segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cultura da Moda

Já até imagino. As pessoas pesquisando sobre cultura da moda no Google e caindo aqui no CH3. E se decepcionado. Porque elas queriam ler sobre a história da moda e suas relações culturais. Logo elas verão que o post não é sobre isso. Então, elas vão clicar ali no “não faz sentido” e os mais audaciosos ainda vão comentar que isto aqui é inútil, que nós somos ridículos falidos e que a avó dele escreveria algo melhor. Tudo isso porque? Porque não há uma matéria sobre “como utilizar o Google” nos colégios.

Esse post não é sobre técnicas seculares de cortes de tecidos chineses. Sobre o que as cores trajadas significam nos mais diversos lugares ao redor do mundo. Como se vestir numa festa xintoísta. Cores elegantes na Nova Zelândia. Reitero que não é sobre isso. Apesar de já ter gasto dois parágrafos sobre isso, não é disto que esse texto trata.

Falemos de Dostoievski. Escritor russo que viveu uns 200 anos atrás. Um escritor como tantos outros por aí. Escrevia palavras e lançava livros com elas, em russo. Ninguém nunca tinha ouvido falar dele, mas de um tempo pra cá, ele virou ídolo nacional. Livros de Dostoievski eram vendidos como água nas livrarias. Irmãos Karamazov foi parar em vários Orkuts Brasil afora. A Dostoievskimania. Ele virou a cultura da moda.

Difícil entender como isso acontece. Mas durante uma época, que pode durar meses, anos, décadas, um certo artista que sempre foi um mero desconhecido, passa a ocupar um papel de destaque no cenário cultural nacional. Dostoievski trouxe com ele, muitos outros autores russos, como Tolstoi (cuja grafia do nome é um pequeno mistério da humanidade). Já aconteceu com Garcia Márquez, José Saramago, Milan Kundera. E quem sabe o próximo? Qualquer um pode assumir o posto de escritor da moda.

Isso acontece no meio acadêmico também. No começo da faculdade, tudo era Focault. Citado por professores, ator principal das piadas acadêmicas. Parecia que todos os alunos estavam lá motivados por Focault. Mas logo veio a moda de Deleuze e seu rizoma. Existiu a era de Stuart Hall.

Na música ocorre um fenômeno similar. Ciclicamente, um músico que já teve dias de sucesso num passado remoto, passa a ser admirado pelas novas gerações. Caetano Veloso lançou um disco com versões acústicas de várias canções contemporâneas. Uma mistura excêntrica, que foi taxada de porcaria por todo mundo. Mas Caetano chegou até os jovens cantando Come As You Are. E essa nova geração passou a escutar seu trabalho, seus novos lançamentos, foram aos seus shows, agora lotados de pessoas de camisa xadrez e óculos de aro grosso.

De repente vem, sabe-se lá da onde, a nova diretriz: Erasmo Carlos é legal! E então todo mundo começa a escutar o Tremendão e achar graça nas suas músicas. A gostar das canções que nem os seus pais agüentam mais ouvir. Nesses tempos recentes, até Reginaldo Rossi – o atual rei do brega – virou cult. Imaginamos daqui a 30 anos, os jovens escutando Banda Calypso e pirando no solo de Cavalo Manco.

sábado, 27 de novembro de 2010

Vingança

A vingança é um prato que se come frio

Percebe-se que o autor dessa frase realmente vivia em outros tempos. A interpretação mais comum é de que, para ser melhor saboreada, a vingança devia esperar. Sem atitudes intempestivas. Acalme-se, espere. Planeje friamente. E então se vingue. Espero o prato esfriar. Vingança não pode ser churrasco, porque é impossível que alguém goste da carne assim que ela esfria e fica toda ensebada.

Mas é uma frase de outros tempos. Hoje, na era da comida congelada, comer um prato frio pode ser o efeito contrário. O prato já está ali, frio no seu congelador. Não sabemos se a vingança é vendida pré-cozida em supermercados aleatórios. Caso seja, é melhor não comê-la enquanto ainda está fria. Quebra os dentes.

A vingança é um dos desejos mais estranhos do ser humano. Um misto de vontade de reparar a injustiça promovida por alguém, afinal, nosso sistema judiciário é falho, burocrático e demorado. Junto a um desejo de ver o sangue impuro correndo pelo fétido solo pátrio. Já dizia o código de Hamurabi “olho por olho, dente por dente”.

Há quem ache que a vingança é algo necessário para manter um equilíbrio na sociedade. Há quem ache que não, muito pelo contrário, é uma atitude pouco racional que deveria ter sido deixada para trás pelos seres humanos mais evoluídos. E há é claro, os viadinhos de sempre que dizem “não gente, isso é errado”.

O mais estranho sobre a vingança, é que ninguém nunca quer apenas que o olho seja igualado pelo olho. Que o dente seja vingado com outro dente. Pâncreas por pâncreas, costela flutuante por costela flutuante. Uma boa vingança, além de bem planejada e friamente executada, deve ser muito mais violenta do que o ato que a motivou.

Exemplo? Seu vizinho passa com o carro por cima da sua calçada e destrói uma parte do seu jardim. Você vai lá e mija no jardim dele, corta as plantas? Não, muito pelo contrário. Se você fizer isso, você não se sentirá vingado plenamente. Você deve esperar alguns dias e na calada da noite, arranhar o carro todo do cidadão, além de quebrar todas as janelas e cuspir no volante. E claro, logo na seqüência você deve fugir para as Bahamas. Porque ele também vai querer vingança e muito provavelmente vai atear fogo na sua casa. O que vai te levar a metralhar os seus filhos. E fazer com que ele mate você. Por isso, seria de bom tom matá-lo logo no começo. E toda a sua família. Para que não sobre ninguém querendo vingar a morte do patriarca.

Além de ser uma vingança plena, que alimenta a alma, ainda servirá de exemplo. Seus vizinhos todos perceberão que ninguém deverá mexer com você, senão morrerá. Será o primeiro passo para montar uma rede de influências no bairro e cobrar taxas dos amedrontados vizinhos, para que eles permaneçam vivos.

No futebol também é assim. Se um adversário está com um comportamento estranho, entradas duras e provocações, a melhor vingança é... quebrar-lhe a perna. Sim. Uma fratura exposta, que talvez o impossibilite de voltar a jogar futebol. Nos filmes é assim. Rambo acabou com a ditadura na Birmânia, para vingar o seqüestro de um grupo de missionários. Charles Bronson já acabou com o crime organizado, desorganizado, gangues, milícias, guerrilhas e o que tivesse pela frente, para vingar a morte da sua filha.

