segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Glória Pires comentando a vida


A atuação de Glória Pires na transmissão da Globo da cerimônia de entrega do Oscar de 2016 foi sem dúvida um momento marcante na história da cultura brasileira. Com seus comentários lacônicos e seu distanciamento em relação ao objeto fático, Glória teve uma performance magnetizante e eclipsou todos os outros presentes no estúdio, quiçá todos os presentes no Teatro Dolby em Los Angeles. Pobre DiCaprio. Não consegue ser o centro das atenções nem no dia em que finalmente ganha o Oscar.

Não sem razão, Glória foi massacrada nas redes sociais por conta de seus expressivos comentários sobre os filmes e afirmações como “excelente, todas excelentes”, “ótimo”, “espetacular”, “médio” e o imbatível “não sou capaz de opinar”. Muitas pessoas se perguntam o que é que a intérprete das inesquecíveis Ruth e Raquel estava fazendo lá. Mas eu me pergunto outra coisa: o que Glória Pires não está fazendo em outros lugares?

Eu sou amplamente favorável a ideia de que Glória Pires precisa ocupar mais os espaços públicos. Acredito que todo e qualquer evento televiso será muito melhor com seus comentários amplos e profundos.

Por mim, Glória Pires ganharia um espaço fixo nos telejornais da Globo. Sempre há aquele espaço em que o Alexandre Garcia faz um comentário desnecessário ou em que o Arnaldo Jabor faz uma pequena interpretação do universo em um minuto, pois bem, Glória Pires é que deveria estar lá. Glorinha é que deveria ser questionada sobre os desdobramentos da Operação Lava Jato e dizer “não sou capaz de opinar”. Por mim, ela estaria amanhã no lugar do Rodrigo Pimentel comentando as ações de segurança efetuadas pelo exército ou pelo Bope. O que você achou da ocupação do Morro do Pavão, Glória? “Triste, mas necessário”.

Glória deveria estar na Previsão do Tempo. Vai fazer sol no Rio de Janeiro? “Não sou boa com previsões”. Teríamos que esperar para ver o que vai acontecer.

Queria ver Glória comentando os jogos de futebol já a partir desta quarta-feira. Gostou da jogada. Sim. O que você acha do Tite? Excelente. Boa a atuação do Palmeiras? Médio. Iria acrescentar bem mais do que o Caio Ribeiro, acredito eu.

Em um projeto mais longo, ela deveria ser a comentarista dos Jogos Olímpicos. Uma enorme felicidade invade o meu corpo quando eu penso nela comentando os nados sincronizados, ou os saltos ornamentais. O atleta se contorcendo todo em busca de um movimento perfeito praticamente imperceptível aos olhos de reles mortais e quando ele cai na água, Glória Pires vaticina: médio.

Queria ver GP comentando o Diego Hipólito se debatendo no chão após um erro de cálculo, cavalos saltando, pessoas remando em baías com restos mortais de pessoas não identificadas. Serão as melhores Olimpíadas de todos os tempos, apenas por conta dela. O basquete sempre nos lembra o inesquecível Dream Team de Barcelona, 1992, não é mesmo, Glória? “Não assisti”.

O momento máximo aconteceria no dia em que ela comentasse o Carnaval. O que ela achou do Salgueiro? Não viu. A bateria da Portela? Não é capaz de opinar. As alegorias da Imperatriz? Médio. O enredo da Grande Rio? Excelente. Acredito que Cléber Machado não iria se aguentar e perguntaria para ela se ela viu a Mangueira entrar e ela incrédula responderia que não viu.

Acho que as pessoas tem que ser mais como Glória Pires na vida. Não precisamos dar tantas opiniões assim sobre tudo, inclusive sobre coisas para quais nós não temos capacidade de fazer. Não sabe, não responda, não se envolva em confusão, não faça a discussão se prolongar. Se todos fossemos como Glória Pires o mundo seria um lugar melhor. Acredito que ela seja a própria personificação da letra de Imagine, do John Lennon.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

11 Listas de Coisas Inacreditáveis

1) Não sei dizer quando é que a internet deixou de ser uma rede mundial de computadores e passou a ser apenas um depósito de listas. Todo dia enquanto passamos pelas redes sociais, nos deparamos com uma série de listas sobre os mais diversos assuntos. Acredito que as listas enumeradas compreendem mais da metade do conteúdo que circula pelos cabos de fibra ótica do mundo.

2) Existem diversos sites especializados em divulgar listas de coisas aleatórias que irão te surpreender. O principal deles é o renomado Buzzfeed e muitas pessoas o culpam pelo o que ficou conhecido como o processo de buzzfedização do mundo. Mas eu acredito que isso não seja verdade. O BF foi uma espécie de catalisador da tendência mundial de agrupar informações em listas.

3) Entro no site do Buzzfeed e encontro listas tão excêntricas como: 14 frases que não fazem o menor sentido se você ama roupas pretas; 40 sinais de que sua memória é horrível; 19 ideias do que fazer para curtir quando você está sozinho; 28 cachorros que se arrependeram de suas decisões; As 32 piores coisas de ser alto; 15 perguntas que expõe ridiculamente sua falta de maturidade; 24 dificuldades que as pessoas que não comem o tempo todo nunca vão entender.

4) Se nós formos analisar, não há um único motivo lógico para que você queira ter acesso ao conteúdo dessas listas. Sim, não há razão lógica para ver cachorros arrependidos, falta de maturidade exposta e outras listas mais seletivas, que não farão sentido para você justamente porque você não é alto, não usa roupas pretas ou não comem o tempo inteiro.

5) Mas, mesmo assim, sei que você sentiu uma vontade irresistível, em algum lugar no fundo da sua alma, de clicar nessas listas cujos links eu não forneci e que isso agora está te matando e que você provavelmente já abandonou esse texto e foi no Buzzfeed para saciar essa curiosidade. De alguma maneira que nós não sabemos explicar, as listas mexem com o nosso imaginário.

6) Se eu fizesse um post intitulado “Razões para não comer abóbora” e divulgasse-o por aí, as chances de que você clicasse no link seria mínima. No entanto, se esse post se chamasse “17 razões para não comer abóbora”, o clique certamente estaria garantido.

