quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O cutucão no toba como performance

Acredito que a maioria das pessoas presentes no Sesc Cariri, em Juazeiro do Norte, não fazia ideia do que iria acontecer. Conheço bem como é esse mundo das apresentações teatrais alternativas, de como as peças são descritas em livretos e flyers de divulgação. O público deve ter ficado no máximo instigado com a descrição de algo como.

O Grupo “Os Macaquinhos” propõe uma visão reflexiva sobre a exploração do hemisfério sul, utilizando o corpo como metáfora e expressão dos pensamentos. Baseados na obra de Darcy Ribeiro, eles abordam o sexo e o comportamento de maneira animalesca, levando o público a repensar os conceitos da arte e o papel do ser humano no mundo contemporâneo.

Uma descrição que diz tudo, mas que não diz absolutamente nada. Uma descrição instigante para chegar na hora e ver um grupo de pessoas andando em círculos e enfiando o dedo no cu um do outro, em um misto de orgia sexual e centopeia humana.

Ao longo dos meus anos de experiência no acompanhamento de folhetos teatrais do Sesc, já aprendi a fugir de peças em cujas descrições constem qualquer referência a exploração corporal ou releitura contemporânea. Se a sinopse não dá a ideia de nenhuma história, apenas de expressão artística e se a peça for encenada em um salão, ao invés de um palco, tenha certeza: será uma performance com muita putaria e com risco de integridade física.

Dizem que a arte contemporânea é aquela arte que está no limite entre a arte e o nada. Um lixeiro pendurado na parede, um filme sem falas e focado apenas no nariz das pessoas, sintetizadores herméticos tocando uma melodia etérea. De um lado, um pequeno grupo irá chorar com essas intervenções artísticas e fará análises apaixonadas defendendo ferrenhamente a apresentação, citando Grotowski e dezenas de autores do leste europeu.

Do outro lado estarão as pessoas normais que não entenderão o que há de arte no fato de um grupo de pessoas estar sem roupa trocando dedados e olhadas dentro do ânus alheio. Não há um público formado e preparado para isso. Mesmo no XVideos eu acredito que boa parte dos punheteiros visitantes iria achar estranho um vídeo desses. É um fetiche mais específico. O coletivo responsável pela obra afirma que a peça sofre preconceito pelos tabus. E poderia ser diferente? Como não ter preconceito e opiniões jocosas sobre um grupo de pessoas com o dedo no cu?

Muitas discussões poderiam ser abertas sobre o caso, sobre o que é arte. Porque cutucões no toba no site pornô são apenas um fetiche doentio, enquanto que se eles foram realizados em um ambiente cultural se transformam em obra de arte? Uma arte que só é arte de acordo com o ambiente em que ela é encenada pode ser caracterizada como arte? Temas para debates filosóficos.

Penso na arte enquanto elemento de choque. Mais do que propor qualquer reflexão, o objetivo de um grupo de pessoas que se propõe a introduzir o dedo dentro do ânus um do outro é chocar e imagino que tenham sido bem sucedidos. Tanto quanto estariam se distribuíssem fotos de cadáveres de crianças para a plateia.

Pergunto: não seria Andressa Urach uma artista? Outras tantas subcelebridades que chocam o público em busca de alguns minutos de fama? Nana Gouvêa não seria uma grande artista que há anos se sustenta nos causando espécie? Vivendo a vida como performance.

Mas eu sinto pena é do público que inadvertidamente se colocou diante de uma cena de horror. Não há como fugir do teatro contemporâneo, uma vez que você está lá dentro. O espaço é pequeno, por vezes os atores ficam no meio do público e se você tentar sair do local, sabe-se lá o que poderia acontecer com você. Pessoas que são capazes de mini empalações em público poderiam fazer coisas piores com um fugitivo, talvez arrancar suas roupas e enfiar o dedo no seu cu, ou coisa pior.

Fica pelo menos uma conscientização: estamos no Novembro Azul, o mês de combate ao câncer de próstata. Faça como os macaquinhos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Miss Brasil

Milhares de pessoas se reuniram neste último fim de semana para conhecer quem era a mulher mais bonita do território nacional, durante o Miss Brasil 2015. Um evento com muito glamour, muitas roupas excêntricas e referências culturais. Mulheres dos 26 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, brigaram com unhas e dentes pela consagração, que, além de tudo, garante uma vaga direta para a Copa Libertadores 2016.

