quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Contas de Buffet

Se em algum momento da sua vida você já organizou uma festa - seja um casamento, um velório ou uma confraternização da firma, já deve ter parado para pensar nas quantidades de comidas e bebidas que precisam ser adquiridas para satisfazer todos os convidados. Afinal, não é legal que as pessoas voltem para casa passando fome e precisem parar em um dos subways do caminho para comer um sanduíche de trinta centímetros com o dobro de queijo e recheio.

Você já parou para pensar em quantos salgadinhos você come quando participa da festa de aniversariantes do mês do seu trabalho? Em quantos cachorros quentes você manda para dentro em aniversários de crianças? Quantos docinhos você come como se fosse um animal faminto em qualquer oportunidade em que esses malditos docinhos se coloquem na sua frente? Aposto que não. Diante da comida nós nos comportamos como bestas irracionais e não paramos para pensar em quantidades, apenas na satisfação pessoal.

Pois, é para responder a essas dúvidas que os matemáticos e cientistas dos Buffets criaram cálculos específicos para determinar quanta comida é suficiente para alimentar a manada. Saiba que uma garrafa de vodca serve oito pessoas, que cada ser humano come uma média de seis docinhos e meio, sendo que esse meio docinho é aquele que uma pessoa pega, dá uma mordida, descobre que ele é de abacaxi, lembra que odeia abacaxi e o repassa para outra pessoa que come a metade restante do docinho. Uma pessoa bebe exatos 167 ml de espumante, uma garrafa de vinho serve quatro pessoas, um quilo de alcatra serve sete pessoas e por aí vai.
Cada indivíduo como em média um desse.

Para chegar a este número, os matemáticos e cientistas dos Buffets realizaram pesquisas complexas, verdadeiros experimentos científicos que abrangeram áreas como sociologia, antropologia, biologia, física, química e medicina. Hábitos sociais, primitivos, processos químicos e fisiológicos foram descritos e estudados.

Saibam portanto, vocês, que toda vez que forem em um casamento, na hora que vocês estiverem comendo o oitavo docinho, que ele estará sendo removido da conta pessoal de alguém. Alguém vai deixar de comer um doce para satisfazer sua gula. Alguns eventos mais criteriosos colocam fiscais para vigiar os convidados e só liberam doces acima da cota pessoal se você levar a autorização de outra pessoa que lhe concede o direito por esses doces. Seja essa concessão por meio de dinheiro, amizade, ou favores sexuais.

Pense nisso na hora em que for pedir mais 30 ml de espumante, outras tantas gramas de costela de porco, grãos de arroz. Não exceda sua cota.

Para ser sincero, nada disso é verdade. Todos os sites especializados não mencionam nenhuma pesquisa científica, apenas conhecimentos empíricos antecedidos pelo alerta “não dá para dizer com certeza”, cada um é cada um. Afinal, há quem não goste de doce e há quem coma 35 docinhos de uma vez só, sujando a gravata para isso se for preciso. Há quem, com orgulho, alerte que irá comer todo os 20 quilos de bolo, nem que para isso eles precisem matar. Ou morrer. Ou ambos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As Fobias do Casamento

A junção mais frequente as palavras “casamento” e “fobia” costuma a ter o homem como ator principal. O cidadão que sempre teve medo de casar, enrolou o quanto pode antes do matrimônio, vibrou quando a namorada não conseguir pegar o buquê no casamento de uma amiga e quando o matrimônio se tornou inevitável, ficou até a última hora no altar com cara preocupada, pensando nas possibilidades de uma fuga cinematográfica.

O casamento, as pessoas talvez não saibam, é um processo recheado de medo. O medo de escolher um lugar ruim, de a comida estar estragada no dia, de que uma chuva bíblica caía sobre a cidade, alague ruas, derrube a rede elétrica, isole a cidade e que os noivos terminem isolados em um altar qualquer da cidade, abandonados ao próprio destino. Que todas as fotos queimem. Que aconteça um apocalipse qualquer, são muitas as possibilidades.

Para piorar, ao longo de todo o processo os noivos sempre estarão cercados por pessoa que dirão que não vai dar certo. Vai dar tudo errado. Vai cortar as unhas no dia do casamento? Não faça isso, pode ser que você ampute um dedo por engano. Os agentes incitadores do caos adoram palpitar sobre casamentos.

Há o medo de que os convidados não apareçam, se percam no caminho, sejam abduzidos por naves espaciais reluzentes, ou simplesmente decidam que é melhor ficar em casa assistindo Zorra Total. Há o medo, inclusive, de que uma pessoa muito importante falte pelos mais diversos motivos. Que o responsável pela cerimônia seja atingido por alguma incontinência escatológica. Ou que isso aconteça com o próprio noivo.

Há o medo de que alguém resolva comparecer perante a lei justamente no dia do casamento e que os 47 casamentos e 138 estelionatos do noivo sejam revelados ali, na frente dos familiares. Que alguém pegue uma taça e um garfo, bata o garfo na taça, peça um minuto da atenção de todos e comece a falar. Falar qualquer coisa. Uma piada do Danilo Gentili, a íntegra de Os Lusíadas, o passado obscuro de alguém. Não fale em um casamento, não faça isso.

