segunda-feira, 25 de maio de 2015

Caça e Cia

A existência de programas de pesca está entre as coisas inconcebíveis do mundo para mim. Pescar é a típica prática que pode ser muito interessante e divertida para quem pratica, mas não tem nenhuma graça para quem apenas assiste. Assim como o xadrez, o montanhismo, o boliche, o dominó e a masturbação.

No entanto, ao contrário dos outros exemplos, existem diversos programas de pesca espalhados pela grade televisiva Brasil afora. Programas que consistem em um cidadão, geralmente com um sotaque caipira, montando em seu barco - potente ou não - e indo nos mais diversos rios, lagos, lagoas, córregos e mares desse nosso Brasil atrás do peixe perfeito, que geralmente ele chama de “bichão”.

Não sei se todos vocês já tiveram a experiência de pescar um dia em um lugar que não seja um pesque e pague, daqueles em que você fisga tambacus criados em tanques. Pescar pode ser sim um passatempo agradável, ficar lá, segurando a sua vara e todos os seus equipamentos - pescadores amadores profissionais tem todo um aparato para a pesca, geralmente guardados em lugar específico da casa, que abriga o molinete, as iscas, os pesos, as boias, alicates, linhas, muitas vezes guardados dentro de um carro reboque que é acoplado no carro toda vez que se parte para uma pescaria em lugar distante - desviando dos mosquitos, escutando os grilos, o barulho da água, jogando e recolhendo o anzol - outra vez, os pescadores amadores profissionais utilizam-se de técnicas precisas para escolher a linha, o anzol, a isca, se vai ser preciso um chumbo ou uma boia para pescar o peixe pretendido - aquela sensação de que o anzol foi puxado, até o momento em que você finalmente recolhe uma peraputanga de 18 centímetros.

O primeiro peixe que você pesca em sua vida não deixa de ser uma sensação glorificante, equiparável ao primeiro gol que você marca no campeonato do colégio, ou ao aprender a andar de bicicleta. Você sente aquela sensação de que superou o desafio ao qual se propôs, que você chegou lá. Mas, novamente, é uma sensação pessoal muito interessante, mas não há a menor graça em ver outras pessoas pescando, marcando gols em campeonatos de colégio ou aprendendo a andar de bicicleta. Mas, somente a pescaria tem programas na TV.

Um programa de pesca real deveria ter pelo menos 80% do seu tempo dedicado ao ato de não pegar nada enquanto se é devorado por mosquitos, que é o que acontece durante 80% do tempo da pescaria. Mas, as edições preferem mostrar o cidadão em seu barco e sua reação na hora em que o peixe - geralmente um highlander do mar, impossível de ser pego - começa a lutar, nada por quilômetros tentando fugir daquele gancho preso em sua boca, e o pescador da mais linha para ele, o “bichão” foge, volta, até a hora em que o animal se cansa e é levado até o barco. Lá ele é pesado, tiram-se fotos com o bicho pendurado e depois o peixe é solto no mar, porque o programa é ecologicamente correto.

Acredito que o sofrimento seja uma característica comum para toda e qualquer forma de vida. Racionais ou irracionais, todos devem sofrer por algum motivo. Não vejo como dizer que um peixe fisgado, lutando por duas horas com um anzol preso em sua boca, tentando fugir de um cidadão se divertindo, que ele não esteja sofrendo.

Sempre achei interessante que as pessoas não costumam a se preocupar muito com o sofrimento dos animais que vivem embaixo da água. A água serve como um isolamento do problemas e o que está lá embaixo, longe dos nossos olhos, não nos interessa. Ficamos muito mais chocados com uma queimada que pode matar tantos mamíferos, do que com o esgoto que escorre para os rios matando toda e qualquer forma viva que esteja lá, exceção feitas as bactérias. As pessoas comem lagostas, que são preparadas vivas!, e não se preocupam com isso. Já imaginaram um prato com um frango, em que o frango é preparado vivo? Jogam a galinha viva dentro de uma panela com água fervendo? Terrível, não é mesmo?

Não é curioso aquele tipo de vegetariano que come apenas carne de peixe, com o argumento de que o peixe foi criado livre, sem o sofrimento do confinamento? Será que o pobre peixe, que sobreviveu a natureza e a seleção natural para chegar a vida adulta e de repente é fisgado por um peixe, será que ele não sofreu ao ter sua vida interrompida de forma tão brusca?

E se a televisão mostrasse outros programas de caças? Um programa de caças a onças pintadas, em que um cidadão pegue sua arma e vá até uma floresta, caminhe por horas e horas até avistar o bicho e então se esconde atrás de uma moita e dá um tiro certeiro no enorme felino. Então ele vai lá e diz “ôôô bichão, esse foi guerreiro”. Pendura a onça de cabeça para baixo, toda ensanguentada - não negue, o peixe está sempre ensanguentado - o animal sofrendo, suspirando. Mede o tamanho do bicho e então o solta no meio do mato - vamos pensar que era uma bala de borracha, que não chegou a matar o bicho.

Ou então com um coelho, fofinho? Amarrado em uma rede, com seus pelos fofos manchados pelo sangue, com seus olhos brilhantes clamando piedade? Seria legal? Não, não seria.

Porque só os peixes merecem o sofrimento? Porque os programas de pesca existem? Não sei.

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