A vingança é a forma de se fazer justiça com as próprias mãos. Toda ação gera uma reação. Se seu professor te deu uma nota errada, nada melhor do que incendiar a sua casa. Se o garçom colocou um copo de chope a mais na sua conta – e não admitiu o erro – nada melhor do que colocar um copo de chope a mais em sua garganta, ou no seu ânus. Afinal, a vingança é um prato extra-grande.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Amostra Grátis

Quando eu era criança, sempre que ia ao Supermercado, parar na maquininha que servia xarope de Guaraná era uma obrigação. Eu sempre ia. Sempre. Dependendo do dia, eu pedia dois copos e, como eu era criança, a mulher aceitava. Era uma decepção muito grande nos dias em que a maquininha não estava funcionando. Era como se não tivesse valido a pena ter ido no supermercado.

No meu mundo ideal, seria possível sobreviver alguns meses (ou pelo menos algumas semanas), apenas com as amostras grátis oferecidas no supermercado. Começaria com aquele cafezinho, cortesia do estabelecimento para/com os clientes, seguiria com umas torradinhas ali, uma passada para beliscar uns queijinhos com salame, o tradicional Guaraná. Um desses novos sucos em pó e quem sabe, com sorte, um pedaço de hambúrguer e – glória – uma bola de sorvete, novidade no mercado.

Existiram prósperos tempos em que isso foi possível. Você ia ao supermercado e poderia se considerar frustrado, caso não encontrasse pelo menos três opções para degustação. Você podia economizar o dinheiro do jantar, facilmente. Mas, não sei se foi o Governo Lula, a queda das torres gêmeas, a crise do sistema imobiliário norte-americano, a moda emo, mas o fato é que esses dias ficaram para trás.

Nós, amostristas, andamos desolados. Não conseguimos mais encontrar essa fartura de outrora. Aqueles que tinham como lema de vida o ditado “de graça, até injeção na testa” – com exceção a injeção e a testa – estão perdidos. Quando raramente há uma amostragem no supermercado, é de algo tão bizarro – sorvete de jiló, suco de jenipapo – que você acaba desistindo. Não há a perspectiva de ser recompensado com uma amostra que realmente valha à pena.

E tem mais, é numa quantidade tão pequena, que mal dá pra sentir o gosto. E sem direito a repetição. Mesmo uma criança de quatro anos não conseguiria convencer a tia do suco a dar mais um dedinho do refresco. A única amostra que rola solta hoje em dia? Revista velha. E você ainda vai levar uma assinatura de uma revista ruim junto.

Mas, como tudo na pós-modernidade, este processo de obter coisas gratuitamente, está se virtualizando. Sim, nossas relações pessoais, nossos sentimentos. Afinal, o que é o Virtual? Perguntaria e responderia Pierre Lévy ao longo de centenas de páginas tediosas, as quais eu não conseguiria resumir aqui.

As amostras grátis saíram dos supermercados e foram parar na internet. Sim, você pode se cadastrar em sites como esse e esse outro. E então, receberá novidades sobre todas as amostras grátis que você pode solicitar para empresas ao redor do mundo. Adesivos, CDs de meditação, guias turísticos, pulseiras, sorvetes e, quem sabe, injeções na testa.

Nosso amigo, o pedreiro Marcão fez o teste e cadastrou nos sites na lan-house perto da casa dele. Ele descreve esse período da sua vida como maravilhoso e responsável por ele finalmente ter conseguido se sobressair à linha da pobreza.

Nota do Editor: Esse tema nos apareceu via Twitter, por sugestão de @dias_carla, que atendeu a um pedido de sugestões de pauta do blog. Não há aí nenhuma tentativa de merchandising e tampouco o blog recebeu dinheiro para citar estes sites, não insistam seus malditos comunistas. Apenas o tema “Amostras Grátis” e sua migração do campo real para o virtual, é um assunto digno da linha do blog.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Inesgotável aniversário de Pai Jorginho

Não nos importamos com Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa. Não damos a mínima para o 7 de setembro, o 15 de novembro, o 21 de Abril. Aqui no CH3 a única data que comemoramos como um feriado é o dia 22 de novembro. O dia em que ele faz o aniversário. O inesgotável Pai Jorginho de Ogum. Sim, ontem o nosso pai-de-santo, cafetão, ex-centroavante do Flamengo e quase formado advogado da UNIC, completou 59 anos.

Sim, 59 anos, quase seis décadas. Não vou mentir. Foram vários anos de poucas glórias, muitos fracassos, muitas dívidas contraídas e uma certa estabilidade financeira conquistada apenas quando nós do CH3 começamos a divulgar seu trabalho. Foi quando ele criou a Casa de Diversão Noturna Carnicentas, onde ele obtém um lucro fenomenal, apesar dos processos trabalhistas, dos quais ele é alvo mensalmente. Geralmente ele é acusado de maus-tratos, de não pagar salário e de oferecer péssimas condições de trabalho. Mas ele consegue se livrar de tudo, criando uma rede de corrupção e tráfico de influências. Acreditamos que logo ele será eleito deputado estadual.

Pai Jorginho já nos deu muito trabalho e já nos salvou algumas vezes. É nosso personagem principal para várias histórias. Nossa fonte preferencial. Provavelmente, Gilmar Mendes o chamaria de fonte viciada, mas nós não interferimos nos hábitos pessoais de nossos entrevistados. A Pulseirinha do Sexo, Sonhos, Esportes Olímpicos. Sempre que se precisar de um assunto para preencher um post, basta pegar o telefone e ligar para Pai Jorginho de Ogum, que o post está salvo.

O mesmo ocorre quando não há assunto para um post. Este verdadeiro multi-homem sempre terá uma pauta relevante para o blog. Pai Jorginho de Ogum também nos apresentou aos seus amigos folclóricos como Marcão, Alfredo Chagas e Hanz. Além de ser um dono bem cuidadoso do Cão Leproso.

É por isso que sempre falamos do seu aniversário. Sem Pai Jorginho, o CH3 talvez não tivesse chegado até aqui. Vários leitores já nos confessaram que, caso um dia Pai Jorginho crie um blog para ele, eles passarão a ler o blog do pai-de-santo e nos abandonarão. Por isso, temos que bajulá-lo, para que consigamos manter nossa média de 150 visitas diárias.

E assim sendo, estávamos todos ontem no controverso estabelecimento comercial de Jorginho, para participar de sua festa. Ele nos recebeu com um atraso e disse “eu sei. Vocês me compraram um vinho”. Pra variar, ele errou, ele sempre erra. Era uma camisa.

Encontramos aquela fauna de seres exóticos de sempre. Marcão muito emocionado preparava as bebidas. Hanz, o pansexual, muito excitado tentava encoxar vários dos visitantes. Alfredo Chagas, chato como sempre, incitava as massas a lutar contra o neoconservadorismo das sub-classes da Nova Ordem Mundial. Cão leproso, muito emocionado, não conseguia conter as lágrimas que escorriam dos seus olhos. Mais tarde ele confirmou que era apenas uma conjuntivite.

