segunda-feira, 29 de setembro de 2014

E se o Orkut não acabar?

Como diria a filosofa Marli, não há para onde escapar, não há para onde correr. Senhoras e senhores, o Orkut vai acabar amanhã. O dia 30 de setembro de 2014 ficará marcado para a história como o último dia da existência deste mundo de sonho e fantasia. Quando setembro acabar e o vocalista do Green Day enfim acordar, todas as discussões, as 12 fotos, os constrangimentos, os coraçõezinhos que determinavam o quanto você era sexy, tudo estará demolido, apagado para sempre da história.
Como se esquecer desse e-mail? Receber um convite para entrar no Orkut era como ganhar na loteria.

O fato é consumado e você não poderá fazer nada contra isso. Como sempre, as grandes decisões são tomadas nos altos gabinetes, por executivos engravatados que nada entendem do sofrimento do povo na rua. Comendo hambúrgueres gourmets e tomando bons drinks, eles decidem o futuro da humanidade numa canetada sem medir as consequências. Por isso, contra burguês, vote 16.

A notícia do fim do Orkut provavelmente te levou até lá, caso você ainda não tivesse apagado todos os seus dados. Você viu seus depoimentos, percebeu que não recebe um scrap desde o seu aniversário em 2011 e que aquilo ali está mais abandonado do que rua de comercial de carro.

O que você talvez não tenha percebido, é que o fim do Orkut é mais ou menos como um fim do mundo. Sim, o fim da rosquinha azul é o mais próximo que chegaremos de sentir o que os dinossauros sentiram quando um meteorito caiu lá no Novo México. Pelo menos, até que um novo meteorito caía no Novo México, provocando o fim da humanidade.

Vocês sabem o que as pessoas fazem quando o mundo vai acabar, sim, sabem. Há uma música sobre isso que invariavelmente toca quando matérias sobre o assunto são feitas. Diante da notícia do fim da humanidade, as pessoas correm nuas pela rua, praticam pequenas e grandes contravenções, afinal, não haverá tempo para julgamentos. A humanidade inteira será dizimada.

O fim do Orkut, portanto, é uma ótima oportunidade de você agir loucamente sem ter que arcar com o ônus da consequência.

Comunidade da sua turma da faculdade no Orkut. Olha aí,
que bela oportunidade para cometer um crime
Imagino que nas últimas horas do Orkut, milhares de pessoas invadirão a página para deixar scraps inconsequentes. Eu sei que você entrará no perfil daquela sua colega de ensino médio e confessará os seus sonhos eróticos com ela. Que vai xingar o seu chefe, confessar os seus pecados. Viverá esse momento de libertação e expurgação dos seus demônios internos.

Mas e... e se o Orkut não terminar? Sim, conhecendo o humor do seu fundador, não podemos descartar a hipótese de Sérgio Mallandro ressurgir das cinzas anunciando uma pegadinha e que o Orkut na verdade não terminou, que era tudo uma estratégia de marketing para a venda de rosquinhas.

Aí sim amigos, aí sim teríamos um apocalipse. Quem conseguiria ir trabalhar no dia seguinte, encarar a rejeição da família e dos amigos?

Bem, acho que na verdade todo mundo. Diria que é provável que seu elogio a seios alheios feito no Orkut três anos atrás jamais tenha sido descoberto. Seus desabafos trabalhistas jamais foram vistos por ninguém. O Orkut já é uma cidade abandonada e, tal qual qualquer cidade abandonada, você pode andar nu por lá sem ninguém perceber. O Orkut chega ao fim e ninguém vai sentir sua falta. Triste realidade.

P.S: Em todo caso, o Google já anunciou que os usuários poderão fazer backups do seu perfil até o ano de 2016. E, todas as comunidades formarão uma espécie de museu virtual e este acervo poderá ser visitado, de alguma forma. Ótima oportunidade conferir quem comia quem naqueles joguinhos por lá.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Slogan & Jingle

Imagino que assim que o cidadão resolve se candidatar a algum cargo político, ele se reúne com sua equipe e define: precisamos de um slogan, precisamos de um jingle. Se o candidato não tiver um bom rótulo e uma música marcante, que grude na cabeça dos eleitores, ele estará fatalmente destinado ao fracasso.

O slogan não é muito difícil. Basta fazer uma pesquisa qualitativa para aferir quais são as palavras que os eleitores identificam nele. Lealdade, Amizade, Honestidade, Confiança, Trabalho, Força, Foco, Fé, No Pain No Gain, Compromisso, Luta, Liderança, Carinho, Amor, Sexo Casual, Família, Satanás, Coprofagia, enfim. Junte duas delas e mais uma palavra que resuma o que o povo quer e pronto. "Trabalho e Compromisso para mudar o Brasil", ou "Fé e Sexo Casual para fazer ainda mais".

O jingle é um pouco mais complexo. Não vamos negar. Um bom jingle fica grudado em nossas cabeças e tem uma incrível capacidade de se perpetuar através das gerações. Aqui em Mato Grosso todos nos lembramos daquele que estava na palma da mão, nacionalmente temos o sucesso do Lula-lá e, principalmente, de ey-ey-Eymael, o democrata cristão. Provavelmente a maior canção de todos os tempos, digna de um Lennon/McCartney.

As letras de todos os jingles são basicamente iguais. Eles destacam as palavras chaves já citadas na hora do slogan, ressaltam a trajetória da vida do candidato e desemboca num refrão que foca no nome e no número, trazendo uma aura de desejo popular sobre o candidato.

A grande diferença fica nos ritmos. O ritmo escolhido vai diretamente ao encontro do público alvo do candidato. Nacionalmente, aqueles que tem grande rejeição no nordeste acabam buscando apoio no forró ou no Axé. Mas, percebo que o sertanejo é uma escolha natural, uma vez que ele é o ritmo que tem dominado o Brasil ultimamente.

Também temos os regionalismos. Aqui em Mato Grosso, vários candidatos apostam num jingle em ritmo de Rasqueado, ou Lambadão. Incluindo aí a histórica figura do Procurador Mauro, do PSOL. Uma figura ainda mais impressionante quando descobrimos que ele compõe seus próprios jingles e grava as músicas com sua banda de lambadão.

