segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Notícia da Independência

Todos nós sabemos como é que ocorreu a independência do Brasil. No dia 7 de setembro de 1822 Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, às margens do Rio Ipiranga, montado em seu cavalo, ergueu sua espada e gritou "Independência ou Morte".
Esse quadro é bem curioso. Esses caras com os cavalos quase caindo na água, um cara bem no canto direito não estava sobre o seu cavalo e estava virado para cerca e o pior: esse capiau do canto esquerdo, com seus boizinhos carregando toras e olhando a cena inteira com cara de "que porra é essa"

No nosso imaginário escolar, pensamos que a partir de então estava tudo resolvido, pensamos em como é que esse cara não teve essa ideia antes. O povo foi a rua festejar, alguns pegaram em armas porque ansiavam por esse momento de pegar em armas e nós promovemos uma carnificina em solo nacional, esquartejando portugueses, confiscando valores dos opositores e o que fosse preciso em troca da soberania nacional.

Bem, a questão da guerra e as medidas tomadas para garantir a independência também no campo diplomático são amplamente divulgadas em livros didáticos. Mas há uma questão muito curiosa nisso tudo. Como é que a notícia se espalhou na época? Eis algo muito complexo.

Hoje em dia é fácil espalhar uma notícia. Mandamos via WhatsApp para alguém, celulares vão apitando com a notícia, o Globo News começa a exibir imagens aéreas distantes do fato, por vezes temos um plantão da Globo, os sites começam a replicar a notícia, mais mensagens do WhatsApp, compartilhamento de notícia no Facebook, logo surgiriam textos opinativos no Facebook e aí já era.

Se a independência do Brasil fosse declarada hoje é justamente assim que o processo aconteceria. Pedro de Alcântara gritaria, o pessoal que estava em volta espalhava no Whatsapp, mais um pouco o helicóptero do GloboNews mostraria os cavalos de Francisco António e sua comitiva, surgiria um plantão na Globo, os sites começam a replicar a notícia, mais mensagens no WhatsApp, compartilhamentos da notícia no Facebook, um pronunciamento do Imperador de Portugal transmitido ao vivo, textos pró e contra independência no Facebook e finalmente as pessoas pegariam em armas para promover o glorioso derramamento de sangue.

Anos atrás as notícias ganhariam os jornais do dia seguinte, seriam espalhadas por telegramas e tudo mais. Mas, em 1822? Na época, não existia nenhuma infraestrutura de comunicação como nós conhecemos hoje. Em 1822 o Brasil era muito menor do que hoje, mas já existiam cidades do Rio Grande do Sul até Macapá. Imaginem, Macapá fica longe pra caramba do Riacho Ipiranga. Para a notícia chegar até lá era preciso que alguém se dirigisse até a cidade e os meios de transporte eram apenas cavalos e barcos para percorrer mais de três mil quilômetros. Imagino que eram pelo menos dois meses para que o cara chegasse em Macapá, tempo em que ele poderia morrer pelos mais diversos motivos: doenças tropicais, diarreia, malária, infecção generalizada, desnutrição, fraturas diversas, afogamento, devorado por índios canibais. Ele ainda poderia finalmente chegar em Macapá e o pessoal não acreditar nele. E pior, depois ele teria que fazer o caminho de volta para avisar que o pessoal de lá já tava sabendo. Aposto que já era 1823 quando o processo foi concluído e nesse tempo, imagina quanta coisa poderia ter acontecido? O imperador Cipriano Serafim poderia ter desistido da ideia, poderia ter dado qualquer merda e o mensageiro teria desperdiçado sua vida.

E para comunicar Portugal? Dom Pedro precisou escrever uma carta e mandar em um barco - se bobear, precisou esperar um barco que ia para Portugal. A mensagem foi entregue para os lusitanos, que então responderam e mandaram a resposta em outro barco, contendo todas as exigências. Então essa troca se estendeu por tanto tempo, que eu imagino que a carnificina já corria solta aqui e Dom Pedro resolveu abandonar essa porra e ir para Portugal e participar de uma guerra sucessória por lá, deixando seu filho de cinco anos comandando o Brasil.

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