sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os Caubóis da Carne Processada

A notícia mais impactante da última semana, sem dúvidas, foi a descoberta de que bacon e outras carnes processadas provocam câncer. Tudo bem, não é exatamente isso o que a pesquisa quis dizer, na verdade ela aponta que o consumo indiscriminado de salsicha, presunto e outros embutidos aumenta a chance de o indivíduo desenvolver câncer no intestino, mas, assim, não chega a ser a mais alarmante das estatísticas.
Cem gramas de sabor, gordura, veias entupidas e incessante multiplicação celular

No entanto, dane-se o bom senso. O interessante nesse caso é criar um alarmismo e um sentido de apocalipse público, citando sempre o fato mais impactante da notícia. O que interessa é afirmar que o presunto e etc agora estão na mesma lista em que já estão o tabaco e o amianto e também a luz do sol. São produtos que certamente provocam câncer, que certamente vão lhe matar de uma maneira longa e dolorosa.

Pode parecer algo absurdo, mas essa provavelmente foi a impressão que as pessoas tiveram quando os malefícios do cigarro começaram a ser divulgados algumas décadas atrás. O cigarro sempre foi associado a liberdade individual, requinte, charme e inteligência. Suas propagandas contavam com mulheres bonitas, homens fortes e destemidos.

Pense agora nas propagandas de presunto. Nas famílias felizes em volta da mesa, saboreando aquelas fatias puras de carne suína compactada. Nas senhoras simpáticas escolhendo sua marca preferida de presunto diante de atendentes sempre simpáticos. Estranhamente simpáticos e propícios a vender uma marca, uma postura que certamente deveria resultar em uma investigação do mercado, para descobrir se o funcionário recebeu dinheiro para beneficiar determinado produto, o que eu acredito que seja algum crime previsto na constituição de 1988.
Os segredos de Fátima

Pense mais recentemente na Fátima Bernardes, engolindo fatias inteira de presunto de uma maneira que só se faz nos comerciais. Seria Fátima a nossa caubói da Marlboro? Alguém associado a valores tradicionais e familiares que depois se transforma no símbolo de algo errado? Um dia veremos ela é outras pessoas que comiam presuntos em comerciais agonizando diante de um câncer terrível?

Podemos estar diante de novos tempos. As propagandas da sadia, seara, perdigão e etc serão acompanhadas de um aviso de que o ministério da saúde adverte que comer salsicha provoca câncer. As embalagens de bacon vão vir com imagens de pessoas com tumor, de fetos ou de brochas. Apenas maiores de 18 anos poderão comprar uma linguiça e as propagandas de embutidos serão cada vez mais sensuais.

Chegará o dia em que os comedores de processados serão separados nos restaurantes em alas diferentes. Até o Kassab aprovar uma lei antibacon, que proíba as pessoas de comê-lo em lugares públicos.

Nossas futuras gerações nos lembrarão com escárnio e de maneira jocosa: vovó comia presunto, Hahaha. Vão rir de pessoas com câncer no intestino que tentarão processar os frigoríficos e perguntarão se a gente realmente achava que comer bacon não iria fazer mal.

Bem, na verdade a gente até já sabia.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Master Kids

Depois do sucesso mundial do MasterChef, aquele programa que utilizava a culinária como uma desculpa para exibir a humilhação pública dos participantes diante de um júri especializado, a Rede Bandeirantes resolveu ampliar a fórmula. Estreou na semana passada uma versão diferente do MasterChef, que conta com a participação apenas de crianças.

O programa é de um horror inominável e não é a toa que já despertou a atenção de pedófilos. Há muita coisa errada em um programa que coloca crianças para fazer pratos sofisticados na televisão.

O primeiro é o fato de essas crianças cozinharem pratos sofisticados. Uma criança de 10 anos ainda deveria ter dificuldades para passar manteiga em um pão e o mais próximo de um prato elaborado que ela faria seria com sua imaginação naquele conjunto de panelinhas de plástico. Veja que ninguém se torna um cozinheiro muito bom se não tentar durante alguns anos. Logo, para fazer esses pratos requintados ao vivo, essas crianças estão na estrada há algum tempo. Desde que nasceram, praticamente. Seus pais deveriam perder suas guardas.
MasterChef Júnior

Esses pais com certeza serão um dos fatores mais terríveis do programa. Uma vez, que nenhum pai dos tempos atuais consegue ver seu filho competindo sem ficar mais empolgado que a prole. Competições infantis de futebol invariavelmente contam com a presença de pais ensandecidos na arquibancada gritando para que seus filhos corram e conquistem a vitória com a morte alheia. Competições de luta são ainda mais tensas, com pais gritando para que as crianças de oito anos espanquem os adversários, que chutem suas cabeças, suas pernas, que matem se for preciso.

Não há de ser diferente em um programa de culinária. Imagino um pai de bochechas fartas e vermelhas se esgoelando para que o filho desosse um frango corretamente. Para não deixar o suflê passar do ponto. Para que utilize corretamente o manjericão, o alho poró ou um desses outros alimentos que nos conquistam pelo nome, antes que pelo sabor.

Há o fator perigo relacionado a essas crianças na cozinha. Entre todas as partes de uma casa, a cozinha sem dúvida é a que mais tem objetos capazes de matar uma pessoa. Temos as óbvias facas, mas algumas espátulas e mesmo os simpáticos garfos podem ser cortantes. Panelas podem matar, além de todos os eletrodomésticos possíveis. É um risco danado colocar um monte de crianças participando disso.

