quarta-feira, 30 de abril de 2014

Mundo Gourmet


A primeira vez em que eu vi a palavra “gourmet” foi em uma história em quadrinhos da Turma da Mônica. Nela, a Magali era convidada por um homem mais velho para se transformar em gourmet. Lembro-me de perguntar para minha mãe o que era gurmete e então, ela me explicou que era alguém que experimentava comidas. Era isso que Magali fazia naquela história, mas não dava muito certo porque ela comia tudo rapidamente.

A Wikipédia traz uma explicação bem confusa sobre a palavra. Veja só. “Gourmet é o a de haute cuisine ou alta cozinha, evocando assim um ideal cultural, associado com as artes culinárias. Assim um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando este é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronómicas mais elaboradas. Por consequência os produtos e ou refeições gourmet são normalmente mais caras que os seus equivalentes não gourmet. A palavra gourmet tem ascendência francesa e o seu significado original designava os bons apreciadores de vinho, os verdadeiros conhecedores. Actualmente já faz parte do vocabulário português e alargou o seu âmbito a tudo o que se relaciona com os prazeres da mesa, sempre na perspectiva da autenticidade e da qualidade”.

Recentemente o Brasil foi invadido pelos gourmets. Bem isso não significa que uma série de franceses bichas com chapeuzinhos ridículos e aventais patéticos desembarcou em portas-aviões ancorados em nossos litorais. Sim, cada vez mais temos franceses que cozinham em programas do Multishow, mas não é disso que eu estou falando.

Falo sim do tanto de restaurantes ou outros estabelecimentos com a palavra “gourmet” no nome. Hambúrguer gourmet, por exemplo, virou uma espécie de sanduíche. Para fabricar seu próprio Hambúrguer Gourmet, basta colocar uma maionese com ervas e bacon, porque esses pedaços de banha de porco fazem o maior sucesso.

Se você vai ao aeroporto de Guarulhos encontra um brigadeiro gourmet. Provavelmente é uma bolinha de chocolate com confeitos coloridos e sabores exóticos que custa o triplo do que um brigadeiro normal deve custar. Existem pizzas gourmets e se bobear, até uma dobradinha gourmet.

Acredito que a maior de todas as pragas é o “espaço gourmet”, presente em todos os condomínios e residenciais com nomes afrescalhados inaugurados diariamente em vários logradouros brasileiros. A primeira vez que vi uma propaganda de condomínio com espaço gourmet, imaginei que era um lugar com aqueles fogões elétricos, panelas brilhantes e que os condôminos se reuniam para fazer pratos com pouca comida e muita salada decorativa com molho espalhado em formas de risco. E claro, todos com aventais e chapéus ridículos.

Mas não é nada disso. O espaço gourmet nada mais é do que o bom e velho salão de festas, ou churrasqueira. Um lugar em que você pode juntar algumas pessoas a mais, uma vez que o seu apartamento provavelmente não suporta muitas pessoas. Churrasqueira. Virou espaço gourmet.

Daqui a pouco, o laboratório de exames de fezes vai virar um Merda Gourmet, onde as pessoas defecam em salas completamente brancas enquanto o som ambiente reproduz alguma coisa do Kenny G (Kenny G é o saxofone gourmet). Se depois os coprófagos darão um sentido gourmet mais amplo ao local, não é problema meu.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Futebol Alternativo

As regras do futebol são claras, diria Arnaldo Cezar Coelho. Onze jogadores para cada lado, um juiz, uma bola que deve ser introduzida dentro de um retângulo delimitado por barras de ferro, só o goleiro pode pegar a bola com a mão, o atacante tem que ter no mínimo dois adversários entre ele e a linha do fundo, não pode matar, não pode roubar, não pode cobiçar a mulher do próximo e, bem, na verdade esses são os 10 mandamentos.

Por mais simples que essas regras sejam, existem outras vertentes praticadas principalmente nas escolas, quando se é criança. Leis que não estão escritas, mas que se perpetuam através das gerações, fluindo pelo espaço e pelo tempo. Vamos a algumas delas.

Rebatida vale dois: eis a mais complexa das regras. Quatro pessoas jogavam, dois pra cada lado. Uma equipe chutava a bola da marca do pênalti e outra ficava no gol. Se a bola entrasse diretamente no gol, valia um ponto. Se um dos goleiros rebatesse a bola, dois pontos. Se batesse na trave e entrasse, ainda mais pontos. E os pontos se acumulavam e em determinado momento o jogo adquiria uma enorme complexidade. O negócio era não fazer o gol, mas forçar uma rebatida do goleiro para no rebote chutar a bola na trave e ela entrar. Alguns poucos caras conheciam as regras e acredito que eles sempre encontravam meios de manipular a situação. Eram conhecidos no colégio como os caras que sabiam as regras da rebatida.

Gol a gol: nesse jogo, o futebol adquiria um ar de duelo medieval. Cada adversário ficava em um lado da quadra e o objetivo é fazer o gol. Pensando assim, era bem difícil e quase impossível meter um gol do meio da quadra e até por isso, os gols aconteciam em falhas pessoais que eram extremamente irritantes, humilhantes, um tapa na cara. Diz a lenda, que José Mourinho praticava o gol a gol em sua infância, plantando debaixo das traves, apenas passando a bola para outro lado, esperando uma falha adversária.

Bobinho: por alguma razão, professores de educação física gostavam de passar essa atividade no aquecimento para os jogos. Consiste em fazer com que uma criança seja humilhada no meio de uma roda, enquanto os outros tocam a bola de lado e fazem provocações. O bobinho é responsável por 78% dos ataques armados de psicopatas em colégios do mundo todo.

