira. Com o tempo, eu passei a perceber a ordem do CD que logo depois teria uma música da Pussycat Dolls e outra da Beyonce.

Quatro anos depois, eu já estou em outra academia e é provável que os Black Eyed Peas já nem existam mais. Mesmo assim, vez por outra é possível escutar “I Gotta a Feeling” na sua versão bruta ou em algum remix. A jukebox também pode selecionar outras músicas com uma aura retrô, como My Humps dos já citados Black Eyed Peas, Promiscuous Boy da Nelly Furtado e até mesmo algumas coisas da Corona.

O curioso é que os responsáveis pelo som ambiente das academias não são adeptos de nenhum método shuffle. Eles preferem as idiossincrasias de uma coletânea Summer Electro Hits qualquer. Na minha academia sempre tocava um CD do David Guetta, tinha outro que tocava uma música do Maroon 5 seguido por uma da Katy Perry, tinha o do DJ Thiaguinho (The only one, the best, the beast), e, acreditem tem um que toca Millencollin e Green Day.

A academia é o melhor lugar do mundo, e talvez por isso seja o pior lugar do mundo, para se conhecer as novidades da música pop. Todas essas canções com batida dançante, efeitos sonoros e mulheres cantando como se estivessem no meio de um coito. Vez por outra, chegamos a clássicos como “What Makes You Beautiful” do One Direction e Roar da Katy Perry.

E é aí que eu quero chegar. Eu dificilmente seria um dono de academia, porque na minha academia é provável que eu não colocasse música nenhuma e dissesse que quem quisesse escutar música que trouxesse os seus celulares com fones de ouvido, muitas pessoas já fazem isso, não é mesmo.

Caso o som ambiente existisse, eu colocaria músicas bem depressivas para as pessoas malharem. Coisas como Holocaust do Big Star, ou Exit Music do Radiohead. Quem reclamasse, eu diria que era um estimulo, superar o ambiente externo em busca do resultado desejado – seja lá que resultado for. Colocaria apenas as músicas que eu gosto, como sempre faço nos meus aniversários e faria no meu casamento e veria as pessoas se decepcionando em busca de algo um pouco mais animado.

Mas, pensando bem, acho que eu não faria isso. Na minha academia iria tocar versões toscas de músicas da moda. O clássico de Nissim Ourfali tocaria todos os dias.


Essa menina cantando que é do Acre também seria presença constante.


Essa versão da Britney Spears iria aterrorizar todos.


Assim como essa brilhante versão de outra música da Katy Perry.


A redentora e pioneira Stephanie teria que estar na playlist.


Ainda escolheria covers incrivelmente mal cantados de músicas merda, como esse aqui.


E no final do primeiro mês eu estaria falido.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A verdade sobre o Glúten

Até outro dia, o glúten era apenas uma mera proteína, conhecida por estar no rótulo de todos os produtos alimentícios existentes. Imaginávamos como sofriam aquelas pessoas que não poderiam comê-lo, uma vez que 95% dos alimentos encontrados no supermercado contém glúten, incluindo biscoitos, farinhas, pães, molhos, massas, detergentes e similares.

A ativista/manifestante/terrorista Sininho, foi flagrada
com uma mochila cheios de pães que contém glúten,
num claro atentado contra a saúde do nosso país.
Volta e meia a ciência elege um novo vilão da alimentação mundial. O café já ocupou este posto, o ovo já foi criminalizado, ingerir açúcar já correspondeu a tentativa de suicídio e recentemente o sal estava no topo desta cadeia alimentar maldita. No entanto, podemos perceber que o sódio está perdendo espaço para o glúten, o novo crime hediondo da dieta.

Ele seria o responsável por alergias, infecções, epidemia de obesidade e até mesmo doenças mentais. É natural que você esteja cheio de incerteza diante desse cenário. A seguir, nós postamos algumas verdades que comprovam que o Glúten é sim um grande vilão para a humanidade.

O Glúten expulsou a humanidade do paraíso
Na monótona vida do paraíso, Adão e Eva foram tentados por uma misteriosa cobra falante a comer uma maçã. Ligada nas novas tendências, Eva foi lá e aceitou a fruta, porque ela não contém glúten. A humanidade foi expulsa do paraíso, as mulheres pagam com seu sangue (que não contém glúten) e cobras nunca mais falaram.

O Glúten escolheu Barrabás.
Em um dos momentos chaves da história da humanidade, os romanos pediram que o povo escolhesse que um prisioneiro, Jesus ou Barrabás, fosse libertado. O Glúten começou a puxar o coro pela libertação do assassino. O restante da história vocês já conhecem.

O Glúten traiu Tiradentes
Estavam em uma mesa, jantando, Tiradentes e outras doze pessoas que formavam um grupo conhecido como “Os Inconfidentes”. Tiradentes se virou para eles e disse “um de vocês irá me trair”. O Glúten traiu Joaquim José da Silva Xavier, que sofria de alergia e passou a noite inteira com problemas intestinais. Enfraquecido, ele não conseguiu fugir das tropas de Antônio Parreiras. Então, Tiradentes acabou preso, enforcado, esquartejado, seus restos mortais espalhados pela cidade e seus parentes exilados na África.
A prisão de Tiradentes por Antônio Parreiras

O Glúten matou Francisco Ferdinando
O Glúten foi um elemento atuante no evento que proporcionou um conflito conhecido como 1ª Guerra Mundial. Anos depois, o Glúten também matou o som da banda Franz Ferdinand, que após dois bons discos de estreia nunca mais foram os mesmos.

A participação do Glúten no Nazismo
Documentos históricos comprovam que o Glúten esteve presente em todos os momentos do apogeu a queda do regime nazista. Hitler adorava pretzels, strudels e outros elementos ricos em glúten e talvez eles tenham contribuído para essa desgraça toda.

A participação do Glúten na ditadura militar brasileira
Os anos de chumbo no Brasil tiveram uma participação decisiva do Glúten. Tudo começou quando ele matou Getúlio Vargas e depois quando ele fez com que Jânio Quadros renunciasse – eis as forças terríveis que tramavam contra o mandato do presidente de bigode. O Glúten foi uma eminência parda infiltrada no governo de João Goulart e ele esteve nas reuniões que decidiram pelo golpe militar. Durante 24 anos, ele se manteve no poder, muitas vezes participando de sessões de tortura. Por isso, que o pão francês é conhecido no Rio Grande do Sul como "cacetinho".

