sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sindicato dos Animadores de Torcida

Ser um mascote fantasiado é um profissão desgraçante, sem dúvida. Mas pode ter algumas vantagens.
- Se vestir de Homem-Celular e virar uma celebridade do youtube.
- Se vestir de Tigre em um estádio de futebol e ofender a torcida do Corinthians, protegido pelas grades e pelo anonimato.

No entanto, você tem que se vestir com uma roupa ridícula, passar calor e – pior – fazer palhaçadas para agradar os torcedores. Não importa se é a final da Copa do Mundo ou o torneio de consolação do Centro de Tradições Gaúchas.

Mas pense, sendo um mascote, você ainda está anônimo. Ninguém saberá que nas horas vagas você se veste de raposa e dá cambalhotas em jogos do Cruzeiro. E quando você tem que animar a torcida com o rosto a mostra? Com sua cara ali para ser reconhecido por todos? Heim?

- Vamos lá galera! A gente vai distribuir camisetas da seleção, mas para ganhar tem que estar bem animado! Com as duas mãozinhas lá no alto! Vamos lá!

O que é preciso para ser um animador de torcida? Ter um vasto conhecimento das palavras mais degradantes do vocabulário brasileiro (galera)? Falar no diminutivo? Estar sempre de bom humor? Além do preparo físico exemplar, para ficar pulando, cantando e ainda gesticulando para a torcida.

Porque? Porque alguém tem que se submeter a essa condição? Qual é a importância de a torcida ficar animada? As pessoas estão ali para ver o jogo ou para ganhar brindes? Bem, sim, é verdade. A maior parte da torcida está ali para ser presenteada e aparecer a televisão. Imagina algumas situações na vida de um animador.

Acordando os filhos:
- Bom dia sol! Bom dia galera! Estamos começando mais um dia animado! E quem quer ir pro colégio? Heim? Mas pra ir pro colégio tem que estar com as mãozinhas lá pra cima, pulando bastante e cantando a música (...I gotta feeling that...). Vamos lá heim! Mas que povo desanimado!

Batendo o carro:
- Calma ai amigão! Pra que tanta pressa? Isso aqui é só diversão! Vamos lá, vamos cantar a música para receber os policiais que vão fazer o B.O.! (...você foi raio de saudade meteoro...).

Sexo (porque o povo gosta de uma putaria):
Eu estou chegando lá heim! Quero ver você com a mãozinha lá em cima, batendo palmas e pedindo mais!

Reunião do Sindicato dos Animadores de Torcida (Sindanitor):
- E ai galera! Como é que vocês estão? Bom Dia! Não escutei heim, de novo, BOM DIA! Hoje nós vamos discutir um assunto muito sério. Nosso indicativo de greve heim! Quem quiser falar tem que estar bem animado, jogando as mãozinhas lá em cima e batendo palma na ritmo da música (Loca, loca, loca). Quem quer falar?
- E isso ai galera! Nós temos que lutar pelos nossos direitos! Nos últimos dez anos nós sofremos perdas salariais de 40%! Isso não pode ficar assim heim! E quem tá vindo ai! Ele, o nosso mascote, o João Lobão!
- Não vamos desanimar heim! Hoje nós vamos votar no nosso comando de greve! E quem quiser, olha só, os candidatos vão entrar dentro dessa bola e vão ter que percorrer o auditório! Quem conseguir dar duas voltas antes é o nosso diretor! E também ganha uma camiseta autografada pelo Ronaldinho!

O presidente do Sindanitor é o narrador da sessão da tarde.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um dia na vida de Caio Fernando Abreu

Somos bombardeados todos os dias por frases de Caio Fernando Abreu. Redes sociais reproduzem frases do autor e em alguns momentos, parece que elas vivem disso. Dar indiretas utilizando frases de Caio Fernando Abreu. E quem é Caio Fernando Abreu? O que ele fez? Quem foi este homem que após a sua morte subjugou autores como Drummond e Oscar Wilde no ramo de reprodução de frases bonitas e lidera com folga a categoria de palavras retuitadas?

Poderíamos apenas jogar seu nome no Google e colar sua página da Wikipédia por aqui. Mas isto não é jornalismo. Não é este o tipo de comprometimento que o blog CH3 tem com o seu público. Não, não é. Resolvemos que iríamos nos encontrar com o próprio. E explicarei como isso aconteceu, antes que os necrófilos de plantão venham nos aplaudir.

Entramos em contato com Pai Jorginho de Ogum, o senhor da humanidade. Ele virou dois copos de caninha 21, mascou uma jujuba e me convidou para uma partida de bozó. Ele sempre pedia embaixo e sempre errava. Suas capacidades no jogo de dados eram péssimas, concluí. Quando eu estava prestes a marcar um general, Jorginho fechou os olhos. Uma luz se acendeu - era Marcão pedindo uma chave de fenda. O mago das almas entrou em transe.

