sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Moda Látex

Dos céus veio a mensagem. Pensando bem, ela veio apenas do Twitter, mas se formos analisar profundamente o caso, há alguma semelhança entre os dois espaços. Assim como também pode haver alguma semelhança entre Vinícius Gressana e Deus, as pessoas que falam com você por meio do céu ou do Twitter, não necessariamente nesta ordem.

A notícia era: a moda látex virou tendência entre as mulheres. Notícia esta acompanhada de uma série de fotos de Kim Kardashian, Heidi Klum, Paris Hilton, Katy Perry e outras mulheres que eu conheço menos ainda e desconhecia suas existências até o presente momento.

A notícia em si não fazia o menor sentido. Mostrava que Kim Kardashian utilizou um vestido de látex em um evento desimportante na Austrália, que as roupas de látex são cheias de personalidade e difíceis de serem usadas, mas que podem compor looks sensuais e super estilosos. Reproduzir essas descrições sobre a roupa fez com que eu perdesse alguns anos na minha expectativa de vida. A partir da foto da Kim sei lá o quê, o site lembrava mulheres que vestem látex desde a invenção do mesmo em algum momento da evolução do planeta.

Bem, o fato é que segunda a publicação o látex está na moda. Mal começamos 2015 e uma notícia bombástica como essa já cai sobre nossas cabeças. Ainda mais porque látex nos lembra de Hanz, o pansexual. Este cidadão que usa roupas de látex há muitos anos e que é noticiado pelo CH3 desde os idos de 2007. Senhoras e senhores, o que podemos dizer é que oito anos depois, finalmente o mundo se rendeu ao CH3. Não que isso me surpreenda. Sempre nos mostramos como um blog a frente do nosso tempo e tudo o que publicamos acaba virando notícia com alguns dias, meses ou anos de atraso na chamada grande mídia.

Conversei com Hanz, o pansexual, por Whatsapp. Essa é a maneira mais segura de se falar com este velho nojento. Na verdade, é impossível utilizar a palavra “segura” em qualquer contexto que envolva este maldito, portanto, digamos que é a maneira menos perigosa. Mandei para ele a notícia sobre essas atrizes que eu sinceramente nem me lembro o nome e muito menos se elas realmente são atrizes, ou se são modelos, ou cantoras, e Hanz me respondeu que faria sexo com ela. E que também faria sexo com sua roupa. E com seus sapatos. Seus brincos. Suas bolsas. Suas maquiagens. Com a parede no fundo e o chão sobre o qual elas pisavam.

Os comentários se seguiram por todas as fotos e eu não deveria me surpreender. Afinal, o cara é um pansexual, é óbvio que ele faria sexo com qualquer coisa desse planeta, inclusive com você, se você por algum acaso bobeasse miseravelmente. Lá pelas tantas, ele me disse que estava excitado e mandou umas fotos. Agradeci aos céus pelo fato de eu ter desativo o download automático de fotos no meu Whatsapp. Aliás, se eu pudesse dar apenas um conselho para qualquer pessoa, esse conselho seria justamente esse: desative o download automático de fotos do seu Whatsapp. Vai preservar a memória do seu aparelho, te preservar de ver coisas que você não gostaria de ver e de passar um possível constrangimento de mostrar para sua família uma foto de um pênis ereto e desconhecido entre as fotos das suas férias em Jericoacoara.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Narração Radical

O recente título mundial de surf do Gabriel Medina, além de chamar a atenção do público brasileiro para este misterioso esporte com pranchas e ondas, também alertou para outra coisa terrível. As narrações dos esportes radicais.
Medina realizando um double soft porn flip flap

Galvão Bueno é uma das poucas unanimidades nacionais. Não há brasileiro que não gostaria que ele perdesse suas cordas vocais por algum milagre da natureza e que assim sendo ele parasse de encher o saco durante as transmissões de futebol na TV.

Tudo por conta do seu ufanismo desnecessário. Aquela mania de gritar “olha o gol, olha o gol” até em amistosos do Brasil contra o Cazaquistão, de criar esperanças de que o Felipe Massa, atualmente na última posição, 24 voltas atrás do líder, está em uma grande corrida de recuperação, de olho no pódio e se pintar um safety car ele pode até faturar a parada. Não, não vai.

Eu mesmo acho que o Galvão é um bom narrador e um péssimo comentarista. Se ele não se metesse a querer comentar todas as situações e enxergar benefícios para os brasileiros, ele seria um ótimo profissional. Mas, isso é culpa do Padrão Globo de cobertura esportiva. Um modelo em que não existe uma disputa lúdico-esportiva, mas apenas um evento em que um brasileiro luta pela soberania nacional, carregando a história de uma nação em suas costas. Um modelo que se infiltrou em outras emissoras. Assista as Olimpíadas na Record e perceba como é lamentável ver o Maurício Torres tendo orgasmo com um brasileiro lutando esgrima, sendo atravessado por um sabre e sangrando até a morte, mas com o narrador insistindo que ele está na briga.

Bem, me empolguei tanto com o assunto que eu até me esqueci do assunto principal desse texto: os narradores de esportes radicais. Na vida, poucas coisas podem ser piores do que presenciar a narração de um esporte radical.

Uouuuuuuuuuuuuuu! 360 de bublegum!
Tudo bem, confesso que eu não sou um dos principais admiradores de esportes radicais desse mundo. Acredito que eles são daquelas modalidades muito mais divertidas de se praticar do que de se assistir. Deve ser bem legal montar em uma prancha para desafiar elementos naturais ou artificiais. Mas não é nem um pouco interessante assistir. Ao menos que você seja um narrador ou comentarista desses X-Games.

Se você se irrita com o Galvão Bueno gritando “quem é que sooooobe”, imagina o que é escutar “Uou!”, “Nossa!” e gargalhadas a cada manobra comentada. Para piorar ainda há o uso de termos que deveriam ser proibidos como “manobra irada” e todo o linguajar exclusivo desses profissionais.

O nome das manobras é algo de surreal. “Olha aí o Mineirinho! Uahahaha, ele acertou um double back flip frontar! Entrou de downtown no frontsize da onda outzonou o triple top da prancha”. “Uou!!!! 360!!!!!!!!!!!!!!!! Hahahahahahaha iiiihhhiiiiiiiiii Impressionante o flip front size cruzado! Achei que ele ia partir para um body jump em 180, mas ele inverteu a manobra em um red hot chili peppers de costa, mandando a inversão twist de costa! Ainda fechou de stand up paddle! Histórico!!!!”.

