segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mensagens Cifradas


Vez por outra os telejornais nos mostram escutas telefônicas feitas com algum tipo de contraventor. Escutas incriminadoras, com trechos reveladores, que condenarão o criminoso. Geralmente, são conversas bem diretas e frias. Os traficantes conversam como se estivessem em um papo trivial sobre o seu dia de trabalho. Bem, não deixa de ser.
- Então, você que vai levar o pó pro Paraguai?
- Eu mermo. Mas ó, to precisando de 20 mil pra levar o bagulho, tá ligado?
- Tá caro heim? Lembra que da última vez eu que apaguei os vintes policia pra te dar passagem.
Minha dúvida sempre foi: como encontrar uma garrafa em uma ilha deserta?

Mas, curioso mesmo é quando os criminosos conversam através de mensagens cifradas. Sim, o primeiro diálogo não era cifrado.
- Então, nossa ovelha foi interceptada no caminho pro campo. Quatro onças.
- Pegaram toda lã?
- Sim. A ovelha tá no cercado.
- Temos que sedar as onças.

Uma conversa cifrada tem o objetivo de despistar os investigadores. Dificultar a obtenção das provas. Mas, por serem tão surreais, acabam facilmente descobertas. Que raio de traficante agroindustrial é esse? As onças sabem tosar? É claro que ovelha é o transportador da droga, que a lã é a cocaína, que as onças são os policias militares, que sedar significa matar e que o campo é a Bolívia.

Os traficantes tentam criar as mais complicadas cifras, na tentativa de deixar a conversa completamente inteligível. Como nessa conversa, interceptada entre dois criminosos do Morro da Papuda.
- Foi a cotovia, arauto da manhã e não o rouxinol. Olha as riscas invejosas que tecem um rendado nas nuvens que vão partindo lá para os lados do nascente. As velas noturnas consumiram-se e o dia, bem-disposto, põe-se nas pontas dos pés sobre os cimos nevoentos dos morros. Devo partir e viver ou fico para morrer.
- Essa luz não é a luz do dia, eu sei que não é, eu sei. É só algum meteoro que se desprendeu do sol, enviado para esta noite portador de tocha a teu dispor e iluminar-te em teu caminho para Mântua. Portanto, fica ainda, não precisa partir.
- Que me prendam! Que me matem! Se assim o queres, estou de acordo. Digo que aquele acinzentado não é o raiar do dia; antes, é o pálido reflexo da lua. Digo que não é a cotovia que lança notas melodiosas para a abóbada do céu, tão acima de nossas cabeças. Tenho mais ânsia de ficar que vontade de partir. — Vem, morte, e seja bem-vinda!

Mais uma vez, a interpretação é simples. Percebe-se que na conversa acima os dois traficantes conversam por telefone se um deles deve deixar o seu posto. Discutem se o barulho do carro na rua é de um comparsa do grupo – a cotovia – ou do rouxinol, que no caso seria a Polícia Militar. O primeiro traficante observa que a luz foi cortada e pensa em partir para o alto da favela, os nevoentos morros. O outro traficante tenta convencê-lo que ele está numa emboscada. Meteoro é uma expressão para se referir a tiros de fuzil e, iluminar-te, significa matar-te. O primeiro traficante então resolve ficar no lugar, mesmo com o risco de ser preso, ou de ser morto, acatando a ordem do seu superior. A máfia é assim.

A Polícia Federal sempre obtém sucesso em suas interpretações. Qualquer diálogo cifrado pode ser desvendado pela alta cúpula da Inteligência brasileira.
-Nunca deixe de usar filtro solar. Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta: usem o filtro solar! Os benefícios a longo prazo do uso de Filtro Solar estão provados e comprovados pela ciência. Já o resto de meus conselhos não tem outra base confiável além de minha própria experiência errante.
- Brother and sister, Together we'll make it through. Someday a spirit will take you and Guide you there. I know you've been hurtin', but I've been waiting to be there for you and I'll be there just helping you out whenever I can.

Bem, exceto quando eles interceptam discursos do Pedro Bial por engano.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

La Garantia Soy Yo

Da série: direitos do consumidor

Talvez as gerações mais novas não saibam. Antes do advento do Rapidshare e do finado Megaupload, baixar filmes, músicas e jogos da internet era uma tarefa bem difícil. Sim, a velocidade da internet também era menor. Pois, nessa época existia um lugar chamado videolocadora. Um lugar de celebração pagã, digo, um lugar em que você se cadastrava, fazia uma carteirinha e então, poderia alugar qualquer título da loja.

E existiu um tempo em que nem sequer os DVDs existiam. Um tempo em que só se conseguia acesso as últimas produções de Steven Spielberg através de elementos pré-históricos conhecidos como fitas VHS. Elas funcionavam em aparelhos de videocassete e, assim que você terminava de assistir ao filme, você precisava rebobinar a fita. O que aconteceria se você não rebobinasse? Não queira saber.
Objeto encontrado em escavações no Novo México

Você então alugava a fita dupla de Titanic (provável que você tenha reservado o filme, de tão procurado que ele era). Chegava em casa, ligava a TV da sala, preparava a pipoca (sim, naquela época você não tinha a preocupação de economizar energia) e criava aquela expectativa. Adiantava os trailers e então… a frustração. A fita estava bichada, cheia de interferência, era impossível assisti-la. E se você tivesse azar – é provável que tivesse – a fita ainda enroscaria no fundo do aparelho, fazendo com que a presença de um cirurgião fosse necessária.

Então, você voltava até a videolocadora, estafado. Informava que a fita não estava rodando. O atendente te olhava como se você fosse um débil mental e colocava a fita no aparelho, com ar desafiador. E é claro, a fita funcionava miseravelmente. O atendente te olhava com desprezo e noticiava que ela estava normal.

O aparelho de videocassete da videolocadora é um dos grandes mistérios da história. Imagino que, se você pintasse toda a fita com errorex, ela funcionaria normalmente sob o olhar blasé do atendente. Tudo isso porque os objetos têm sentimentos. O sentimento de te sacanear. O controle quebrado que funciona normalmente na loja. O celular enguiçado há cinco dias que volta a funcionar milagrosamente com o toque do técnico.

Está funcionando normalmente, senhor
E quando um objeto está na garantia? Objetos na garantia adoram te colocar em situação constrangedora. O celular vai pifando lentamente e sempre volta da garantia como se fosse desfibrilado. Você é informado que nada precisou ser feito, apenas uma limpeza de contatos. Até o dia seguinte ao prazo da garantia, quando apenas um conserto milionário poderá lhe recuperar. Aliás, não se confunda, a limpeza de contatos não significa que você deva excluir sua agenda.