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Era Dunga

Na última terça-feira, a Confederação Brasileira de Futebol confirmou que Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, é o novo velho treinador da seleção brasileira de futebol. O retorno do eterno capitão do tetra, que até outro dia ocupava o mesmo cargo, tem contornos surreais, parece até uma piada. Mas na verdade é um pesadelo.

Dunga tem o apelido de um dos setes anões, o careca mudinho, características bem diferentes do comandante da seleção. O treinador é uma espécie de Jason, aquele que volta e meia reaparece para descontar sua fúria nos inimigos. Criar inimigos imaginários travar batalhas virtuais e atormentar aqueles que um dia duvidaram dele.

Era Dunga que ficou marcado como o símbolo de uma das piores seleções brasileira de todos os tempos, aquela que apresentou um futebol pavoroso na Copa da Itália de 1990 e que foi eliminada pela Argentina nas oitavas de final. Parecia que Dunga estaria para sempre esquecido, enterrado no cruel cemitério dos perdedores do futebol. Engano.
Era Dunga utilizando suspensórios. Puta merda, heim Dunga.

Era Dunga que, aos 31 anos, levantou a taça da Copa do Mundo de 1994, aquela que encerrou o jejum de 24 anos do futebol brasileiro. Símbolo daquela equipe, duro e preciso, fez vários lançamentos para Romário sair na cara do gol. Num gesto inédito, ele ergueu a taça xingando todos aqueles um dia duvidaram do seu potencial. Poderia ter encerrado sua carreira no auge. Mas não.

Era Dunga, novamente capitão da seleção brasileira em 1998. Com 35 anos ele distribuiu empurrões em Bebeto e empurrou o time até o final, onde a seleção acabou atropelada pela França por 3x0, no último jogo em que Dunga vestiu a camisa da seleção brasileira. Mas, esta não foi a sua última participação em uma Copa.

Era Dunga que em 2006 foi inventado como técnico da seleção, mesmo sem ter dirigido time algum antes. Montou uma equipe rápida nos contra-ataques, mas sem muita variedade de jogo. Distribuiu xingamentos para jornalistas em entrevistas coletivas e quando seu time foi eliminado, virou as costas para os jogadores e, sem uma palavra de consolo se encaminhou para o vestiário.

E agora é Dunga novamente, que treinará a seleção. Após quatro anos de ausência e apenas oito meses atuando como técnico, ele está no comando novamente. Uma resposta pragmática para um momento em que o futebol brasileiro se afunda.

Porque era Dunga quando a fome se abateu sobre a África. Era Dunga quando a peste dizimou a Europa. Era Dunga quando a Branca de Neve comeu a maçã envenenada. Era Dunga quando as guerras eclodiram e os povos se mataram. Era Dunga batendo na sua porta, era dunga puxando o seu pé. Era Dunga, o pesadelo interminável.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A lição dos observadores de pássaros


A observação de pássaros é um hobbie com muitos adeptos entre os naturalistas, naturistas, hippies e maconheiros. É uma oportunidade de entrar em contato com a natureza e observar a vida animal em sua plenitude no céu e nos galhos de frondosas árvores. Quem se dedica a observar pássaros está atrás de raridades com penachos e cores excêntricas, não se contenta com sabiás e pombos.

O Brasil é um dos destinos preferidos dos observadores. Eles vem lá da Rússia, da Alemanha, da França e de outros países em que não há nada para se fazer, apenas para olhar os pássaros voando em seu habitat natural. Mato Grosso é o único estado brasileiro com três ecossistemas diferentes, o que o torna um paraíso natural para os observadores mais experientes.

Apesar de ser uma atividade que tem lá o seu charme, o observador de pássaros nos transmite um ar meio idiotizado. Ninguém entende qual é a graça de ir até um lugar distante para ficar vendo passarinhos, coisa que você faz facilmente no Google. A observação de pássaros seria um reflexo dessa sociedade que vive dentro de jaulas de concreto com hábitos que nos transformam em hipertensos e homossexuais¹.

Para escapar desse pré-julgamento, os observadores de pássaros passaram a dizer que praticam birdwatching, uma sacada de gênio. O birdwatching nada mais é do que uma simples tradução para o inglês do objetivo da atividade. Só que com muito mais glamour, com muito mais importância. Se o observador de pássaros é um idiota, o praticante do birdwatching tem um charme enorme.
Olha lá amor, uma rara espécie de B

Começo pelo fato de que é algo que você pode praticar. Você não pratica a observação, mas pratica o birdwatching e no momento em que você se declara um praticante, o sol brilha de maneira especial sobre você. As pessoas já te imaginam com uma roupa diferente, equipamentos de segurança sofisticados e viagens até lugares paradisíacos. Sua vida ganha um clima de comercial de carro offroad.

O birdwatching se afasta do campo da pasmaceira e se aproxima de uma atividade radical como paragliding ou crowdsurfing. A adrenalina corre nas veias.

Os observadores de pássaros, aliás, deixam um legado e mostram um caminho para uma série de outras atividades. Basta colocar o nome do ato em inglês que ele ganha importância e passa a ser aceito pela sociedade.

Por outro lado, a observação de pessoas
fantasiadas escrotamente de pássaros,
jamais vai ter qualquer glamour
Na última semana, enquanto era anunciado como coordenador de alguma coisa da CBF, Alexandre Gallo mostrou como o inglês dá importância as coisas. Em sua coletiva, ele falou em “gap” pelo menos 18 vezes. Ninguém entendeu nenhuma delas, mas olhou com respeito e admirou sua sabedoria.

Cito o caso dos besuntadores. Se alguém fala em público que pratica a besuntação, que gosta de passar substâncias pastosas no próprio corpo com fins recreativos, logo será olhado como um louco, um demente que necessita de tratamentos psiquiátricos, de uma interdição de uma lobotomia. Agora, e se a prática ganhasse um nome em inglês? Se ao invés de falar que você se besunta, você falasse que pratica o bodygreasing?