7) Pense bem, você não tem motivos para saber as razões pelas quais a abóbora não deveria ser comida. Mas a lista acaba por enumerar essas razões, restringi-las e ativa a nossa curiosidade em saber, afinal, quais são esses 17 motivos. Os motivos provavelmente serão bestas: vai dizer que ela é laranja, que ela desfia, que a casca dela é feia, que existem coisas melhores, enfim. Mas é difícil resistir à especificidade.
7,5) Os caroços da abóbora são realmente nojentos, eca.

8) Aliás, boa parte das listas do Buzzfeed tem conteúdo risível e você termina os intermináveis itens com a sensação de que desperdiçou uma boa parte da sua vida naquela página. Aposto que as 32 piores coisas de ser alto nada mais é do que um amontoado de frases sobre coisas que não são nem tão ruins assim, entremeadas por gifs engraçados de pessoas em situações inesperadas.

9) Também existem aquelas listas que se baseiam em achar Tweets ou postagens engraçadas no Facebook e aglutiná-las em um título como “19 pessoas que realmente odeiam abóbora”. Bem, essa lista ainda daria mais trabalho, mas algumas dessas coleções de postagens em redes sociais são feitas com o mesmo aprofundamento bibliográfico que um trabalho sobre bactérias de um estudante de quinta série.

10) Mas é difícil resistir, sim. Inclusive porque os posts de listas são incrivelmente eficientes em testar sua curiosidade ao dar um spoiler não revelador sobre o assunto. “O oitavo item vai te surpreender”, o “item 7 vai te provocar pesadelos”, “o último link vai te fazer cagar nas calças durante o resto da sua vida”, “um dos motivos irá te transformar em um monge budista que utiliza comprimidos alucinógenos sublinguais”. E você realmente quer se provar contra esses efeitos.

11) O que fazer? Não há o que fazer, não há como resistir. Eu tento, num esforço pessoal espartano, não clicar em nenhum dos links de listas que aparecem na minha timeline mas sempre se falha uma vez ou outra. Resta admitir que a vida poderia ser muito diferente, caso eu tivesse colocado um numeral na frente de todos os posts que o CH3 já fez.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Os próximos passos da Operação Lava Jato

Todos os dias o povo brasileiro é surpreendido com a deflagração de uma nova fase da Operação Lava Jato. Todo dia acordamos com o Bom Dia Brasil exibindo aquelas imagens distantes, feitas em helicópteros, com a movimentação de alguns policiais federais na casa de algum figurão nacional acusado de ter lesado os cofres públicos.

Curioso é que essa operação que já envolveu metade do Congresso Nacional e prendeu mais de cem pessoas, começou de maneira besta. No princípio, havia apenas uma denúncia de que alguns cidadãos utilizavam uma rede de postos de combustível para lavar dinheiro. Foram presos alguns indivíduos que exercem a curiosa profissão de doleiro

No entanto, logo as investigações conduzidas pelo juiz Sérgio Moro – novo super-herói nacional – descobriram ligações de um desses doleiros com um diretor da Petrobras, o que deu origem a uma enorme bola de neve que engoliu partidos políticos, pessoas, empresas, organizações, todas acusadas de participar de um jogo de pagamento de propinas e desvios que superam os 40 bilhões de reais.

Depois de 23 fases da Operação, que a essa altura já investiga todos os canteiros de obra instalados no Brasil, é difícil saber o que esperar dos agentes da Polícia Federal. No entanto, o blog CH3 em um esforço de reportagem, foi atrás de fontes, de documentos, de videntes, quebrou o sigilo de investigações e o decoro parlamentar para mostrar a você quais serão os próximos passos desta contundente ação policial.

Na 26ª fase da Operação Lava Jato, os investigadores vão descobrir indícios de pagamento de propinas, superfaturamento e desvio de recursos na construção de estádios utilizados na Copa do Mundo. A descoberta dará origem a uma CPI no Congresso Nacional e David Luiz será convocado para se explicar sobre seu posicionamento tático equivocado na partida contra a Alemanha. Grampos telefônicos mostram que o jogador manteve contato com a Petrobras para estrelar uma campanha publicitária e o zagueiro se torna foragido. Um bom motivo para que ele ficasse de fora das convocações do técnico Dunga.

As investigações avançam sobre o mundo do futebol e descobrem que Lula não orientou a defesa brasileira a marcar Zidane na Copa de 1998 e na Copa de 2006. Também é descoberto que Felipe Melo já se encontrou com empresários que financiaram campanhas petistas no Brasil.

Na 29ª fase da Lava Jato, o Japonês da Federal® vai descobrir que entre os anos de 1933 e 1945, o Governo Alemão manteve judeus, ciganos, poloneses, homossexuais e pessoas com deficiência em campos de trabalho forçado e que muitas dessas pessoas foram executadas em Câmaras do Gás. Documentos mostram que a Petrobras superfaturou o contrato com uma sublocatária austríaca para a construção de reservatórios de gás na Tchecoslováquia e escutas telefônicas citam uma pessoa conhecida como “Führer”, provavelmente uma alcunha do ex-presidente Lula.

As investigações seguirão avançando, até que na 47ª fase o juiz Moro determinará a prisão de Nostradamus. Ele será acusado de ter omitido informações sobre os esquemas em empresas estatais brasileiras, de acordo com uma centúria obtida por meio de escutas telefônicas. Com o não comparecimento de Nostradamus, a PF passa a considerá-lo foragido e seu nome é entregue para a Interpol.

Após intensos desdobramentos, o Ministério Público descobriu indícios de que dirigentes da Petrobras estavam envolvidos em um esquema de propina no Sistema Penitenciário do Império Romano, que teve como objetivo liberar Barrabás e condenar Jesus a morte na cruz. A intenção do esquema foi fortalecer a religião cristã e fazê-la se espalhar pelo mundo, gerando no futuro a criação de um novo país no qual o Partido dos Trabalhadores poderia realizar esquemas fraudulentos.

A 100ª fase da operação foi chamada Cavalo de Tróia, justamente porque descobriu que empreiteiras superfaturaram as obras de construção do Cavalo de Tróia, construído em um estaleiro da Petrobras com dinheiro obtido por um doleiro que mantinha relações com um pecuarista amigo do ex-presidente Lula.

