sexta-feira, 29 de maio de 2015

Professores Cantores

Sempre que o Enem e outros tipos de vestibular se aproximam, as televisões de todo o país mostram os preparativos dos estudantes para as provas. Aquele cara que estuda 22 horas por dia, o que estuda 22 horas por dia e ainda pratica exercícios físicos diários, o outro que estuda 22 horas por dia, pratica exercícios físicos diários e ainda sai pra balada com os amigos, um último que faz tudo isso e ainda dorme oito horas diárias.

Os professores também são explorados. Os professores mais legais do mundo, aqueles que vão dar entrevista no Jô Soares, que contam piadas para explicar os teoremas de Pítagoras, que montam roteiros cinematográficos para ensinar a termodinâmica e que cantam para lecionar a fotossíntese. Ah, os professores cantores.

Se eu tenho uma felicidade na minha vida, esta felicidade e nunca ter tido um professor cantor durante a minha vida escolar. Professores cantores são uma espécie de praga que se alastra principalmente nos cursinhos pré-vestibulares. São cidadãos que desenvolvem uma didática performática, transformam a sala de aula em uma casa de shows. A canção da tabela periódica é a sua Hotel California.

Por um mistério da natureza, esses professores se transformam em ídolos da rapaziada. Os alunos adoram os professores artistas e essa fama os leva até o Jô Soares. Provável que depois sigam para shows de Stand Up, ou que gravem um disco em parceria com o Ary Toledo. Se esses professores tocarem violões, bem provável que eles cantem Leoni no intervalo das aulas e peguem todas as menininhas.

Pode parecer um cantor de rock progressivo dos
anos 70, mas este é Isaac Newton. Ele é o autor
de três leis promulgadas na constituição de 1988.
Uma delas diz que: se uma maçã cair na sua ca-
beça, vai doer razoavelmente.
Os professores cantores são especialistas em um dos mais nefastos gêneros desenvolvidos pela humanidade que é a paródia musical. Nada pode ser pior do que a parodia musical. Talvez, ter seus dedos mutilados e o corpo mergulhado em um barril cheio de guaraná Dolly, mas eu não tenho certeza ainda. A parodia musical faz um sucesso danado no Zorra Total e em sites especializados em charges animadas. Aliás, charges animadas com paródias musicais conseguem ser ainda piores do que as parodias isoladas.

Uma boa (?) paródia consiste em pegar uma melodia famosa e transformá-la em uma letra infantil, completamente débil-mental que desvirtua a música original, que geralmente já é uma porcaria, transformando tudo em um enorme monte fecal.

Sério, apenas de pensar em uma paródia, eu já começo a me contorcer e sentir uma raiva profunda dentro de mim. Ao pensar em paródias sobre xilemas e floemas, hélio e outros gases nobres, as três leis de Newton, eu sinto uma raiva profunda. Ainda mais ao pensar que nos tempos atuais, todas essas paródias devem ser em ritmo de funk. O funk veio e piorou tudo no mundo, imagino que anos 80 os professores deviam fazer paródias com músicas do Guilherme Arantes.

Os professores cantores ainda se utilizam de esquemas manjados, como dividir a sala em dois grupos e cada um é responsável por uma parte da letra, transformando o já grotesco momento da paródia em um bizarro jogral do conhecimento. Alguns devem inclusive improvisar um beatbox, levar uma gaita (Sandy não saberia a diferença), uma banda completa, com quarteto de cordas.

Mas, será que funciona tão bem? Será que os alunos tiram notas boas no vestibular ao se lembrar de uma paródia grotesca? Que durante uma questão ele comece a cantar, mentalmente ou não, “prepara que agora, é hora, do show da mitocôndria”. O hino nacional é uma música e trata de assuntos complexos e ninguém decora. Os 10 mandamentos não são uma música e ninguém decora também. E eu não entendi a relação que eu acabei de fazer.

Para que as paródias fossem melhores, elas deveriam deixar de ser paródias. Não há como uma paródia ser boa, essa é a quarta lei de Newton, o 11º Mandamento. Eles deviam partir para suas próprias composições, nem que para isso precisem buscar inspiração no ilícito, cheirando pó de giz.

Caso vocês não tenham percebido, esse texto inteiro é uma paródia que pode ser cantada no ritmo de "Diário de um Detento".

Agradecimentos inestimáveis para @DadoDoria que ajudou na concepção inicial desse texto há muito, mas muito tempo atrás mesmo. Tanto tempo que ele não deve mais nem se lembrar.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fim interminável

O Rei do Blues, BB King, morreu no último dia 14 de maio, uma quinta-feira, provavelmente enquanto dormia. O mundo se comoveu com a morte de um grande músico, que, dizem, era gente boa e influenciou uma geração de guitarristas de blues.

Nós até já havíamos nos esquecido de sua morte – esse mundo é cruel e rápido, todo dia surge um novo fato marcante que não nos deixa tempo para sofrer e lamentar os fatos passados – quando surgiu a notícia de que seu velório seria no dia 22 de maio.

Quando a notícia sobre o velório foi publicada, eu achava até que ele já havia sido enterrado. Nas experiências que eu tenho com pessoas que morrem, o velório geralmente ocorre ao longo daquele dia e o cadáver é sepultado no dia seguinte, no máximo uns três dias depois, se o morto for famoso e o seu velório gerar comoção, ou se ele precisou passar um tempo a mais no necrotério para verificar as causas da morte.

Foram oito dias entre a morte e o velório. E até agora ele não foi enterrado.

Amanhã se completam duas semanas da morte do BBK e seu corpo ainda não foi coberto pela terra, ou mesmo queimado até virar cinzas, ou colocado em um barco de chamas no Rio Mississipi. O sepultamente ocorrerá apenas no sábado, incríveis 16 dias após sua morte.

Mais do que um lapso, ou talvez uma incompatibilidade de agenda das funerárias, tenho a impressão de que esse é um costume norte-americano. Sempre me lembro do James Brown, que seu velório ocorreu uns cinco dias depois e o enterro foi realizado dois meses após a sua morte (!!).

Na época, a razão da demora foi atribuída a disputa entre seus vinte filhos (!!) pelo destino final do cantor. Ano passado, o ex-motorista particular do James Brown (quando digo ex-motorista, não quero dizer que o cara deixou de dirigir, mas apenas constatando que um morto não tem motoristas particulares) afirmou que o Rei do Funk nunca foi enterrado, encontra-se até hoje embalsamado por aí. Por quê? “É difícil enterrar alguém quando se tem 20 filhos”, constatou o ex.