Logo ele me falou com uma voz diferente. "Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um bem danado depois que passa". Perguntei o que era aquilo, se ele tinha virado poeta. Ele me respondeu que a ordem era desocupar lugares. Fiquei em silêncio e ele me disse que amor não resistia a tudo, que amor era jardim que se infesta de erva daninha.

Ficamos ali por meia hora. Ele a me dizer frases retuitáveis e eu a esperar. Lá pelas tantas conclui que Pai Jorginho de Ogum havia incorporado Caio Fernando Abreu. O cara é bom. Tentei conversar com o poeta, mas ele não parava de dizer que tinha tentado aprender a ser humilde e engolir os nãos que a vida o enfia goela abaixo. Depois de muito esforço ele parou de falar aquelas frases todas. Consegui marcar um dia para que eu acompanhasse a sua rotina.

Fui então até o cientista colombiano, dançarino de rumba e graduado de Haggai Alfredo Humoyhuessos. Ele me mostrou sua máquina de viagem no tempo. Um DeLorean DMC-12. Entrei dentro do carro dei partida e quando me vi estava na estrada de Santos ao lado de um cachorro sem braços. Pisquei os olhos e estava em Porto Alegre ao lado de Caio Fernando Abreu.

Ele acordou e disse para que eu não me permitisse me entristecer por nada e por ninguém. Tomou café e disse estar fazendo tudo da maneira mais bonita que ele sabia. Saiu para passear com seu cachorro e afirmou que escrever é enfiar um dedo na garganta. Antes do almoço ele se virou para mim e concluiu que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Dobrou o guardanapo e disse que tinha vontade de pedir silêncio. O pudim de leite chegou e ele reiterou que saudade é a memória do coração.

Pediu um café ao garçom, lembrando que sogra boa é que nem cerveja, gelada em cima da mesa. Assim que o café chegou Caio Fernando Abreu fez uma pausa. Proferiu que Big Brother de pobre é buraco de fechadura. E que chifre, oras, chifre é igual dentadura. Demora mas você se acostuma.

Entrou em seu carro com um adesivo escrito "nóis kpota mas num brek" e se despediu, dizendo que eu deveria apenas seguir o dinheiro. Entregou-me uma compilação de frases que ele havia dito apenas naquele dia e lembrou que ele só via dinheiro e mulher bonita na mão dos outros. Gritou Pablo Neruda e foi embora.

Procurei meu carro e não encontrei. Me encontro perdido em 1986 e as rádios não param de tocar A-HA. Se isto não é o inferno, o inferno certamente não é.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Era do Celular

A nossa sociedade atual pode ser dividida em a.C e d.C. Antes e depois do Celular. Quando você se pega entrando no facebook enquanto espera que lhe sirvam um chá de cadeira é até difícil imaginar como era a vida antes de sua invenção.

Assim que surgiu, o telefone celular tinha a função de facilitar a comunicação. Eram aparelhos do tamanho de um tijolo, que vinham com duas baterias – afinal elas não duravam mais do que cinco ou seis horas. O sinal era horrível e o mais normal é que você não conseguisse falar com as pessoas desejadas.

Aos poucos os celulares foram diminuindo de tamanho, melhorando a vida útil da bateria e se tornando realmente úteis. Realmente podíamos importunar a vida de alguém com apenas nove toques no teclado. 9982-0281 chamar. Hoje, os celulares novamente têm o tamanho de um tijolo e a bateria não dura dois dias. Mas, podemos entrar na internet, fazer café e mandá-lo pagar nossas contas.

O celular hoje tem dezenas de funções sociais. Como era a vida antes dele? Já tivemos a era do celular-despertador, celular-lanterna, celular-dançarino, celular-calculadora, celular-conversor-de-medidas, celular-agenda, celular-bloco, celular-calendário, celular-toque-constrangedor-que-te-humilha-em-lugares-públicos. Hoje, senhoras e senhores, vivemos a era do celular-tudo.

SAÍDA DE REUNIÃO
Antes: Você saia de uma reunião importante e via diversas pessoas te fazendo perguntas, sem ter para onde fugir.
Depois: Você saí da reunião com o celular na orelha e gesticulando enquanto anda. As pessoas não irão conseguir te perguntar nada. Sair do lugar com o celular no ouvido é uma das principais funções do aparelho. Além de evitar contato com as pessoas, lhe concede um ar de importância. Parece que você já está agindo. O que você podia fazer antes? Andar e fazer palavras cruzadas?

EXIBIÇÃO
Antes: Você saía com a Scarlett Johansson. Era preciso subornar o garçom para que ele confirmasse a história.
Depois: Você tira fotos eróticas no seu Blackberry e envia por e-mail para todos os seus amigos, além de guardar este momento para sempre.