Bodygreasing. Veja a sonoridade. “Eu pratico o bodygreasing”. Na mesma hora as pessoas irão olhar para você com respeito. Aquela luz irá se acender sobre a sua cabeça e todos irão imaginar que você utiliza uma roupa especial e tecnológica, que utiliza equipamentos de segurança sofisticados, que é um profissional no assunto, que enche a mala do seu offroad com equipamentos bonitos e diferentes e vai até um lugar paradisíaco e de difícil acesso para praticar o seu hobbie. Você é um cara legal.

Outras atitudes tolas, diria estúpidas, da nossa sociedade poderiam ganhar outra dimensão se tivessem um nome em inglês. Pessoas que conversam com vozes na cabeça poderiam dizer que praticam o headvoicing, aquele bom e velho cuecão da sétima série se transforma em underwearnecking e por aí vai.

¹Estudei em um colégio salesiano minha vida inteira e por lá haviam missas todos os meses. Uma vez, um padre mais conservador fez um discurso citando pesquisas com macacos que viveram em celas de concreto e que após alguns meses eles haviam virado hipertensos e homossexuais. Concluiu então que os homens que vivem em apartamentos também ficariam hipertensos e homossexuais.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Internet conspiratória

Ferramenta recente na história da humanidade, mas já suficientemente embrenhada na vida da sociedade atual, a internet tem se mostrado um ambiento próspero para a circulação de todo e qualquer tipo de boato. O Whatsapp tem sido a mola propulsora da boataria e, por ele, nós já estaríamos em um estado de sítio cheio de haitianos contaminados por Ébola nas ruas.

A internet tem se mostrado o meio ideal para a divulgação de teorias conspiratórias. As duas partes formam um casal perfeito, diria que quem inventou a rede mundial de computadores fez isso apenas para poder divulgar que forças ocultas e terríveis agem por trás de alguma coisa. Teria sido Jânio Quadros o inventor da internet?

A Copa do Mundo é sempre uma oportunidade para criar uma boa teoria conspiratória. Me lembro de uma célebre, que circulava lá por 2004. Segundo ela, o Brasil teria vendido a Copa do Mundo de 1998 para a França, e em troca ganhou a copa de 2002. A Alemanha teria aceitado ser vice em 2002, apenas para ganhar a Copa de 2006, em casa. Aí a Itália apareceu e acabou com a teoria.

Nessa última Copa não foi diferente. Quando o árbitro Yuichi Nishimura assinalou um pênalti completamente inexistente para o Brasil pipocaram afirmações fidedignas que nós havíamos comprado a Copa e insinuações sobre o futuro. Agora, quando fomos esculachados pelos alemães, surgiram outros boatos de que o Brasil teria na verdade vendido a Copa. Não importa o resultado, o que importa é a teoria.

Se Deus, ao invés de descansado, tivesse criado a internet no sétimo dia, ou se uma rede mundial de computadores tivesse se criado a partir do Big Bang, provavelmente a humanidade não teria chegado até hoje. Todos já teriam se matado em guerra ou os diplomatas e assessores de imprensa seriam os profissionais mais bem remunerados. Veja bem, se antigamente os povos guerreavam por ínfimas faixas de terra ou porque alguém pisou no calo de um rei, o que teria acontecido com notícias falsas compartilhadas incessantemente pelo Whatsapp? A bomba atômica seria uma necessidade.

Imagina o inferno que seria se o Facebook na época em que o homem pisou na lua? As pessoas compartilhando fotos que mostram que o Stanley Kubric estava refletido na viseira do Neil Armstrong na hora em que ele desceu na lua. A guerra fria teria sido muito pior com o Facebook.

A Revolução Francesa não teria ido para frente porque as pessoas acusariam Robespierre de uma série de coisas e ele acabaria guilhotinado. Bem, isso de fato aconteceu.

A própria bíblia teria uma história diferente, uma vez que o boato de que os romanos insuflaram a multidão a pedir por Barrabas se espalharia e o assessor de imprensa do Império teria o maior trabalho. Imagina os boatos que surgiriam com essa história de que o cara morreu e voltou três anos depois? Quantas teorias conspiratórias não seriam possíveis? Daria até para escrever um livro.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Loroza

Sérgio Loroza, vocês devem conhecer, é um comediante. Também, pudera, ele reúne em si próprio tantos clichês de preconceito que é praticamente impossível não rir diante de sua figura. Sua simples aparição já é motivo de riso. No entanto, ele não é apenas um rostinho engraçado. Sua página na Wikipédia (fonte universal de conhecimento) indica que ele é ator, cantor e compositor. Sempre admiro essas pessoas com múltiplas funções, tipo o Vinícius Gressana que é cartunista, bancário, publicitário e compositor de funks.

Seu personagem mais famoso na televisão é o Figueirinha da série “A Diarista”. Mas ele já interpretou gordos (??) em filmes, barmans, e personagens com nomes como Marconha, Pouca Sombra, Jacaré, Pancadão, Vassoura, Pai André... é impossível que ele tenha um personagem chamado simplesmente Carlos. Já lançou três discos que misturam samba, funk, soul e o que mais lhe vier a cabeça.

Enfim, fiz essa longa introdução para dizer que sim, Loroza tem uma carreira. Mas é mais provável que você o conheça pelas participações especiais em programas da Rede Globo.

Todo mundo deve se lembrar de uma participação épica dele na Dança dos Famosos, em que ele rompeu as barreiras do preconceito e dançou melhor do que muita gente. Provável que Loroza já tenha participado de todos aqueles quadros nonsense que o Faustão inventa só para juntar famoso sem um objetivo claro.

Mas ele não para por aí. Loroza já participou do quadro Super Chef da Ana Maria Braga, em que famosos tinham que cozinhar. Tirou foto até com o Louro José.

Loroza também já participou do Encontro com Fátima Bernardes, mais vezes do que a própria Fátima, se bobear.

Ele já esteve no Caldeirão do Huck, Video Show, Fantástico, Jô Soares, Esquenta e até programas que nós nem nos lembramos mais que existe.

Na última copa ele participou até da Central da Copa com o Tiago Leifert. Já participou do Corujão do Esporte e não me espantarei com o dia em que ele narrar um jogo.