Qualquer hora uma vai acabar cortando um dedo fora no liquidificador, se trancando dentro do fogão ligado, vazando o próprio olho ou perfurando o abdômen enquanto tentava fazer um corte exótico de salmão, ou derrubando água fervendo nos seus membros inferiores. Isso pode acontecer a qualquer momento.

Por fim, há a questão da fórmula do programa. Já foi amplamente debatido por aqui que a graça do programa não está necessariamente na elaboração dos pratos e sim na humilhação que os chefs proporcionam aos participantes. Aquele negócio de cuspir no prato, falar que o cara é um anormal que acha que sabe cozinhas e outras coisas mais pesadas.

Aquele gordinho francês babaca vai fazer isso com uma criança de onze anos? Vai mandar um “você fez essa comida para suas bonequinhas, princesa?" diante de um risoto ruim? Vai dizer para uma porra de uma criança de nove anos que ela nunca vai ser uma cozinheira, sendo que esse é o sonho dela? Aposto que não, porque só é permitido humilhar adultos mesmo. O que eles dirão para essas crianças? “Olha, quem sabe da próxima vez lindinha”. Como será eliminar essas crianças? Como será para o público lidar com a decepção de uma criança, ainda despreparada para viver com esses sentimentos?

Não há sentido em juntar todos esses aspectos em um programa de TV.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Guia Cotidiano

Quem acompanha este blog, já deve ter se informado sobre a falsa glamourização da vida do jornalista. Ao contrário do que mostram filmes e novelas, jornalistas não vivem em eventos sociais, tomando bons drinques. Isso até acontece de vez em quando, mas geralmente o profissional da imprensa está esperando por algum acontecimento que o obriga a ficar sóbrio e só comer uns salgadinhos de vez em quando.

A espera, afinal, é um elemento presente na vida do jornalista. Boa parte da vida útil dele será desperdiçada em salas de espera, enquanto espera o resultado de uma reunião importante, de alguma informação de bastidor, principalmente para aqueles que cobrem política. Assim sendo, a sala de espera por vezes é um segundo lar.

Foi por isso que anos atrás eu tive a ideia de criar uma espécie de Guia de Salas de Espera da Região Metropolitana de Cuiabá. Jornalistas de toda a cidade seriam convocados a avaliar uma série de fatores referentes ao ambiente: qualidade e quantidade de cadeiras, temperatura ambiente, disponibilidade de água ou café, simpatia das atendentes. A partir dessa avaliação, seria feito um ranking de salas de espera e as melhores não ganhariam dinheiro nenhum, além da honra e da fama. Seria algo para se anunciar no Facebook até.
Dá pra ver, de cara, que o ar-condicionado é capaz de congelar quem senta no sofá embaixo dele

Nada pode ser pior do que uma sala com poucas cadeiras. Ou com cadeiras desconfortáveis, ou em que a temperatura ambiente seja capaz de matar alguém de hipotermia. Nada pior do que oferecer isso para os chamados formadores de opinião.

O Guia de Salas de Espera talvez não pareça muito útil para a vida da maioria das pessoas, mas ele poderia ser estendido para outras áreas, criando uma espécie de TripAdvisor da vida cotidiana. Afinal, todo mundo já sabe ou consegue saber onde se vende uma coxinha gostosa, um bom capuccino. Mas, ninguém sabe onde encontra um bom banheiro, algo que é muito mais importante.

Não tem jeito, todos nós estamos sujeitos a sofrer com algum problema intestinal vez por outra. Às vezes isso vai acontecer quando você estiver na rua e você acaba em um banheiro fétido, praticamente uma filial do inferno. Banheiros sem papel, sem tampa na privada, sem sabonete, transbordando até a boca de merda. Isso sempre pode acontecer e isso proporciona sofrimento em dobro.

As pessoas poderiam dar notas para os aspectos que importam em um banheiro, informando inclusive se ele é gratuito, privativo, ou se você precisa chorar e ameaçar se cagar nas calças para utilizá-lo. Teríamos os melhores banheiros de uma determinada região, de uma cidade. O melhor banheiro do Brasil. Onde cagar será sempre um prazer. Bateu a vontade? Clica no KeBrando e veja onde se aliviar nas redondezas. Em uma evolução, o ranking poderia ser feito para banheiros em estrada, um velho desafio do ser humano. Algum logaritmo calcularia o melhor custo benefício para uma parada.

O ranking seria elaborado em um determinado prazo, acredito que anualmente, para acompanhar a evolução da qualidade dos banheiros. Lembro que quando o novo terminal do Aeroporto Marechal Rondon foi inaugurado, ali poo 2006, seus banheiros eram reluzentes e perfeitamente limpos. Atraiam visitantes e masturbadores compulsórios de toda a região. Naquela época eu diria que era um dos melhores banheiros do Brasil, mas hoje em dia essa afirmação estaria longe de ser verdadeira.

O ranking de banheiros seria um aliado do cidadão e estimularia a higienização dos WCs. Do que adianta servir um mate gelado delicioso, se o banheiro precisa ser evitado? Se para utilizar o vaso é preciso manter uma distância de 30 cm, para não correr o risco de respingar merda na sua canela? De nada adianta.

Outros itens poderiam ser avaliados também, porque não? Os caixas de supermercado mais atenciosos, as melhores vagas de estacionamento da região e por aí vai. A vida do cidadão seria muito melhor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

De Volta Para o Futuro III

Enquanto esperávamos na sala de recepção do governador Tackleberry, Elemento X começou a me contar qual era o seu plano. De fato, só há um lugar na região de Cuiabá em que qualquer objeto pode se deslocar a mais de 80 km/h. Este local é a pista do aeroporto. Essa seria a única maneira que eu conseguiria para atingir a velocidade necessária para voltar a 2015. Só que não seria tão fácil assim.