Depois de 89.128 fases, finalmente a operação chegou à origem de tudo: o Big Ben. Ou a criação do homem a partir do barro. Numa decisão histórica, Sérgio Moro considerou Deus culpado pela criação do homem e Darwin pela sua constante evolução que desaguou nas fraudes todas que foram apuradas até então. Todos foram felizes para sempre.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Nunca estivemos piores

Um pensamento comum no imaginário popular brasileiro é que estamos sempre vivendo o pior momento da nossa história. É assim na política, é assim no futebol e não poderia deixar de ser diferente, é assim na cultura A televisão está em seu pior momento. Os filmes nacionais são os piores que já foram feitos. A música que está nas rádios representa a falência moral do povo brasileiro.

A afirmação de que nunca estivemos piores é recorrente quando o assunto é música. A cada novo sucesso de verão, temos a impressão de que jamais foi feita uma coisa tão ruim assim. Impressão que às vezes pode ser justa mas que esconde uma verdade mais inconveniente: músicas ruins são feitas e se tornam populares desde que o ser humano cantarolou a primeira melodia da história.

O hit do carnaval deste ano suscitou estes pensamentos. Metralhadora é uma música bizarra com elementos catastróficos que chegam a transformá-la em uma canção divertida no aspecto trash da vida. Uma letra que não diz nada com nada e um refrão baseado em uma onomatopeia sendo repetida por toda eternidade, entremeada por um violino irritante.

A música foi defendida por algumas pessoas, que viram nela um reflexo dos tempos modernos e do empondaramento das mulheres. Eu sinceramente não entendi onde é que as mulheres se emponderam com graves batendo e cornetas doendo, mas enfim. Há de se analisar que pelo menos metralhadora tem uma onomatopeia que faz algum sentido, ao contrário de hits de anos anteriores.

Não podemos nos esquecer que dois anos atrás o carnaval foi dominado pelo Lepo Lepo, que era uma canção terrível. Já tivemos o Creu, que sinceramente, é difícil de ser superada. Todos os sertanejos com onomatopeias aleatórias de três ou quatro anos atrás. Se lembram do clima de depressão que se instalou na ala intelectual do Brasil quando Michel Teló assumiu o topo das paradas?

Sim, você pode dizer então que a falência moral brasileira é um processo recente e que começou com o desgoverno Dilma e a roubalheira do PT. Mas, se nós voltarmos dez anos no tempo vamos descobrir que em 2006, ano em que o CH3 foi criado, um dos principais hits brasileiros era cantada pelo músico Armandinho, aquela que dizia que quando deus te desenhou, ele estava namorando, a pior cantada da história.

Em 1996 o Brasil estava infestado pelo Araketu, aquele que quando tocava deixava todo mundo pulando que nem pipoca. Esse também foi o ano da explosão da Axé Music, que hoje pode até parecer saborosamente nostálgica mas que parecia o inferno na época em que tocava nas rádios o dia inteiro. Vocês se lembram daquele inferno de “olha olha olha olha a água mineral água mineral água mineral”. É de 1996.

Ah, você pode até dizer que essas músicas eram boas, estimulavam o consumo saudável de líquidos e a hidratação permanente como forma de deter o poder destruidor da ressaca e que tudo piorou desde então. Mas, sabem o que mais fazia sucesso em 1996? Tiririca. Cantando Florentina. Sim, mesmo se você se esforçar vai ter dificuldade em achar muitas canções que são indiscutivelmente piores do que Florentina.

E em 1986? As pessoas ouviam coisas terríveis como Manequim, da banda Dominó. Se formos mais longe vamos chegar em uma época em que as pessoas escutavam Biquíni de Bolinha Amarelinha. Sei que você pensou agora “ah, essa música é bonitinha”, mas te convido a um exercício. Imagine se Anitta resolvesse lançar uma música sobre uma cidadã chamada Ana Maria que utiliza biquínis pequenos. O que você diria? Que o mundo já pode acabar.

Temos alguns casos que realmente são mais difíceis de se defender. Os funkeiros modernos que fazem músicas que consistem em percussões aleatórias com versos sobre ostentação também aleatórios e que imaginamos que sejam sempre cantados de improviso, porque é impossível alguém pensar em uma coisa assim e decorá-la.

O exemplo mais bizarro de todos é o MC Bin Laden. Sim, não há defesa para um homem que tem tetas gravar uma música fazendo uma dança retardada na beira da praia sem camisa e que as pessoas escutem isso. Não há sentido em dizer que tá tranquilo, tá favorável. Mas, convenhamos, não havia defesa para o Pimpolho, aquele cara tão legal, mas que não podia ver mulher que já pedia pra baixar.

Isso não tem explicação 
Se formos lá para os anos de 1870, certamente havia algum contemporâneo de Wagner que compôs algumas sinfonias realmente terríveis, mas que as pessoas gostavam por razões que só poderiam ser explicadas pela magia negra. Mas, para sorte dos nossos antepassados, não haviam registros disso e eles puderam apagar esse momento negro da história da humanidade sem que ninguém soubesse.

Eis aí uma diferença para os tempos atuais. Seus vídeos dançando tá tranquilo, tá favorável, poderão ficar para sempre vagando na web e você será um motivo de vergonha eterna.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Novo Emprego

Olá, tudo bom? Seja bem-vindo ao seu novo emprego. Vou te apresentar alguns dos seus colegas.

Esse aqui é o Seu Duílio. Oficialmente ele cuida dos balanços financeiros da empresa, mas na verdade ele fica o dia inteiro jogando Candy Crush e curtindo imagens de mulheres de biquinho no Facebook. Na primeira festa da empresa em que você for ele vai ficar bêbado e vai tentar beijar sua boca.

Essa daqui é Iasmin, ela é responsável pelos registros de preço. Ela vai dar em cima de você a partir de hoje e você vai ter que ser muito forte para resistir. Não, não importa se você é casado.

Por aqui, esse é o Nélson. Ele defende a pena de morte para os criminosos mas tem fotos de pedofilia no HD dele. Caso queira saber, ele se masturba no ambiente de trabalho.

