segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os viciados em Paciência Spider

Roberson tem 28 anos. Tinha 14 quando seu pai comprou o primeiro computador da casa. Nessa época, o acesso a internet era restrito. A sua maior diversão com a máquina eram os joguinhos. Roberson gastava horas com Campo Minado e Freecel, mas mantinha sua vida. Sua ruína começou em 2003, quando chegou em sua casa uma nova máquina, equipada com Windows XP.

O novo equipamento tinha um jogo estranho, chamado Paciência Spider. Certo dia Roberson tentou jogá-lo. E nunca mais parou. Abandonou o convívio social. Certa vez ele jogou durante 80 horas seguidas. Só parou quando teve um colapso nervoso que o levou até o hospital. De onde fugiu para retornar ao seu computador.

Roberson não conseguiu passar no vestibular. Parou de estudar e só parava de jogar quando o sono o vencia. Tem vários dados em sua memória, como suas 8109 vitórias consecutivas no nível difícil.

Ao completar 25 anos o pai deu a ele um ultimato. Ou arrumava algo a fazer, ou seria expulso de casa. Dois dias depois ele saiu sem nada pelo portão. Foi morar na rua. Tinha crises nervosas. Sonhava com valetes, reis e ases se amontoando. Se retorcia e chorava compulsivamente. Chegou a pensar no suicídio, mas a vontade de jogar era maior.

Começou a se prostituir. Tudo para conseguir quaisquer dez reais que o permitissem utilizar a lan house por algumas horas. No meio de estudantes, pedófilos e viciados em jogos de guerra, ele jogava Paciência Spider até que o dono o expulsasse. Foi preso ao tentar esfaqueá-lo. Na prisão, tomou banho pela primeira vez em três anos. E sua saúde piorava. Imaginavam que eram apenas crises nervosas, até que ele foi diagnosticado com AIDS.

De volta as ruas, passou a cuidar de carros. Arrumou confusão com outro grupo de guardadores e foi espancado. Levado ao hospital, contou sua história, que comoveu enfermeiras. Ele então passou a receber ajuda especializada.

Roberson agora vive em um Centro de Reabilitação de Viciados em Paciência Spider (CRVPS). Realiza atividades recreativas e passa por um processo de desintoxicação. Lá, conheceu outras pessoas com histórias iguais a sua. Caso de Ana Carla de 23 anos, Antônio de 25 ou mesmo Agenor de 58. O trabalho do CRVPS é complicado. O sistema é todo manual, já que nenhum computador entra no local, para evitar recaídas. Dedetizações são constantes, para evitar aranhas e memórias ruins.

É uma nova vida, uma nova oportunidade que aparece para Roberson. Agora ele sonha em voltar para casa e conquistar um emprego. De preferência, alguma atividade que evite o contato com computadores. Ele se diz esperançoso, pelo fato de pela primeira vez na vida enxergar um futuro.

sábado, 28 de maio de 2011

Idiotice Genial

Eu estava no Terceiro Ano do Segundo Grau. A aula era de português e a professora falava sobre sofismas, falácias e outras coisas. A sala estava dividida em grupos de seis alunos que deviam elaborar perguntas relacionadas ao tema. Pela média, cada aluno deveria criar dois exercícios. Vi alunos se matando em livros para corresponder as expectativas criadas pela professora.

Eu enrolei para fazer o que devia e quase no final, improvisei com a seguinte questão:
“- Todos os vegetais são imóveis.
- Todas as pedras são imóveis.
- Então, todas as pedras são vegetais.
Explique porque o raciocínio está equivocado”.

Era uma questão claramente idiota. Entreguei-a ao meu grupo que riu de mim. Concordaram em incluí-la apenas para fazer número. Sentia um misto de vergonha, alívio e medo de que, ao ler minha questão, a professora se sentisse enfurecida, ofendida e me obrigasse a comer o papel como punição.

