quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fala que eu te interpreto

Na última quarta-feira, assim que o juiz Luís Antônio Silva Santos apitou o final da partida entre Vasco e Flamengo, válida pela semifinal da Taça Guanabara, o mundo ainda estava chocado. Todos ainda tentavam entender a façanha realizada pelo atacante Deivid. O seu nãogol ecoava pelo mundo inteiro. Profissionais do mais alto gabarito tentavam entender o que é que havia acontecido.

Foi nesse cenário kafkiano¹, que um repórter da Globo entrevistou o atacante Alecsandro, autor do primeiro gol vascaíno na noite. Ele perguntou sobre a vitória, a classificação e a quebra do jejum. O Vasco não derrotava o Flamengo há três anos. Alecsandro respondeu:
- Desculpa o passado, mas nesse ano em que eu estou aqui eu nunca perdi para o Flamengo. Nós havíamos empatados os outros três jogos. Então, eu ainda estou invicto.
- Taí o Alecsandro, dizendo que essa história de vice acabou – completou o repórter, devolvendo a transmissão para o narrador.

Observem a fala de Alecsandro. Ele bancou o fodão “ninguém-ganha-de-mim”, mas, em nenhum momento ele afirmou que “essa história de vice acabou”. O repórter interpretou isso porque quis.

Essa é uma situação comum no jornalismo. O repórter faz uma pergunta, já querendo induzir a resposta do entrevistado.
- Secretário, nos últimos anos os índices de violência na capital tem aumentado assustadoramente, provocando um completo clima de insegurança entre a população, não é mesmo?

O entrevistado, então, sai pela tangente, respondendo alguma coisa aleatória, para não se complicar.
- Veja bem, o nosso trabalho tem sido realizado com o objetivo de garantir um serviço de qualidade e a satisfação para a nossa população. Se ainda não conseguimos os resultados necessários, não foi por falta de trabalho. Mas estaremos sempre focados no nosso melhor.

O repórter volta e faz uma conclusão própria, que é o que ele gostaria que fosse respondido.
Deivid confirmou que é a favor
do aborto de gols
- Taí o Secretário de Segurança, afirmando que a situação é caótica.

O problema é quando os assuntos ficam mais sérios.
- E então, foi um claro caso de racismo?
- Veja bem, creio que a violência está instalada na sociedade, independente de cor.
- Ai está o professor, afirmando que negros merecem morrer.

- Você é favorável ao aborto?
- Acho que a lei prevê as situações em que isso é previsto e acredito que a lei deva ser aplicada.
- Taí, o candidato afirmando ser favorável ao aborto.

Pior, que depois a interpretação do repórter ganha os jornais, vira verdade e vai parar nas manchetes do jornal.
PROFESSOR AFIRMA QUE NEGROS DEVEM MORRER
CANDIDATO DIZ QUE É FAVORÁVEL AO ABORTO

E os outros repórteres passam a perguntar sobre o assunto.
- Professor, o senhor é racista?
- Candidato, o feto não é uma vida?

Tudo vai ficando pior, a opinião pública começa a se formar em cima da demência mental do repórter.
Claudia diz: “É um absurdo! Estamos em 2012 e um professor de uma Universidade Federal diz que é a favor de um regime de segregação racial! Ele é que devia ser segregado da sociedade! Imaginem os valores que ele está passando para os seus alunos! Cadê a justiça!”.

E tudo terminará em apedrejamento em praça pública.

¹ É plenamente possível que, na manhã seguinte, o atacante Deivid tenha se descoberto uma barata. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Busca do Brasil pelo Oscar

Pense bem. Tudo começou errado. O primeiro filme brasileiro que concorreu ao Oscar foi “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte em 1962. O primeiro de muitos fracassos de nossa nação no Oscar. Pense bem, se um filme de um cara que carrega uma cruz não ganhou o Oscar, nenhum outro jamais ganhará. Se o cara carregou uma cruz e perdeu, não vai ser escrevendo cartas que vai ganhar.

Nos anos 90, tivemos uma série de filmes que concorreram ao Oscar. A transmissão do prêmio ganhava ares de final de Copa do Mundo. Não tenho dúvidas que se “O Quatrilho” tivesse ganho, aquela vinheta de Brasil-il-il tocaria ao fundo. Mas, perdemos. Central do Brasil era um grande filme. Mas, havia um italiano ainda melhor. E Cidade de Deus? Tinha tudo para ganhar uma série de prêmios técnicos, mas perdeu todos. Já tivemos documentários, curtas-metragens, animações. Fracassos, fracassos, fracassos.

Carlinhos Brown foi recebido
com garrafadas
Ontem, o Brasil se uniu mais uma vez. Torceríamos por Carlinhos Brown – aquele que leva garrafadas em público – e Sérgio Mendes – que canta maravilhas sobre o Rio de Janeiro, morando em Los Angeles. Todos em busca do Oscar de melhor Canção Original, para a animação Rio (dirigida por um brasileiro, não foi sequer indicada ao Oscar, mesmo sendo uma das maiores produções do gênero em 2011).

O cenário era amplamente favorável. Havia apenas uma, uma concorrente, praticamente um mata-mata. Do outro lado estava uma canção bobinha dos Muppets. Enquanto que o nosso era um samba doido, tudo o que os gringos gostam. Era barbada para o Brasil. Não foi. Mais um fracasso. Sérgio Mendes e Carlinhos Brown se juntaram a Ary Barroso que também perdeu um Oscar de canção original em 1900 e bolinha.

Não descarto (mesmo que o Rene descarte), a hipótese de que tudo é um sadismo hollywoodiano. Eles sabem, sim, sabem que os brasileiros ficam iguais a um bando de babacas bovinos quando algum compatriota tem a chance de ganhar alguma coisa. Então, eles chamam os brasileiros para, só de sacanagem, dar um Oscar para um filme búlgaro.

Tanto é que Orfeu Negro ganhou o Oscar em 1959. Um filme falado em português, rodado no Rio de Janeiro e com atores brasileiros. Mas para os efeitos estatísticos é um filme francês, porque esta é a nacionalidade do diretor. “O Beijo da Mulher Aranha” também ganhou um Oscar, com um ator americano.