Mas, ao CH3 cabe o papel de estimular a renovanção, a mudança, a atitude, a coragem. Propomos que candidatos adotem ritmos diferentes para seus jingles eleitorais.

Porque não um jingle ao ritmo do metal melódico? Algo como:
"Por detrás das montanhas enevoadas
Surgiu meu candidato
Seu caminho estava traçado
Para lutar contra as forças das trevas
Entre duendes e criaturas do mal
Ele se destacou
O sangue dos seus inimigos ele derramou
Odin o abençou
E agora ele conduzirá seu povo a glória eterna"

Não seria ótimo? Você não votaria num candidato desse? Podemos imaginá-lo vestido de preto, num clipe cheio de chroma-key e efeitos sensacionais.

Outra boa possibilidade é um jingle bossa nova.
"No carnaval ou no Réveillon
Sempre vejo meu candidato no Leblon
Um barquinho e um violão
Canto para ele esta canção
Sua estrela vai brilhar no infinito
As morenas estão votando
Seu caminhar vai requebrando
Nesse candidato eu acredito"

Chamaríamos Manoel Carlos para escrever os roteiros do Programa Eleitoral e acredito que seria um sucesso danado.

E um jingle no ritmo do funk?!
"As pesquisas já mostraram
Nossos adversários estão no chão (chão, chão, chã-chã-chão)
Nosso candidato só sobe
Vai ganhar essa eleição
As inimigas ficam loucas
Se mordem de inveja
Meu candidato tá de boa
O bonde dele só acerta"

Aposto, que as campanhas eleitorais ficariam muito melhores.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

50 Tons de Branco

Sempre me lembrarei do dia em que eu conheci o Sr. White. Era uma manhã de terça-feira, o dia estava parcialmente nublado e fazia um calor de matar. Uma carreta atropelou um motoqueiro na Avenida Central, o motorista perdeu o controle e invadiu a pista contrária, derrubando um poste e provocando o maior congestionamento da história da cidade. Por conta disso, cheguei atrasada ao meu encontro com o Sr. White. Ele não reclamaria, porque acompanhou o noticiário. Era um homem sempre bem informado.

Confesso, que achei que ele traficava
substâncias proibidas.
Na época eu era estudante de Ciências Sociais e estava realizando o meu trabalho de conclusão de curso. Minha dissertação discutia a influência que os empresários, donos de empresas que financiavam campanhas políticas, tinham sobre os seus funcionários. O Sr. White era um filho de norte-americanos e comandava uma das maiores empreiteiras do Estado. A sua empresa era responsável por grandes obras, coleta de lixo e financiava campanhas de vários partidos políticos. Ele era próximo do poder.

Apesar do meu atraso, fui rapidamente atendida. Confesso que entrei para a entrevista com várias pedras na mão. Sempre imaginei esses donos de empresas como pessoas fúteis, exploradores da mais valia alheia, sanguessugas responsáveis pelo atraso do nosso país. Mas, tão logo a porta da sala foi aberta por sua secretária, eu fiquei desarmada. O Sr. White era muito bonito, tinha um sorriso aberto e branco, vestido impecavelmente.

Mal consegui prestar atenção na conversa, o Sr. White era hipnotizante. Se não fosse o meu gravador, provavelmente teria meu trabalho reprovado. Só conseguia prestar atenção naquele sorriso. Quando dei a entrevista por encerrada, ele perguntou “já, fica mais um pouco” e senti algo dentro de mim. Ele me passou o seu telefone e disse que qualquer coisa eu poderia ligar para ele. Também pegou meu telefone e se despediu com um abraço. Fui para casa flutuando.

Os dias seguintes foram de pouca produção para mim. Passava os dias desconcentrada, olhando para o cartão com o número do telefone do Sr. White e fantasiando com o seu sorriso. Já era sexta-feira a tarde, quando meu telefone tocou. Não pude acreditar que era ele me ligando. Respirei, apreensiva e atendi o telefone como se não soubesse quem era. Ele foi direto. Me convidou para jantar naquela noite. Fingi que estava pensando, enquanto já separava a roupa que eu iria usar. Aceitei, é claro.

Não pude acreditar quando ele parou na frente da minha casa com um Porsche, nunca tinha visto um antes, aliás, nem sabia que existia um carro com esse nome. Sr. White me levou para jantar num dos maiores restaurantes da cidade, tomamos um vinho que parecia ser incrível pela descrição que ele fez e não vou entrar em detalhes sobre como a noite terminou.

Os encontros continuaram nos meses seguintes. Andamos de helicóptero, de balão, passeamos em seu iate. Ele me dava presentes, tantos e tão caros, que acredito que o meu patrimônio dobrou nos primeiros meses da nossa relação. Tudo ia muito bem, mas preciso confessar que achava que o Sr. White era um amante tenso. Apesar de ser sempre simpático e afável, ele tinha uma tensão latente, parecia nunca estar satisfeito.

Tensão que ficou evidente naquele dia. Ele me levou até o seu apartamento e com um olhar sério disse que tinha uma proposta. Queria me levar para conhecer Paris. Nem acreditei que iria conhecer a cidade e já imaginava fazer um roteiro pela casa dos intelectuais de esquerda do país. Mas, ele se mantinha sério. Disse que precisava revelar um segredo, que nós não poderíamos continuar juntos se ele não falasse aquilo e se eu não aceitasse.

Eu é que fiquei tensa. Pensei que ele não revelaria ser gay. Será que ele tem AIDS, sífilis ou gonorreia? Quer que eu seja laranja em uma das empresas dele? Só pode ser isso, por isso que ele se interessou em mim, cafajeste. Ou será que é algum fetiche? Não, eu não vou fazer isso que ele quer.

Ele me pegou pelo braço e me levou até o seu quarto. Abriu a porta do seu closet e lá eu entrei. Me assustei com o que eu vi. Centenas, milhares de camisas impecavelmente brancas, penduradas nos cabides, sem nenhum amarrotado. Perguntei o que era aquilo e ele disse “esse é o meu segredo. Só uso camisas impecavelmente brancas”. Puxei pela cabeça e me dei conta que, realmente, todas as vezes em que eu estive com ele, ele só usava camisetas brancas. Achei que era só estilo, não sei, nunca reparei realmente.

