sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Solução cuiabana

Cuiabá é uma cidade mundialmente conhecida por seu calor infernal, com os termômetros sempre registrando temperaturas que beiram o inadmissível para a sobrevivência da espécie humana, quiçá de qualquer espécie animal. O calor não é o único desafio que os habitantes da cidade precisam enfrentar. Também temos o ar seco e nosso pior inimigo: a fumaça.

Alguns alegam que é uma questão cultural e que não há nada para fazer contra isso. Eu acho que é uma tremenda falta de educação e iria rir do cadáver daquele que por acidente morresse carbonizado durante uma queimada praticada por ele próprio. Seria uma enorme ironia do destino.

A maior parte das queimadas urbanas em Cuiabá é fruto de uma suposta praticidade que o fogo tem. Se o seu terreno está cheio de mato, ao invés de capinar o terreno, ou contratar alguém para fazer o trabalho, numa atividade que irá custar suor, tempo e dinheiro, é mais fácil simplesmente tacar fogo na porra toda, espalhando fuligem no ar, matando insetos, pássaros e acabando com a qualidade do ar de todos os vizinhos. Se não for mato, também pode se escolher queimar o lixo, por exemplo.

A solução cuiabana poderia ser utilizada para resolver outros problemas que atormentam o cotidiano da população, os gestores públicos e enfim.

Um fósforo seria o suficiente para resolver
esse problema. No entanto, certifique-se de
que não esteja chovendo no momento
Congestionamentos: Não há como negar que as ruas do nosso país estão congestionadas. A solução passaria pelo investimento no transporte público de qualidade, e uma longa mudança no planejamento urbano, levando empresas e postos de trabalho para a periferia, e trazendo pessoas para morar no centro da cidade, com preços mais populares. No entanto, isso dá muito trabalho. Será muito mais fácil descer do carro às 19h, espalhar o álcool, riscar o fósforo e queimar aqueles carros qeu se entulham no meio do caminho.

Superlotamento dos presídios: A rede penitenciária brasileira não tem condição de suprir sua demanda. Os presídios vivem superlotados, com presos em condições insalubres, um ambiente próprio para rebeliões e para desenvolver ainda mais ódio no coração desses cidadãos. A solução poderia passar por aumentar a rede hoteleira, digo, penitenciária, ou investir no lado social para diminuir os índices de criminalidade. Anos de trabalho. Mais fácil queimar tudo.

Superlotamento dos hospitais: Os nossos hospitais públicos também sofrem com a falta de vagas nas mais diversas áreas. Pediatria, ortopedia, UTI. Poderíamos construir novos hospitais, reestruturas os já existentes e ainda investir em medicina preventiva e estimular ações que aumentem a qualidade de vida da população. Mais fácil tacar fogo em tudo.

Desemprego: Um dos grandes desafios de qualquer governante é conseguir gerar emprego, aumentar a população economicamente ativa, impulsionar a economia. Mas, não é fácil. Às vezes falta mão de obra qualificada, por vezes uma região tem a economia baseada em uma atividade extrativista e quando a matéria prima acaba, o desemprego bate forte. A solução? Queimar tudo.

Falta de moradia: A briga entre os sem-teto e o Estado, nesta semana, em São Paulo, escancarou o problema da falta de moradia nas grandes cidades. Muitas pessoas moram nas ruas, ou invadem prédios abandonados, o que escancara outra situação: inúmeros imóveis em áreas nobres das cidades, muitos devendo impostos. O reaproveitamento destes imóveis poderia solucionar, ou amenizar o problema da falta de moradia, mas levaria a disputas judiciais, embates desgastantes. Por isso, seria melhor riscar o fósforo e transformar tudo em pó.

Excesso de produção: Nosso brilhante setor produtivo, por vezes, encontra uma séria dificuldade: eles produzem tantos alimentos para a nossa população, que simplesmente não tem onde estocá-los. Eles vivem cobrando o Governo Federal para a construção de cilos para armazenagem. Mas, todos  nós, a essa altura, já sabemos que a melhor solução é queimar tudo.

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