REVOLTA
Antes: Você via uma pessoa comendo picles na rua. Ia dormir com aquilo amargurando a sua alma.
Depois: Você filma a situação toda e envia para o youtube. Xinga muito no Twitter, comenta no facebook, recebe mil likes. A repercussão derruba o Ministro dos Transportes. Egípcios vão para a praça Tahrir pedir a cabeça de algum ditador sanguinário do mundo árabe. É muito pior quando você é flagrado comendo picles. Mas, você mereceu.

Este é um breve apanhado do livro “A vida e obra celular”, lançado em breve pela Editora CH3.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Pan no Pan

Faltam 21 dias para os jogos Pan-Americanos de 2011. Um evento esportivo de médio porte, cheio de atletas fracassados de países subdesenvolvidos. Uma vez que o Brasil conquista muitas medalhas neste torneio, a mídia nacional costuma a supervalorizar a competição. O Brasil ganha o torneio de handebol contra os juvenis das Bahamas “ano que vem é promessa de medalha nas Olimpíadas!”. Fracasso.

Mas, nós não poderíamos perder a oportunidade. Desde 2007 que eu sonho com essa oportunidade. No dia seguinte em que os jogos pan-americanos do Rio de Janeiro acabaram eu tive a idéia de criar a série “Hanz o Pansexual nos jogos Pan-americanos”. Guardei esta idéia até o dia de hoje.

Muita coisa mudou desde então. A música papanamericano dominou as paradas de sucesso, infernizando a vida de nós, pobres mortais. Mas, como um dos mais importantes veículos da mídia nacional, o CH3 não poderia deixar de superestimar os jogos e, por isso, faremos essa cobertura especial.

Desde 2007, o CH3 instala vírus nos computadores de seus usuários. Este vírus subtraí uma quantia ínfima de dinheiro dos CHnautas. Uma forma quase imperceptível de colaborar com este blog, ninguém percebe. Desde então, a quantia arrecada financiou algumas festas, a pintura no muro da casa de diversão noturna Carnicentas e agora esta viagem. Compramos a passagem de ida.

Você pode perguntar se está foi a maneira que nós encontramos de nos livrar deste velho imundo e nojento. Sim, é. No aeroporto, entrevistamo-lo antes de ele ser anestesiado para a viagem.

Qual é a sua expectativa para essa viagem?
Ya gostarr muito da México. Ya achar que essa nome é bastante sensual, México, México.

Quais são os seus esportes preferidos?
Ah, ya gostarr muito de salto com varrra. Do salto e da varrra, principallmente da varrra. Ya adorrrar as lutas grecorromanas. Tambem gosto muita de remo, e do boliche, principalmente dos pinos. Gosto tambem do hipismo com aquelas cavalinhas lindos. Da rrede do voleibal, da grrrama do futebol. Ya gostarr de toda e qualquerr esporrrte, me excita facilmente qualquerrr uma.

E os seus ferrr, digo, feriados prediletos?
Ya, ya gostarr muito do dia do indio. Sei que non é ferriado, mas ya gostarr. Ya gostar muito de indio. Ferrrriado também.

Amarelo ou Laranja?
Larrranja, ya.

Azul ou Abacate?
Abacate. Quando estarrr marrrcada a minha passagem de vollta?

Logo mais vai estar. Durante a viagem a gente resolve isso. Não se esqueça de mandar as matérias.

Foi levado em uma jaula, vestido como Hannibal Lecter. Marcão e o Cão Leproso se abraçaram. Uma solitária lágrima correu pelo olho esquerdo de Jorginho de Ogum.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Guia CH3: Como servir um chá de cadeira

O chá de cadeira é uma das mais sensacionais iguarias da culinária contemporânea. Suas formas e sensações únicas, permitem que ele seja apreciado em confortáveis poltronas, avançados sofás - frutos da moderna engenharia de móveis - além das velhas e tradicionais cadeiras.

Fazer um chá de cadeira não é das coisas mais difíceis. Faz-se chá do jeito que os chás são feitos. Do mesmo jeito que se faz o metálico chá de panela, o macabro chá de bebe, o simpático chá de cogumelos, o enrolado chá de fita, o tradicional chá de camomila.

A diferença está na forma de servi-lo. Convenhamos, que não há hora, tempo, lugar para se tomar um chá de cogumelo. Qualquer hora é hora. Assim, como chás de camomila podem ser fornecidos periodicamente a quem quer que queira. Claro, convenhamos que chá não é algo tão aprazível para se beber. Seu uso é muito mais prazeroso, excitante, quando tem fins de besuntação. A qualquer hora.

O chá de cadeira não. Ora, claro que não. Não venha com essa de que está aí na sua casa, assistindo TV e vai tomar um chá de cadeira. Que está no meio da rua, vai se despir e se besuntar com chá de cadeira. Besunte-se com manteiga, geléias aromáticas ou pasta de fígado de pato. O CH3 tem uma ampla literatura sobre o assunto.

O chá de cadeira deve ser servido quando as pessoas tiverem que esperar. E não falo em esperar pelo ônibus. Falo em esperas longas, esperas que não mostrem nenhum futuro.