E com os carros? Quando ele estava na garantia, todas as suas peças funcionavam perfeitamente. E esse barulho no porta-malas? É normal, são seus ouvidos decrépitos se degenerando. Mas, quando a garantia vence: “Senhor, precisamos trocar os amortecedores, os freios, a suspensão, a bomba de combustível, o motor e a embreagem. São 15 mil reais”.

Por isso, é muito melhor quando você vai no Paraguai. Você pode comprar um notebook e descobrir que dentro dele existe apenas um tijolo. Mas a garantia será seu vendedor. É uma questão de palavra. Se ele não cumprir, você estará livre para praticar a justiça com as próprias mãos e garantir um final feliz.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dia Sem Globo


Hoje é o Dia Sem Globo. Um dia fadado ao fracasso porque soa incrivelmente vazio. Se ele fosse nomeado como “Dia Internacional Sem Globo” já seria melhor, teria uma apresentação mais favorável. E no que consiste este dia? Bem, acusando a Rede Globo de manipular a informação, uma série de revolucionários propõe mudar o mundo com a difícil ação de não assistir a Globo.

Eu realmente acho que a Globo tem muita coisa odiosa em sua programação. A mania de utilizar “ai, se eu te pego” em dezenas de matérias, a cobertura esportiva feita para retardados mentais, as matérias metidas a poéticas, a promoção dos seus eventos comerciais travestidos de jornalismo. E tudo isso com a maior audiência do país.

Mas, ai que está. A audiência é maior, justamente porque eles têm uma qualidade melhor. É duro agüentar o Tande fazendo papel de palhaço nos programas? Aquele tom ufanista que confere ares de confronto pela pátria a qualquer mundialito de Beach Soccer? Sim. Mas o que dizer da transmissão do Pan na Record? Ou dos comentários polêmicos do craque Neto, Denílson e tantos outros no programa do Milton Neves?

Acho que é importante que todos nós lutemos por um mundo melhor e um mundo melhor passa pela ausência da Rede Globo em nossas vidas. Devemos começar a revolução e devemos começar hoje. O que? O Mengão joga hoje? Só vai passar na Globo? Ih rapaz... bem, a revolução pode começar amanhã”. Robson Santana, líder estudantil.

A Globo produz o Big Brother que é uma porcaria? Sim. Mas a Record não tem A Fazenda? A Bandeirantes não propõe esse surreal Mulheres Ricas? Para cada programa ruim que a Rede Globo produz, suas concorrentes fazem um ainda pior. Ou os revolucionários de sofá não acham que os outros canais não defendem seus interesses?

Porque vocês não vão adiante? Ao invés de ficarem iguais a mulherzinhas revoltadas falando mal da Globo, porque vocês não propõe logo o Dia Mundial sem Televisão, heim? Provavelmente a timeline do Facebook de vocês deve ter informação de uma qualidade muito melhor, não é mesmo?

Pripriiiim!!
Rede Globo? Não sei, nunca vi. Sou mendigo”. André, mendigo.

E o que vocês vão fazer quando estiverem no centro da cidade e as televisões do Ponto Frio estiverem ligadas na Globo? Vocês irão sair correndo com as mãos nos ouvidos? Quebrarão as televisões? Desligarão a rede elétrica da loja? Até que ponto vocês querem levar a revolução de vocês? Trabalho mesmo vocês não querem né? Acham que deixar a TV ligada o dia todo no Roda Viva e no Datena vai mudar o mundo?

E os eventos promovidos pela Globo? Sua repercussão na internet? Como vocês vão boicotar elas? Vocês estão dispostos a matar ou morrer por sua revolução? Não? Então, o evento já será fracassado não apenas pelo nome vazio. Não se promove uma revolução sem sangue, suor e lágrimas. Com ênfase no sangue.

Olha, eu só assisto a globo pelo Big Brother. E só assisto o Big Brother para ver quem vai sair na Playboy depois. Eu gosto de spoilers”. Roberto Santana, irmão do Robson.

E é tão importante e difícil para vocês viver sem a Globo? Vocês realmente prestam atenção nisso? Não é mais fácil cada um assistir o que quer? Todas as respostas no próximo Globo Repórter. Ou talvez no Domingo Espetacular, se isso deixar vocês contentes, menininhas.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Lead da Falsa Barriga de Quadrigêmeos


O caso da pedagoga Maria Verônica comoveu o país. Em um dia, ela apareceu na televisão portando uma senhora barriga, dentro da qual estariam quatro crianças em uma gestação de oito meses. Uma barriga assustadora, que mais parecia alguma bola de fisioterapia, um balão meteorológico. Maria Verônica já havia escolhido os nomes, feito o enxoval, escolhido os padrinhos. Chamava a atenção pelas ruas.

Aos poucos, a história começou a ficar estranha. Sua barriga parecia muito leve. Seu marido confessou que havia feito uma vasectomia. Ela não deixava ninguém encostar em seu ventre. Seu ginecologista afirmou que ela não estava grávida em agosto e não poderia estar no tempo de gravidez afirmado. Verônica sumiu, começou a ser representada pelo seu advogado.

Sem ter para onde escapar, ela confessou que não estava grávida. Ao invés de quatro filhos, ela carregava uma bola feita de plástico e pano. Imagens mostravam ela caminhando normalmente, dia desses, com um corpo normal.

O que leva uma pessoa a fazer isso? Por quais motivos? O CH3 dá a resposta, respondendo todos os elementos do lead jornalístico.

Porque fazer uma falsa barriga de quadrigêmeos?
Por dinheiro, talvez. Pela fama. Para aparecer no fantástico e na Ana Maria Braga. Pessoas se vestem de maneira escrota, apenas pela expectativa de um dia dar uma entrevista ao Jô Soares. Porque não fazer uma barriga falsa de quadrigêmeos e conquistar o mundo?
Enfermeira, prepara a cesária

Como fazer uma falsa barriga de quadrigêmeos?
Maria já deu a resposta. Faça uma estrutura de borracha, ou plástico, e preencha com alguma esponja. As já citadas bolas de fisioterapia e os balões meteorológicos são uma boa, principalmente para os looners. Não descarte a utilização de papel machê A preocupação deve ficar em fazer uma barriga mais verossímil do que a da pedagoga. Uma dica: faça vários moldes, procure fotos na internet.

Quando fazer uma falsa barriga de quadrigêmeos?
Toda hora pode ser hora para fazer uma barriga falsa. Contraiu dívidas enormes? Brigou com a família? Bateu a cabeça no poste? Tudo dependerá das suas motivações pessoais.