Quentin, dê as boas-vindas para nosso novo colega. Quentin é filho de francês é usa essa estratégia para pegar as mulheres e os homens daqui. Não se iluda, você vai ser o próximo. Ah sim, ele é nosso analista internacional, não que ele entenda alguma coisa, mas só por conta desse nome ele impõe respeito.

O Tobias é nosso assessor de comunicação interna. Ele não faz nada, mas arrumou esse emprego porque tem um tio que já foi deputado. Fique atento com ele, porque ele vai tentar te apunhalar pelas costas e te prejudicar na primeira oportunidade que ele tiver.

Aqui nessa sala estão nossas meninas do RH. Olívia e Zuleide. Você vai perceber que elas odeiam isso aqui e só vão te chamar para dar notícias ruins. Se eu fosse você, nem adicionaria elas no Facebook.

Iago, nosso gerente júnior. Vou falar mais baixo para ele não acordar e não babar a mesa toda.

Nessa sala fica o nosso presidente, Kleiton Gonçalves. Não se preocupe, você será demitido antes de conhece-lo.

Claro, eu já estava esquecendo de me apresentar. Eu sou o Wallace, responsável pelo Atendimento ao Cliente. Eu sou seu pior pesadelo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Última parada: Parantinga IV

Sabe aquele segundo, talvez dois segundos, em que sua mente reconhece alguma coisa de algum lugar, mas não sabe exatamente de onde? Diante de uma cena seu cérebro começa a vasculhar sua memória e a história da humanidade para localizar o fato. Os anos de infância, memórias abruptas de Gerard Depardieu interpretando Cristóvão Colombo em 1492 – A Conquista do Paraíso, até que enfim você se lembra. Esse processo não dura mais do que dois segundos, mas parece uma eternidade.

Foi essa sensação que eu experimentei no momento em que vi aquela chuva de bala de caramelos. Conhecia aquilo em algum lugar, não era uma cena inédita na minha vida. Durante dois segundos minha mente passou pelos baratas voas na época do colégio, pelos papos de peru estourados, pela porra do Gerard Depardieu interpretando Cristóvão Colombo com aquela trilha sonora ao fundo, até finalmente me lembrar: Reveillon de 2014. Papai Noel.

Diz a lenda que durante uma confusão no Centro Político Administrativo, o Papai Noel chegou arremessando balas de caramelo e gingando capoeira. Na sequência, Hanz o Pansexual correu em direção as pessoas que brigavam, instalando uma enorme confusão, da qual nós nos safamos. As balas estavam ali e não havia a menor dúvida de que era o Papai Noel. É impossível que duas pessoas no mundo utilizem essa mesma tática para interromper brigas.

Não consegui ver se ele gingava capoeira. Nem sequer o via, já que eu estava amarrado. Mas era possível observar o espanto na cara das pessoas. Eu também ficaria espantado numa situação assim. Foi então que ele disse “Hohoho, seu bando de putinhas. Ninguém vai queimar ninguém aqui não”. No instante seguinte, antes que as pessoas conseguissem entender qualquer coisa, Hanz, o pansexual, correu nu em direção a multidão com tochas na mão.

Começou uma confusão generalizada que deveria envolver cerca de 200 pessoas contra apenas dois. Mas tenho que admitir que Papai Noel sabe como se portar em uma briga. Ele gira seu saco de brinquedos, talvez abastecido com pedras, de um lado para o outro e ninguém consegue atingi-lo. Hanz, por outro lado, espanta as pessoas. Ninguém quer brigar com outro homem nu, com medo de encostar em seu pênis mole.

A cena era realmente impressionante, mas estava eu pensando no que é que poderia acontecer comigo, com Vinícius e Tackleberry. Eles poderiam ficar ali brigando por horas e, enfim, nós continuávamos amarrados. Minha preocupação diminuiu apenas no momento em que Pai Jorginho de Ogum apareceu e começou a nos desamarrar. Desamarrou Tackleberry – que me desamarrou – e Vinícius.


Disse que precisávamos ser rápidos. Nos mandou correr e eu perguntei sobre eles. Jorginho disse que eles iriam se virar. Vinícius questionou que o carro estava sem combustível e Jorginho apontou para o galão que serviria para nos queimar. Ainda me entregou uma garrafa de Caninha 21 “isso aqui é álcool puro”, para dar uma partida rápida no carro. Corremos até a rua do outro lado da praça, em direção ao carro. Olhei uma última vez e vi Hanz montado na nuca de um cidadão tomado pelo horror.

Entramos no carro e pelo retrovisor vimos alguns cidadão correndo atrás de nós, até desistirem. Vimos eles parando de correr no mesmo momento em que o carro parou, sem combustível. Eles começaram a correr novamente e eu desci do carro para entornar a garrafa de caninha 21 no tanque. Arrancamos novamente quando eles estavam prestes a nos alcançar. Conseguimos escapar.

O combustível voltaria a acabar dali a cinco quilômetros, mas já tínhamos distância substância para abastecer o carro com o garrafão e seguir viagem. Tivemos uma volta tranquila, Vinícius separou um Pen Drive com o melhor da Dance Music dos anos 90.

Chegamos em Cuiabá perto da hora do almoço. Deixamos Vinícius em seu apartamento e nos despedimos para todo o sempre. Nunca mais iremos o ver novamente.

FIM

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Última parada: Paranatinga III

Não demorou muito para que nós percebêssemos que estávamos participando de uma espécie de julgamento medieval. As pessoas com as tochas em mãos esperando por um espetáculo pirotécnico em praça pública. Um cidadão que parecia exercer alguma liderança sobre aquela multidão começou a ler o texto que escrevemos sobre o Carnaval de Paranatinga em 2007.

Cada frase era pontuada de maneira irônica e os trechos mais ofensivos ganhavam ênfase e gritos raivosos da população. A leitura do texto funcionava como uma sentença de morte. O cidadão proferiu que pela difamação, ofensa, calúnia e desfaçatez contra a cidade, os três membros do CH3 seriam condenados a fogueira. Seríamos amarrados em uma árvore e nossos corpos seriam incendiados.

Nesse momento, uma pessoa se manifestou e questionou a forma da execução. Disse que não tinha nada contra o nosso processo de combustão, muito pelo contrário, mas que era contra o fato de nos amarrarem em uma árvore. Segundo ele, devemos preservar o meio ambiente e, além de destruir uma árvore, o processo poderia desencadear um incêndio descontrolado que atingiria outras árvores e talvez algumas casas da região.