Mas, eis que na aula seguinte a professora começou a falar das questões para que a sala respondesse. E então, ela fez uma introdução “Agora, essa questão eu achei genial, muito bem elaborada”. E para o meu espanto, era essa minha questão. Uma questão aparentemente e obviamente idiota, mas que amoleceu o coração da professora que viu nela... não sei o que ela viu. Alguma sutileza que fazia essa idiotice genial.

Começou então um debate na sala. Qual seria a resposta correta. Claro, eu não poderia dar a resposta. Alunos enfurecidos em não conseguir responder. Eles tentavam dizer “oras, não tá certo porque isso é idiota!”. Após o começo de um breve apocalipse civil eu fui dar a resposta. Que claro era idiota.

O que estava errado na formulação do exemplo era a ordem dos elementos, que alteravam o produto. Geralmente diz-se que todos os cachorros são mamíferos. E que todos os mamíferos são seres vivos. Logo, todos os cachorros são seres vivos. Para que o pensamento pudesse ter uma linha correta, teria que dizer que todos os vegetais são imóveis e que todas as coisas imóveis são alguma coisa. Como todos os sofismas são idiotas.

Há uma breve linha que separa os idiotas dos gênios. Uma série de fatores que os distinguem. Um fato pode ser idiota ou genial, dependendo do lugar, da época em que acontece. Ou da pessoa que fala. Se você inventar uma palavra agora, será um retardado. Se for Guimarães Rosa, é um imortal da academia de letras. Se você faz uma piada de churrasco é um idiota. Se for um membro do CQC é um gênio.

O humor nonsense e o surrealismo de uma maneira geral, é um exemplo. Piadas nonsenses envolvem situações idiotas, retardadas, débeis. Mas justamente por isso se tornam geniais. A graça está justamente nesse inusitado, tão retardado que te mata de rir.

Pinte um quadro em que gavetas saem do corpo da pessoa. Você é um retardado, exceto se você for Salvador Dali. Para jogar tinta no quadro e espalhar como se fosse uma criança, trate de ser um pintor famoso e dadaísta. Um artista plástico famoso para que um extintor de incêndio, um quarto vazio, um barco pintado de branco se transformem em arte.

Termino esse post com uma poesia minha. Feita quando eu tinha quatorze anos e tentava por em prática a arte de fazer poesias em cinqüenta minutos para a aula de português. Entreguei-a meio constrangido, com medo de que o professor achasse que eu estava de sacanagem. Poucos meses depois, ela estava publicada no jornal do colégio, ao lado de diversos poemas em ordem indireta escritos, para rimas criar. Devem ter me achado um Drummond, amargo, resignado com a vida.

Há quinze anos atrás, eu não havia nascido
Há dez anos, era dez anos mais novo
Há cinco anos atrás, tinha cinco anos a menos que hoje
E hoje sou cinco anos mais velho em relação a cinco anos passados
E daqui a dez anos serei dez anos mais velho
E daqui a cem anos, provavelmente terei morrido.


Vamos lá, vocês também devem ter seus momentos idiotas, que foram considerados geniais.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A banda mais feia da cidade

O mundo estava fofo demais. A banda mais bonita da cidade dominou as redes sociais e amoleceu corações pelo país. Pessoas diziam que se sentiram tão sensíveis ao escutar a última oração, que chegaram a dar o cu. Pois este era o cenário ideal para a volta dos Benga Boys. A banda mais feia da cidade. A mais odiada. A mais asquerosa.

Ontem à noite eles voltaram a fazer shows, após um hiato de três meses. Período no qual os seus membros se dedicaram a projetos paralelos. Zé Coveiro foi lavar pratos num restaurante de beira de estrada, Pedro Tolete foi carpir quintais e Cláudio Defunto voltou a atuar em filmes de Gore.