O medo de que o som estrague. Que alguém tropece e que o casamento seja eternamente lembrado como aquele dia em que a Tia Fulana tomou um tombo e morreu. E se alguém que não foi convidado decide aparecer na festa armado. Sim, tudo há de ser mais dramático. Afinal, as chances de que tudo dê certo são mínimas, é o que as pessoas dizem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Despedida de Solteiro

Se há um evento que tem um nome marcante, este evento é a Despedida de Solteiro. Todos nós sabemos o que acontece. Um homem irá se casar no dia seguinte e resolve aproveitar o último dia antes de se comprometer perante a lei com outra pessoa, para participar de uma festança babilônica, envolvendo os amigos, mulheres, álcool, cabritos, cabras, ovelhas siamesas clonadas e o que mais passar pela frente. Enquanto isso, a mulher aproveita as últimas horas antes do casamento com as amigas, recebendo panelas e participando de brincadeiras constrangedoras.

(Ok, isso não é mais verdade. No mundo atual as mulheres também participam de Despedidas de Solteiras, que envolvem as amigas, dançarinos, animais de médio porte e um anão que acaba engravidando a noiva, que passa nove meses dizendo que engravidou na lua de mel, até que a criança nasce e ela é também um anão, desgraçando toda uma relação).
Curiosamente, há muito mais imagens relacionada a "Despedida de Solteira" no Google. Onde está seu deus agora, Eduardo Cunha? Onde está a sociedade patriarcal? 

A Despedida de Solteiro fazia muito mais sentido em tempos remotos, quando o casamento era apenas uma convenção familiar que juntava dois desconhecidos que juntos iriam herdar um império. A moçoila virgem e o varão que perdeu a inocência nos prostíbulos da cidade. A partir do casamento, ele deveria manter a fidelidade a sua mulher e abandonar os tempos de gandaia. Portanto, antes do casamento ele ia pela última vez ao prostíbulo e afogava o ganso.

Hoje em dia, pense bem, nada disso faz sentido. Acredito que a maior parte dos casamentos acontece por comum acordo dos envolvidos, que muitas vezes estão compromissados – nos mais diferentes níveis – há algum tempo e resolvem apenas acertar isso no papel. Assim sendo, não há o menor motivo para que alguém resolva fazer sexo com outras pessoas apenas por que vai se casar no dia seguinte. Pode-se ser legalmente solteiro, mas não dá pra dizer que é tecnicamente descompromissado.

(Existem também os casos dos casais liberais, que apimentam a relação chamando outra, ou outras pessoas para o sexo. Geralmente uma integrante de programa de auditório, ou um negão bem dotado de tirar o chapéu que se bobear ele créu em todo mundo. Mas, nesse caso a despedida de solteiro também não faz sentido, porque, convenhamos, o sexo com terceiros já faz parte da rotina do casal).

Mas, vamos concordar: o nome é genial. A expressão toda a ideia do fim de uma era, que significa não apenas o fim da gandaia, como também o fim de uma rotina. A última noite de solteiro é a última noite antes de você assinar um papel que irá te trazer sérios problemas judiciais caso um dia você decida anular o que estava escrito nele, mas é também a última noite em que você vai dormir na sua cama, nos seus lençóis, a despedida do chuveiro da casa onde você morava, de toalhas e de vários outros pequenos elementos que compunham o repertório do seu dia. Mas, acho que ninguém realmente pensa nisso a sério, ou pensa nisso midiaticamente. A marca da despedida de solteiro é a putaria desenfreada mesmo.

Tanto que nós já vimos uma centena de filmes que tem a despedida de solteiro como mote central. E não há dúvida, vai dar merda. Alguém vai manter relações sexuais com um anão, alguém vai perder a as alianças, vai contrair alguma doença venérea, vai se perder. Alguém vai acordar na manhã seguinte em um galpão em Paranatinga, cercado por ratos mal-encarados, sem nada nos bolsos e a sensação de que vai morrer ali.

(Se Beber Não Case é certamente o filme mais marcante sobre o tema. Digo, o primeiro. O filme que abriu a série é sobre as merdas que cometemos quando bebemos muitos, enquanto que os outros são filmes sobre o que acontece conosco quando temos amigos babacas).

Pois, esse post aqui é exatamente isso. Uma Despedida de Solteiro. Me caso amanhã, pouco mais de dez meses após ficar noivo com um post publicado aqui no CH3. O início de um ciclo pessoal e, quem sabe, também do blog. Uma nova vida rende novos assuntos para escrever. (Não especificamente na semana que vem, quando eu vou ter que deixar uns posts programados, já que estarei viajando). Ou quem sabe, até o fim do blog como nós o conhecemos. Dizem, sobre o casamento, que o noivo passará a ser um homem sério e acredito que homens sérios não devam ter blogs. Veja a diferença das frases.
- Meu namorado tem um blog de humor - o que significa que ele é um cara divertido, bem humorado, com certeza uma ótima pessoa.
- Meu marido tem um blog de humor - o que significa que ele é um imaturo, que precisa evoluir. Alguém que não pode ser levado a sério.

That's All Folks.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Trilha Sonora


A vida é feita de pequenos desafios inesperados que a qualquer momento podem se postar na sua frente. Não há como desviar deles, a única solução é enfrentá-los e resolvê-los. Em algum momento da sua vida, você será desafiado a escolher a trilha sonora do seu casamento.