Sérgio Mendes permaneceu
em Las Vegas
A sacanagem é possível, porque não? O Martim Scorsese, por exemplo. Ele já concorreu a 400 Oscars, com uma obra-prima atrás da outra. Perdeu todas. Só ganhou uma vez, com “Os Infiltrados”, um filme de menor destaque em sua carreira. Provável que na única vez em que diziam que ele não era o favorito. É como se eles falassem “não importa o que você faça. Só vai ganhar quando nós quisermos”.

Os responsáveis pelos Academy Awards devem pensar “Vamos indicar o Scorsese, só de sacanagem. Só pra ver a cara de bunda dele quando ele perder para um filme retardado que custou 15 dólares”. Só isso explica.

O próprio caso da Meryl Streep. Ela concorreu ao Oscar 17 vezes e ontem ganhou pela terceira. Imaginem, ela perdeu 14 vezes. Por 14 vezes ela comprou um vestido bacana, caprichou na maquiagem e ficou sentada vendo os agradecimentos de outras atrizes. E o Peter O’Toole que foi nomeado oito vezes e perdeu todas? Eles chegaram à crueldade de nomeá-lo com quase 100 anos, para ele perder. Até o Nicolas Cage já ganhou e ele não.

Vejam bem, é uma posição bem confortável. Eu acho que eu faria o mesmo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Grandes dúvidas que não têm explicação (18)


Do que vive Eri Johnson?

Dizem as más línguas – algumas boas também, talvez – que Eri Johnson é um ator. De fato, sua biografia mostra que em 33 anos de carreira ele participou de 16 novelas, sete seriados, seis programas, três filmes e duas minisséries. Já atendeu pelo nome de personagens como Juca, Lulu, Casca, Zé da Feira, Tenorinho, Adilson Gaivota e Giácomo Freitas.

Mas, por trás destes nomes engraçados, a verdade é que Eri Johnson sempre interpretou apenas um papel: Eri Johnson. Mesmo que fossem personagens da mais alta complexidade. Ele poderia ser Deus ou um gari de reportagem do Bóris Casoy. Ele os interpretaria jogando bola na praia, desfilando por escolas de samba. Será assim se ele atuar como um indiano em Genebra. Mesmo que não existam praias em Genebra. Nem Escolas de Samba.

Uma espécie de Eri Johnson flagrada durante
acasalamento em seu habitat natural
Nenhum dos 34 papéis que ele interpretou em sua carreira foi marcante. Ninguém jamais disse “Nossa! Nossa! O Eri Johnson estava ótimo em Explode Coração”. Porque, de fato, ele sempre foi o coadjuvante brincalhão da praia. Assim sendo, mesmo tendo acumulado um bom número de atuações ao longo dos anos, nós temos a sensação de que Eri Johnson não trabalha faz tempo. (Até porque, interpretar personagens que vivem na praia o dia inteiro não parece nenhum trabalho).

Durante o carnaval a imagem de Eriovaldo (sim, esse é o nome dele) aparece ainda mais. Ele está onipressente nos estúdios da Globo comentando os desfiles das escolas de samba. Sempre parabenizando a garra que todas as comunidades desfilaram pela avenida. E ele desfila pelo Salgueiro. Seria como se o Mano Menezes comentasse a Copa do Mundo nos momentos em que não dirige o Brasil.

Ultimamente ele também exerce a nobre e essencial função de comediante de Stand Up. Imagino que ele faça sagazes observações sobre o cotidiano na praia, os adversários do futevôlei. Enfim, a união entre Eri Johnson e o Stand Up é a pior coisa que a humanidade viu desde a parceria entre Hitler e Mussolini. Mas é claro que tudo pode ficar pior. Eri Johnson fez um show de Stand Up no Big Brother. Milhares de crianças ficaram cegas quando isso aconteceu.

Podemos concluir, que Eri Johnson exerce a função de estereotipo do carioca. Quando o vemos, já imaginamos a Barra da Tijuca, mulheres sendo atoladas na areia e tudo mais. Agora, do que ele vive?

Provavelmente é do dinheiro que ele ganha com as novelas que ele faz interpretando ele próprio. Ou seja. Ele se interpreta para continuar sendo ele mesmo. Pelo jeito, o papel de carioca é requisitado pela mídia. E fisiológico para Eri Johnson.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Como você passou o carnaval deste ano?


O Carnaval. Uma data que não pode passar em branco, sob o risco de punição prevista na constituição. O CH3 foi às ruas para escutar o que o povo brasileiro andou fazendo, como ele caiu na folia.
Adriana Bombom caiu na folia
Carla Fonseca, benfeitora de Belo Horizonte: Eu e meu marido fomos para a Sapucaí, no camarote de uma multinacional do ramo alcóolico. O espetáculo é realmente lindo. Pena que eu via tantas pessoas sentadas na arquibancada, expostas ao vento, a chuva. Sonho com o dia em que todos os meninos de rua poderão assistir a este espetáculo em um camarote com champanhe.

André Roberto, paulistano de São Paulo: Eu estava preso no congestionamento da Serra do Mar. Fui para Santos no Réveillon e voltei de lá no dia 2 de janeiro. Na terça a tarde eu consegui chegar na Marginal Tietê. Ano passado eu só cheguei em São Paulo na Páscoa. Infelizmente, presenciei um tumulto na Marginal, com alta concentração de corintianos. Pensei que havíamos sido eliminados da Libertadores. Possuído por um sentimento de justiça, incendiei um carro alegórico.

Ítalo Camargo, comerciante de Salvador: Assisti a quarenta e oito shows da Ivete Sangalo e outros vinte e sete da Cláudia Leitte, peguei dois do Chiclete com Banana e metade de um do Asa de Águia. Passei pelo Barra/Ondina, Campo Grande e todos esses circuitos que ninguém entende. Eu vendo amendoim e sempre consigo um grande lucro nessa época do ano. Infelizmente, devido à falta de segurança, fui assaltado e levaram todo meu dinheiro embora. Antes eu fosse surdo.

Roberto Andrade, gari do Rio de Janeiro: Desfilei pela Sapucaí 13 vezes, limpando os papéis picados, garrafas de água e toda sorte de dejetos que os foliões despejam pelas avenidas. Contagiei o público com meu samba no pé e fui destaque em 18 matérias de televisão, cinco apenas no Jornal Hoje.