Onde fazer uma falsa barriga de quadrigêmeos?
De preferência, na intimidade do seu lar. Principalmente no banheiro, ou em algum lugar com espelho, no qual você possa se observar. Coloque os itens sobre uma mesa, ou um lugar fixo, para ter mais facilidade no manuseio dos objetos com o qual você fabricará a barriga. O fato é que você não deve montar seu novo apetrecho em locais públicos, principalmente em uma praia de nudismo, ou numa casinha de sapê – lugar no qual se deve apenas não esquecer o rosto das pessoas.

Quem faria uma falsa barriga de quadrigêmeos?
Psicopatas? Sociopatas? Louquinhos de bairro (sim, um louquinho de bairro poderia achar que está grávido de Jesus ou Luiz Carlos Prestes)? Imagina-se que apenas alguém com sérias restrições mentais, ou graves desvios de caráter se portariam a tal farsa. Mas, talvez, algum amigo brincalhão poderia tentar a sorte, só de sacanagem.

O que fazer com uma falsa barriga de quadrigêmeos?
Com uma falsa barriga de quadrigêmeos você pode entrar numa loja e comprar diversos brinquedos infantis, para uso próprio, sem ser recriminado. Você também pode utilizar a fila preferencial de supermercados e os assentos reservados do ônibus – algo importante em uma cidade grande. Uma falsa barriga também pode servir de apoio para controle remoto e amortecedor de quedas frontais. Em compensação, a adjacência abdominal te impedira de praticar natação, mergulho, saltos de paraquedas e genocídios. Mas, isso a convenção de Genebra já proibia, de qualquer jeito.

Vá e faça a sua.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Dossiê Luíza


João Pessoa, a capital da Paraíba. Em uma tarde de verão o colunista social Gerardo Rabello grava uma propaganda com a sua família. O comercial anunciava um condomínio de luxo, alto-padrão, apartamentos com quatro suítes. Em um texto simples, o colunista explica que se mudou para o condomínio com toda a sua família, exceção feita a Luíza – sua filha – que estaria no Canadá.

A despretensiosa frase poderia passar despercebida. Mas não passou. Por motivos que ninguém saberia explicar, a frase se espalhou pelas redes sociais. Pessoas de todo o Brasil começaram a lamentar a falta que Luíza fazia, afinal, ela está no Canadá. Em pouco tempo, o Brasil se esqueceu dos seus dramas, como as chuvas em Minas Gerais, a grávida de quadrigêmeos ou o estupro no Big Brother.

As televisões começaram a noticiar o assunto – com ênfase na Globo, talvez como forma de mascarar a polêmica do BBB. Gerardo disse que Luíza voltaria ao Brasil no dia 31 de janeiro, mas, assustado com a repercussão, ele pretendia antecipar o retorno para que a família ficasse junta. Como se ela não estivesse mais segura no Canadá.

Luíza deveria voltar ao Brasil no final de semana. Logo, todos foram surpreendidos em uma edição do Bom Dia Brasil de ontem (19.01), que afirmava que ela estava voltando naquela manhã. Menos de cinco horas depois, ela foi fotografada no estúdio do Jornal Hoje, ao lado de Evaristo Costa. Em vídeo, ela disse que tinha acabado de chegar. Lembremos, que um vôo entre o Brasil e o Canadá dura pelo menos 10 horas. E que um deslocamento entre dois pontos em qualquer lugar de São Paulo dura pelo menos uma hora. O horário não bate.

O genial criador da peça publicitária veio a público. Disse que nunca teve a intenção de criar uma frase de tanto sucesso. Que a inseriu no texto, pelo fato de a família ser famosa e que, ao notar a ausência de Luíza no comercial, as pessoas se perguntariam “como assim? Onde está Luíza”. O povo precisava de uma explicação e ele não tinha muitos recursos.

Vejam o vídeo:


A família de Gerardo aparece no comercial por meros quatro segundos. E sua presença é absolutamente desnecessária. Mal daria tempo para se perceber a falta de Luíza no comercial. Quem conhecesse a família, saberia que ela estaria no Canadá e quem não conhecesse a família, nem saberia da existência de Luíza. Os argumentos do publicitário são frágeis e fica claro que ele utilizou a frase por motivo torpe e fútil.

Mas, o publicitário fez ainda outras declarações. Disse que ao saber do sucesso da propaganda, ele resolveu apressar a volta da menina até o Brasil. Ou seja, ele desmente a afirmação feita pelo pai de Luíza, alegando proteção. Ele também diz que Luíza estava por aqui desde o dia 17, ou seja, desde a terça-feira, quando a piada estava em seu auge. Ou seja, enquanto o seu retorno era anunciado, ela já estava aqui. Enquanto as pessoas faziam piada com a sua existência canadense, ela dormia em um hotel em São Paulo. A própria Luíza mentiu em rede nacional, ao dizer que havia acabado de chegar ao Brasil.

A própria Rede Globo conviveu pacificamente com a farsa, entrevistando a menina por telefone, anunciando o seu retorno. Um péssimo exemplo de jornalismo.

E tem mais. De volta ao Brasil, perguntada sobre a vida no Canadá, Luíza disse que não havia nenhuma história para contar sobre sua estadia por lá. E eu pergunto: como alguém não tem nada para contar sobre um país diferente? Você fica meses em um país estrangeiro, com uma cultura diferente, toda uma experiência de vida e não tem nada para contar. Nem do frio que ela passou? E as fotos? Alguém viu uma foto de Luíza no Canadá? Não. Ninguém viu.

Os fatos se encaixam. A história toda é cheia de falhas. Contradições entre as partes, mentiras, manipulações. Seria preciso uma acareação entre todos os envolvidos e só aí se descobriria a verdade. A verdade é que Luíza não estava no Canadá. Ela jamais esteve lá.

O fato é que Luíza não participou do comercial. Porque ela estava na aula de inglês? Tomando sorvete? Porque simplesmente não quis? Ou talvez, porque o comercial visa uma parcela rica da população, pessoas que tem filhos em intercâmbio no exterior e se identificariam com a frase?

Ou será que tudo não passa de uma armação para alavancar a carreira de Luíza, jovem, rica, bonita, em busca do sucesso. Separamos quadro a quadro o momento em que Gerardo diz a já lendária frase. E vejam o que encontramos.

Tirem suas próprias conclusões.

Luíza então “voltou” ao Brasil. Gravou um comercial, que digamos, ficou pronto muito rápido para a estrutura modesta alardeada pelo publicitário. Fica claro, que esta propaganda já estava gravada. Provavelmente foi gravada, logo depois do primeiro comercial.

Fora isso, convenhamos. Ninguém vai para o Canadá. Antes fossem às Bahamas. Só isso já bastava para comprovar a farsa.