Talvez vocês não saibam, mas as modernas técnicas de cerimonial estipulam que cada momento da cerimônia deve ser acompanhado por uma trilha específica. E sim, é bom que você escolha todas as músicas para não correr o risco de alguém olhar para você e dizer “esse tem cara de ser da galera de peão” e soltar um Leandro & Leonardo cantando “diz para mim que é você esse alguém que eu tanto quero” em algum momento crucial.

A única escolha óbvia é a música da noiva, já que quatorze entre cada dez mulheres escolheriam entrar com a Marcha Nupcial. As outras que compõe o saldo negativo imaginário talvez tivessem uma ideia diferente, como, sei lá, entrar fazendo a coreografia de Crazy in Love da Beyonce.

As demais escolhas não são necessariamente simples. Há a música da entrada do noivo e ele deve simplesmente escolher uma música que ele goste. Mas é preciso bom senso, não? Não vá entrar com a música do Pimpolho, ou com One do Metallica, ou mesmo Fake Plastic Trees do Radiohead. A primeira provocaria uma situação excêntrica de divórcio antes do casamento, a segunda faria o demônio aparecer no meio do salão e a terceira levaria a uma onda de suicídios coletivos que fariam as autoridades policiais acreditarem que o que ocorreu não foi um casamento, mas sim uma estranha cerimônia de sacrifício promovida por uma seita satânica.

É preciso escolher uma música para a entrada do pai do noivo e da mãe da noiva. De preferência que não seja Mother do John Lennon, ou Pais e Filhos do Legião Urbana. Há também a música dos padrinhos e eu imagino que seja bem engraçado soltar um “Chatuba de Mesquita” na hora dos amigos dos noivos (Bonde do Sexo Anal), ou o Show das Poderosas para a entrada das amigas da noiva.

Há a música da criancinha que leva as flores e espalhas alianças pelo caminho. Há uma música para a assinatura de papeis. Para a saída dos noivos (o dia em que eu sai de casa, minha mãe me disse, ou “Get Me Away From Here, I'm Dying”, do Belle em Sebastian). Há uma música para o começo da festa, outra para o momento do brinde e essa é a mais difícil. Precisa ser algo popular sem ser vulgar. Que tenha sentido para os noivos, mas não seja uma incógnita para os convidados. Que seja alegre, mas não festivo. Bonito, mas não triste. Uma música que praticamente não existe.

Se algum dia você já imaginou em fazer um filme, provavelmente já pensou na trilha sonora dele e talvez tenha se confundido com as opções. Pois saiba que na vida real é muito pior. E não há como fugir desse desafio.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os Desafios do Casamento, Parte II

Esperto foi o Noé, que levou toda a família e todas as espécies de animais do planeta em sua arca, respeitando uma ordem divina. Ele não teve que se preocupar em elaborar a mais épica das listas de convidados de todos os tempos. Sim, elaborar uma lista de convidado é uma tarefa árdua, difícil, que deveria ser executada apenas por diplomatas do Itamaraty ou profissionais especializados, com doutorado em Harvard.
Acho que está pronta

A lista de convidados é um elemento básico para o casamento, porque irá influenciar em quase todos os gastos futuros. Quanto mais convidados, mais entradas para o buffet, mais mesas, mais decoração, mais bebidas, mais doces, mais bem casados. Mais chances de o seu nome ficar sujo na praça e que você tenha que contrair empréstimos com agiotas que irão matar toda a sua família.

No princípio, você chuta que conseguirá fechar uma lista com 150 convidados. “Vamos dar uma folga e fazer com 170, para não correr risco”, é o pensamento do inocente, afinal, “não conhecemos tanta gente assim”. Até a hora de colocar os nomes no papel. Você descobre que só a sua família é composta por 80 membros e com certeza eles virão. Sua mãe fala de alguns tios distantes que você já nem se lembrava, mas que você tem que convidar e os namorados e namoradas dos seus primos e muitos já tem filhos que pagam pelo menos meio convite.

“Tem que convidar”. Eis a maldição que incha a lista de convidados. Depois da família você parte para os amigos e é preciso se controlar para não achar que os amigos de berçário que você não vê desde que cada um foi para sua casa, que eles jamais irão te perdoar por não terem sido convidados. O pior, acreditem, é que algumas pessoas realmente não vão te perdoar pelo não-convite, mesmo que elas nunca tenham te convidado nem para beber uma água na esquina.

Saiba que se você chamar três amigos de um determinado grupo, você precisará chamar os outros dois que andavam por perto e seus respectivos conjugues e filhos de 14 anos, tudo em nome de uma suposta harmonia do universo que poderá ser quebrada pela sua lista.

Ainda haverá o grupo de colegas de trabalho, ex-colegas de trabalho com quem se manteve alguma proximidade, pessoas que precisam ser chamadas por formalidade e educação e quando você vai ver, já fechou em 200 convidados com o buffet. E na hora de fazer a lista final, vai descobrir que já estourou esse número e a sorte é que sempre tem algumas pessoas que não aparecem. Antônio Prata já escreveu sobre o assunto e é verdade: por vezes, você se pega comemorando o fato de que um amigo não está namorando mais.

Em troca, você poderá pedir o que
quiser quando a filha dele se  casar
Há ainda os convidados especiais que são os padrinhos. Nos tempos atuais, foi criada uma cultura de que os padrinhos são quase as estrelas da noite e que é de bom tom presenteá-los com uma gravata, um vinho, uma viagem para Budapeste com tudo pago ou uma Ferrari zero quilômetro.