A população em geral concordou que o comentário estava correto e após uma breve votação, decidiram que nós não deveríamos mesmo ser atados a árvore. Um pequeno grupo dialogou em separado, com as mãos sobre seus rostos, para impossibilitar uma leitura labial alheia. Depois de cinco minutos de conversa e muitas possibilidades eles voltaram a chamar a atenção do público. Estava decidido que nós seríamos amarrados ao gira-gira do parquinho da praça e aí então seríamos queimados.

As pessoas gritaram, mas outro cidadão voltou a levantar a mão. Ele disse que caso fossemos amarrados ao gira-gira e então queimados, o brinquedo ficaria para sempre inutilizado. Ele lembrou que o parquinho da praça foi uma conquista da população, após anos de reinvindicações junto ao poder público. Se nossa morte transcorresse desta forma, muito provavelmente eles ficariam para sempre sem o parquinho e sem um espaço público para o lazer e diversão das crianças da cidade.

Comentários esparsos de que o cidadão tinha razão ecoaram pela praça. Chegou-se a cogitar que nós fossemos amarrados em outros dos elementos do parquinho, mas ninguém parecia ter mais desapego pelo escorregador, ou pelo balanço. A situação parecia ter chegado a um impasse, já que não haveria outro lugar em que nós poderíamos ser amarrados para que então o fogo fosse ateado em nossos corpos.

A multidão fez um silêncio temporário até que alguém propôs que não seria necessário nos amarrar em nada. Bastava amarrar nossos braços e pernas para que não fugíssemos e jogar fogo na gente. A população concordou em uníssono. E deveríamos ser amarrados bem próximos, mas evitar o desperdício e evitar um incêndio descontrolado. Mais gritos. E deveríamos ser queimados sobre o concreto, também pela questão ambiental. A população entrou em êxtase.

Arrumaram algumas cordas utilizadas no desfile alegórico e logo estávamos os três bem amarrados num pedaço de concreto. O dia começava a amanhecer, tirando um pouco o impacto das tochas acesas.

Chegou então, o momento em que deveríamos ser queimados. Percebi que as pessoas ficaram paradas por um instante, como se não soubessem o que fazer. Eles estavam em dúvida sobre a melhor maneira de incendiar três pessoas. Chegaram a conclusão de que não bastaria apenas encostar as tochas em nós, isso iria provocar queimaduras, faria que nós nos contorcêssemos de dor e provocaria repulsa no carrasco, que não conseguiria ir em frente. O incêndio deveria ser rápido e impessoal.

Alguém falou que eles precisariam de álcool, ou algum outro combustível. Passaram a andar em círculos para ver quem é que tinha um galão sobrando por aí. Se sentiram abandonados pelo destino e pelo fato de a tecnologia do automóvel não ter chegado até aquele pedaço maldito de terra.

Logo perceberam nosso carro estacionado e pensaram que era o crime perfeito. Seríamos queimados no combustível do nosso próprio carro. O carro que nos levou até ali seria o veículo que nos conduziu até a morte de maneira dupla. Abriram a tampa do tanque com um sorriso maquiavélico e, caramba!, o carro não tinha mais combustível. Ainda bem que o Tackleberry não abasteceu o carro em Primavera do Leste.

Eles pareciam sem alternativa. Discutiram se poderíamos ser incendiados com cerveja, mas chegaram a conclusão de que seria impossível. Passaram a propor outros métodos para a nossa execução, como o apedrejamento, ou a forca, mas a população parecia desanimada. Estavam esperando pelo belo espetáculo pirotécnico da fogueira.

Eis que um maldito cidadão chegou com um galão de gasolina que ele tinha em sua fazenda. A população vibrou e todos começaram a se aproximar de nós. A tampa do galão era desrosqueada, quando todos ficaram em silêncio e uma chuva de balas de caramelo caiu sobre todos nós.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Última parada: Parantinga II

Abrimos um novo pacote de Skinny. Resolvemos antes de viajar que levaríamos toda nossa comida, pois não sabíamos se encontraríamos restaurantes abertos na cidade e isso impediria eventuais tentativas de envenenamento – a forma mais interessante, silenciosa e elegante de se livrar de alguém sem deixar provas profundas.

Refletimos se não deveríamos comer alguma coisa mais substancial, mas decidimos que pacotes de Skinny seriam suficientes para nos manter vivos durante a expedição. Pessoas sobrevivem na floresta por dias bebendo água, um panaca aí qualquer sobreviveu um mês comendo apenas no McDonalds, não deveria haver problema em passar pouco mais de um dia a base de um salgadinho de isopor.

Vesti minha camisa do mosquito da dengue, para alegria de todos. Imaginei que precisaria estar vestido de acordo para um momento especial como esse, mas não imaginei que este seria um dos erros que iriam nos levar para morte. Estávamos o tempo inteiro subestimando o potencial de união e vingança do povo da cidade.

Passamos o dia inteiro sentado na praça, enquanto um telão tocava “Metralhadora”, o novo hit do carnaval. Entre muitos trás, sentimos saudade do lendário Crazy Frog e ríamos do perigo que era uma música desse nome ser executada impiedosamente em uma cidade conhecida carinhosamente como Paranabala.

Vinícius comentou que talvez fosse melhor ser alvejado pela tal metralhadora do que escutar mais uma vez a vocalista esganiçada pedindo “faz solinho pra mim”. O violino elétrico tocando notas boçais aumentavam o clima de decadência da música. Chegamos a conclusão que, se o inferno existir, ele deve repetir esse solo de violino initerruptamente.

Comentei que a vida do violinista das Vingadoras deveria ser uma merda. Ninguém aprende a tocar violino para acabar em uma banda de axé. Aquele cara ali deve ter estudado muito Bach, Mozart e outros mestres da música clássica para acabar tocando um acorde repetitivo em uma música irritante de axé. Toda a noite esse cara deve chorar, comentei. Tackleberry completou que ele deveria chorar com o arco do violino enfiado no toba e foi comprar umas cervejas. Ao final da quinta cerveja, Tackle já dançava o hit do carnaval.

