quarta-feira, 24 de setembro de 2014

50 Tons de Branco

Sempre me lembrarei do dia em que eu conheci o Sr. White. Era uma manhã de terça-feira, o dia estava parcialmente nublado e fazia um calor de matar. Uma carreta atropelou um motoqueiro na Avenida Central, o motorista perdeu o controle e invadiu a pista contrária, derrubando um poste e provocando o maior congestionamento da história da cidade. Por conta disso, cheguei atrasada ao meu encontro com o Sr. White. Ele não reclamaria, porque acompanhou o noticiário. Era um homem sempre bem informado.

Confesso, que achei que ele traficava
substâncias proibidas.
Na época eu era estudante de Ciências Sociais e estava realizando o meu trabalho de conclusão de curso. Minha dissertação discutia a influência que os empresários, donos de empresas que financiavam campanhas políticas, tinham sobre os seus funcionários. O Sr. White era um filho de norte-americanos e comandava uma das maiores empreiteiras do Estado. A sua empresa era responsável por grandes obras, coleta de lixo e financiava campanhas de vários partidos políticos. Ele era próximo do poder.

Apesar do meu atraso, fui rapidamente atendida. Confesso que entrei para a entrevista com várias pedras na mão. Sempre imaginei esses donos de empresas como pessoas fúteis, exploradores da mais valia alheia, sanguessugas responsáveis pelo atraso do nosso país. Mas, tão logo a porta da sala foi aberta por sua secretária, eu fiquei desarmada. O Sr. White era muito bonito, tinha um sorriso aberto e branco, vestido impecavelmente.

Mal consegui prestar atenção na conversa, o Sr. White era hipnotizante. Se não fosse o meu gravador, provavelmente teria meu trabalho reprovado. Só conseguia prestar atenção naquele sorriso. Quando dei a entrevista por encerrada, ele perguntou “já, fica mais um pouco” e senti algo dentro de mim. Ele me passou o seu telefone e disse que qualquer coisa eu poderia ligar para ele. Também pegou meu telefone e se despediu com um abraço. Fui para casa flutuando.

Os dias seguintes foram de pouca produção para mim. Passava os dias desconcentrada, olhando para o cartão com o número do telefone do Sr. White e fantasiando com o seu sorriso. Já era sexta-feira a tarde, quando meu telefone tocou. Não pude acreditar que era ele me ligando. Respirei, apreensiva e atendi o telefone como se não soubesse quem era. Ele foi direto. Me convidou para jantar naquela noite. Fingi que estava pensando, enquanto já separava a roupa que eu iria usar. Aceitei, é claro.

Não pude acreditar quando ele parou na frente da minha casa com um Porsche, nunca tinha visto um antes, aliás, nem sabia que existia um carro com esse nome. Sr. White me levou para jantar num dos maiores restaurantes da cidade, tomamos um vinho que parecia ser incrível pela descrição que ele fez e não vou entrar em detalhes sobre como a noite terminou.

Os encontros continuaram nos meses seguintes. Andamos de helicóptero, de balão, passeamos em seu iate. Ele me dava presentes, tantos e tão caros, que acredito que o meu patrimônio dobrou nos primeiros meses da nossa relação. Tudo ia muito bem, mas preciso confessar que achava que o Sr. White era um amante tenso. Apesar de ser sempre simpático e afável, ele tinha uma tensão latente, parecia nunca estar satisfeito.

Tensão que ficou evidente naquele dia. Ele me levou até o seu apartamento e com um olhar sério disse que tinha uma proposta. Queria me levar para conhecer Paris. Nem acreditei que iria conhecer a cidade e já imaginava fazer um roteiro pela casa dos intelectuais de esquerda do país. Mas, ele se mantinha sério. Disse que precisava revelar um segredo, que nós não poderíamos continuar juntos se ele não falasse aquilo e se eu não aceitasse.

Eu é que fiquei tensa. Pensei que ele não revelaria ser gay. Será que ele tem AIDS, sífilis ou gonorreia? Quer que eu seja laranja em uma das empresas dele? Só pode ser isso, por isso que ele se interessou em mim, cafajeste. Ou será que é algum fetiche? Não, eu não vou fazer isso que ele quer.

Ele me pegou pelo braço e me levou até o seu quarto. Abriu a porta do seu closet e lá eu entrei. Me assustei com o que eu vi. Centenas, milhares de camisas impecavelmente brancas, penduradas nos cabides, sem nenhum amarrotado. Perguntei o que era aquilo e ele disse “esse é o meu segredo. Só uso camisas impecavelmente brancas”. Puxei pela cabeça e me dei conta que, realmente, todas as vezes em que eu estive com ele, ele só usava camisetas brancas. Achei que era só estilo, não sei, nunca reparei realmente.

Perguntei se aquilo era um TOC, disse que havia tratamento, que ele não precisava se preocupar. E, pela primeira vez, ele gritou comigo. Irritado, disse que não precisava disso. Que só precisava de camisas brancas bem passadas. E que também precisava de mim. Tremi na base. Perguntei quem é que mantinha as camisas daquele jeito. Ele chegou bem próximo e suspirou no meu ouvido: “você, você é que as manterá assim”, e me beijou. Me entreguei.


Dois dias depois eu voltei até a casa do Sr. White e ele me esperava sem camisa. Me levou até a sua lavanderia e disse. “Começa”. Fiquei tensa, mas tentei. Ele tinha mais de cem camisas brancas para lavar e explicou que utiliza várias durante um dia. Visitava obras e, se elas se sujavam, ele as trocava. Vi várias camisas com as golas e os punhos encardidos. Me assustei e ele disse que eu deveria ficar apenas em trajes íntimos para prosseguir com a tarefa.

Enquanto esfregava suas roupas, ele me açoitava com um chicote e dizia “mais branco, mais branco”. Fui me irritando. Quando mostrei a ele a primeira camisa ele me deu um tapa e disse “você chama isso de branco?”. Depois tentou arrancar minha roupa. Dei um soco na cara dele e senti seu dente da frente quebrar. Antes que ele se levantasse, dei um chute nas suas partes baixas e cuspi na sua cara que se retorcia em dor. Vesti minha roupa rapidamente e sai correndo, pedindo ajuda. E é isso o que eu tenho a dizer.

Flávia Teixeira de Castro.

Depoimento prestado em 23.09.14 na Delegacia da Mulher

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