Em todas as suas participações ele faz a mesma coisa de sempre: canta, dança, conta piada, corneta o Felipão e contagia a todos com o seu bom astral.

Fenômeno.

Gracias @DadoDoria

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dia de aniversário


O dia em que uma pessoa faz um aniversário é uma data especial e querida no imaginário popular. De fato, eis uma data que deve ser comemorada. Sobreviver nesse mundo cruel e mesquinho não é nada fácil e cada ano completado deve ser considerado uma vitória de 7x1 sobre a vida. Completar um ano é como roubar a bola do Fernandinho, tabelar no meio das adversidades e completar para o gol vazio.

Os aniversários acabam por unir pessoas que não se falavam há tempos. Adversários mortais e que não se toleram são capazes de se abraçar e desejar os mais profundos votos de felicidade. Perceba que algumas das mensagens mais entusiasmadas que você receberá no Facebook, virão de pessoas que você não encontra deste a Festa Junina da terceira série. O dia do aniversário acaba por ser um dia em que você poderia fazer tudo.

Existem muitas pessoas que acreditam que você tem o direito de não ir trabalhar no dia do seu aniversário. Por mais que nossas legislações trabalhistas protejam o trabalhador, não há nada que garanta uma folga no seu aniversário. Mas essa crença é muito forte no funcionalismo público, podem crer.

Qualquer coisa que aconteça com você nesse dia ganhara um contorno dramático a mais pelo fator aniversariante. Se você quebrar um pé no dia em que sopra as velinhas, todos irão dizer “puxa, justo no dia do aniversário!”. Porque ser atropelado por mamutes pervertidos logo após cair do décimo terceiro andar de um prédio é ruim. Ser atropelado pelos mamutes no dia do seu aniversário é ainda pior. Por outro lado, ganhar na loteria nessa data querida será uma façanha enorme.

Provável que na graça ou na desgraça você vire uma matéria no G1. Se o marujo que se afogou dois dias antes de fazer 31 anos já vira manchete, imagina quem morre ou marca um gol na final da Copa no dia do aniversário. O cara é um fenômeno do azar ou da sorte.

De certa forma, parece que todo mundo lhe deve um favor no seu aniversário. Colegas de trabalho dirão que vão fazer um serviço para você, não se incomoda, é o seu aniversário. Se você for parado numa blitz e for pego sem o documento, no dia do seu aniversário, com certeza você alegará com o guarda que é o seu aniversário, que poxa vida, quebra essa pra mim, e se ele tiver um coração no peito ele vai deixar passar. Capaz que deixe passar se você estiver sem documentos, alcoolizado, em um carro roubado cheio de cocaína e animais silvestres ameaçados de extinção.

Afinal, não dá pra prender ninguém no dia em que ele faz aniversário. Você nunca viu uma matéria sobre isso no Jornal Nacional.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Balanço da Copa 2014


Apresentamos abaixo o balanço do que de melhor e de pior aconteceu na Copa das Copas do Brasil. Em homenagem a seleção brasileira, abandonamos o tradicional Top 5 e partimos para um Top 7.

Os 7 melhores jogadores
7 Bastian Schweinsteiger: O meia alemão já chamou a atenção quando pisou no Brasil e cantou o hino do Bahia. Dançou com os índios, se recuperou de uma lesão e jogou muita bola. Símbolo da equipe campeã do mundo.
6 Keylor Navas: O bom goleiro costarriquenho enfrentou o Grupo da Morte e foi eliminado da Copa sofrendo apenas dois gols, um deles de pênalti. Destaque da grande surpresa da competição.
5 Lionel Messi: Messi não foi o jogador brilhante que já foi e talvez nunca mais seja. Mas, veja os gols da argentina e tente achar um em que ele não esteve presente. Sem Messi, talvez os argentinos tivessem caído na primeira fase.
4 Manuel Neuer: O goleiro alemão é um cara que nós podemos dizer que sempre esteve lá. Cortando bolas como se fosse um líbero no jogo contra a Argélia, fazendo um milagre no último minuto e demonstrando segurança o tempo inteiro.
3 James Rodríguez: O colombiano de 22 anos chamou a responsabilidade e distribuiu gols pelos campos brasileiros. Foram seis gols em cinco jogos, sendo que pelo menos dois deles foram antológicos.
2 Arjen Robben: Com 30 anos e aparentando 72, o holandês voou pelo Brasil. Infernizou defesas adversárias durante todos os minutos em que esteve no gramado e foi decisivo na maioria das partidas.
1 Thomas Müller: O atacante alemão foi o artilheiro da sua equipe na Copa, com cinco gols. Mais do que isso, marcou gols fundamentais para a vitória das suas equipes e ainda distribuiu três assistências. Destaque do time campeão.


Os 7 piores jogadores
7 Daniel Alves: O lateral-direito brasileiro foi uma verdadeira avenida. Batido por todo e qualquer oponente que quisesse passar por ele.
6 Jordi Alba: O espanhol fez uma Copa do Mundo nula e se irritou muito. Também, os espanhóis foram massacrados nas suas costas.
5 Alex Song: Um dos principais nomes camaroneses na Copa foi expulso no primeiro tempo do segundo jogo dando uma cotovelada nas costas do adversário. Uma agressão plasticamente difícil.
4 Antonio Cassano: Experiente atacante italiano entrou em duas partidas quando sua equipe precisava de mais movimentação ofensiva. Errou tudo o que tentou.
3 Geoff Cameron: O zagueiro norte-americano é o que podemos chamar de calamidade pública. A bola perto dele era certeza de jogada perigosa para o adversário.
2 Fred: Onde está o Fred? O centroavante brasileiro conseguiu fazer uma copa extremamente nula, perdido entre zagueiros e sem participar de nada.
1 Igor Akinfeev: O goleiro russo foi o pior jogador desse mundial por uma razão: contribuiu diretamente para a sua equipe não vencer duas partidas. Levou o único frango desse mundial na partida de estreia e na última rodada acabou saindo mal do gol, dando a classificação de presente para os adversários argelinos.