Primeiro, eu teria que realizar o procedimento em um momento em que não houvesse aeronaves na pista, mas isso era simples. X tem a planilha de todos os voos e até já consultou, não sei quando, quais são os horários disponíveis. Daqui a pouco, entre 22h17 e 22h59 há uma brecha que nós podemos tentar. O problema é que não dá para entrar na pista do aeroporto com um veículo normal, seria impossível conseguir essa autorização. A única chance era tentar entrar pelo hangar do governador e por isso estávamos ali.

Perguntei então a Alfredo Humoyhuessos como é que funcionava essa dinâmica. Se eu estava tecnicamente morto, significava que eu não consegui voltar para o passado. Se eu conseguisse voltar agora, eu voltaria a viver e, logo, voltando a viver, eu não estaria tecnicamente morto, então, toda essa situação que está acontecendo agora deixaria de ocorrer.

Sim, me disse Humoyhuessos. Essa é a complexidade da viagem temporal. Cada pena que se movesse pelo tempo seria capaz de transformar toda a história da humanidade. Mas, perguntei, como é que faríamos. Se eu conseguir voltar para 2015, quer dizer que em 2041 eu posso ir lá na Júlio Campos e me encontrar comigo mesmo? O colombiano me disse que não. Ou que sim, dependendo de como fosse a nossa volta ao passado. Mas esse seria um grave problema que poderia fazer com que a história se deformasse a cada instante. Se isso acontecesse, eu poderia passar 26 anos vivo ou 26 anos morto, tudo ao mesmo tempo.

O tema era bastante complexo, mas Humoyhuessos me disse qual seria a solução. Ele programaria o relógio para que nós voltássemos ao passado alguns poucos segundos antes de realizar a viagem temporal. Daria tempo para que eu diminuísse a velocidade e permanecesse em 2015. Isso significaria que eu jamais estaria em 2041? Não nessa nova história escrita, eu teria estado em uma que jamais existiu. Eu impediria minha viagem no tempo por meio de outra viagem no tempo. As memórias vivenciadas ficariam comigo para todo sempre, mas todas as outras pessoas jamais teriam vivido os últimos 26 anos da forma como viveram, tudo será alterado. Então, esse momento de agora, jamais existirá para as outras pessoas que passaram pelo tempo de maneira normal.

Elemento X prestava bastante atenção naquele papo louco e eu falei para ele não se preocupar, porque nada daquilo jamais ocorreria, ele não precisaria escrever nenhum relatório sobre o assunto. Era difícil entender toda a situação. Estávamos arrumando um jeito para que tudo aquilo não acontecesse. Inclusive, Humoyhuessos me falou, minha volta ao tempo poderia fazer com que nenhuma das pessoas que ali estão conseguissem chegar nos cargos aonde hoje estão. A Coca Cola de soja poderia jamais existir, o PMDB não assumiria o poder do país. Assim como tudo pode acontecer. O tempo é um negócio muito louco.

Finalmente o governador Tackleberry nos chamou para sua sala. Parecia um homem bastante ocupado. Me cumprimentou surpreso e perguntou como é que eu estava, onde eu andei nesses últimos 26 anos. Realmente era difícil de explicar. Falei para ele que estava apenas tentando voltar ao passado e Elemento X explicou o plano. Tackleberry deu o aval e disse que nós poderíamos ir agora já, porque às 20h sempre tem um congestionamento de drones que faz o sinal da internet ficar fraco e o trânsito fica mais pesado.

Saímos todos no carro automatizado do governador, enquanto Elemento X deu instruções para que seu carro o encontrasse no aeroporto às 23h. Tackleberry começou a me contar sobre sua carreira política, o que é que aconteceu no país e no mundo nesses 26 anos. Eu ainda não devia saber que os Estados Unidos estavam sendo governados pela primeira vez por uma mulher lésbica - do partido republicano - e que há três anos atrás a Assembleia de Deus conseguiu comprar o Vaticano.

Me atualizei sobre o futebol e Tackleberry informou que a situação estava feia. Uma lei aprovada em 2021 obrigou todos os times a não terem dívidas e todos eles fecharam as portas. O futebol ressurgiu como uma modalidade disputada por clubes empresas e o time da AmBev era o atual octacampeão nacional. Mas, ninguém mais presta muita atenção nisso. "Já tá sabendo que o Brasil nem participa mais de copas, né? Criançada hoje só quer saber de futebol americano. O Cuiabá Arsenal vai disputar o tricampeonato mundial no fim do ano".

Chegamos até o posto de fronteira e eu resgatei o meu Gurgel. "Não acredito que isso ainda anda", disse Tackleberry. Sim, era difícil entender que o Gurgel ainda estava em 2015, mesmo estando em 2041. Fomos para o aeroporto.

Tackleberry liberou minha entrada no hangar e ainda faltavam duas horas para que eu pudesse retornar ao passado. Ele pediu um uísque e disse que o lado bom dos carros automatizados e que agora todo mundo podia beber e dirigir depois. O único problema é que vez por outra um bêbado acaba parando na casa da ex-namorada e aí alguém precisa chamar a polícia.