Bóris Casoy, jornalista de São Paulo: Com certeza meu carnaval foi melhor do que o dos garis. Esta sub-raça que ocupa a mais baixa função que um ser humano pode exercer.

Rafael Maia, jornalista de Recife: Peguei o plantão em todos os dias do carnaval. Fui cobrir o desfile de rua em vários pontos. Tentei várias vezes utilizar aquele truque da repórter de João Pessoa, pra ver se eu conseguia pegar alguém. Mas, não consegui. Jornalista só se fode mesmo.

Mulher Pêssego, mulher fruta do Rio de Janeiro: Fui madrinha de bateria de oito escolas de samba no Rio de Janeiro e de outras nove em São Paulo. Participei de vinte e nove blocos de rua pelo Brasil e ainda marquei presença em dezesseis camarotes. Para aguentar essa rotina, eu precisei seguir à risca a rotina estabelecida pelo meu personal.

Rafinha Bastos, comediante de São Paulo: Vocês viram a mangueira entrando no carnaval? Não viram? Estavam de costas?

Cão Leproso, cachorro sem braços de Cuiabá: Neste carnaval, eu me dediquei a presenciar o espetáculo proporcionado pelo carnaval do interior. Participei dos blocos de nomes duvidosos em Santo Antônio do Leverger. Presenciei a pegação desenfreada do carnaval de Livramento – infelizmente eu não peguei ninguém, porque não tenho braços. Desci a ladeira em Guiratinga, e todos elogiaram minha fantasia. Mal sabiam que eu estava nu. Também desfilei no Bode da Chapada e comi cachorro quente na Praça da Mandioca. Mas, nada, jamais será tão emocionante como o carnaval de Paranatinga. Um espetáculo único que ficará impresso em minha retina eternamente.

E, o carnaval de vocês, como foi?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Por onde anda: o clipe do Word

A vida não é fácil para um clipe de papel. Apesar de exercer uma importante função na sociedade contemporânea, sua existência quase sempre passa despercebida aos nossos olhos. Um clipe pode manter a união de um documento histórico de papel durante anos, até enferrujar e contaminar alguém com tétano. Ou, pode ser destruído rapidamente. A segunda opção é mais comum. Difícil entender porque, mas o clipe provoca um desejo latente de destruição na alma humana. Sua imagem é da impermanência.

I help Dead People
A vida de um clipe de papel sorridente, com olhos e sobrancelha é ainda mais difícil. É o caso do Clippy, que durante anos ocupou o cargo de assistente do Office da Microsoft. Sua existência foi marcada por ofensas aleatórias, tentativas de assassinato e infartos provocados. E o pobre clipe prosopopéico apenas queria ajudar.

Com a popularização dos computadores pessoais no final do século XX, mais pessoas passaram a ter acesso aos recursos que a modernidade oferecia. E como era de se esperar, mais pessoas começaram a fazer merda. Pensando nisso, Bill Gates resolveu montar uma equipe de profissionais gabaritados para ajudar as pessoas. Essa equipe tinha um cachorro, um gênio, um mordomo e, claro, o Clippy.

Líder da equipe, ele sempre se colocava a disposição dos usuários do Office. Estava sempre disposto a lhe dar um bom dia, dispunha de uma fidelidade canina. Teria tudo para fazer sucesso, ser uma celebridade. Mas, não foi assim. Sua voluntariedade irritava as pessoas. Se você colocava uma data no começo do texto ele perguntava “você está tentando escrever uma carta? Quer uma ajuda para escrever uma carta? Você sabe escrever?”. As pessoas acabavam por responder “vai a merda! Ninguém te perguntou”.

Mas o Clippy não se abatia. Ele continuava perguntando as suas razões, o porque você fazia aquilo, se você queria ajuda. Se você era um poeta, se você ingeria fezes, se você estava grávido. Ele pensava ser mais do que um ajudante, ele se sentia um psicólogo particular. As pessoas logo começaram a fechá-lo. E claro, para irritar ainda mais, ele perguntava se as pessoas realmente queriam fazer aquilo.

Uma pesquisa encomendada por Bill Gates em 2007, avaliou o desempenho do Clippy. Os pesquisadores constataram que ele era odiado por 97% da população mundial, que ele estava dinamitando o império de Bill Gates lentamente e que o consumo de fluoxetina triplicou no mundo, desde o advento do clipe.

Clippy acabou despedido. E teve um fim comum a vários clipes de papel do mundo.

Vala Comum de Clipes

Senadores resolveram criar um memorial em sua terra natal. Infelizmente, ele não possuía uma terra natal. Um triste fim.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Plantão da Globo

A musiquinha. Maldita música, macabra música que marcou nossa infância, nossa juventude. Você podia estar em qualquer lugar da casa, do mundo. Quando aquela musica do Plantão da Globo tocava, você ficava paralisado. Sentia aquele frio na barriga. Ia para frente da televisão para saber o que aconteceu. Provavelmente era algo marcante.

E não dava outra. Um avião caiu. Sempre que tocava a música do plantão, era certeza que um avião tinha caído. Mortes, destruição. A música tocava novamente. A família se postava pálida diante da televisão para saber que desgraça havia ocorrido. Incêndio em um prédio. Muitos mortos. Pessoas pulando do alto do prédio. Pulando para a morte diante das câmaras em um espetáculo mórbido.

Informações desencontradas. Não se sabe quantas pessoas morreram. E tão ruim quanto a vinheta era aquele barulho do helicóptero. O som das hélices do helicóptero, aquele apito surto ao fundo é a trilha sonora da tragédia. É a trilha sonora do inferno. Aquelas imagens distantes da tragédia. Você não sabia o que acontecia. O jornalista não sabia o que dizer. Ficava aquela indefinição de imagens pouco esclarecedoras, pouca informação a ser dada, e a família seguia pálida diante da indefinição. Palpites, palpites de quatrocentos mortos, muita desgraça.
Ainda não sabemos o número de mortos

Agora estamos em 2012. A música do plantão toca. As lembranças de um passado recente gelam a espinha. A adrenalina aumenta, o coração dispara. A sua cabeça traz de volta as lembranças dos plantões passados. Os Mamonas Assassinas morreram de novo, pensa. A música acaba, aquele interminável segundo de silêncio que precede o apocalipse. E o repórter anuncia: “Saiu neste momento o resultado do julgamento de Lindenberg Alves”. Frustração.