Não dá. Se tivesse menos gritos, ou menos jargões, ou se pelo menos o negócio fosse legal, aí dava pra levar a sério. Ou, nem assim.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Quem assiste, afinal?

Tão logo o Big Brother Brasil começou as redes sociais entraram em delírio. Em sua décima quinta edição, a nave especial de cogumelos atômicos do Pedro Bial continua tendo um grande poder de repercussão. Por onde eu passava meus olhos via comentários contra o programa e mais comentários ainda de pessoas prometendo embargos emocionais contra quem falasse de BBB e que não aguentava mais ver tanta gente falando sobre isso.
A Nave do BBB

Olhei minha timeline (confesso: eu me sinto péssimo quando falou ou escrevo timeline) de cima a baixo, com muita dedicação e afinco. Olhei entre meus amigos de faculdade, amigos de colégio, familiares, amigos de profissão, amigos de trabalho, pessoas que você nem se lembra direito de onde é que você conheceu, mas que estão sempre ali desejando bom dia com mensagens floridas. Não encontrei nem um único comentário sobre o programa.

Sim, nenhum. Não sei quem são os participantes, se alguém bebeu, vomitou e bebeu o próprio vômito, se já ocorreu algum estupro coletivo ou uma festa fetichista. Ninguém manifestou sua torcida a favor ou contra quem quer que seja. Ninguém compartilhou os discursos filosóficos do Pedro Bial. Ninguém entre meus amigos com as mais variadas percepções do mundo e da vida, com as mais diferentes trajetórias e costumes que tem em comum apenas a minha amizade.

Em compensação, percebi uma dúzia de discursos histriônicos contra o programa. Se em algum momento eu tive uma overdose de BBB foi por conta dos comentários negativos. Acredito que a qualquer momento os black blocks vão tentar queimar a casa maligna e que o Bial corre o risco de ser esquartejado em público.

O que será que acontece? Porque há este conflito de percepções, se é que ele existe. Por que todo mundo reclama que só se fala sobre BBB enquanto nenhum comentário sobre o programa é encontrado?

Minha primeira hipótese é que todas as pessoas falam mal do programa e justamente por isso tantos comentários são encontrados. Todos os comentários, esse “todo mundo fala” são apenas comentários negativos. Todos os blocks serão feitos em pessoas que concordam com você que isso é uma porcaria. O irônico é que, quando você fala que o programa é uma merda, você só contribuí para esta bola de fezes neve aumentar ainda mais. Sua postura não é nem um pouco interessante.

A outra hipótese é que quem reclama dessa onipresença do reality na sua timeline tem que rever suas amizades. Será que eu tenho amizades tão legais assim que ninguém do meu círculo de relacionamentos virtuais assiste essa merda? Por que será que todo mundo no seu círculo só fala nisso? Será que não é a hora de rever as suas amizades? Refletir porque é que você tem tantos amigos nessa situação de bigbrotherdependência?

Em ambas as hipóteses, há uma coisa em comum. Seja lá qual for a razão, no fundo o culpado é você.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A legítima saltenha boliviana

No lugar em que eu trabalho existe uma pessoa que pode se considerar a mais estável entre todos os funcionários. Não, ela não é uma servidora concursada há décadas, muito menos uma indicação política com costas quentes. Nem sequer servidora ela é. Ela é, isso sim, uma vendedora de salgados. Quando a fome bate de tarde ela está lá. No dia em que ela não pode ir, uma tensão ronda o ar e se por algum motivo ela fosse proibida de vender seus salgados por ali, não duvido de uma greve e quiçá uma guerra civil.

Houve, no entanto, uma oportunidade em que essa estabilidade esteve ameaçada. Surgiu, alguns metros adiante, próximo a sombra de umas árvores, outro vendedor de salgados. Temos que admitir que seus salgados eram mais saborosos. Quem ia até ele voltava relatando coxinhas e risoles maravilhosos, um pão italiano de farto recheio, um pastel divino. Havia ainda outro trunfo: ele alegava vender a verdadeira saltenha boliviana.
Cada saltenha guarda em si o mistério da originalidade. Parecem todas iguais, mas, apenas uma delas ou nenhuma delas será a verdadeira saltenha boliviana.

Não sei se o Brasil inteiro conhece a saltenha ou se ela é uma iguaria restrita ao centro-oeste brasileiro. A Wikipédia a descreve como uma espécie de pastel, mas eu nunca observei essa semelhança. São citadas várias possibilidades de recheio, mas aquela que eu considero tradicional mesmo é a de frango.

Criança inocente que fui, sempre acreditei que todas as saltenhas eram iguais e que eram daquele jeito. Engano meu. O salgado é originário da Bolívia e é aí que reside a polêmica. Quem já esteve no país andino e provou a saltenha boliviana, não tem dúvidas de afirmar que a que é vendida no Brasil é uma mera réplica da que é vendida por lá. Que não chega aos pés da original.

Vender verdadeiras saltenhas bolivianas é um marketing danado por aqui. Conheço inúmeros vendedores de salgado que afirmam que as suas saltenhas são realmente originais. E os conhecedores das originais, quando as provam, refutam a hipótese. Sim, temos diversos degustadores de saltenha por aqui.

Esses gourmets de salgado geralmente alegam que o cozinheiro não acertou no gosto da massa, que exige uma preparação toda especial. Quando a massa está perfeita, o problema passa a estar no recheio, que não é seco, mas não chega a ser exatamente molhado. Quando o recheio está certo, o problema é o tamanho. Enfim, produzir uma verdadeira saltenha boliviana é um desafio que beira o impossível e a mim me resta apenas imaginar seu sabor.

Curioso mesmo é tentar entender porque essa disputa sobre originalidade recai apenas sobre a saltenha. Veja as esfirras vendidas em qualquer barraquinha de rua que a qualquer momento será gourmetizada em um truck food. Duvido muito que elas sejam iguais as que são vendidas em mercados públicos do Líbano. No entanto, nunca vi nenhum vendedor dizer que o que ele vende é a verdadeira esfirra libanesa.