O saguão do Hotel Palace em São Paulo estava lotado. A ansiedade estava alta quando dois apresentadores malas e recém alfabetizados entraram no palco e deram início ao espetáculo. As misses entraram no palco e dançaram como se fossem uma espécie de Spice Girls com limitações físicas.

Os jurados também foram apresentados. Personal Sytlists, Dress Coders, Mindgappers, Beauty Fashioners e Vlogueiras faziam parte do grupo extremamente politizado e gabaritado. Por questões de segurança, o snapchat deles foi bloqueado, para garantir que eles ainda assistissem os desfiles, ou algo parecido com um desfile que iria acontecer em poucos instantes.

De cara, a Miss Ceará, a Miss Paraná e a Miss Roraima foram eliminadas por estarem abaixo do peso mínimo estipulado para o concurso, que é de 25 kg. A Miss Mato Grosso do Sul também foi eliminada por estar com duas estrias e um quilo acima do peso que caracteriza subnutrição. Ainda foram excluídas a Miss Rio de Janeiro, por conta de um nude no Whatsapp e a Miss Acre, porque os jurados acreditaram que o Estado realmente não existe e que ela era uma impostora.

Ainda na primeira fase, outras seis misses foram mandadas embora para casa sem nem aparecerem na TV simplesmente porque os jurados consideram que elas eram feias ou tinham bafo. Amazonas, Pará, Rondônia, Tocantins, Piauí e Mato Grosso foram despachadas dentro de jaulas para seus cativeiros.

Com quinze candidatas na disputa, veio o primeiro e mais emocionante momento do concurso: a roleta russa. Em ordem aleatória, as candidatas deveriam puxar um gatilho de revólver contra as suas cabeças e as cinco escolhidas explodiriam seus miolos em rede nacional. Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Santa Catarina e Distrito Federal passaram dessa para a melhor de uma maneira midiática.

Após um breve intervalo para limpeza de massa encefálica esparramada pelo chão, as dez sobreviventes voltaram ao palco, já recompostas dos momentos de terror vividos no bloco anterior: Era hora do desfile dos biquínis, que garantiriam as cinco semifinalistas.

A Miss Rio Grande do Sul não caprichou na depilação e foi eliminada, assim como as candidatas de Minas Gerais, Goiás, Bahia e Sergipe. Não por nenhuma razão específica, mas apenas porque os jurados assim quiseram e eles são onipresentes nessa escolha.

Lá estavam as cinco finalistas que iriam para a parte das perguntas.

Um designer de interiores perguntou para a Miss São Paulo se ela cuspia ou engolia e ela disse que engolia, para espanto geral da plateia.

Um cara de camisa com estampa de animais e óculos vermelhos perguntou para a Miss Rio Grande do Norte qual era o seu trecho favorito de o Pequeno Príncipe e ela disse que era aquela parte de que as pessoas se tornam eternamente responsáveis por aquilo que elas cativam. O cara de camisa com estampa de animais e óculos vermelhos tentou perguntar a ela o que significava a palavra cativar e os apresentadores disseram que uma segunda pergunta não era permitida, enquanto a potiguar tremia de medo.

Um cara de bigodes pediu que a Miss Maranhão elogiasse o nosso grande presidente José Sarney e ela assim o fez.

Foi quando enfim os jurados se deram conta que a Miss Amapá e a Miss Espírito Santo ainda estavam ali. Lamentando esse terrível erro provocado pelo esquecimento, eles pediram para que as duas fossem abatidas a tiros e parassem de atrapalhar a programação. Assim sendo, Maranhão, São Paulo e Rio Grande do Norte chegaram a grande final.