Passô levô: talvez seja um exagero chamar isso de tipo de futebol, mas era uma atividade recreativa que utilizava uma bola. Se não uma bola, uma garrafa plástica, uma latinha amassada ou qualquer objeto que pudesse ser chutado. Mistura de futebol e barbárie, o objetivo é chutar o objeto para qualquer direção e esperar que ele passe por debaixo das pernas de um cidadão infeliz. Quando isso acontecia, esse cidadão levava socos e pontapés e o espancamento parava apenas quando ele conseguia – se conseguisse – atingir o pique e muitas vezes era preciso sair do colégio, pular um muro, atravessar a rua, entrar numa casa e tocar numa cueca escondida na terceira gaveta da esquerda do armário da empregada. Espero que já tenha sido banido dos colégios.

Futbets: o bets era um esporte que misturava beisebol e pelota basca, em que você tinha que rebater uma bola para longe e marcar pontos enquanto essa bola não voltasse. O futbets partia do mesmo princípio, mas as bolas eram rebatidas com os pés, o que tornava o jogo muito mais viril, sem esse negócio de segurar um pau na mão.

Contra a rapa: em determinado momento alguém lançava a latinha no chão e dizia “eu e Bernard contra a rapa”. Nesse momento começava uma correria louca e o objetivo fazer aquela latinha passar por algum alvo, geralmente cadeiras. Não haviam goleiros, nem nenhuma regra básica, apenas crianças correndo. “Contra a rapa”, significava “contra todo mundo”, só que de uma maneira pejorativa. Poderiam ser três pessoas, seis pessoas, noventa e nove pessoas, o colégio inteiro. Apenas o ego do desafiador diria quantas pessoas estariam ao seu lado e quantas estariam na “rapa”.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Vai Ter Copa?

Eis a pergunta que atormenta o cidadão brasileiro médio. Por onde ele anda sua mente vaga em questionamentos sobre a realização da Copa do Mundo. Ao mesmo tempo em que os meios de comunicação de massa e as autoridades responsáveis garantem que vai ter Copa, manifestantes e pichadores de muro afirmam que não vai ter Copa. Ninguém chega a um consenso e essa falta de certeza sobre o futuro altera o planejamento da nossa rotina. Sim, imagine como sua vida será diretamente afetada pela realização ou não da Copa do Mundo. Pontos facultativos, turistas, toques de recolher, gás de pimenta...

Para tentar resolver essa questão, peguei o telefone e liguei para Vinícius Gressana. Vinícius é famoso, tem um blog de sucesso e consegue entender o que o povo quer. Ele atendeu eu perguntei se vai ter copa. Vinícius ficou em silêncio e então me respondeu que talvez. Agradeci e desliguei.

Como um bom jornalista investigativo, parti em busca de uma segunda opinião. Entrei no site da Petrobrás e resolvi conversar com o robô Ed. Ele está a uns dez anos respondendo perguntas inúteis, pertence a uma grande corporação e também devia saber das coisas. Travamos o seguinte diálogo.
- vai ter copa?
- A Copa do Mundo sempre acontece de 4 em 4 anos. O Brasil já foi campeão uma porção de vezes.
- foram cinco vezes
- Eu sei multiplicar desde que você coloque os símbolos adequados. Escrever X ou Vezes não adianta (mas o asterisco serve sim). E em vez de escrever os números por extenso, digite os algarismos.
- mas vai ter copa ou não?
- A Copa do Mundo sempre acontece de 4 em 4 anos. A de 2010 foi na África do Sul e a de 2014 é no Brasil!
- Sim ou não?
- Talvez... Hehehe
- Sim ou não?
- Hahaha.
- Responde, por favor.
- Mas eu sempre respondo! Bom, posso não responder exatamente o que você perguntou, é uma de minhas manias...
- Vai ter?
- Ter ou não ter: eis a questão. (zizizizzz, te enganei: essa frase não é a do Shakespeare).
- desisto
- Eu não desisto fácil não.

Esse robô songo-mongo não me ajudou muito. Mas, ele representa um órgão estatal e a sua reticência em confirmar a realização da copa colocou uma pulga atrás da minha orelha. Deve ter coisa aí.

Saí para caminhar, para refletir sobre a questão e chegar a uma solução. Passei em frente a um supermercado que garantia a minha satisfação. Perguntei para o primeiro funcionário que eu vi se vai ter copa. Ele me mandou ir à seção de frios e entendi que quem trabalha na seção de frios, seccionando presuntos, protegido do frio, tem uma posição privilegiada e conhece a vida. Chegando lá perguntei para ele se vai ter copa e ele me respondeu que tinha apenas presunto e salame.

No momento a situação pendia para a não realização do torneio, mas as respostas não estavam claras. Só me restava ir até a Casa de Diversão Noturna Carnicentas para perguntar a Pai Jorginho de Ogum se a copa será realizada ou não.

Ao chegar lá, tratei de perguntar aos outros integrantes se vai ter copa. Marcão disse que sim, Hanz disse que sim, Alfredo Chagas falou que não vai ter porra nenhuma, que o Brasil vai ser hexa e que abaixa o capital, enquanto que Cão Leproso não me disse nada. Ficou apenas fitando o vazio com olhos tristes.

Pai Jorginho de Ogum sentou em sua cadeira celestial, chacoalhou o rosto e virou uma dose de cachaça. Começou a se concentrar e eu interrompi. Disse que queria a sua opinião pessoal, a opinião de homem que já viveu de tudo e que olha a morte com desdém. Ele então me disse que achava, pessoalmente, que não haveria Copa, mas que viu o futuro e que no futuro vai ter Copa. Perguntei o porquê dessa contradição e ele disse que sabia separar o trabalho do lazer.

Agradecia ao Mensageiro da Sorte e disse que os leitores do blog ficariam felizes, porque a partir de agora eles saberiam se vai ter Copa ou não.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Direita Festiva

Na última segunda-feira os olhos do mundo se voltaram para um problema sério. A dificuldade que os jovens de direita têm para pegar mulher e, consequentemente, se reproduzir. A questão veio à tona em um artigo escrito por Luiz Felipe Pondé, pernambucano de 55 anos, filósofo, escritor, ensaísta, doutor pela USP, pós-doutor em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv e que escreve às segundas-feiras na Folha de São Paulo sobre assuntos como religião, ciência e niilismo.