No caso da comida italiana, já existe até um consenso de que as pizzas, lasanhas, capeletes e afins que comemos por aqui não são idênticos aos originais. Aliás, já até sabemos que nós aperfeiçoamos as milenares receitas. Brasileiros que vão até a Itália se frustram ao comer pizzas sem recheio, lasanhas finas e capeletes aguados. Assim sendo, só mesmo a Seara para querer vender a verdadeira lasanha italiana.

De cabeça, só me lembro de outra iguaria gastronômica que provoca disputa por origem e tradição. Falo do requeijão. Todo e qualquer requeijão vendido no supermercado tem em seu rótulo a palavra “tradicional”. Não importa se é um requeijão que você mal consegue pegar com a faca porque ele escorre ou se é um que necessita maçarico e motosserra para ser espalhado no pão. Todos são tradicionais.

Mas nunca ouvi falar de uma disputa pelo verdadeiro churrasco grego, ou pela legítima buchada de bode. Nada chega perto do mistério da verdadeira saltenha.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Papa é Punk

Jorge Bergoglio, cidadão argentino conhecido mundialmente como Papa Francisco é uma figura muito interessante. Não dá para negar que desde que ele foi escolhido como sumo pontífice, a Igreja ganhou um novo destaque, um novo ânimo, um novo interesse. Se na época em que o cardeal Ratz Bento 16 estava no comando ninguém nem se lembrava da existência de uma instituição milenar em Roma, com o velho Chico a história mudou.

O papa apareceu com falas mais ponderadas sobre diversos dogmas e polêmicas que envolvem o catolicismo. Ele não quer que os homossexuais sejam queimados em praça pública, não quer o apedrejamento de ateus, disse que os cachorros vão para o céu e, se bobear, até liberou o sexo antes do casamento e uma punhetinha aqui e ali, porque afinal, ninguém é de ferro.

Francisco é uma pessoa muito mais interessante do que a instituição que ele representa. Assim como acontecia com Eduardo Jorge em relação ao Partido Verde. Se a Igreja é uma organização de passado controverso, que contribuiu para carnificinas ao redor do mundo, contribuiu para institucionalizar o terror na Idade Média e controlar a população por meio da ignorância, se fechou os olhos para genocídios, o papa Francisco não é nada disso. Parece ser um senhor gente boa, alguém com quem seria muito legal bater um papo numa mesa de bar, ou na fila do pão do supermercado. Um cara bacana.

Mas, toda boa vontade do mundo tem limites. Em uma de suas últimas declarações que repercutiram – quase todo dia o papa fala alguma coisa que vira manchete -, Bergoglio se manifestou sobre o atentado contra a redação do jornal francês Charlie Hebdo – aliás, que puta nome escroto para um jornal, não é mesmo? – Chico condenou a chacina, mas disse que a liberdade de expressão não dá ninguém o direito de ofender a fé alheia. Concluiu dizendo que, se por um acaso, alguém ofender a mãe dele, o papa reagiria com um soco na cara.

A questão aqui não é a discussão sobre ofensas a fé, o que renderia um post inteiro e um atentado sanguinário na redação do CH3. Mas do papa, não se espera uma reação tão virulenta a qualquer questão. Geralmente nós esperamos aquelas baboseiras de oferecer a outra face e tudo mais. Jamais um soco na cara.
Se pudesse, o papa mostraria outro dedo

Senhoras e senhores, o papa é punk. Não, o papa não é pop como prega aquela música cafona dos Engenheiros do Hawaii que todo mundo resgata a cada declaração legalzinha de Bergoglio. O papa não é um cara que escuta Madonna, Lady Gaga, Michael Jackson, Justin Timberlake e que acompanha os lançamentos da NME. O papa é fã de Sex Pistols, Ramones, The Clash. Deve ter um pôster da capa de London Calling na cabeceira da sua cama.

O papa é fã de The Who e de outras músicas de homem. Ele sabe que toda diplomacia tem limites e na sua televisão não passa nenhuma comédia romântica. No mínimo ele assiste filmes do submundo do tráfico e tem os DVDs do Rambo em sua prateleira. Em algum momento ele já usou um moicano e deve ter ficado entediado com essas roupas brancas que ele tem que usar o tempo todo. Podemos até imaginar que com 40 anos ele participava de rodas punks na periferia de Nova York.

O papa é punk, o papa é foda.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

As férias do Louro José



Se você tem a infelicidade de acompanhar a programação da Rede Globo de Televisão, já deve ter percebido que o programa Mais Você, o programa da Ana Maria Braga, está diferente. No caso, a Ana Maria e o Louro José, os âncoras do programa, estão de férias. Os dois estão sendo substituídos por Cissa Guimarães e André Marques. Deve ser um tanto quanto depressivo pensar que um dia você já foi o Mocotó da Malhação, que apresentou o Video Show e que hoje é o substituto de um fantoche de papagaio.

A Ana Maria Braga vocês conhecem. Paulista, 65 anos. Ganha um salário milionário. Quando chega o verão, o calor no coração e tudo mais, ela pode escolher onde irá passar suas férias. Miami, Orlando, Nicarágua, Bolívia, Austrália, Fiji, Malta, Alemanha, Eslovênia, Bratislava, Papua Nova-Guiné, Groelândia, Islândia, Tailândia, Punta Cana, Punta del Este, Ciudad de Leste. Ana Maria certamente tem condições de ficar no melhor hotel da região, vivendo uma vida de madame.

Enquanto isso, o Louro José é um boneco de material indefinido. Nunca cheguei perto dele, não seria capaz de identificar do que é feita a sua composição. Deve ter alguma coisa de EVA, acrílico, espuma, poliestireno, cola grude, algodão, algodão doce, tinta guache, fibra de carbono, isopor. Não sei. Realmente não sei.