Chame alguns amigos para sua casa, convide-os para tomar um chá de cadeira. Mantenha-se atento e certifique-se que você tenha confortáveis poltronas, avançados sofás - frutos da moderna engenharia de móveis - ou velhas e tradicionais cadeiras. Quando falo em alguma velha e tradicional cadeira, incluo até mesmo ser aquela cadeira do Senado Federal, José Sarney.

Deixe seus convidados esperando. Um bom chá de cadeira é feito na hora, por isso ele demora tanto. Escolha uma cadeira, e aqui falo de cadeira, não de confortáveis poltronas. A escolha da cadeira é fundamental para o sabor do chá. Uma cadeira de mogno gera um gosto mais encorpado, cadeiras de jacarandá são mais suaves. Evite eucalipto, porque dá enjôo. E também porque as cadeiras dessa madeira são ruins.

Atenção. É importante lembrar que você não deve utilizar uma cadeira que já estava sendo utilizada por um convidado. As cadeiras precisam ser frescas e é uma tremenda falta de educação servir chá de cadeira para as pessoas em pé. Garanta que eles tenham pelo menos um degrau para sentar, ofereça um pano para não sujar a calça.

Faça o chá. Já falei em outras vezes, procure na internet como se faz um chá. Eu não sou nenhuma Ana Maria Braga, para ensinar a cozinhar, cortar as unhas e discutir homicídios brutais.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Origem XXX

Se há um mercado em alto na indústria cinematográfica convencional, este é o mercado de filmes do tipo “a Origem”. Em tempos remotos, muitos cineastas faziam filmes experimentais, malucos, sem pé nem cabeça, aproveitando a liberdade de não se prender ao passado. Colocava-se o filme em um futuro distante, tanto, tanto tempo depois que qualquer coisa poderia acontecer. Um mundo em que os humanos rastejam? Pode. Um planeta com tênis voadores? Beleza.

Anos depois, alguém tem uma idéia “vamos explicar como tudo começou”. Então, dá-lhe explicar como é que os macacos dominaram o mundo, como é que o Batman passou a se vestir com roupas de estilo bondage. Benditos sejam os diretores de outrem que permitem esse ganho de dinheiro fácil! Maldito seja Stanley Kubrick que já explicou a origem de “2001: uma odisséia no espaço” logo no prólogo.

Em breve, poderemos ver nos cinemas mais algumas origens:

Laranja Mecânica, A Origem: Um filme que explicaria como o leite se tornou tão popular entre os jovens da época. E de onde raios surgiu o idioma maluco que eles falam.

ET, o Extraterrestre: O nascimento do ET em seu planeta natal, e porque é que ele veio até esse lugarzinho azul chamado Planeta Terra. Afinal, um extraterrestre não deve ter caído aqui por engano.

Rocky Balboa: A juventude do garanhão italiano. Vítima de Bullying, ele recorre ao boxe para se vingar. Mostraria e entrevista de emprego que o levou até o frigorífico.

Jorginho de Ogum, o filme: Como o jovem adolescente começou a viver sua mediunidade, sua estréia no Flamengo e a amizade com Marcão.

O Exterminador do Futuro: Como o mundo chegou a essa situação? Em outros tempos, teria o terminator sido governador da Califórnia?

Chapeuzinho Vermelho: O jovem lobo-mau sendo vítimas de maus tratos por seres humanos, sendo constantemente sufocado por um pano vermelho. Ele cresce e se muda para um bosque, onde observa uma jovem, chapeuzinho vermelho. A vingança está apenas começando.

Cinderela Baiana: Bem...

Depois, é claro, todos esses filmes ganhariam paródias pornográficas. Inclusive do próprio filme “A Origem”, que explicaria de onde vem os sonhos eróticos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Imprecisão dos fatos

Foi a grande notícia do dia de ontem. Um grande acidente de proporções incalculáveis atingiu uma multidão de carros em uma rodovia paulista. Logo alguns sites noticiaram um acidente com um caminhão. Depois, 20 carros se chocaram. Logo passaram a ser 50. Um site soltou: 70 carros. Outro que foram 150. Correram boatos de que eram quase quinhentos carros.

Dormi pronto para acordar hoje com a notícia de que não haviam mais automóveis em São Paulo. Foi então que saíram os números oficiais. Foram 270 carros.

Curioso como essas coisas ocorrem. Imagino que seja um processo parecido com o do telefone sem-fio.
- Viu o acidente, vinte carros bateram?
- Viu a batida? Parece que foram vários carros. Uns 50.
- Mais de 100 carros bateram, viu?
- Batidaça. Morreram 100 pessoas.
- 200 mortes? Bateram quantos carros, 500?
- 1500 carros. Vários mortos. Rodovia interditada.
- Foi feio. A estrada ficou destruída. Acho que mais de mil dias pra consertar.