Convidar um padrinho também não é uma tarefa fácil, para o homem ou para a mulher. Para a noiva, porque ela provavelmente tem 45 amigas que adorariam ser madrinhas e o trabalho é para limitar esse número sem quebrar o coração de ninguém. Para o homem é diferente. A sensação é de que ninguém gostaria de ser padrinho. Quando uma mulher convida uma amiga para ser madrinha, as duas se abraçam, choram e gritam juntas de felicidade. Quando um homem convida outro para ser padrinho, geralmente escuta a seguinte resposta:
- Aff cara, sério? Porque eu? O que eu tenho que fazer?

Os convites em sua dimensão física, também são um drama a mais. Existem gráficas e pessoas especializadas em seus desenhos e o seu valor pode variar de cinco mil reais, até o infinito. Tudo vai depender do que você vai querer para aqueles pedaços retangulares de papel que invariavelmente serão descartados no dia seguinte ao casamento, sendo destinados a reciclagem, incineração, aterramento, ou entupimento de bueiros, dependendo da qualidade do serviço de coleta de lixo em seu bairro. Os convites podem ser simples papeis brancos, ou podem ser impressos com letras douradas num papel bonito (que fazem as pessoas chorarem de emoção ao acabarem de ler), serem manuscritos e pintados individualmente por Romero Britto, por feiras escandinavas, cravejados em diamantes ou de papel feito de pinho da Moldávia. Não há limites, sério.

Entregar os convites é outra pequena tarefa herculéa. Por mais que desejássemos, não há maneira dos convites se teletransportarem para as mãos de cada um dos convidados. Você vai percorrer a cidade nessa tarefa. Prepare o seu Google Maps.
Ouro retirado diretamente de grutas sul-africanas

Ainda será preciso escolher os docinhos e os bem casados, que resultam em alguns quilos a mais e uma sensação de não saber aonde ir diante da diversidade de opções. Há a compra de bebidas para drinks.

Ainda há um outro passo, que se pelo menos não provoca sofrimento financeiro, não deixa de ser cansativo: elaborar uma lista de presentes. Hoje em dia a internet facilita o processo, ao oferecer serviços pela internet. Mas, não pense que é fácil não. É algo que dura uma tarde inteira e que leva até o esgotamento físico. Tudo para que no final alguém diga que não vai dar certo, que é preciso criar a lista em uma loja física e você perca sua vida nessa tarefa.

Ah, a sensação de que nada vai dar certo. Este é o pior sentimento que envolve o casamento e o que certamente provoca os maiores danos mentais para os envolvidos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Os 10 melhores momentos do Rock in Rio

Eu já estava praticamente certo de que não ia ter post hoje no CH3, quando o meu telefone tocou. Era Pai Jorginho de Ogum me ligando. Ele disse que sabia que eu estava com dificuldades para escrever para o blog nos últimos dias. Perguntei como é que ele sabia disso e ele respondeu que bastava ler os meus textos para perceber. Eu disse que sim, era verdade. Não está sendo fácil conciliar trabalho, preparativos para o casamento, reforma de uma casa e escrever para o blog. Ele me disse para ficar tranquilo porque ele ia me dar um texto. Ele ia me dizer que previu quais seriam os 10 momentos mais marcantes do Rock in Rio 2015, que a essa altura, já começou. Vamos a eles.

1) Tributo a Cássia Eller, polêmica roqueira que morreu há 15 anos emociona o público que pode cantar grandes hits como Segundo Sol e Malandragem.

2) O Queen volta a Cidade do Rock após 30 anos e emociona o público com os grandes hits. Destaque para a homenagem a Freddie Mercury e a execução de Love of My Life, que emocionou o público há 30 anos.

3) A noite do metal. O público de camisas pretas e cabelos cumpridos balançou a cabeça ao som pesado de bandas como Metallica e Korn. Em sua terceira passagem seguida pelo Rock in Rio, o Metallica pediu música no Fantástico.

4) Os Paralamas do Sucesso voltam ao palco em que se consagraram em 1985 e cantam hits de todas as épocas.

5) Rod Stewart emocionou o público com suas músicas românticas e ainda emocionou o público com uma homenagem à música brasileira, cantando Jorge Ben Jor.

6) Os mascarados do Slpiknot levaram o público ao delírio com seu som pesado e potente.

7) Sam Smith, o astro internacional emocionou o público com suas baladas românticas e ainda fez uma homenagem a música brasileira, cantando Garota de Ipanema.

8) O A-Ha volta ao Rock in Rio após 24 anos e fez vibrar o público de várias épocas com seus sucessos (take on me).

9) Katy Perry, a rainha do pop levou o público ao delírio com seus hits e sua sensualidade.

10) Homenagem ao Rio de Janeiro. O público vibrou com as grandes canções e as músicas que marcaram época na cidade maravilhosa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Galera do Snap

Sempre há um momento em que você para e pensa que isso não é mais para você. Uma novidade está além da sua compreensão, você já está velho demais para isso. Não importa se você tem 15 ou 70 anos: um dia esse sentimento se abaterá sobre nossas cabeças. Deve ter acontecido com muitas pessoas depois da invenção da roda, do fogo, da televisão e da internet. Aconteceu comigo com o Snapchat.

