sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A Pamonha Final - Final Mesmo


Marcão logo chegou servindo arroz para um grupo de hipsters e eles comiam aquela porra toda, literalmente. O arroz cheira logicamente mal e a situação não deixava de ser grotesca. Marcão me entregou um cardápio e eu pensei por alguns segundos se deveria tocar naquilo. Lamentei por um segundo não ser desses hipocondríacos que carregam um frasco de álcool em gel no bolso. Mesmo reticente, peguei o cardápio.

Constavam no menu o risoto leblonense, espetinho de tobinha de porco e uma variedade interminável de pamonhas. Falei com Jorginho que, até onde eu conhecia – tudo bem, não sou grande conhecedor do assunto – existiam apenas dois tipos de pamonha: doce e salgada. Jorginho disse que realmente existem apenas esses dois tipos, mas que elas podem levar dezenas de recheios. Calabresa, carne seca, carne desfiada, frango, presunto, queijo, enfim. Todos os recheios recebem um ingrediente gourmet, como queijo briê, manteiga de ervas finas, coisas com o nome em francês. Jorginho me confessou que isso era mentira, era apenas um artifício para cobrar vinte e oito reais numa mera pamonha.

Algumas ainda eram embaladas de maneira extravagante, elevando ainda mais o preço. Existia a Pamonha Kátia Abreu, que vem com um monte de porcaria dentro e custa trinta e nove reais. Existe a Pamonha da Vovó, vendida por quarenta e seis reais e em cuja descrição consta uma receita secreta de família. Jorginho me disse que não existe nenhum elemento secreto. No caso, ele junta a pamonha estragada com os restos de pamonha deixados pelos clientes do dia anterior para um novo prato. O aspecto estranho do quitute leva os clientes a acreditar que realmente há um afã místico na parada. Tive que reconhecer que Jorginho realmente é um gênio dos negócios.

Ele então me disse que queria conversar seriamente. Queria saber por que eu não havia feito as previsões com ele, depois de tantos anos de fidelidade. Respondi que não havia feito previsões com ninguém porque não achei necessário. Depois de tantos anos, tantas previsões erradas e tantas situações inusitadas, os leitores já não achavam mais graça naquilo. Nem eu achava mais graça. Não era nada pessoal. Felizmente não disse “não é com você, é comigo”.

Jorginho ficou se sentindo desprestigiado. Eu já havia aposentado os horóscopos, agora pretendia aposentar as previsões. Sentiu que eu estava aposentando ele da história do CH3. Falei que isso não era verdade, que, apesar de as pessoas já terem percebido que eu sempre recorro para ele quando não tenho nenhum assunto para postar e que os posts sobre ele são verdadeiros fracassos de crítica e de público, que eu jamais o abandonaria, que ele sempre faria parte deste blog. Esteve desde o começo e estará até o fim. Lembrei inclusive que o cafetão do destino logo vai completar 65 anos – idade para se aposentar – e que provavelmente ainda vai morrer antes do blog, deixando milhares de órfãos.

Olhando para o lado para ver se sua mulher não havia escutado a parte dos órfãos, Jorginho perguntou se, o fato de eu estar ali significava que eu iria fazer um post com ele. Respondi que provavelmente sim. Todas as vezes que nós nos encontramos merecem um post no blog. Perguntou se aquilo significa que eu não tinha assunto para postar e só por isso eu estava ali. Respondi que poderia ser, mas que nesse caso não. Tenho uma série de assuntos para abordar, mas iria deixa-los para depois. Tudo para prestigiar um velho amigo. O brilho voltou aos seus olhos.

Conversamos por mais algum tempo, enquanto os hipsters não paravam de comer aquele arroz fedorento. No final, nos despedimos como nos velhos tempos e ele me entregou um papel. Só o vi quando cheguei em casa. A folha continha algumas previsões para o ano de 2015 e elas eram: um famoso vai morrer, um avião vai cair, o Palmeiras vai passar algum vexame.

Esse velho não muda nunca. Ou será que é o mundo que é sempre igual?

Um comentário :

Gressana disse...

Rapaz, que final comovente.