quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Esse cara passou manteiga no corpo e o resultado é impressionante

Em suas andanças pela rede mundial de computadores, você já deve ter trombado com um link para uma matéria que tinha o seguinte título: “Ele resolveu ferver uma garrafa de Coca Cola e o resultado é surpreendente”. Tenho certeza que você se sentiu profundamente instigado em saber o que aconteceria com a Coca-Cola® fervida, clicou no link e conferiu um vídeo que mostra que o refrigerante se transforma em uma espécie de melaço, talvez numa geleia de amebas queimadas.


Os motivos que levam um cidadão a ferver uma garrafa de Coca-Cola® poderiam ser discutidos, mas não vou me ater a esse tema, porque nessa vida as pessoas têm os seus motivos e eu não vou criticar o fetiche de ninguém. O que me chama a atenção é o enunciado que convoca os leitores a clicar no link, o responsável por te levar a assistir esse vídeo perverso, que deve ter dado muito trabalho pra quem lavou a panela depois.

O cidadão que ferveu a Coca Cola e obteve um resultado impressionante não é o único. Dá para perder a conta da quantidade de vezes em que passamos por um link, geralmente do BuzzFeed ou YouPix, que se utiliza da mesma estratégia semântica. “Alguém fez alguma coisa” e o resultado desta ação gerou um resultado espantoso, curioso, surpreendente, peripatético. Não dá para resistir a tentação de clicar lá.

Se o post apenas anunciasse que um experimento caseiro demonstrou que Coca-Cola® fervida é um negócio nojento, você provavelmente nem se interessaria em ver. Mas a formulação da frase cria uma expectativa. Descreve a ação que será realizada, mas não conta o seu final. É como um bom trailer. Uma boa resenha.

Essa estratégia me lembra a utilizada por pintores clássicos que precisavam nomear suas obras e utilizavam nomes bem descritivos como “Mulher de Chapéu vermelho observa um campo de lírios na Noruega” e o quadro mostrava justamente essa mulher de chapéu vermelho, observando um campo de lírios num país, que, acredito, seja mesmo a Noruega. Se o quadro colocasse um “e o final é surpreendente”, pessoas do mundo inteiro viajariam até o museu onde a obra está exposta apenas para visitá-la.

Se esta estratégia de descrever a cena e fazer suspense sobre o final tivesse se popularizado antes, muitos vídeos clássicos e virais da internet teriam sido apresentados de maneira diferente. Aquele clássico que mostrava explosões provocadas pela mistura de Mentos® com Coca® Light®, ganhariam uma nova roupagem com: “ele colocou mentos numa garrafa de Coca e o resultado é explosivo”.

O velhinho que comeu e não pagou se transformaria em “este senhor de idade não pagou pelos serviços de uma prostituta e o resultado é hilário”. Ruth Lemos – “Ela foi conceder uma entrevista sobre o sanduíche e veja o que aconteceu”. Jerêmias seria “O cão botou para ele beber e o resultado foi surpreendente”. O atentado das torres gêmeas seria “Os passageiros entraram nesse avião e o desfecho foi inesperado”.

O sucesso que esse tipo de frase faz na mente humana, me mostra tudo o que eu fiz de errado no CH3 nesse tempo todo. Sou de uma geração em que as coisas ganhavam nomes (como os já citados Velhinho Que Comeu e Não Bebeu, Jerêmias o Bebo da Moto, Sanduich-iche, Chocolate Rain, Star Wars Kid, entre outros) e não descrições instigantes. Se eu falasse que esse cidadão inflou bexigas de látex dentro da própria roupa e a reação é surpreendente, hoje estaríamos na TV.

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