Durmam agora, com o peso da verdade revelada pelo CH3.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pessoas constrangedoras, volume 10


Pessoas que supervalorizam experiências pessoais

Você conhece alguém que chora facilmente. Certo que o conceito de “chorar facilmente” é bastante subjetivo. Para algum torturador, alguém que desaba em lágrimas após ser açoitado por golpes de vassoura e descargas elétricas no ânus ao som de Galopeira, é um fracote. Já para uma atriz de Malhação, àquele que não chora ao descobrir que seu xampu acabou é um Hércules.

Pois bem, chorar facilmente é uma característica das pessoas que supervalorizam as suas experiências de vida. Um tipo de pessoa constrangedora.

Situação 1: No momento de relaxamento
¬- A professora disse: “coloquem o confete na boca e fechem os olhos” e então, nós fomos imaginando as cores se dissolvendo no céu da boca. E então eu estava caminhando. Caminhava na rua da casa em que eu vivi a minha infância. E então, a professora disse que nós encontraríamos alguém. Eu encontrei o meu tio Beto. Ele morreu quando eu tinha seis anos. O tio Beto chegou para mim e disse “na vida, nós só levamos aquilo que importa”. E então, (limpando as lágrimas) eu percebi. Eu descobri. Que na vida, realmente, a gente tem que se preocupar com as coisas importantes, as pessoas importantes, para buscar a felicidade.
- Cara, era só pra descansar um pouco.

Situação 2: Na dinâmica de grupo
- Agora para encerrar, nós vamos abraçar os nossos colegas...
(Interrompido por uma pessoa chorando)
- Obrigado, pessoal, eu amo vocês. Com vocês, eu aprendi o que é amar, eu aprendi o que é viver. Vocês me seguraram no momento em que eu caí, você fizeram eu conhecer o mundo melhor. Vocês mudaram a minha vida.
- Cara, a gente se conheceu meia hora atrás, antes da entrevista de emprego.

Situação 3: Na volta de uma viagem
- Você não tem noção do que eu passei nessa viagem. Tinha momentos em que eu olhava para o lado e eu estava sozinho. Não tinha ninguém, NINGUÉM para me ajudar. Mas, foi bom. Eu aprendi a me virar sozinho, arrumar o que comer, interagir com as pessoas. Posso dizer que eu sou uma nova pessoa, muito mais maduro, muito mais preparado, pronto para encarar o mundo.
- Cara, você só passou a tarde em Jaciara.

Situação 4: A Bebida
- E então eu estava bêbado. Minha cabeça girava, girava, eu não sentia meus membros, meu rosto adormecido. As pessoas falavam comigo e eu não entendia nada. O mundo parecia passar em câmera lenta. Quando eu vi, eu estava nu, em uma cama desconhecida, com uma mulher que não me lembro o nome. Ela me acariciou e então eu dormi. Percebi a minha fragilidade, conheci os meus limites, eu perdi o controle completamente.
- Cara, você só tomou uma Ice. E a mulher era a sua mãe te colocando pra dormir!

Situação 5: Acidente
- Depois do acidente, eu mudei a minha visão sobre o mundo. Eu conheci a morte de perto. Quando tudo aconteceu, eu vi meu corpo de fora. Eu vi uma luz. Eu vi alguém me chamando. Eu escutava as pessoas comentando tudo, os primeiros atendimentos. E então, eu voltei. Eu nunca vou me esquecer disso.
- Cara, foi só um copo que caiu no seu pé.

Situação 6: Lendo este post
- Agora eu percebo. Eu percebo tudo o que eu fiz na minha vida, o quanto eu sobrevalorizei coisas banais que aconteciam comigo, imaginando que eram experiências únicas. Este post conversou diretamente comigo. Agora, posso marcar esse dia como um recomeço, como uma nova busca pela minha realização pessoal.
- Cara, vai a merda.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sábado… em algum lugar

A essa altura, todos vocês já sabem o que foi que aconteceu sábado na balada. A galera, repentinamente, botou o esqueleto para chacoalhar. E aí, passou uma garota e eu… eu cheguei junto nela: está esperando o ônibus? Não? Porque você está no ponto, heim.

Não há como negar que Michel Teló já dominou nossas vidas por completo. É basicamente impossível passar um dia sem escutar o refrão de sua música. Basta ver um pouco de televisão. A Globo arruma uma maneira de utilizar a gloriosa canção como trilha sonora de qualquer momentos. Um nocaute do UFC? “Assim você me mata”. Fica ainda pior nos protótipos jornalísticos pretensiosamente engraçados.

Até mesmo no Globo Rural. Imagino que os produtores sejam capazes de colocar “ai, se eu te pego” enquanto um boi olha para uma vaca em uma matéria de reprodução bovina. O Fantástico acompanha todos os passos do rapaz e o Globo Repórter explora os mistérios da Amazônia e os novos hábitos econômicos que os brasileiros adquiriram com a música. Até Rocky Balboa sobe a escada ao som da sanfona.

O CH3 já falou que Michel Teló irá provocar o apocalipse. Agora, resolvemos nos aprofundar na prosa Telóliana para conseguir identificar os motivos pelos quais ela exerce tanto fascínio na psique humana.

Vejamos, Teló inicia seu épico com uma descrição do local. Como se fosse um bom jornalista, ele nos dá o lead, informando o quando e o onde, para na sequência informar o que: “a galera começou a dançar”. O ponto negativo é que ficaram faltando outros três elementos do lead e ele utilizou as duas palavras mais escrotas da língua portuguesa em dois versos. Sim, ele veio para matar.

Desses primeiros versos, podemos entender que Michel Teló estava na pior balada do mundo. Convenhamos, as pessoas não tem nada para fazer em uma balada que não seja dançar. Se “a galera começou a dançar”, significa que antes eles não estavam fazendo nada. Logo, a festa estava horrível. Você já viu alguém comentando “cara, pessoal tava dançando na balada!”? Se por algum acaso a letra cantasse:

Sábado na balada… a galera começou a estudar o Manifesto Comunista de Karl Marx.
ou
Sábado na balada… começou a tocar Manic Street Preachers.
ou
Sábado na balada… a galera começou a praticar rúgbi.

Seria algo diferente. Ou ainda, se o pessoal dançasse em lugares diferentes.

Sábado na biblioteca… a galera começou a dançar.
ou
Sábado na sala de espera do Pronto Atendimento do Pronto Socorro… a galera começou a dançar.
ou
Sábado no cemitério… os zumbis começaram a dançar.
A Galera começou a dançar...

Portanto, não há dúvida que a festa estava ruim, servindo caipiroska quente de balalaika. E então, Teló é surpreendido: a menina mais linda passou por ele. Pelo nível da festa, a pior balada do mundo, não é de se estranhar que a passagem de uma mulher bonita tenha chamado a atenção. “Olha só, essa daí até depilou as axilas”, devem ter comentado.

