segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Os últimos dias do Orkut

Se você acompanha minimamente os fatos, já deve estar sabendo que o Orkut deixará de funcionar no dia 30 de setembro. A morte da lendária rede social deixou o mundo atônito e de certa maneira órfão. Mesmo que ninguém mais jamais passasse por lá, nós temos essa melancólica tendência de sentir falta das coisas que um dia foram nossas. O fim do Orkut é como o fim daquela sorveteria que você frequentava quando tinha seis anos.

Donuts, no more
O Orkut teve uma importância enorme para a atual geração. Ele foi a primeira rede social da vida de muitos nós e, tudo bem, o Facebook pode até ter surgido antes, mas ele só se popularizou no Brasil muito tempo depois. Se você teve uma conta no Facebook antes de entrar no Orkut, ou se entrou na terra do Zuckerberg antes de 2008, você não é minimamente confiável.

A rede social criada por um turco de sobrenome impronunciável foi uma verdadeira formadora de caráter para a vida de muita gente. Porque aquilo lá, apesar de ser na internet, era a vida real.

Sim, enquanto o Facebook mostra a reprodução de um ambiente estéril, em que pessoas postam fotos em lugares ridiculamente turísticos recebendo curtidas e comentários de que ela está linda, mesmo que esteja parecendo um cadáver maquiado, o Orkut não, aquilo era um espaço cheio de armadilhas, cheio de sujeira, trapaças e equívocos. Era como a vida.

O Orkut era uma rede social em que você postava mensagens, ou scraps, no perfil de seus amigos ou de qualquer pessoa. Qualquer pessoa podia ir lá e escrever qualquer besteira, revelar que você estava numa festa, combinar alguma sacanagem que deveria ser combinada às escondidas, fazer revelações. O Orkut não perdoava quem não tinha noção. Igual a vida.

O Orkut tinha um espaço para que as pessoas deixassem depoimentos, conteúdo de alta carga emocional que falava sobre o caráter do homenageado. Para garantir que ninguém te falasse besteira, os depoimentos eram moderados e, por isso, muitas pessoas o utilizavam como meio de comunicação secreta. (Sim, existia uma ferramenta de mensagens diretas por lá, mas ela, misteriosamente, jamais era utilizada). Mas, o Orkut, como a vida, não era composto por pessoas com bom senso e era normal ver revelações sobre sangramento anal em casos extraconjugais expostas para o mundo.

O Orkut era capaz de, do nada, determinar que todos pudessem visualizar quem visitou o seu perfil. Do nada, todo mundo pode ver que ex-namorados, Vinícius Gressana, pessoas que te odiavam, caras sem camisa que claramente se masturbaram diante do seu perfil, que todos eles estavam fuçando sua vida. O dia seguinte foi de enorme constrangimento. Afinal, a vida é assim, cheia de surpresas desagradáveis.

O Orkut não era esse ambiente de fotos ilimitadas nos mais diversos lugares do mundo. Nos áureos tempos, você podia subir apenas 12 fotos, precisava por vezes excluir uma e subir outra, passar horas pensando nisso. Porque afinal, a vida é assim, ela é feita de escolhas difíceis.

Agora, não mais. No dia 1º de Outubro, o Orkut desaparecerá e esvaziará o mundo de realidade. Até lá, ainda teremos oportunidade para lembrar o seu legado.

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