segunda-feira, 18 de maio de 2015

Corra Forest! Corra Lola!
Ou, "A Morte em Duas Pernas"

Os benefícios a longo prazo da corrida vêm sendo amplamente divulgados pela ciência nos últimos anos. Em cada vez mais lugares, mais pessoas são vistas correndo para lá e para cá. Se você conhece uma pessoa legal, uma pessoa divertida, ativa nas redes sociais, pode ter certeza de que ela corre alguns quilômetros todos os dias. Mesmo aquela pessoa que não parece ter um físico muito privilegiado, ela é uma meia-maratonista oculta do dia-a-dia. Correr é o comportamento que une as pessoas legais por meio daquele aplicativo da Nike.

No trabalho, grupos de colegas se juntam para correr ao final do expediente, ao invés de tomar uma cerveja. As pessoas correm nos parques, correm nas ruas - desviando dos assaltantes, correm nos estacionamentos do trabalho. O que importa é correr. Correr é saúde, dizem as revistas, os médicos e o Globo Repórter. Correr é a maneira mais fácil de alcançar o sonho da vida própria até os 100 anos.

Todos os animais correm. Faz parte do nosso instinto, provável que esteja em nossa genética. Desde que o homo sapiens deixou de engatinhar e ergueu o seu tronco que ele deve correr. Uma atividade que exige um esforço físico maior, gasta mais calorias, coloca o sangue para circular. Mas, correr não é o nosso comportamento natural. Correr exige preparo físico.

Não se iluda: correr é uma decisão política. Não existe uma diferença clara entre a capacidade para uma caminhada mais intensa e a corrida. Não há um momento claro em que você perceberá que conseguirá correr. Também está na sua cabeça o momento de parar. Seu corpo começará a doer, nos tornozelos, na sola do pé, nos joelhos, a panturrilha e as coxas irão queimar, o seu fígado vai reclamar e chegará a hora em que os pulmões não vão aguentar. O ar entrará e saíra das suas narinas como se ele fosse feito de chumbo e você vai descobrir que respirar pode doer. Mas, está na cabeça a vontade de decidir se é preciso parar ou se ainda é possível continuar mais um pouco. Mesmo o maratonista olímpico, acredito eu, deve conviver com essa dúvida após alguns quilômetros de corrida.

A vantagem da corrida, dizem seus defensores - e hoje em dia, quem não é defensor da corrida? - é que ela é o esporte mais barato do mundo. Você não precisa de equipamentos caros, um bote, uma vara, uma raquete. Não precisa de um espaço específico. Tudo o que você precisa é de um tênis no pé e uma ideia na cabeça. Não importa a idade, você pode ser rico, ser pobre, ser gótico, punk ou skinhead. Você pode correr. Nós podemos correr.

Mas é claro, o mundo não poderia ser tão perfeito assim. Ser saudável não é fácil e seria utópico acreditar que a saúde estaria ao alcance de simples movimentos mais rápidos gravados no nosso genoma. Correr faz bem, mas você precisa correr certo para que a atitude seja benéfica. Correr errado pode ser terrível.

Tendinite nos tornozelos, no joelho e no pé, fratura no calcanhar, fascite plantar, cãibra, lesão no quadril ou no púbis e inflamação na canela. Essas são algumas das lesões que a corrida pode provocar e não por nenhum outro motivo que não seja algum erro seu durante a prática. Sim, porque é preciso correr certo.

Você só precisa de um tênis, mas é preciso que seja O tênis. Um que tenha algum sistema de amortecimento, que seja leve, que ventile os pés, que custe meio salário mínimo. Se não for esse tênis, é provável que você acabe com o seu calcanhar e com sua sola do pé em uma lesão que vai tirar seu gosto de viver durante algumas semanas ou meses.

Há algo que se chama de “dinâmica de corrida”. Por mais que seja algo que façamos todos os dias, existe uma maneira mais correta de andar e que nem todos nós seguimos. Muitos andamos com os pés tortos, pisamos tortos, forçamos o joelho. Isso já pode ser prejudicial andando, imagina correndo. Se você corre torto, é muito provável que vá acabar com sua saúde em pouco tempo.

O espaço também é importante. Correr em calçadas pode ser terrível porque os desníveis entre as calçadas podem acabar com a sua coluna. Correr pela rua é perigoso porque o risco de ser atropelado nesse mundão besta é simplesmente terrível. É preciso correr no lugar certo.

Ou seja, para correr é preciso encontrar o ambiente perfeito, aquele ambiente sem atrito ou perda de energia que os professores de física tanto falava nas aulas de mecânica clássica. E esse ambiente não se encontra nas CNTP (Condições Normais de Toda a Porra).

Assim sendo correr pode fazer muito bem pela sua saúde ou pode ser extremamente prejudicial. Ainda não há um consenso sobre o que vai ter fazer pior: não correr ou correr errado. O que sabemos é que não correr certo não faz bem e atingir essa certeza é extremamente difícil.

No final, não há para onde escapar, não há para onde correr. Qualquer hábito vai te levar a morte e essa é a certeza que nós temos. Você vai chegar lá em duas pernas.

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