E então, o cantor resolveu tomar uma atitude. Ou melhor, tomou coragem. Ou seja, virou a garrafa de Ice para superar as barreiras e chegar junto na garota. Imaginemos então a cena: Teló puxa a menina pelo braço e começa a falar. “Nossa! Nossa! Assim você me mata! Ai, se eu te pego, ai ai se eu te pego! Delícia! Delícia!”.

Poderia ser a pior cantada da história, ainda mais se estivesse acompanhada da coreografia. Mas, como estava todo mundo bêbado em uma festa ruim, podemos imaginar que Teló tenha passado o rodo. Impressionado com a sua saga, ele resolveu passar sua emoção para o papel nesta sutil canção.

Ok, isso não é verdade. A música foi composta por Sharon Acioly e Antonio Dyggs. O que transforma o processo inteiro em um mistério ainda maior. Será que é uma experiência real vivenciada pelos dois? E a grande dúvida, como é que duas pessoas se juntam para escrever um negócio desses? Como é este processo criativo?

- Sábado na balada... será que...
- Hmm... a galera começou a cantar.
- Não, acho que começou a dançar.
- Isso, isso. E aí... aí... começou a chover?
- Não, acho que... hmm, passou... passou um avião!
- Passou uma menina linda! Então eu cheguei pra ela e...
- Comecei a falar... que...

Enfim, a música faz sucesso porque boa parte da humanidade está acostumada a virar uma garrafa de Ice para encarar as festas ruins que encontramos por aí. A música conversa diretamente com boa parte da população.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Merchandising levemente inserido na programação

Nos tempos atuais, é difícil que um programa de televisão sobreviva sem a existência das propagandas, de um bom merchandising. Sem as empresas que amigavelmente associam suas marcas a credibilidade, qualidade, audiência da atração.

Antigamente, o apresentador tinha aquele costume de chamar uma menina no palco, ela que era consultora do fundo de investimento e iria dizer todas as vantagens da sua empresa. Aliás, acho que isso ainda existe. A Ana Maria Braga vai até um estúdio separado e mostra uma coleção de panelas e um cara qualquer fala sobre as maravilhas do aço inoxidável.

Mas, o melhor de tudo, é quando o próprio apresentador apresenta os merchandisings durante a atração. Isso pode confundir as bolas dos espectadores? Talvez, mas, para evitar essa confusão, basta agir com discernimento, raciocinar, utilizar ganchos sutis de tal maneira que a propaganda entrará diretamente na cabeça dos consumidores.

- E aí, você acha que foi lance pra cartão vermelho?
- Se foi pra expulsão? É claro que foi pra expulsão. E digo mais, é pra mandar pra cadeia o infeliz que faz uma falta dessa.
- Falando em expulsar, expulse todos os pelos da sua barba com a incrível Gilete 9G, a única com nove lâminas, que permite o barbear mais rente, em qualquer situação! Gilete, um carrinho nos pelos! Mas então, você acha que o Luizão estava impedido no terceiro gol?
- Mas muito impedido! Tava mais de um metro na frente! Tem que prender o bandeirinha que não vê um lance desse!
- Não fique impedido nos seus encontros! Camisinhas Pirotex podem ser armazenadas na carteira e não rasgam nunca! Mais conforto e durabilidade para você não fazer feio! Não faça como o bandeirinha, faça bonito! Pirotex! Ponha essa ideia na cabeça!

Outros grandes exemplos de merchandising levemente inserido na programação podem ser encontrados nos programas policias.

Um assassinato pra abrir o apetite?
- Mas esse caso é um absurdo! Põe na tela, bota na tela que eu quero as imagens. Olha a cara do assassino! Olha a cara do MONSTRO! Esse infeliz ESTUPROU UMA MENINA DE OITO ANOS! OITO ANOS! COMO É QUE PODE? COMO É QUE PODE TAMANHA BRUTALIDADE? Sabe o que eu acho? TEM QUE MATAR! TEM QUE MATAR UM INFELIZ DESSE! TEM QUE FUZILAR ESSE FILHA DA MÃE QUE FAZ UMA BRUTALIDADE DESSA! MATAR! MATAROFELADAPUTAAAHHHMATAR!!!! Você anda com dores nas costas? Dorflex pode ser a solução. Põe na imagem aí na tela, taí. Dorflex contém analgésicos e tudo o que você precisa para uma vida melhor. Livre-se da dor das costas e traga mais conforto para seu cotidiano. Dorflex! Agora, mais um caso estarrecedor. Vejam só. Policias prenderam o acusado de roubar vinte reais de uma venda de um bairro. Vamos rodar a matéria, com mais esse caso resolvido pela polícia. Mas eu vou dizer, eu acho que a polícia devia ter matado logo uma coisa dessa. DEVIA TER MATADO. Mas antes, vamos conferir as ofertas da Magazine Roberta, conta pra gente, Maria Adelaide!

Também temos o case das novelas.

- Traz a conta garçom!
- Quanto é que ficou?
- Pode deixar que eu pago? Garçom, traz a máquina da Cielo?
- Ah, aqui tem Cielo?
- Tem e é tudo de bom, não? A Cielo passa qualquer cartão, é muito mais rápido e eficiente, trazendo conforto para o cliente e para o empregador! Cielo é tudo de bom!
- Mas então. O Cezar está te traindo.

Enfim. É possível inserir informação, de maneira discreta, em qualquer programa de merchan.

- Você acha que tomando Doril, a dor realmente some?
- Claro que sim! Qualquer coisa, é só passar gelol que passa.
- Falando em passar, o Alonso passou o Massa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Devolução de dinheiro em caso de insatisfação

O ponteiro do relógio marcava 10h40 de uma terça-feira, um dia nublado. Dona Sônia está insatisfeita. O produto que ela comprou não funcionou da maneira como ela esperava. Sentada em frente à televisão, ela se depara com o comercial do produto. Depois de uma explicação sobre os seus efeitos, desdenhados por Sônia, o narrador anuncia: “Garantimos a sua satisfação, ou o seu dinheiro de volta”.

Dona Sônia percebeu um estalo e o seu sofá quebrou. Recuperada do tombo, ela decidiu tomar as providências necessárias. Pensou “é verdade, eles garantiram minha satisfação ou o meu dinheiro”. Procurou a embalagem do produto, encontrou o telefone do SAC e discou os números.
- Atendimento ao cliente, boa tarde.
- Boa tarde – Sônia pensou porque a atendente disse boa-tarde, se ainda não havia passado do meio-dia. Pensou que era o fuso-horário.
- Pois não senhora.
- Bem, eu assisti a propaganda do produto e… comprei-o, porque se adequava ao meu caso. Mas, ele não fez o efeito.
- Azar o seu senhora, digo, acontece, que pena.
- Mas, na propaganda vocês garantiram que funcionaria, caso o contrário, o meu dinheiro seria devolvido!