Assim, eles conseguiram juntar dinheiro para gravar seu novo disco, o décimo sétimo da carreira, incluindo aí os lançamentos de rap, axé e funk – coisas do período negro do grupo. O disco foi gravado num período de uma hora, pouco antes do show. Foi copiado e vendido embrulhado em papel higiênico com gravuras feitas por Zé Coveiro.

O show aconteceu em um ferro velho, ao lado de um ônibus enferrujado. Era a volta do grupo aos grandes palcos, após uma turnê realizada apenas em Banheiros Químicos e elevadores da cidade. Aproximadamente 17 pessoas compareceram ao local, sendo que 11 pertenciam a um time de futebol que procurava um campo de futebol na região.

Com meia hora de atraso os seus quatro integrantes subiram ao palco, junto com o esqueleto de João Cavalo, morto em um acidente de carro em 1999. Logo no começo, uma série de clássicos como Pussy Vomit, Drinking in the Devil Ass, Put My Cock in your Ears e Toilet Song. O som cru da bateria e a guitarra visceral de Pedro Tolete se confundiam com o som dos ossos se quebrando e dos olhos sendo vazados por cabelos moicanos.

O clima já era de filme do Tarantino. Foi quando a banda tocou Bastard Dog, faixa de abertura do novo disco. Com um minuto e cinqüenta segundos de duração, esta é a mais longa faixa produzida pelo grupo em sua fase underground. Revoltados, alguns fãs começaram a vaiar. Outros relembravam o passado de micareta do conjunto. Quando a música terminou, uma voz gritou “você estão traindo o movimento ultra-protopunk-hardcore!”. Foi a gota d’água.

Começou uma briga entre banda e público que durou alguns minutos. Como não havia policiamento no local, nada podia conter a fúria dos lutadores. A violência foi tamanha, que seria capaz de fazer um lutador de UFC chorar em posição fetal na hora de dormir.

Ao final, o cenário era de horror. O ônibus estava incendiado, dois fãs caiam desfalecidos e o baterista Cláudio Defunto havia perdido um braço. Pensei em ligar para o SAMU e sair correndo, mas por incrível que pareça o show continuou. E numa das atitudes mais hardcores da história, Cláudio utilizou o braço decepado como baqueta para uma última música, que eu não consegui entender qual era, porque os equipamentos estavam destruídos.

Pouco depois, a polícia apareceu no local, atraída pela fumaça. A banda ordenou que a platéia enfrentasse os policiais, mas os mesmos estavam caídos no chão sem força. A polícia rendeu todos e antes de ser enfiado no camburão, João Coveiro gritou “Hardcore Will Never Die! Oração é minha benga!”. Tomou uma cacetada e foi trancafiado. Uma noite inesquecível.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Ofensa na era do Twitter

Após eliminar o Fluminense da semifinal da Taça Rio em uma disputa de pênaltis, o goleiro do Flamengo, Felipe, causou polêmica no Twitter. Numa mensagem considerada ofensiva, Felipe chamou o seu rival de “Florminense”, um apelido criativo e carinhoso utilizado por torcedores rivais. Algo no nível de Curinthians, Flamerda, Gaymio e outros.

Certo, causar polêmica no Twitter não é nenhuma novidade. Antes de Felipe (a.F) outros jogadores já tinham se envolvidos nas maiores confusões através do microblog. Jucilei, ex-jogador do Curinthians, digo Corinthians e atual membro do elenco do glorioso Anzhi Makhachkala da Rússia provocou a torcida organizada corintiana, a Gaviões da Fiel, quando esta perdeu o carnaval. Em uma fina ironia ele perguntou algo do tipo “ué, se eles nos cobram sempre que perdemos, porque eles não ganharam hoje, se são tão bons?”.

A saída de Jucilei, tal qual a de Felipe, não foi muito criativa, mas mostra como são as coisas nos tempos atuais. Jucilei afirmou que um hacker havia invadido a sua conta e postado a mensagem, coisa que ele jamais faria. Já Felipe, disse que um primo seu é que havia postado a tal mensagem. Porque, é claro que ele não faria isso.