Como somos pessoas responsáveis, fomos embora antes que as sessões de strip-tease começassem. Entre outras coisas, porque este é o espetáculo mais grotesco da face da terra. Comparável talvez, apenas a uma luta de anões usando coquilhas. Mas é capaz de que a festa continue até agora.

Ficam aqui, nossos sinceros agradecimentos e parabéns ao homem, ao mito, à lenda, ao filho da puta, Pai Jorginho de Ogum.

domingo, 21 de novembro de 2010

Sintomas do fim do mundo

O CH3 já abordou a questão do apocalipse, do fim do mundo, ninguém vai escapar! Ninguém! Algumas vezes. Para não ficar repetitivo nas teorias Maias, Nostradamus e o caralho, resolvemos começar essa nova série que aborda alguns sintomas de que o mundo realmente está acabado. Corram para os seus abrigos.

A crise de Silvio Santos

“É não tá fácil pra ninguém. Nem pro Silvio Santos”. Foi com essa resposta a um apelo do blog no Twitter, que nossa querida @andrezaspereira nos abriu os olhos para um sintoma de que o mundo está acabando. Silvio Santos está com problemas financeiros.

Silvio Santos é facilmente o brasileiro mais importante da história. Uma espécie de Rei Midas da televisão brasileira, transformou várias idéias bobas em pérolas da produção artística humana. Como não admirar a genialidade da Câmera Escondida? E suas gincanas, com pessoas descendo tobogãs com copos de groselha no copo? Silvio Santos é a prova viva de que é possível se divertir trabalhando, já que era possível ver, ninguém era mais feliz do que ele apresentando seus programas.

Topa Tudo Por Dinheiro, Show do Milhão, Porta da Esperança... quantos sucessos o homem não contabilizou? E com um detalhe. Silvio Santos é rico, muito rico. Diria que ele é homem mais rico que já pisou na face desse planeta. Poucos sabem, mas Eike Baptista começou sua fortuna assim que recebeu um gorjeta de Silvio. Um homem que faz aviõezinhos de dinheiro e saí distribuindo por aí. Pergunta para pessoas aleatórias, quem quer dinheiro. Bondade, talento, fortuna. Para descrever Silvio Santos seria preciso abrir um dicionário de adjetivos.

Pois eis então que surge a notícia. O homem está sem dinheiro. Sim, sem dinheiro. O seu banco Panamericano, a entidade que um dia controlou a economia mundial estava falido. Essa é uma notícia tão estranha, que nos faz acreditar piamente que o mundo realmente vai acabar (meu bem, o que você faria?).

Como isso é possível? Como pode Silvio Santos estar sem dinheiro. Existem algumas hipóteses.

1) Muitos aviõezinhos: Silvio distribuiu muitos aviõezinhos de papel por aí e sem querer gastou todo seu dinheiro. É uma hipótese pouco provável, já que ele teria aviõezinhos suficientes para construir e derrubar novamente o World Trade Center.

2 Idade: Queira ou não, ela chega. E Silvio anda tendo um comportamento estranho ultimamente, cada vez mais sem noção. Ele já encoxou mulheres ao vivo em seu programa. Já humilhou a cantora Stephany do CrossFox. Recentemente, perguntado se poderia vender o SBT a Eike Baptista ele rebateu “quem é esse Elque? É americano?”. Silvio pode ter confundido as bolas, colocado dinheiro na fogueira e lenha no cofre.

3 Conspiração da menina Maísa: A diabólica garotinha poderia ter aprontado altas confusões para sacanear o senhor Abravanel.

Mas o fato é que a vida não está fácil para ele. O homem que inventou o Natal para poder dar um nome para a tele-sena de dezembro. O homem que joga banco imobiliário com dinheiro de verdade. Ele está com problemas financeiros. Eis mais um sintoma do fim do mundo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Post da Besta

A palavra “diabo” já foi citada algumas vezes nesse blog. Mas, quase nunca como referência a pessoa do Diabo em si, e sim, a alguma expressão. Outras de suas alcunhas também são citadas, como “capeta” e “demônio”. Percebe-se que o capeta é um uso preferencial do Vinícius, enquanto eu prefiro o demônio. Sim, essa frase ficou estranha, mas, percebam que eu falo apenas das palavras. Não cabe aqui qualquer interpretação que faça com que as pessoas comecem a nos perseguir, com tochas e rastelos.

Ainda existem referências ao engraçado termo “tinhoso”, uma única para Belzebu e uma outra para “Satã”, feita pelo Tackleberry. Nunca antes na história deste blog a palavra “Lúcifer” foi citada.

Já falamos que o diabo era o pai do rock e que o jornalista quando morre vai para o inferno virar assessor de imprensa do tinhoso. Mas hoje, o CH3 chega o seu post de número 666. Sim, o número da besta. Não vamos negar o clichê de falar do assunto, nessa única oportunidade que teremos.

Pois bem, o diabo, essa figura controversa. Sempre presente nos filmes, possuindo pessoas e mandando que abacaxis sejam introduzidos no ânus de Adolf Hitler. Ele, sempre ali, estrelando horários menos nobres da televisão brasileira, entortando a cabeça das pessoas, falando grosso e babando. Há quem jure que é ele, como Ércio Quaresma – o advogado do caso Bruno. Ele, que veste Prada, ele que está ao lado de Deus na Terra do Sol.

A besta é uma figura bíblica. Dizia-se que quem estava com ela, estava abestado. Ou seja, votava no Tiririca. Uma das características mais marcantes da besta é o riso constante. Daí surgiu a expressão “rindo que nem bestas”. Sim, elas eram más. Além de emergir do inferno trazendo o caos, elas ainda riam.

O diabo seria um anjo sem asas que caiu para o inferno. Lá ele ficou boladão e virou um propagador do mal. Você já viu essa história no cinema. O irmão ofuscado, que parte para o lado negro da força e fica malvado. É uma história normal no cinema e na literatura. O renegado que vira obscuro e espalha o mal. O fracassado que vira um psicopata. Não é todo mundo que tem os pais assassinados e vira o Batman.

Grandes pensadores da história, provavelmente já versaram sobre ele. Oscar Wilde dizia “o diabo é muito otimista se pensa que pode piorar os homens”. Enquanto Freud explicava, o diabo ficava dando uns toques. Nietzsche com certeza também falou sobre o Belzebu. Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes e tantas outras pessoas que opinavam sobre qualquer assunto, também já falaram do diabo.

Enfim, que diabos, o mundo já falou do diabo. O CH3 não podia perder essa oportunidade. Principalmente porque daqui a três dias é aniversário de Pai Jorginho de Ogum. Ele, que entre outras tantas qualidade, é um exorcista de primeira. Esse post foi friamente pensado e planejado apenas para dar essa informação. Compareçam na festa de Jorginho, dia 22, na Casa de Diversão Noturna Carnicentas, portanto um par de sapatos e uma sugestão de pauta e, garanto, o demônio será expulso de seu corpo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Pessoas constrangedoras, volume 8

Pessoas que tergiversam


Uma pequena nota de esclarecimento. Esse post não se baseou na candidata Dilma Rousseff. Seu rascunho estava pronto muito tempo antes da eleição e da popularização da palavra. Oras, ela não tem os royaltys dessa palavra!