Eu me lembro bem, lá pelos idos de 1998, o piloto Christian Fittipaldi sofreu um acidente na Fórmula Indy. Primeiro, parecia que ele tinha sofrido hematomas. Logo passou a ser uma fratura. Fratura dupla na perna. Fraturas múltiplas na perna direita, fratura da tíbia da perna esquerda e deslocamento do pulso direito. Mais um pouco e ele estava em coma. Felizmente a corrida acabou antes que os narradores precisassem dizer “Christian foi um grande piloto... um grande homem...”.

Mas as coisas não ocorrem apenas no aumentativo. As proporções diminuem com o passar do tempo. Lembrem-se dos atentados nas torres gêmeas de Nova York? Bem, sim, imagino que vocês se lembrem deste fato.

Logo que as torres caíram, aquela tragédia toda, os jornais falavam em 20 mil mortos. Mais um tempo e eram 10 mil, 5 mil. Hoje o número oficial é de 2996 vítimas. E já há quem diga que os atentados não ocorreram, tal qual o homem nunca pisou na lua e Paul McCartney morreu em um acidente de carro em 1966.

Neste caso o processo é o seguinte:
- Você vê o negócio pegando fogo e pensa “caramba, morreu gente de mais. 200 mil mortos, no mínimo”. Com o tempo, você vai se acalmando e começa a raciocinar. “Pensando bem, não deve ter morrido ninguém”.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Casais Flagrados Fazendo Sexo

Todo dia eu entro na internet. Sim, eu faço isto. Percorro alguns sites noticiosos e me deparo com uma notícia recorrente. Um casal foi filmado fazendo sexo em algum lugar público, veja o vídeo. Seja um casal no colégio, a prefeita de uma cidade da Alemanha, safada, que não conteve seus instintos no alto de uma torre. Ou a pobre coitada, literalmente, flagrada fazendo sexo em uma janela durante um jogo de futebol.

Todos os dias, em absolutamente todos os dias alguém é flagrado fazendo sexo em algum lugar público. Neste momento alguém deve estar nessa situação comprometedora. Talvez seja você, quem estará amanhã, flagrado em momentos picantes enquanto lia o Blog CH3. Esta tendência de mercado inaugurada por Daniela Cicarelli está em viés de alta.

É o advento da sociedade de controle. Todo e qualquer centímetro de nosso território deve estar sendo filmado por alguma câmera de segurança. Fora isso, os celulares com câmeras também estão a disponibilidade de qualquer um. Então, você está lá em uma rua deserta, bate aquele puta tesão e pá. Quando chega em casa, lá está sua atuação registrada para a eternidade pela câmera de segurança de uma árvore ou por um maratonista amador.

Conversamos com um deputado da Macedônia que foi flagrado em um coito na recepção do seu gabinete, por uma equipe de cinegrafistas amadores.

Como foi ser flagrado em um momento tão íntimo?
É um absurdo. A sociedade precisa pensar no que está acontecendo. Veja você, eu estava na recepção do meu gabinete e a secretaria deu mole para mim. O que um homem faz? Eu lhe pergunto o que um homem faz nesse momento? Foi o que eu fiz.

Você não sabia que estava sendo filmado?
Bem, havia uma equipe de TV no gabinete. Mas eu achei que eles fossem ter a ética suficiente de entender o momento que eu a secretaria estávamos tendo. Eu lhe pergunto, você tem o costume de filmar pessoas fazendo sexo, transando, molhando o biscoito? Você acha isso normal?

Bem, mas não é normal fazer sexo na frente de outras pessoas.
Esse é o seu preconceito. Se você é careta, o problema é seu. Veja bem. Esses dias mesmo eu fui flagrado também fazendo sexo, afogando o ganso, trepando em uma mata fechada. Já fui filmado em uma rapidinha nos mais diversos lugares. Eu não tenho mais privacidade nenhuma. Eu lhe pergunto, é legal não ter privacidade? Vou ter que gastar dinheiro para isso?

Mas você não liga em ser visto para outras pessoas? Qual é o problema de aparecer na internet, então?
Não fico bem em vídeo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nestor, o homem que não sabia presentear

Nestor era um homem como tantos outros. Não saberia descrevê-lo, porque eu sou péssimo fisionomista. O que importa é que é ele era o homem que não sabia presentear. Todos nós sabemos que é difícil dar presente para alguém. Nestor não tinha problemas em comprar. Ele sempre presenteava. O problema é que ele não sabia medir os presentes.

Quando era jovem, Nestor foi acompanhar sua namorada no aniversário de um amigo dela.
- Oi, esse aqui é meu namorado Nestor.
- Tudo Bom?
- Tudo sim. Prazer conhecer. Eu trouxe um presente pra você.
- Que é isso, não precisava.
- Nada, só uma lembrancinha.
- Ah, um chaveiro que legal.
- O Jaguar está parado ali fora.