Qualquer, e eu digo qualquer um mesmo, assunto que surge na internet repercute no Twitter. E todos os sites adoram medir essa repercussão. “Internautas reagem a notícia no Twitter”. Um trabalho fácil que consiste em clicar num Trending Topic aleatório, ver cinco frases legais e colocar no site. Seja sobre o casamento real, as eleições ou a marcha da cocaína.

Isso facilitou muito a vida dos jornalistas na internet. Você não precisa mais ir até a fonte, basta segui-la no Twitter para saber o que ela faz, o que ela fez e o que ela pretender fazer. Com o FourSquare você sabe até aonde ela foi e pode publicar isso. Fábio Assunção estava no Shopping. Você o viu lá? Não, mas viu na internet. FourSquare, facilitando a vida de jornalistas e seqüestradores há dois anos.

E aí entram as declarações polêmicas. Pessoas famosas que usam essa ferramenta ainda não perceberam que falar no Twitter é praticamente a mesma coisa que falar diante dos microfones em uma entrevista coletiva, só que com muito mais espectadores e erros de português. Então, o cara vai lá e fala que o parceiro dele de novela é um canalha, como se estivesse contando isso no jantar de família. Não é o caso dos seus 82190 seguidores, que incluem fãs do parceiro da novela, jornalistas e stalkers profissionais.

Polêmica criada. Ator diz que colega é canalha do Twitter, berram as manchetes da rede. Climão criado, telefonemas de assessores, como será possível desfazer esse imbróglio? Essa quiçaça? Essa cagada? Não adianta apagar, porque milhões de prints já estarão na internet. Não adianta nem apagar a sua conta no Twitter, pessoas saberão que é mentira (não adianta fugir, nem mentir, pra si mesmo agora). O suicídio é sempre uma solução, mas uma solução que não lavará sua honra.

Resta então apelar para a mais antiga das táticas. Dizer que não foi você. Mas como não foi você? É a sua conta, com a sua vida, a sua foto, os seus seguidores. Mas alguém viu que foi você? Não, ninguém viu. Tem como alguém provar? Você pode ter um habeas corpus de que estava comendo macarronada na hora. Computadores são assim, hackers podem roubar sua senha e colocar o que quiser no Twitter. Eles que tentem provar que o IP que postou isso era o seu.

Sim, porque alguém invadiria o seu Twitter para falar mal de alguém? Em nível de sacanagem, seria muito mais interessante postar uma mensagem afirmando que você é coprófago. Mas não sei, cada um tem os seus motivos. Vai saber?

A estratégia de dizer que é o culpado foi “um primo meu” é ainda mais interessante. É uma estratégia que remete a mais tenra infância. Aquela que dizia “um amigo meu fez tal coisa”. Já explicamos isso num post antigo.

Primos ocupam um espaço interessante na nossa rede de relações. Todo mundo costuma a ter primos, nem que sejam primos de segundo grau. E nossa relação com eles é sempre indefinida. Podem ser primos distantes, ou podem ser primos confidentes a quem confiamos a nossa vida. Talvez exista uma rede de primos de famosos, responsáveis por fazer declarações polêmicas, quem sabe? Ao citar que o autor da ofensa foi um primo, ninguém irá duvidar tanto, uma vez que primos seriam capazes disso.

Mentira, todo mundo saberá que você é que é o culpado e todos te reprovarão. Apenas não irão comentar isso publicamente, para não receberem processos e manter a ordem social.

domingo, 22 de maio de 2011

Doce Vingança

Fomos ridicularizados. Ao redor do mundo inteiro, pessoas apontavam seus dedos para nossas caras e riam de nós. No blog, multidões clicavam que o post não fazia sentido e depois cuspiam na nossa cara. Se essas pessoas moravam longe, elas pesquisavam nossas casas no Google Maps e viajavam apenas para poder cuspir e ver nossa cara de fracasso. Estávamos na miséria, no fundo do poço, sendo retuítados pelo Cão da Depressão e escutando Scorpions.