Os 7 melhores jogos
7 Estados Unidos 2x2 Portugal: As equipes fizeram um duelo franco em Manaus. Os portugueses partiram para o abate logo no começo, mas os americanos se recuperaram e viraram a partida. Perderam chances de matar o jogo e na última bola os lusos igualaram o marcador.
6 Alemanha 2x2 Gana: Após um primeiro tempo sonolento, as duas equipes voltaram enlouquecidas para o segundo tempo e a bola não parou por mais nenhum minuto. O final foi eletrizante com as duas equipes prestes a marcarem um gol.
5 Inglaterra 1x2 Itália: Gigantes que se enfrentaram logo na primeira rodada e brigaram até o último minuto pela vitória. Sterling desmontava a defesa italiana e Pirlo desfilava talento na selva amazônica.
4 Espanha 1x5 Holanda: Logo no segundo dia da competição pudemos presenciar esse massacre na televisão aberta. Mas o jogo não foi apenas essa humilhação espanhola. O primeiro tempo foi incrivelmente disputado, até o momento em que o kisuco espanhol ferveu.
3 Uruguai 2x1 Inglaterra: Jogo de vida ou morte. Em determinados momentos a técnica e a tática ficaram de lado e os jogadores jogavam por instinto. Sorte dos uruguaios, que não conseguem perder para ninguém quando o quesito é sangue, suor e lágrimas.
2 Alemanha 2x1 Argélia: Os argelinos surpreenderam o mundo e bateram duramente na Alemanha nos primeiros 30 minutos. Os papeis se inverteram e o goleiro argelino teve que fazer milagres. A prorrogação foi épica.
1 Bélgica 2x1 Estados Unidos: O primeiro tempo foi bom, com os belgas levemente superiores. O segundo tempo foi um massacre europeu, que obrigou o goleiro norte-americano a praticar incríveis 16 defesas, um recorde mundial. O jogo foi para a prorrogação, os belgas fizeram 2x0 e quando parecia que tudo tinha terminado, os americanos encarnaram Rocky Balboa e passaram a perseguir o gol cegamente. Diminuíram o placar e sabe-se lá como esse jogo terminou apenas 2x1.

Os 7 piores jogos
7 Holanda 2x0 Chile: Os holandeses não queriam levar um gol e montaram diques na frente do seu gol. Fizeram dois no final da partida.
6 Costa Rica 1x1 Grécia: Um jogo de oitavas de final com um nível simplesmente terrível, que fez a bola brazuca chorar.
5 Nigéria 1x0 Bósnia e Herzegovina: Os nigerianos fizeram um gol e nada mais. Os bósnios tiveram um gol mal anulado, mandaram uma bola na trave, mas com que displicência.
4 Coreia do Sul 0x1 Bélgica: Os belgas fizeram um gol. Eis o resumo da partida.
3 Costa Rica 0x0 Inglaterra: Ninguém fez nenhum gol. Eis o resumo da partida.
2 Bélgica 1x0 Rússia: Belgas e russos ficaram trocando bolas lentamente durante 85 minutos, esperando o mundo terminar em um barranco. Nos cinco minutos finais o astro belga Hazard começou a correr loucamente e fez um gol. Mas, foi duro de ver.
1 Irã 0x0 Nigéria: A partida foi até mais movimentada que outras. Mas foi um 0x0 entre duas equipes que fizeram com que as Nações Unidas precisassem intervir contra os mal tratos praticados a bola.

As 7 surpresas
7 Suíça: Para quem esperava que os suíços jogassem na sua retranca de sempre, eles protagonizaram um festival de gols (prós e contras) em sua participação.
6 Enner Valencia: O centroavante equatoriano foi o autor de todos os três gols de sua equipe nessa Copa. Impressionante.
5 Defesa Argentina: Apontada como uma peneira irrerversível, a defesa argentina se mostrou solida como o obelisco de Buenos Aires. Passou o mata-mata inteiro sem ser vazada.
4 Colômbia: Desfalcados do seu principal jogador, os colombianos fizeram sua melhor campanha da história em solo brasileiro.
3 Georgios Samaras: Típico jogador perna de pau, o grego Samaras marcou um gol e foi um lutador do limitado time grego que avançou até as oitavas de final. Jogaria com a 9 do Brasil, facilmente.
2 Argélia: Pior equipe da última Copa, a Argélia foi um dos times mais disciplinados taticamente desta copa. Marcavam com força e saiam com uma felicidade. Todo mundo sabia o que precisava fazer em campo.
1 Costa Rica: Depois do sorteio da Copa, todos nós olhamos para a Costa Rica com piedade. Coitados, estavam no GRUPO DA MORTE e seriam espancados em público. Pois os costarriquenhos mostraram que eles próprios eram a morte e derrubaram as equipes mais fortes. Deixaram a competição sem perder um único jogo, eliminados nos pênaltis pelos holandeses.

Os 7 lances inesquecíveis
7 Mondragon em campo: O goleiro colombiano Mondragon entrou em campo no final da partida contra o Japão em Cuiabá e se transformou no jogador mais velho da história dos mundiais. O estádio inteiro aplaudiu de pé.
6 As 16 defesas de Tim Howard: O norte-americano bateu o recorde de defesas na história da competição e ganhou status de herói. Após cada uma das defesas a imagem mostrava ele xingando muito. Ele sofre de Tourette’s.
5 A morte de Neymar: Após uma dividida com o colombiano Zúñiga, Neymar caiu no gramado e todos acharam que ele fazia cera. Ele precisou sair do campo e depois descobriu-se que ele fraturou uma vértebra. O clima foi de comoção nacional e parecia que a qualquer momento começaria o seu velório.
4 O avião do dinheiro ganês: Um dia antes da última partida do Grupo G, o mundo foi surpreendido novamente com a notícia de que os ganeses ameaçavam não entrar em campo caso a Federação local não pagasse premiações atrasadas. Eis que um avião com um milhão de dólares aterrissou em Brasília e as imagens mostram os jogadores beijando o dinheiro. A Receita Federal não fez nada.
3 Alvaro Pereira: O Uruguai vencia a Inglaterra por 1x0 e o jogo se aproximava do fim quando Alvaro Pereira dividiu uma bola com Sterling e desmaiou no campo. O replay mostrou que ele levou uma joelhada na cabeça e apagou. Os médicos pediram sua substituição e o sinal fez com que ele reacordasse para a vida e começasse a gritar que não ia sair de campo. Voltou e na primeira bola deu um carrinho espetacular. Monstro.
2 O peixinho voador  de Van Persie: Segundo dia da Copa, Espanha derrotando a Holanda por 1x0. Blind lança uma bola vadia em direção a área. Van Persie parecia que não iria alcançá-la quando se lançou ao ar, praticou um peixinho voador e encobriu Casillas. Impressionante.
1 A mordida de Suárez: Um jogador mordeu o outro dentro de campo e ainda foi a terceira vez que ele fez isso. A cena insólita marcou a Copa do Mundo, ainda mais por conta da punição desproporcional que ele recebeu. Foi quase deportado do Brasil.

