sexta-feira, 8 de maio de 2015

Selva de Inox

Ser vendedor é uma profissão desgraçante. Por trás daquele cara chato e insistente, que pode te oferecer benefícios ou te ameaçar de morte para que você feche um negócio, há um cidadão mal remunerado que precisar bater metas de vendas para aumentar seu salário. Entenda, por trás daquela insistência e ênfase de que esse é o melhor notebook da história, o vendedor está negociando a sua vida e a comida na mesa da família dele. Por isso eu digo: é difícil, mas precisamos entender os vendedores.

(Certa vez uma vendedora de carro me afirmou que recebia R$ 890 de salário e que precisava vender oito carros por mês para atingir as metas que gerariam um bônus).

A situação dos vendedores das grandes lojas de eletrodomésticos e artigos diversos é ainda pior. Imagine um shopping qualquer que tem pelo menos a Casas Bahia, Ponto Frio e mais três lojas regionais. São cinco lojas que existem em todo e qualquer shopping e em qualquer rua comercial de maior porte.

São lojas que vendem 40 mil itens iguais, fogões, geladeiras, televisões, talheres, mesas e cafeteiras. Todos com preços bem parecidos, que podem variar em algumas dezenas de reais, em alguns meses de prestações e décimos de juros e demais condições de pagamento. Para que o vendedor consiga atingir suas metas de vendas, ele precisa se envolver em uma verdadeira batalha campal.

A competição começa muitas vezes fora das lojas. Os vendedores ficam no limite da porta de seus estabelecimentos (acredito que já exista alguma lei internacional que os impeçam de invadirem as ruas e corredores para sequestrar clientes exigindo a compra de uma Fritadeira Air Fry em troca da liberação) chamando clientes e oferecendo seus produtos. Vocês sabem como é horrível ser abordado por pessoas no meio da rua.

Há uma disputa forte entre os próprios vendedores. As lojas mais organizadas já dividem os setores para cada vendedor, criando especialistas na arte de vender fogões ou sofá. Nas lojas menores, essa divisão não existe e cada funcionário é um senhor do mundo e sabe características de escovas elétricas e tablets. E eles podem se conter em público, mas se um deles rouba um cliente do outro, imagino que sai morte no depósito.

Acredito que também haja muita zoação. Um cara que vendeu mais televisões do que seu concorrente, digo, colega de empresa, deve contar muita piada, produzir memes pro grupo do Whatsapp e tudo mais. Também, é claro, ganha uma foto sua num quadrinho de funcionário do mês, pendurado melancolicamente na parede da firma.

Dentro da loja a abordagem é violenta. É praticamente impossível dizer que você só está querendo olhar um preço e ir embora. O vendedor vai ficar te perguntando se você quer uma televisão, qual é a configuração, as polegadas, as funções, que marca quer, quais são as melhores e tudo mais.
Antes de comprar uma geladeira, você precisa conhecer a história da evolução do seu design, isso vai te ajudar a fazer uma melhor escolha. Quando elas se popularizam no Brasil, em meados da década de 50, a preferência era por linhas arredondadas e cores claras, especificamente o azul bebê. Com o tempo, o marrom começou a crescer dentro da paleta de cores e dominou as cozinhas brasileiras nas décadas de 80 e 90. O marrom, acreditava-se na época, escondia as sujeiras e era associado a limpeza. No entanto, esse conceito mudou abruptamente na virada do milênio, devido a ascensão da extrema-direita na França, que deu origem a um movimento clean e a preferência pela cor branca, impecável. Esse padrão se manteve até tempos recentes, quando pudemos ver o advento da linha inox, que é associada a riqueza e ao glamour e as Mercedes vencedoras de Lewis Hamilton. Então, senhor, vai querer com água saindo na porta?

Acredito que uma boa competição, digna de Olimpíadas, seria entrar nas Casas Bahia e ver quem consegue ficar mais tempo sem ser abordado por um vencedor. Ontem eu consegui meu recorde pessoal, de seis segundos, mas utilizei uma estratégia ousada de entrar por detrás de uma geladeira e me esquivar entre as televisões da parede e o box de venda de celulares. Consegui avançar alguns metros, mas logo fui interceptado por uma fileira de vendedores que bloqueava o acesso aos notebooks.

Fica o desafio.

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