Esse poderia ser o problema do BB King, que tem 15 filhos. Mas, e o Michael Jackson? Ele teve “apenas”, três filhos, que ele amava e pendurava pela janela de quartos de hotéis espalhados pelo mundo. Ele morreu num dia 25 de junho, foi velado no dia 7 de julho e enterrado apenas em 3 de setembro. Mais de três meses entre bater as botas e finalmente comer o capim pela raiz.

Dar fim ao corpo de um morto realmente não é tão simples. Existem diversos trâmites burocráticos, custa caro e não existem tantas lápides disponíveis por aí e os fornos crematórios são raros. Mas, mais do que por questões religiosas, morais ou éticas, temos que encontrar um destino para o cadáver por uma questão de saúde pública e por praticidade.

O corpo do morto logo começará a ser devorado por bactérias, vai se decompor, gerar mau-cheiro, atrair insetos e ratos que transmitem doenças e etc. Tudo bem, a humanidade já inventou modernas táticas de embalsamento, que permitem que um cadáver sobreviva durante muito tempo, sem ser devorados por bactérias. Mas não há saída para o problema físico.

Um cadáver ocupa muito espaço. Mesmo que os corpos não apodrecessem, seria preciso arrumar um fim para eles, porque não sobraria espaço para tanto defunto assim no mundo. O que vocês faz com o corpo durante esses três meses, ou mesmo 16 dias? Ele vai ficar no necrotério? Escondido debaixo da cama, da escada, no centro da sala de jantar, na garagem, atrás de uma porta, dando sustos nas visitas?

Não deve ser fácil guardar o corpo de um morto. Deve dar um trabalho danado, igual a um sofá que você precisa mudar de lugar para varrer a poeira. Provável que alguém ainda diga “essa merda aqui atrapalhando o caminho!”. Seria muito mais fácil ter enterrado esse corpo nas 48 horas seguintes ao falecimento.

Por isso, eu digo: deixem claro nos seus testamentos que vocês pretendem ser enterrados com celeridade, para evitar transtornos e não virar um peso morto por aí.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Caça e Cia

A existência de programas de pesca está entre as coisas inconcebíveis do mundo para mim. Pescar é a típica prática que pode ser muito interessante e divertida para quem pratica, mas não tem nenhuma graça para quem apenas assiste. Assim como o xadrez, o montanhismo, o boliche, o dominó e a masturbação.

No entanto, ao contrário dos outros exemplos, existem diversos programas de pesca espalhados pela grade televisiva Brasil afora. Programas que consistem em um cidadão, geralmente com um sotaque caipira, montando em seu barco - potente ou não - e indo nos mais diversos rios, lagos, lagoas, córregos e mares desse nosso Brasil atrás do peixe perfeito, que geralmente ele chama de “bichão”.

Não sei se todos vocês já tiveram a experiência de pescar um dia em um lugar que não seja um pesque e pague, daqueles em que você fisga tambacus criados em tanques. Pescar pode ser sim um passatempo agradável, ficar lá, segurando a sua vara e todos os seus equipamentos - pescadores amadores profissionais tem todo um aparato para a pesca, geralmente guardados em lugar específico da casa, que abriga o molinete, as iscas, os pesos, as boias, alicates, linhas, muitas vezes guardados dentro de um carro reboque que é acoplado no carro toda vez que se parte para uma pescaria em lugar distante - desviando dos mosquitos, escutando os grilos, o barulho da água, jogando e recolhendo o anzol - outra vez, os pescadores amadores profissionais utilizam-se de técnicas precisas para escolher a linha, o anzol, a isca, se vai ser preciso um chumbo ou uma boia para pescar o peixe pretendido - aquela sensação de que o anzol foi puxado, até o momento em que você finalmente recolhe uma peraputanga de 18 centímetros.

O primeiro peixe que você pesca em sua vida não deixa de ser uma sensação glorificante, equiparável ao primeiro gol que você marca no campeonato do colégio, ou ao aprender a andar de bicicleta. Você sente aquela sensação de que superou o desafio ao qual se propôs, que você chegou lá. Mas, novamente, é uma sensação pessoal muito interessante, mas não há a menor graça em ver outras pessoas pescando, marcando gols em campeonatos de colégio ou aprendendo a andar de bicicleta. Mas, somente a pescaria tem programas na TV.

Um programa de pesca real deveria ter pelo menos 80% do seu tempo dedicado ao ato de não pegar nada enquanto se é devorado por mosquitos, que é o que acontece durante 80% do tempo da pescaria. Mas, as edições preferem mostrar o cidadão em seu barco e sua reação na hora em que o peixe - geralmente um highlander do mar, impossível de ser pego - começa a lutar, nada por quilômetros tentando fugir daquele gancho preso em sua boca, e o pescador da mais linha para ele, o “bichão” foge, volta, até a hora em que o animal se cansa e é levado até o barco. Lá ele é pesado, tiram-se fotos com o bicho pendurado e depois o peixe é solto no mar, porque o programa é ecologicamente correto.

Acredito que o sofrimento seja uma característica comum para toda e qualquer forma de vida. Racionais ou irracionais, todos devem sofrer por algum motivo. Não vejo como dizer que um peixe fisgado, lutando por duas horas com um anzol preso em sua boca, tentando fugir de um cidadão se divertindo, que ele não esteja sofrendo.

Sempre achei interessante que as pessoas não costumam a se preocupar muito com o sofrimento dos animais que vivem embaixo da água. A água serve como um isolamento do problemas e o que está lá embaixo, longe dos nossos olhos, não nos interessa. Ficamos muito mais chocados com uma queimada que pode matar tantos mamíferos, do que com o esgoto que escorre para os rios matando toda e qualquer forma viva que esteja lá, exceção feitas as bactérias. As pessoas comem lagostas, que são preparadas vivas!, e não se preocupam com isso. Já imaginaram um prato com um frango, em que o frango é preparado vivo? Jogam a galinha viva dentro de uma panela com água fervendo? Terrível, não é mesmo?

Não é curioso aquele tipo de vegetariano que come apenas carne de peixe, com o argumento de que o peixe foi criado livre, sem o sofrimento do confinamento? Será que o pobre peixe, que sobreviveu a natureza e a seleção natural para chegar a vida adulta e de repente é fisgado por um peixe, será que ele não sofreu ao ter sua vida interrompida de forma tão brusca?

E se a televisão mostrasse outros programas de caças? Um programa de caças a onças pintadas, em que um cidadão pegue sua arma e vá até uma floresta, caminhe por horas e horas até avistar o bicho e então se esconde atrás de uma moita e dá um tiro certeiro no enorme felino. Então ele vai lá e diz “ôôô bichão, esse foi guerreiro”. Pendura a onça de cabeça para baixo, toda ensanguentada - não negue, o peixe está sempre ensanguentado - o animal sofrendo, suspirando. Mede o tamanho do bicho e então o solta no meio do mato - vamos pensar que era uma bala de borracha, que não chegou a matar o bicho.