Sim, o Jaguar estava parado do lado de fora. Assim era Nestor, ele não tinha noção da importância do presente que ele teria que dar. É histórica a situação de um amigo oculto do trabalho em que ele tirou o nome do vigia. Qual foi a surpresa do vigia ao abrir o embrulho.
- Uma máquina digital!
- É, da Nikon. 10.2 megapixels, lente removível. Você gosta de botar fotos no Orkut, achei a sua cara.

Você já deve estar pensando “nossa, eu deveria ser amigo desse cara”. Mero engano. No ano seguinte, no mesmo amigo oculto, ele tirou o nome do seu melhor amigo. O presente? Um CD do Renato Russo cantando em italiano.

Quando ele foi convidado pra ir ao casamento de uma vizinha que mal conhecia, surpreendeu ao presentear os noivos com uma viagem de 15 dias, com tudo pago em Paris. Quando foi padrinho no casamento da sua irmã, surpreendeu os noivos com uma frigideira. “Sei que você adora um ovo frito”, disse.

E quando ele deu um Dogue Alemão para um amigo que morava numa kitnet? Como alguém recusa um presente assim?

Teve apenas um filho, quando tinha 14 anos. O anúncio de que seria pai tão cedo foi o seu presente de Natal para toda a família. Depois ele se casou e no seu aniversário de 25 anos de casamento deu uma caixinha para mulher. Ela abriu a caixa com os olhos marejados. Dentro, encontrou um bombom sonho de valsa.

Quando Nestor morreu, ele deixou claro em seu testamento que queriam que estudassem o seu cérebro. O problema, é que ele deu seu cérebro de presente para o seu filho. Seu dinheiro ficou com os cientistas. Sua casa com os mórmons. Seu carro com a filha da empregada. Seu filho só com o cérebro mesmo.

Psicólogos imaginam que Nestor era inseguro. Quando ele conhecia bem a pessoa, dava algo que ela gostava. Sua irmã gostava de ovo, uma frigideira. Sua mulher de chocolate, um sonho de valsa. Quando ele não conhecia a pessoa tentava agradar. Seu cérebro pensava "hmm, acho que ele vai gostar de mim se eu der um Jaguar". Psicólogos avaliam que, provavelmente, Nestor queria comer sua mãe.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Finais Frustrantes

Sei que não é legal contar o final de um filme. Contar que o mordomo, sempre ele, é o culpado pelo assassinato provoca reações imediatas. Se a população fosse perguntada em um plebiscito, concordaria com a pena de morte para aqueles que antecipam o desfecho da película cinematográfica. Mesmo sabendo de tudo isso, eu digo aqui que o final de Onde os Fracos Não Têm Vez é frustrante.

Ao meu favor, digo que falar que o final é frustrante é a mesma coisa que dizer que o final é bom, ruim, mesquinho. E também digo que seria uma obrigação, diria até constitucional, que vocês já tivessem assistido a esta obra. Um filme tenso, silencioso, cheio de cenas marcantes, épicas, com uma atuação seminal de Javier Barden no papel do beiçola psicopata. Mesmo com tudo isso, o final é frustrante. Diria que a frustração é até um charme.

Mas, nem sempre é assim. Fazer um final frustrante pode ser complicado. Bem, digamos que na verdade, um bom final é que é difícil. Os autores sempre escapam para aquele trivial: o mocinho salva o mundo, conquista o coração da mocinha, os dois se casam e vivem felizes para sempre em um castelo branco. Por isso, o CH3 sugere uma lista de bons finais para algumas novelas, filmes. Talvez seja frustrante para você.

O Clone: No final, descobre-se que os gêmeos interpretados por Murilo Benício, na verdade, vivem em um mundo paralelo. Jade é uma golpista internacional que queria vender sua filha para o mercado negro de prostituição. O cientista Albieri faz experiências genéticas com seres humanos. De sua testa surgem duas taturanas e a novela termina em Os Mutantes da Record.

Cordel Encantando: Jesuíno é assassinado e o coronel malvado vira prefeito da cidade. Ele começa uma grande carreira política, que culmina com sua eleição para a presidência do Brasil.

Superman: Ao ver Louis Lane morta, o super-homem começa a girar ao redor do planeta, numa tentativa de voltar no tempo. Quando ele chega a terra, percebe que o tempo não volta para trás. O que ele encontra é um planeta devastado por maremotos e furacões provocados por sua correria.

O Som do Coração: Com dois minutos de filme, o diretor pensa “que porra eu estou fazendo?” e desiste de gravar o resto.

Titanic: O barco escapa do Iceberg. Todos comemoraram e gritam de euforia. O Titanic é atingido por um meteoro e afunda. Rose, inclusive.

Planeta dos Macacos: Após uma batalha, humanos e símios comparecem a um show do Jota Quest. A banda é assassinada e a paz volta a reinar no planeta.

Novela de Manuel Carlos: Milícias dominam o Leblon e promovem um estado de terror. Sem babás caminhando com crianças na praça. Os personagens precisam trabalhar para pagar a mensalidade dos milicianos. O capitulo final termina com um discurso do Capitão Nascimento.

