quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Última parada: Parantinga II

Abrimos um novo pacote de Skinny. Resolvemos antes de viajar que levaríamos toda nossa comida, pois não sabíamos se encontraríamos restaurantes abertos na cidade e isso impediria eventuais tentativas de envenenamento – a forma mais interessante, silenciosa e elegante de se livrar de alguém sem deixar provas profundas.

Refletimos se não deveríamos comer alguma coisa mais substancial, mas decidimos que pacotes de Skinny seriam suficientes para nos manter vivos durante a expedição. Pessoas sobrevivem na floresta por dias bebendo água, um panaca aí qualquer sobreviveu um mês comendo apenas no McDonalds, não deveria haver problema em passar pouco mais de um dia a base de um salgadinho de isopor.

Vesti minha camisa do mosquito da dengue, para alegria de todos. Imaginei que precisaria estar vestido de acordo para um momento especial como esse, mas não imaginei que este seria um dos erros que iriam nos levar para morte. Estávamos o tempo inteiro subestimando o potencial de união e vingança do povo da cidade.

Passamos o dia inteiro sentado na praça, enquanto um telão tocava “Metralhadora”, o novo hit do carnaval. Entre muitos trás, sentimos saudade do lendário Crazy Frog e ríamos do perigo que era uma música desse nome ser executada impiedosamente em uma cidade conhecida carinhosamente como Paranabala.

Vinícius comentou que talvez fosse melhor ser alvejado pela tal metralhadora do que escutar mais uma vez a vocalista esganiçada pedindo “faz solinho pra mim”. O violino elétrico tocando notas boçais aumentavam o clima de decadência da música. Chegamos a conclusão que, se o inferno existir, ele deve repetir esse solo de violino initerruptamente.

Comentei que a vida do violinista das Vingadoras deveria ser uma merda. Ninguém aprende a tocar violino para acabar em uma banda de axé. Aquele cara ali deve ter estudado muito Bach, Mozart e outros mestres da música clássica para acabar tocando um acorde repetitivo em uma música irritante de axé. Toda a noite esse cara deve chorar, comentei. Tackleberry completou que ele deveria chorar com o arco do violino enfiado no toba e foi comprar umas cervejas. Ao final da quinta cerveja, Tackle já dançava o hit do carnaval.

A noite foi chegando e a praça começou a se movimentar para o desfile de carnaval. Aproximadamente 600 pessoas já estavam por lá, o que deveria corresponde a metade da população da cidade e cada vez mais gente ia chegando. Notei que algumas pessoas nos olhavam com estranheza e desconfiança, mas não achei estranho. Já assisti filmes de faroeste e sei como os locais se sentem diante da chegada de forasteiros.

Às 20h, o desfile começou. O presidente da Liga das Escolas de Samba Local anunciou o começo do desfile e disse que era muito bom ver que após oito anos, o desfile voltaria a contar com três escolas: Caralho Pulsante, Boceta Nervosa e Cuzinho Apertado. “Desde que aqueles babacas de Cuiabá vieram aqui em 2007 e denegriram nosso carnaval, passamos por muitas dificuldades para arrumar patrocínios. Felizmente nesse ano nós estamos nos reerguendo. Os tempos de glória voltaram”. Foi aclamado pela população e eu pensei que talvez estivesse no lugar errado.

A Caralho Pulsante abriu o desfile com um enredo sobre o agronegócio. Durante quarenta minutos, os integrantes da escola passaram pelos 50 metros da avenida fantasiados de espigas de milho, de algodão, carregando produtos relacionados a soja e com constrangedoras fantasias de vacas. Como a escola não contava com tanto integrantes assim, dava pra ver que muitos davam a volta na praça e desfilavam novamente, às vezes com fantasias diferentes.

A escola recebeu aplausos comedidos. Ao que tudo parecia, todos os que estavam na praça iriam desfilar por alguma escola, exceção feita aos jurados, a uns casais se pegando de maneira quase explícita e a nós três. Isso deveria explicar por que cada vez mais nós éramos olhados de maneira estranha.

A Cuzinho Apertado finalmente entrou na pista e sua performance em nada lembrou a apoteose de 2007. Com o enredo “vem no batuque ioiô, vai no suingue iaiá”, a escola reuniu um amontoado de clichês carnavalescos e o desfile foi, acreditem, competente. Mais aplausos comedidos.

Quando a última escola, Boceta Nervosa, entrou na pista, a multidão começou a aplaudir. Achei estranho. Quando a música começou, eu reconheci: tratava-se do enredo “Paranatinga: Coração do Brasil”, o mesmo desfilado em 2007 e ao que tudo indica, repetido todo ano pela escola patrocinada pela prefeitura e todo ano campeã. Não me contive diante daquilo e comentei com Vinícius e Tackleberry “que merda”.

Funcionou com uma chave. Um cara de boné Oakley se virou para mim e gritou: “É Ele! O cara de camisa do mosquito! Esse outro cara aqui também!”. Tentei falar que não era nada disso não, mas logo outras pessoas começaram a gritar. “Eu sabia!”, “O povo daquele blog que fala mal da gente!”, “Vieram aqui de novo!”, “Palhaços”, “Como tem coragem?!”, “Vai morrer!”.

Tarde demais. Tentei correr, mas não consegui. Apaguei na primeira pancada que recebi na cabeça e acordei aqui, amarrado na praça de Paranatinga, esperando pelo fogo.

Nenhum comentário :