quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pequenas empresas, grandes negócios


Quase todo dia quando eu estou vindo para o meu trabalho, eu paro em um semáforo ao lado de um shopping center. Sim, existem shoppings centers em Cuiabá e eles não são habitados por jacarés e onças pardas. Sim, em Cuiabá nos também temos semáforos e eles não servem para liberar ou barrar a passagem de pessoas montadas em jumentos.

Neste semáforo eu vejo, com uma frequência diria até que razoável, um desses moradores/artistas de rua, movimentando seus malabares para cima e para baixo. A cena sempre se repete. Ele faz a sua performance, deixa um ou outro malabar cair no chão, o sinal se abre e ele fica de mãos vazias esperando uma moeda que nunca vem. Ele é um artista muito amador.

Seus malabares são de um tipo avançado, que permite um espetáculo pirotécnico, o que aumenta a plasticidade, a beleza, a dificuldade e também o perigo imposto ao artista. No entanto, ele faz o show com tudo apagado, porque é um principiante. Falta de experiência que o faz derrubar seu instrumento de trabalho no chão várias vezes. Quem vai pagar um cara desses?

O flagrante de um erro é sempre constrangedor para um artista e para o público. No entanto, acredito que algumas pessoas poderiam ter alguma piedade em seus corações para entregar uma moeda de cinquenta centavos para a pobre criatura que se queima embaixo de um sol escaldante. O erro que o leva a miséria não esse.

Ele nunca termina a apresentação antes do sinal abrir. O semáforo já está verde enquanto seus malabares ainda estão no ar. As pessoas buzinam para que ele saia do caminho e arrancam para aproveitar os 22 segundos em que a passagem é liberada. Ninguém tem tempo de procurar cinquenta centavos para arremessá-los pela janela.

Já vimos muitos malabaristas e outros artistas de rua por aí. Quando se atua em um semáforo, o requisito básico para a profissão é dominar o tempo da apresentação. Se o semáforo permanece fechado por quarenta segundos, sua apresentação deve durar no máximo trinta. O restante do tempo deve ser aproveitado para recolher a remuneração pelo seu esforço bruto. Não se atentar a isso é um erro amador.

Todos nós conhecemos aquele programa da Globo, Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Nem sabemos se ele ainda passa na TV e é provável que jamais tenhamos assistido a um único episódio, mas o nome é bom. O mundo é cheio de pessoas para ajudar a prosperar os pequenos negócios dos pequenos comerciantes. Tá aí o Sebrae. Mas, existe alguém para ajudar esse cara do semáforo? Existe um Sebrae para o artista de semáforo, para guiá-lo por esse difícil caminho e orientá-lo até o sucesso?

Deveria haver alguém que iria dizer para ele que é preciso escolher bem o seu semáforo. Não escolha aqueles em que o sinal permanece vermelho por pouco tempo, porque não é possível desenvolver a sua performance. Não invada o semáforo escolhido por outro artista, para não gerar discussões e um possível assassinato a base de golpes de paralelepípedo. Não faça seu show em avenidas muito largas, em que o público terá uma visão limitada do seu desempenho. Enfim, existem uma série de variáveis que podem levar o malabarista do semáforo ao sucesso ou ao vício em crack e a prisão por pequenos furtos que sustentavam o vício. 

Perceba que esta cidadã escolheu uma rua pouco movimentada e escura. Claramente precisa de assessoria
Existem outros pequenos negócios, muitas vezes ilegais, que poderiam precisar de uma ajuda profissional. O que dizer das prostitutas que poderiam receber consultoria para definir seu preço no mercado de trabalho. O batedor de carteiras que fica exposto a uma reação que pode gerar assassinato.

Negócios Estranhos

Outra coisa que chama a atenção, são empresários que não definem o foco do seu trabalho. Tudo bem vender espetinhos sem guardanapo ou montar sua vendinha se utilizando de fachadas com letreiros graficamente horríveis e cheios de erro de português. Mas, as coisas tem limites.

Lembro uma vez, devia ter uns 15 anos, que eu fui a um aniversário de um tio meu, de origem japonesa. O lugar escolhido era um restaurante japonês, um curioso estabelecimento que de dia era uma oficina mecânica e de noite era um restaurante. Não combina, não é mesmo?

Você aceitaria comer um sushi, um sashimi ou yakisoba em um lugar que de dia troca o óleo e ajustas freios? Será que são os mesmos responsáveis? O cara tira o macacão cheio de graxa e coloca o avental? O óleo dos carros é usado para fritar o macarrão? A coexistência dos negócios é inconcebível.

Também existem vários pontos que são lava-jatos de manhã e espetinhos de noite. Não é estranho? Será que existe uma consultoria que estimula essa prática para aumentar a renda do comerciante?

Sempre me lembro também de um lugar por aqui que era uma banca de jornal que vendia sucos naturais. Tem explicação?

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