Rambo V: Munido de apenas um estilingue e um canivete, Rambo pacifica o Sudão, Egito, Tunísia, Líbia, Iêmen, Síria, Bahrein e o treino do Flamengo.

E então eu acordei.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

As cidades e suas alcunhas

Ao adentrar nos limites do município de Campo Verde, o visitante é recebido por uma placa de boas vindas. Ele é alertado que, ao cruzar o aviso e entrar no território, estará na capital do turismo tecnológico.

É algo a se pensar. O que afinal é o turismo tecnológico? Uma visita até o Japão para conhecer computadores? Passeios monitorados pelas lojas da Apple? Uma ida até o Paraguai, que resulta em uma volta com sacolas? Eis uma questão para outro post, que jamais será feito.

O fato é que toda e qualquer cidade acaba por receber uma alcunha. Cuiabá, por exemplo, é a Cidade Verde. Nossos simpáticos vizinhos de Várzea Grande formam a Cidade Industrial. Primavera do Leste é a Capital Nacional do Bullying. Cáceres é conhecida como a Princesinha do Paraguai. Deve ser humilhante para uma cidade ganhar o apelido de princesinha? Sim, mas acontece.

Criar uma alcunha é um desafio e tanto para o marketing da cidade. Não é fácil sintetizar a aura municipal em uma expressão de duas ou três palavras.

A maneira mais simples é colocar um adjetivo ou substantivo ao lado de Cidade. Se Várzea Grande tem uma fábrica, vira a Cidade Industrial. Se Cuiabá tem meia dúzia de árvores, é a Cidade Verde. Se o Rio de Janeiro tem uma centena de praias, montanhas, monumentos, prédios, já se diz a Cidade Maravilhosa. Devemos ter alguma cidade das gaivotas, se bobear.

Outra boa saída é chamar uma cidade de “Capital de Alguma Coisa”, como no citado caso campoverdense. Geralmente, o título é adotado por alguma cidade que não é capital e quer reforçar a sua auto-estima. Temos Barra do Garças, que é a Capital do Universo. Sinop que é a Capital do Nortão, um título bem monótono, diga-se.

Se o uso de capital ficar meio batido, é possível dizer que o lugar é a Meca de alguma coisa. Dá o ar de sagrado ao local, para irritação dos muçulmanos. Chapada dos Guimarães é a Meca do Ecoturismo. Jangada é a Meca do Pastel.

Ainda existem os curiosos casos em que cidades são comparadas a uma outra do exterior. Campina Grande é a Liverpool Brasileira. Sorocaba é a Manchester Brasileira. Essa comparação cria uma dúvida na cabeça das pessoas, porque afinal, não sabemos o que há em Manchester, imagine na Manchester daqui.

Mas fica bonito. Dá um ar de importância. Se você falar que Alto Caparaó é a Saigon brasileira, vai parecer legal. Ainda mais por conta daquela música do Emílio Santiago (Anoiteceu, olho pro céu e vejo como é bom ver as estrelas na escuridão*, espero você voltar para Saigon).

Melhor ainda quando se diz que um lugar é a Las Vegas brasileira. Eu, particularmente, sempre digo isso para toda e qualquer cidade. Digo aqui que Paranatinga é a Las Vegas brasileira. Todos sabem o que acontece em Las Vegas. Ou melhor, ninguém sabe, porque o que lá acontece... bem, você sabe**.

São Vicente. A Célula-Mater da Nacionalidade!

*Note que é sempre um bom sinal olhar pro céu, quando anoitece, e ver que as estrelas estão lá. No céu e na noite.
** Sutilmente se entende que Las Vegas é a Meca da Putaria.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Compra Coletiva

* Perdão se não incluí tal coletiva no último post.

Já faz algum tempo, que as compras coletivas estão na moda. Atualmente existem aproximadamente 893 sites especializados no negócio, que funciona da seguinte maneira: uma empresa oferece um produto com desconto. Só que para o negócio valer a pena para empresa, muitas pessoas precisam comprar. Ela então anuncia a oferta no site para que mil pessoas comprem o pacote de jujubas por 50 centavos, ao invés de R$ 3.

É a velha lei da oferta e da procura. Mais pessoas, mais dinheiro, menos ele custa. Ligue para o professor de economia mais próximo a você para esclarecer qualquer dúvida eventual sobre o assunto.

Então as pessoas começam a comprar, comprar, comprar. O que atraí as pessoas? Mais do que o preço, é o desconto. Se você estivesse andando na rua e visse um pacote de jujubas por cinqüenta centavos, é provável que nem prestasse atenção. Mas, a partir do momento em que você sabe que ele custava três reais, ou seja, que você vai pagar um sexto do valor, o negócio passa a ser interessante. Você pensa em toda a vantagem que terá adquirindo aquilo.