O tempo passou devagar. Claro, tudo poderia dar certo e todos seriam felizes para sempre. Mas, podia dar errado. Alguém podia interromper o procedimento ou por qualquer outra razão eu ficaria em 2041 para sempre. Ou, até o final de 2041, quando eu chegaria em 2042 e por ai em diante. Teria um longo e doloroso reencontro com pessoas que eu vi ontem, mas que não me veem há 26 anos. Acho que eu viraria matéria de jornal, seria entrevistado no Jô Soares. Ou não. Seria bem difícil me adaptar nesse mundo louco.

Quando a hora finalmente chegou, Alfredo Humoyhuessos programou a máquina e entramos no carro. Me despedi de Tackleberry e Elemento X e eles me desejaram uma boa viagem. X me indicou para ir com os faróis desligados até o fim da pista, quando eu poderia começar a acelerar. Assim eu fiz. Apertei o acelerador e vivi todas aquelas sensações novamente. As luzes da cidade foram se aproximando até se acenderem por completo e eu estava novamente em 21 de outubro de 2015 na Avenida Júlio Campos. O sol brilhava e o velocímetro marcava 118 km/h. Reduzi a velocidade a tempo, antes de entrar em um looping eterno de viagens no tempo. Todos nós nos olhamos aliviados, exceto Humoyhuessos que parecia já saber disso tudo há tempos.

Deixei todos na casa de Pai Jorginho de Ogum que se despediu dizendo que ia naquele dia mesmo anotar uma série de previsões para registrar no cartório. Certeza de que nada disso vai acontecer.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De Volta Para o Futuro II

Ao que eu pude entender, os computadores afirmavam que eu estava morto e nesse mundo os computadores jamais poderiam estar errados. Eu havia morrido no dia em que meu carro se desintegrou ou se teletransportou para o futuro. Isso significava que eu estava no futuro e que jamais conseguiria retornar para o passado, que na verdade, era o presente. Inexisti no mundo durante 26 anos e não sei se há alguma jurisprudência para o assunto.

O policial olhou meio confuso, enquanto Pai Jorginho de Ogum e Alfredo Humoyhuessos entravam na sala. Ele apertou um botão em seu relógio e parece que se comunicou com alguém dizendo que havia um problema. Em três minutos, três policiais apareceram e logo me deram um tapa na nuca, mostrando, como eu disse, que algumas coisas nunca mudam. O primeiro policial pediu calma e contou a situação para os outros três, que provavelmente pensaram que eu era um lunático e se pudessem teriam me matado de vez para não trazer nenhuma complicação.

Ninguém parecia saber o que fazer e então eu comecei a citar nomes de pessoas que eu conhecia. Falei que eu conhecia o governador, mas ninguém pareceu acreditar. Perguntei sobre o cartunista Vinícius Gressana e ninguém o conhecia. Fui tentando, até que citei o Elemento X, policial. Todos se olharam entre eles e contestaram: você conhece o Coronel Elemento X? Comandante estadual de todas as polícias. Eu disse que sim, que havia me formado com ele. Citei nomes de seus familiares e situações até que parece que eles se convenceram.

Começou uma série de telefonemas, parece que eles falaram com o auxiliar direto do comandante do batalhão, que entrou em contato com um major, que falou com um tenente-coronel, que parece que finalmente falou com o Elemento X. Soube que ele estava se dirigindo para lá e chegaria em dezesseis minutos e vinte e oito segundos. O trânsito automatizado dá uma previsão exata sobre a duração dos trajetos.
Descobri que a banheira do Gugu voltou a passar na televisão, depois que Nana Gouvêa se transformou na primeira mulher a descobrir a fonte da juventude.

Durante esse período eu tentei me atualizar sobre o mundo, mas tudo o que me parecia novidade era apenas um item cotidiano banal para aqueles policiais de vinte e poucos anos. Desde que eles se conhecem por gente o trânsito já é automatizado, já faz muito tempo que as pessoas tomam Coca Cola de soja e eles não se interessam muito por questões políticas.

Elemento X chegou, acredito que no tempo estimado, e me olhou como se eu fosse um fantasma. Digo que eu o entendo. Ele por sua vez, parecia mesmo vinte e seis anos mais velho. Fiquei numa situação estranha, porque na verdade não faz nem um mês que eu o vi pela última vez, mas isso no meu tempo que não vale nada para mais ninguém. Ele já não me via a 26 anos, tempo em que permaneci morto.

Já fui lhe explicando tudo o que havia acontecido e ele olhou atentamente. Pareceu entender a situação, afinal, ele conhecia as coisas que o CH3 costumava a aprontar. Ele me perguntou o que é que eu pretendia fazer e eu disse que deveria voltar para 2015, afinal, tinha 26 anos para viver. Devo ter dado um desgosto danado para os meus familiares, estava recém-casado, deve ter sido bem chato para os que não viajaram no tempo, como eu. Além disso, o que eu poderia fazer? Não dava para simplesmente aparecer no meu emprego, nos lugares que eu frequentava e começar a cantar O Portão de Roberto Carlos, após 26 anos. Aliás, Roberto Carlos ainda está vivo? Me responderam que não, mas que nesse ano foi comemorado o seu centenário.

Humoyhuessos afirmou que tudo o que nós precisávamos era atingir 120 km/h no Gurgel, novamente para conseguir viajar no tempo novamente. O Elemento X disse que isso não seria possível. As leis do trânsito não possibilitam que nenhum carro supere os 80 km/h em qualquer lugar do país. Todos são automatizados e, se por algum acaso, um carro ultrapasse esse limite, helicópteros da polícia são rapidamente acionados para deter os veículos.