Você provavelmente teve um colega assim no colégio ou na faculdade. Existem muitas chances que você já tenha atendido uma pessoa assim em seu trabalho. Por “tergiversar” entende-se “mudar do assunto principal, para outro totalmente aleatório e que não faz o menor sentido”. São pessoas especialistas em pegar ganchos forçados. E como toda e qualquer pessoa constrangedora, te deixa sem reação.

1 Tergiversador inocente

- Legal esse livro que você tá lendo.
- Ah, comecei ontem. Vi uma indicação na Bravo.
- Aquela que tem o Chico Buarque na capa?
- Isso. Estou gostando bastante, principalmente da narrativa.

- Falando nisso, viu uma matéria no Jornal ontem?
- Qual?
- Falava sobre isso. Pessoas que tem uma doença rara, não lembro o nome.
- Sei...
- Então, achei bem descrita a matéria.
- É, legal.

2 Tergiversador politizado

- Pois bem, então é isso que Althusser quis dizer sobre os aparelhos ideológicos do Estado.
- Falando nisso, professora, você viu a matéria da Caros Amigos do mês passado?
- Não.
- Falava exatamente disso. De como o governo FHC sucateou o ensino público do Brasil.
- Hmm, legal.
- Também nessa revista, tem uma coluna do José Arbex Jr, excelente, sobre o espetáculo midiático no caso Isabella Nardoni.
- Legal.
- Aliás, eu estou aqui com a revista. Recomendo a leitura, se alguém quiser emprestado.
- Ok. Voltando ao assunto...
- Aliás, aproveito para mostrar essa charge, muito bem bolada, olhem só.
- Bom, bom.

3 Tergiversador compulsivo (aquele que busca anônimos para tergiversar)

- Oi. Me vê seis pãezinhos.
- Seis?
- Isso. Tão quentinhos?
- Saíram faz 10 minutos, senhora.
- Ok. Adoro pão quente.
- ...
- Me lembra minha infância, meu pai era padeiro.
- ...
- Ele sempre trazia pão quente pra casa. Me lembro como se fosse ontem. Sempre tinha pão quente e manteiga fresca.
- Aqui senhora.
- Ele sempre contava como tinha sido o dia do trabalho. Se sentava na cabeceira. Minha mãe de frente pra ele, sempre com um avental.
- Próximo.
- Me lembro que no natal de 1962 eu dei um avental lindo pra minha mãe. Todo bordado. Comprei numa loja na rua XV. Um senhor muito simpático era o atendente. Depois eu me casei com o filho dele.

4 Tergiversador surtado (um completo maluco)

- Oi.
- É... oi.
- Você tava vendo as camisas?
- É, não.
- Ah sim. Eu tenho uma camisa assim, muito boa.
- Ah sim.
- Feito de linho... sabe como é a fabricação do linho?
- Não.
- É um processo bem simples assim. Tão simples quanto andar de bicicleta.
- Hehe.
- Eu mesmo, aprendi com 6 anos e até hoje nunca esqueci. Tenho boa memória. Você se lembra o que comeu no almoço ontem?
- Hmm, não.
- Eu lembro. Lembro o que comi na ceia do Natal do ano passado.
- Legal, he.

Nesse caso você só tem duas opções. A primeira é sair correndo, claro. A segunda, é torcer para que não seja um tergiversador psicótico. Aquele que pergunta.
- Você não está gostando da minha conversa?
- Não, imagina.
- Você não gosta de mim?
- Que é isso.
- O que é que eu fiz pra você não gostar de mim?
- É...
- É o meu cheiro? Minha roupa? Já sei. Você tem outra!
- É... bem.
- Cachorro, maldito!

Para essas pessoas, o mundo gira ao seu redor. Todos assistem o que ela assiste, todos vão gostar do que ela gosta, todos querem conversar com elas. São pessoas constrangedoras. Não perca em breve, a Enciclopédia CH3 de pessoas constrangedoras.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Toc, Toc DJ. Toc toc toc on the heaven’s door.

Rob Gordon, personagem interpretado por John Cusack no filme Alta Fidelidade, é o dono de uma loja de discos. Sua vida é meio frustrada e seria ainda mais nos dias de hoje (o filme é de 2000), porque ninguém mais compra discos. Seu maior passatempo é ficar fazendo listas, top 5 sobre músicas, com os seus amigos estranhos que trabalham na loja. Do nada surge a idéia “Top 5 faixas de abertura!”. Puxando pela mente ele começa a citar “Janie Jones do The Clash, disco homônimo de 1977...” e não vou me lembrar todas.

Pode parecer uma figura esquizofrênica do cinema, desses que só existem em filmes. Ledo engano. Na vida real existem vários Rob Gordons espalhados por aí. Pessoas viciadas em fazer listas. Pessoas compulsivas por listagens. Fazer listas é um TOC.

É preciso entender que uma boa listagem tem que ter uma ordem de classificação. Não basta citar seus cinco livros prediletos. É preciso citá-los por preferência. Melhor ainda se você falar o nome do livro, o nome do autor e o ano em que ele foi lançado.

Mas não é apenas isso. Pessoas portadoras desse grave distúrbio não se prendem aos triviais “bandas favoritas, livros favoritos, filmes prediletos”. São os seis melhores livros de autores tchecos. Top 7 músicas com a palavra “até” no nome. Os nove melhores filmes sobre a guerra do Vietnã. Até que a situação fica completamente incontrolável e o cidadão começa a criar listas que só fazem sentido dentro de sua cabeça.

“Top 10 discos, descontando os melhores discos de cada banda”. “Os sete melhores livros que eu tenho em segunda edição”. “Cinco filmes húngaros para se assistir numa tarde chuvosa de outono, enquanto as gotas do orvalho embaçam o vidro da janela”. Em pouco tempo, o fazedor de lista irá se isolar do mundo, para viver apenas nelas.

Irá ao banheiro pensando nas melhores faixas de abertura com trompete. Nos melhores diálogos de Al Pacino nos anos 70. Nos melhores espaguetes à carbonária que já comeu. Os melhores guaraná que já tomou, as poltronas mais confortáveis em que já sentou. Os lugares onde o céu estava mais azul, as dores mais profundas que já sentiu. Sua cabeça estará para sempre perdida em listas mentais. Nessas listas imaginárias que se sobrepõe ao mundo real. Cada ato, cada gesto, cada barulho te trará a cabeça um assunto que merece ser listado. Você será excluído, porque só sabe falar em listas. A solução será o suicídio, não sem antes, é claro, listas as maneiras mais trágicas, mais dolorosas, mais humilhantes de cometer um suicídio.