Sem demora, a candidata do Rio Grande do Norte foi eliminada. Maranhão e São Paulo permaneceram na disputa. De um lado, o PMDB do Maranhão fazia lobby e exigia o título de sua conterrânea, enquanto que o PMDB paulista fazia o mesmo pelo sua, com a força de Michel Temer que exigia esse cargo para acalmar os ânimos pró-impeachment.
Os estados brasileiros... sei lá o resto dessa música

Após uma grande batalha nos bastidores, as diversas alas do PMDB chegaram a um consenso e Eduardo Cunha foi eleito a Miss Brasil 2015. Emocionado, o deputado chorou muito, acenou para o publicou e falou que este era um sonho seu de infância e disse que iria com muita garra representar o Brasil no Miss Universo em Las Vegas. Negou que possuísse contas na Suíça e disse que não via um momento favorável para o impeachment no Brasil, visivelmente satisfeito que ele estava.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Gregorian

O ano era 1999 e o mundo estava um tanto quanto estranho. A virada do milênio popularizava uma série de teorias apocalípticas e o fim do mundo parecia algo real. A tecnologia começava a entrar em um ciclo de avanço interminável, mas todos temiam o bug do milênio. Toda essa complexidade de sentimentos deve ter de alguma forma impulsionado o sucesso da cantora Enya e de uma enormidade de cantoras de new age de então. Aquelas músicas terríveis com sintetizadores e vocais que poderiam ser de anjos, ou de pessoas mortas, dependendo do seu humor.

Foi neste cenário caótico que o produtor alemão Frank Peterson teve uma ideia genial: unir tudo isso em um projeto bizarro que colocava monges gregorianos para cantar músicas de sucesso do pop/rock, garantindo uma roupagem World Music¹. A principio esse projeto denominado “Gregorian”, parece uma porcaria danada e realmente é. Mas, como o mundo é um negócio estranho os padres alemães venderam milhares de cópias de seus discos. Acredito que a maioria dos CDs já deva ter sido incinerada ou foi parar em Micro Systens de lojas que vendem artigos místicos.

A estreia do grupo foi em 1999 com o disco Masters of Chant que continha a foto de um monge metrossexual com forte sugestão homoafetiva. O repertório contava com músicas que iam de Simon & Garfunkel até Metallica. Uma curiosa versão de When A Man Loves a Woman – algo bem contraditório para um grupo de freis anglicanos cantar.

No entanto, o grande destaque era o cover de Losing My Religion, clássico absoluto do R.E.M. A original é uma das grandes canções dos anos 90 com sua letra sobre desilusão e culpa. Ok, a letra é a mesma, mas não dá para não achar engraçado quando você escuta um monte de homens que abriram mão de suas vidas e vivem isolados em castelos rezando cantando que estão perdendo sua fé.

A música do Gregorian não é algo que você deva apenas ouvir. É preciso sentir toda essa merda, ver a que ponto chegou a humanidade e que coisas terríveis o homem é capaz de fazer em nome do dinheiro. Ou apenas pela sacanagem. Eles não poderiam estar se levando a sério quando resolveram sair em turnê mundial vestidos de monges.

O sucesso do disco de estreia deu sequência a uma série de Masters of Chants, como um câncer que se multiplica rapidamente. Eles cantaram Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin (Stairway to heaven – apropriado), U2 (With Or Without You, também apropriada já que essa é uma música sobre masturbação, um tema pertinente no universo religioso), The Doors (The End uma porra de uma música incestuosa que fica ainda mais doentia na voz desses padres malditos), Guns N’ Roses (Sweet Child O’Mine, tema bastante delicado para o universo religioso), ABBA e The Killers (no caso, Human. Imagine um grupo de religiosos perguntando “are we humans? Or are we dancers?” e pense que questionamento engraçado que eles estão se fazendo, dentre tantos questionamentos espirituais aos quais eles poderiam se propor).

Desde 2011 o grupo não grava mais nada, prova de que o mundo já é um lugar melhor.

¹World Music nada mais é do que um artista branco ocidental se apropriando de qualquer elemento musical tradicional de um país subdesenvolvido para ganhar dinheiro. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Terima Kasih

No coração de Arraial d’Ajuda, um pequeno vilarejo hippie no litoral sul da Bahia, há uma das lojas mais impressionantes da face da terra. Chamado Terima Kasih, o estabelecimento reúne uma arquitetura típica da bandeira do Camboja, artesanato de madeira com todos os animais possíveis, móveis de madeira luxuosamente entalhados, quadros religiosos assustadores e uma trilha sonora excêntrica. Sem dúvida, um passeio inesquecível.