Bem, seria preciso encontrar uma fórmula, eu não poderia ficar preso no futuro. Elemento X disse que tinha uma ideia, mas que seria necessário falar com o governador. Que fossemos então.

Deixei o Gurgel estacionado no lado do posto policial e percebi que uma multidão de curiosos já o observava. Coronel X apertou um botão em seu relógio e falou com o chefe de gabinete do governador. Entramos em seu carro automatizado e ele informou para onde deveríamos ir: o Palácio Paiaguás, sede do governo estadual. Até que estava familiarizado.
Neymar assumiu o comando da seleção brasileira após a derrota por 17x1 para a Islândia. O objetivo dele é resgatar o jeito brasileiro de jogar futebol. O país não disputa uma copa desde 2026.

Aproveitei o caminho para tirar umas dúvidas com o Elemento X. Porque havia um muro no lugar onde outrora existiu o Rio Cuiabá? Ele me respondeu que o rio secou. Desde que eu morri, nunca mais havia chovido em Cuiabá. Em alguns anos o rio secou, aliás, foi um problema de falta de chuva em boa parte do Brasil. Houve tentativas de transposição, campanhas educativas, mas ocorreu uma migração em massa para a região da floresta amazônica. “Você não sabe, mas a floresta amazônica acabou há três anos. Manaus hoje é a maior cidade do mundo com 33 milhões de habitantes. Lá ainda chove”.

Como é que se vivia em Cuiabá sem chuva? “Um cientista local descobriu uma forma de retirar água a partir da fumaça dos incêndios e resolveu dois problemas de uma vez só. Foi isso que nos salvou”. Impressionante.

A Coca Cola de soja, ele me explicou, foi fruto da seca e da crise mundial. A China decretou falência em 2021 e não havia mais para onde exportar soja. A solução foi enfiar soja em todos os alimentos possíveis. Acabou sendo um sucesso. Quem era o presidente do país? Não havia mais presidente. Aproveitando a instabilidade política, o PMDB deu um golpe de estado em 2017 e se perpetua no poder nacional até hoje em um sistema com sete comandantes nacionais. Não tem violência, apenas fisiologismo. X me mostrou as notas atuais do Real, com imagens de líderes do partido, inclusive a nota de mil reais, com uma foto de José Sarney. O trânsito automatizado, por sua vez, surgiu uns cinco anos depois. Foi bom, ele disse.

Cuiabá ainda parecia a mesma cidade de 26 anos antes, pelo menos no centro histórico. O Elemento X me explicou que a cidade cresceu para outros lugares. A Estrada da Guia era repleta de condomínios de luxo, praticamente até Rosário Oeste. A estrada de Santo Antônio era tomada por prédios populares. Na região próxima ao Bosque da Saúde havia acabado de ser construído o primeiro prédio de 100 andares da cidade.

Passamos em frente ao McDonalds da Avenida do CPA e vi os cartazes de Cheddar McSoja. Ele me confirmou que a seca fez com que a produção de bois diminuísse e o preço da carne disparasse, na famosa crise de 2022. Começaram a substituir a carne por soja também e hoje dá pra dizer que a maior parte da sociedade é vegetariana.
Principal pizza do mercado. Com queijo de soja.

Pensei que algumas coisas mudam pra caramba. Foi quando finalmente chegamos ao Palácio Paiaguás. Aquele lugar tão familiar, continuava praticamente o mesmo.

(Continua)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

De Volta Para o Futuro

Finalmente chegamos ao 21 de outubro, o dia em que Marty McFly encontraria um mundo muito louco, de acordo com a clássica série "De Volta Para o Futuro". Não irei me ater em mais detalhes sobre a série, porque, sinceramente, os filmes são ótimos e acho que eu vi cada um deles pelo menos umas três vezes ainda no século passado, mas acredito que nunca mais os vi e minha memória não consegue registrar os mínimos detalhes da trilogia.

O fato é que o mundo não é igual ao que o filme imaginou, até porque os roteiristas fizeram uma série de piadas sobre o futuro. Mas entre as falhas mais imperdoáveis está a de eles não registrarem que em 2015 o mundo inteiro estaria ligado em um blog de humor. Eles não previram o surgimento do Não Salvo. Inclusive porque não imaginavam que iria surgir a internet. Quem acreditaria nisso em 1989? Era mais fácil imaginar que existiriam skates voadores mesmo.

Interessado no assunto, o CH3 resolveu fazer um exercício de futurologia. Como será o mundo em 2041, daqui a 26 anos? Vocês devem ter imaginado, quando nós falamos em futuro por aqui nós falamos em Pai Jorginho de Ogum. E isso implica em um texto gigante descrevendo minha saga em busca dessa figura sobrenatural, que geralmente resulta em momentos de tensão envolvendo um cachorro sem braço e situações com verdadeiro risco de morte. Vou poupá-los desses trechos.

O fato é que encontrei Pai Jorginho de Ogum e lhe apresentei meu plano. Ele disse que era uma merda e eu concordei, afinal, se o pai-de-santo não consegue acertar nem qual será o cor do céu amanhã, o que dirá sobre uma série de eventos que irão acontecer em 26 anos? Certamente ele não teria condições de falar sobre isso. Ele me pareceu meio irritado com a minha constatação.