O fato é que ele é um boneco inanimado de material indefinido controlado por um ator desconhecido que sequer tem uma página na Wikipédia. Acredito que este ator não seja mal remunerado, que ele tenha condições de passar as férias em alguma praia do nordeste e espero que não exista nenhuma cláusula em seu contrato que o obrigue a levar o fantoche de papagaio junto e que ele não precise ir em bares, museus e praias interpretando o personagem. Espero também que ele não tenha que passar as férias junto com a Ana Maria Braga, porque isso seria razão suficiente para dar um tiro na cabeça. E porra, ele não se chama Louro José, o nome dele é Tom Veiga!
As férias da Ana Maria

Então, enquanto a Ana Maria Braga está na Califórnia, vivendo a vida sobre as ondas e o seu destino é ser star, o Louro José está guardado dentro de algum almoxarifado no Projac da Globo. Enquanto a loura está deslizando em Aspen com a família e bebendo vinhos finos, o louro está acumulando poeira dentro de algum armário úmido na Barra da Tijuca. Enquanto a mulher toma bons drinks em Ibiza e cai na balada com David Guetta, o boneco fica trancafiado em algum depósito escutando uma faxineira que canta Odair José melancolicamente.
Férias do Louro José. Prateleira E15

Na volta das férias, Námaria pode contar várias histórias e o papagaio passará por um complexo processo de limpeza para que as TVs de alta definição não captem suas poeiras e seus amassados. Provável que ele já tenha perdido uma asa em um desses procedimentos. Possível que já tenham existidos vários louros josés, sei por experiência própria que bonecos de isopor ou o que quer que seja não conseguem resistir tanto assim a cruel e intimidadora ação do tempo.

O primeiro programa com a volta dos dois vais mostrar as fotos das férias da Braga curtindo a vida adoida e hedonisticamente. Também vai mostrar as férias do Louro José em algumas montagens toscas feitas no Corel Draw pelo estagiário da equipe. E ninguém vai se lembrar das férias do Tom Veiga, que deve ter passado um mês percorrendo um circuito de bares alternativos, se entregando ao alcoolismo e torcendo para que o recesso durasse o maior tempo possível.

Mas acho que a situação do André Marques ainda é a pior de todas.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A Pamonha Final - Final Mesmo


Marcão logo chegou servindo arroz para um grupo de hipsters e eles comiam aquela porra toda, literalmente. O arroz cheira logicamente mal e a situação não deixava de ser grotesca. Marcão me entregou um cardápio e eu pensei por alguns segundos se deveria tocar naquilo. Lamentei por um segundo não ser desses hipocondríacos que carregam um frasco de álcool em gel no bolso. Mesmo reticente, peguei o cardápio.

Constavam no menu o risoto leblonense, espetinho de tobinha de porco e uma variedade interminável de pamonhas. Falei com Jorginho que, até onde eu conhecia – tudo bem, não sou grande conhecedor do assunto – existiam apenas dois tipos de pamonha: doce e salgada. Jorginho disse que realmente existem apenas esses dois tipos, mas que elas podem levar dezenas de recheios. Calabresa, carne seca, carne desfiada, frango, presunto, queijo, enfim. Todos os recheios recebem um ingrediente gourmet, como queijo briê, manteiga de ervas finas, coisas com o nome em francês. Jorginho me confessou que isso era mentira, era apenas um artifício para cobrar vinte e oito reais numa mera pamonha.

Algumas ainda eram embaladas de maneira extravagante, elevando ainda mais o preço. Existia a Pamonha Kátia Abreu, que vem com um monte de porcaria dentro e custa trinta e nove reais. Existe a Pamonha da Vovó, vendida por quarenta e seis reais e em cuja descrição consta uma receita secreta de família. Jorginho me disse que não existe nenhum elemento secreto. No caso, ele junta a pamonha estragada com os restos de pamonha deixados pelos clientes do dia anterior para um novo prato. O aspecto estranho do quitute leva os clientes a acreditar que realmente há um afã místico na parada. Tive que reconhecer que Jorginho realmente é um gênio dos negócios.

Ele então me disse que queria conversar seriamente. Queria saber por que eu não havia feito as previsões com ele, depois de tantos anos de fidelidade. Respondi que não havia feito previsões com ninguém porque não achei necessário. Depois de tantos anos, tantas previsões erradas e tantas situações inusitadas, os leitores já não achavam mais graça naquilo. Nem eu achava mais graça. Não era nada pessoal. Felizmente não disse “não é com você, é comigo”.

Jorginho ficou se sentindo desprestigiado. Eu já havia aposentado os horóscopos, agora pretendia aposentar as previsões. Sentiu que eu estava aposentando ele da história do CH3. Falei que isso não era verdade, que, apesar de as pessoas já terem percebido que eu sempre recorro para ele quando não tenho nenhum assunto para postar e que os posts sobre ele são verdadeiros fracassos de crítica e de público, que eu jamais o abandonaria, que ele sempre faria parte deste blog. Esteve desde o começo e estará até o fim. Lembrei inclusive que o cafetão do destino logo vai completar 65 anos – idade para se aposentar – e que provavelmente ainda vai morrer antes do blog, deixando milhares de órfãos.

Olhando para o lado para ver se sua mulher não havia escutado a parte dos órfãos, Jorginho perguntou se, o fato de eu estar ali significava que eu iria fazer um post com ele. Respondi que provavelmente sim. Todas as vezes que nós nos encontramos merecem um post no blog. Perguntou se aquilo significa que eu não tinha assunto para postar e só por isso eu estava ali. Respondi que poderia ser, mas que nesse caso não. Tenho uma série de assuntos para abordar, mas iria deixa-los para depois. Tudo para prestigiar um velho amigo. O brilho voltou aos seus olhos.

Conversamos por mais algum tempo, enquanto os hipsters não paravam de comer aquele arroz fedorento. No final, nos despedimos como nos velhos tempos e ele me entregou um papel. Só o vi quando cheguei em casa. A folha continha algumas previsões para o ano de 2015 e elas eram: um famoso vai morrer, um avião vai cair, o Palmeiras vai passar algum vexame.

Esse velho não muda nunca. Ou será que é o mundo que é sempre igual?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Pamonha Final - Parte 2


Espero que vocês tenham lido o post anterior, porque eu não estou com paciência para recapitular todos os fatos que me trouxeram até a presente situação. O fato, é que no último sábado eu reuni a coragem necessária para me deslocar até a Casa de Diversão Noturna Carnicentas para me encontrar com Pai Jorginho de Ogum. Precisava resolver de vez esse mal estar com o babalorixá, ou quem sabe, acabar de vez com tudo.