Perguntei se aquilo era um TOC, disse que havia tratamento, que ele não precisava se preocupar. E, pela primeira vez, ele gritou comigo. Irritado, disse que não precisava disso. Que só precisava de camisas brancas bem passadas. E que também precisava de mim. Tremi na base. Perguntei quem é que mantinha as camisas daquele jeito. Ele chegou bem próximo e suspirou no meu ouvido: “você, você é que as manterá assim”, e me beijou. Me entreguei.


Dois dias depois eu voltei até a casa do Sr. White e ele me esperava sem camisa. Me levou até a sua lavanderia e disse. “Começa”. Fiquei tensa, mas tentei. Ele tinha mais de cem camisas brancas para lavar e explicou que utiliza várias durante um dia. Visitava obras e, se elas se sujavam, ele as trocava. Vi várias camisas com as golas e os punhos encardidos. Me assustei e ele disse que eu deveria ficar apenas em trajes íntimos para prosseguir com a tarefa.

Enquanto esfregava suas roupas, ele me açoitava com um chicote e dizia “mais branco, mais branco”. Fui me irritando. Quando mostrei a ele a primeira camisa ele me deu um tapa e disse “você chama isso de branco?”. Depois tentou arrancar minha roupa. Dei um soco na cara dele e senti seu dente da frente quebrar. Antes que ele se levantasse, dei um chute nas suas partes baixas e cuspi na sua cara que se retorcia em dor. Vesti minha roupa rapidamente e sai correndo, pedindo ajuda. E é isso o que eu tenho a dizer.

Flávia Teixeira de Castro.

Depoimento prestado em 23.09.14 na Delegacia da Mulher

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Porque o Orkut vai acabar?

Você com certeza já deve ter se perguntando, ao ler tantos textos saudosistas por aí: afinal, se o Orkut era e ainda é tão bom assim, porque todos o abandonaram e porquê ele vai acabar? Vivemos em uma era em que o compromisso com a qualidade é essencial e, assim sendo, um produto que é pintado como sendo tão brilhante quanto o Orkut deveria resistir.

A resposta para o fim do Orkut não é assim tão simples. Em primeiro lugar, podemos dizer que o Orkut é tão bom quanto um filme do Zé do Caixão, ou as músicas do Jordy. Há uma ruindade latente em sua essência, mas essa ruindade é que é o seu charme. Seus gifs coloridos, seus erros com mensagens nonsense sobre rosquinhas.

Poderia aqui dizer que o Orkut está acabando por ser uma rede social a frente do seu tempo. Como já foi dito por aqui, seu foco estava no debate de ideias. Vivemos numa época em que ninguém quer debater nada, queremos apenas curtir e zoar. Você quer discutir a campanha presidencial ou quer curtir a foto do candidato beijando criancinhas? Muito melhor curtir a foto e, se for o caso, deixar um comentário aleatório ao vento. O Facebook é o retrato dos nossos tempos.

Mas, essa razão pode ser muito subjetiva, afinal, os debates do Orkut não tinham exatamente um grande nível técnico. No fundo, ele se parecia com uma grande e interminável área de comentários do G1. E isso pode ter contribuído para o seu fim, apesar de que, o G1 segue aí, firme e forte com comentários extremistas em todas as notícias.

A grande verdade, a grande razão para o fim do Orkut terminar me parece apenas uma: os nossos pais chegaram até lá. Sim, uma rede social começa a morrer no momento em que nossos pais chegam nela. Isso é um ciclo natural, um dia - este dia está próximo - nós é que seremos os pais estragando as redes sociais dos nossos filhos e, pelo jeito que as coisas vão, não quero nem imaginar como é que vão ser as redes sociais dos nossos filhos, mas aposto que vão ter botões como "chupava todinha".

Você pode questionar que os pais também estão no Facebook e que ele está aí resistindo. Bem, em termos sim. Mas, o Facebook está predominando na vida do brasileiro a mais ou menos uns quatro ou cinco anos. O Orkut também resistiu esse tempo todo, até que em 2009 o processo de migração se intensificou e mesmo quem ainda gostava do Orkut não teve outra alternativa para ver as fotos das amigas de biquíni. Quanto tempo o Facebook ainda irá resistir? Muito já se falou sobre o seu processo de Orkutização e todos concordam que ele anda chato para caramba. Falaram na sua substituição pelo Instagram - a meca do niilismo  - mas que este já está Orkutizado. O fato, é que a vida é orkutizada e nós não percebemos.

Enfim, voltamos aos nossos pais. Ninguém conseguiu resistir lá a partir do momento em que seus pais começaram a monitorar sua vida e fazer comentários desconexos nas comunidades em que você participava. Achava que estava livre para fazer alguma coisa na comunidade "Eu já matei aula"? Sua mãe estava lá dizendo que estava decepcionada com você e a única alternativa era o Orkuticídio.
E se sua mãe fosse Nazareth Tedesco?

No Facebook, seus pais não vão checar sua vida em comunidade e eles também já estão mais acostumados com esse mundo virtual e não vão te fazer passar tanta vergonha. Você também já está mais maduro, já sabe lidar melhor quando sua mãe te chama de "minha vida" numa foto em que você foi marcado por um amigo.

Ah, acho que o Orkut também acabou porque ele não monitorava tanto a sua vida tentando te vender produtos. Acho que Buyú jamais vendeu seus dados para o Obama. E olha, saber quem você queria pegar e quantos coraçõezinhos você deu para alguma pessoa já podia ser uma informação e tanto.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Solução cuiabana

Cuiabá é uma cidade mundialmente conhecida por seu calor infernal, com os termômetros sempre registrando temperaturas que beiram o inadmissível para a sobrevivência da espécie humana, quiçá de qualquer espécie animal. O calor não é o único desafio que os habitantes da cidade precisam enfrentar. Também temos o ar seco e nosso pior inimigo: a fumaça.

Alguns alegam que é uma questão cultural e que não há nada para fazer contra isso. Eu acho que é uma tremenda falta de educação e iria rir do cadáver daquele que por acidente morresse carbonizado durante uma queimada praticada por ele próprio. Seria uma enorme ironia do destino.

