quarta-feira, 20 de maio de 2015

Temos vagas para carrasco

O Governo da Arábia Saudita abriu oito vagas de emprego um tanto quanto curiosas. O país está precisando de “carrascos”, os responsáveis pelas cerimônias públicas de decapitação ou amputação de criminosos. Os árabes seguem as rígidas leis islâmicas, que prevem que cabeças ou membros sejam cortados fora, dependendo do crime pelo qual o sujeito é condenado.

Além de tudo, a profissão per-
mite que você se vista dessa
maneira luxuosa e excêntrica.
Com certeza, essa roupa faz
o maior sucesso nos bailes
da terceira idade e nas festas
de bondage, onde que que elas
ocorram
Ao que tudo indica, a necessidade pelos empregos é urgente. Apenas neste ano, o país já decapitou 85 pessoas, a maior parte delas pelo tráfico de drogas. Caso essas oito vagas sejam preenchidas rapidamente, acredito que ainda mais cabeças poderão rolar pelo deserto saudita. A lei ainda prevê que assaltantes tenham suas mãos decepadas, no entanto, parece que essa condenação tem sido considerada “brega” pelos juízes locais.

De acordo com o edital de convocação divulgado pelo rei da Arábia, o candidato não precisa de nenhuma formação específica, ou de qualquer experiência no ofício. O salário para o emprego não foi revelado, mas correm boatos de que um carrasco ganhe até mil dólares por cada decapitação.

Me parece um tanto quanto óbvio que os árabes não estejam requerendo uma formação específica. Acredito que não existe nenhum curso superior para decapitadores, nem mesmo cursos profissionalizantes do Pronatec ou do Instituto Universal Brasileiro. Seria bem difícil regulamentar esses cursos e o clima de aula seria tenso.

Aula I, Modulo I: Manuseio de Facões. Convenhamos, uma aula dessas não poderia perder tempo com meandros filosóficos, seria necessário ir direto até a prática, porque o tempo corre. Aliás, como seriam as aulas práticas? Seria preciso criar convênios com países que pratiquem as degolas, mas seria ético utilizar aprendizes e estagiários para uma função tão importante?

Será que eles deveriam exigir algum curso superior? Precisa ser formado em medicina, para saber a maneira de cortar o pescoço e provocar mais ou menos dor no condenado. Ser formado em direito, para explicar para o cidadão porque aquilo está acontecendo. Ser formado em jornalista, para escrever um livro de imersão após um ano de trabalho. Ser formado em filosofia, porque os filósofos, enfim, precisam de emprego também.

A questão da experiência pessoal também é complicada. Só se adquire conhecimento na arte da degola se você praticar o corte de pescoços. A decapitação é considerada crime em qualquer país do mundo e acredito que só a Arábia Saudita ainda deva utilizá-la como forma punitiva máxima. Então, como adquirir uma pessoa que tenha experiência na área? Será que vale alguém que trabalhou em um matadouro? Mesmo os matadouros têm desenvolvido outras técnicas de abate, que não consistem em degolar o animal.

Se alguém te entrega um currículo dizendo que já cortou várias cabeças humanas por aí, você o contrata? Ou o denúncia para a Interpol? Com certeza o cara deve estar sendo procurado pelo seu país de origem. Deve ter alguma alcunha do tipo “maníaco do facão” e provocou o terror em cidades do interior.

A melhor forma de contratar um degolador deve ser pela observação de outras habilidades pessoais. O cara tem que saber afiar bem o seu facão, deve mostrar destreza e leveza em seus golpes e manter a higiene pessoal e aparência em dia. Para um carrasco, acredito que quantos menos dentes ele tiver, melhor será.
Querem uma dica de amigo? Não procurem pelo termo "machadada" no Google. Sério. Não vai lá não!

O salário de mil dólares por decapitação não deixa de ser interessante. Se 85 cabeças foram cortadas nesse ano, divida esse número por 8 e teríamos 10 cabeças para cada carrasco. Em cinco meses no ano, seriam duas machadadas por mês, dois mil dólares salário. Não está ruim. Tem muita gente com curso superior ganhando menos do que isso. Sem contar que, cada cabeça cortada não exige mais do que um dia de trabalho e você provavelmente conseguirá uns frilas por aí – não sei que empresa contrataria um degolador para fazer serviços extras, mas não podemos negar as oportunidades.

Também podemos destacar que o pagamento por decapitação realizada demonstra o tratamento meritocrático aos servidores, o que significa que a Arábia Saudita está de acordo com os paradigmas do liberalismo.

A falta de mão obra especializada e a dificuldade do país em preencher essas vagas é um reflexo do mundo atual. Cada vez mais a pena de morte tem sido abolida e as execuções-espetáculo são ainda mais raras. Os países que ainda praticam a pena capital tem escolhido métodos privados e indolores, o que respeita os direitos humanos, mas prejudica o show business.

Mas a abertura das vagas para carrascos só vem a demonstrar que o que não falta nesse mundo é trabalho.

Esse post é dedicado a alma e memória de J. Tomaz.

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