A essa altura eu já havia lido o relato de Vinícius Gressana, que trouxe em primeira mão a informação de que Jorginho havia aberto uma pamonharia gourmet no quintal da Carnicentas. Informação que me deixou chocado já que, durante todo esse tempo, eu sempre havia cuidado da imagem pública do pai-de-santo e ficar sabendo dos seus negócios em outros blogs, fez com que eu me sentisse furado.

Ao chega no local, fiquei surpreso novamente. Encontrei por lá vários carros estacionados e dezenas de pessoas com camisas quadriculadas, bigodes e óculos de aro grosso comiam e fotografavam pamonhas com os seus iPhones. Os pés de bocaiuva conferiam um ar rústico ao local, contrapondo a modernidade dos seus clientes e criando um cenário pós-futurístico.

Ao entrar no local, me deparei com o Cão Leproso utilizando uma gravata borboleta. Descobri que ele era o maitrê da pamonharia, responsável por servir a carta de vinhos aos convidados. Perguntei onde estava Pai Jorginho de Ogum e o cachorro sem braços não me disse nada. Normal. Cão Leproso é um homem de poucas palavras. Ou melhor, um cachorro de poucas palavras. Normal. Cachorros geralmente não falam.

Fui entrando pela cozinha e encontrei Marcão preparando seu famoso arroz com smegmam. Segurei o vômito no céu da boca e perguntei por Pai Jorginho. O velho pedreiro calejado pelo tempo se calou. Insisti, mas ele não moveu um único músculo e nenhuma ruga de sua face se moveu. Ele saiu carregando a porção de arroz que seria inacreditavelmente servida aos clientes.

Circulei pelo ambiente e ninguém me falava nada. Por um instante, me senti como o Bruce Willis no filme “O Sexto Sentido”. Até que Jorginho de Ogum apareceu na minha frente. Virou o rosto e tentou desviar do meu caminho, mas eu o interceptei. Ele gritou pelos seguranças, mas eles não apareceram. Talvez porque não existam.

Perguntei o que afinal estava acontecendo, porque ninguém ali dentro falava comigo e porque ele tentava fugir. Ele me respondeu que era para eu saber como é que é ser ignorado por quem até então era considerado um amigo. Falei para ele deixar de viadagem e ele afirmou que a viadagem era algo interente a sua existência terrena.

Falei que fui ali para aparar as arestas, não deixar nenhum mal entendido contaminar o ambiente. Jorginho se mostrava indiferente. O fato de eu não ter ido até a sua casa no dia 1º de Janeiro para colher as previsões para o ano novo havia lhe ferido mortalmente. Perguntei para ele quais eram as previsões e ele me disse que eu não precisava me sentir obrigado em fazer isso só por educação. Falei que tudo bem, mandei-o a merda e disse que iria embora.

Na hora em que eu estava entrando no carro, Pai Jorginho de Ogum gritou para que eu esperasse. Disse que queria conversar melhor, que não poderíamos ser precipitados. Me convidou para entrar e comer uma pamonha. Falei que não gostava de pamonha. Ele me ofereceu um drink. Lembrei que eu nunca aceitava seus drinks por duvidar de sua procedência. Em um ultimato, ele perguntou se eu não queria escutar umas piadas sobre hipsters. Aceitei. Esse velho conhece meus pontos fracos.

(Continua)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Pamonha Final


Na última quarta-feira, Vinícius Gressana mandou uma mensagem no meu Whatsapp que logo se mostrou o começo de um pequeno inferno na minha vida. O titular do Café do Feliz disse que iria fazer um horóscopo para seu popular blog e me perguntou se ele poderia entrevistar Pai Jorginho de Ogum para o material. Falei que era claro, Jorginho era um cidadão livre e poderia fazer o que bem quisesse da vida dele e a mesma afirmativa se fazia válida para Vinícius.

Pois bem, Vinícius foi até lá na Casa de Diversão Noturna Carnicentas, descobriu que Pai Jorginho de Ogum estava com um novo empreendimento relacionado à venda de pamonhas e saiu de lá como o feliz proprietário de um horóscopo. E você então me pergunta: Ok, onde é que está o inferno na minha vida?

Os poucos fiéis leitores do CH3 sabem que todo ano nós publicamos aqui uma série de previsões para o ano que está nascendo. É uma tradição herdada do melhor da programação televisava de entretenimento. Todo ano no Domingão do Faustão, ou em algum programa do Gugu, lá estavam a Mãe Dinah (in memoriam) ou algum outro vidente do tipo fazendo aquelas previsões batidas, do tipo "um famoso irá morrer", "um avião vai cair" e essas coisas que todos nós sabemos que sempre vão acontecer todos os anos. Então, porque não produzir nós mesmos esse material? Jorginho fez previsões para 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014 (estou com preguiça de fazer os hiperlinks. Mas, é fácil procurar, é só ver os primeiros textos de cada ano no menu aí do lado) em textos que contam um pouco da história do CH3 e do próprio Jorginho e sua Casa de Diversões Noturnas.

Em 2014, o processo de conseguir essas previsões não foi assim tão fácil. Resolvemos participar da mega festa de Réveillon da Carnicentas e acabou não dando muito certo. Nos perdemos em uma noite amnésica junto com um Papai Noel, um delinquente juvenil, um pansexual e um amigo nosso que vocês não conhecem não. Apartamos brigas, tentamos arrombar lojas, fomos parar em Jangada e no final não nos lembrávamos de nada.

Já no dia 1º de Janeiro, Pai Jorginho de Ogum me ligou perguntando porque não fomos no seu Réveillon. Respondi que eu precisava trabalhar no dia 1º e que não poderia correr o risco de acordar em um porta-malas, ou algo do tipo. Ele lamentou nossa ausência, já que disse que o Réveillon desse ano não chegou perto do realizado ano passado, que nós divertíamos muito o ambiente. Falei que era realmente uma pena, mas que 2016 já está logo aí mesmo. Ele encerrou o telefonema dizendo que me esperava no fim da tarde para fazer as previsões de 2015, já às tinha na ponta da língua.

Não aparecia lá no dia 1º, nem no dia 2, nem no final de semana. Na terça-feira, Jorginho me ligou inconsolado. Perguntou o que é que estava acontecendo. O que é que ele havia feito para mim, porque eu o ignorava, porque eu não queria mais as suas previsões. Que ninguém merece ser tratado desse jeito. Ao fundo, escutava Marcão gritando desesperado, palavras de dor e de saudade. Ou não, talvez fosse apenas uma diarreia. Falei para Jorginho que logo eu apareceria por lá, que ele não precisava ficar assim. O velho cafetão do destino me chamou de mentiroso e desligou na minha cara.