Se você estiver sofrendo desse problema, está num estágio inicial de sofrimento, ou tem um familiar, amigo, vizinho, colega de trabalho em tal situação, saiba quais são as cinco melhores maneiras de se fazer isso.

1) Evite fazer listas. Encontre uma maneira de interrompê-las ainda no começo

FIM.

sábado, 13 de novembro de 2010

Grandes Letras Clássicas da Música Brasileira (III)

Funk

Foi no verão de 2001. Pela primeira vez o funk ascendeu ao cenário mainstream nacional. O Bonde do Tigrão tocou no palco do Domingão do Faustão. Com suas danças sensuais e letras que deixavam de lado a sutileza/infantilidade do axé. O pênis, o sexo, a submissão feminina, todos estavam mais explicitados nas letras do funk. O CH3 analisa agora algumas das principais letras do movimento que abalou as estruturas do Brasil em 2001. Em termos de marco histórico, o Bonde do Tigrão foi o nosso 11 de setembro.

Bonde do Tigrão – Cerol na Mão
“Quer dançar, quer dançar? O tigrão vai te ensinar. Vou passar cerol na mão, assim. Vou cortar você na mão, vou sim. Vou aparar pela rabiola, assim. Vou trazer você pra mim, vou sim. Eu vou cortar você na mão, vou mostrar que sou tigrão, vou te dar muita pressão, então martela, martela o martelão”.

Neste verdadeiro tormento musicado, o funk mostrava a sua cara. As metáforas para o sexo foram substituídas por uma alusão ao sexo anal. Há uma certa confusão entre o real e o virtual nesta canção. A alusão contida na rabiola, se confunde facilmente com a lúdica brincadeira de empinar pipa, graças a presença do cerol. Há controvérsias sobre uma influência do trecho “te dar pressão e cortar você na mão” no caso Bruno.

(Trad.) – Tapinha
"Dói, um tapinha não dói. Um tapinha não dói. Um tapinha não dói. Só um tapinha".

No funk não existe lógica. Não existem rimas, versos, encaminhamento de idéias. Um tapinha não dói e nada mais. Existem versos para esse refrão, mas ninguém entende e, o que eles dizem não importam nem um pouco. Poderiam ser versos sobre os Direitos Humanos. Todo o sentido é contido apenas no refrão, repetido exaustivamente.

MC Serginho – Éguinha Pocotó
“Vou mandando um beijinho, pra filhinha e pra vovó. Só não posso me esquecer da minha éguinha pocotó. Pocotó. Pocotó. Pocotó. Minha Éguinha Pocotó”.

Foi um segundo momento do funk, quando, depois de um breve esquecimento, ele voltou para ficar. Graças a esse maldito MC Serginho e sua companheira lacraia. A letra bucólica nos lembra de temas parnasianos. A vida no campo, a saudade da Éguinha Pocotó. Éguinha Pocotó está para MC Serginho, tal qual Marília estava para Dirceu.

Chatuba de Mesquita
“Máquina de sexo, eu transo igual um animal. A chatuba de Mesquita, o bonde do sexo anal. Muleque playboy. Funkero sexo anal. A Chatuba de Mesquita come as mina de geral. Andamos de redley, viemos pegar mulher. A chatuba de Mesquita, o bonde do Nike Air. Chatuba come cu e depois come xereca. Ranca cabaço, é o bonde dos careca”.

A popularização do gênero fez com que as pessoas descobrissem a verdadeira origem do funk, uma espécie de folk-funk. E no início o funk era apenas isso: putaria. Como é demonstrado nos versos. Sexo descontrolado e exibição de dinheiro em uma interpretação vocal emocionada e inesquecível. Eles poderiam ser os nossos 50 cent. Se não fosse pelo fato de terem morrido, quando foram baleados.

Gaiola das Popozudas – Quero te dar
Tá difícil de controlar
Há mais de uma semana
Que tento me segurar
Eu quero te Dar. Da-dar
Da-da-da-da-da-dadar

Uma métrica perfeita. De fazer inveja as Lusíadas de Camões.

Bola de Fogo – Atoladinha
“Sou eu, Bola de Fogo e o calor tá de matar. Vai ser na praia da Barra que uma moda eu vou lançar.
- Vai me enterrar na areia?
- Não, não, vou atolar!”

O sexo surge tanto na metáfora de “atolar na areia”, quanto na passagem do mundo infantil para o adulto, quando a brincadeira de enterrar na areia é deixada para trás. A canção mostra um diálogo na forma de um dueto, mostrando toda a expansão artística do morro carioca.

Tati quebra Barraco – Siririca
(Conteúdo censurado pelo nosso editor Alfredo Chagas).

Tudo de mais obsceno que já foi cantado em português.

Com a popularização do funk de raiz, conhecido agora como “Proibidão”, a vertente comercial perdeu seu espaço na mídia tradicional. Fruto da globalização e do avanço da internet e dos downloads, o ouvinte não precisa mais da rádio para escutar a música e, sim, busca ele mesmo o que quer escutar. Longe da grande mídia por questões conservadoras, o funk resiste agora em festas e baladas noturnas. Esperamos que em breve ele resista apenas no CDC de Atlanta.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobrevivendo

Você está em um lugar inóspito, desabitado. Uma geleira, um deserto, uma floresta densa, um cânion. Não importa como você chegou lá. O avião caiu, caiu da caçamba do caminhão, o mapa estava de cabeça pra baixo ou foi vítima de uma experiência falha de teletransporte. Mas você está lá.

E o que você vai fazer? Vai caminhar, de um lado para o outro, sem direção. Talvez tente se guiar pelo sol. Tentará comer de algum jeito, mas é difícil que consiga êxito. A noite irá chorar lágrimas solitárias em posição fetal, desamparado. E se ninguém aparecer em no máximo uma semana, você vai morrer. Sim. É bem capaz de que seus restos mortais nunca sejam encontrados.

Foi pensando em ajudar a população – afinal, quem nunca ficou perdido em um lugar inabitado? – que produtores de televisão resolveram criar os programas de sobrevivência. Não, não é nenhum programa social no estilo bolsa família. São séries de televisão que mostram pessoas se fudendo nos lugares mais impróprios para a vida humana. Acredite, é ainda pior que o Hipertensão.

Um deles é o Survivor Man. Não há dúvida de que é uma série mais honesta, em que um pobre coitado “é perdido” em algum lugar difícil e mostra como se faz para sobreviver nesses sete dias até que você seja encontrado. Apenas ele e um monte de câmeras. Ele ficará lá até que a equipe volte e nesse tempo ele come folhas, insetos, mostra formas de obter água. Algumas coisas que você talvez tenha a sorte de conseguir fazer.