Foi aí então que nós fomos surpreendidos novamente. Ou melhor, foi aí que eu tive uma ideia realmente boa. Entrei em contato com Alfredo Humoyhuessos, o pesquisador e anestesista colombiano, e lhe falei sobre os meus planos. Ele disse que essa era uma ótima ideia e que ele poderia me ajudar. Em exatamente sete minutos, Alfredo apareceu na porta da casa de Pai Jorginho de Ogum carregando uma enorme geringonça: era uma máquina do tempo, ao estilo De Volta para o Futuro. Ele a instalou no meu Gurgel, utilizando o acendedor de cigarros (“as melhores tecnologias são justamente as mais simples”, ele disse) e me chamou.

Entramos eu, Alfredo, Pai Jorginho e o Cão Leproso no carro. Ele me disse que precisávamos ir até uma reta e alcançar a velocidade de 120 km/h com o Gurgel. Falei para ele que isso beirava o impossível, mas ele insistiu. Me dirigi então até Várzea Grande, o município vizinho a Cuiabá, em que as leis de trânsito simplesmente não existem. Cheguei até a distante Avenida Julio Campos, em um trecho no qual não existem quebra-molas, radares ou muitos carros e comecei a acelerar.

Quando o velocímetro atingiu 60 km por hora o Gurgel começou a tremer, para a apreensão de todos. Aos 80 km, o carro começou a vibrar freneticamente. Quando bateu em 100, o motor parecia que iria explodir. Disse para Alfredo que não dava mais, mas ele apenas insistia. Com muito esforço consegui atingir 120 km/h em um momento em que parecia que o carro iria se desintegrar. E de certa forma foi isso que aconteceu.

Quando olhei, estava em um cenário completamente diferente. A Avenida Júlio Campos estava tomada por prédios e outdoors que a anunciavam como a última fronteira da especulação imobiliária. Não entendi nada daquilo. Parecia não ter dúvida de que eu estava no futuro.

Olhei em volta e vi uma série de carros com curvas retas e percebi que nenhum deles era guiado por motoristas. Todos eram automáticos. Sem saber o que fazer, parei em uma loja de conveniências. Perguntei ao atendente em que ano nós estamos e ele me olhou como se eu fosse um retardado. Respondeu que estávamos em 2041. Alfredo Humoyhuessos parecia resoluto, enquanto Pai Jorginho estava embasbacado. Dei uma olhada na loja e vi umas latas de Coca Cola diferentes. Percebi que elas eram fabricadas a base de soja. E que elas custavam 38 reais. O real, afinal, ainda era a moeda nacional.

Perguntei ao atendente se tinha algum jornal para vender e ele me olhou como se eu fosse um débil mental. Disse que fazia pelo menos quinze anos que não existia mais jornal em papel. Perguntei como eu poderia fazer para saber das notícias e ele disse que bastava acessar os sites a partir do meu celular, aproveitando a internet holográfica, disponível em todo o país. Em todo caso, olhei a TV da loja e vi que Elias Neto apresentava o telejornal da TV Centro América. Prestei atenção nas notícias. Uma delas dizia que o governador de Mato Grosso, Thiago Borges, havia afirmado nesta segunda-feira que o Governo de Mato Grosso pretendia dar uma resposta, ainda este ano, sobre as obras do VLT que estavam prestes a completar 30 anos. Olhei a entrevista e vi que o governador era o Tackleberry. Que mundo louco.

Vi ao meu lado uma senhora comprando uma Coca Cola de soja com uma nota de cinquenta reais e vi que ela não era mais estampada por uma imponente onça e sim pelo rosto de Eduardo Cunha. Embaixo do seu rosto estava escrito “Cunha, o Pacificador”.

Fiquei observando a TV por mais um tempo e o Jornal Nacional anunciou que pesquisadores haviam descoberto a cura da Lepra. Procurei por Cão Leproso, que parecia satisfeito.

Voltei para o carro e saí dirigindo pelas ruas de Várzea Grande, todos me olhavam assustados. Nem parecia que eram eles que estavam em carros automáticos. As ruas de Várzea Grande continuavam iguais, apenas com asfalto bom e com muitos prédios. E sem semáforos. Com o advento dos carros automáticos, eles simplesmente deixaram de existir. Foi um desafio chegar até Cuiabá.

Passei pela Avenida da FEB e incrivelmente os trilhos do VLT continuavam por ali. Algumas coisas nunca mudam. Quando finalmente cheguei ao lugar onde antes ficava localizada a Ponte Júlio Müller, percebi que havia um enorme muro e policiais fortemente armados. Não existia mais Rio Cuiabá. A ponte passava por um enorme lamaçal separado pela muralha gigante, com algumas pichações.

Os policiais obviamente me mandaram parar. Colocaram uma lanterna na minha cara e me perguntaram o que eu pensava que estava fazendo dirigindo um carro? Pediram meus documentos. Entreguei minha carteira de habilitação e os documentos do carro. Ele perguntou se eu estava de sacanagem e eu respondi que isso era tudo o que eu tinha. Ele me disse para esperar um segundo e entrou para dentro do posto policial.

Após alguns segundos ele me chamou e eu entrei na sala. Ele me mostrou uma parede que funcionava com um monitor onde aparecia um registro geral meu e dizia que eu havia morrido em 21 de outubro de 2015.

(Continua)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Sinfonia dos Objetos

Quando se é criança, o mundo inteiro é um enorme desconhecido. Há grandes mistérios absolutamente incompreensíveis e na verdade, alguns deles continuam sem uma explicação lógica até os tempos atuais. Um deles: por que os objetos fazem barulho?