Na quarta Vinícius me mandou o Whatsapp, na quinta ele foi até a Casa de Diversão Noturnas e desde então a minha vida tem sido um inferno.

Quinta-feira a noite Pai Jorginho de Ogum já entrou em contato comigo, me contando que o Vinícius tinha ido visitá-lo e havia comido a pamonha dele. Por um instante, fiquei chocado, achando que alguma situação esdrúxula havia levado Vinícius e Jorginho a manter uma relação carnal tão íntima, mas não entrei em detalhes. Só entendi quando o Horóscopo do Feliz foi finalmente publicado na sexta-feira.

Sexta, aliás, foi o pior dos dias. Um mensagem de Jorginho chegava no meu Whatsapp a cada cinco minutos. Mensagens hora ofensivas, hora dramáticas, hora desiludidas. Recebi ameaças, xingamentos e correntes que não tem a menor ligação com o mundo real. Jorginho disse que iria romper o contrato com o CH3 e assinar por uma quantia milionária com o Café do Feliz. No começo eu respondi, mas depois resolvi ignorar. Apenas para receber mensagens perguntando se eu o estava ignorando.

Por um instante, me lembrei da história daquele médico que assassinou e esquartejou a amante. Um crime bárbaro e injustificável. Só que depois, descobriram que a mulher ligava a cada dois minutos, 24 horas por dia. Isso enlouquece uma pessoa.

Pensei então que eu precisava resolver essa situação e que no sábado eu iria até a Casa de Diversão Noturna Carnicentas para dar um basta no problema. Bem, só adianto, para tranquilidade geral da nação, que eu não levei nenhum bisturi ou qualquer outro instrumento de corte preciso até o local.

(Continua no próximo post).

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Versão Brasileira

Chitãozinho e Xororó, Sandy e Júnior, Angélica, Nenhum de Nós, Capital Inicial? O que todos esses artistas têm em comum? Todos eles já lançaram versões nacionais de músicas internacionais. C&X transformaram uma música brega do Bryan Adams em algo ainda muito pior (fizeram isso com várias músicas), Nenhum de Nós adicionou um surrealismo extra para uma música de David Bowie, Angélica assassinou uma música dos Cranberries e por aí vai.

Todos essas músicas tem em comum o fato de serem deploráveis. E também de serem, na verdade, livres adaptações do inglês. As letras não tem muita relação com a original, apenas a melodia é mantida.

Pois bem, fiz essa longa introdução para chegar aonde eu finalmente queria: se muitas músicas internacionais que nós escutamos impunemente, fossem traduzidas literalmente para o português, nós sentiríamos vergonha de escutá-las. Letras cafonas, ruins, vazias, bizarras, que escutamos apenas porque não entendemos direito o seu significado.
E essa roupa, porra

Começo citando Sultans of Swing, do Dire Straits. Uma banda que podemos definir como rock de churrasco, ou rock de supermercado. Mas, como levar a sério uma música chamada “Sultões do Suingue”? A letra é sobre um cara que acorda de noite e vai até um bar onde ele descobre uma banda legal tocando. Mas, porra, sultões do suingue? Você escutaria uma música chamada Sultões do Suingue, se ela fosse em português? Não dá. Até o Jorge Aragão sentiria vergonha de cantar um negócio assim.

Para demonstrar minha isenção, vou aqui bater em Beatles, minha banda favorita. Eles também têm músicas que provocariam constrangimento se fossem cantadas em português. O maior exemplo é Good Day Sunshine. “Estou apaixonado e está um dia ensolarado. Bom dia luz do sol”. Não fode Paul. Sem contar “eu sou a morsa” e outras letras psicodélicas. (Os Beatles, aliás, foram definitivamente assassinados por Kiko Zambianchi e sua Hey Jude, e Zé Ramalho que traduziu literalmente “lá vem o sol, queridinha”).

Radiohead é uma das bandas mais aclamadas pela crítica, mas suas letras não fazem muito sentido, se formos traduzi-las. Fake Plastic Trees e suas letras sobre cidadãos de poliestirenos que faziam cirurgias plásticas nos anos 80. E o Nirvana? “Polly quer um biscoito” ou “Eu gostaria de comer o seu câncer quando você ficar preta”.  Sem contar que todas as letras do Coldplay nos fariam sentir saudades do Detonautas. “No meu lugar, haviam limites que eu não poderia mudar, estou perdido”. E a letra inteira de Fix You.

Por outro lado, algumas letras nacionais que consideramos idiotas, poderiam fazer o maior sucesso se fossem cantadas em inglês. Jota Quest e sua terrível “Dias melhores”. “We are waiting for better days, days of peace, more days, days we won’t let behind”. Uau. E a tenebrosa Papo reto do Charlie Brown? “She was all alone wanting some attention e someone to talk. You let her down, and gonna pay for that, you must know”. Um hino.

Badauí poderia ser Bob Dylan, John Lennon vira um Chorão. Traduções podem enterrar reputações.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Esse nosso jeitão PMDB de ser

O Movimento Democrático Brasileiro foi uma das mais importantes instituições da história do nosso país. Sob essa legenda se agruparam algumas das mais brilhantes mentes da oposição e resistência ao regime militar brasileiro que durou 20 anos. Sim, hoje em dia já surgem aspectos revisitados da história, que mostram que essa era uma oposição pero no mucho, uma oposição consentida, que não incomodava de verdade. Mas, temos que pensar que ser oposição ferrenha a ditadura não era a melhor das ideias, já que os mais duros opositores acabavam detidos, torturados, mortos e seus cadáveres eram ocultados e nunca mais encontrados. Era melhor negociar espaço legalmente.
Note que, nem sempre, ficar em cima do muro significa não tomar uma posição

Com o fim do bipartidarismo no começo dos anos 80, o agora PMDB se transformou em uma potência política. O povo estava livre para votar em quem quisesse e assim nas eleições estaduais de 1986 o PMDB foi escolhido para governar todos estados brasileiros, exceção feita ao Sergipe. O partido ocupou mais da metade das vagas da Câmara dos Deputados e no Senado. Desde então, o PMDB se mantém assim, dominante.