O outro programa é “À Prova de Tudo” onde o super-homem Bear Grylls mostra que se você se perder em um desses lugares, você estará morto. Grylls é uma mistura de Rambo e McGyver. Ele escala paredões, anda sobre a lava, constrói barcos com palha e elásticos de meia. Se joga do topo de cachoeiras e se pendura em galhos de árvore. Ou seja, faz um monte de coisas que você jamais conseguirá fazer. E que vão ajudar a te matar mais rapidamente. Afinal, no dia em que você estiver perdido na Ilha do Diabo e pensar “ah, eu vi, o Bear Grylls me ensinou a escalar esse paredão”, você vai tentar, não vai conseguir e ainda vai gastar suas últimas energias. Afinal, o cara é um profissional que já foi do exercito, enquanto que você é um sedentário que estava de férias.

Claro, há outra questão sobre “À Prova de Tudo”. Bear não está sozinho. Ele está com pelo menos dois cinegrafistas. E aí é aquela história, ele vai se jogar do alto da cachoeira e já tem um cinegrafista lá embaixo vendo a cena. Como foi que ele desceu? E como é que o cinegrafista que estava filmando a queda de cima conseguiu logo em seguido filmar ele saindo do rio? Ele dorme em um buraco no chão. Onde os cinegrafistas dormem? Enquanto o pessoal da produção está comendo marshmellow no acampamento, ele fica sozinho no buraco? Como os caras descobrem a hora em que ele ia acordar? Ele vai construir uma jangada para atravessar o mar. E os cinegrafistas? Eles são especialistas em sobrevivência também? O Bear vai construir um monte de jangadas? Seria ele um Henry Ford?

Muitas questões. E o que o CH3 te dá de conselho para uma situação dessa? Bem, além de sentar e chorar você tem que ter em mente algumas outras coisas:
1) Nunca se perca na floresta sem um canivete, uma mochila e um cantil.
2) De preferência, leve biscoitos na sua mochila.
3) Melhor ainda! Não se perca na floresta. E mais ainda, jamais se perca nas montanhas.

Em breve o Cão Leproso irá estrelar uma série na CH3 TV, mostrando como sobreviver nos lugares mais inóspitos do planeta, (vulcões, icebergs, supermercados, 25 de março) sem ter dois braços e sem se prostituir.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pessoa Errada

Já abordamos neste espaço a questão metafísica, discutida pelo filósofo contemporâneo Alexandre Pires, nos versos da Canção “Depois do Prazer”. Talvez influenciado por essa escola do pensamento, Chrigor do Exaltasamba, discutia temas parecidos – mas com uma ótica diferente. “Eu me apaixonei pela pessoa errada”. E ninguém sabia o quanto ele estava sofrendo.

É um tema complexo. Como pode alguém ter se apaixonado pela pessoa errada? Como pode aquela pessoa, aquele indivíduo ser um sujeito errado? Toda pessoa é uma pessoa e corresponde a apenas uma pessoa. De um ponto de vista lógico, se você é você, logo você não pode ser outra pessoa. E sendo você, você, você é apenas você e conseqüentemente a pessoa certa, quando falamos de você. Se falarmos de ele, você será a pessoa errada nessa linha de correspondência.

A única possibilidade aceitável é que Chrigor tenha se apaixonado por Marcinha, ou Carlos, imaginando que ele(a) fosse a Sheila Mello¹.

Devemos também distinguir “Pessoa Errada” de “Pessoa Errante”. Os errantes são aqueles que gostam de frases prontas sobre a falibilidade humana para justificar seus erros. Sabe, aquela pessoa que diz um óbvio “Se nem Jesus agradou a todos” como se fosse uma novidade. Geralmente essas pessoas tem “errar é humano” como lema, gostam de escutar “Deixa a vida me levar” e tatuam Carpe Diem na nuca.

“Acho que estou falando com a pessoa errada”. Uma frase que pode ser dura, de alento ou menosprezo, dependendo do momento.

Pode ser uma constatação alentadora e salvadora quando se trata de um engano. Tanto no momento em que a pessoa insiste em ligar no seu celular pra falar com a Valérya. Ou quando você está sendo torturado pela polícia, porque acham que você é comunista. O engano é percebido e dizem “desculpa, pessoa errada”. Pode acontecer na rua também, quando algum maluco esquizofrênico resolve jurar que você é o Marcelo que estudou com ele na terceira série. E que vocês jogavam videogame juntos, aprontavam alta confusão. Não adianta você dizer que ele está falando com a pessoa errada. Ele não vai desistir.

Você pode também não ser considerado a pessoa certa para realizar um certo ato. Pode ser bem ruim quando o seu chefe concluí isso e escolhe o safado do Carlos para ganhar uma promoção. Ou quando sua namorada concluí que você é a pessoa errada para ela e resolve te trocar por aquele homem de Neandertal que fazia academia junto com você. Nesses casos, descobrir que você é a pessoa errada pode te levar ao suicídio.

¹Note que essa situação é hipotética. Não existem provas que essas sejam as pessoas certas para esse exemplo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Grandes nomes da história (9)

Rubens Barrichello

Rubens Gonçalves Barrichello, mais conhecido como Rubinho Barrichello, nasceu no dia 23 de maio de 1972, filho do seu Rubens Barrichello, mais conhecido como Rubão. Seu avô também se chama Rubens Barrichello, mostrando que a família não era muito criativa para nomear seus filhos. Já a mãe de Rubinho, esposa do seu Rubão, nora do Rubens avô não tem seu nome divulgado com freqüência. Ao contrário do que diz a lenda, Rubinho não é o segundo filho do casal. E não, sua família não inspirou Gabriel García Márquez.

Rubinho construiu uma trajetória singular para a sua carreira. Foi campeão brasileiro de Formula Opel, campeão da Fórmula 3 britânica. Foi apontado como uma possível multi-campeão brasileiro na Fórmula 1. Mas não foi. Logo o mundo conheceu a sua característica mais marcante: o azar.

Logo na sua primeira corrida na principal categoria do automobilismo mundial, Rubens abandonou por problema na embreagem. Na segunda corrida problema na embreagem de novo. Na terceira corrida, uma atuação fantástica que o levaria ao pódio! Mas há duas voltas do final o sistema de injeção de combustível quebrou. Na temporada de 1997, Rubinho teve a façanha de ver seu carro quebrar em 14 das 17 corridas do ano. Motor estourado, suspensão quebrada, problema hidráulico, na caixa de câmbio, na direção... tudo podia fazer o carro do brasileiro quebrar.

Em 1994, o Brasil viu a morte do seu principal ídolo, Ayrton Senna, e toda a responsabilidade de ter resultados caiu sobre os ombros de Rubens. Qualquer ser humano racional evitaria comparações para tentar manter a tranqüilidade. Rubinho não. Ele quis as comparações, a pressão. Outra característica marcante sua: a falta de noção.