A música do plantão não é mais o sinal iminente da tragédia. Não é mais a personificação das trombetas do apocalipse. A queda de um ministro é motivo para a entrada de um plantão. Um ministro, apenas. Não, ele não caiu junto com seu avião. Apenas foi exonerado. Frustração.

Difícil entender os motivos da banalização do plantão. Mas a minha aposta está nos Ring Tones. As múltiplas possibilidades de se conectar um moderno aparelho celular a um computador – cabos USB, infravermelho, Bluetooth, blueray, megahair – transformaram a tarefa de escolher o seu toque de celular.

Se antes você era escravo das opções oferecidas pelo seu modelo, hoje você escolhe a sua música. E é claro, que diversas pessoas teriam a brilhante ideia de utilizar o tema do plantão. Assim sendo, a outrora nefasta composição deixou de fazer parte apenas do imaginário popular, reduzida ao anúncio de uma tragédia. Ela passou a fazer parte do nosso cotidiano, podendo significar apenas uma ligação do seu chefe.

Provável que essa passividade rotineira tenha contaminado a Rede Globo de Televisão. Acostumados a escutar a canção em todo e qualquer momento, os editores se esqueceram do passado catastrófico do plantão, gerando a banalização completa. Não se fazem mais tragédias como antigamente.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Grandes Letras Clássicas da Música Brasileira (VI)

Marchinhas de Carnaval
Até onde essa série chegará? Até o número XLV? DCCC? Até onde minha capacidade de escrever algarismos romanos chegar.
O carnaval está chegando. É incrível como o carnaval chega todos os anos. Ele nunca falha. Ninguém jamais diz, pesaroso, “Me lembro aquele verão de 1943… quando o carnaval não veio”. Junto com o carnaval, aparecem as Marchinhas de Carnaval. Fico arrepiado com a coincidência de as Marchinhas de Carnaval sempre serem tocadas durante o carnaval.

E bem, Marchas de Carnaval não são iguais às Marchas da Maconha. Na Marcha da Maconha o pessoal toca Redemption Song. Já as marchinhas de carnaval são músicas de temas surreais e de difícil compreensão. Analisar o seu conteúdo é um profundo exercício antropológico, um passeio pelas inquietudes iconoclastas do âmago humano.

Allah-la-ô
Allah-la-ô, ôôô, mas que calor. Atravessamos o deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara.

Um bando de irresponsáveis resolveu atravessar o deserto do Saara, sem a utilização de protetor solar e queimaram a cara. É de se admirar que eles não tenham morrido de sede. O grupo parece se surpreender com o fato de o sol estar quente. Resolvem então, pedir proteção divina para Alá. Peraí, o que isso tem a ver com o carnaval? Oras, é uma metáfora para o sexo sem proteção, uma constante carnavalesca.
Que ótimo lugar para uma rapidinha

Cachaça
Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não. Cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão.

Tá certo que o pessoal entorna todas no carnaval. Mas, imagine a condição alcoólica do sujeito que passa a confundir cachaça com água.

A Jardineira
- Ó jardineira porque estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? 
- Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.
- Vem jardineira, vem meu amor. Não fiques triste que este mundo é todo seu. Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu.

A coitada da jardineira passa por um momento de enorme frustração profissional. As flores, que ela tão bem cuidava, não resistem a um vendaval e morem. Um homem aparece na história e passa uma cantada furada, como se fosse uma espécie de ombro amigo. Cantadas furadas fazem parte do universo carnavalesco.



Cabeleira do Zezé
Um dia, Zezé voltará.
Para a vingança.
Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é? Será que ele é bossa nova? Será que ele é Maomé? Será que ele é transviado? Mas isso eu não sei se ele é. Corta o cabelo dele!

Nos tempos atuais, esta canção seria banida das rádios. Primeiro, porque o sujeito conhecido vulgarmente com Zezé sofre uma clara tentativa de Bullying. Podemos escutar as risadas das pessoas por conta do seu cabelo. Segundo, porque sua condição de homossexual faz com que os interlocutores demonstrem toda a sua homofobia. E, terceiro, num claro ato de violência contra a liberdade individual, às pessoas propõe que o cabelo do Zezé seja cortado a força, como se isso pudesse transformá-lo em homem. Quem escreveu essa porra, o Bolsonaro?

Mamãe Eu quero

Mamãe eu quero mamar. Dá a chupeta pro bebê não chorar. Dorme filhinho do meu coração, pega a mamadeira e vem entrar pro meu cordão. Eu tenho uma irmã que se chama Ana, de piscar o olho já ficou sem a pestana

A letra é uma metáfora para o sexo oral, capaz de fazer inveja às ambições literárias do grupo Raça Pura, autor de O Pinto (Nota: aquele que fugiu com a galinha da vizinha).

Máscara Negra
Quanto riso oh quanta alegria. Mais de mil palhaços no salão. Arlequim está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão.

Eu não sofro de coulrofobia, mas, convenhamos que mil palhaços em um salão não é nenhum motivo para alegria. Portanto, o autor coloca em prática toda a sua visão irônica da superlotação das festas de carnaval. Ele queria dizer “Que merda heim! Mais de mil idiotas nesse salão, se espremendo em uma micareta ruim”.

Quanto a eterna celeuma que envolve Pierrô, Colombina e Arlequim, eu tenho uma solução simples: três balas. Uma na testa de cada um.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Guia Ofensivo dos Estados, Parte 1

Baseado no já famoso Guia Ofensivo das Profissões, o CH3 lança agora o seu Guia Ofensivo dos Estados Brasileiros. Um guia que contém toda a informação estereotipada e preconceituosa sobre os 26 estados, mais o Distrito Federal de nosso país. Todo aquele pensamento maldoso que mexe diretamente no bairrista dentro de você.

Como o Guia ficou deveras extenso, afinal, são 26 estados e um Distrito Federal, resolvemos dividir o Guia em duas partes. Ou seja: se o seu estado não está listado abaixo, ele estará sendo humilhado na próxima edição.