Nunca chegou a eleger um presidente por voto direto, mas exerceu influência em todos os governos. Participou da base de sustentação do governo FHC, indicando ministros. Quando o PT ascendeu ao poder, o PMDB permaneceu por lá. Aliás, houve um curioso momento em que os parlamentares do partido na Câmara faziam parte do governo, enquanto os do Senado eram da oposição, ou vice e versa. Governo, pero no mucho.

Desde 2011 o PMDB está definitivamente no poder, de onde nunca saiu, aliás. Ocupa dezenas de cargos no primeiro escalão, centenas de cargos no segundo escalão, milhares de cargos em qualquer escalão possível. E ele quer mais. Uma fera insaciável que não se contentam com oito ministério, quer mais e cada vez mais, para tocar os projetos no legislativo, para não espalhar o caos no funcionamento burocrático de Brasília.

Das raízes do antigo MDB se originaram vários dos atuais partidos brasileiros e o modo de fazer política do PMDB se enraizou em todos eles. O modelo da barganha, de querer alguma coisa em troca de apoio. O loteamento de ministérios. Essas coisas que são tão PMDB.

Sim, o que eu quero dizer aqui é que o PMDB é um câncer da política brasileira. Ele cresce, se multiplica, domina e enfraquece o corpo alheio. Um parasita. Transforma a política nessa coisa nojenta de “o Partido quer mais um ministério para não obstruir a votação”. O projeto é bom ou ruim? A resposta dependerá da quantidade e orçamento dos ministérios, que passam a pertencer a siglas e são ocupadas por pessoas que não necessariamente possuem requisitos técnicos de gestão.

Lógico que um organismo assim deveria ser extirpado. Mas isso não acontece. A cada eleição que passa, o PMDB segue se mantendo no poder, segue tendo as maiores bancadas, elegendo inúmeros governadores, prefeitos, fazendo parte de alianças vencedoras. O PMDB é o próprio sistema ofendido em pichações públicas.

E se o PMDB se mantém lá é porque no fundo, nós somos iguais a ele. Não estou aqui dizendo que eu ou você, somos assim, mas me permita generalizar. Você conhece por aí várias pessoas que tem esse jeitão PMDB de ser. Esse jeito de estar sempre com um pé em cada cômodo, de não ultrapassar a linha completamente. Esse jeito camaleão de se adaptar ao ambiente para conseguir o que lhe convém.

Você conhece, gente que vivia falando mal de uma pessoa até que essa pessoa é anunciada como o novo chefe dela, pessoa renascida como maravilhosa e que passa a ser tratada a pão de ló. Aquele jeitão de dizer que sempre soube, que sempre está esperançoso. Esse jeito duas caras que é tão PMDB.

Ou as pessoas que só agem em troca de favores. Vai desde o colégio, em que o cidadão só estuda para a prova porque se ele tirar 10 vai ganhar uma passagem para a Disney. Aquele que pede um emprego para o filho, em troca de um serviço. Aquele esquema de uma mão lava a outra, isso é tão PMDB.

O PMDB nunca irá sair do poder, porque na verdade, ele já está no meio de nós. Ele está na nossa sociedade, ele está no dia-a-dia. As pessoas jamais irão se revoltar contra ele, porque isso seria como se revoltar contra si próprio e nunca é fácil fazer isso. Porque ele está no poder e quem sabe, um dia você não vai precisar dele?

Se mover na expectativa do poder. Isso é tão…

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A Gourmetização não pode parar

Quando eu era criança, vez por outra meus pais me levavam até uma lanchonete chamada Komilão, aqui em Cuiabá. A lanchonete consistia em um trailer, provavelmente uma Kombi surrada, que teve seu espaço traseiro transformado, com a instalação de uma chapa, recipientes para carnes, saladas e outros complementos. O veículo ficava estacionado em uma esquina abandonada e o chapeiro ficava lá, de boa, fritando seus hambúrgueres vendidos a preços módicos.

Assim como o Komilão, existiam diversas outras Kombis sanduicheiras espalhadas pela cidade. Cada família devia ter a de sua preferência. O sanduíche era saboroso e com um preço acessível. Em Cuiabá era famoso o x-bagunça, lanche que continha tudo o que a imaginação humana pudesse imaginar, ou que a Kombi pudesse transportar. Mais tarde, o x-bagunça ganhou sua versão compacta, conhecida como Baguncinha, que nos áureos tempos custava a bagatela de um real. Hoje a inflação chegou, mas eles ainda podem ser encontrados por simpáticos seis reais.

Hoje os tempos são outros. A vigilância sanitária é mais severa com esses lanches de rua e acredito que o pai que leva um filho de menos de seis anos para comer um sanduíche e tomar coca-cola corre o risco de ser apedrejado por pediatras em fúrias. Hoje, uma ala repugnante da sociedade tenta criar um movimento chamado “food truck”. Aliás, tenta não. Já conseguiu. Pessoas que pareciam até ser respeitáveis se mostram encantadas com festivais de “food truck”. Gourmetizaram uma velha tradição brasileira: os lanches de rua.

Em suma, um food truck é a mesma coisa que aquela Kombi de antigamente, mas com algumas diferenças. Enquanto que a Kombi era um automóvel antigo, sobrevivente das ruas e improvisado em lanchonete, os trucks são fabricados especialmente para isso e contam com uma cozinha industrial, custam uma fortuna. Enquanto o chapeiro da Kombi era um sujeito rústico que utilizava a gordura da própria pele para fritar o hambúrguer, o cozinheiro da FT é um mestre cuca com chapéu ridículo e avental impecável. Enquanto o lanche do Komilão custava cinco reais, o Coney’s Burguer vai custar 30. E o lanche da Kombi ainda era mais gostoso.

As Food Trucks popularizam toda e qualquer comida gourmet idiota. Cachorro quente com salsicha de vitela, pão de mandioca e molho de tomate pelado. Coisas com muito bacon, queijo briê e termos que sugiram que seu preparo foi extremamente sofisticado. Termos bestas que não significam nada de especial como “comfort food”, além de inventar significados novos para coisas batidas. Capirinha com picolé e esse picolé se chama “sorbet” só para que você pense que aquilo é uma maravilha.