O motivo? O nosso post sobre as letras e as neuras. Fomos taxados de neuróticos. Loucos. Retardados. Bovinos. Palmeirenses. Aquilo não fazia lógica nenhuma. Éramos todos um bando de desocupados. O fracasso era tanto que a corda era curta demais. A arma estava descarregada, a faca não tinha corte e a luz acabou na hora de jogar a torradeira na banheira.

Mas existe a doce vingança. Aqui, eu não valo da vingança típica, aquela cruel, sanguinária, que envolve muita violência e uma reação muito mais forte do que a ação. Falamos da doce vingança. Aquela que é apreciada com prazer, silenciosamente, degustando um espumante da melhor safra.

E é isso que nós temos hoje. Nós aqui no CH3 estamos com nossos copos cheios e rimos. Rimos do olhar de desolação, da culpa, do ressentimento, do fracasso que agora está estampado nos rostos de nossos inimigos. Pois o tempo, sim o tempo, sempre ele, veio trazer a verdade à tona. E não há nada que possa ser feito para contestar a verdade, quando ela se põe diante de nossos olhos.

Foi divulgado o gabarito do concurso que originou o outrora famigerado post. E lá está a realidade, escondida, subjugada diante da empolgação ou da melancolia pelo resultado. Do total de 60 questões, temos 12 letras A, 12 letras B, 12 C, 12 D e E. E digo mais! Das primeiras 10 questões formuladas pela prova, a proporcionalidade de mantinha a mesma.

A lei da proporcionalidade e razoabilidade das letras da prova, defendida com a ênfase, vigor e o rigor cientifico necessário pelo nosso blog, se mostra correta. Revolucionamos o mundo dos concursos e vestibulares. Dominamos o planeta terra e exigimos sermos reconhecidos como chefes supremos. É a única maneira de que a sociedade e a humanidade como um todo, evite as clamorosas derrotas que tem sofrido diante de nós.

Além disso, ah, como é que é? Isso já é falado nos cursinhos e até existem pessoas que escrevem apostilas sobre isso? Ninguém nos ridicularizou? Ahn, é... bem. Esqueça então.

Mesmo assim, ainda podemos falar sobre a doce vingança. Relacionada a essa prova de concurso.

Quando eu a fiz, eu percebi, não vi, mas percebi nos olhos de alguns antigos professores meus, que eles estariam com suas taças de champanhe observando o meu fracasso. Lembrei-me da professora de Vídeo e a imaginei gargalhando com um Moët Chandon em seu braço direito ao ver que eu não sabia responder qual era o nome de um tipo de microfone. Que ela até passou uma Xerox sobre o assunto, mas que nós todos conversávamos e não prestávamos atenção naquilo pensando “afinal, qual é a importância de saber disso”.

Pensei nos professores se divertindo ao ver o desconhecimento de questões gerais acerca de planejamento gráfico, cores e nomenclaturas. Pude ver até mesmo o professor de economia, não que tenha caído alguma coisa em economia, mas o pude ver se divertindo com a possibilidade de que algum dia eu seja reprovado em algum lugar por não saber alguma coisa que ele ensinou na aula dele. “Quer ganhar um salário de 9 mil? Pois tente aprender sozinho com aquelas Xerox de administração que você jogou fora, hahahahahahahahahahahah hhahahahahahahahahahah HAHAHAHAHAHAHAHA”

Imaginei vários professores de matérias menos, digamos, prestigiadas pelos alunos, organizando coquetéis, com o cúmplice sorriso da satisfação. Por terem se mostrado importantes, por terem derrotados seus inimigos, mesmo com anos de atraso. Por terem obtido a doce vingança. Aquela que o tempo se encarrega de fazer.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mitos Animados

Desenhos animados e histórias em quadrinho sempre nos ensinaram muitas coisas. Boa parte delas, é completamente deturpada da realidade. Vamos a alguns desses elementos fantasiosos.