Ou então com um coelho, fofinho? Amarrado em uma rede, com seus pelos fofos manchados pelo sangue, com seus olhos brilhantes clamando piedade? Seria legal? Não, não seria.

Porque só os peixes merecem o sofrimento? Porque os programas de pesca existem? Não sei.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Etiqueta na Rede

Cinco perguntas frequentes dos frequentadores da rede mundial de computadores, com cinco respostas que vão te ajudar a conviver melhor nesse mundo ilusório.

Quando é hora de criar um perfil conjunto no Facebook?
A dúvida é frequente. São anos de namoro, depois vem um noivado, o casamento e antes do divórcio traumático vem a grande pergunta: quando é a hora de criar um perfil conjunto no Facebook? A resposta é simples: nunca. Nunca crie um perfil conjunto no Facebook. Não se esqueça que, apesar da virtualidade do site, no fundo, o FB é uma representação da vida real. Assim sendo, é impossível que dois corpos ocupem o mesmo espaço tanto aqui, quanto lá. O máximo que um casal chegará de se juntar em um corpo é quando eles resolverem ter um filho, com 50% dos genes de cada um. Eis então uma boa dica: só criem um perfil conjunto quando este perfil for o do próprio filho, sim, daqueles que ficam postando fotos da criança e escrevendo como se ele já fosse um adulto infantilizado e que provavelmente vai desgraçar a vida inteira dessa criança, porque um dia ela será um adolescente envergonhado. O positivo desta técnica, é que dificilmente uma parte do casal vai resolver utilizar o Facebook do filho para compartilhar putaria inbox - assim esperamos - evitando o segundo maior problema do perfil em casal. O primeiro, todos sabemos, é que isso é brega.
Observem a felicidade desse casal diante do notebook. Com certeza eles devem estar lendo um post do CH3, vendo um vídeo do Porta dos Fundos ou assistindo a última temporada de House of Cards porque essa é a única maneira de um casal ser feliz junto em um notebook. Jamais eles poderiam estar vendo o perfil conjunto dos dois no Facebook porque isso é uma desgraça para a vida de qualquer casal. 

Devo cutucar de volta?
Estamos em plano século XXI e vamos utilizar um bordão em voga: teu corpo, tuas regras. Todos nós sabemos qual é a intenção de um cutucão no Facebook: sexo. Ninguém vai chegar no melhor amigo da sétima série, na própria irmã, ou na menina da limpeza e dar um cutucão se não tiver a vontade de materializar este cutucão em um ato carnal. Não se iludam. Assim sendo, se alguém te cutucou, você só ira cutucar de volta se quiser ir para a cama - ou de encontro a parede, o banco de trás do carro, atrás do armário de limpeza, enfim as possibilidades são muitas - com essa pessoa. Se não quiser, não cutuque. Diante da sua negativa, se o cidadão continuar insistindo na cutucada, com uma frequência assustadora, não hesite em bloqueá-lo e até mesmo em chamar a polícia.

De qualquer forma, não leve a sério a
máxima de que ex boa é ex morta. O
Bruno acreditou nisso e tá aí, preso.
Pense que ex boa é ex que você não tem
no Facebook que é bem mais simples
Devo comentar em coisas da minha ex?
Não. Se você estiver namorando outra pessoa, jamais comente em alguma coisa da sua ex, porque a desculpa de que vocês são apenas bons amigos não irá colar e logo você terá outra ex para comentar coisas e iniciar um ciclo demoníaco, uma espiral de desilusão amorosa que invariavelmente termina em assassinato com ocultamento de cadáver. Se você estiver solteiro, vai parecer um babaca desesperado querendo reconquistar a sua ex e isso vai fazer com que todos lembrem os motivos pelos quais vocês terminaram, motivo esse que provavelmente consiste no fato de você ser um babaca desesperado.

Como eu devo rir nas postagens que eu acho engraçadas?
As risadas dizem muito sobre a sua personalidade e existem as risadas certas para os momentos certos. Se a postagem foi de um grande amigo seu, com quem você tem intimidade, não refute em rir com ahahahahahahahaha ou até mesmo AuHAuhaUAhAuHAuHaUhaUAh. Ele vai entender. Se a postagem foi de uma pessoa com quem você tem uma boa relação, mas não é exatamente próximo no momento, evite os hahahas. As pessoas vão pensar que não era para tanto assim, que você está exagerando. Nesse caso, prefira um contido rsrsrs, de preferência acompanhado por um comentário do tipo “Essa foi boa rsrsrsrs” ou "Ótima rsrsrsrs". Dá um ar mais profissional e contido, enfim, elegante a sua risada. De maneira alguma utilize kkkkkkkkkkkk, que vai dar a impressão que você quer entrar em contato com os órgãos genitais da pessoa. Agora, se a postagem engraçada foi feita por uma pessoa com a qual você tem uma relação distante, não ria. Não se intrometa neste assunto que é do cara com os amigos dele. Nestes casos, apenas curta. E se a pessoa for alguém que você não goste, não comente e nem curta. Guarde este momento para você, que logo você vai se esquecer desse momento péssimo da sua vida.

Quando eu devo compartilhar algum status?
O recurso do compartilhamento é extremamente importante e interessante. No entanto, deve ser usado com sapiência e moderação. Se permita utilizar a ferramenta para compartilhar links postados pelas outras pessoas. Você também pode copiar o link por si só, mas o compartilhamento é mais ético porque confere a autoria original da descoberta do assunto. Você também pode compartilhar uma frase dita por uma pessoa, mas certifique-se de que você é amigo dessa pessoa e que a frase realmente é boa. Jamais compartilhe um status em que uma pessoa disse que almoçou gostoso, ou está chegando para mais um dia de trabalho, porque isso fará você parecer um stalker louco que persegue o compartilhado e logo irá matá-lo com requintes de crueldade. Uma questão ainda mais sensível é quanto ao compartilhamento de fotos. Nunca compartilhe uma foto de perfil de uma pessoa, ou uma foto em que a pessoa aparece, porque isso é certeza de que você se masturba pensando nela. Também não compartilhe fotos pessoais da pessoa, da sua família, do seu ambiente de trabalho, da sua casa. Compartilhe apenas as fotos artísticas, aquela que a pessoa fez com a intenção de que outros vissem. Apure o seu feeling para descobrir quando a situação acontece.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Temos vagas para carrasco

O Governo da Arábia Saudita abriu oito vagas de emprego um tanto quanto curiosas. O país está precisando de “carrascos”, os responsáveis pelas cerimônias públicas de decapitação ou amputação de criminosos. Os árabes seguem as rígidas leis islâmicas, que prevem que cabeças ou membros sejam cortados fora, dependendo do crime pelo qual o sujeito é condenado.