Outro caso é o das paletas mexicanas. Elas invadiram o mercado e praticamente acabaram com todo e qualquer tipo de picolé que existia até então. Todo dia, inúmeras paleterias são inauguradas no Brasil. A paleta, para quem não sabe, é um picolé com creme dentro. Há vinte anos atrás existia um picolé chamada Frutilly, que tinha creme dentro, um palito excêntrico e com certeza não custaria mais do que cinco reais. As paletas custam 12.

Pode ser que as paletas mexicanas sejam gostosas e que mesmo os Food Trucks vendam comida boa. Mas eu jamais irei a um deles. É uma questão de princípios. Nessa luta injusta contra esse mercado que quer vender o gosto das palavras, nós temos que lutar com as armas que nós temos. Isso precisa parar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Debate filosófico: o pau de selfie

Desde que o dicionário Oxford decidiu que “selfie” era a palavra do ano de 2013, a nomenclatura para tirar autorretratos se popularizou miseravelmente. O mundo vive atualmente em um estágio de selfiedependência, em que é preciso vir, ver e tirar uma foto sua no lugar. Veni, Vidi, Accipies Photus In Loco.

Essa degeneração amplamente difundida na literatura médica foi ainda mais acentuada pela utilização de um bastão, popularmente já conhecido como pau de selfie. Um pedaço de material indefinido – nunca toquei em um, não sei o que é – no qual se encaixa uma câmera fotográfica na ponta e é possível tirar fotos de si próprio. Temos um dilema aí.

A selfie, todos nós já sabemos, é uma foto que você tira de você mesmo. A utilização deste bastão ainda caracteriza uma foto de si próprio, ou é necessário que a própria pessoa tire a foto, sem o uso de nenhum objeto? Polêmico. Por isso é que nós voltamos a reunir centenas de cabeças pensantes em nosso luxuoso auditório em Cuiabá no primeiro dia do ano de 2015. Reunimos roqueiros decadentes dos anos 80, monges budistas, vereadores cassados por corrupção e debatedores compulsivos, em geral.

Pai Jorginho de Ogum, nosso tradicional Mestre de Cerimônias, fez a apresentação do tema e de suas implicações lógicas, filosóficas e filológicas. Abriu o microfone para quem quisesse falar e só pediu para que, por favor, nenhum homicídio fosse cometido dentro do auditório, já que é muito difícil retirar as manchas de sangue seco do carpete. Pediu então, que todos os indivíduos armados se desarmassem ou se retirassem do local. Percebendo o rápido esvaziamento do auditório, principalmente no setor dos monges budistas, Jorginho voltou atrás, mas clamou pela não violência.

O ex-roqueiro e celebridade do Twitter, Lobão, começou o debate dizendo que essa é mais uma armadilha do petismo para promover a cubanização do Brasil. “Começam assim, com longos bastões negros e logo trarão cubanos com paus pretos enormes para enfiar o golpe comunista ânus adentro do povo brasileiro do bem”. Seu microfone precisou ser cortado e Jorginho autorizou o uso de armas, já lamentando pelo carpete.

O debate recomeçou de maneira mais amistosa. Dalai Lama afirmou que a utilização da palavra selfie já era terrível por si só e que os seres humanos que fazem uso dessa expressão merecem ser sacrificados, porque só assim a paz mundial será alcançada. Bastante exaltado, Dalai afirmou que proibiu os selfies em todo o Tibet e propôs uma votação para saber se selfie era uma palavra escrota. Votação realizada, a escrotidão do selfie foi definida por unanimidade.
Eles foram sumariamente assassinados

Uma vez reconhecida a decadência humana provocada pela referida palavra, finalmente chegou-se ao bastão. Seu uso descaracteriza o selfie? Bill Gates acredita que não. Uma vez que o selfie é uma ação permitida pela tecnologia, qualquer tecnologia agregada não irá descaracterizar a autofoto. Steve Jobs se manifestou contrariamente. Se definindo como um tradicionalista, Jobs afirmou que selfies podem ser feitas apenas com celulares, uma vez que câmeras fotográficas existem desde antes da existência da palavra. “Apenas o iPhone é que permitiu as selfies”. Dalai Lama disse então que o responsável pela existência do selfie deveria morrer.

Didi Mocó afirmou que, se o pau de selfie descaracteriza o selfie, talvez isso seja bom, porque tudo que possa ser feito para acabar com as selfies será bom. Didi então contou uma história, de sua juventude no nordeste, quando ele viu uma criança no colo de uma mãe pobre, que não tinha dinheiro para comprar um celular. A criancinha olhou para a mãe e perguntou “mamãe, no céu tem selfie?” e morreu. Renato Aragão foi às lágrimas, mas ninguém aplaudiu.

Professor Pasquale questionou se é “a selfie” ou “o selfie”. Valesca Popozuda afirmou que, dentro de quatro paredes, vale tudo para se satisfazer com um selfie. Vinícius Gressana perguntou sobre a aplicação prática do pau de selfie nos mais variados fetiches, mas foi interrompido por Pai Jorginho de Ogum, que não queria ver a discussão se perdendo por temas coadjuvantes.

A cantora Claudia Leitte virou sua cadeira e disse que o uso do pau de selfie é brega e o travesti Vanessão perguntou quem Cláudia Leitte acha que é para dizer que qualquer coisa pode ser considerada brega. Glórinha Kalil manifestou seu apoio a Cláudinha e afirmou que realmente o pau de selfie transforma o ato de fazer uma selfie em uma coisa ainda pior. “Totalmente degradante”, afirmou. Lobão voltou a se manifestar e disse “morte ao PT” um pouco antes de um filete de sangue escorrer pela sua boca e ele cair no chão.

A discussão prosseguiu mais algum tempo com várias pessoas afirmando que o pau de selfie é uma coisa totalmente ridícula e ao final chegaram a conclusão de que é preciso acabar com esse mal que aflige a sociedade. “Vamos pegar em armas e acabar com o pau de selfie e acabar também com quem utiliza o pau de selfie”, bradou o Dalai Lama, prontamente seguido por Mahatma Gandhi. Apenas chegaram a conclusão de que não deveriam utilizar o pau de selfie para empalar os inimigos porque isso poderia ser caracterizado como utilização do pau de selfie, mesmo que não para os seus devidos fins.

E a revolução foi para as ruas, ao som da Marselhesa.