Sim, existem diversas coisas que fazem barulho. Outras pessoas, outros animais, diversos objetos, principalmente quando entram em contato com outros objetos. Facas fazem determinado barulho no momento em que cortam a a pele, a carne ou os ossos humanos, por exemplo. Mas, em hipótese nenhuma, deveriam fazer barulho quando estão adormecidas em gavetas, em cima da pia ou escondidas dentro de bizarros bonecos que foram sucesso nos anos 80.

Mas o fato é que muitos objetos aparentemente inanimados provocam os mais diversos barulhos, de maneira que pode parecer aleatória, mas que no fundo é bem ritmada. Portas, mesas, janelas, eletrodomésticos ligados na tomada, todos emitem sons em um determinado período de tempo.
Dobradiças tem um timing perfeito para fazer barulhos no meio do silêncio, aparentemente sem terem sido provocadas para isso

Quando você era uma criança inocente e inútil, já deve ter passado alguma noite em claro a escutar um misterioso estalo em algum lugar do seu quarto. Nem sequer abriu os olhos e se cobriu até onde pode, haja visto que na lógica infantil, o lençol é o melhor escudo do qual o ser humano pode dispor.

Com o tempo, vamos deixando esses medos de lado, porque crescemos, amadurecemos, mas também porque nos acostumamos com os barulhos que a casa faz. Sabemos que aquele estalo foi apenas a janela que se moveu de acordo com uma determinada carga de energia que se colocou sobre ela, fazendo com que suas dobradiças mexessem com algum atrito. Aquele roçar na janela é apenas um galho de árvore que a cada seis minutos e meio esbarra por ali. O grito que vem da rua é apenas o serial killer do fim da rua fazendo sua primeira vítima em sete meses. O ouvido se acostuma. É como aquele chiado praticamente imperceptível da televisão, mesmo quando ela está no mudo.

Quando você se muda para uma casa nova, tudo muda. Seus ouvidos e seu cérebro ainda não estão acostumados com os barulhos que a nova residência pode fazer. Assim sendo, você ainda não processou a informação de que aquele estalo seguido de três pequenas vibrações é o motor da geladeira e não alguém que arrombou a porta e quicou por três vezes no chão ao entrar. As duas pancadas fortes que vem da rua são a tampa do bueiro solta pela qual um carro passou por cima e não o serial killer do fim da rua que rachou a tampa craniana de alguém com dois golpes secos de pedra.

Os barulhos se repetem de maneira ritmada ao longo da noite e todos eles te provocam estranhamento. Não há muito o que fazer, a não ser distrair a mente enquanto arrombamentos imaginários invadem sua cabeça.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O bar mais sinistro do mundo

Promoção
1 Baguncinha R$ 6
2 Baguncinha R$ 10

O cartaz me chamou a atenção e não tenho dúvida de que é uma boa estratégia de marketing. Nesse mundo moderno e hiperinflacionado, é difícil encontrar um baguncinha por um preço justo e competitivo. A promoção é importante para chamar a atenção em uma rua cheia de bares, pequenos bares.

Quem não é de Cuiabá não deve estar acostumado com o que é um baguncinha: um pequeno sanduíche que comporta tudo o que a mente humana imaginar. Não existe receita para o baguncinha. O bom baguncinha é aquele que utiliza todos os ingredientes possíveis. Nos áureos tempos ele chegou a custar um mísero real, mas estes eram outros tempos e pouco importa. Esse texto não é sobre baguncinhas. É sobre o bar que realiza essa promoção.

Ele está localizado no novo bairro onde agora moro. Na avenida principal desse bairro. Passo em frente a ele  todos os dias quando vou para a minha nova academia, ainda sem senhores que inserem o bolsa-família em todas as discussões possíveis e em um desses dias prestei atenção no cartaz. Pensei comigo que qualquer dia iria parar ali para comer, afinal, dois baguncinhas por dez reais garantem calorias suficientes para manter uma família de seis pessoas durante um mês.

No entanto, eu logo comecei a reparar que esse bar/lanchonete já está aberto às 6h30 da manhã. Não é um horário comum para que um bar fique aberto, exceção feita àqueles que nesse horário estão expulsando os últimos bêbados maltrapilhos que passaram a noite ingerindo doses cavalares de álcool para esquecer um amor bandido.

Para piorar, não há ninguém no bar nesse horário. Apenas um senhor de olhos fundos no balcão, esperando clientes que nunca aparecerão e um outro cidadão de camisa social e havaianas, que mantém um diálogo com um interlocutor desconhecido. A situação é toda bem estranha, adornada por um Ford Ka modelo antigo, cor pérola, sempre estacionado nas intermediações.

Ontem a noite passei de carro pela frente desse bar e percebi que ele estava fechado e a situação começou a ficar ainda mais estranha. Não há sentido em um bar/lanchonete que vende baguncinhas que fique aberto de manhã, mas que permaneça fechado durante a noite, sabidamente o horário mais apropriado para o consumo de qualquer espécie de sanduíche.

Ainda hoje, passando novamente em frente ao local, reparei nos mínimos detalhes. O bar fica localizado ao lado de um córrego, o que por aqui é apenas um eufemismo para canal de esgoto. Há uma longa e sinistra área verde ao redor do estabelecimento, adornado por estacas vermelhas pregadas no chão com algumas pedras ao redor.

Sendo duvidosa a função paisagística das estacas, prestei mais atenção no estabelecimento e lá vi novamente o mesmo senhor de olhos fundos no balcão. Esperando os clientes que nunca virão. Ou melhor, as vítimas. Senti em seus olhos que ele já perdeu a conta dos homicídios que fez e que não consegue calcular aqueles que ainda cometerá. A morte era refletida em seus olhos e aquelas estacas vermelhas certamente representam as suas vítimas, ou um ritual satânico, na melhor das hipóteses, um cemitério indígena. É impossível olhar para este cara por mais de um segundo sem sentir um frio na espinha.