A noite foi chegando e a praça começou a se movimentar para o desfile de carnaval. Aproximadamente 600 pessoas já estavam por lá, o que deveria corresponde a metade da população da cidade e cada vez mais gente ia chegando. Notei que algumas pessoas nos olhavam com estranheza e desconfiança, mas não achei estranho. Já assisti filmes de faroeste e sei como os locais se sentem diante da chegada de forasteiros.

Às 20h, o desfile começou. O presidente da Liga das Escolas de Samba Local anunciou o começo do desfile e disse que era muito bom ver que após oito anos, o desfile voltaria a contar com três escolas: Caralho Pulsante, Boceta Nervosa e Cuzinho Apertado. “Desde que aqueles babacas de Cuiabá vieram aqui em 2007 e denegriram nosso carnaval, passamos por muitas dificuldades para arrumar patrocínios. Felizmente nesse ano nós estamos nos reerguendo. Os tempos de glória voltaram”. Foi aclamado pela população e eu pensei que talvez estivesse no lugar errado.

A Caralho Pulsante abriu o desfile com um enredo sobre o agronegócio. Durante quarenta minutos, os integrantes da escola passaram pelos 50 metros da avenida fantasiados de espigas de milho, de algodão, carregando produtos relacionados a soja e com constrangedoras fantasias de vacas. Como a escola não contava com tanto integrantes assim, dava pra ver que muitos davam a volta na praça e desfilavam novamente, às vezes com fantasias diferentes.

A escola recebeu aplausos comedidos. Ao que tudo parecia, todos os que estavam na praça iriam desfilar por alguma escola, exceção feita aos jurados, a uns casais se pegando de maneira quase explícita e a nós três. Isso deveria explicar por que cada vez mais nós éramos olhados de maneira estranha.

A Cuzinho Apertado finalmente entrou na pista e sua performance em nada lembrou a apoteose de 2007. Com o enredo “vem no batuque ioiô, vai no suingue iaiá”, a escola reuniu um amontoado de clichês carnavalescos e o desfile foi, acreditem, competente. Mais aplausos comedidos.

Quando a última escola, Boceta Nervosa, entrou na pista, a multidão começou a aplaudir. Achei estranho. Quando a música começou, eu reconheci: tratava-se do enredo “Paranatinga: Coração do Brasil”, o mesmo desfilado em 2007 e ao que tudo indica, repetido todo ano pela escola patrocinada pela prefeitura e todo ano campeã. Não me contive diante daquilo e comentei com Vinícius e Tackleberry “que merda”.

Funcionou com uma chave. Um cara de boné Oakley se virou para mim e gritou: “É Ele! O cara de camisa do mosquito! Esse outro cara aqui também!”. Tentei falar que não era nada disso não, mas logo outras pessoas começaram a gritar. “Eu sabia!”, “O povo daquele blog que fala mal da gente!”, “Vieram aqui de novo!”, “Palhaços”, “Como tem coragem?!”, “Vai morrer!”.

Tarde demais. Tentei correr, mas não consegui. Apaguei na primeira pancada que recebi na cabeça e acordei aqui, amarrado na praça de Paranatinga, esperando pelo fogo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Última parada: Paranatinga I

Tudo começou na semana passada. Vinícius Gressana informou que estaria deixando Cuiabá e se mudando para Curitiba na terça-feira do Carnaval. A mudança não era relacionada a nenhuma nova fase da Operação Lava Jato, apenas cumpria uma profecia feita em uma parte da bíblia conhecida como Êxodo.

Tudo estava para terminar ali, agora, na praça de Paranatinga. Eu, Vinícius e Tackleberry estávamos prestes a sermos executados por um grupo de populares revoltosos que descobriram que nós éramos os fundadores do malfadado blog CH3, aquela que certa vez difamou a cidade de maneira grotesca em um texto sobre o carnaval e que não se cansa de manchar a reputação desta nobre cidade.

Dizem que diante da morte, um filme de nossas vidas se passa em nossas cabeças. Posso garantir para vocês que isso é uma mentira absurda. Diante daquela multidão com tochas na mão eu só pensava que a população tinha os seus motivos. A vingança com as próprias mãos é sem dúvida a mais gloriosa forma de se vingar de alguém.

Também pensava que aquilo não poderia dar certo mesmo. Nós fomos muito inocentes em pensar que poderíamos ir até Paranatinga e sair de lá impunemente. Mas não poderíamos nos culpar também. A emoção falou mais alto e a vontade de oferecer uma grande despedida para Vinícius Gressana foi irresistível.

Saímos de Cuiabá no domingo de manhã, planejando assistir ao grande desfile das escolas do município naquela noite e sabíamos que deveríamos manter a discrição. Cogitamos até a utilização de fantasias, com um pretexto carnavalesco, mas decidimos que nossa honra estava acima de nossos medos, ou algo parecido. Afinal. Vinícius nunca mais iria voltar para Cuiabá e isso iria dificultar nosso amigos ocultos e nossos anos novos na Casa de Diversão Noturna Carnicentas. Bem sabíamos que ele não voltaria para Cuiabá, mas não imaginávamos que seríamos queimados em uma enorme fogueira na praça da cidade.

Parantinga, para quem não sabe, é uma cidade no médio-norte mato-grossense famosa por não ser famosa e que se localiza a uma latitude 14º25'54" sul e a uma longitude 54º03'04" oeste. Em 2006, Vinícius Gressana passou o carnaval na referida cidade e nunca mais foi a mesma pessoa. A experiência de passar 72 horas exposto a um telão tocando Crazy Frog mudou seu caráter para sempre. Em 2007, o CH3 cobriu o carnaval na cidade e o texto provocou um ódio generalizado da população, que nos transformou em personas não gratas por lá.

A viagem até Parantinga foi relativamente tranquila. Passamos por uma multidão alcoolizada em Chapada dos Guimarães, ultrapassamos Campo Verde e chegamos até Priamvera do Leste. Notamos a emoção de Gressana ao voltar na cidade em que ele viveu os piores anos de sua vida. Ele nos guiou por um breve tour pela cidade. Fomos até a casa em que ele morou, no colégio em que ele estudou, na esquina onde sofreu seu primeiro cuecão, na casa em que ele escutou pela primeira vez a música do mosquito. Anos atrás pensamos em ir até Pva do Leste apenas para procurar esse maldito CD, mas o youtube chegou antes de nós. Pensei em criar um Gressana Tour por lá.