Pondé, que ironicamente é uma das caras da nova direita, alerta que a esquerda vem com aquele papinho mole de que a mulher é dona do seu corpo, oferece um baseado e leva a mulherada vagabunda pra cama. Enquanto isso, essas burras não conseguem entender o papo econômico dos jovens de direita que acabam ficando na mão. Triste, muito triste. Pondé clama que a direita precisa descobrir o seu lado festivo para, consequentemente pegar mulher e se reproduzir. Uma vibe darwinista.
O que os jovens de direita precisam fazer para mergulhar nesta piscina?

O CH3 foi às ruas, escutar a população, ouvir os nossos velhos especialistas de sempre e realizar uma série de experimentos sociais para descobrir como, afinal, a direita pode se tornar mais festiva e, como dizem aqueles anúncios de sites pornôs, deixar a masturbação de lado e partir para ação.

Primeiro, tentamos descobrir como conquistar uma mulher com posicionamentos políticos de esquerda ou de direita. O pedreiro Marcão nos garantiu que mulheres geralmente preferem posições de direita. Antes que abríssemos o Kama Sutra para discutir o espectro político do papai e mamãe, ele nos garantiu que tinha "haver com a mão com que a pessoa escreve". Malicioso, este velho pedreiro.

Uma equipe de sexólogos, pedreiros, atores pornôs, sociólogos e assessores parlamentares, começou a trabalhar na elaboração de uma série de cantadas de esquerda ou de direita. Daí surgiram expressões como “garota deixe me aproveitar da sua mais valia” e “gata, que tal socializarmos nosso suor?”, ou ainda “vou repartir esse latifúndio” e “querida, seu corpo será minha propriedade e você obedecerá minhas vontades a partir de hoje”.
As cantadas do pedreiro da esquerda fazem muito mais sucesso

Na sequência, contratamos o ator Caio Castro para abordar mulheres solteiras na micareta e tentar conquistá-las com cantadas de direita. Conseguiu 100% de aproveitamento. Depois, ele tentou cantadas de esquerda e manteve a porcentagem. Depois, um mendigo de rua recebeu a mesma missão e não conseguiu uma resposta positiva de nenhuma mulher, à esquerda ou à direita. Depois, um cara normal repetiu o procedimento, conquistando alguns beijos e outros tapas na cara.

Nossos pesquisadores foram escutar as mulheres que participaram da experiência involuntária. As que ficaram com Caio Castro afirmaram que acharam ele bonitão e que não chegaram a escutar se ele falava de crianças com fome. As que não ficaram com o mendigo afirmaram que ele fedia a urina. E sobre o cara normal, algumas falaram que ele era atraente, outras não, algumas gostaram do seu sorriso, outras desgostaram do seu suor e terceiras acharam que ele talvez seja um cara legal.

Os pesquisadores concluíram que não é possível medir a eficiência das cantadas politizadas dissociadas de outros aspectos do comportamento humano. Partiram então para a elaboração de estratégias que tornem a direita mais festiva. Após 26 horas de reunião economistas não conseguiram chegar a um consenso de como tornar o apoio a hierarquia social atraente. Publicitários concluíram de que essa ideia já é vendida em 80% dos comerciais que passam na televisão.
Criminosamente, as propagandas de cerveja ofendem os jovens de direita, que nunca conseguirão essas mulheres.

Numa última tentativa, intelectuais de direita pensaram em posar num calendário da Pirelli, mas a fábrica de borracha acreditou que a estratégia não ajudaria a vender mais pneus. Escritores ainda tentaram dar graça e coerência ao texto de Pondé, mas falharam. Frustrados, os profissionais viajaram para descansar em Dubai.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Papai Noel e Coelhinho da Páscoa

O domingo da Páscoa começou mais cedo para este repórter. Acordei de madrugada para cobrir uma pauta que meus editores me indicaram: como é a Páscoa de um Papai Noel. A ideia inicial era repetir a premiada matéria do final do ano passado, quando acompanhei atuação de um Papai Noel durante a noite de natal. A ideia inicial, confesso, era seguir a manhã de trabalho do Coelhinho da Páscoa, mas, não conseguimos encontrar nenhum. Recorri ao Papai Noel.

Cheguei à sua casa no Jardim Europa por volta das 3h da manhã. Papai Noel estava com seu hobby vermelho e aparentemente sem nada por baixo. Duas mulheres em lingeries baratas o acompanhavam. Assisti a vitória de Lewis Hamilton no Grande Prêmio da China, enquanto o Papai Noel se arrumava. Em pouco tempo ele apareceria vestido de uma maneira completamente diferente.

“Esse mundo está cheio de filho da puta pra falar que Papai Noel não existe, que Papai Noel leva saco nas costas, que anda rodeado por veados. Mas ninguém aparece pra falar que Coelhinho da Páscoa é lenda e tem o cu arrombado”, me disse um revoltado Papai Noel. “O pior é que eu existo e vou lhe contar uma coisa: coelhinhos da páscoa também existiam até um tempo atrás. Mas eles foram extintos”.

Demonstrei interesse e ele me contou a história. Convenhamos que o Coelhinho da Páscoa é uma pequena aberração. Um mamífero que coloca ovos, feitos de chocolate, além de tudo. “Antigamente os coelhos iam de casa em casa colocando os ovos e etc. Só que, acontece com todo mundo, vez ou outra eles eram interceptados. Se eu sou interceptado, eu dou umas risadas, abraço crianças e tudo mais. O coelho não. Se você vê um coelho gigante no seu quintal, o que você faz? Mete bala nesse monstro antes de perceber que acabou com a páscoa de milhares de crianças”.