A maior parte das queimadas urbanas em Cuiabá é fruto de uma suposta praticidade que o fogo tem. Se o seu terreno está cheio de mato, ao invés de capinar o terreno, ou contratar alguém para fazer o trabalho, numa atividade que irá custar suor, tempo e dinheiro, é mais fácil simplesmente tacar fogo na porra toda, espalhando fuligem no ar, matando insetos, pássaros e acabando com a qualidade do ar de todos os vizinhos. Se não for mato, também pode se escolher queimar o lixo, por exemplo.

A solução cuiabana poderia ser utilizada para resolver outros problemas que atormentam o cotidiano da população, os gestores públicos e enfim.

Um fósforo seria o suficiente para resolver
esse problema. No entanto, certifique-se de
que não esteja chovendo no momento
Congestionamentos: Não há como negar que as ruas do nosso país estão congestionadas. A solução passaria pelo investimento no transporte público de qualidade, e uma longa mudança no planejamento urbano, levando empresas e postos de trabalho para a periferia, e trazendo pessoas para morar no centro da cidade, com preços mais populares. No entanto, isso dá muito trabalho. Será muito mais fácil descer do carro às 19h, espalhar o álcool, riscar o fósforo e queimar aqueles carros qeu se entulham no meio do caminho.

Superlotamento dos presídios: A rede penitenciária brasileira não tem condição de suprir sua demanda. Os presídios vivem superlotados, com presos em condições insalubres, um ambiente próprio para rebeliões e para desenvolver ainda mais ódio no coração desses cidadãos. A solução poderia passar por aumentar a rede hoteleira, digo, penitenciária, ou investir no lado social para diminuir os índices de criminalidade. Anos de trabalho. Mais fácil queimar tudo.

Superlotamento dos hospitais: Os nossos hospitais públicos também sofrem com a falta de vagas nas mais diversas áreas. Pediatria, ortopedia, UTI. Poderíamos construir novos hospitais, reestruturas os já existentes e ainda investir em medicina preventiva e estimular ações que aumentem a qualidade de vida da população. Mais fácil tacar fogo em tudo.

Desemprego: Um dos grandes desafios de qualquer governante é conseguir gerar emprego, aumentar a população economicamente ativa, impulsionar a economia. Mas, não é fácil. Às vezes falta mão de obra qualificada, por vezes uma região tem a economia baseada em uma atividade extrativista e quando a matéria prima acaba, o desemprego bate forte. A solução? Queimar tudo.

Falta de moradia: A briga entre os sem-teto e o Estado, nesta semana, em São Paulo, escancarou o problema da falta de moradia nas grandes cidades. Muitas pessoas moram nas ruas, ou invadem prédios abandonados, o que escancara outra situação: inúmeros imóveis em áreas nobres das cidades, muitos devendo impostos. O reaproveitamento destes imóveis poderia solucionar, ou amenizar o problema da falta de moradia, mas levaria a disputas judiciais, embates desgastantes. Por isso, seria melhor riscar o fósforo e transformar tudo em pó.

Excesso de produção: Nosso brilhante setor produtivo, por vezes, encontra uma séria dificuldade: eles produzem tantos alimentos para a nossa população, que simplesmente não tem onde estocá-los. Eles vivem cobrando o Governo Federal para a construção de cilos para armazenagem. Mas, todos  nós, a essa altura, já sabemos que a melhor solução é queimar tudo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Baile Punk

Uma realidade chocante. Uma cena que se repete todas as noites na periferia da maior cidade do Brasil e que a maioria das pessoas não conhece. A equipe de reportagem do CH3 foi até a Zona Oeste de São Paulo para mostrar a rotina dos Bailes Punks ilegais, que atormentam a vizinhança, destroem a família dos seus participantes e trazem transtornos para o poder público.

As denúncias chegaram até a nossa reportagem de maneira anônima. A vendedora Dorilene Bastos, nos telefonou e com voz de pato disse que mora perto de um galpão no Jardim Monte Verde, onde todos os dias um baile punk começa por volta das 23h30. "Eles tocam músicas pesadas a noite toda, sempre sai briga e gente vomitando na calçada, é um horror".

Seguindo as pistas dadas por Dorilene, fomos até o galpão especificado. Na porta, encontramos dois homens utilizando roupas pretas e tatuagens. Perguntamos para um deles se era ali que ocorria um baile punk. Ele nos encarou e tentou negar a informação. Repetimos a pergunta e ele começou a ficar irritado, ameaçando partir para a agressão física.

Tentei argumentar que eu queria participar do baile, mas isso não melhorou a minha situação. Só comecei a reverter o quadro quando comecei a cantar a letra de God Save the Queen, dos Sex Pistols. Ganhei a sua confiança quando citei a discografia inteira do The Clash, mostrei músicas do Ramones no meu celular e citei o nome de todos os integrantes do New York Dolls. Minha entrada foi liberada.

O cenário dentro do Galpão era insalubre. Uma banda formada por quatro rapazes de saia, ostentando cabelos moicanos e piercings no nariz, tocava músicas contra o sistema. Uma delas, muito atual, pregava o empalamento de todos os 11 candidatos a presidência da república. O quarteto maltratava seus instrumentos, claramente desafinados, com gritos recheando o espaço vazio.

Na plateia, a cena poderia assustar os mais inocentes. Ao som do quarteto, um grupo de cem pessoas se espancava sem dó. Quando a música terminava, eles riam, bebiam álcool e usavam drogas. A cena se repetiu durante as 15 músicas tocadas na meia hora de apresentação.

Em determinado momento, foi organizado um trenzinho punk. Homens de saia e sem cueca participavam da locomotiva da carnificina, como ele era chamado. "Você sabe o que um cara de saia e sem cueca quer num baile punk, não sabe?", me perguntou Deivid Alberto, 23 anos, motoboy de um supermercado em Pinheiros, que pediu para não ser identificado e usar o nome fantasioso de Ramon.

Disse a ele que não sabia, e ele me olhou com uma cara de quem deveria saber e não quis dar mais explicações. Perguntei a ele sobre o consumo de drogas e ele disse que isso acontecia. Perguntei o que a família dele achava disso e ele disse que não tinha família. Conclui que ele era uma fonte muito ruim e encerrei a entrevista.

Em determinado momento, notei a presença de uma mulher no Baile, a primeira da noite. Utilizando uma jaqueta de couro regata que deixava suas axilas peludas de fora, ele desceu o cacete em todos durante uma roda punk assustadora. Não pensei em entrevistá-la, com medo de apanhar.