Pensamos em abastecer, mas Tackleberry, que dirigia, nos garantiu que tinha combustível suficiente para superar os 150 quilômetros de viagem que ainda nos faltavam. Garantiu que seu carro era econômico. Abrimos um pacote de skinny e seguimos viagem.

O som tocava um pen drive com toda a discografia dos Benga Boys o que era uma grande maneira de se fazer uma viagem. Faltando trinta quilômetros para chegar no nosso destino, o carro de Tackleberry emitiu o sinal de que estava na reserva. Tackleberry manteve a frieza. Aliás, de uns tempos para cá, Tackle mudou seu visual e eu inclusive acho que vamos mudar seu nome para Derek Vinyard.

Felizmente, chegamos em Paranatinga às 11h45 do domingo. Acredito que o carro de Tackleberry já estava consumindo as últimas gotas de combustível. Estacionamos o carro em uma das seis ruas da cidade e comemos mais Skiny. O dia parecia que seria interessante.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Os melhores sambas-enredos de 2016

No domingo e na segunda-feira o mundo irá literalmente parar, provocando uma era glacial em metade do planeta para assistir o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Um evento apoteótico, grandiloquente, permeado de nonsense e referências que não fazem o menor sentido para ninguém e que ganham explicações que reprovariam qualquer um no exame psicotécnico do Detran. Para você não perder o que vai acontecer de melhor nessas duas noites, o CH3 já pré-selecionou os cinco piores sambas-enredos desse ano.

União da Ilha
Neste ano, a escola sediada na Ilha do Governador irá desfilar as belezas do Rio de Janeiro dentro de um contexto das Olimpíadas. Acredito que toda escola já deve ter cantado sobre as belezas do Rio em 189 perspectivas diferentes e pensando em como é manjado envolver as Olimpíadas me espanta que apenas uma escola tenha tido essa ideia. Talvez elas tenham promovido uma concorrência pública para definir quem poderia desenvolver esse enredo.
Essa alegoria representa o esforço dos atletas tentando entrar para o panteão dos deuses olímpicos

Nomeado de maneira criativa como "Olímpico por natureza... todo mundo se encontra no Rio" a letra enumera uma série de clichês sobre as belezas do Rio de Janeiro. "Na terra onde o sol é mais dourado", "trilhar caminhos de rara beleza" e "do alto sou ainda mais bonito". Há ainda espaço para um sincretismo religioso "Os deuses, por Zeus abençoado". A segunda parte solta um "ser carioca é tipo assim", o que é uma contradição uma vez que essa gíria é de origem paulistana. Depois de uma série de rimas freestyle sobre o Carioca Way of Life. Para justificar a relação com as Olimpíadas, há uma referência isolada para a medalha de ouro na última estrofe e uma confissão "meu maior desejo é vencer ou vencer, Ilha, razão do meu viver".

Beija-Flor
A lendária escola de Nilópolis resolveu homenagear a Marquês de Sapucaí em plena Marquês de Sapucaí criando uma experiência metalinguística. Mestre em criar títulos que não dizem nada, a Beija Flor se saiu com um "Mineirinho Genial! Nova Lima - Cidade Natal. Marquês de Sapucaí - O Poeta Imortal", trazendo uma síntese precisa do samba no título. O interessante é que se você não soubesse disso, jamais iria perceber. Melhores momentos:
- A abertura com "Abriu-se a cortina do tempo emoldurando a história a beija-flor ôôô".
- O complexo trecho "Atravessou o mar, no afã de conquistar conhecimentos em terras lusitanas, brilhou aos olhos da lei, formou-se bacharel". Como alguém faz um samba com "bacharel"?
- A expressão "herdeiro verdadeiro de ciata". Quem é ciata? Há uma briga por sua herança?
Essa é uma reprodução real da máscara mortuária do Marquês de Sapucaí, que adorava plumas.

Grande Rio
"Fui no Itororó beber água não achei. Mas achei a bela Santos e por ela me apaixonei". Com esse título que muito lembra os poeminhas de Facebook, a escola das subcelebridades resolveu homenagear Santos. Certamente é a pior letra do carnaval desse ano. "Nesse mar de alegria, quero vê me segurar. A grande rio mandou chamar. Vem pra ciranda ioiô... No itororó vem iaiá. Beber na fonte que me faz apaixonar. Lindo cenário de amor... Histórias pra se cantar. Santos... Maravilha de lugar (vou contar). De além-mar chega o colonizador. O mercado prosperou no vai e vem (vai e vem). O cheiro doce que o vento trouxe... Encanta a família real. Nossa senhora... Mãe poderosa... Livrai essa terra do mal". Meteu um ioiô e um iaiá, falou em lindo cenário, colocou a família real ali que não tem nenhuma relação com a cidade.
Esse carro simboliza a chegada da família real, em ritmo de samba, em Santos

A letra segue com referências aleatórias ao Café e a segunda parte é toda dedicada ao Pelé. Imagina, fazer um samba enredo sobre Santos? As pessoas já nem devem saber mais que é uma cidade onde surgiu o time e não ao contrário, então o negócio é fazer referências aleatórias ao futebol como "menino bom de bola, no destino deu olé". Não tem jeito. A melhor música sobre santos ainda é essa aqui.

Unidos da Tijuca
A escola dos carnavais tecnológicos resolveu homenagear Sorriso, uma das capitais do agronegócio mato-grossense. Para isso, fizeram um enredo em que imaginaram os agricultores da cidade como um bando de matutos arando a terra e beijando o terço com o chapéu encostado no peito. São citadas enxadas, arado, semeadura manual, regadores, sendo que a verdadeira Sorriso é cheia de máquinas agrícolas e caras com roupas grossas de algodão para não serem decepados pelos modernos equipamentos.
Os pilares do trabalho no campo são representados nesse carro

Para melhorar, a única referência a Sorriso é um "Sorriso no rosto" lá no finalzinho. A letra poderia ser facilmente aplicável a qualquer outra cidade brasileira cheia de caipiras produzindo soja.