Os 7 nomes
7 OEA: Não é um nome. Mas a vinheta da Copa grudou na cabeça de todos.
6 David Luiz: Zagueiro cabeludo e não muito badalado, rapidamente ele se transformou no namoradinho do Brasil. Deve ter recebido propostas de casamento, para ser deputado, mas sabemos que ele decidiu esperar.
5 Nederland: Bravo Guerreiro holandês que parecia se multiplicar em campo.
4 Mick Jagger: Por duas copas seguidas o mito Mick Jagger conseguiu virar hit na Copa, graças ao seu pé-frio interminável. Ou talvez, pelo fato de ele não entender nada de futebol.
3 O Sósia do Felipão: Mario Sérgio Conti entrevistou um sósia do Felipão como se fosse o próprio. E o pior, é que parece que o sósia entendia mais de tática.
2 Dona Lúcia: Simpática senhora que escreveu uma carta de amor para Luiz Felipe Scolari e toda sua equipe, com muito orgulho pela derrota por 7x1.
1 Lukas Podolski: Show de simpatia.

A seleção da Copa
Manuel Neuer; Philipp Lahm, Mats Hummels, Ezequiel Garay e Daley Blind; Javier Mascherano, Bastian Schweinsteiger e James Rodríguez; Arjen Robben, Lionel Messi e Thomas Müller. Técnico: Jorge Luis Pinto, Costa Rica.

E os piores:
Igor Akinfeev; Pepe, Geoff Cameron e Emir Spahic; Daniel Alves, Xabi Alonso, Wilson Palácios, Antonio Valência e Jordi Alba; Higuaín e Fred. Técnicos: Luiz Felipe Scolari e Fábio Capello.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dona Lúcia Eterna

O Brasil já estava suficientemente humilhado com a derrota sofrida no dia anterior, os inapeláveis 7x1 aplicados pela Alemanha na semifinal da Copa. O sentimento era de que o futebol brasileiro havia acabado, que o Brasil havia fracassado como nação e não era para menos. Crianças choravam, jogadores choravam e o Galvão Bueno deve ter dormido àquela noite em posição fetal. Não havia como piorar a situação. Engano.

No Day After, a comissão técnica de seleção brasileira, formada por Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira, o popular Murtosa e mais algumas pessoas que nós não sabemos exatamente quem são, concederam uma entrevista coletiva na Granja Comary em Teresópolis. Foi provavelmente a primeira vez em que um técnico brasileiro participou de uma coletiva após uma eliminação, para mostrar o tamanho do drama.

A expectativa geral era de que os sete cidadãos iriam, no mínimo, pedir demissão. Quem sabe, todos iriam chorar arrependidos pelos seus erros, pediria clemência de joelhos, o Felipão ia confessar que não sabia nada de tática, o Parreira admitiria que é um fracassado. Talvez, todos eles fossem pegar espadas e enfiar em suas barrigas, num harakiri coletivo.

Muito pelo contrário, a entrevista foi feita para se defender de todas as acusações e mostrar que a preparação foi perfeita. Felipão levou algumas planilhas feitas no Excel para mostrar a quantidade de horas de treinos regenerativos, musculação, hidromassagem que os jogadores haviam feito. Mostrou que Bernard havia sido escalado em outras ocasiões e que motivo para a derrota não era outro que não o azar.

“Uma pane de seis minutos”, algo que pode derrubar um avião, mas que para Felipão e Parreira era normal. Eles estavam certos o tempo inteiro e ainda continuam certos. Se não fossem aqueles seis minutos, de certo o Brasil teria perdido por apenas 3x1 e hoje em dia ninguém estaria fazendo esse drama todo. Inclusive, a desculpa da pane dos seis minutos está liberada para qualquer um que fizer merda no trabalho.

Aí sim, fomos surpreendidos novamente. Já no final da coletiva, Carlos Alberto Parreira adicionou mais uma brilhante passagem para a sua carreira. Ele levava a tiracolo um simpático e-mail enviado a CBF pela Dona Lúcia, uma brasileira anônima, com muito orgulho e muito amor pelo trabalho desenvolvido pela seleção brasileira. A história do e-mail não ficou muito clara até agora, mas isso não importa.

Dona Lúcia saudou a coragem e integridade do Felipão na coletiva pós-jogo. Ela ficou triste com os jornalistas questionando o resultado, triste com a crueldade sem limites do ser humano. Agradeceu a grande felicidade que o Felipão proporcionou a ela e a toda a nação e que tem certeza que Scolari continuará o seu brilhante trabalho. “Lembre-se que o sonho poder durar uma noite, mas alegria vem ao amanhecer”, concluiu misteriosa.

Podemos pensar que a Dona Lúcia é uma espécie de sadomasoquista. Que enquanto Thomas Müller, Toni Kroos e outros bombardeavam o gol brasileiro, Lúcia sentia uma grande felicidade. Que logo que o jogo acabou, ela praticou um autoenforcamento erótico, vestiu suas roupas pretas e chicoteou seu parceiro. Dona Lúcia deve visitar sites pesados do submundo da internet.

Mas a verdade é que provavelmente a simpática Dona Lúcia é uma senhora extremamente otimista com a vida. Que enquanto os jogadores brasileiros ficavam parados em campo, catatônicos sem saber o que fazer diante da movimentação alemã, ela dizia “esses meninos estão fazendo tudo o que é possível”. E creio que ela encara a vida dessa forma. “Esse Felipão é um guerreiro, aguentando isso sem chorar”.