Por volta das 2h30 da manhã, fui descoberto. Alguém denunciou que eu era um jornalista infiltrado no baile punk e eu fui perseguido. Me atingiram com uma cadeira na cabeça e eu desmaiei. Acordei horas depois, amarrado e com cortes espalhados pelo corpo. Me perguntaram a mando de quem que eu estava lá, se eu era um skinhead ou fã de Glam Metal. Encontraram uma música do Metallica no meu celular e me sentenciaram a morte por golpes de baixo na cabeça.

Foi assim que eu morri. Meu sangue foi utilizado para pixar muros e meu corpo foi abandonado no meio do galpão, onde segue sendo pisoteado até hoje. Agradeço a pai Jorginho de Ogum por incorporar meu espírito e me dar a oportunidade de dar o meu relato sobre esse cenário assustador.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As comunidades do Orkut

A principal diferença entre o Orkut e o Facebook está na forma como o conteúdo é apresentado. No Facebook, você tem amigos, curte páginas e as atualizações desses amigos e dessas páginas aparecem na sua timeline. Você curte, compartilha, comenta que a pessoa está muito bem de vida, que está com tudo em cima e que com certeza ele deve estar muito feliz e satisfeita.

O sistema não é perfeito. Por algum motivo que ninguém jamais saberá entender, os logaritmos do Facebook podem te mostrar coisas sobre as quais você não tem nenhum interesse. Os cálculos do Zuckerberg acham que você tem muito interesse em ver tudo o que um colega seu de trabalho curte, que você está se coçando para ver todas as opiniões de um cara que você viu três vezes na vida, mas que por outro lado, você não quer saber nada do que sua namorada faz, nem as atualizações da sua própria página.
Com qual dos dois você gostaria de bater um papo?

O livro de faces representa um modelo de comunicação antigo, onde há um emissor da mensagem e vários receptores bovinos, que podem até tentar dialogar com o emissor, mas este está cagando para os outros.  No Orkut não era assim. Ele era um sistema dialógico.

Não existia essa bobagem de linha do tempo. Enquanto o Facebook se baseia numa proposta hedonista, o Orkut tinha como força-motriz as suas comunidades. Para saber o que um amigo seu andava dizendo, você tinha que ir à página dele e depois ir até as comunidades que ele participava. Não há como negar que o Orkut estimulava o livre stalkeamento, a livre iniciativa e o empreendedorismo. Não dava pra ser preguiçoso.

As comunidades do Orkut não tinham nenhuma relação com as páginas do Facebook. Se você curte a página de uma novela no Facebook, você irá receber todas as informações sobre ela. Se você participava da comunidade sobre uma novela no Orkut, você discutia seus temas, criava tópicos para discutir personagens, cenas, enredos. Você tinha voz ativa e conseguiria comandar os rumos da discussão.

No Orkut, você era as comunidades que você participava. Suas bandas, seus filmes, seus escritores, seus gostos, seu humor. Algumas comunidades do Orkut eram verdadeiras obras de arte contemporâneas, como aquela “Lenin, de três”, ou ainda “Carlos, três dias morto e nada”. O Facebook jamais irá conseguir repetir esse ambiente de efervescência criativa. Ninguém poderá discutir nada sobre o Toba Internet Café em Taubaté, ou a loja de Parafusos e Acessórios do Dudu.

Caminhar pelas comunidades do Orkut nos tempos atuais, é como caminhar pelas ruínas de uma civilização antiga. É como caminhar por um sítio arqueológico, ou pelas ruínas de Pompeia, destruída pelo Vesúvio. “Eu Odeio Acordar Cedo”, era a maior comunidade do Orkut, uma megalópole do mundo virtual. Hoje ela não existe mais.

Caminho pelas comunidades que eu participei e vejo que em metade a última postagem é um tópico que promete free sex. Vejo os saudosistas, que visitam os escombros, numa última lembrança antes que tudo seja implodido e vire poeira virtual. Vejo o perfil do seu criador, Orkut Byuasdihyahaa, e vejo pessoas lamentando, chorando e o ameaçando de morte pelo fim da página que leva o seu nome. Várias páginas que avisam que já migraram para o Facebook, incluindo a do CH3.

O Orkut é o nosso Policarpo Quaresma. Acredito que ele deveria ser preservado, para que as futuras gerações pudessem ter um retrato fiel do que era a humanidade no começo do século XXI.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Propaganda Eleitoral

Se para algumas pessoas ele é uma verdadeira tortura mental, o programa eleitoral gratuito é visto como fonte de diversão para tantas outras. As propagandas para os cargos majoritários são geralmente enfadonhas, exceção feita aos VTs do patriota Eymael e seu apego a constituição. Não dá para aguentar os presidenciáveis com discursos emotivos sobre uma trilha sonora de romance hollywoodiano.

A graça, na verdade, está nas propagandas para deputados. Ali sim, vemos centenas, milhares de candidatos, duelando numa selva em que cada um tem cerca de quinze segundos para aparecer, outros ainda menos, outros menos ainda, alguns só aparecem a foto e o número com um locutor dizendo o nome e número mais rápido do que o cara que diz “ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”.

Justamente neste ringue de gladiadores é que aparecem os candidatos diferentes, aqueles que precisam chamar a atenção do eleitor desatento, para fixar seu nome em busca de um voto. A estratégia mais utilizada é focar em palavras e temas chaves como “defesa da família”, “renovação política”, e os tradicionais “segurança, saúde e educação”. Há, também, aqueles que se vestem de palhaço, armam superproduções toscas e chamam a atenção pelo bizarro. Esses são os melhores.

Como ainda falta um pouco mais de vinte dias para as eleições, o CH3 dá uma série de dicas de temas e maneiras de chamar a atenção, ajudando os candidatos que ainda buscam seu espaço ao sol.

Ajuda Luciano
Realizar o desafio do balde do gelo durante os 15 segundos do VT teria sido uma grande ideia duas semanas atrás. O candidato que derrubou gelo no próprio corpo no programa eleitoral sairia em todos os portais e teria alguma chance de ser eleito, quem sabe. Hoje essa moda já passou e é preciso ficar atento ao Instagram do Luciano Huck para saber qual é a tendência do momento, e pelo jeito, ela é a de fazer a selfie com a galera.