Alagoas: Todo Estado nordestino passa uma imagem de viver sob uma espécie de ditadura de um coronel, figuras proeminentes da política. Em Alagoas, nós temos Fernando Collor e Renan Calheiros como máximos expoentes. Logo, imaginamos aquela sociedade envolta pela corrupção.

Amazonas: Uma terra de índios. Para fazermos amizades com os nativos locais, basta chegar com um conjunto de panelinhas e espelhos e falar algumas palavras em tupi-guarani. Logo, eles irão pintar seu rosto de vermelho e colocar um cocar em sua cabeça.

Tragam os espelhinhos
Bahia: No caso da Bahia, a ditadura regente é a da família de ACM, mesmo que ele tenha morrido faz uns 10 anos. Na Bahia, também há um carnaval eterno onde artistas do nível de Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Asa de Águia e Chiclete com Banana se revezam no palco. Também temos a figura do baiano preguiçoso, de fala mansa, dedicado a contemplação do ócio, personificado na figura de Caetano Veloso.

Espírito Santo: O Espirito Santo é o Estado mais coadjuvante de nossa nação. Uma extensão do Rio de Janeiro, ou de Minas Gerais, ou ainda da Bahia. Terra de um povo sem personalidade, multi-influenciado e sem nenhum fato para deixar para a prosperidade. Nem piadas preconceituosas.

Goiás: Em Goiás, meninos e meninas estudam em colégios separados. As meninas aprendem tudo sobre traição conjugal, enquanto que os meninos tem aula de violão, canto e composição de música sertaneja. Depois, é só esperar que a vida some os fatores. Goiás também pode ser a terra dos X-men nacionais, graças ao acidente com o Césio.

Mato Grosso: Informe publicitário: “Visite o Mato Grosso do Norte, uma verdadeira aventura. Veja in loco a convivência de uma sociedade primitiva ao lado de onças, cobras, jacarés e outros animais selvagens. Tudo isso sobre o agradável calor propagandeado pelo Jornal Nacional. Confira!”.

Mato Grosso do Sul: A única função do Mato Grosso do Sul, é ser confundido com o Mato Grosso do Norte.

Minas Gerais: 97% do PIB de Minas Gerais é constituído da produção de queijo, goiabada, doce de leite e feijão tropeiro. Devido aos hábitos alimentares da população mineira, que come queijo, goiabada, doce de leite e feijão tropeiro o tempo todo, mineiros devem ser bem obesos. Até porque, eles passam o tempo inteiro na beira da estrada, passando informações erradas sobre e qualidade das estradas.

Pará: No Pará, todas as pessoas vestem roupas bizarras e tocam teclados bregas. Uma Lei Estadual obriga a execução permanente de músicas da Banda Calypso. Quando Chimbinha aparecer na sua frente, ajoelhe e peça perdão pelos seus pecados.

Sempre quis dar uma rasteira
em um desse
Pernambuco: Em Pernambuco existe um sistema de autofalantes públicos, que reproduzem incessantemente uma trilha sonora de frevo. Eu pelo menos, nunca vi uma matéria sobre Pernambuco que não tenha o frevo como trilha sonora. A população pernambucana pode ser dividida em duas categorias: aqueles que fazem passos exóticos de frevo segurando guarda-chuvinhas e os que se equilibram sobre pernas de pau, incorporando os bonecos de Olinda.

Rio Grande do Sul: Lá, nós podemos encontrar homens e mulheres sedentos por sexo. Sexo com outros homens, que vestem bombachas e chupam, digo, tomam chimarrão.

Sergipe: Devido às condições geográficas, podemos considerar que o Sergipe seja o outro lado do espelho de Alagoas e vice-versa.

Tocantins: Convenhamos, ninguém se lembra que o Tocantins existe. Ninguém jamais parou para pensar no que existe no Tocantins. Metade da população brasileira ainda acredita que ele não tenha se separado de Goiás.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por Onde Anda: Tonho da Lua


A reexibição da novela Mulheres de Areia, sucesso de crítica, público, política e religião no começo dos anos 90, trouxe a tona o lendário Tonho da Lua. Um dos mais carismáticos personagens da teledramaturgia nacional, quiçá mundial, em todos os tempos. Em todos os lugares as pessoas se perguntavam: “por onde ele anda? Amávamos o tanto, porque esquecemo-lo?”.

O jovem Antônio da Lua sempre foi um garoto diferente. Enquanto todos os seus colegas jogavam futebol nas praias de Pontal da Areia, ele preferia ficar sentado em um canto, balbuciando palavras e matando moscas imaginárias. Ainda muito novo, ele presenciou um fato que o marcou para sempre. O assassinato do seu pai, que foi empurrado do alto de umas pedras pelo maléfico pescador Seu Donato.

da Lua continua meio retardado
Única testemunha, Tonho não foi levado a sério por ser considerado retardado. Seu Donato ainda se transformou no padrasto de da Lua. Tonho era constantemente humilhado, principalmente por seu estranho hábito de comer as próprias fezes. O maléfico pescador não era fácil. Ele estabeleceu uma verdadeira ditadura entre os pescadores, promovendo a pobreza e o descontentamento geral. Em uma análise sensata, Seu Donato pode ser considerado a reencarnação de Hitler e Rasputin, um anticristo.

Criado solto, Tonho da Lua se converteu num verdadeiro Louquinho de Bairro. Levava uma vida bucólica, diria que uma vida de merda. Passava o dia sob um sol escaldante construindo esculturas de areia que seriam destruídas por Raquel, a gêmea maléfica. Ele nutria uma paixão não correspondida por Ruth, a gêmea boazinha, que, para seu azar, preferiu namorar alguém que não fosse considerado retardado.

No entanto, todo esse lado simpático, diria até, pueril, tinha uma face oculta. Tonho era um psicopata. Passava boa parte dos seus dias planejando os assassinatos de seus inimigos. Também tentava enganar as pessoas. Chegou a ser internado em um hospício, mas, devido ao seu lado boa praça e a ineficiência dos sanatórios brasileiros, ele foi liberado.

Quando a exibição da novela acabou, seus inimigos todos haviam morrido – sabe como é, vilões sempre morrem. Ruth se casou e provavelmente foi embora para um lugar melhor do que Pontal da Areia e longe de da Lua dizendo “Rutinhaaaaaaa ahhhh”.