Além de tudo, a profissão per-
mite que você se vista dessa
maneira luxuosa e excêntrica.
Com certeza, essa roupa faz
o maior sucesso nos bailes
da terceira idade e nas festas
de bondage, onde que que elas
ocorram
Ao que tudo indica, a necessidade pelos empregos é urgente. Apenas neste ano, o país já decapitou 85 pessoas, a maior parte delas pelo tráfico de drogas. Caso essas oito vagas sejam preenchidas rapidamente, acredito que ainda mais cabeças poderão rolar pelo deserto saudita. A lei ainda prevê que assaltantes tenham suas mãos decepadas, no entanto, parece que essa condenação tem sido considerada “brega” pelos juízes locais.

De acordo com o edital de convocação divulgado pelo rei da Arábia, o candidato não precisa de nenhuma formação específica, ou de qualquer experiência no ofício. O salário para o emprego não foi revelado, mas correm boatos de que um carrasco ganhe até mil dólares por cada decapitação.

Me parece um tanto quanto óbvio que os árabes não estejam requerendo uma formação específica. Acredito que não existe nenhum curso superior para decapitadores, nem mesmo cursos profissionalizantes do Pronatec ou do Instituto Universal Brasileiro. Seria bem difícil regulamentar esses cursos e o clima de aula seria tenso.

Aula I, Modulo I: Manuseio de Facões. Convenhamos, uma aula dessas não poderia perder tempo com meandros filosóficos, seria necessário ir direto até a prática, porque o tempo corre. Aliás, como seriam as aulas práticas? Seria preciso criar convênios com países que pratiquem as degolas, mas seria ético utilizar aprendizes e estagiários para uma função tão importante?

Será que eles deveriam exigir algum curso superior? Precisa ser formado em medicina, para saber a maneira de cortar o pescoço e provocar mais ou menos dor no condenado. Ser formado em direito, para explicar para o cidadão porque aquilo está acontecendo. Ser formado em jornalista, para escrever um livro de imersão após um ano de trabalho. Ser formado em filosofia, porque os filósofos, enfim, precisam de emprego também.

A questão da experiência pessoal também é complicada. Só se adquire conhecimento na arte da degola se você praticar o corte de pescoços. A decapitação é considerada crime em qualquer país do mundo e acredito que só a Arábia Saudita ainda deva utilizá-la como forma punitiva máxima. Então, como adquirir uma pessoa que tenha experiência na área? Será que vale alguém que trabalhou em um matadouro? Mesmo os matadouros têm desenvolvido outras técnicas de abate, que não consistem em degolar o animal.

Se alguém te entrega um currículo dizendo que já cortou várias cabeças humanas por aí, você o contrata? Ou o denúncia para a Interpol? Com certeza o cara deve estar sendo procurado pelo seu país de origem. Deve ter alguma alcunha do tipo “maníaco do facão” e provocou o terror em cidades do interior.

A melhor forma de contratar um degolador deve ser pela observação de outras habilidades pessoais. O cara tem que saber afiar bem o seu facão, deve mostrar destreza e leveza em seus golpes e manter a higiene pessoal e aparência em dia. Para um carrasco, acredito que quantos menos dentes ele tiver, melhor será.
Querem uma dica de amigo? Não procurem pelo termo "machadada" no Google. Sério. Não vai lá não!

O salário de mil dólares por decapitação não deixa de ser interessante. Se 85 cabeças foram cortadas nesse ano, divida esse número por 8 e teríamos 10 cabeças para cada carrasco. Em cinco meses no ano, seriam duas machadadas por mês, dois mil dólares salário. Não está ruim. Tem muita gente com curso superior ganhando menos do que isso. Sem contar que, cada cabeça cortada não exige mais do que um dia de trabalho e você provavelmente conseguirá uns frilas por aí – não sei que empresa contrataria um degolador para fazer serviços extras, mas não podemos negar as oportunidades.

Também podemos destacar que o pagamento por decapitação realizada demonstra o tratamento meritocrático aos servidores, o que significa que a Arábia Saudita está de acordo com os paradigmas do liberalismo.

A falta de mão obra especializada e a dificuldade do país em preencher essas vagas é um reflexo do mundo atual. Cada vez mais a pena de morte tem sido abolida e as execuções-espetáculo são ainda mais raras. Os países que ainda praticam a pena capital tem escolhido métodos privados e indolores, o que respeita os direitos humanos, mas prejudica o show business.

Mas a abertura das vagas para carrascos só vem a demonstrar que o que não falta nesse mundo é trabalho.

Esse post é dedicado a alma e memória de J. Tomaz.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Corra Forest! Corra Lola!
Ou, "A Morte em Duas Pernas"

Os benefícios a longo prazo da corrida vêm sendo amplamente divulgados pela ciência nos últimos anos. Em cada vez mais lugares, mais pessoas são vistas correndo para lá e para cá. Se você conhece uma pessoa legal, uma pessoa divertida, ativa nas redes sociais, pode ter certeza de que ela corre alguns quilômetros todos os dias. Mesmo aquela pessoa que não parece ter um físico muito privilegiado, ela é uma meia-maratonista oculta do dia-a-dia. Correr é o comportamento que une as pessoas legais por meio daquele aplicativo da Nike.

No trabalho, grupos de colegas se juntam para correr ao final do expediente, ao invés de tomar uma cerveja. As pessoas correm nos parques, correm nas ruas - desviando dos assaltantes, correm nos estacionamentos do trabalho. O que importa é correr. Correr é saúde, dizem as revistas, os médicos e o Globo Repórter. Correr é a maneira mais fácil de alcançar o sonho da vida própria até os 100 anos.

Todos os animais correm. Faz parte do nosso instinto, provável que esteja em nossa genética. Desde que o homo sapiens deixou de engatinhar e ergueu o seu tronco que ele deve correr. Uma atividade que exige um esforço físico maior, gasta mais calorias, coloca o sangue para circular. Mas, correr não é o nosso comportamento natural. Correr exige preparo físico.

