quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Gregorian

O ano era 1999 e o mundo estava um tanto quanto estranho. A virada do milênio popularizava uma série de teorias apocalípticas e o fim do mundo parecia algo real. A tecnologia começava a entrar em um ciclo de avanço interminável, mas todos temiam o bug do milênio. Toda essa complexidade de sentimentos deve ter de alguma forma impulsionado o sucesso da cantora Enya e de uma enormidade de cantoras de new age de então. Aquelas músicas terríveis com sintetizadores e vocais que poderiam ser de anjos, ou de pessoas mortas, dependendo do seu humor.

Foi neste cenário caótico que o produtor alemão Frank Peterson teve uma ideia genial: unir tudo isso em um projeto bizarro que colocava monges gregorianos para cantar músicas de sucesso do pop/rock, garantindo uma roupagem World Music¹. A principio esse projeto denominado “Gregorian”, parece uma porcaria danada e realmente é. Mas, como o mundo é um negócio estranho os padres alemães venderam milhares de cópias de seus discos. Acredito que a maioria dos CDs já deva ter sido incinerada ou foi parar em Micro Systens de lojas que vendem artigos místicos.

A estreia do grupo foi em 1999 com o disco Masters of Chant que continha a foto de um monge metrossexual com forte sugestão homoafetiva. O repertório contava com músicas que iam de Simon & Garfunkel até Metallica. Uma curiosa versão de When A Man Loves a Woman – algo bem contraditório para um grupo de freis anglicanos cantar.

No entanto, o grande destaque era o cover de Losing My Religion, clássico absoluto do R.E.M. A original é uma das grandes canções dos anos 90 com sua letra sobre desilusão e culpa. Ok, a letra é a mesma, mas não dá para não achar engraçado quando você escuta um monte de homens que abriram mão de suas vidas e vivem isolados em castelos rezando cantando que estão perdendo sua fé.

A música do Gregorian não é algo que você deva apenas ouvir. É preciso sentir toda essa merda, ver a que ponto chegou a humanidade e que coisas terríveis o homem é capaz de fazer em nome do dinheiro. Ou apenas pela sacanagem. Eles não poderiam estar se levando a sério quando resolveram sair em turnê mundial vestidos de monges.

O sucesso do disco de estreia deu sequência a uma série de Masters of Chants, como um câncer que se multiplica rapidamente. Eles cantaram Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin (Stairway to heaven – apropriado), U2 (With Or Without You, também apropriada já que essa é uma música sobre masturbação, um tema pertinente no universo religioso), The Doors (The End uma porra de uma música incestuosa que fica ainda mais doentia na voz desses padres malditos), Guns N’ Roses (Sweet Child O’Mine, tema bastante delicado para o universo religioso), ABBA e The Killers (no caso, Human. Imagine um grupo de religiosos perguntando “are we humans? Or are we dancers?” e pense que questionamento engraçado que eles estão se fazendo, dentre tantos questionamentos espirituais aos quais eles poderiam se propor).

Desde 2011 o grupo não grava mais nada, prova de que o mundo já é um lugar melhor.

¹World Music nada mais é do que um artista branco ocidental se apropriando de qualquer elemento musical tradicional de um país subdesenvolvido para ganhar dinheiro. 

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