Da Lua se entregou ao álcool, famoso escape para os amores fracassados. Continuou fazendo esculturas de areia que as pessoas diziam que eram bonitas, apenas para agradá-lo. Casou-se com Carolina Dieckmann, sabe-se lá como, compondo o casal consagrado como o mais chato do Brasil. O casamento ruiu porque Tonho preferia continuar namorando suas esculturas de areia, em um fetiche sórdido.

Com a aprovação da cartilha do politicamente correto, durante o Governo Lula, Da Lua processou todos aqueles que o chamavam de retardado. Para seu azar, a cidade de Pontal da Areia não existe em nenhum órgão oficial do governo, o que fez o processo se arrastar. Por várias vezes ele fez manifestos na frente da sede do STF, pedindo ajuda de Ruthinha. Que nunca voltou.

Os médicos não viram outra solução para o seu caso. Em 2008, optaram por uma lobotomia não consentida em Tonho da Lua. Hoje, ele mora no fundo de uma casa de pescadores. Fica o dia inteiro olhando para um ponto vazio e as pessoas conversam com ele como se ele fosse uma criança. Um triste fim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Grandes Letras Clássicas da Música Brasileira (V)


Wando

Você queria bom gosto na foto?
Hoje o Brasil amanheceu mais triste. A voz responsável por embalar tantos romances suados e gostosos se calou para sempre. Morreu Wando, o último romântico, o último amante. Junto com Wando, descansam as calcinhas, outrora atiradas ao palco. Chora um povo que não sabe mais como se amar. Wando Morreu, mas sua obra continuará imortal, intocável. Todos nós estamos sofrendo.

Dono de uma obra ímpar no cancioneiro popular brasileiro, Wando possuía (e como) um repertório vasto. Em seus versos, ele retratava as agruras do homem trabalhador em busca da paixão. Objetivo jamais atingido, porque o homem é um animal insaciável, incontrolável. Sua dor conversava diretamente com o público masculino. Sua dor comovia as fêmeas, que sonhavam com um macho assim. Seu público é amplo e impossível de ser segmentado ou contabilizado. Ele cantava diretamente para todos que tinham um coração batendo sofregamente no peito. A seguinte análise das canções é uma tentativa de compreender este universo inesgotável.

Fogo e Paixão
“Você é luz. É raio estrela e luar. Manhã de sol. Meu iaiá, meu ioiô. Você é ‘sim’ e nunca meu ‘não’. Quando tão louca, me beija na boca, me ama no chão. Me suja de carmim. Me põe na boca o mel. Louca de amor. Me chama de céu. Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! E quando sai de mim, leva meu coração. Eu sou fogo, você é paixão”.

Fogo e Paixão é a Magnun Opus do cantor, a música pela qual ele será reconhecido eternamente. Pesquisas comprovam que a venda de calcinhas nas lojas triplicava nos minutos seguintes a execução da canção nas rádios populares. Afinal, que mulher resiste a ser chamada de luz, raio, estrela e ainda luar? Se fosse só luz, ou raio tudo bem. Mas até estrela e luar? A letra sugere práticas pouco ortodoxas de sexo. No chão, sujos em corantes e com ioiôs. Há, inclusive, uma sugestão de fio-terra na parte em que Wando lamenta o momento em que sua amante “sai dele”.

Aquele amor que faz gostoso me deixou
“Eu era tão feliz. Eu tinha um grande amor, que um dia foi embora, só deixou saudade. Agora quem eu sou? Não teve dó de mim e isso dói demais. De dia eu chorei, de tarde eu penei, de noite não tem mais. Eu já tentei mudar, fazer com outro amor. Mas juro que estranhei, gozar, eu não gozei, meu mundo acabou. Ô uô uô uô uô uô uô------ô, aquele amor que faz gostoso me deixou”.

Vejam vocês, até o deus do amor Wando esta sujeito a sofrer com um pé na bunda, igual a qualquer outro. Essas fragilades traziam traços humanos a sua personalidade e o aproximavam de seus súditos. Wando aborda também assuntos tabus, como a disfunção erétil. A desculpa é a falta de costume com outras mulheres.

Deixa eu te amar
“Quero saciar a minha sede no desejo da paixão que me alucina. Vou me embrenhar nessa mata só porque existe uma cascata que tem água cristalina. Aí então vou te amar com sede, na relva, na rede, onde você quiser. Quero te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher. Deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro. Na beleza desse teu olhar, eu quero estar o tempo inteiro”.

Outra viagem através das perversões sexuais de Wando. Seu fetiche em tirar a virgindade de suas amantes e o gosto por mulheres peludas. Mas, não se esqueçam, estávamos nos anos 80 e isso era normal. Mas, a mulher em questão era tão peluda que ele falava em se embrenhar na região, em busca de um golden shower, um hábito repugnante e absolutamente doentio. Nota-se o gosto de Wando por sexo no chão.

Moça
"Me Perder nos Seus Cabelos"
“Moça eu sei que já não é pura, teu passado é tão forte pode até machucar. Moça, dobre as mangas do tempo jogue o teu sentimento todo em minhas mãos. Eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder”.

O drama e o prazer do romance com uma mulher que não se depila voltam a ser o gancho do refrão, mesmo com o medo de se perder. Será que sua amante era o Floquinho? O fetiche pela virgindade volta a aparecer. Mas é algo difícil quando você namora uma prostituta.

Chora Coração
“Um amor quando se vai, deixa a marca da paixão feito cio de uma loba. Feito uivo de um cão, é feitiço que não sai, dilacera o coração. É um nó que não desmancha, é viver sem ter razão. Chora, coração, chora coração, passarinho na gaiola, feito gente na prisão”.


Passional, Wando deixa claro que um amor não acaba facilmente. Alguém tem que morrer, deixando as marcas de sangue pelo caminho, dilacerando o coração. Depois, ele fala sobre a culpa pelo crime cometido, pela falta de razão. Sobre o crime, ele tem duas lamentações: ser preso e a abstinência sexual, traduzida sutilmente na metáfora do passarinho na gaiola.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Guia CH3: Como popularizar o futebol nos Estados Unidos

Ontem foi o dia do Super Bowl. O maior evento midiático do planeta, que, por um acaso, tem um jogo de futebol americano no meio. Pensei em explicar a existência desse evento, mas percebi que seria meio difícil. A começar pelo fato de que os americanos chamam de “football”, um esporte que é praticado essencialmente com as mãos durante 95% do tempo. Bizarro, igual os americanos.