Posso imaginar como os filhos da Dona Lúcia tiveram sorte com uma mãe sempre disposta a entender que eles fizeram o melhor que puderam, mas que uma pane de seis segundos fez com que eles zerassem na prova de matemática. Dona Lúcia é aquela pessoa que faltou em todos os momentos históricos, em todas as tragédias. Que sorte não teríamos se Dona Lúcia estivesse lá, em qualquer lugar, com sua fé.

O pior é que Dona Lúcia não está só no apoio a Felipão. No Twitter, a #FicaFelipão foi inundada por pessoas solidárias ao trabalho do técnico Luiz Felipe Scolari. Donas Lúcias com @, que consideram que tudo foi um acidente e que a atual comissão técnica, se bobear, deveria ser canonizada.

Mas ninguém, ninguém escreveu uma cartinha tão singela como a Dona Lúcia. Um símbolo nacional, #eterna.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A narrativa do drama

Brasil e Alemanha se enfrentaram ontem pela semifinal da Copa do Mundo e não é preciso criar nenhum drama ou expectativa nesse texto. Todos nós sabemos que o Brasil sofreu uma surra inapelável, algo que não víamos desde aquela luta do Apollo Creed contra o Ivan Drago. Tal qual o Apollo, a seleção brasileira entrou faceira e cheia de homenagens, mas saiu de campo desfalecida.

Assisti ao cortejo (aqui é um bom caso em que podemos escrever cotejo ou cortejo sem medo de errar) na casa de Diversão Noturna Carnicentas, ao lado de Pai Jorginho de Ogum, Marcão, Cão Leproso e Vinícius Gressana. Senti um mau presságio quando perguntei ao Cão Leproso se ele estava confiante na vitória e ele respondeu que sim, “a taça já está nas nossas mãos”.

Rejeitei todo e qualquer petisco que me foi oferecido pelas velhas questão sanitárias. Vinícius, por exemplo, não teve as mesmas precauções e teve que ir para o banheiro na hora em que David Luiz levantou a camisa do Neymar. Entre idas e vindas, acredito que ele não presenciou nenhum gol alemão na partida.

Marcão, aliás, estava visivelmente emocionado. Seus olhos brilharam quando a equipe entrou em campo com o boné de apoio ao Neymar, lacrimejou no hino nacional e durante o jogo, bem, durante o jogo ele protagonizou um espetáculo deprimente. Chorou, só de cueca, agarrado ao pé da mesa e pedindo para que alguém atirasse na sua cabeça. A noite deve ter sido longa.

Antes da partida, aliás, nós tivemos uma pequena discussão. Jorginho de Ogum e Marcão pretendiam assistir o jogo na Bandeirantes, porque adoram os comentários do Craque Neto. Após um longo argumento, acabamos chegando ao consenso de assistir na Globo, com o Galvão Bueno. Jorginho afirma que os outros canais são muito pessimistas.

Uma tragédia só é realmente uma tragédia se ela ganha a narração de Galvão Bueno. Maremotos, terremotos e incêndios seriam muito mais icônicos se o velho locutor estivesse lá imprimindo toda a sua dramaticidade. Tirando os aspectos vexatórios do estupro público e coletivo que o Brasil sofreu no gramado do Mineirão, uma derrota do Brasil narrada por Galvão Bueno é muito divertida.
fifa.com

Observe o desespero latente em sua voz cada vez que a bola ronda a área brasileira. Cada bola alçada na área brasileira (olha o cruzameeeentoooo) parece o momento imediatamente anterior a queda da bastilha. Os sete minutos nos quais a Alemanha trucidou o Brasil com quatro gols, devem entrar para a história das artes mundiais. Galvão narrava “olha eles chegando de novo!” como se fosse um inocente soldado presenciando os ataques japoneses a Pearl Habour.

Não cabe nenhuma análise tática sobre a partida, porque massacres não são explicados. Alguém parou para analisar a movimentação dos atiradores de Columbine? Não. Ok, o Brasil concedeu tanto espaço no meio de campo, que o MST poderia propor uma reforma agrária entre o Fernandinho e o Paulinho. Mas, um desastre só acontece por múltiplos fatores, difíceis de serem explicados.

Uma derrota sem explicações, mas que nem por isso deve ser relativizada. Se fossemos um país sério, todos os responsáveis pela campanha renunciariam aos seus cargos e o presidente da CBF deveria enfiar uma faca no abdômen e sangrar até a morte. Perderíamos os próximos meses discutindo o futuro do esporte nacional.

Mas nada disso irá acontecer. Depois de queimar bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas na rua, a torcida brasileira logo vai se lembrar que é a única pentacampeã e o discurso de Luiz Felipe Scolari de que uma pane atingiu a equipe vai ganhar força. Psicólogos ganharão destaque na próxima comissão técnica e nosso time continuará entrando em campo sem jogadores capazes de organizar um jogo e tendo no banco um Jô, ou um Grafite da vez para solucionar os problemas. Continuaremos apostando em jogadores com alegria nas pernas.

E dessa vez nem teremos um Fernando Vanucci loucaço para fazer o discurso final sobre a eliminação brasileira.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Márcio Canuto a mil por hora


Márcio Canuto é daquelas figuras onipressentes nos momentos em que a balburdia impera. Desde que eu era criança ele marca presença na televisão, cobrindo toda e qualquer aglomeração que aconteça no território nacional. Se há uma loucura de compras na 25 de março, feira de São Cristovão, fila de show da Madonna, pessoas reunidas para assistir a seleção brasileira, lá estará o Canuto.

Seu estilo de atuação é diferente de qualquer outro jornalista do mundo. Ele não esconde o sotaque nordestino, ao contrário da maior parte dos repórteres que gastam horas de fonoaudiologia para desaparecer com seus acentos agudos. No vídeo, Canuto também não se mantém afastado dos acontecimentos. Em muitos casos, ele é o acontecimento. Porque Márcio Canuto é um alucinado.

Durante suas aparições ele já foi mordido, levou tombo, deu um tapa na cara do entrevistado e sempre com AQUELE SEU ESTILO CAPS LOCK DE VIVER. A animação, ou mais do que isso, o entusiasmo, a loucura com a qual ele consegue encarar os mais simples fatos do cotidiano.

