segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A farsa das eternas promoções

Os jornais diariamente estampam que o Brasil está passando por uma crise econômica terrível, reflexo da situação mundial que é periclitante. Cidadãos com gravatas exóticas jogam em nossas caras que a inflação vai subir, que o desemprego vai aumentar e para os próximos anos o que nos espera é uma situação de miséria e vulnerabilidade que, agravada pela tensão política, inevitavelmente vai nos levar para uma guerra civil.

Ainda levará um longo caminho até que irmãos se matem em lados opostos da batalha. Até lá, o principal reflexo da crise econômica é a queda do consumo desenfreado. Com menos dinheiro, as pessoas precisam poupar suas economias para gastar com aquilo que realmente é necessário para a sobrevivência. Ao invés de comprar um helicóptero, o cidadão acaba comprando um jet ski. A bicicleta do filho mais velho vai ficar para o próximo aniversário. Não vai dar para comprar o décimo-quarto par de sapatos do mês. A Coca-Cola é substituída por Guaraná Dolly. A família vai precisar aprender a gostar de comer fígado e moela. Os dois caçulas vão ter que dividir o papelão na hora de se cobrir. Cada um se vira do jeito que dá e vender o próprio corpo em favores sexuais para subsistência não é uma boa estratégia, porque o mercado consumidor está economizando. O programa sexual vira uma punheta, apenas com a imaginação.

No entanto, o consumo crescente e o acúmulo de bens é a base do sistema capitalista. Se as pessoas param de consumir, menos dinheiro entrará em circulação e a recessão só aumenta. As pessoas precisam consumir. Nesse momento, entra a lei da oferta e da procura. Se muita gente procura por um produto, seu preço aumenta. Se poucas pessoas procuram por ele, o preço cai. O problema é que isso geralmente não ocorre aqui no Brasil. Se muita gente quer comprar carros, o preço deles duplica. Se as pessoas param de comprar, a indústria entra em crise e pede ajuda ao governo para manter sua margem de lucro anterior e aí entra os incentivos fiscais, os subsídios governamentais e se a procura aumenta o preço aumenta ainda mais numa grande bola de neve em que o consumidor sempre irá se ferrar.

Pois bem, uma das principais estratégias para vender um produto é colocá-lo em promoção. As promoções são amplamente adotadas pelo setor lojista brasileiro. E com a crise econômica de cada dia, essas promoções se transformam em uma rotina. Algumas promoções são simplesmente eternas e não acabam nunca.

Há aqui em Cuiabá, uma loja de móveis que anuncia que está em promoção há pelo menos quatro meses. Sua faixada estampa que existem descontos de 30, 40 e até 50% e que mais, são os últimos dias para aproveitar esses preços imperdíveis. Corra até dentro da loja para descobrir que um sofá com 50% de desconto está custando apenas R$ 6 mil. Essa loja, para mim, é o exemplo mais bem acabado dessas promoções eternas, que é claro, são uma farsa.

O consumidor geralmente não acompanha o preço de um produto durante um longo período. Namorando aquela televisão, até que seu preço chegue em um nível compatível com o seu orçamento e ela possa ser pendurada na parede da sua sala. Você sabe quanto custa uma televisão? Ainda mais dentro das suas múltiplas opções de polegadas, tecnologia e qualidade de imagem?

Anunciar que um produto está com 50% de desconto faz com que pareça ser uma loucura que ele não seja adquirido. Veja só esse sofá pela metade do preço, apenas R$ 6 mil. Pense. Seis mil reais é coisa para caralho. Doze mil reais seria um absurdo inimaginável e ninguém que tem um produto que custe isso, irá oferecê-lo com um desconto tão grande. Não faz o menor sentido abrir mão desse lucro, não é factível com o mundo dos negócios. Qual é a verdade então? O preço real do sofá é de R$ 6 mil, o que já é muito caro, e a promoção é apenas uma maneira de justificar esse preço, tentar torná-lo atrativo e trazê-lo para o mundo real.

Algumas lojas chegam a anunciar descontos de 70%, o que é inimaginável. Isso significa um Honda Civic sendo vendido pelo preço de um Gol. Um apartamento de 150 m² na área central da cidade por uma casa com menos da metade do tamanho na periferia. Isso simplesmente não existe.

Outra técnica muito utilizada é a de realmente dar 70% de desconto em um produto bem vagabundo, enquanto que os produtos bons saem com singelos descontos de 10% que já poderiam ser negociados em situações normais.

A estratégia dos “últimos dias” é ainda mais tola. Provoca aquela sensação de urgência é que preciso correr antes que o produto volte a custar o dobro do que ele está custando. Mas esses últimos dias podem durar anos. O maior exemplo é a Black Friday, que deveria ser apenas um dia de promoções, mas que acaba se transformando em um mês, em um estado de espírito.

Ainda há aquela promoção agregada, aquela em que na compra de um determinado produto você leva outro completamente inútil e que só irá proporcionar prazer material por alguns poucos segundos.

Desde o dia 28 de outubro eu já presenciei quatro promoções do estilo “corra-antes-que-o-mundo-acabe-e-você-passe-o-resto-dos-seus-dias-lamentando-não-ter-adquirido-esse-produto” em um shopping da capital. Araras nos corredores, adesivos nas vitrines. Tantos adesivos que eu tenho certeza que eles já se eternizaram por lá. Não confie nas promoções. Elas não vão acabar amanhã.

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