Barrichello sempre fez anúncios, promessas para a sua primeira vitória que demorou 122 corridas (o que foi então, um recorde de demora para ganhar uma corrida). Sem seu amigo e ídolo Senna, Galvão Bueno começou a criar uma expectativa enorme sobre Rubinho. A sua associação com a imagem de Galvão e as constantes frustrações transformam-no no personagem mais humilhado da história do Brasil.

Não há programa humorístico, revista de piada, site de comédia que não tenha feito alguma piada com Rubinho. Se já não bastassem as quebras, o piloto jamais admitia seus erros. Perdeu a corrida porque a equipe o prejudicou. Um outro piloto o atrapalhou. Esse ano, ele chegou ao cúmulo de culpar o mau-funcionamento do rádio do seu carro por um desempenho pífio em um treino classificatório.

Rubens seguiu sem desistir, como bom brasileiro. E perdendo. Primeiro era porque o Schumacher era muito bom e a equipe trabalhava para o Schumacher. Depois, ele perdeu para Jenson Button porque... não, não havia porquês que não fossem o fato do adversário ser melhor. Mas não para Rubinho, que se sentia prejudicado, não para Galvão Bueno que não sabia dizer o motivo para a derrota do seu protegido.

Os Grandes Prêmios do Brasil merecem destaque. Rubens já largou na frente e atrás. Com carros bons e ruins. Com pista seca ou pista molhada. Em corridas valendo título, ou em corridas que não valiam nada. Com a equipe trabalhando para ele. Fez a pole position algumas vezes, mas nunca conseguiu nada além de um terceiro lugar. Fazendo com que o seu capacete especial, o macacão colorido, a bandeira do Brasil, a pintura no carro, que não servicem para nada.

Rubens Barrichello é um dos grandes nomes da história. Um exemplo vivo de que o azar, a falta de auto-crítica e a insistência nos erros, multiplicados pela exposição midiática, podem te transformar em uma piada nacional.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Expressões Surreais

O saudoso Gressana, de estimada memória, concebeu um dos posts mais clássicos da história do CH3. Ainda no longínquo ano de 2006 ele dissertou sobre ditos populares analisados ao pé da letra. Foi um post de uma era pré-histórica do blog. Hoje apenas os escafandristas conseguem mergulhar nesse passado para encontrá-lo.

Aqui, parto para uma outra análise sobre essas expressões. Muitas delas são completamente surreais. Não necessariamente as que foram citadas naquele tempo remoto do blog. Não falo das expressões idiotas como “Quem vai na chuva é para se molhar”. Oras, é lógico que quem saí na chuva se molha. Mas não necessariamente esse era o objetivo. Talvez ele estivesse apenas querendo tirar o cavalinho da chuva. Aliás, porque essa expressão é utilizada num sentido de “baixa a bola”. Porque o cavalinho deveria ser largado na chuva? Porque tanta crueldade com o potro? Porque?

Uma expressão surreal é aquela “Se fosse uma cobra”. Você sabe. Você está procurando a letra w no teclado e não encontra. Até que você vê que o w está ali, na sua cara, ao lado do q. Então você pensa “ahhhh, se fosse uma cobra!”.

E se fosse uma cobra o que? Qual é a probabilidade de uma cobra estar no seu teclado, no lugar do saleiro, da caixa de fósforos, do controle remoto? Sem chances. Se fosse uma cobra no lugar de um desses objetos, você seria picado é claro. Mas você merecia. Seria um resultado justo por ter deixado a barbárie imperar em sua casa. Com cobras andando impunemente, sobre mesas e camas.

Fora o fato de que você perceberia que é uma cobra. Uma Naja não estaria discretamente enrolada ao redor do seu mouse. Seria muito mais justo, sensato, verossímil, se a expressão fosse “ahhhh, se fosse uma aranha!”. Aranhas têm uma capacidade muito maior de passarem despercebidas por aí.

Muitos falam que o segredo é a alma do negócio. Isso é verdade apenas se você trabalhar com cadeados que abrem com senha. Se você for um publicitário, sem chance.

Outra expressão muito estranha é “não cutuque a onça com vara curta”. Eu diria mais. Não cutuque a onça com vara longa. Com varas muito longas. Aliás, não cutuque a onça de maneira nenhuma, my friend. Se possível, fique longe de qualquer onça.

E termino com a expressão mais absurda que é “tudo o que não mata, engorda”. Como assim? Quem criou essa expressão devia conversar com amigos imaginários, viver em um mundo paralelo completamente distante da realidade. Existem muitas coisas que não matam, e elas tampouco engordam. Escutar música não mata, por exemplo. Ok, escutar música em um show dos Dead Kennedys pode te matar sim. Mas, realizar o ato em um sala vazia, com apenas uma caixinha de som... sem chances. As caixas de som podem até te matar, mas escutar música não. E você não vai engordar.

Um relógio dificilmente vai matar, a não ser que esse relógio fosse utilizado por Chuck Norris ou McGyver. E um relógio não engorda. Entre outras coisas, porque não se come um relógio! E por outro lado, muitas coisas que engordam, matam. Aliás, geralmente o que mata também engorda. Açúcar, gordura. Salada não mata nem engorda. Quem criou essa expressão foi um retardado.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os guardas do poder

Foi um choque. No começo de agosto cientistas fizeram uma grave revelação. O triceratops jamais existiu. Pode parecer algo besta, mas não é, caso você assistisse Power Rangers na infância. O triceratops era o Ranger azul, o nerd. Aquele cujo zord parecia um rinoceronte, com seus grandes chifres.

Talvez histérico por saber que um período da sua vida foi uma farsa, menos de um mês depois, David Yost, aquele que interpretava o Ranger Azul, resolveu sair do armário e assumir que era gay. Quem achava que ele era desajeitado com as mulheres por ser nerd, estava enganado. E foi assim. Desespero em muitas pessoas que se sentiram enganadas. Pior do que quando você descobriu que a Ranger Amarela era um homem.

Não sabia disso? Pois é. Na verdade, todas as cenas de ação dos Power Rangers são de seriados japoneses. No Japão, existem trezentas séries diferentes, dessas que envolvem super-heróis fantasiados e coloridos. Os produtores americanos pegam essas cenas e adaptam a história para o cotidiano estadunidense. E eles passam até hoje. Sim, já estamos nas 16ª temporada da série, provavelmente baseadas em 16 séries japonesas diferentes.

E sim, esqueci de falar da Amarela. No seriado japonês ela era um homem. Provavelmente por isso é que foi escolhida uma chinesa para interpretá-la.

Toda essa polêmica azul nos leva a uma reflexão. Sobre nossa infância e os Power Rangers. Como eles eram ruins. Sim. Assistir a um episódio hoje, com o discernimento que a vida adulta nos dá, é constrangedor. Pensamos: como é que nós conseguíamos ver isso? Como é que nós achávamos bom? Brincávamos disso, comprávamos produtos, ficávamos ansiosos pelo episódio do dia seguinte.

