sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dona Lúcia Eterna

O Brasil já estava suficientemente humilhado com a derrota sofrida no dia anterior, os inapeláveis 7x1 aplicados pela Alemanha na semifinal da Copa. O sentimento era de que o futebol brasileiro havia acabado, que o Brasil havia fracassado como nação e não era para menos. Crianças choravam, jogadores choravam e o Galvão Bueno deve ter dormido àquela noite em posição fetal. Não havia como piorar a situação. Engano.

No Day After, a comissão técnica de seleção brasileira, formada por Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira, o popular Murtosa e mais algumas pessoas que nós não sabemos exatamente quem são, concederam uma entrevista coletiva na Granja Comary em Teresópolis. Foi provavelmente a primeira vez em que um técnico brasileiro participou de uma coletiva após uma eliminação, para mostrar o tamanho do drama.

A expectativa geral era de que os sete cidadãos iriam, no mínimo, pedir demissão. Quem sabe, todos iriam chorar arrependidos pelos seus erros, pediria clemência de joelhos, o Felipão ia confessar que não sabia nada de tática, o Parreira admitiria que é um fracassado. Talvez, todos eles fossem pegar espadas e enfiar em suas barrigas, num harakiri coletivo.

Muito pelo contrário, a entrevista foi feita para se defender de todas as acusações e mostrar que a preparação foi perfeita. Felipão levou algumas planilhas feitas no Excel para mostrar a quantidade de horas de treinos regenerativos, musculação, hidromassagem que os jogadores haviam feito. Mostrou que Bernard havia sido escalado em outras ocasiões e que motivo para a derrota não era outro que não o azar.

“Uma pane de seis minutos”, algo que pode derrubar um avião, mas que para Felipão e Parreira era normal. Eles estavam certos o tempo inteiro e ainda continuam certos. Se não fossem aqueles seis minutos, de certo o Brasil teria perdido por apenas 3x1 e hoje em dia ninguém estaria fazendo esse drama todo. Inclusive, a desculpa da pane dos seis minutos está liberada para qualquer um que fizer merda no trabalho.

Aí sim, fomos surpreendidos novamente. Já no final da coletiva, Carlos Alberto Parreira adicionou mais uma brilhante passagem para a sua carreira. Ele levava a tiracolo um simpático e-mail enviado a CBF pela Dona Lúcia, uma brasileira anônima, com muito orgulho e muito amor pelo trabalho desenvolvido pela seleção brasileira. A história do e-mail não ficou muito clara até agora, mas isso não importa.

Dona Lúcia saudou a coragem e integridade do Felipão na coletiva pós-jogo. Ela ficou triste com os jornalistas questionando o resultado, triste com a crueldade sem limites do ser humano. Agradeceu a grande felicidade que o Felipão proporcionou a ela e a toda a nação e que tem certeza que Scolari continuará o seu brilhante trabalho. “Lembre-se que o sonho poder durar uma noite, mas alegria vem ao amanhecer”, concluiu misteriosa.

Podemos pensar que a Dona Lúcia é uma espécie de sadomasoquista. Que enquanto Thomas Müller, Toni Kroos e outros bombardeavam o gol brasileiro, Lúcia sentia uma grande felicidade. Que logo que o jogo acabou, ela praticou um autoenforcamento erótico, vestiu suas roupas pretas e chicoteou seu parceiro. Dona Lúcia deve visitar sites pesados do submundo da internet.

Mas a verdade é que provavelmente a simpática Dona Lúcia é uma senhora extremamente otimista com a vida. Que enquanto os jogadores brasileiros ficavam parados em campo, catatônicos sem saber o que fazer diante da movimentação alemã, ela dizia “esses meninos estão fazendo tudo o que é possível”. E creio que ela encara a vida dessa forma. “Esse Felipão é um guerreiro, aguentando isso sem chorar”.

Posso imaginar como os filhos da Dona Lúcia tiveram sorte com uma mãe sempre disposta a entender que eles fizeram o melhor que puderam, mas que uma pane de seis segundos fez com que eles zerassem na prova de matemática. Dona Lúcia é aquela pessoa que faltou em todos os momentos históricos, em todas as tragédias. Que sorte não teríamos se Dona Lúcia estivesse lá, em qualquer lugar, com sua fé.

O pior é que Dona Lúcia não está só no apoio a Felipão. No Twitter, a #FicaFelipão foi inundada por pessoas solidárias ao trabalho do técnico Luiz Felipe Scolari. Donas Lúcias com @, que consideram que tudo foi um acidente e que a atual comissão técnica, se bobear, deveria ser canonizada.

Mas ninguém, ninguém escreveu uma cartinha tão singela como a Dona Lúcia. Um símbolo nacional, #eterna.

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