O candidato também poderia defender o livre direito a masturbação. Seu programa teria uma câmera focada em seu rosto, enquanto ele emite grunhidos e fala algo sobre sua capacidade de gozar em 15 segundos. Poderia obter o voto dos jovens e ser acusado de genocídio pela bancada evangélica.

Quinze segundos também é um tempo considerável para se defender questões polêmicas. Oras, não há ninguém que seja contra saúde e educação de qualidade, exceção talvez a alguns colunistas da Veja. Todo mundo também quer segurança. Por outro lado, drogas, sexo não procriativo, são vários os temas que geram longos e prolongados debates entre os mais diversos setores da sociedade.

No entanto, discutir a legalização da maconha já é um tema batido. Porque não, discutir a legalização do crack? Apostar que a crackolândia pode trazer benefícios para o setor turístico e cenográfico. Não sei se você seria eleito, mas, com certeza, iria chamar bastante a atenção. Se você não for para a Assembleia Legislativa, talvez consiga ir para a próxima edição de A Fazenda.

Vocês sabem quanto custa uma inserção de dez segundos em pleno horário nobre da Globo? Quase 100 mil reais. Se você tem algum comércio, ou pretende vender alguma coisa, não tem negócio melhor. Talvez a propaganda seja retirada do ar após a primeira vez, mas você conseguirá finalmente vender aquele catálogo da Avon.

Você também pode não falar nada. Encarar a câmera por 15 segundos, como se fosse Ivan Drago prestes a triturar o Apollo Creed. Passe os 15 segundos gritando. Pergunte ao telespectador se ele sabe o que é o fist fucking. Explique que fist fucking é o ato de introduzir a mão, até o punho, dentro do ânus de outra pessoa e que é por isso que você pede o seu voto. Peça para não votarem em você. Diga que você quer defender os ideais de satã em Brasília. Simule um suicídio.

Diga que se você for eleito, você irá combater o programa do Luciano Huck e acabar com o Vídeo Show e cite dados fictícios de que desde que o Vídeo Show passou a ser transmitido, os casos de câncer de próstata aumentaram em todo o mundo e que isso não pode ser coincidência. Prometa acabar com a internet e criminalizar o iPhone 6. Todos os olhos do mundo estarão em você.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Esse cara passou manteiga no corpo e o resultado é impressionante

Em suas andanças pela rede mundial de computadores, você já deve ter trombado com um link para uma matéria que tinha o seguinte título: “Ele resolveu ferver uma garrafa de Coca Cola e o resultado é surpreendente”. Tenho certeza que você se sentiu profundamente instigado em saber o que aconteceria com a Coca-Cola® fervida, clicou no link e conferiu um vídeo que mostra que o refrigerante se transforma em uma espécie de melaço, talvez numa geleia de amebas queimadas.


Os motivos que levam um cidadão a ferver uma garrafa de Coca-Cola® poderiam ser discutidos, mas não vou me ater a esse tema, porque nessa vida as pessoas têm os seus motivos e eu não vou criticar o fetiche de ninguém. O que me chama a atenção é o enunciado que convoca os leitores a clicar no link, o responsável por te levar a assistir esse vídeo perverso, que deve ter dado muito trabalho pra quem lavou a panela depois.

O cidadão que ferveu a Coca Cola e obteve um resultado impressionante não é o único. Dá para perder a conta da quantidade de vezes em que passamos por um link, geralmente do BuzzFeed ou YouPix, que se utiliza da mesma estratégia semântica. “Alguém fez alguma coisa” e o resultado desta ação gerou um resultado espantoso, curioso, surpreendente, peripatético. Não dá para resistir a tentação de clicar lá.

Se o post apenas anunciasse que um experimento caseiro demonstrou que Coca-Cola® fervida é um negócio nojento, você provavelmente nem se interessaria em ver. Mas a formulação da frase cria uma expectativa. Descreve a ação que será realizada, mas não conta o seu final. É como um bom trailer. Uma boa resenha.

Essa estratégia me lembra a utilizada por pintores clássicos que precisavam nomear suas obras e utilizavam nomes bem descritivos como “Mulher de Chapéu vermelho observa um campo de lírios na Noruega” e o quadro mostrava justamente essa mulher de chapéu vermelho, observando um campo de lírios num país, que, acredito, seja mesmo a Noruega. Se o quadro colocasse um “e o final é surpreendente”, pessoas do mundo inteiro viajariam até o museu onde a obra está exposta apenas para visitá-la.

Se esta estratégia de descrever a cena e fazer suspense sobre o final tivesse se popularizado antes, muitos vídeos clássicos e virais da internet teriam sido apresentados de maneira diferente. Aquele clássico que mostrava explosões provocadas pela mistura de Mentos® com Coca® Light®, ganhariam uma nova roupagem com: “ele colocou mentos numa garrafa de Coca e o resultado é explosivo”.

O velhinho que comeu e não pagou se transformaria em “este senhor de idade não pagou pelos serviços de uma prostituta e o resultado é hilário”. Ruth Lemos – “Ela foi conceder uma entrevista sobre o sanduíche e veja o que aconteceu”. Jerêmias seria “O cão botou para ele beber e o resultado foi surpreendente”. O atentado das torres gêmeas seria “Os passageiros entraram nesse avião e o desfecho foi inesperado”.

O sucesso que esse tipo de frase faz na mente humana, me mostra tudo o que eu fiz de errado no CH3 nesse tempo todo. Sou de uma geração em que as coisas ganhavam nomes (como os já citados Velhinho Que Comeu e Não Bebeu, Jerêmias o Bebo da Moto, Sanduich-iche, Chocolate Rain, Star Wars Kid, entre outros) e não descrições instigantes. Se eu falasse que esse cidadão inflou bexigas de látex dentro da própria roupa e a reação é surpreendente, hoje estaríamos na TV.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Os últimos dias do Orkut

Se você acompanha minimamente os fatos, já deve estar sabendo que o Orkut deixará de funcionar no dia 30 de setembro. A morte da lendária rede social deixou o mundo atônito e de certa maneira órfão. Mesmo que ninguém mais jamais passasse por lá, nós temos essa melancólica tendência de sentir falta das coisas que um dia foram nossas. O fim do Orkut é como o fim daquela sorveteria que você frequentava quando tinha seis anos.