Não se iluda: correr é uma decisão política. Não existe uma diferença clara entre a capacidade para uma caminhada mais intensa e a corrida. Não há um momento claro em que você perceberá que conseguirá correr. Também está na sua cabeça o momento de parar. Seu corpo começará a doer, nos tornozelos, na sola do pé, nos joelhos, a panturrilha e as coxas irão queimar, o seu fígado vai reclamar e chegará a hora em que os pulmões não vão aguentar. O ar entrará e saíra das suas narinas como se ele fosse feito de chumbo e você vai descobrir que respirar pode doer. Mas, está na cabeça a vontade de decidir se é preciso parar ou se ainda é possível continuar mais um pouco. Mesmo o maratonista olímpico, acredito eu, deve conviver com essa dúvida após alguns quilômetros de corrida.

A vantagem da corrida, dizem seus defensores - e hoje em dia, quem não é defensor da corrida? - é que ela é o esporte mais barato do mundo. Você não precisa de equipamentos caros, um bote, uma vara, uma raquete. Não precisa de um espaço específico. Tudo o que você precisa é de um tênis no pé e uma ideia na cabeça. Não importa a idade, você pode ser rico, ser pobre, ser gótico, punk ou skinhead. Você pode correr. Nós podemos correr.

Mas é claro, o mundo não poderia ser tão perfeito assim. Ser saudável não é fácil e seria utópico acreditar que a saúde estaria ao alcance de simples movimentos mais rápidos gravados no nosso genoma. Correr faz bem, mas você precisa correr certo para que a atitude seja benéfica. Correr errado pode ser terrível.

Tendinite nos tornozelos, no joelho e no pé, fratura no calcanhar, fascite plantar, cãibra, lesão no quadril ou no púbis e inflamação na canela. Essas são algumas das lesões que a corrida pode provocar e não por nenhum outro motivo que não seja algum erro seu durante a prática. Sim, porque é preciso correr certo.

Você só precisa de um tênis, mas é preciso que seja O tênis. Um que tenha algum sistema de amortecimento, que seja leve, que ventile os pés, que custe meio salário mínimo. Se não for esse tênis, é provável que você acabe com o seu calcanhar e com sua sola do pé em uma lesão que vai tirar seu gosto de viver durante algumas semanas ou meses.

Há algo que se chama de “dinâmica de corrida”. Por mais que seja algo que façamos todos os dias, existe uma maneira mais correta de andar e que nem todos nós seguimos. Muitos andamos com os pés tortos, pisamos tortos, forçamos o joelho. Isso já pode ser prejudicial andando, imagina correndo. Se você corre torto, é muito provável que vá acabar com sua saúde em pouco tempo.

O espaço também é importante. Correr em calçadas pode ser terrível porque os desníveis entre as calçadas podem acabar com a sua coluna. Correr pela rua é perigoso porque o risco de ser atropelado nesse mundão besta é simplesmente terrível. É preciso correr no lugar certo.

Ou seja, para correr é preciso encontrar o ambiente perfeito, aquele ambiente sem atrito ou perda de energia que os professores de física tanto falava nas aulas de mecânica clássica. E esse ambiente não se encontra nas CNTP (Condições Normais de Toda a Porra).

Assim sendo correr pode fazer muito bem pela sua saúde ou pode ser extremamente prejudicial. Ainda não há um consenso sobre o que vai ter fazer pior: não correr ou correr errado. O que sabemos é que não correr certo não faz bem e atingir essa certeza é extremamente difícil.

No final, não há para onde escapar, não há para onde correr. Qualquer hábito vai te levar a morte e essa é a certeza que nós temos. Você vai chegar lá em duas pernas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Dicas para um fim de semana inesquecível

Hoje é sexta-feira! Chega de canseira, nada de tristeza, pega uma cerveja e põe na minha mesa ou dia de bebemorar, cair na gandaia e não ver a noite passar? Eis as opções que a música sertaneja nos oferece, opções nem tão variadas assim, já que no fundo elas querem dizer a mesma coisa. Aproveite o fim de semana para tocar o terror.

Não vamos mais enrolar. Vamos dar algumas dicas para que vocês tenha um fim de semana inesquecível.

Primeira Dica
Pegue o seu carro e vá até uma zona de baixo meretrício da sua cidade, toda cidade tem uma. Chegando lá, escolha o lugar mais badass de todos, onde o cheiro seja repugnante e as pessoas tenham cara de que matariam por um punhado de chicletes. Peça pelo serviço de umas putas, escolha aquelas de aspecto mais sombrio. Pague metade do valor em adiantamento. Perpetue o coito sobre caixas de papelão abarrotadas e mofadas, dispense o uso de preservativos. Uma após a outra, libere o animal selvagem dentro de você. Goze nas paredes já esbranquiçadas do corredor e saía sem se limpar ou pagar o resto da conta. Em 15 dias você já estará com uma doença venérea incurável, da qual você se lembrará pelo resto da sua vida.

Segunda Dica
Vista sua roupa de couro, monte na sua moto e arranque até um bar na periferia da cidade. Encontre um com iluminação precária, mesa de sinuca com carpete esfolado e cidadãos com barba para fazer, camisa com botões abertos e cigarros no canto da boca. Estacione a moto na calçada, entre no bar, cuspa no chão e peça uma dose de cachaça. Vire a dose de uma vez. Desafie qualquer cidadão para uma partida de sinuca. Beba outra cachaça. De uma tacada. Alterne as ações, enquanto o mundo começa a girar, você atira as bolas contra o balcão, enfia o taco na orelha do seu oponente, recebe quarenta e oito facadas no abdômen e sangra até a morte entre garrafas de Pitu quebradas. Inesquecível.

Terceira Dica
Apronte sua bicicleta e vá até uma feira de sua cidade. Desça da bicicleta com ela ainda em movimento e a assista bater contra um caixote cheio de melancias. Passe em todas as bancas e compre exatamente uma unidade de cada espécie de vegetal fálico existente. Insinue para o vendedor que você pretende enfiar aquele pepino no seu toba. Insista. Se ele duvidar do seu ato, execute-o ali mesmo. Veja o choque na cara das pessoas. Saia correndo antes da chegada da polícia. Encontre uma boca de fumo. Peça uma pedra de crack. Urine na parede de uma instituição pública. Fume a pedra. Quebre o vidro de um carro. Simule para o policial que você tem uma arma escondida na cueca. Plante bananeira pelado. Garanta as manchetes dos jornais. Junte uma multidão de curiosos no seu velório.