Os coelhinhos também sofriam para se reproduzir, já que as chances de que do cruzamento com uma fêmea normal nascesse um macho que colocasse ovos de chocolate era de apenas 25%. Esse índice junto à caça indiscriminada e os acidentes de trabalho vitimou o último coelhinho da páscoa em 1998 na cidade de Muriaé. “O crack também foi um problema sério”, completou o Papai Noel.

A Associação Mundial das Fábulas Infantis convocou uma reunião extraordinária em setembro de 1999 e decidiram, lá em Bruxelas, que os Papais Noéis deveriam substituir os coelhinhos. A decisão polêmica quase resultou em um racha, mas os Noeís aceitaram que isso iria melhorar a condição de vida da categoria. Começaram a aparecer imagens de pessoas fantasiadas de Coelhinhos assustadores. “Nós gostamos de uma fantasia e passamos a ganhar mais dinheiro. Mas você sabe, isso trouxe uns excessos”, me disse o Papai Noel no momento em que apareceu na sala vestido de Coelhinho. Perguntei que excessos eram esses e ele me disse “você sabe porra”.

Papais Noéis não sofrem de nenhuma aberração genética que permite que eles coloquem ovos de chocolate. “Nenhum ovo passou no meu cu”, garantiu o desbocado Papai Noel. Pouco depois das 5h da manhã ele saiu de casa para entregar os ovos para as crianças da sua área. “Um problema nos dias atuais é o lobby feito pelas fábricas de chocolate. O molequinho pediu um chocolate com amendoim de uma marca, a concorrente vem oferecendo a da marca dela e ainda oferece uns extras. É difícil manter a ética nesse negócio”, disse.

Seu método de trabalho é semelhante ao que ele emprega na entrega dos presentes de natal, mas com alguns cuidados extras. “Tem que tomar cuidado com formiga. Tem uns retardados que colocam o ovo no jardim e as formigas acabam com tudo, criançada chora, os pais ficam com o cu no chão, é foda”. O trabalho ainda tem uma dificuldade extra: é preciso entregar tudo antes que o dia clareie. “Ninguém quer ser um cara vestido de coelho em plena luz do dia”, afirma.

Papai da Páscoa costuma a deixar as casas das famílias católicas para o final. “Esses carolas acordam cedo pra ir à igreja, na missa das 6h. Se eu chegar antes, encontro eles no portão e fode tudo. Então, enquanto eles estão rezando, eu estou guardando meus ovos na cesta de frutas”, disse. Ele gosta de colocar os ovos nas cestas de fruta, por uma questão estética. “Também para passar a mensagem de que frutas são importantes para a alimentação”, completou emocionado.

Por volta das 6h30 o Papai Noel já voltou para sua casa. Disse que pretende dar uma relaxada boa enquanto toma banho. Aproveitou pra dizer que tem frequentado a Carnicentas nos últimos meses e que o lugar é muito divertido.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Metáfora do Cu

Existem aquelas pessoas, terríveis pessoas, que gostam de dizer que “gosto é igual cu: cada um tem o seu”. Essa frase pífia, diz muito mais sobre a pessoa do que sobre gostos e do que sobre cus. Poderíamos dizer que gosto é igual pâncreas: cada um tem o seu. Ou que gosto é como braço: tem gente que não tem, ou ainda que gosto é igual cu: tem gente que não tem. Sim, algumas pessoas realmente não têm e isso é triste.

No entanto, o cu, esse orifício, é uma espécie de coringa mundial dos ditos e provérbios e metáforas populares, que as pessoas gostam de dizer em situações absurdamente ilógicas. Confira alguns exemplos:

- Em cavalo dado não se olha os dentes.
“Em cu dado não se olha as pregas”.

- A noite, todos os gatos são pardos.
“A noite, todos os cus são pardos”.

- Toda regra tem sua exceção.
"Todo cu tem sua exceção".

- Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
“Cu mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

- Cavalo selado não passa duas vezes.
“Cu selado não passa duas vezes”.

- Cão que ladra não morde.
“Cu que ladra não morde”.

- Não cutuque a onça com vara curta.
“Não cutuque o cu com vara curta”.

- Em boca fechada não entra mosca.
“Em cu fechado não entra mosca”

- Em terra de cego, quem tem olho é rei.
“Em terra de cego, quem tem cu é rei”.

- Mais vale um pássaro na mão, do que dois voando.
“Mais vale um cu na mão, do que dois voando”.

- Nem tudo que reluz é ouro.
“Nem tudo que reluz é um cu”.

- Quem não tem cão, caça com gato.
“Quem não tem cu, caça com gato”.

- Quem tem boca, vai a Roma.
“Quem tem cu, vai a Roma”.

- Focinho de porco não é tomada.
"Focinho de porco não é cu".

- Quem tem pressa, come cru.
Essa é muito óbvia.

- Quem tem telhado de vidro não atira pedra no vizinho.
“Quem tem cu de vidro não atira pedra no vizinho”.

- Um homem prevenido vale por dois.
“Um cu prevenido vale por dois”.

- Quem ama o feio, bonito lhe parece.
"Quem ama o cu, bonito lhe parece".

- Uma andorinha só não faz verão.
“Um cu só não faz verão”.

- Não adianta chorar sobre o leite derramado.
“Não adianta chorar sobre o cu cagado”.

- Gato escaldado tem medo de água fria.
“Cu escaldado tem medo de água fria”.

- De grão em grão, a galinha enche o papo.
“De cu em cu a galinha enche o papo” ou ainda “De grão em grão o cu enche o papo” ou ainda “de grão em grão, a galinha enche o cu”.

- A pressa é inimiga da perfeição.
“A pressa é inimiga do cu”.

- Deus dá o cobertor conforme o frio.
Seu nível de heresia irá preencher essa frase.

- Amigos, amigos negócios a parte.
“Amigos, amigos cu a parte”.