Não é preciso dar muitas coordenadas para chegar à loja. Arraial d'Ajuda não é nenhuma metrópole e não há nada parecido com Terima Kasih em toda a simpática e acolhedora Rua do Mucugê. Quando você vir um templo budista, com espelhos d'água na porta, saiba que você está lá.

Logo na entrada há um cavalo feito com pedaços de madeira, na verdade, algo similar a um esqueleto de cavalo em madeira. Ainda existem todos os tipos possíveis de gatos esculpidos em madeira, elefantes, cães, macacos e se bobear, até ornitorrincos. A loja vende batas e sapatos típicos de personagens excêntricos de novelas da Glória Peres. Muita coisa para colocar incenso e uma escada entalhada que é, sinceramente, uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na minha vida. O pobre coitado que entalhou aquela madeira deve ter trabalhado por dez anos ininterruptos.

Uma das vendedoras da loja disse que a escada, assim como vários itens da loja, é importada de Bali. Ainda há artigos da Indonésia e da Tailândia. O curioso, para quem não sabe, é que Bali é uma das ilhas da Indonésia, mas no mundo artesanal são tratados como dois lugares distantes. O nome de Bali, por si só, carrega toda uma misticidade que ajuda a vender esses artigos.

Como não poderia deixar de ser, a loja vende artigos religiosos. Muitas coisas relacionadas a Buda e Krishna, e há a inevitável pergunta para as vendedoras da loja se os donos são budistas ou algo assim e elas explicam que a loja não é budista. Realmente não é, mas, chamar algo de budista é uma boa maneira de categorizar toda a cultura de uma determinada região asiática.

Tanto a loja não é monoteica, que há um impressionante e assustador quadro de Jesus na parede. Em um primeiro momento, você apenas o nota de maneira engraçada, como se fosse um Jesus com um rosto meio estranho, meio com cara de restauração feita por Cecilia Gimenez. Logo você percebe que o quadro é uma mistura de escultura, o rosto de Jesus é feito em relevo. E logo você percebe que aquele quadro te persegue com os olhos.

É um feriado no Camboja e as pessoas vestem preto
Utilizando de modernas técnicas do ilusionismo óptico, o quadro é uma espécie de holograma e não importa de onde você esteja olhando: o Jesus do quadro vai olhar diretamente nos seus olhos. Se você subir uma escada ele te olhará lá em cima. Se você se deitar no chão ele vai olhar para baixo. Quando você passa pela calçada da loja - e você passa por lá muitas vezes nas caminhadas pela Rua do Mucugê, Jesus está te olhando de canto de olho. É realmente assustador. Ainda mais assustador caso você tenha bebido uma garrafa de vinho antes.

Fiquei por horas imaginando quem é que colocaria um quadro desses em sua casa para ter essa péssima sensação de ter alguém te olhando. Esse papo de que Deus/Jesus está sempre olhando por nós não pode ser assim tão literal. Sejamos sinceros, a taxa de natalidade do mundo despencaria se quadros assim estivessem espalhados pelas casas das pessoas.

Terima Kasih já seria uma loja suficientemente inesquecível por conta de todos os fatos descritos acima. Mas, há algo ainda mais inusitado: a trilha sonora.

Vocês devem imaginar, que essas lojas que vendem batas, artigos místicos orientais e tem um cheiro eterno de incenso, acabam por apostar em um disco da Enya e toda aquela porcaria New Age que inexplicavelmente fez sucesso em algum momento ali nos anos 90. Não era diferente em Terima Kasih, pelo o que os meus ouvidos escutavam.

Até que, repentinamente, uma melodia familiar invadiu meus ouvidos. Era Wish You Were Here do Pink Floyd. Mas, não a versão amigável com a voz de David Gilmour. Era uma voz grave, talvez um coral. Para dizer a verdade, sob o efeito da garrafa de vinho, eu tive certeza naquele momento que era o próprio buda cantando. Não era nenhuma reencarnação ou algo assim. Era a voz de buda que cantava "do you exchange, a walk part in a war for lead role in a cage".