Quarta Dica
Calce seu tênis e saia correndo pela rua da sua casa. Alcance a Avenida do seu bairro, chegue até uma avenida principal da cidade. Mantenha os passos firmes e a respiração segura. Corra até a estrada que te leva a outra cidade. Siga para outro estado. Alcance a fronteira com outro país e arrume problemas com os fiscais aduaneiros. Chegue até o mar e comece a nadar. Braçadas, pernadas e respiração ritmadas. O gosto do sal escorrendo pela sua boca. Lute com os tubarões, mate-os com seus cotovelos. Alcance outro continente. Tome o caminho de volta. Escreva um livro sobre sua jornada. Dê entrevistas para programas de televisão. Morra pobre.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pequenas empresas, grandes negócios


Quase todo dia quando eu estou vindo para o meu trabalho, eu paro em um semáforo ao lado de um shopping center. Sim, existem shoppings centers em Cuiabá e eles não são habitados por jacarés e onças pardas. Sim, em Cuiabá nos também temos semáforos e eles não servem para liberar ou barrar a passagem de pessoas montadas em jumentos.

Neste semáforo eu vejo, com uma frequência diria até que razoável, um desses moradores/artistas de rua, movimentando seus malabares para cima e para baixo. A cena sempre se repete. Ele faz a sua performance, deixa um ou outro malabar cair no chão, o sinal se abre e ele fica de mãos vazias esperando uma moeda que nunca vem. Ele é um artista muito amador.

Seus malabares são de um tipo avançado, que permite um espetáculo pirotécnico, o que aumenta a plasticidade, a beleza, a dificuldade e também o perigo imposto ao artista. No entanto, ele faz o show com tudo apagado, porque é um principiante. Falta de experiência que o faz derrubar seu instrumento de trabalho no chão várias vezes. Quem vai pagar um cara desses?

O flagrante de um erro é sempre constrangedor para um artista e para o público. No entanto, acredito que algumas pessoas poderiam ter alguma piedade em seus corações para entregar uma moeda de cinquenta centavos para a pobre criatura que se queima embaixo de um sol escaldante. O erro que o leva a miséria não esse.

Ele nunca termina a apresentação antes do sinal abrir. O semáforo já está verde enquanto seus malabares ainda estão no ar. As pessoas buzinam para que ele saia do caminho e arrancam para aproveitar os 22 segundos em que a passagem é liberada. Ninguém tem tempo de procurar cinquenta centavos para arremessá-los pela janela.

Já vimos muitos malabaristas e outros artistas de rua por aí. Quando se atua em um semáforo, o requisito básico para a profissão é dominar o tempo da apresentação. Se o semáforo permanece fechado por quarenta segundos, sua apresentação deve durar no máximo trinta. O restante do tempo deve ser aproveitado para recolher a remuneração pelo seu esforço bruto. Não se atentar a isso é um erro amador.

Todos nós conhecemos aquele programa da Globo, Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Nem sabemos se ele ainda passa na TV e é provável que jamais tenhamos assistido a um único episódio, mas o nome é bom. O mundo é cheio de pessoas para ajudar a prosperar os pequenos negócios dos pequenos comerciantes. Tá aí o Sebrae. Mas, existe alguém para ajudar esse cara do semáforo? Existe um Sebrae para o artista de semáforo, para guiá-lo por esse difícil caminho e orientá-lo até o sucesso?

Deveria haver alguém que iria dizer para ele que é preciso escolher bem o seu semáforo. Não escolha aqueles em que o sinal permanece vermelho por pouco tempo, porque não é possível desenvolver a sua performance. Não invada o semáforo escolhido por outro artista, para não gerar discussões e um possível assassinato a base de golpes de paralelepípedo. Não faça seu show em avenidas muito largas, em que o público terá uma visão limitada do seu desempenho. Enfim, existem uma série de variáveis que podem levar o malabarista do semáforo ao sucesso ou ao vício em crack e a prisão por pequenos furtos que sustentavam o vício. 

Perceba que esta cidadã escolheu uma rua pouco movimentada e escura. Claramente precisa de assessoria
Existem outros pequenos negócios, muitas vezes ilegais, que poderiam precisar de uma ajuda profissional. O que dizer das prostitutas que poderiam receber consultoria para definir seu preço no mercado de trabalho. O batedor de carteiras que fica exposto a uma reação que pode gerar assassinato.

Negócios Estranhos

Outra coisa que chama a atenção, são empresários que não definem o foco do seu trabalho. Tudo bem vender espetinhos sem guardanapo ou montar sua vendinha se utilizando de fachadas com letreiros graficamente horríveis e cheios de erro de português. Mas, as coisas tem limites.

Lembro uma vez, devia ter uns 15 anos, que eu fui a um aniversário de um tio meu, de origem japonesa. O lugar escolhido era um restaurante japonês, um curioso estabelecimento que de dia era uma oficina mecânica e de noite era um restaurante. Não combina, não é mesmo?

Você aceitaria comer um sushi, um sashimi ou yakisoba em um lugar que de dia troca o óleo e ajustas freios? Será que são os mesmos responsáveis? O cara tira o macacão cheio de graxa e coloca o avental? O óleo dos carros é usado para fritar o macarrão? A coexistência dos negócios é inconcebível.

Também existem vários pontos que são lava-jatos de manhã e espetinhos de noite. Não é estranho? Será que existe uma consultoria que estimula essa prática para aumentar a renda do comerciante?

Sempre me lembro também de um lugar por aqui que era uma banca de jornal que vendia sucos naturais. Tem explicação?

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O problema do aumentativo

O Mensalão, o famoso esquema de corrupção que tomou o país de assalto lá nos idos de 2003 se revelou uma verdadeira tragédia para o Brasil. Não falo pelos problemas gerados pelo desvio de dinheiro, pela descrença na política e todos as consequências da corrupção. A tragédia a que eu me refiro é linguística.

Antes de Roberto Jefferson pegar os microfones e espalhar a merda primitiva no ventilador, esquemas de corrupção não eram conhecidos pelo seu aumentativo. A existência de um “mensalão” ludibriou a imprensa nacional, que desde então passou a se referir a todo e qualquer esquema de corrupção com o aumentativo.
Roberto Jeffersão, o culpado

O próprio Mensalão já teve suas variáveis. Tivemos o Mensalão do DEM, o Mensalão Tucano, o Mensalão da Puta Que Te Pariu. Não vamos negar: esse nome é ridículo. Se ao invés de Mensalão, a prática de pagar um dinheiro mensal aos parlamentares para que eles seguissem as orientações do Governo tivesse um nome melhor, não duvido que o escândalo tivesse nos proporcionado uma guerra civil.

A Operação Lava Jato tem dominado os noticiários há praticamente um ano. Gera discursos raivosos, inúmeras fases desenvolvidas misteriosamente em Curitiba e manchetes, muitas manchetes. Não derrubou ninguém importante. Por que? Porque a imprensa passou a chamar a escandalosa rotina da Petrobras de “Petrolão”.