- Roupa suja se lava em casa.
“Cu sujo se lava em casa”.

- Justiça tarda, mas não falha.
“O cu tarda, mas não falha”.

- Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.
- Em briga de marido e mulher, ninguém mete o cu.

- Quem com o ferro fere, com o ferro será ferido.
“Quem com o cu fere, com o cu será ferido”.

- Todo homem tem o seu preço.
“Todo cu tem o seu preço”

- Quem sai na chuva é pra se molhar.
“Quem sai na chuva é pra se foder”. Ok.

Se formos levar essa investigação mais longe, descobriremos que até algumas frases históricas como “Nada temos a oferecer aos nossos inimigos, além do nosso sangue, suor e lágrimas” poderia virar “nada temos a oferecer aos nossos inimigos, além do nosso cu, suor e lágrimas”. Se essa frase, conforme diz a lenda, dita por Wiston Churchill antes do embarque das tropas aliadas para Normandia, se Churchill tivesse falado isso, ao invés de inflamar suas tropas, ele transformaria seus soldados em um bando de passivos. Mas ainda assim, poderia fazer sentido.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Polêmica Merda da Semana


E o Lulu heim? O aplicativo que permitia que as mulheres avaliassem o desempenho sexual dos homens e que provocou indignação, ações judiciais e debates acalorados na internet. Ele ainda existe? Ele já acabou? As pessoas já o aceitam normalmente? Não escuto ninguém falar mais nada sobre ele desde... uns quinze dias depois que ele virou notícia.

E os rolezinhos? Se lembram? Os jovens da periferia que promoviam invasões aos shoppings, promovendo debates entre esquerda e direita. Eles promoviam o terror? Queriam apenas diversão? Acredito que os rolezinhos já acabaram, porque também não escuto falar sobre mais nenhum deles.

A venda do WhatsApp para o Facebook, biografias não autorizadas, a torcedora que mostrou o sutiã, uma piada sem graça de algum comediante de stand-up, o preço do tomate, alguma coisa que aconteceu em um reality show, jornalista dinamarquês que falou mal do Brasil, enfim, toda semana a internet quase acaba por conta de alguma polêmica merda.

É realmente difícil saber como é que essas polêmicas começam e é difícil se posicionar diante delas. Em pouco tempo, apoiar ou não a avaliação de homens em um aplicativo da internet se torna uma questão ideológica, de direita, esquerda, conservadorismo, liberalismo, de ser progressista ou retrógrado, vanguardista ou reacionário. Quando você finalmente chega a um consenso pessoal, logo vê que uma pessoa que você abomina defende a mesma coisa e logo passa a se autoduvidar.

Não dá para se manter a margem. Você é praticamente forçado a participar do embate virtual. O Arnaldo Jabor falou sobre o assunto, seu amigo falou, seu inimigo também, aquele débil mental que estudou com você na quarta série idem, o Mídia Ninja está cobrindo, você tem que falar o que acha. Logo, a discussão passa a ser sobre o comentário do Lobão, o editorial do O Globo, do Pablo Capilé, da Rachel Sheherazade.

Rachel Sheherazade. Eis uma pessoa que, mais do que jornalista, apresentadora de telejornal, diria mais até do que um ser humano, Rachel Sheherazade é uma geradora de polêmicas merda. Como uma espécie de Midas da polêmica merda, tudo o que ela fala, escreve, ou toca, será debatido de maneira ridícula na internet.

Xerazade já foi elogiada por criticar políticos em seus editoriais, já foi ridicularizada por sua postura reacionária, já falaram que era um absurdo o que ela falara e que é um absurdo que as pessoas queiram que ela pare de falar, absurdo maior o Silvio Santos não a deixar falar. Direito a opinião? Limites da opinião? Ética profissional? Todos esses assuntos são misturados em um grande liquidificador de excrementos.

O pior de tudo é que esses fatos são esquecidos logo na semana seguinte. As pessoas se preparam para uma carnificina virtual e ela não acontece. Logo depois, a polêmica merda é substituída por uma nova e as pessoas encontram novos assuntos, se unem aos antigos adversários e, enfim. Preciso de uma lobotomia.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Roubado é mais gostoso

O Vasco vencia o Flamengo por 1x0 e estava perto de se tornar campeão carioca, título que não conquistava desde 2003. Até que aos 45 minutos do segundo tempo, o Flamengo teve um escanteio. Léo Moura cruzou, Wallace cabeceou na trave e no rebote, Márcio Araújo, 70 centímetros impedido, empurrou a bola para dentro do gol. Nem o juiz, nem o bandeirinha perceberam a gritante irregularidade e o gol validado garantiu o empate e o título flamenguista.

Quase no último lance do jogo, sem tempo para qualquer reação vascaína. Foi uma tremenda sacanagem. Entenderia a reação dos cruzmaltinos que quisessem matar o juiz e comer as suas vísceras cruas. Também entendo os flamenguistas que ignoram o erro e comemoram o título como se não houvesse amanhã. De qualquer forma, a vida não é justa, ninguém nos ajuda quando nós caímos e não sou eu que irei lamentar que outro foi prejudicado.

Essa situação, da vitória com gol ilegal, faz surgir uma das frases mais batidas e terríveis do mundo do futebol: “Roubado é mais gostoso”. No meu mundo ideal, os autores dessa frase e os seus reprodutores seriam presos. Pode parecer um exagero, mas tenho para mim que essa frase é a síntese de todo mal que acomete o Brasil. Quem julga que uma vitória roubada é melhor, perde o direito de reclamar de mandos e desmandos que eventualmente aconteçam em nosso país.

Todos aqueles caras do mensalão, escarnados publicamente, poderiam simplesmente alegar que roubado é mais gostoso.  Todos os ladrões que aparecem em programas policiais ao serem questionados porque fizeram isso, poderiam dizer que porque roubado é mais gostoso. Ladrões de aleijados, ladrões de pirulitos, ladrões de galinhas, todos ganharam a justificativa necessária para os seus ilegais.