Donuts, no more
O Orkut teve uma importância enorme para a atual geração. Ele foi a primeira rede social da vida de muitos nós e, tudo bem, o Facebook pode até ter surgido antes, mas ele só se popularizou no Brasil muito tempo depois. Se você teve uma conta no Facebook antes de entrar no Orkut, ou se entrou na terra do Zuckerberg antes de 2008, você não é minimamente confiável.

A rede social criada por um turco de sobrenome impronunciável foi uma verdadeira formadora de caráter para a vida de muita gente. Porque aquilo lá, apesar de ser na internet, era a vida real.

Sim, enquanto o Facebook mostra a reprodução de um ambiente estéril, em que pessoas postam fotos em lugares ridiculamente turísticos recebendo curtidas e comentários de que ela está linda, mesmo que esteja parecendo um cadáver maquiado, o Orkut não, aquilo era um espaço cheio de armadilhas, cheio de sujeira, trapaças e equívocos. Era como a vida.

O Orkut era uma rede social em que você postava mensagens, ou scraps, no perfil de seus amigos ou de qualquer pessoa. Qualquer pessoa podia ir lá e escrever qualquer besteira, revelar que você estava numa festa, combinar alguma sacanagem que deveria ser combinada às escondidas, fazer revelações. O Orkut não perdoava quem não tinha noção. Igual a vida.

O Orkut tinha um espaço para que as pessoas deixassem depoimentos, conteúdo de alta carga emocional que falava sobre o caráter do homenageado. Para garantir que ninguém te falasse besteira, os depoimentos eram moderados e, por isso, muitas pessoas o utilizavam como meio de comunicação secreta. (Sim, existia uma ferramenta de mensagens diretas por lá, mas ela, misteriosamente, jamais era utilizada). Mas, o Orkut, como a vida, não era composto por pessoas com bom senso e era normal ver revelações sobre sangramento anal em casos extraconjugais expostas para o mundo.

O Orkut era capaz de, do nada, determinar que todos pudessem visualizar quem visitou o seu perfil. Do nada, todo mundo pode ver que ex-namorados, Vinícius Gressana, pessoas que te odiavam, caras sem camisa que claramente se masturbaram diante do seu perfil, que todos eles estavam fuçando sua vida. O dia seguinte foi de enorme constrangimento. Afinal, a vida é assim, cheia de surpresas desagradáveis.

O Orkut não era esse ambiente de fotos ilimitadas nos mais diversos lugares do mundo. Nos áureos tempos, você podia subir apenas 12 fotos, precisava por vezes excluir uma e subir outra, passar horas pensando nisso. Porque afinal, a vida é assim, ela é feita de escolhas difíceis.

Agora, não mais. No dia 1º de Outubro, o Orkut desaparecerá e esvaziará o mundo de realidade. Até lá, ainda teremos oportunidade para lembrar o seu legado.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Balde de gelo eleitoral

Eduardo Jorge, sempre ele, aceitou o desafio do balde de gelo, proposto por um dos seus seguidores nas redes sociais. No entanto, ele inovou na maneira como realizou o desafio, entornando um balde de gelo sobre ele próprio durante um debate televisivo, molhando o estúdio todo, estragando o microfone e chamando uma atenção danada. Ainda mais pelos os seus desafiados: seus concorrentes no processo eleitoral.

Dilma Rousseff foi a primeira a aceitar. Munida de um balde, ela lembrou que o desafio só é possível graças ao seu governo e ao Governo Lula. “No se que se refere ao balde de água, antes da chegada do bolsa família, que é o maior programa de complementação de renda do mundo, os brasileiros não tinham balde, nem água com gelo, para jogar sobre eles próprios. Também não havia internet para divulgar os vídeos e foi somente graças ao nosso programa de expansão da banda larga que a nova classe C pode enfim, postar esses vídeos na internet”. Seu tempo estourou antes que ela pudesse derrubar o balde.

Aécio Neves não quis ficar para trás e garantiu que a água e o gelo que o Governo do PT entrega para o povo jogar na cabeça não presta. Lembrou que em Minas Gerais ele implementou um dos maiores programas de fabricação de baldes de todo o Brasil e que se for presidente, irá levar esse programa para a frente. “Eu tenho a experiência necessária para derrubar os baldes que o Brasil precisa”, garantiu.

Levy Fidélix afirmou que a água fria é o que o Brasil precisa para se endireitar. Bradou que tudo era um absurdo e que o Aerotrem era a solução para a Esclerose.

Pastor Everaldo garantiu que na sua gestão, todos os baldes de gelo serão privatizados, garantindo um balde mínimo. Prometeu defender todos os portadores de ELA, desde que eles não queimem a rosca. Clamou pela família brasileira e derrubou o balde.

Luciana Genro declinou do desafio, por acreditar que a campanha esta a serviço do capital financeiro, com o dinheiro sendo depositado nas contas dos grandes bancos, que são quem na verdade governa o país.

Marina Silva afirmou que o desafio não era pertinente, porque derrubar ou não o balde de gelo, não significa defender ou ir contra uma causa, uma vez que há muitas outras coisas em jogo. Por fim, disse que caso haja uma pressão popular sobre o assunto, ela irá convocar um plebiscito para definir se ela tem que jogar o balde em sua cabeça, ou não, mas que será uma nova maneira de chamar a atenção para uma causa filantrópica.

Candidatos que não participavam do debate não deixaram de se manifestar sobre o assunto.

Eymael, o Democrata Cristão, afirmou que se eleito, irá derrubar sim um balde, mas um balde de constituição sobre o país.

Zé Maria afirmou que o desafio do balde é um instrumento da burguesia, que não atende os chamados da rua. O balde, seria portanto, um instrumento do peleguismo de seus adversários.

Rui Costa Pimenta atribuiu o balde de gelo as políticas nada revolucionárias dos adversários e disse que Pelego é o PSTU. Manifestantes dos dois partidos de extrema-esquerda se enfrentaram em uma batalha campal.