Escutou-se o barulho de um raio. As fortes chuvas de verão derrubaram a ligação. Em um contato posterior, Sônia foi indicada a procurar a sede da empresa, em Taubaté e procurar o Departamento de Devolução de Dinheiro para Clientes Insatisfeitos. Comprovada a ineficiência do produto, o dinheiro seria devolvido.

Dona Sônia começou a pensar no que poderia fazer. Afinal, seria fácil comprovar que o Total Abdominator da Polishop não havia feito efeito. Ou, que mesmo o Omo quádrupla ação havia se provado ineficiente. Bastaria olhar a barriga do cliente ou a roupa ainda suja. No máximo, a empresa iria colocar a camisa num mega-tubo e de onde ela sairia branca. Haveria alguma satisfação.

Mas o seu caso era diferente. Uma das 13 milhões de pessoas no Brasil que sofrem de prisão-de-ventre, Sônia assistiu a propaganda do Activia. Emocionada com os depoimentos libertadores dos usuários do produto, ela resolveu experimentar. Para sua frustração, os problemas continuaram, mesmo realizando o desafio proposto pela marca. O problema é: como ela provaria que o produto não surtiu o efeito necessário? O fracasso do produto não era palpável, felizmente.

Essas dúvidas consumiram a cabeça de Sônia na longa viagem até Taubaté. Por vezes, ela pensou em desistir, mas o ônibus não poderia deixá-la na estrada. Finalmente ela chegou até o DDDCI.
- Oi, bom dia.
- Boa tarde.
- É... que queria meu dinheiro de volta, porque o seu produto não fez efeito.
- Qual produto, senhora?
- Activia.
- Ok. Você tem como provar que o produto não fez efeito?
- Bem... aqui estão as embalagens vazias...
- Prove que você usou.
- Bem...
- Prove que ele não fez efeito!
- Bem, eu continuo sem ir no banheiro! Faz quinze dias!
- Prove!
- Como?
- Prove!

O que eles queriam? Um exame que comprovasse a prisão de ventre? Análise do estomago, para provar que o Activia havia sido consumido? Um teste de carbono 12 em regiões chatas? Constrangida, dona Sônia foi embora. Mas, seu coração continuava com ódio, com o peso da injustiça. A única alternativa seria buscar a Justiça. E, assim ela fez.

Entrou com um processo por propaganda enganosa. O juiz que analisou o documento, reagiu negativamente.
- Hhaahahahhahaahm propaganda enganosa! Hahahaha! Você já viu uma propaganda que diz a verdade? Cai fora minha filha, tenho muito o que fazer hoje!

Orientada pelos advogados, dona Sônia pediu um ressarcimento por danos morais. Queria aliviar o constrangimento de ser obrigada a provar que sofreria de prisão de ventre.

Foi o julgamento do século. Durante quatro dias, advogados, defensores, promotores, procuradores, desembargadores discutiram a questão. Advogados da empresa insistiam que ela deveria comprovar sua prisão de ventre. Caso comprovada, os advogados disseram que ela deveria fazer o teste do iogurte, que com certeza ela seria curada.

Filósofos discutiam a questão da garantia do reembolso. Debatiam a questão da frase na propaganda. Chegaram a conclusão que a mensagem serve apenas para reforçar o instinto comprador do cliente. Mas, que, realmente seria impossível a comprovação. Depois de muito tempo, a justiça decidiu que Sônia deveria ser reembolsada com o valor do iogurte adquirido, R$ 11, com a correção monetária.

Por isso, às vezes é melhor arcar com o prejuízo. Ou, seguir o lendário exemplo da senhorinha abaixo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Emocionantes Novidades no Big Brother

A fantástica equipe de jornalismo do CH3 conversou ontem com o diretor do Big Brother Brasil, Boninho. Em off, ele pediu para não ser identificado e nos confirmou algumas mudanças para o formato do programa. “Esta será a 12ª edição do programa”, disse, completando que algumas mudanças se fazem necessárias.

O fato é que a popularidade do programa pode estar diminuindo, assim como pode estar aumentando. A resposta para esta questão poderia ser obtida com pesquisas comerciais, mas, as mesmas não foram encomendadas. Mesmo assim, optou-se pela mudança no formato, baseada em conversas de cobradores de ônibus e bêbados de calçada, obtidas através de escutas telefônicas irregulares.

A primeira conclusão a que os produtores chegaram, é que o povo quer um pouco mais de justiça. Assim, sendo, a meritocracia será premiada. É muito provável que o programa seja disputado no formato de pontos corridos, com comentários de Arnaldo Cezar Coelho. Outra providência, é a instalação de concursos públicos para o cargo de líder.

Os espectadores do BBB também estão sentindo falta de um pouco mais de humilhação e sofrimento para os participantes. Aquela vida hedonista, na beira da piscina, conversando sobre futilidades não inspira ninguém. As provas de resistência envolverão situações mais tensas, como a corrida sobre cacos de vidro, o banho de brasa quente e a utilização de instrumentos de tortura.

Para os fracos, que não resistirem, a solução será o racionamento de comida. E não se trata de um regime simples, falamos de jejum completo. Os participantes terão que se sustentar com insetos, vegetais rasteiros e – em casos mais extremos – com a carne dos outros participantes. Calma lá, nós já chegaremos nessa parte.

A audiência pede uma dose de surpresa. Para isso, o Big Fone terá decisões aleatórias. Quem atender o telefone poderá escutar mensagens como: “vá até o banheiro e plante bananeira” ou “lambuze sua participante favorita com creme de espinafre” ou ainda “você foi exonerado do cargo de líder. Dirija-se ao RH com uma camisa do Botafogo”.

Seres sobrenaturais poderão ser incluídos no programa, para aumentar a tensão entre os participantes. Vozes metálicas que virão de cantos distantes da casa, dizendo “apenas busquem conhecimento”. Ao final de uma festa, alguém acorda dentro de uma banheira de gelo sem um rim. Também está planejado o assassinato de um dos participantes. Quem solucionar o caso, garante uma vaga para a final.

E aí, entra outro pedido dos telespectadores: um pouco mais de violência. Uma pesquisa da Universidade de Muzambinho constatou que nos últimos, o único programa da TV aberta que jamais mostrou um assassinato foi o Big Brother. Um panorama que deve ser modificado.