Roubado é mais gostoso.
Paulo Maluf concordaria com a indignação desse post

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Brainstorm da Copa

Na sala de uma grande agência de publicidade, várias cabeças pensantes discutem como será a campanha de uma marca de eletrodomésticos durante a Copa do Mundo. Eles querem, é claro, aproveitar o tema para faturar em cima.

“Então, alguém tem alguma ideia?”
“E que tal se nós colocássemos um grupo de argentinos, mas na hora em que eles usam o produto brasileiro eles percebem como é bom ser brasileiro e acabam se transformando em brasileiros?”
“E se ao invés disso, colocássemos um brasileiro e uma argentina gostosa, mas o brasileiro rejeita a argentina gostosa, porque ela é argentina.”
“Não entendi ainda como é que isso vai ajudar a vender geladeiras e fogões?”
“Uma argentina, gostosa, cozinhando no fogão, mas não dá certo, porque ela não é brasileira”.
“Ou então, uma brasileira cozinhando nos nossos fogões e transformando os argentinos que comeram a comida dela em brasileiros.”
“Cara, já estou morrendo de rir, imaginando os atores caracterizados de argentinos, com perucas e camisas azuis e brancas, hahahaha!”
“Falando com aquele sotaque portunhol indignado!”
“Ou então, nós poderíamos fazer uma grande promoção e colocar no final um argentino chorando enquanto o locutor diz ‘você não vai perder essa também!”
“Mas aí a promoção seria só para os brasileiros?”
“Esquece os brasileiros e pensa nos argentinos chorando, vai ser um sucesso”.
“Nossa geladeira é tão boa que até os argentinos vão querer vir pra cá”
“Isso! Se o Brasil for campeão, anota o que eu to falando, se o Brasil for campeão, iremos dar uma torradeira, um... sei lá, qualquer coisa, e aí nossa propaganda mostra os argentinos torcendo pelo Brasil.”
“Vamos dar um celular e esse celular tem aquele grito de ‘eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor’ que toca o tempo todo e incomoda os argentinos que reclamam malditos brasileños.”
“Vocês não conseguem pensar em nada que não tenha argentinos sendo ridicularizados?”
“Bem, eu pensei em mulheres de biquíni na praia, também, mas essa daí eu to usando pra propaganda de cerveja que a agência tá produzindo.”
“Ok, podem fazer essa dos argentinos.”
“Vou colocar nossa selfie no insta”.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Vida na contagem regressiva

Olho um jornal próximo de mim que traz uma reportagem sobre o mistério do avião da Malásia, o acidente do Michael Schumacher, uma afirmação de que a morte não escolhe hora nem lugar e um questionamento: o que você faria se tivesse apenas alguns minutos de vida?

Uma pergunta um tanto quanto idiota. Se você fosse informado que lhe restam apenas quatro minutos de vida, mal teria tempo para planejar qualquer coisa até absorver o choque. Com sorte, você conseguirá pegar o telefone e perguntar para sua mãe:
- Mãe, no céu tem pão?
E morrer.

A pergunta faria muito mais sentido se questionasse o que é que você faria se você tivesse apenas alguns dias de vida. Ai sim, naquela cena clássica de filmes e de piadas, o médico lhe passa um prognóstico negativo de 30 dias de vida, você tem tempo para planejar o que é que vai fazer.

Vale lembrar que esse prognóstico é bizarro, porque nenhum médico tem a capacidade de fazer um calendário da morte. Mesmo assim, essa é uma pergunta boa para se fazer, assim como aquela “o que você levaria para uma ilha deserta”. Pois bem, o que é que você faria se lhe restassem 37 dias de vida? Você poderia chorar por um dia ou dois e pegar o terceiro dia para fazer um planejamento das suas ações e então tocar o terror.

Quase todo mundo que recebe a notícia de que vai morrer, planeja uma vingança contra a vida que se encerra. As preocupações materiais se encerram, porque em pouco tempo o dinheiro não vai servir pra mais nada. Também acabam as preocupações com os riscos, porque de certa forma, se você vai morrer mesmo, tanto faz se vai ser alguns dias antes. As regras sociais vão para o espaço, você não vai ter tempo para ser julgado e para conviver com a cara de reprovação das pessoas. Algumas situações.

Correr Pelado nas Ruas.
Vinícius Gressana sempre quis fazer isso em um dia em que o Brasil disputasse uma final de Copa do Mundo. Para azar dele, desde que Vinícius virou maior de idade o Brasil jamais chegou a uma final. Correr pelado provoca choque na sociedade e desafia as leis. De qualquer forma, recomendamos que corra nu apenas no último dia de vida. Por mais que seja divertido, a nudez em público vai contra a constituição nacional e você não vai fazer tudo isso para morrer na cadeia.

Dar uma banana no trabalho.
Marquinho, fez o relatório? Fiz e vou enfiar no teu cu, seu filho da puta. Demitido sumariamente, o Marquinho aproveitou para quebrar o telefone, jogar papeis para cima e mandar geral tomar no cu. Tachado de louco pelos seus companheiros, que uma semana depois apareceram no seu velório. Além de sacanear geral, Marquinho ainda fez com seu chefe ficasse com remorsos pelo resto da vida.

Estourar o cartão de crédito.
Levar os amigos para o bar e pagar a conta de todo mundo. Chamar os mendigos pra comer no Mahalo, álcool, mulheres, drogas, liberou geral. Um porém: só faça isso se você não tiver herdeiros, responsáveis por pagar a dívida astronômica depois.

Viajar.
Embarcar num avião sem destino e dar trabalho para a diplomacia nacional conseguir o traslado do seu corpo de volta ao Brasil.

