quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De Volta Para o Futuro II

Ao que eu pude entender, os computadores afirmavam que eu estava morto e nesse mundo os computadores jamais poderiam estar errados. Eu havia morrido no dia em que meu carro se desintegrou ou se teletransportou para o futuro. Isso significava que eu estava no futuro e que jamais conseguiria retornar para o passado, que na verdade, era o presente. Inexisti no mundo durante 26 anos e não sei se há alguma jurisprudência para o assunto.

O policial olhou meio confuso, enquanto Pai Jorginho de Ogum e Alfredo Humoyhuessos entravam na sala. Ele apertou um botão em seu relógio e parece que se comunicou com alguém dizendo que havia um problema. Em três minutos, três policiais apareceram e logo me deram um tapa na nuca, mostrando, como eu disse, que algumas coisas nunca mudam. O primeiro policial pediu calma e contou a situação para os outros três, que provavelmente pensaram que eu era um lunático e se pudessem teriam me matado de vez para não trazer nenhuma complicação.

Ninguém parecia saber o que fazer e então eu comecei a citar nomes de pessoas que eu conhecia. Falei que eu conhecia o governador, mas ninguém pareceu acreditar. Perguntei sobre o cartunista Vinícius Gressana e ninguém o conhecia. Fui tentando, até que citei o Elemento X, policial. Todos se olharam entre eles e contestaram: você conhece o Coronel Elemento X? Comandante estadual de todas as polícias. Eu disse que sim, que havia me formado com ele. Citei nomes de seus familiares e situações até que parece que eles se convenceram.

Começou uma série de telefonemas, parece que eles falaram com o auxiliar direto do comandante do batalhão, que entrou em contato com um major, que falou com um tenente-coronel, que parece que finalmente falou com o Elemento X. Soube que ele estava se dirigindo para lá e chegaria em dezesseis minutos e vinte e oito segundos. O trânsito automatizado dá uma previsão exata sobre a duração dos trajetos.
Descobri que a banheira do Gugu voltou a passar na televisão, depois que Nana Gouvêa se transformou na primeira mulher a descobrir a fonte da juventude.

Durante esse período eu tentei me atualizar sobre o mundo, mas tudo o que me parecia novidade era apenas um item cotidiano banal para aqueles policiais de vinte e poucos anos. Desde que eles se conhecem por gente o trânsito já é automatizado, já faz muito tempo que as pessoas tomam Coca Cola de soja e eles não se interessam muito por questões políticas.

Elemento X chegou, acredito que no tempo estimado, e me olhou como se eu fosse um fantasma. Digo que eu o entendo. Ele por sua vez, parecia mesmo vinte e seis anos mais velho. Fiquei numa situação estranha, porque na verdade não faz nem um mês que eu o vi pela última vez, mas isso no meu tempo que não vale nada para mais ninguém. Ele já não me via a 26 anos, tempo em que permaneci morto.

Já fui lhe explicando tudo o que havia acontecido e ele olhou atentamente. Pareceu entender a situação, afinal, ele conhecia as coisas que o CH3 costumava a aprontar. Ele me perguntou o que é que eu pretendia fazer e eu disse que deveria voltar para 2015, afinal, tinha 26 anos para viver. Devo ter dado um desgosto danado para os meus familiares, estava recém-casado, deve ter sido bem chato para os que não viajaram no tempo, como eu. Além disso, o que eu poderia fazer? Não dava para simplesmente aparecer no meu emprego, nos lugares que eu frequentava e começar a cantar O Portão de Roberto Carlos, após 26 anos. Aliás, Roberto Carlos ainda está vivo? Me responderam que não, mas que nesse ano foi comemorado o seu centenário.

Humoyhuessos afirmou que tudo o que nós precisávamos era atingir 120 km/h no Gurgel, novamente para conseguir viajar no tempo novamente. O Elemento X disse que isso não seria possível. As leis do trânsito não possibilitam que nenhum carro supere os 80 km/h em qualquer lugar do país. Todos são automatizados e, se por algum acaso, um carro ultrapasse esse limite, helicópteros da polícia são rapidamente acionados para deter os veículos.

Bem, seria preciso encontrar uma fórmula, eu não poderia ficar preso no futuro. Elemento X disse que tinha uma ideia, mas que seria necessário falar com o governador. Que fossemos então.

Deixei o Gurgel estacionado no lado do posto policial e percebi que uma multidão de curiosos já o observava. Coronel X apertou um botão em seu relógio e falou com o chefe de gabinete do governador. Entramos em seu carro automatizado e ele informou para onde deveríamos ir: o Palácio Paiaguás, sede do governo estadual. Até que estava familiarizado.
Neymar assumiu o comando da seleção brasileira após a derrota por 17x1 para a Islândia. O objetivo dele é resgatar o jeito brasileiro de jogar futebol. O país não disputa uma copa desde 2026.

Aproveitei o caminho para tirar umas dúvidas com o Elemento X. Porque havia um muro no lugar onde outrora existiu o Rio Cuiabá? Ele me respondeu que o rio secou. Desde que eu morri, nunca mais havia chovido em Cuiabá. Em alguns anos o rio secou, aliás, foi um problema de falta de chuva em boa parte do Brasil. Houve tentativas de transposição, campanhas educativas, mas ocorreu uma migração em massa para a região da floresta amazônica. “Você não sabe, mas a floresta amazônica acabou há três anos. Manaus hoje é a maior cidade do mundo com 33 milhões de habitantes. Lá ainda chove”.

Como é que se vivia em Cuiabá sem chuva? “Um cientista local descobriu uma forma de retirar água a partir da fumaça dos incêndios e resolveu dois problemas de uma vez só. Foi isso que nos salvou”. Impressionante.

A Coca Cola de soja, ele me explicou, foi fruto da seca e da crise mundial. A China decretou falência em 2021 e não havia mais para onde exportar soja. A solução foi enfiar soja em todos os alimentos possíveis. Acabou sendo um sucesso. Quem era o presidente do país? Não havia mais presidente. Aproveitando a instabilidade política, o PMDB deu um golpe de estado em 2017 e se perpetua no poder nacional até hoje em um sistema com sete comandantes nacionais. Não tem violência, apenas fisiologismo. X me mostrou as notas atuais do Real, com imagens de líderes do partido, inclusive a nota de mil reais, com uma foto de José Sarney. O trânsito automatizado, por sua vez, surgiu uns cinco anos depois. Foi bom, ele disse.

Cuiabá ainda parecia a mesma cidade de 26 anos antes, pelo menos no centro histórico. O Elemento X me explicou que a cidade cresceu para outros lugares. A Estrada da Guia era repleta de condomínios de luxo, praticamente até Rosário Oeste. A estrada de Santo Antônio era tomada por prédios populares. Na região próxima ao Bosque da Saúde havia acabado de ser construído o primeiro prédio de 100 andares da cidade.

Passamos em frente ao McDonalds da Avenida do CPA e vi os cartazes de Cheddar McSoja. Ele me confirmou que a seca fez com que a produção de bois diminuísse e o preço da carne disparasse, na famosa crise de 2022. Começaram a substituir a carne por soja também e hoje dá pra dizer que a maior parte da sociedade é vegetariana.
Principal pizza do mercado. Com queijo de soja.

Pensei que algumas coisas mudam pra caramba. Foi quando finalmente chegamos ao Palácio Paiaguás. Aquele lugar tão familiar, continuava praticamente o mesmo.

(Continua)

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