Na edição de 2012, quem for escolhido como o anjo da semana, realmente vai virar um anjo, se vocês me entendem. Para estimular a justiça com as próprias mãos, àqueles que forem escolhidos para o paredão, receberão de brinde um revolver com duas munições. O participante é eliminado, mas não vai sozinho.

O paredão, aliás, será baseado no modelo cubano. Existirão várias possibilidades de mortes, como o apedrejamento, esfaqueamento, fogueira, empalação e até a morte por cusparadas. A direção do BBB ainda estuda uma maneira de incluir provas das Olimpíadas do Faustão no novo formato.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Recall

Acho que foi lá no final dos anos 1990. Letras brancas começavam a subir por uma tela azul e ao fundo, uma voz solene lia o anúncio. “Atenção proprietários de veículos da marca Toba, modelo Tobamóvel fabricados no ano de 1999. Informamos que os modelos com os números de chassi entre JAHSK19201 e JKWOP19023 vieram com um defeito no parafuso do banco do passageiro. Os proprietários destes veículos deverão comparecer até uma concessionária para fazer a troca da peça defeituosa sem nenhum custo adicional”.

Foi a partir daí que começou a era do Recall. Nos meses seguintes, não sei por que razões, diversas marcas de automóveis começaram a chamar seus clientes para resolver os mais diversos problemas de fábrica. O tapete do modelo tal poderia se prender no acelerador, a tampa do motor vibrava muito, a maçaneta interna se soltava sozinha, tudo era motivo para recall.

Produtos alimentícios começaram a passar por voltas as fábricas também. “Ao contrário do que está informado na capa dos salgadinhos do lote LA8129, este alimento contém glúten sim”. Ou então, que “por um erro de fabricação, a tampa do vidro de palmito não abre. Aliás, jamais abriu” ou “por um erro no elemento químico utilizado, a lata de sardinha poderá decepar o seu dedo”.

O recall virou uma espécie de marketing. As empresas o utilizavam para mostrar como elas tinham responsabilidade com os seus clientes. Mas, eu sempre pensei pelo outro lado. E quem já sofreu com isso? Quem perdeu uma perna por conta do parafuso solto? Ou quem perdeu parentes por conta do maldito glúten, com seu N no final, que teima em contrariar nossas professoras de alfabetização. E como é o recall de um salgadinho? Você leva o pacote vazio e um exame de fezes que comprove a sua ingestão?

No final de 2011, foi a vez de uma fábrica de preservativos chamar de volta a fábrica uma de seus lotes. O produto tinha um defeito, que poderia explodi-lo. O conselho é que as pessoas não utilizassem o item defeituoso. O problema, é que os preservativos não são produtos armazenados por muito tempo, ou que serão utilizados diversas vezes.

Como é feito esse recall? O indivíduo leva o seu filho para a empresa cuidar? O fabricante irá bancar o coquete anti-HIV?
- Olha, eu utilizei uma camisinha que veio com defeito de fabricação.
- Não se preocupe senhor, nós garantimos um novo produto ou o seu dinheiro de volta!
- Isso… não… muda… nada…

Consultamos o nosso especialista em aviação e pesquisador enciclopédico colombiano, Alfredo Humoyhuessos que resgatou alguns recalls exóticos da história da humanidade.

“Informamos aos clientes que compraram um veículo da marca Spider, que, devido a um problema no processo de seleção dos nossos funcionários, os automóveis fabricados no ano de 2009 vieram sem disco de freio. Em seu lugar, foi instalado um disco do Michel Teló. Assim sendo, é bastante improvável que o veículo consiga reduzir a sua velocidade até parar”.

“Atenção senhores clientes, que compraram os salgadinhos Chips do lote 98BN. Devido a um erro da máquina, estes salgadinhos não foram temperados com Sal e sim com estricnina”.

“Caros amigos, clientes, que compraram videogames da marca Polystation em dezembro de 2004. Graças a um erro de nossos fornecedores, o aparelho não veio equipado com controles remotos, mas sim, com minas terrestres. Compareçam as nossas autorizadas com o equipamento e nota fiscal, para efetuar a troca do produto”.

“Atenção usuários dos pára-quedas flecha. Devido a um erro na fabricação dos nossos produtos, ao se puxar a cordinha o pára-quedas não se abre. Ao invés disso, uma stripper sai de dentro de um bolo. Nossos pêsames a todos os envolvidos”.

Por algum motivo estranho, nenhum dos usuários prejudicados por estes serviços equivocados chegou a requerer o reparo necessário.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sintomas do Fim do Mundo (3)

Éééééééé galera, estamos em 2012, o ano em que o mundo vai acabar. Como um bom blog apocalíptico e conspiratório, o CH3 irá trabalhar para espalhar o caos e o terror na vida das pessoas. Eis aqui, mais um sintoma de que sim, esse ano é de apocalipse, bebê.

Michel Teló conquista a Europa

A notícia correu pela internet. Michel Teló, o cantor sertanejo, conquistou a Europa. Sua versão em inglês para o hit, outrora apenas nacional, “ai, se eu te pego” alcançou o topo da parada em diversos países. Um feito inimaginável, nunca antes alcançado pela música brasileira. Um feito inimaginável há dois anos.

Naquela época, nenhuma pessoa normal conhecia Michel Teló. Exceção feita aos amigos e familiares dele, se estes forem pessoas normais. Repentinamente, ele emergiu em nossa sociedade, com uma canção de sucesso que propunha um sagaz trocadilho entre “fugir” e “foder”. Parecia ser apenas mais uma, entre tantas outras canções de duplo sentido do cancioneiro nacional.

Michel Teló poderia ter sucumbido ao esquecimento coletivo e fracassado. Mas ele voltou, ainda mais forte com o “ai, se eu te pego”. Seu mérito? Tirar a música sertaneja de uma zona de conforto que variava entre o “corno conformado” e o “romântico iludido”. Teló une o sertanejo as tradições sacanas do pagode, do funk e outros ritmos de sucesso. Amar é o cacete, o negócio agora é putaria.

Tudo bem, a sacanagem já deveria estar inserida no meio sertanejo. O grande diferencial Telólico foi a coreografia. Uma herança dos tempos de É o Tchan. Eu, pelo menos, não me lembro de coreografias em música sertaneja. E “Ai, se eu te pego”, tem uma bem fácil, com uma simulação de sexo, assim como a sociedade exige. Para melhorar, não é preciso ir até o chão. Qualquer um pode dançar.

Assim sendo, a coreografia se espalhou mais rápido do que qualquer vírus conhecido. Terroristas tentam estudar o seu método de propagação, para planejar futuros ataques químicos. Jogadores de futebol, militares em combate, famílias inteiras se unem para dançar. Se você estiver com mais três amigos numa esquina, as pessoas podem achar que você irão se abanar e mover os cotovelos para trás.