Mangueira
A mais charmosa escola carioca escolheu Maria Bethânia como tema, o que teoricamente, poderia ser uma vantagem. No entanto, a Estação Primeira resolveu fazer rimas nagô aleatórias. "Oyá... Entrego a ti a minha fé, o abebé reduz axé. Fiz um pedido pro bonfim abençoar, Oxalá, xeu êpa babá! Oh, minha santa, me proteja, me alumia, trago no peito o rosário de maria. Sinto o perfume... Mel, pitanga e dendê, no embalo do xirê, começou a cantoria". Onde está Bethânia nessa porra.
Essa alegoria representa a família de Maria Bethânia, muito importante em sua formação musical

Para se redimir, na segunda parte da letra eles começam a citar várias músicas da intérprete baiana, mas isso não salva o enredo denominado "Maria Bethânia - A menina dos olhos de Oyá".

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A farsa das eternas promoções

Os jornais diariamente estampam que o Brasil está passando por uma crise econômica terrível, reflexo da situação mundial que é periclitante. Cidadãos com gravatas exóticas jogam em nossas caras que a inflação vai subir, que o desemprego vai aumentar e para os próximos anos o que nos espera é uma situação de miséria e vulnerabilidade que, agravada pela tensão política, inevitavelmente vai nos levar para uma guerra civil.

Ainda levará um longo caminho até que irmãos se matem em lados opostos da batalha. Até lá, o principal reflexo da crise econômica é a queda do consumo desenfreado. Com menos dinheiro, as pessoas precisam poupar suas economias para gastar com aquilo que realmente é necessário para a sobrevivência. Ao invés de comprar um helicóptero, o cidadão acaba comprando um jet ski. A bicicleta do filho mais velho vai ficar para o próximo aniversário. Não vai dar para comprar o décimo-quarto par de sapatos do mês. A Coca-Cola é substituída por Guaraná Dolly. A família vai precisar aprender a gostar de comer fígado e moela. Os dois caçulas vão ter que dividir o papelão na hora de se cobrir. Cada um se vira do jeito que dá e vender o próprio corpo em favores sexuais para subsistência não é uma boa estratégia, porque o mercado consumidor está economizando. O programa sexual vira uma punheta, apenas com a imaginação.

No entanto, o consumo crescente e o acúmulo de bens é a base do sistema capitalista. Se as pessoas param de consumir, menos dinheiro entrará em circulação e a recessão só aumenta. As pessoas precisam consumir. Nesse momento, entra a lei da oferta e da procura. Se muita gente procura por um produto, seu preço aumenta. Se poucas pessoas procuram por ele, o preço cai. O problema é que isso geralmente não ocorre aqui no Brasil. Se muita gente quer comprar carros, o preço deles duplica. Se as pessoas param de comprar, a indústria entra em crise e pede ajuda ao governo para manter sua margem de lucro anterior e aí entra os incentivos fiscais, os subsídios governamentais e se a procura aumenta o preço aumenta ainda mais numa grande bola de neve em que o consumidor sempre irá se ferrar.

Pois bem, uma das principais estratégias para vender um produto é colocá-lo em promoção. As promoções são amplamente adotadas pelo setor lojista brasileiro. E com a crise econômica de cada dia, essas promoções se transformam em uma rotina. Algumas promoções são simplesmente eternas e não acabam nunca.

Há aqui em Cuiabá, uma loja de móveis que anuncia que está em promoção há pelo menos quatro meses. Sua faixada estampa que existem descontos de 30, 40 e até 50% e que mais, são os últimos dias para aproveitar esses preços imperdíveis. Corra até dentro da loja para descobrir que um sofá com 50% de desconto está custando apenas R$ 6 mil. Essa loja, para mim, é o exemplo mais bem acabado dessas promoções eternas, que é claro, são uma farsa.

O consumidor geralmente não acompanha o preço de um produto durante um longo período. Namorando aquela televisão, até que seu preço chegue em um nível compatível com o seu orçamento e ela possa ser pendurada na parede da sua sala. Você sabe quanto custa uma televisão? Ainda mais dentro das suas múltiplas opções de polegadas, tecnologia e qualidade de imagem?

Anunciar que um produto está com 50% de desconto faz com que pareça ser uma loucura que ele não seja adquirido. Veja só esse sofá pela metade do preço, apenas R$ 6 mil. Pense. Seis mil reais é coisa para caralho. Doze mil reais seria um absurdo inimaginável e ninguém que tem um produto que custe isso, irá oferecê-lo com um desconto tão grande. Não faz o menor sentido abrir mão desse lucro, não é factível com o mundo dos negócios. Qual é a verdade então? O preço real do sofá é de R$ 6 mil, o que já é muito caro, e a promoção é apenas uma maneira de justificar esse preço, tentar torná-lo atrativo e trazê-lo para o mundo real.

Algumas lojas chegam a anunciar descontos de 70%, o que é inimaginável. Isso significa um Honda Civic sendo vendido pelo preço de um Gol. Um apartamento de 150 m² na área central da cidade por uma casa com menos da metade do tamanho na periferia. Isso simplesmente não existe.

Outra técnica muito utilizada é a de realmente dar 70% de desconto em um produto bem vagabundo, enquanto que os produtos bons saem com singelos descontos de 10% que já poderiam ser negociados em situações normais.

A estratégia dos “últimos dias” é ainda mais tola. Provoca aquela sensação de urgência é que preciso correr antes que o produto volte a custar o dobro do que ele está custando. Mas esses últimos dias podem durar anos. O maior exemplo é a Black Friday, que deveria ser apenas um dia de promoções, mas que acaba se transformando em um mês, em um estado de espírito.

Ainda há aquela promoção agregada, aquela em que na compra de um determinado produto você leva outro completamente inútil e que só irá proporcionar prazer material por alguns poucos segundos.

Desde o dia 28 de outubro eu já presenciei quatro promoções do estilo “corra-antes-que-o-mundo-acabe-e-você-passe-o-resto-dos-seus-dias-lamentando-não-ter-adquirido-esse-produto” em um shopping da capital. Araras nos corredores, adesivos nas vitrines. Tantos adesivos que eu tenho certeza que eles já se eternizaram por lá. Não confie nas promoções. Elas não vão acabar amanhã.