Para quem não sabe, o Snapchat é a nova rede social do momento, presente em todos os smartphones de quem tem menos de 25 anos e em alguns dos que tem mais de 25 anos também. Ao contrário de outras redes sociais, que são marcadas pelo agrupamento de interesses ou de fatos cronológicos, o Snapchat é uma rede social em que tudo tem data para acabar. O que é postado por lá é automaticamente apagado após 24 horas e quem viu alguma coisa uma vez, não pode ver de novo.

Há também um limite de tempo para o material postado, geralmente bem curto. Material, aliás, que será apagado inclusive do seu celular. O Snap, para os íntimos, não é uma rede social para a história.

Acompanhe o perfil de alguém que seja ativo nessa rede social. Você vai acompanhar a vida da pessoa em uma série de vídeos de dez segundos, mostrando ele curtindo a balada, ou as baladas, aprontando altas confusões e sensualizando por aí. Tudo muito rápido, com muitos cortes, se você não prestar atenção, já era. Tudo meio caótico.
Alexander Almeida também dizia que para ser o Rei do Camarote era preciso ter o Instagram, afinal, a rede social de fotografias metidas a besta era a meca do hedonismo. Tal posto já foi tomado pelo Snapchat. Imaginem o Snap do Rei do Camarote.

De certa forma, o Snapchat é um espelho desses tempos caóticos em que vivemos, em que tudo é instantâneo e frenético e a história se reescreve a cada dia. Não há tempo para viver as memórias e o passado é sempre muito distante. Sua vida pode ser resumida em um minuto de muita agitação.

Pra mim, não deu. No meu tempo as coisas não eram assim. Me sinto como um homem pré-histórico que viu o fogo sendo criado e pensou que isso era demais para ele. Como meu pai que toda vez que vai escrever um email pede ajuda e reclama do computador.

(Há também quem diga que o Snapchat é um rede propícia para a propagação de fotos sensuais, os chamados nudes, já que nada vai ficar armazenado em lugar nenhum).

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cheques Gigantes

Ao conquistar o título do US Open na noite deste domingo, o sérvio Novak Djokovic levou para casa um troféu e o prêmio de uma caralhada de dólares. Mais do que o valor, o que chamou a atenção foi a maneira como o prêmio foi entregue: um cheque. Sim, um singelo envelope contendo um cheque assinado sabe-se lá por quem, preenchido com os valores milionários.

Impressiona que em pleno 2015, com internet e diversas formas de movimentar dinheiro, que alguém tenha que preencher um cheque de 3 milhões de dólares e entregar para um jogador, que sai da quadra com aquele pedaço de papel caro. Será que ninguém tinha como pegar a conta do Djokovic e transferir o dinheiro para lá? Bem mais fácil para todo mundo.

Se eu fosse o jogador, eu não aceitaria o prêmio. Nos tempos atuais é difícil arrumar um lugar que aceite pagamento por cheque, os que aceitam, geralmente só o fazem mediante um cadastro interminável que exige inclusive exame de DNA. E para piorar, o cheque entregue ao tenista foi um cheque normal, desses que as pessoas destacam do talão. Nem foi um daqueles cheques gigantes.

O cheque gigante deveria ser uma das principais instituições da família brasileira. É um clássico dos torneios de vôlei de praia, torneios na praia em geral disputados durantes os Jogos Mundiais do Verão, e do Domingão do Faustão. O cidadão ganha um prêmio de vinte mil reais, ou 500 mil reais, e recebe aquele cheque gigante, do tamanho de uma porta com os valores assinados.

Sempre imaginei o que é que acontece com esse cheque depois. Imagino que ele não é aceito no comércio. Não dá para você ir a uma loja de material de construção, comprar vinte mil reais em produtos e na hora do pagamento tirar aquele cheque do porta malas e perguntar se tem troco.

Deve ser ainda mais difícil conseguir fazer o depósito no banco. Eu nunca tentei, mas imagino que seja bem difícil conseguir colocar aquele trombolho dentro do espaço destinado a envelopes no caixa eletrônico. No mínimo você vai ter que ir até o caixa convencional - após parar o seu carro longe (todos nós sabemos que é difícil arrumar estacionamento para bancos [e não imaginamos que você queira ir de ônibus com aquele cheque enorme ocupando um espaço danado {se a prática fosse comum, acredito que algum vereador criaria um lei proibindo o transporte de cheques gigantes em transporte público}]) - e ficar naquela fila enorme esperando sua vez. Não sei, alguém poderia contar como é essa experiência.

O banco também deve ter uma dificuldade enorme para armazenar esses valores. Imaginem-nos abrindo o cofre para colocar um cheque gigante lá dentro. O carro forte chegando e recolhendo o enorme retângulo. Com sorte, o cheque gigante pode ser usado como escudo em caso de tentativa de assalto.

Tudo bem, você pode dizer que esses cheques são meramente simbólicos e que ninguém os utiliza no comércio, seu escroto sem graça que tem a mania de tentar esfregar as orelhas nos testículos.

Imagino então a casa dos esportistas multicampeões dos JMV. O tanto de cheques gigantes que eles têm pela casa. A Adriana Behar e a Shelda devem ter cheques pregados nas portas dos quartos, grudados nos tetos, pendurados nas paredes, viraram tampo de mesa. Definitivamene não deve ser fácil guardar um cheque gigante, entre outras coisas, porque não sei de que material eles são feitos.