Por fim, ninguém se lembrou do Mauro Iasi, que acreditem, também é candidato a presidência. Mas ele informou que irá propor um desafio com os outros candidatos de esquerda, a ser realizado na sede de um Centro Acadêmico de Ciências Sociais.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Menino das moedas

A figura da criancinha que economiza dinheiro para comprar alguma coisa é bastante famosa. Os jornais adoram reproduzir aquela matéria com o menino que durante um ano juntou todas as moedinhas que recebia do pai, obrigando o pai a contar aquela fortuna periodicamente. Quando um determinado valor era alcançado, o pai e o filho iam até uma loja para comprar um videogame.

Todos nós nos lembramos da cara do vendedor, tendo que contar aqueles dois mil reais em moedas, sorrindo para as câmeras, tentando esconder a raiva. “Moleque filho da puta, pai canalha, acabaram com o meu dia pra contar essas moedas, lazarentos”, pensava.

Nessa semana, o mundo foi novamente surpreendido com uma versão amplificada da história do menino poupador. Thiago Morales tem 10 anos e mora no interior do Paraná. Nos últimos três anos ele juntou suas economias para comprar um... carro. Sim, ao invés de comprar um videogame, ou uma televisão, ele comprou um carro. Não, não é um carrinho Hot Wheels, uma miniatura 1/13 ou um carro guiado por controle remoto. Ele comprou um fusca, de verdade.

Pense que Thiago, por três anos se privou de gastar seu dinheiro com qualquer coisa que possa fazer uma criança feliz – bala sete belo, figurinhas da copa – para comprar um carro que, de acordo com a legislação vigente no nosso país, ele só poderá dirigir daqui a oito anos.

O feito foi estimulado pelo seu pai, que comprou um fusca com 13 anos, e que ele sempre gostou do carro e quis superar o progenitor. O garoto se lembra que sua avó lhe dava 10 reais e dizia “compra o que você quiser”, esperando que o garoto comprasse chocolates, mas que ele guardava na poupança para comprar o carro.

A cobertura da imprensa transformou Thiago em um exemplo. Não me surpreenderia se pressionarem para que ele seja o próximo Ministro da Fazenda. Vejam só, seus bundões que já passaram dos 30 anos e ainda estão crediário para comprar um armário de cozinha nas Casas Bahia. Vejam que esse fedelho, que ainda nem bate punheta, já conseguiu comprar um carro com o esforço dele. E, querem mais?, agora ele vai juntar dinheiro para reformar o carro. Ele nem sabe o que é fazer a barba e vai ter um carro novinho, exemplo de superação, da força de vontade. Nesse nosso país, só é pobre quem quer! Basta saber cuidar do dinheiro.
O Brasil que dá certo

Mas, eu vejo esse caso de uma maneira diferente. Penso no que está acontecendo com as crianças de 10 anos que querem, e compram, carros. Esses R$ 2.500 seriam muito mais bem investidos em balas sete belo. Ou não, talvez a felicidade dele esteja nisso aí, em chegar no colégio com o carro dele, causar inveja nos amiguinhos, ver todos eles babando.

Pepe Mujica poderia discursar na ONU sobre isso. Os carros são um belo exemplo de nosso consumismo, entupindo nossas ruas, poluindo o ar, com governantes estimulando a compra de carros e a construção de estruturas para esses carros, ao invés de investir em transporte público. Carros que se desvalorizam em regressão geométrica assim que saem da loja e depois de três anos são praticamente imprestáveis.

Vai brincar, Thiago.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Serial Killer

Jack, o Estripador, é um famoso criminoso que atuou em Londres no final do século 19. Ele teria sido o responsável por pelo menos cinco assassinatos com características semelhantes. Ele atacava prostitutas, estrangulava-as, perfurava suas gargantas e depois arrancava os seus órgãos internos. Sua atuação foi breve: seus cinco crimes ocorreram num período de três meses e ele jamais foi identificado. Mas o mito persiste até hoje.

Assassinos em série exercem algum fascínio sobre a sociedade. Sua crueldade sem limites, sua metodologia, sua repetição e especificidades criam uma mitologia ao seu redor. O Serial Killer é um ótimo personagem da literatura, chamando muito mais a atenção em relação a outros psicopatas e criminosos comuns.

A própria expressão “Serial Killer” chama a atenção. Se você souber que há um assassino nas redondezas, provavelmente não irá se precaver tanto e nem sentir o medo que sentiria caso soubesse que um Serial Killer está no seu bairro. Você logo imagina alguém com roupas excêntricas, instrumentos mortiferamente sofisticados e um gosto incansável pelo sangue alheio.

Deve ser pela força da palavra, que o presidente do Corinthians, Mário Gobbi, resolveu utilizá-la com um novo sentido, nunca antes usado: Gobbi, que é delegado, abriu uma jurisprudência e agora “Serial Killer” passa a expressar o coletivo de “erros”.

(Já contei esta história antes neste blog, mas a acho tão sensacional, que a repetirei agora e a repetirei enquanto meu corpo resistir. Meu professor de autoescola utilizava “multidões” como um coletivo genérico. Ele provavelmente faltou todas aquelas aulas que temos, em vários oportunidades, que nos ensinam sobre matilhas, alcateias, manadas, rebanhos e tudo mais. “Vocês tem que se preparar porque vocês vão para as ruas, enfrentar uma multidão de carros”, dizia. “Todos os dias, acontecem multidões de acidentes, que deixam multidões de vítimas”, completava).

O fato aconteceu durante uma afetada entrevista coletiva, concedida após o jogo entre Corinthians e Fluminense. O objetivo do mandatário corintiano era reclamar da perseguição da arbitragem, após um jogo em que o adversário do Corinthians teve um gol legítimo anulado. Lá pelas tantas ele soltou “Não sei porque começou esse serial killer de erros contra o Corinthians”, inovando.

É difícil saber o que se passou na cabeça do Gobbi, até porque é difícil saber o que se passa na cabeça dos gênios nos momentos decisivos. Ele ia falar “série de erros” e se lembrou de alguma investigação passada envolvendo alguém que retalhava cadáveres e isso levou ele a algum ato falho? Não se sabe.

Mas, já podemos imaginar ele falando “um serial killer de carros sai de casa todos os dias”, ou “um serial killer de pessoa saiu às compras na 25 de março” – o que poderia provocar um pânico generalizado em meio ao frenesi consumista.

Mário Gobbi, és um inovador.