Quando voltamos na loja no dia seguinte, ainda hipnotizados por tudo o que acontecia na loja, me deparei com outra música do Pink Floyd: dessa vez Comfortably Numb. Como não estava sob o efeito do vinho, não reconheci buda na gravação - infinitamente inferior a já clássica Wish You Were Here. Mas, dispus de um moderno aplicativo de celular para descobrir quem é cantava aquilo ali e descobri que era um grupo chamado “Gregorians”.

Ainda irei falar sobre os Gregorians, no próximo post. No momento em que soube da existência deles, fiquei contando as horas para voltar ao hotel e pesquisar sobre o que seria isso.

Antes, ainda passamos no caixa e elogiamos a trilha sonora. A vendedora falou que não sabia quem é que tocava, mas que diariamente, dezenas, talvez centenas, de pessoas, passavam pela loja e pediam para gravar as músicas. Caso nós quiséssemos, poderíamos trazer um pen drive que eles iriam nos transferir aquela abençoada playlist. É claro que não fizemos isso.

Até quarta, com os Gregorians.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Memórias do Orkut

O aplicativo do Facebook que relembra as coisas que você fez nessa mesma data em anos anteriores é provavelmente uma das melhores invenções da história da humanidade. Por uma simples razão: ele impede que você se esqueça de coisas que você já se lembrou antes. Assim sendo, você numa mais vai se esquecer da data do seu casamento, uma das maiores razões para crises conjugais.

No entanto, temos que pensar que o Facebook ainda é uma ferramenta recente no cotidiano do povo brasileiro. Há sete anos não eram muitas as pessoas que o utilizavam. O Boom do Facebook no território nacional ocorreu ali em meados de 2010, no momento em que o Twitter caia e deixava de ser o sucessor natural do Orkut.

Sim, porque é o Orkut que está cravado na memória do cidadão brasileiro. É ele que faz parte da nossa história, associado ao nosso DNA. É impossível contar a história do Brasil sem dedicar um capítulo especial para este rede social de nome excêntrico, fundo roxo e piadas nonsense relacionadas a rosquinhas.

No seu auge, algo ali entre 2004 e 2007, o Orkut foi responsável por agrupar uma enorme produção literária. Vamos comparar: no Facebook você escreve para todas as pessoas do mundo que sejam autorizadas por você, em sua própria linha do tempo. Vez por outra faz um post em um grupo ou na página de outra pessoa.

No Orkut não era assim. No Orkut você postava na página das pessoas, nas páginas da comunidade. Você se inscrevia em comunidades, escrevia depoimentos. Mantinha uma intensa atividade intelectual diária em diversos cantos daquele pequeno mundo que apesar da insistência de algumas pessoas jamais chegou a ser cor-de-rosa.

Caso o Orkut ainda existisse, ele teria muitas memórias para resguardar. Ele teria muitos avisos e notificações sobre o que você fez nesta data em 2007. O resultado seria obviamente terrível.
Imagine como os 27 de dezembros do Rafa seriam terríveis

Você poderia hoje receber um aviso que no dia 11 de novembro de 2006 você entrou na página “eu me masturbo com as duas mãos”. Que em 2005 você deixou um depoimento apaixonado para uma pessoa que mais tarde você descobriu que era uma enganadora e provável homicida dolosa. Neste mesmo dia em 2004 você pode ter deixado um scrap/cantada para uma pessoa que jamais te respondeu e sua mente será invadida por lembranças terríveis.

Em quantos 11 de novembros passados você não constrangeu sua existência com alguma atuação terrível? Em quantas discussões inúteis você não se meteu sem saber as razões específicas? Quantas ameaças de morte e crimes contra a língua portuguesa? O Orkut sabe o que você fez no verão passado e esse passado te condena. Não deixe seu passado vir a tona.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O bairrismo nosso de cada dia

O campeonato brasileiro de futebol, alguns de vocês devem saber, é uma competição disputada por 20 equipes. Alguns dos jogos são transmitidos pela Globo, outros pelo SporTV e todos eles passam no Premiere Futebol Clube, o PFC, serviço de pay-per-view que também pertence a Globo. São dez jogos por rodada, 380 partidas no total. É jogo para caramba. Some a este número as partidas da Série B. É ainda mais jogo pra caramba.