E os brasileiros ajudaram a espalhar Michel Teló pelo mundo. E seu sucesso se consolidou no momento em que ele dominou as paradas de Portugal, Espanha e Itália. Reino Unido e França serão seus próximos destinos.

A imagem de Michel Teló conquistando o Velho Continente só encontra paralelos históricos no avanço das tropas nazistas e napoleônicas. Teló ainda tem a vantagem de ser mais rápido, talvez se aproveitando da crise dos europeus. Aliás, o seu sucesso é a maior prova de que a crise européia não vai terminar tão cedo.

E para os brasileiros? Para nós, este fato pode ser encarada de duas maneiras. Por um lado, nós mostramos que somos capazes de exportar lixo musical para o exterior. Não somos apenas receptores de porcaria, somos emissores também! Se vocês nos mandam David Guetta, nós te mandamos Michel Teló. Olho por olho, dente por dente, loiro por loiro. Os estrangeiros temerão o Brasil, saberão do que nós somos capazes. Não produzimos apenas carne, soja e jogador de futebol. Também dominamos as armas de destruição.

Por outro lado, a recepção pode ser péssima. Como ficará Dilma Rousseff em seus discursos no exterior? Ela critica alguma coisa e as pessoas respondem “cala a boca minha filha, o Michel Teló é do seu país”. Como fica a situação do Brasil e o seu antigo desejo de obter uma cadeira permanente no conselho de segurança da ONU? Que segurança nós podemos oferecer quando o Michel Teló surge por aqui?

Os iranianos poderão pensar “nós lançamos umas bombinhas num lago e o pessoal fica puto. O Brasil lança o Michel Teló e ninguém faz nada? Tratamento desigual!”. Talvez, surja uma pressão internacional para que sanções econômicas sejam feitas ao Brasil. Países atingidos pela praga poderão boicotar os produtos brasileiros. A Otan poderá planejar ataques a pontos estratégicos do Brasil, como Goiás e o interior de São Paulo.

Se o sucesso de Michel Teló será motivo de orgulho ou vergonha, só a história dirá. Quem sabe avaliar a importância daqueilo que vivemos? Resta esperar que, tal qual, Hitler e Napoleão, Teló sucumba ao frio inverno russo. Isso, se o mundo não acabar antes. Porque, Michel Teló chegou. Restam apenas os outros três cavaleiros do apocalipse.

Outros sintomas do fim do mundo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As previsões para 2012

E lá estávamos nós novamente. Outro primeiro de janeiro, desta vez, no ano de 2012. Lá estávamos no bairro Jardim Leblon, na casa de Pai Jorginho de Ogum. O Mago, o Mestre, o Mito, o Messias, o Místico, o Merdão, o… fiquei sem ideias para adjetivos que comecem com M. Enfim. O assunto seria o de sempre. Aquele que domina os noticiários no primeiro dia do ano, fora as enchentes. Falo das previsões do ano vindouro.

Em 2010, o pai-de-santo obteve um desempenho favorável. Acertou que o Corinthians não ganharia a Libertadores, que Gretchen se casaria e que um astro internacional viria até o Brasil e faria comentários pejorativos sobre o nosso país. Tudo isso aconteceu. No entanto, seu maior feito continua sendo a previsão de que Ronaldo faria uma lipoaspiração em 2009.

Cheguei até a casa de Pai de Jorginho de Ogum no final da tarde. Encontrei um peru meio devorado, com muita farofa espalhada sobre a mesa. Também vi uma mousse de maracujá e um arroz de aspecto duvidoso. Cão Leproso tentava alcançar o peru, mas não obteve sucesso.

Surpreendi Pai Jorginho na sala, assistindo comédias românticas dubladas. Saquei meu celular e registrei o momento. Ele se defendeu e disse que estava muito sensível. Havia discutido com Marcão, que levou sua mulher e sua filha para passar o réveillon em Jangada. Jorginho passou a virada ao lado de um cachorro sem braços e um arroz de aspecto duvidoso, pulando ondinhas e engolindo uvas, lentilhas e simpatias diversas.

Falei para ele que eu queria as previsões para 2012. Ele começou a se desculpar pelos equívocos de 2011, mas eu o interrompi, falando que seu desempenho havia sido bom. Questionei-o se ele não se lembrava do que havia dito. Ele tergiversou. Disse apenas que iria se preparar e foi até o seu quarto. De lá voltou com um caderno amarrotado. Em sua capa estava escrito “previsões certeiras para o ano novo”.

Jorginho começou a folhear o caderno. “Eu já disse que o Corinthians não iria ganhar a Libertadores? Pode colocar esse ano de novo”. Perguntei a ele o que era aquilo e ele me explicou que era um caderno com previsões que certamente vão acontecer num ano. “E fácil. Aqui tem a frase que um famoso vai morrer e aí é só pegar alguém que tá pela hora da morte. Também tem frases sobre tragédias naturais e fracassos do Corinthians em competições internacionais”.

Ele continuou falando que esse é um hábito comum em sua categoria. Também disse que não era o único livro do tipo, que ele também tinha um “frases boas para horóscopo”, prontas para livre disposição nos variados signos.

Falei para ele que estas revelações eram chocantes e poderiam mudar a maneira como as pessoas veem o mundo. Ele me respondeu falando que o azar é dessas pessoas. E na sequencia emendou:
- Ministros da Dilma irão cair em um ano confuso para a política.
- A seleção brasileira vai desagradar seus críticos e não ganhará as Olímpiadas.
- Depois de marcar quatro gols contra o Catanduvense, Neymar voltará a ser proclamado o melhor do mundo pela imprensa brasileira.
- O Big Brother irá dominar as notícias dos mais diversos sites.

Falou muitas outras coisas, que eu não anotei. Não sabia da frieza com que as previsões eram feitas. Perguntei para Pai Jorginho se era por isso que previsões pouco usuais como “A sociedade organizada irá matar Michel Teló e acabar com todas as suas gravações registradas”, jamais são feitas. Ele disse que sim. E completou que um novo sucesso de Teló irá infernizar a vida das pessoas. Eu disse que isto era triste e ele me respondeu “tudo já está escrito”; Uma frase que soou muito boa para o momento. Dei meus parabéns para ele e o deixei assistir o final do filme com Ashton Kutcher.

De saída da casa, encontrei Cão Leproso ainda babando por um Peru. Alcancei uma sobrecoxa para ele e disse “finge que caiu no chão”. Ele saiu correndo com o pedaço na boca, tropeçou, mas levantou. Pronto, fiz minha boa ação do ano.