Na volta da academia percebi que uma mulher estava sentada em uma cadeira de fios no fundo do terreno, ao lado de uma criança, claramente um futuro ditador sanguinário. Em uma churrasqueira feita de latões, alguns pedaços de carne eram assados. Não duvido que fosse carne humana.

Pensei que estava sendo maldoso. O bar abria cedo de manhã para preparar a comida dos trabalhadores que almoçam por ali, essa é a rotina de um restaurante. Nada de carne humana, rituais satânicos e bebês demoníacos. Apenas trabalho digno.

No entanto, na hora do almoço eu passei em frente ao bar e vi apenas uma mesa ocupada, por quatro homens que dividiam uma Coca Litro. Todas as certezas voltaram a minha cabeça e fiquei tentado a avisar os clientes que eles haviam acabado de comer carne de gente no bar mais sinistro do mundo. Que a noite estará fechado para lavar o sangue das vítimas e jamais fornecerá um único baguncinha, certamente um chamariz para os inocentes.

Taí o Google Maps que não me deixa mentir. Reparem que as estacas vermelhas ainda não haviam sido colocadas, sinal de que os sacrifícios humanos são mais recentes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Aviso aos navegantes

Caros telespectadores que frequentam o blog CH3 com regularidade moderada. Vocês já devem ter percebido que o blog não foi atualizado na última semana. Caso vocês não tenham percebido este fato, ou não frequentem o CH3, peço que desconsiderem esse aviso.

Recapitulando os fatos: me casei no dia 26 de setembro, em uma cerimônia que reuniu todos os fundadores do blog. O casamento gerou uma série de posts aqui pra baixo e uma série de mudanças na vida pessoal.

O fato é que casei, viajei por uma semana que contou com posts programados e quando cheguei de volta a Cuiabá, me deparei com uma situação de não ter nenhum post pronto, fortemente rascunhado ou algo parecido.

Para piorar, me mudei de casa e cheguei até um novo condomínio onde as maravilhas da Internet banda larga ainda não chegaram. Nem Oi, GVT, Net ou quem quer que seja, ninguém levou seus milagrosos cabos de fibra ótica até o local, provavelmente porque eles acham que os moradores de lá merecem o isolamento virtual.

A solução será comprar um sinuoso modem de Internet 3g que todos nós sabemos que é algo criado para nos deixar na mão. Além disso, ainda preciso arrumar um lugar para meu computador e tudo mais. Em síntese: os próximos dias não serão fáceis, inclusive para a manutenção da rotina de posts do CH3.

Pretendo solucionar esse caso o mais rápido possível, porque vocês não sabem como foi difícil escrever estes intermináveis parágrafos em um celular, que nem é um iPhone, galaxy ou algo parecido.

Pois bem, aviso a todos que as postagens voltarão a ser regulares nesse blog em breve. Espero que no mais tardar na semana que vem.

Peço a compreensão e paciência de todos e POR FAVOR NÃO NOS ABANDONEM VOCÊS JÁ SÃO POUCOS NÃO NOS DEIXEM SÓS NÓS LOGO VOLTAREMOS EU JURO.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Felicidades ao casal

Participei de poucos casamentos na minha vida. A maior parte das pessoas do meu círculo de amizades não se casou. São solteiros por convicção, decepção ou solidão pura e simples. E, diria que em 83% dos casamentos em que fui, eu era apenas agregado de alguém, não tinha maiores preocupações que não fossem apenas aparecer no local da festa, cumprimentar os noivos e comer. Apenas uma vez eu tive que comprar presentes para alguém.

Digo que foi um momento um tanto quanto estranho. Fui até uma loja de presentes, me deparei com aquela lista de copos e escolhi um deles. Achei estranho que os presentes fossem entregues diretamente aos presenteados pela loja, sem a necessidade do convidado levar o presente para casa e depois entregá-lo em mãos aos destinatários.

Quando você está do outro lado, ou seja, quando você é que vai casar, você descobre como é que são as coisas. Você recebe vários presentes, das mais diversas variedades e, curiosamente, todos eles vem com uma mensagem de felicitação aos noivos.

Todas as pessoas escrevem as suas mensagens. Casais felizes em relações longa e duradouras, casais recentes, namorados, solteiros, divorciados, pessoas que você sempre teve certeza de que possuíam um coração duro feito uma pedra e eram avessos a qualquer tipo de sentimentalismo. Até eles desejarão felicidades e escreverão longas mensagens sobre compreensão, felicidade, desafio e esperança de sucesso no relacionamento.

Cheguei a pensar em algum momento, que existissem sites específicos com frases de parabéns para casais. Bem, realmente eles devem existir, mas é curioso que nenhuma frase é igual a outra, o que me leva a crer que as pessoas realmente criam essas frases. Ainda mais porque muitos presentes são comprados em lojas e, será que as lojas tem um livrinho de frases prontas? Acho que não. Os valores atribuídos a um casamento já estão devidamente enraizados na cabeça das pessoas.

Penso que eu, se fosse convidado a um casamento amanhã e fosse comprar um presente, não saberia o que escrever. Não sei se desejaria compreensão, companheirismo, felicidades eternas e o que fosse para os novos esposos. Mandaria um convite em branco dizendo “hip-hip-hurra”, ou alguma mensagem enigmática como “não fujam de seus destinos”.