Mas, mesmo assim, acredito que os cheques gigantes deixariam o mundo mais divertido, caso fossem finalmente adotados como moeda oficial. O dia do pagamento na firma seria muito no mínimo curioso, assim como as ferramentas de transparência, já que saberíamos quanto cada um ganha. Acho que coibiria até os assaltos, porque como é que alguém foge carregando um cheque gigante? Não dá.

Seria uma moeda alternativa mais eficiente do que os cigarros no presídio, ou que os chicletes na escola, espelho para índios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O ponto da tragédia

Na última segunda-feira eu me dirigi até o município de Várzea Grande, nas proximidades de Cuiabá. Não que eu me orgulhe disso ou sinta algum prazer por essa situação. Trato apenas como uma obrigação que por vezes temos que cumprir. Fui visitar um velho amigo do blog, o Elemento X, e toda vez que eu o encontro, acontece alguma história que vira post no blog. Foi ele que confeccionou um mapa equivocado e me fez parar em uma estrada com destino a morte. Foi ele que presenciou uma briga de anões pela janela de um ônibus.

A região metropolitana de Cuiabá é mundialmente famosa pelo calor infernal e seca interminável. No domingo, véspera do feriado de sete de setembro, choveu na região pela primeira vez após quase dois meses. Na verdade, não chegou a ser uma Chuva, alguns poucos e esparsos pingos bravamente conseguiram chegar até o chão. Assim, não havia nenhum sinal do que estava por vir na segunda-feira.

Saí da minha casa com um vento relativamente forte, que em dois minutos se transformou numa chuva de intensidade média, que durou cerca de oito minutos e quarenta e seis segundos. Se vocês me perguntarem se foi uma das chuvas mais impressionantes que eu já vi em minha vida, eu diria que jamais. Ao longo do caminho, passei por algumas poças de água e muitas folhas de árvores derrubadas pelo vento.

Até chegar a rotatória da padaria citada no texto sobre estar perdido, linkado ali em cima. A partir dali o cenário era de caos, miséria e desolação. Um furacão havia passado por ali. Árvores despencadas pela rua, postes caídos, telhas espalhadas pelo chão, um posto de gasolina veio ao chão e muros caíram. Vocês imaginam o que é um muro inteiro cair pela chuva? Não havia um único fio de luz ainda preso aos postes. Todos estavam derrubados. Aquela rotatória era o marco definitivo que separava a civilização do caos.

Lembro quando eu era criança e presenciei uma cena insólita. Chovia apenas a partir da ponte do Rio Coxipó. À distância era possível perceber aquela massa de água caindo logo após a ponte, enquanto que do lado de cá tudo permanecia seco. Apenas uma outra vez eu vi uma cena assim, com a água caindo no alto de uma avenida, enquanto que a parte de baixo continuava seca.

Todo e qualquer fenômeno natural tem uma área de abrangência. A chuva cai em uma determinada área e sempre haverá uma linha divisória entre onde choveu e onde esteve seco. O mundo é enorme e a população do planeta se concentra em menos de 10% do território terrestre, pequenas ilhas no meio do nada (por nada, leia-se: oceanos, florestas, desertos, descampados). É possível imaginar que a imensa maioria das chuvas irá ter sua área limite em um desses territórios inabitados. Considerando ainda o horário em que a chuva caí e o deslocamento das pessoas nas áreas urbanas, dá pra dizer que a chance de presenciar o exato limite da chuva é baixo. É mais fácil do que ganhar na megassena e do que ser antigido por um raio, mas não é exatamente fácil.

E em outros fenômenos mais raros, no entanto mais devastadores? Quando o furacão Katrina passeou pelo sul dos Estados Unidos, existiu um determinado ponto que dividiu a tragédia suprema de um dia de chuva forte. Talvez, de um lado da rua tudo tenha voado pelos ares, enquanto que do outro só restou umas goteiras.

É possível que um morador da Indonésia tenha acordado mais tarde no dia 26 de dezembro de 2004 e tenha visto que o portão da sua casa tinha ido embora, mas que a água chegou até a metade do quintal. A terra pode ter tremido até o banheiro da sua casa, mas no quarto não. As lavas do vulcão derreteram o muro de trás da sua casa, mas o resto permaneceu intacto. Nas proximidades de Hiroshima, um morador sentiu um sopro um pouquinho mais quente pela janela, seu vizinho disse que não percebeu nada e eles voltaram a lavar a louça acumulada na pia.

Centímetros podem separar a vida da morte.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Notícia da Independência

Todos nós sabemos como é que ocorreu a independência do Brasil. No dia 7 de setembro de 1822 Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, às margens do Rio Ipiranga, montado em seu cavalo, ergueu sua espada e gritou "Independência ou Morte".
Esse quadro é bem curioso. Esses caras com os cavalos quase caindo na água, um cara bem no canto direito não estava sobre o seu cavalo e estava virado para cerca e o pior: esse capiau do canto esquerdo, com seus boizinhos carregando toras e olhando a cena inteira com cara de "que porra é essa"

No nosso imaginário escolar, pensamos que a partir de então estava tudo resolvido, pensamos em como é que esse cara não teve essa ideia antes. O povo foi a rua festejar, alguns pegaram em armas porque ansiavam por esse momento de pegar em armas e nós promovemos uma carnificina em solo nacional, esquartejando portugueses, confiscando valores dos opositores e o que fosse preciso em troca da soberania nacional.