Gastar tudo em sete belo.
Todo garoto sempre sonhou em chegar na cantina do colégio e gastar sua fortuna de um real em bala sete belo. Desejo que raramente se realizava e esse desejo reprimido pode voltar nos últimos momentos da sua vida, percorrendo os supermercados e acabando com todo o estoque de sete belo da cidade.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Jornalismo na Prática

Ele era jornalista
Na última sexta-feira eu encontrei uma amiga minha no supermercado. Ela já estava passando no caixa e eu estava entrando. Ela me perguntou se eu estava fazendo compras mais avançadas e eu respondi que não, disse que estava ali apenas para comprar pão. Já eram quase 21h e ela achou estranho o fato de eu estar ali apenas para comprar pão. Respondi que eu precisava comer alguma coisa e ela contra-argumentou que existem coisas melhores para se comer. Não neguei.

Apenas então eu trouxe uma informação importante que não estava clara o suficiente para minha amiga. Eram 21h e eu havia acabado de sair do trabalho. Passei no mercado para comprar um pão, depois comê-lo e então dormir. Minha amiga foi minha colega na faculdade de Comunicação Social. Ela fazia publicidade, enquanto eu fazia jornalismo, mas antes mesmo de se formar percebeu a barca furada em que havia embarcado e foi fazer Direito. Diante da minha situação, ela apenas mencionou: “que vida triste”. Não discordei.

Nos idos de 2007, inacreditáveis sete anos atrás, escrevi o texto mais clássico e reproduzido da história deste blog. A prática do jornalismo circulou na internet com autoria anônima e parou em aboutmes do falecido Orkut. O texto era um lamento sobre a minha condição de estudante de jornalismo e os trabalhos, matérias, artigos, resenhas que eram fabricados diariamente no curso e a sensação de estar sendo sufocado pela quantidade de material produzido. Eu estava errado.

Como tudo na vida, a faculdade era apenas uma pequena representação, um ensaio para o que viria depois. A vida real é muito pior. Os tantos trabalhos que consumiam a vida do estudante e provocavam envelhecimento precoce não significam nada perto do que é o mercado de trabalho. Sim, todas as informações que estão naquele texto são verdadeiras. Realmente o jornalista não vive e seus sonhos tem lead e sub-lead, porque o jornalista não tem nada melhor para sonhar. Agora, quanto aos pesadelos. Não é uma questão de reprovar em determinada matéria, mas sim, de demissão por justa causa.

Todo jornalista tem um lado masoquista. Por isso que nenhum de nós entendeu o sucesso da série de 50 tons de cinza. Achar graça no sofrimento já é a nossa vida. Os grandes dias, aqueles inesquecíveis, invariavelmente começaram às sete da manhã em um assentamento quilombola e terminaram depois da meia noite, com um triplo homicídio na porta de um shopping e com os jornalistas realmente carregando o fétido cheiro das ruas.

Se reclamamos? Não. Achamos graça e contamos vantagem de como nós sofremos naquele dia. Minha vida era triste aos olhos minha amiga no supermercado. Para mim, era apenas um dia normal, como tantos outros. Muitos de nós somos contratados para jornadas de cinco horas, como prevê a lei, mas essas cinco horas sempre acabam se transformando em pelo menos sete, sem hora-extra. Sofrimento que serve ao exibicionismo, mas que mata lentamente, associado ao consumo de drogas, legalizadas ou não.

Não esquece de assinar a matéria
O jornalista vive, basicamente, de informação. Um dos seus atributos, senão o principal, seria o de ser claro para transmitir essa informações. Imagine um engenheiro que não sabe fazer conta e não se surpreenda ao saber que alguns jornalistas não sabem escrever. Não que eles não deveriam ter se formado. Alguns não deveriam ter sido aprovados para o Ensino Médio.

Também convivemos com vários profissionais que estão na profissão apenas para passeio, para tirar vantagem das situações, dar carteiradas, ir a jantares, assistir espetáculos de graça, ganhar uma ajuda financeira pra promover uma festa de família, praticar pequenas extorsões para não divulgar notícias negativas, vender o espaço informativo para quem pagar mais, enfim. Mas não iremos falar de ética, porque esse é um problema existente em várias profissões. A questão é que os desvios éticos dos jornalistas podem gerar matérias no Jornal Nacional que desgraçam a vida dos envolvidos, provocam linchamentos, falências e suicídios.

Talvez seja por isso que os jornalistas são tão odiados por boa parte das fontes. Aliás, eu diria que existem basicamente três tipos de fontes: 1) os que odeiam os jornalistas e que gostariam de descarregar um 38 na hora da entrevista; 2) os que querem usar o jornalista para manipular uma situação; 3) aqueles que simplesmente dão as informações necessárias. Este tipo é cada vez mais raro e alerto as entidades responsáveis para a necessidade de incluí-los na lista de espécies em extinção.

Ai no meio entram aqueles que falam mal do chefe durante a entrevista, você publica e depois ele te liga perguntando como é que você colocou aquilo na matéria. Aqueles que acham que você é burro porque não está conseguindo entender plenamente o funcionamento das placas tectônicas e que isso te torna incapaz de conviver em sociedade. Não consegue entender que no dia anterior você estava tentando ser um especialista em drenagem de gramados e saindo dali iria se especializar em acessibilidade no transporte público.

As condições de trabalho, aliás, não são das mais fáceis. Já falei das jornadas prolongadas, da ausência de horas-extras e demais benefícios trabalhistas. Pois ainda tem o problema dos salários atrasados e das demissões sumárias por conta de uma nova política da empresa contratante. Alguns casos são tão absurdos que o jornalismo é praticado em situação análoga à escravidão.