Os esportes prediletos dos norte-americanos são o basquete (raro exemplo de esporte praticado em outros países normais), o baseball (aquela bizarrice de pessoas correndo aleatoriamente), o hóquei (uma espécie de luta livre com dois gols) e o já citado football. O nosso futebol tem poucos adeptos por lá. Mesmo com algumas tentativas de divulgação, ele permanece sendo considerado um esporte de mocinhas e mexicanos vagabundos.

A partir da observação dos esportes norte-americanos mais populares, nós podemos pensar em algumas alternativas que ajudariam a popularizar o futebol de verdade naquele país sórdido. Todos nós sabemos que o nível de confiabilidade de um país é medido através da sua capacidade de jogar bola.

Marcos Assunção, quarterback do Palmeiras
O Super Bowl, por exemplo. O esporte é o que menos importa ali. A partida mesmo, é um jogo disputado por dezenas de pessoas, sendo que apenas uma pensa, o quarterback. Ele é o responsável por lançar bolas e conduzir o time, enquanto os outros jogadores ficam se batendo. Um bom quarterback ao lado de um grupo de dementes mentais poderia ganhar um campeonato.

A atração mais importe fica no resto do tempo. Dois terços da transmissão são ocupados pelo grande show do intervalo, com algum astro internacional, e com as propagandas. Propagandas ótimas, feitas especialmente para esta data. O único momento do ano em que os publicitários conseguem pensar.

E aí está. A primeira coisa a mudar no futebol, para que ele conquiste o público americano, é o seu formato. São dois tempos de 45 minutos, sem nenhuma parada oficial e apenas 15 minutos de intervalo. Quase não há tempo para as propagandas. Se o jogo for disputado em quatro tempos de 20 minutos, com 15 minutos de intervalo entre cada um, já será um avanço.

Além dos intervalos, os esportes americanos têm paralisações rápidas durante o jogo. Um tempo para o técnico, para armar uma jogada. Pequenas interrupções de um minuto, a cada cinco minutos de jogo, para que o americano médio possa pegar uma pipoca e uma cerveja, se fazem necessárias. Aliás, é melhor que o tempo seja contado na regressiva.

Americanos são viciados em estatísticas. O beisebol tem uma centena delas. O jogador que mais rebateu bolas para fora do estádio, aquele que mais pagou flexões enquanto a bola estava no ar, antes de dar um bico na barriga daquele cara fantasiado de tartaruga ninja. O basquete também tem as suas de assistências e rebotes. E o futebol?

O futebol tem pouquíssimas estatísticas individuais. Apenas os gols são divulgados com ênfase. Falta estatística para o gols estadunidense. O jogador que cobrou mais laterais, o que realizou mais dribles. Imaginem os narradores norte-americanos vibrando “uou! Ele conseguiu um gol, uma assistência, um drible e uma roubada de bola! Pontuou nas cinco estatísticas majoritárias! Uou My God!”. O milésimo drible teria a mesma importância do milésimo gol.

A dinâmica do jogo também pode e deve ser alterada. Todos os esportes americanos têm tempos limitados para os ataques das equipes. Não há como um time tocar a bola eternamente, em busca de um 0x0. Poderíamos aproveitar esse tempo de cinco minutos antes das propagandas. O time teria cinco minutos para fazer um gol. Caso o contrário, o adversário teria um pênalti a seu favor, mais a posse de bola.

Isso também ajudaria a aumentar o placar das partidas. Americanos não entendem como é que um jogo pode terminar 1x0. Estão acostumados com os 33x26 do futebol americano, 112x98 no basquete, 6x4 no beisebol. No novo formato, os jogos poderiam terminar 14x12, porque não? Outra estratégia, seria adotar aquelas regras infantis. Rebatida vale dois, bateu na trave e entrou vale três. Criaria toda uma emoção. “Agora, para ganhar a partida, o Palmeiras precisa de um gol de rebatida com a bola batendo na trave!”. Bem, sendo o Palmeiras, é claro que isso não aconteceria.

O incentivo político também pode ser importante. Para isso, nada melhor do que agradar as leis norte-americanas. Os juízes teriam poderes ilimitados. A qualquer momento do jogo ele poderia decidir que aconteceu uma falta. Se um jogador tem que ser expulso, preso, deportado para Guantánamo, acusado de conspiração e colaboração com os terroristas comunistas. Sem justificativa na súmula.

E ao invés do exame antidoping, dois jogadores de cada time teriam seus iPods confiscados. Se forem encontradas músicas baixadas ilegalmente, o jogador é preso, o time rebaixado e o Julian Assange recebe um tapa na nuca.

Outras idéias poderiam ser colocadas em ação. Os jogos poderiam ser disputados em campos ovais. Os jogadores poderiam derrubar seus adversários no chão, antes de acertar a bola na cesta com um pedaço de madeira. Sabe como é, o mercado americano é importante.
E cheerleaders, claro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Chupem!


Padre Lanza desceu do carro revoltado. Estava tão ferozmente exaltado que as pessoas a sua volta começaram a chorar em posição fetal. Da sua boca escorria a baba espessa e bovina dos possessos. Tudo por que alguém havia encostado na maçaneta do seu carro. Algo tão sério, que o único paralelo possível seria a maçã comida por Adão e Eva. Infelizmente, a fábula do fruto proibido é ficcional, portanto, nunca existiu nada mais grave do que encostar no carro do Padre.

Ele então perguntou quem havia feito aquilo. E resolveu ter um papo de 20 anos com o criminoso. O papo não cumpriu o tempo esperado e durou menos de 10 segundos. Não se sabe o que eles conversaram. Talvez, realmente seja melhor não saber. Ainda voltando para o seu sacrossanto carro, Lanza diz “Chupa o meu cu”.