O Petrolão supera de longe o ridículo provocado pelo nome do Mensalão. Fale Petrolão três vezes seguidas em frente ao espelho e o Nestor Cerveró vai aparecer na sua casa e você sentirá um constrangimento profundo com uma leve tendência suicida.

Auto-retrato de Nestor Cerveró
Vamos lá, o Petrolão nunca vai derrubar ninguém porque todas as autoridades sentiriam vergonha de derrubar quem quer que seja por conta de um negócio com um nome desses. Ok, roubaram dinheiro da Petrobras. Ok, deram um prejuízo danado, receberam propina de empreiteiras e outras coisas do beabá da política nacional. Mas Petrolão não dá.

O cartel do metrô de São Paulo foi chamado de Trensalão. Precisa dizer que não vai dar em nada?

Vamos lembrar do único presidente retirado do poder até hoje. Ele caiu por uma série de esquemas de desvio de dinheiro, pagamento de propina, caixa 2 em campanha e etc. Mas o ponto inicial, aquele que marcou o começo da queda de Collor foi a revelação de que um Fiat Elba para uso pessoal do presidente foi comprado com dinheiro ilícito.

Parece bobagem, não? Parece que já vimos coisas piores, não é mesmo? Mas na época ninguém resolveu chamar o caso de o Elbão. Ou do Collorzão. Se isso tivesse acontecido, certeza que Collor teria terminado seu mandato e viveríamos até hoje com poupanças confiscadas e algum plano Cruzeiro III.

Precisamos abolir o aumentativo. Acabar com essa mania de chamar estádios de Itaquerão, Engenhão e etc. Simplesmente porque soa horrivelzão.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Selva de Inox

Ser vendedor é uma profissão desgraçante. Por trás daquele cara chato e insistente, que pode te oferecer benefícios ou te ameaçar de morte para que você feche um negócio, há um cidadão mal remunerado que precisar bater metas de vendas para aumentar seu salário. Entenda, por trás daquela insistência e ênfase de que esse é o melhor notebook da história, o vendedor está negociando a sua vida e a comida na mesa da família dele. Por isso eu digo: é difícil, mas precisamos entender os vendedores.

(Certa vez uma vendedora de carro me afirmou que recebia R$ 890 de salário e que precisava vender oito carros por mês para atingir as metas que gerariam um bônus).

A situação dos vendedores das grandes lojas de eletrodomésticos e artigos diversos é ainda pior. Imagine um shopping qualquer que tem pelo menos a Casas Bahia, Ponto Frio e mais três lojas regionais. São cinco lojas que existem em todo e qualquer shopping e em qualquer rua comercial de maior porte.

São lojas que vendem 40 mil itens iguais, fogões, geladeiras, televisões, talheres, mesas e cafeteiras. Todos com preços bem parecidos, que podem variar em algumas dezenas de reais, em alguns meses de prestações e décimos de juros e demais condições de pagamento. Para que o vendedor consiga atingir suas metas de vendas, ele precisa se envolver em uma verdadeira batalha campal.

A competição começa muitas vezes fora das lojas. Os vendedores ficam no limite da porta de seus estabelecimentos (acredito que já exista alguma lei internacional que os impeçam de invadirem as ruas e corredores para sequestrar clientes exigindo a compra de uma Fritadeira Air Fry em troca da liberação) chamando clientes e oferecendo seus produtos. Vocês sabem como é horrível ser abordado por pessoas no meio da rua.

Há uma disputa forte entre os próprios vendedores. As lojas mais organizadas já dividem os setores para cada vendedor, criando especialistas na arte de vender fogões ou sofá. Nas lojas menores, essa divisão não existe e cada funcionário é um senhor do mundo e sabe características de escovas elétricas e tablets. E eles podem se conter em público, mas se um deles rouba um cliente do outro, imagino que sai morte no depósito.

Acredito que também haja muita zoação. Um cara que vendeu mais televisões do que seu concorrente, digo, colega de empresa, deve contar muita piada, produzir memes pro grupo do Whatsapp e tudo mais. Também, é claro, ganha uma foto sua num quadrinho de funcionário do mês, pendurado melancolicamente na parede da firma.

Dentro da loja a abordagem é violenta. É praticamente impossível dizer que você só está querendo olhar um preço e ir embora. O vendedor vai ficar te perguntando se você quer uma televisão, qual é a configuração, as polegadas, as funções, que marca quer, quais são as melhores e tudo mais.
Antes de comprar uma geladeira, você precisa conhecer a história da evolução do seu design, isso vai te ajudar a fazer uma melhor escolha. Quando elas se popularizam no Brasil, em meados da década de 50, a preferência era por linhas arredondadas e cores claras, especificamente o azul bebê. Com o tempo, o marrom começou a crescer dentro da paleta de cores e dominou as cozinhas brasileiras nas décadas de 80 e 90. O marrom, acreditava-se na época, escondia as sujeiras e era associado a limpeza. No entanto, esse conceito mudou abruptamente na virada do milênio, devido a ascensão da extrema-direita na França, que deu origem a um movimento clean e a preferência pela cor branca, impecável. Esse padrão se manteve até tempos recentes, quando pudemos ver o advento da linha inox, que é associada a riqueza e ao glamour e as Mercedes vencedoras de Lewis Hamilton. Então, senhor, vai querer com água saindo na porta?

Acredito que uma boa competição, digna de Olimpíadas, seria entrar nas Casas Bahia e ver quem consegue ficar mais tempo sem ser abordado por um vencedor. Ontem eu consegui meu recorde pessoal, de seis segundos, mas utilizei uma estratégia ousada de entrar por detrás de uma geladeira e me esquivar entre as televisões da parede e o box de venda de celulares. Consegui avançar alguns metros, mas logo fui interceptado por uma fileira de vendedores que bloqueava o acesso aos notebooks.

Fica o desafio.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Códigos misteriosos

Alguma vez você já foi numa loja de departamento. Por mais que você tente ao máximo postergar este momento sublime da existência da humanidade, um dia chega o momento de comprar umas cuecas novas, umas camisas feias e procurar bermudas sóbrias no meio daquele mundo de coisas alaranjadas e florescentes.

E enquanto você está lá, olhando as calças, no provador ou na longa fila de pagamento irá escutar a rádio local. Entre uma e outra música do David Guetta e Tempos de Pipa do Cícero (?) uma voz fanha ecoará pelos corredores dizendo:
- Colaboradora Regiane, comparecer ao caixa PPX.
Ou então
- Atenção equipe B, CDJ!
Frase esta dita em um tom bastante empolgado.