Bem, a questão da guerra e as medidas tomadas para garantir a independência também no campo diplomático são amplamente divulgadas em livros didáticos. Mas há uma questão muito curiosa nisso tudo. Como é que a notícia se espalhou na época? Eis algo muito complexo.

Hoje em dia é fácil espalhar uma notícia. Mandamos via WhatsApp para alguém, celulares vão apitando com a notícia, o Globo News começa a exibir imagens aéreas distantes do fato, por vezes temos um plantão da Globo, os sites começam a replicar a notícia, mais mensagens do WhatsApp, compartilhamento de notícia no Facebook, logo surgiriam textos opinativos no Facebook e aí já era.

Se a independência do Brasil fosse declarada hoje é justamente assim que o processo aconteceria. Pedro de Alcântara gritaria, o pessoal que estava em volta espalhava no Whatsapp, mais um pouco o helicóptero do GloboNews mostraria os cavalos de Francisco António e sua comitiva, surgiria um plantão na Globo, os sites começam a replicar a notícia, mais mensagens no WhatsApp, compartilhamentos da notícia no Facebook, um pronunciamento do Imperador de Portugal transmitido ao vivo, textos pró e contra independência no Facebook e finalmente as pessoas pegariam em armas para promover o glorioso derramamento de sangue.

Anos atrás as notícias ganhariam os jornais do dia seguinte, seriam espalhadas por telegramas e tudo mais. Mas, em 1822? Na época, não existia nenhuma infraestrutura de comunicação como nós conhecemos hoje. Em 1822 o Brasil era muito menor do que hoje, mas já existiam cidades do Rio Grande do Sul até Macapá. Imaginem, Macapá fica longe pra caramba do Riacho Ipiranga. Para a notícia chegar até lá era preciso que alguém se dirigisse até a cidade e os meios de transporte eram apenas cavalos e barcos para percorrer mais de três mil quilômetros. Imagino que eram pelo menos dois meses para que o cara chegasse em Macapá, tempo em que ele poderia morrer pelos mais diversos motivos: doenças tropicais, diarreia, malária, infecção generalizada, desnutrição, fraturas diversas, afogamento, devorado por índios canibais. Ele ainda poderia finalmente chegar em Macapá e o pessoal não acreditar nele. E pior, depois ele teria que fazer o caminho de volta para avisar que o pessoal de lá já tava sabendo. Aposto que já era 1823 quando o processo foi concluído e nesse tempo, imagina quanta coisa poderia ter acontecido? O imperador Cipriano Serafim poderia ter desistido da ideia, poderia ter dado qualquer merda e o mensageiro teria desperdiçado sua vida.

E para comunicar Portugal? Dom Pedro precisou escrever uma carta e mandar em um barco - se bobear, precisou esperar um barco que ia para Portugal. A mensagem foi entregue para os lusitanos, que então responderam e mandaram a resposta em outro barco, contendo todas as exigências. Então essa troca se estendeu por tanto tempo, que eu imagino que a carnificina já corria solta aqui e Dom Pedro resolveu abandonar essa porra e ir para Portugal e participar de uma guerra sucessória por lá, deixando seu filho de cinco anos comandando o Brasil.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Outros Animais

Vez por outra eu frequento um parque estadual aqui de Cuiabá e sempre me deparo com uma placa que me faz rir internamente. Tenho a impressão de que ninguém presta atenção no humor do comunicado, já que todos estão inebriados em suas corridas ou caminhadas ainda em recuperação do efeito de algumas substâncias alucinógenas. A placa a que eu me refiro é essa daqui.

Vocês não devem ter percebido, uma vez que imagino que não devam ser especialistas em parques de Cuiabá, que esse não é o parque que eu frequento. Mas, devem ter lido na placa que ela obedece a uma Lei Estadual, portanto, todos os parques que existirem no território mato-grossense são obrigados a ostenta-la. É uma contribuição para o humor.

Leiam com atenção: Não é permitido transitar com animais domésticos e selvagens, ou qualquer espécie animal.

Que não seja permitido transitar com animais domésticos, tudo bem. A lei quer proibir as pessoas de irem até o parque com seus cachorrinhos de estimação, gatinhos, canários ou hamisters. Ok.

Agora, animais selvagens? Quem é que resolve transitar em um parque com um animal selvagem? Coloca o crocodilo na coleira e vai dar uma voltinha no parque? Solta o urso panda pra cagar no gramado enquanto faz exercícios aeróbicos.

Pra piorar, a frase não é bem construída e dá margens a interpretação. Seriam, no caso, animais domésticos e selvagens? A domesticidade e a selvageria coexistiriam dentro de um único corpo animal? Um pitbul, ou um daqueles jacarés que fazem a festa dos turistas no pantanal? Não entendi.

Mas o grande charme da placa, o seu grande momento, é a conclusão. “Ou qualquer espécie animal”. O “ou”, vocês devem saber, é uma conjunção que expressa alternância. Portanto, se tem “ou”, significa que o complemento da frase é contrário ao que foi dito antes e então podemos dizer que animais selvagens e domésticos estão de um lado, enquanto qualquer espécie animal está do outro.