Pare para pensar. Provavelmente, em sua vida inteira, você jamais escutou uma ofensa menos heterossexual do que esta. Dizem que os palavrões virilizam uma conversa, este não é o caso. Se você está numa discussão e alguém lhe diz “chupe o meu cu”, o que você sentiria? Desde, é claro, que você não seja um grego. Você ficaria mais constrangido do que ofendido. E o ofensor? O que raios ele quer querendo que alguém chupe o toba dele?

A tentativa fracassada de Pernambuco Lanza em ofender alguém é o reflexo de um tempo. Sim, de uma era. As ofendas mudam com o passar do tempo. Houve uma época que nada era pior do que chamar alguém de excomungado. Ou de herege. Ou mandar alguém para o diabo que o carregue. Na época em que a peste negra dizimava a Europa, chamar alguém de peste era uma ofensa tremenda.

Nesta mesma época, mandar alguém tomar no cu deveria ser insólito. “Meu amigo, como assim? Vou tomar o que?”. Banana, ovelha, Roberta, panaca, déspota, disgramado, Bacuri, tampinha, filho da puta, Economista Europeu, engolidor de caralhos, viadasso ou fonema foram ofensas mortais.

Atualmente, nada é pior do que mandar alguém chupar, vai saber o que. Um limão, uma manga, uma uva, um pau, um cu. O fato é que a qualquer momento você vê as pessoas gritando “Chupa”, nas ruas chuvosas, casas no campo de sapê e demais lugares.

Chupem!
Quando um time de futebol ganha uma partida, você vê os ganhadores gritando “Chupem!”. E não, eles não mandam os perdedores chuparem. Eles mandam qualquer cidadão no mundo chupar. Torcedores de times que nem participaram dos jogos, pessoas que estavam dormindo. Todos devem abaixar a cabeça e chupar o vencedor.

Quando alguém passa no vestibular, a pessoa saí por aí gritando “Chupem”. Quem deveria chupar? Boa pergunta. Quando alguém estaciona o carro em uma vaga apertada, desce do carro vibrando e gritando “Chupem, Manés!”. Quando alguém amarra os cadarços corretamente, logo manda um “Chupem”.

No fundo, imagino que quem deva chupar seja a sociedade. Que sempre duvidou do enorme potencial do cidadão. Diante da pressão de não conseguir fazer o nó da gravata, e da superação da tarefa, o cidadão logo diz “Chupem! Chupem todos vocês que achavam que eu jamais iria conseguir”. É um misto de egocentrismo megalômano.

Assim sendo, Pe Lanza é apenas um reflexo de seu tempo, tempo que ele simboliza. O que significa que é uma merda de época. Chupem, otimistas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Já fomos mais inteligentes


Avaliações sobre a inteligência da humanidade ao longo dos tempos.

Este blog já foi mais inteligente
“Uma pessoa que ninguém conhece vira uma celebridade na mídia só porque o nome apareceu milhões de vezes na internet. Luíza já voltou do Canadá. E nós já fomos mais inteligentes” – Carlos Nascimento, apresentador do Jornal do SBT em 2011.

“Milhões de pessoas tem seus computadores pessoais danificados porque acreditaram em um e-mail anônimo com mensagens românticas. Eu te amo. E nós já fomos mais inteligentes” - Karuru Shussan, engenheiro japonês em 2001.

“Um bordão sem sentido é repetido aleatoriamente por milhões de pessoas apenas porque um personagem secundário de novela o repete em qualquer situação. Jamanta não morreu. E nós já fomos mais inteligentes”. – Carlos Nascimento, apresentador do Jornal Hoje em 1999.

“Pessoas utilizam ombreiras sem qualquer motivo aparente, ou qualquer justifica plausível. Estamos nos anos 80. E nós já fomos mais inteligentes” - Carlos Nascimento, estilista em 1988.

“Um grupo de cabeludos britânicos faz sucesso no mundo inteiro com um monte de canções que não fazem o menor sentindo. Os Beatles querem apertar a sua mão. E nós já fomos mais inteligentes”, - Carl Birth, apresentador do News of the World em 1964.

“Elegemos um presidente que se ocupou com medidas de enorme importância, como a proibição de desfile de biquínis e menos de oito meses depois ele renuncia ao cargo, abrindo espaço para um golpe militar. Forças terríveis tramavam contra o mandato de Jânio Quadros. E nós já fomos mais inteligentes” - Carlos Nascimento, apresentador da TV Tupi em 1961.

“Hitler resolveu matar judeus por acreditar que eles pertencem a uma raça inferior. O trabalho liberta. E nós já fomos mais inteligentes” - Charles La Naissance, diretor do Le Monde em 1943.

“Vários norte-americanos entram em pânico por conta da transmissão de uma encenação de uma peça sobre o fim do nosso planeta, invadido por alienígenas. É a Guerra dos Mundos. E nós já fomos mais inteligentes” - Carlos Nascimento, apresentador da Rádio ABC em 1938.

“Uma Guerra Mundial é declarada apenas porque o arquiduque de um país secundário foi assassinado. A Primeira Guerra está acontecendo. E nós já fomos mais inteligentes”, - Carlz Geburt, arquiduque de Hamburgo em 1914.

Gráfico da inteligência nos últimos 30 anos
“Um livro sobre a história de um cidadão insignificante faz sucesso só porque ele é escrito depois de sua morte. Brás Cubas tem memórias póstumas. E nós já fomos mais inteligentes”, - Carlos Nascimento, redator do O Opinativo, em 1881.

“Um quadro com uma mulher feia que não tem nenhum detalhe excepcional é tratado como uma obra-prima. A Mona Lisa tem um sorriso enigmático. E nós já fomos mais inteligentes”, - Carlo Nascita, artista de Rua de Firenze em 1507.

“Os navegadores queriam chegar na Índia, erram o caminho e acabam descobrindo um novo continente. A terra está à vista. E nós já fomos mais inteligentes”, - Carlos Nascimento, ombudsman da humanidade em 1492.

“Uma cidade inteira é enganada e derrotada em uma batalha porque os guardas acreditaram que seus rivais estavam lhe dando uma escultura de presente. O cavalo de Tróia foi um presente de grego. E nós já fomos mais inteligentes” - Carlo Gennisis, filósofo grego em 1208 a.C.


“Uga Buga Cabuga Uga Guga Xuga. Paulada na Cabeça”. - Homem das cavernas que lamentava o declínio da humanidade em 50.000 a.C.