A história era sempre a mesma. Na faculdade em que eles estudavam, o gordo e o idiota tentavam fazer alguma sacanagem com eles. Eles estavam se divertindo no American Way of Life. A vilã Rita resolvia aprontar alguma sacanagem. Com sua risada maligna ela bolava um plano.

Eram então enviados os seres de lama. E eles proporcionavam os melhores momentos. Por alguns motivos:
- Eles não andavam para frente. Eles sempre davam passos laterais durante sua caminhada.
- Eles falavam algo como “agluglgugluggulguguglgug”.
- A cada golpe que eles recebiam, eles soltavam faísca. Lama não solta faísca! Eles não eram de metal! Ou eles eram seres superiores que produziam energia?
- Eles não tinham a menor estratégia de luta. Mesmo estando em dezenas, centenas, eles esperavam que outro fosse derrubado para então atacar. Seria muito mais lógico produzir um ataque em massa.

Era a hora de morfar. Sim, você teve um relógio grande que você achava ser um morfador. Os Power Rangers se moviam na velocidade da luz e logo apareciam dando cambalhotas, em pose de combate.

Claro, os seres de lama eram sempre derrotados. E então, Rita, no planeta distante em que ela habitava, fabricava outro monstro em uma máquina moderna e o mandado para a terra. A luta começava difícil, mas logo os nossos heróis se aproximavam da vitória. Conquistada com muito sofrimento, afinal, eles rolavam no chão. E então, vinha a surpresa. O monstrengo aumentava assustadoramente de tamanho.

Isso acontecia todo dia! E eles sempre diziam “ó, é preciso usar o megazord” como se fosse uma alteração no cotidiano, para a alegria de Sandy & Júnior. Então, eles formavam o Megazord. E como num passe de mágica, o triceratops, o mamute e sei lá que o outro bicho, apareciam do nada. É uma grande dúvida saber em que lugar é que eles ficavam guardados, tão disfarçadamente, que poderiam aparecer a qualquer momento. Nem o Bruno conseguiria esconder tão bem.

Todas as lutas térreas aconteciam em grandes gramados. Mas quando o Megazord era formado, eles logo estavam no meio de um monte de prédios. Que na verdade, eram um isopor vagabundamente pintado de cinza. E o pior, durante o combate mortal, vários prédios eram destruídos! E as pessoas que moravam lá? A ação era tão rápida que não dava tempo de evacuar. Era um prejuízo muito grande, tantos prédios destruídos todos os dias, por conta de uma briga entre um monte de lata e um monte de lama.

Enfim, o Megazord tirava sua espada, aniquilava o toletão e fim. Rita assistia tudo com sua luneta e culpava seus ajudantes retardados. Os Power Rangers voltavam para a faculdade, onde o Gordo e o Idiota aprontavam altas confusões. E eles nunca perderam uma prova pra salvar o mundo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O futuro do Brasil

O CH3 se reuniu nesta segunda-feira com a candidata, digo, com a presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff. Nós do blog queríamos logo traçar um plano para definir o futuro do país nos próximos quatro anos. Desde nossa criação, nós estamos presentes no governo, praticando uma oposição centrada.

O próprio presidente Lula, sempre nos ouvia antes de suas decisões. Pegava o telefone, entrava em contato conosco e só então se definia, de acordo com sua própria cabeça. Queremos manter o nosso status de eminência parda da administração pública. Queremos dar vazão aos sonhos dos adeptos das teorias conspiratórias. Queremos dar um golpe de Estado e promover a ascensão de Pai Jorginho de Ogum à presidência. Que ninguém escute isso que acabamos de falar.

Antes de nos encontrarmos com Dilma, fomos recebidos por um militante político que atuou em sua campanha. Ele tratou de nos falar maravilhas sobre o futuro do país. De acordo com ele, no governo Dilma, o Brasil se tornará a maior potência do mundo em todos os setores. Perguntei se isso iria ocorrer inclusive no críquete. Ele nos garantiu que sim. Que daqui a quatro anos o Presidente Lula, digo, a Presidente Dilma será conhecida como a presidente do críquete. Será também a presidente do hortifruti granjeiro, a presidente da filologia, do transporte... Dilma será a presidente da Antonomásia.

Quando fomos, finalmente, convidados a entrar em sua sala, estávamos tão impressionados com suas qualidades, que perguntamos ao assessor se deveríamos fazer a genuflexão antes de adentrar o local.

Entrei e lá estava ela. De quatro sobre a mesa, me dizendo palavras sujas e sensuais.
(Desculpem, um conto erótico invadiu esse post)

Lá estava a presidente, com uma roupa vermelha. Recebeu-nos seriamente com sua dicção bizarra e sua entonação vocal ainda mais estranha. Cometeu o ato falho de dar as mãos para o Cão Leproso, o que nos enraiveceu e fez com que ficássemos mais radicais em nossas posições. Partimos logo para o que interessava e o bife foi servido.

Durante o almoço, a candidato nos garantiu que não, ela não praticará aborto com as próprias mãos. Mas silenciou quanto a hipótese de os mesmos serem praticados com os próprios tornozelos. Ela também garantiu que o terrorismo não será uma disciplina curricular do ensino fundamental. Que as pessoas não serão obrigadas a dividir seus apartamentos com outras famílias.

Pai Jorginho de Ogum ergueu a mão para fazer uma colocação e pediu adoçante para o seu suco. Logo depois ergueu a mão novamente e dessa vez alertou que estava faltando um guardanapo em seu prato. Pouco adiante, novamente levantou o braço e pediu licença para fazer uma previsão sobre como será o governo Dilma. Tentamos demovê-lo da tentativa. Em vão.

Jorginho fechou os olhos, puxou uma garrafa de caninha 21 e jogou cartas sobre o prato com um bife pela metade, para constrangimento geral. Ele então disse “O governo Dilma terá erro e acertos. A economia crescerá bem, mas nem tanto. Empregos serão criados, mas talvez não o suficiente. Casos de corrupção irão acontecer. O país terá decisões políticas equivocadas e outras acertadas”. Nesse momento, um assessor que estava no local se rebelou gritando “Você me plagiou! É isso que eu estou escrevendo para o balanço geral do governo Lula!”. Eis que chegou chutando a porta um antigo assessor de FHC que disse “plagiando a mim! Está no balanço final que eu fiz em 2002!”. Um assessor de José Sarney disse constrangido “fui eu que fiz o rascunho. Tirando a parte dos acertos, eu já havia escrito o resto”.

A confusão se seguiu e foi preciso que Gilmar Mendes interviesse. Ele tomou uma decisão estranha, que nos pareceu equivocada e aproveitou para comparar o jornalismo à prostituição.

Com um clima estranho, o almoço terminou. Saímos com a certeza de que fomos cumpridores de nosso papel na sociedade. Saímos com a certeza de que tudo continuará do mesmo jeito. Pelo resto da eternidade.