Quais seriam esses animais, essas espécies que não são domésticas ou selvagens? Seriam animais ainda a serem descobertos? Animais que podem ser inventados em laboratórios ou dentro da mente humana? Seres humanos? Possivelmente escravizados? Alienígenas.

Simplesmente não há resposta ou explicação para a interpretação dessa placa. E olha que é uma Lei.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Jogos Olímpicos de Cuiabá

Foi uma surpresa danada quando aquele belga abriu o envelope e de dentro dele retirou o nome de Cuiabá. Ninguém esperava por aquilo, Cuiabá nem era cidade candidata a receber os Jogos Olímpicos de 2016, todos falavam que a escolha deveria cair sobre Rio de Janeiro ou Madrid.

Passado o espanto inicial e algumas piadas com Campo Grande, todos passaram a pensar no que fazer, onde é que os jogos seriam realizados, o que precisaria ser construído para receber os maiores atletas do mundo nas mais variadas modalidades. As discussões foram longas e intensas. A cidade recebeu a Copa do Mundo apenas dois anos antes e quando todo mundo percebeu as Olimpíadas iriam começar e nada havia sido feito.

Não dava para voltar atrás. Em toda a história, os Jogos Olímpicos foram cancelados apenas em ocasiões especiais, que envolveram a morte de milhões de pessoas em conflitos mundiais. Deu-se então um jeito e em agosto de 2016 a competição começou. Nem um único centavo foi gasto em obras de infraestrutura esportiva.

As competições de natação foram realizadas na Associação Atlética Banco do Brasil e pela primeira vez na história as disputas da natação aconteceram em piscinas de 25 metros. Para os saltos ornamentais e para o nado sincronizado foi aproveitada a estrutura da Universidade Federal de Mato Grosso. Já o polo aquático foi disputado na piscina do complexo da Arena Pantanal e alguns atletas morreram cozinhados na água,

As provas de canoagem foram realizadas na Baía de Chacororé, enquanto que as de Canoagem Slalom foram disputadas nas corredeiras de Jaciara. As provas do Remo foram realizadas no Rio Cuiabá, enquanto que a Vela foi levada até a represa de manso, onde não ventou tanto assim. Ainda na lagoa de manso foram disputadas as provas da maratona aquática.

Para as disputas do tiro com arco e tiro com espingardas, foram montados alguns alvos na estrada para Santo Antônio do Leverger, onde ninguém correria o risco de ser atingido por uma bala perdida.

A UFMT recebeu também todos as disputas do atletismo, aproveitando o gramado e a uma pista que dizem, seria construída em volta desse gramado. O ginásio da universidade ainda recebeu os jogos do basquete, enquanto que o vôlei foi disputado no ginásio Aecim Tocantins e o Handebol no ginásio Robertão. As disputas da ginástica, por sua vez, foram realizadas no ginásio Fiotão, na vizinha cidade de Várzea Grande. Ah, dizem que o Badminton foi disputado nas quadras menores da UFMT, mas as pessoas acharam que eram apenas estudantes uniformizados brincando de peteca com muita competitividade.

O Parque de Exposições da Acrimat recebeu as disputas do Hipismo, aproveitando que o local já tem um cheiro característico de esterco. O complexo esportivo ao lado do Parque recebeu as provas da Marcha Atlética.

O futebol foi disputado na Arena Pantanal, é claro, sendo que os jogos porventura disputados no mesmo horário foram parar no lendário estádio Dutrinha. As competições do tênis aconteceram no clube Monte Líbano, enquanto o tênis de mesa foi disputado no salão de jogos do Hotel Fazenda Mato Grosso.

Todas as competições de luta foram disputadas no Palácio das Artes Iusso Sinohara, que as pessoas nem sabiam que existia. O ciclismo de estrada também foi levado para a estrada de Santo Antônio do Leverger, felizmente fora do horário das disputas do Tiro. O Mountain Bike foi para a trilha do Véu da Noiva em Chapada dos Guimarães, enquanto as provas de perseguição foram em uma pista improvisada que utilizou a estrutura do Viaduto da Sefaz.

As opções de lugares da cidade já estavam se esgotando e ainda haviam vários esportes na lista. O golfe foi parar em um clube de golfe de ricos que existe por aí. O Rugby foi disputado no COT do Pari, que finalmente descobriu uma função. O Hóquei Sobre a Grama foi parar no campo da antiga Escolinha do Gaúcho. O Pentatlo moderno aproveitou as estruturas já existentes, já que ele disputado em apenas dois dias e com modalidades que já tinham suas sedes.

Restava o vôlei de praia, disputado em uma quadra de areia nas margens do Rio Cuiabá. O levantamento de peso, disputado em uma academia em um shopping da cidade. Por fim, o mais complicado foi o triatlo, que obrigou os atletas a nadarem por 1,5 km na lagoa do parque Tia Nair, a pedalarem 43 km de bicicleta em uma volta surreal por toda a cidade e os últimos 10km de corrida que terminaram em outra cidade, provavelmente.

Havia no último dia a maratona e vocês não sabem como foi difícil estabelecer um trajeto de 42 km entre a Arena Pantanal, ponto de partida, e a UFMT, ponto de chegada e da festa de encerramento comemorada com um grande sarau literário dos estudantes do Instituto de Linguagem.