Você nunca saberá o que é um CDJ, ou o que é o PPX. Eu fico tentando interpretar os códigos, pensar que o PPX signifique “deu merda" e que a Regiane tem que aparecer logo para dar a descarga. O CDJ é uma alta nos índices Dow Jones e que a equipe B agora é composta por milionários que passarão o resto das suas vidas em iates na marina da Glória bebendo tequila de canudinho. Mas essas siglas não fazem o menor sentido.

Toda profissão tem seu jargão. Expressões que apenas quem é da área conhece. Muitos profissionais usam e abusam dos jargões por um único motivo: demonstrar conhecimento e excluir os terceiros. Mostrar que há uma linha clara de conhecimento que o separa dos demais indivíduos e que nem adianta tentar ultrapassá-la. No caso de dois profissionais de áreas diferentes, vence quem começa a utilizar jargões antes.

Mas, além dos jargões, há o caso dos códigos misteriosos. Não são tantas as profissões que utilizam esses códigos, como as pessoas que trabalham em uma loja de departamento. Mas temos aqueles que abusam delas, como é o caso do caminhoneiro.

Todo caminhoneiro é um senhor da estrada e da vida. Olhe para um caminhoneiro, com sua barriga cultivada em churrascarias fétidas de beira de estrada que servem carne de segunda banhada em gordura. Olhe para sua cara de quem já contraiu todas as doenças venéreas duas vezes, incluindo AIDS, contraídas com toda e qualquer mulher disposta a vender uma noite de amor selvagem. Suas rugas que já desafiaram a morte que os espera em todas as curvas de nossas estradas esburacadas. É preciso respeitar esses caras.

Olha só esse cara, olha o respeito que ele impõe
Caminhoneiros se comunicam com códigos estranhos que podem ser uma espécie de lingua do Q.
- Carro 2 QAP, QRV. QSL, copiado. TKS.
Se você estiver ao lado dele, não irá entender nada desse diálogo de siglas.

Como o caminhoneiro é um mestre do universo, todo e qualquer indivíduo que passe por estradas com alguma frequência quer copiar esse dialeto divino. Militares, seguranças, motoristas em geral adora usar QPR qualquer. Felizmente, a internet já nos proporciona descobrir esses mistérios, uma vez que alguns caminhoneiros resolveram revelar o Segredo que nem Rhonda Byrne conhece.

E na internet? Apesar de participar deste conglomerado mundial diariamente eu volta e meia tenho que parar para pensar no que significam as mais diversas siglas que as pessoas compartilham. MILF, NSFW, porra quando é que eu iria descobrir que isso era um aviso de que eu não deveria abrir o link no trabalho e por conta disso eu estou desempregado?, e meu cérebro já fritou com essas siglas misteriosas.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crime Terceirizado

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar o Projeto de Lei (PL) 1.478 que permite a terceirização de todos os crimes cometidos no Brasil. Com a nova Lei, assaltantes, homicidas, latrocidas, estupradores e demais criminosos, poderão contratar empresas terceirizadas para realizar suas contravenções. Agora, o Projeto segue para o Senado Federal, para aprovação e possíveis mudanças no texto.

A aprovação do projeto foi comemorada pela bancada do PMDB. Segundo o partido, a Lei vai proporcionar mais segurança jurídica para os criminosos do país e também para as grandes empresas. Além disso, irá gerar mais crimes e aquecer a economia do país. “Com mais assaltos, as pessoas são obrigadas a comprar novamente os produtos que foram furtados, sem dizer que os produtos furtados também serão revendidos. É algo que vai fazer a economia do Brasil dobrar nesse ano”, afirmou um parlamentar.

O Governo Federal preferiu se manter neutro na votação. Temendo o desgaste por uma possível derrota, qualquer que fosse o lado escolhido, o PT liberou seus deputados para votar no que quisessem. Se por um lado o PL encontra resistência na base social do partido, ele agrada vários financiadores de campanha. O posicionamento do Palácio do Planalto acabou por aturdir a oposição, que não soube o que fazer e a proposta foi aprovada por unanimidade. Nenhuma abstenção, fato inédito na história do país.

De acordo com o cientista político Alfredo Humoyhuessos a proposta foi aprovada por comodidade dos parlamentares. “Muitos grupos criminosos estão entre os principais financiadores de campanhas de vários partidos e, nessa hora, o dinheiro e o jogo do poder são mais importantes”. Outra teoria apontada por ele, é que com a tendência de aprovação do projeto, muitos deputados sentiram medo de serem contrários e sofrerem represálias de criminosos.

A votação ocorreu de maneira tranquila dentro da casa. Um parlamentar do PSD afirmou que o dia era histórico. “A partir de agora, poderemos terceirizar a roubalheira dentro dessa casa, contratar quem é que for para fraudar licitações e superfaturar contratos e ninguém nunca mais vai falar que deputado é tudo ladrão”, afirmou, sendo ovacionado pelos seus colegas.

No entanto, o clima esquentou do lado de fora da casa. Uma associação de assaltantes de Sobradinho protestou contra o projeto, afirmando que a terceirização poderá provocar mais acidentes de trabalho. “Por ano, milhares de colegas nossos perdem suas vidas por falta de treinamento adequado e capacitação para exercer a função. A terceirização pode trazer mais gente desqualificada e provocar ainda mais mortes e nós não queremos isso”, afirmou Uóchgto Neves, presidente da associação.

Segundo ele, há anos que a classe luta por melhorias na categoria, como 13º e férias, plano de saúde, plano de carreira no serviço público e aposentadoria. “Hoje o assaltante tem que trabalhar até morrer, muitos ficam inválidos antes dos 20 anos e isso prejudica a categoria”, disse. Após estenderem cartazes na porta da Assembleia, o presidente e a diretoria da Associação foram recebidos pelo presidente da Câmara. Escutaram que as questões serão colocadas dentro da pauta de discussões da casa e ainda tiraram selfies com os Policiais do Congresso.

Outro momento tenso ocorreu quando um grupo de 18 feministas tirou a roupa na Praça dos 3 Poderes, para protestar contra o projeto. Segundo elas, o item 4 da Lei, que fala sobre a terceirização do estupro é um absurdo e uma violência contra a mulher. A Polícia, no entanto, agiu rápido e soltou cinquenta leões famintos contra o grupo, que logo foi devorado sem maiores resistências.

Questionado sobre o assunto, um parlamentar afirmou que a terceirização do estupro também irá gerar mais emprego e renda. “Mais pessoas nas ruas para estuprar, mais gente para proteger, a indústria farmacêutica irá vender mais pílulas do dia seguinte, mais pessoas precisarão se tratar contra as DSTs e, caso uma criança venha a nascer, é mais mão de obra para daqui uns anos”.

Chamada a se manifestar sobre o assunto, a presidente Dilma Rousseff mandou avisar que não estava em casa.