E sabe o que é cruel? No final, o preço oferecido pelos sites de compra coletiva é o preço justo do produto. Sim, porque a empresa abre mão do seu lucro abusivo e continua com um lucro seguro.

Certa vez, eu fui para o pantanal, glorioso pantanal matogrossense em uma dessas promoções. A oferta era de um desconto de 200 reais. A diária num quarto para quatro pessoas passava de R$ 350 (note nossa ausência de padronização numérica) para R$ 150. O que se imagina? Que fantástico, que lucro sensacional.

Quando você chega ao tal hotel, após uma batalha pela transpantaneira, percebe o fato: R$ 150 seria um preço justo pela diária. Pelo serviço que oferece lençóis com cheiro de desinfetante, uma água barrenta saindo da torneira, quartos sem televisão. O que é importante, porque depois das cinco, no pantanal, só lhe resta ficar trancado no quarto, para não ser devorado pelos insetos.

Mas o hotel deve ter uma infraestrura sensacional, não? Não. Piscina, mesa de sinuca (que pode ser usada até as 17h, porque depois as bolas parariam nos besouros). Um jantar bem mediano, que é servido em qualquer lugar – sim, imagine ir ao pantanal e não ter peixe! Claro que existiam passeios, em que você vê tuiuiús dançarinos do seu lado, gaviões amestrados e até cutuca o toba de uma onça. Pelo custo de R$ 50 por pessoa.

Ou seja, o quarto com água barrenta não poderia custar quase cem por pessoa. O preço promocional era mais do que justo e o enorme desconto só ajuda a criar a imagem de uma experiência monárquica por preço plebeu.

No final, o grande negócio das compras coletivas, é que elas estimulam os consumidores a comprar os produtos, porque é um preço justo. O grande problema é justamente a ilusão lucrativa. Mas talvez, a justiça já seja lucrativa, ou não.

Há ainda outro problema, que em muitos lugares, as lojas atendem mal os clientes de compras coletivas. É como se pensassem “esses pobres só estão aqui pelo desconto, vão se foderem”. Um marketing reverso.

Já ouvi relatos de serviços de quarenta minutos serem executados em menos de 10. De que um prato adquirido na compra coletiva veio menos preparado que o adquirido normalmente. De cuspe na comida, e cabeleireiros (a palavra mais feia do nosso dicionário) degolando cidadãos que compraram um corte no peixe urbano.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

/!\ Atenção /!\ Este texto é um coletivo de idéias

Nos tempos de colégio, em algum momento nós tínhamos que estudar os coletivos. Os grupos de animais, certo? Haviam as manadas de elefantes, as alcatéias de lobos. Os cardumes de peixes. Os rebanhos de bois. A Matilha de cães. Aliás, em outro momento você aprenderia que além de coletivos, meus exemplos são pleonasmos.

Após alguns anos, é bem difícil que você se lembre de todos os coletivos. Por isso, é mais fácil utilizar a estratégia de um antigo professor de auto-escola meu. No seu mundo, todo e qualquer coletivo atendia pelo nome de multidão. Ele dizia que quando nós conseguíssemos nossas habilitações, nos juntaríamos a uma multidão de pessoas, que dirigiam uma multidão de carros, em multidões de ruas, com multidões de acidentes. É uma maneira bem prática.

No entanto, quando você entra num coletivo, não significa que você está entrando em uma alcatéia. Até porque, ao que me parece, entrar no meio de uma alcatéia é uma péssima idéia. Quando você entra num coletivo, você na verdade entra em um ônibus. Ou num microônibus? Em alguns lugares remotos da humanidade, pessoas abreviam os transportes coletivos em sua última palavra.

Ou melhor, você pode entrar em outro tipo de coletivo. Os coletivos responsáveis por coisas bizarras. Manadas de elefantes fazem coisas bizarras também, mas não é este o caso.

Você lê uma notícia exótica num jornal, sobre um boneco de lego gigante que foi encontrado flutuando lá na puta que o pariu. Quem fez aquilo? Foi Deus? Não foi um coletivo de artistas plásticos holandeses. Em suma, um bando de maconheiros desocupados que resolve sacanear a humanidade.

Estes coletivos são responsáveis pelas mais estrondosas intervenções no cotidiano humano. Ao contrário daqueles outros, que, no máximo, batem em um poste aqui ou ali.

E ainda temos a entrevista coletiva. Uma quase tortura. A cada novo fracasso da seleção brasileira de futebol, o treinador Mano Menezes é posto diante de um desafio: explicar as razões da derrota em uma entrevista coletiva. O resto da humanidade se vê diante de outro desafio, ainda maior: assistir à entrevista.

Mano Menezes é um símbolo involuntário da chateza das entrevistas coletivas. O treinador pensa em cada frase durante minutos e demora horas respondendo. Começa cada frase com um irritante “veja bem”. Cada palavra é fruto de um planejamento de longo prazo.