Canuto não é daquelas pessoas que acordam e dão bom dia para o sol. Ele dá um BOM DIA SOL ISSO AQUI TÁ UMA LOUCURA! Antes de sair pela casa acordando todo mundo. Não duvido que ele deva ter britadeiras, betoneiras e uma orquestra de panelas na sua cozinha. A convenção de Genebra proibiu que ele utilize megafones ou vuvuzelas.

Márcio deve enfrentar dificuldades em locais que exigem silêncio, como hospitais e templos budistas. Diz a lenda que até os surdos conseguem escutá-lo e que a voz de Márcio Canuto se PROPAGA NO VÁCUO. Sua vida é mais acelerada do que Indiana Jones 2.

Como a aposentadoria de Galvão Bueno está próximo, sugiro que Canuto passe a ser o principal narrador da Globo. Imaginamos como será épico vê-lo narrar uma disputa de pênaltis, ainda mais se permitirem que ele fique na beira do gramado para DAR UNS TAPAS NA CARA DOS JOGADORES. O mundo nunca mais seria o mesmo.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O drama da verdadeira massagista

Quando eu era adolescente e lia o jornal, sempre achava graça quando passava pelos classificados, na seção que anunciava as “acompanhantes”. Como é que alguém ganhava a vida acompanhando outras pessoas? Bem, na verdade, não havia muitas dúvidas. A seção de acompanhantes vinha ilustrada com fotos de mulheres seminuas, deixando claro a intenção disso tudo.

Bem, fazia muito tempo que eu não lia os Classificados e, então, perdi o momento histórico em que o termo “acompanhantes” foi descontinuado. Agora, são anunciadas as massagistas.

Você pode pensar que isso é fruto de uma mente suja, que as pobres meninas querem apenas fazer massagens, que não há nada de errado nisso, que é uma profissão contra outra qualquer. Pois bem.

Um dos anúncios fala sobre “três massagistas lindas”. Outro fala em “quatro lindas massagistas com local discreto e climatizado”. Qual é a importância de falar que a massagista é linda? O que importa é se ela tem mãos competentes para a massagem. Ainda existe uma curiosa massagem 100% e uma massagista Classe A. Há também uma massagista mestiça, para satisfazer todos os fetiches.

A minha dúvida é: porque não é feito um jogo limpo e as meninas não falam logo qual é a sua verdadeira intenção, sem esse eufemismo da massagem. Que hipocrisia é essa Brasil?

Penso então, no drama da verdadeira massagista. Aquela que se preparou durante anos em técnicas chinesas, tailandesas e o escambau. Conhece todos os pontos de acúmulo de tensão do corpo humano e tem mãos mágicas e revigorantes. Penso que ela pode anunciar no jornal que ela faz massagens e que quando recebe os clientes eles vão logo tirando a roupa e reclamam que ela está gorda.

Quando a verdadeira massagista anuncia sua profissão para outras pessoas, todos já querem passar mão na bunda dela e que, se já não é fácil ser mulher nesse mundo de tarados, a verdadeira massagista deve sofrer ainda mais.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Em Família Brasileira

Poucas pessoas se lembram, mas o primeiro beijo gay da televisão brasileira foi dado por Sílvio Santos e Gilberto Gil durante a apresentação do Teleton – o Criança Esperança do SBT. Durante uma maratona televisava para arrecadar fundos para pessoas com problemas físicos, artistas entravam e saiam, pessoas sem braços davam depoimentos e então o Gilberto Gil chegou lá e beijou o Sílvio Santos.

A repercussão do caso foi bem humorada, com notinhas nos jornais e tudo mais. Não foi nenhuma grande polêmica, até porque ninguém assistia o SBT nessa época. Ninguém acusou o Sílvio Santos de tentar destruir a família brasileira e ele continua aí até hoje. Por mais que, vai saber se aquela história do banco dele falindo não foi uma maldição divina.

Mesmo com esse fato precursor do Sílvio e do Gilberto, uma polêmica é criada toda vez que uma novela conta com um casal gay em seu elenco. E olha que atualmente todas as novelas tem um casal homossexual. Será que eles vão se beijar? Será que a sociedade brasileira está preparada para presenciar a cena de dois homens encostando os lábios em pleno horário nobre da Globo?

A polêmica nem deveria existir, porque, teoricamente, as novelas são simulações da realidade. E, na vida real, casais, gays ou não, se beijam. Também fazem muitas outras coisas, mas existem algumas restrições que não permitem que um coito seja exibido na hora do jantar. Quem é contra a exibição da cena homoafetiva, alega que um beijo entre dois homens é uma perversão equivalente a uma cena explícita de sexo anal entre um homem e um cavalo. A Família Brasileira não aceitaria isso.

A atual novela das 21h, ironicamente, se chama “Em Família”. Está sendo vendida como a última novela de Manoel Carlos e tenta nos convencer que a Bruna Marquezine pode se transformar na Julia Lemmertz. Também tem sido um fracasso de audiência e está sendo encerrada muito antes do previsto.

A trama da novela é um tanto quanto sórdida. Há um triângulo amoroso envolvendo uma mulher provocadora, seu namorado possessivo e o amigo que tenta sair da Friendzone. Há uma tentativa de homicídio e ocultação de cadáver mal sucedida, que resulta em um noivo sendo preso no altar. O amigo que quase foi enterrado vivo é salvo por um cachorro e se casa com a mulher provocadora, mostrando que o cara tinha lá sim suas razões para ter ciúme. Eles têm filhos e vão viver felizes para sempre, enquanto que o assassino vai para o exílio.

Eis que o assassino volta anos depois e acaba tendo um relacionamento com a filha da ex-namorada. Sim. A garota tem um relacionamento com o cara que quase casou com sua mãe. Com o cara que tentou matar o seu pai e deixou uma cicatriz no rosto dele. Poderia ser uma daquelas armações de programa vespertino, mas na verdade é uma novela que passa em horário nobre.

E a Família Brasileira tolera isso. Tolera tentativas de assassinatos, pessoas sendo enterradas vivas, relações quase incestuosas, pessoas esfaqueadas, tráfico internacional de mulheres, sequestros de crianças, músicas novas do Roberto Carlos, cenas filmadas no exterior sem o menor critério.

A Família Brasileira tem uma rejeição seletiva.