As partidas da primeira divisão são disputadas em doze cidades de oito estados brasileiros, enquanto as da segunda divisão são jogadas em dezoito cidades de catorze estados. Imagine que cada um desses jogos disputados em cidades que vão de Belém no Pará até Porto Alegre exigem uma grande equipe para realizar a transmissão. São dezenas de cinegrafistas, técnicos de áudio, de imagem, motoristas e aqueles que realmente aparecem na televisão: o narrador, o comentarista e os repórteres de campo.

Pense que a Globo, que transmite apenas dois jogos por partida tem apenas duas equipes de superstars que desfilam seus comentários estilosos e precisos pelas mais diversas cabines de transmissão do Brasil. No PFC não é assim. No PFC eles precisam de dez equipes por fim de semana. Centenas de cinegrafistas e técnicos, dezenas de narradores e comentaristas.
Em algumas partidas em Lucas do Rio Verde, o simpático porco que segura uma espiga de milho na mão é chamado para tecer seus comentários balizados e isentos

Para piorar, a sede do canal fica no Rio de Janeiro, com base também em São Paulo. É praticamente impossível ter um monte de comentaristas, clones malditos de Roger Flores, apenas esperando um chamado para se deslocar até Lucas do Rio Verde, para transmitir uma partida entre Luverdense e CRB. Colocar o cara em um avião em Congonhas, chegando em Cuiabá, para que ele ande 400 quilômetros até a cidade da partida em um carro qualquer. Então, o que é que acontece? O PFC utiliza profissionais locais.

Quem acompanha o canal já se acostumou com o narrador de sotaque gaúcho ou nordestino. O comentarista que foi um ídolo local e fala com absoluta isenção sobre como a equipe da casa está dominando a partida e sendo ridiculamente prejudicada pela arbitragem, que certamente serve a alguma maldita organização internacional que quer prejudicar a população das cidades menores, que há anos vem sendo subjugadas pelos interesses do capital.

O bairrismo nosso de cada dia fica muito latente nessas partidas. Me lembro de um lendário comentarista de partidas em Pernambuco, o Lúcio Surubim, que nas partidas do Náutico se exaltava. Certa vez um jogador do Botafogo foi preso no meio de uma partida e ele chegou a defender que a Polícia tinha que enquadrá-lo, para mostrar que o cara não pode vir aqui em Recife e achar que pode aprontar.

Há também o Paulinho Criciúma, que coincidentemente nasceu na cidade de Criciúma e foi um ídolo da equipe local, também chamada de Criciúma. Uns dois anos atrás ele ressurgiu das cinzas, com sua vistosa barba e sua dificuldade de se expressar de maneira normal para comentar as partidas disputadas na cidade e vocês podem imaginar o que aconteceu em relação a isenção dos seus comentários pouco articulados.

Com o rebaixamento do Criciúma e como deve ser difícil encontrar ex-jogadores de futebol que vivam em Santa Catarina, Paulinho segue sendo bem aproveitado em partidas disputadas pelas outras quatro equipes catarinenses na primeira divisão. Descobrimos então que ele é um apaixonado por seu Estado, um homem com uma arma: seu microfone e seu timbre de voz grave (ok, então não é apenas uma arma), que irá defender Santa Catarina diante do mundo.

Havia o Batista, que enlouquecia nas partidas do Internacional, os comentaristas mineiros que tão aí para falar sobre como os times de Minas Gerais dominaram amplamente o jogo, que os números que mostram que o time local chutou uma vez ao gol e teve 6% de posse de bola contra as 27 finalizações adversárias são números mentirosos de um placar mentiroso, que esse 6x0 contra é uma injustiça tremenda diante da bela partida do Boa Esporte e que não dá para não admirar a maneira como eles jogaram com raça e determinação, são verdadeiros heróis.

O PFC, de certa maneira, reproduz um fenômeno vivenciado apenas pelos torcedores do Corinthians que é o de assistir uma partida com um ídolo do seu time comentando o jogo e falando apenas sobre a sua equipe como se nada mais no mundo importasse. É como se tivéssemos vários Netos comentando jogos por aí. Mostra que o mundo é repleto de craques netos e que sabe-se lá como eles conseguem alcançar o poder de ter um microfone na mão e ninguém será capaz de pará-los. Não há como detê-los.