Pois, neste dia 7 de abril essa classe tão sofrida comemora, ou lamenta, o seu dia. Aliás, uma data polêmica, porque existem seis dias do jornalista, prova da desunião da classe. O dia 24 de janeiro, que é o dia do padroeiro da causa – por incrível que pareça não é o Santo Expedito, aquele das causas impossíveis; 29 de janeiro, sem nenhuma razão; 16 de fevereiro que é o dia do Repórter; 07 de abril, hoje, a data oficial; 3 de maio que é o dia da Liberdade da Imprensa e 1º de Junho, dia Imprensa, em homenagem a publicação do primeiro jornal em solo nacional.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O Pessoal do Ipea


Uma pesquisa divulgado pelo Ipea, o vulgo Instituo de Pesquisa Econômica Aplicada, deixou a população brasileira alarmada. Segundo os dados mostrados na semana passada, 65% da população brasileira era a favor do estupro de mulheres que usam roupas curtas. Ficamos assustados, olhando para o lado e pensando que os dois caras sentados ao seu lado no avião estavam querendo violentar sexualmente a aeromoça.

Sim, 65% é gente pra burro. O Brasil vivia num estado de barbárie, uma coisa surreal e eu passei a sentir medo de presenciar estupros na rua. A qualquer hora, alguém com o pau de fora poderia aparecer e querer praticar justiça com o próprio pênis. Terrível.

Hoje, sexta-feira, 4 de abril, o Instituto veio a público anunciar que errou os dados da pesquisa. Ao invés de 65% de potenciais estupradores (e cúmplices femininas incluídas), esse número é de apenas 26%. Ok, dá pra dizer que é gente pra burro ainda, mais de 50 milhões de pessoas que vêm uma notícia sobre estupro e alegam que essa daí mereceu também.

Mas enfim, não quero falar do comportamento do povo sobre roupas femininas. Quero falar de dados. Quero falar do pessoal do Ipea. Caralho, como é que eles me erram um dado assim? De 65% para 26% é algo inadmissível.

O diretor responsável pelo estúdio pediu demissão. Acredito que seja pouco até. Creio que ele deveria pegar um chicote e se autoflagelar até o momento em que toda sua pele estivesse em carne viva. Após isso, ele ainda deveria ser mergulhado em um tonel cheio de sal, além de pegar alguns anos em uma masmorra aonde um telefone toca o tempo inteiro oferecendo planos da Net e da Claro TV.

Não é que eles esqueceram uma planilha qualquer e o dado foi alterado em até, digamos, 10%. Não é que o estagiário retardado errou a digitação e inverteu os números. Simplesmente, não há explicação. O erro tira todo o crédito de qualquer pesquisa que o Ipea já tenha realizado ou que irá realizar um dia. Acho que seria melhor manter a informação de que somos todos estupradores para que não pegasse tão mal.

Imagino o escritório da instituição, cheia de pessoas vestidas de Napoleão, mordendo moscas imaginárias, babando pelo canto esquerdo da boca e revirando os olhos de prazer toda vez que a porta principal range. Que o almoço do pessoal de lá deve ser uma loucura, cheio de pessoas derrubando bandejas após tropeçarem em seus cadarços e enfiando o sorvete no meio da testa enquanto cantam La Vie em Rose. Gente que come merda. Gente que reprovou no exame psicotécnico do Detran.

O Ipea divulga que 16% dos brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Tenha certeza que três quartos da população nacional está na mais reluzente merda. O Ipea divulga que o brasileiro tem comido mais carne. Saiba que nunca antes na história desse país tivemos tantos vegetarianos como agora. O Ipea divulga que esse post será lido por 16 pessoas, saiba que apenas eu consegui chegar até o final.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Por dentro do BBB 41

A expectativa para a realização da 41ª edição do Big Brother Brasil, realizada neste sagrado ano de 2041, era grande. A audiência do programa vinha despencado ano após ano, mesmo com a atração ficando mais apelativa ano após ano. O primeiro beijo lésbico foi sucedido pelo primeiro coito anal por cima dos edredons em 2022, o primeiro estupro coletivo na edição de 2033 e no ano passado, na edição especial de 40 anos, os participantes realizaram o primeiro ritual satânico. O evento só não teve mais riscos porque o sacrifício das virgens não vingou, uma vez que não havia virgens dentro da grande casa.

Aos 83 anos, Pedro Bial segue a tradição de apresentar o programa nu, com um espanador colorido enfiado no ânus. Apesar de espalhafatoso, o espanador evita o problema da incontinência fecal, responsável por diminuir pela metade o ibope da edição do ano retrasado.

Ano passado, o Boninhozinho, neto do lendário Boninho, resolveu chamar todos os 39 ganhadores das edições passadas do programa, exceção feita a Dhomini que morreu de overdose em 2028 e ao senador Jean Willys. O que poderia ser um sucesso acabou sendo um fracasso, já que a casa reuniu 29 homens babacas e oito mulheres que já não podiam usar biquíni impunemente.

Nesse ano, a casa voltou a ter 16 participantes, sendo um deles o cantor Mauricio Manieri. Um neonazista, um fundamentalista islâmico, um padre pedófilo, dois lutadores de MMA, o neto da Xuxa, um pastor alemão, sete atrizes pornôs e uma freira completaram a lista.

Logo na primeira semana, uma bigorna caiu sobre um dos participantes e seu corpo foi enterrado. O responsável por achar o corpo poderia instalar uma ditadura dentro da casa e o pastor alemão, como esperado, ganhou a prova. Como ele era um cachorro, sua ditadura não funcionou muito bem e as pessoas começaram a passar fome e a ter que beber a água da piscina. Alguns morreram e o BBB 41 registrou as primeiras cenas de canibalismo da história da TV aberta.

Na sétima semana, com apenas o Mauricio Manieri e o pastor alemão dentro da casa, Boninhozinho alterou as regras e decidiu o programa em um duelo de karaokê. Como era esperado, o Pastor Alemão ganhou e ficou com o prêmio de seis milhões de dólares.

Na saída, Bob, como era conhecido, foi preso pela carrocinha e virou sabão.