Plantas Carnívoras: Plantas carnívoras seriam capazes de comer pequenos animais, quiçá seres humanos inteiros. Se o CH3 fosse um desenho animado, essas plantas seriam as responsáveis pelo cão leproso. Tão perigosas quanto um tubarão, acho que elas até se locomoviam. Na verdade, plantas carnívoras se alimentam apenas de pequenos insetos lesados. Sim, é cruel, mas essa é a lei da selva.

Areia Movediça: O cidadão estava andando lá na rua, na chuva, na fazenda quando cai. Pronto, ele pisou em areia movediça. E agora ele vai começar a afundar até morrer soterrado. A Areia Movediça pode existir em qualquer lugar do planeta, até no seu quintal. Na verdade, ela é um fenômeno mais raro e é impossível que você afunde completamente. O máximo que pode acontecer é você ficar preso para sempre e morrer de inanição.

Maçã para a professora: Histórias em quadrinhos sempre mostram alunos que levam maçãs para suas professoras. Mais do que isso, eles se preocupam e se frustram caso não levem o fruto outrora proibido. Em toda minha vida, jamais presenciei um aluno presenteando um professor com o que quer que seja, muito menos uma maçã. Se alguém presentear um professor, será vítima de bullying eterno. Será um sinal dos tempos? Antigamente alunos tentavam subornar professores com presentes e hoje tentam outros métodos, como talvez, a ameaça física?

Bigornas: Bigornas são pedaços de ferro que pesam mais de 100 quilos. Amplamente utilizados por ferreiros em séculos passados. Hoje ela é mais rara. Mas, não nos desenhos animados, onde bigornas podem ser manuseadas por crianças, são facilmente adquiridas e podem, inclusive, cair do céu a qualquer momento.

Vida no Campo: Sempre está lá, aquela vida no campo bucólica, de pura contemplação com a natureza, a harmonia entre seres humanos, porcos, galinhas e até bodes e jegues. A vida no campo não é assim. Seu principal objetivo é produzir alimentos para a sociedade. Então, é uma rotina de muito trabalho, animais sendo abatidos e crianças trabalhando pra ajudar no sustento de casa. Nada de banhos em rios e cachoeiras, pescaria no Teles Pires, Araguaia ou Pantanal.

Cachorros e Ratos: Pela lógica é assim: Gatos odeiam ratos. Cachorros odeiam gatos. Logo, ratos e cachorros formam uma irmandade de sangue para destruir o rato. Não é verdade. É claro que gatos não gostam de ratos, tal qual não gostam de sapos, borboletas e calangos. Acontece que cachorros também não gostam de ratos. Na verdade, todos se odeiam e se matariam se assim pudessem. E ah, e que raios é aquele buraco na parede onde os ratos vivem? Que espaço secreto é aquele, que só os ratos conseguem habitar?

Dinamite: Tente comprar dinamite pela internet. Dificilmente você vai conseguir. Você pode até pensar “ok, mundo, você me venceu”. Mas o fato é que é difícil conseguir umas bananas para dinamitar seu muro ou pegar um pássaro corredor.

Claro que os desenhos ainda têm outros fatos instigantes como:
- Não conseguir correr quando um objeto – a já citada bigorna – está prestes a cair sobre a sua cabeça.
- Quando duas ou mais pessoas brigam, elas ficam girando e uma nuvem de poeira se forma em volta da briga. E a pessoa que apanha aparece com curativos, mesmo antes de receber atendimento médico.

Lembram-se de outras coisas exóticas deste mundo?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Letras de Confirmação

Com o advento do rapidshare lá por 2005, a indústria dos Downloads ilegais finalmente dominou o mundo. Antes, baixar um disco na internet exigia a instalação de um programa pesado, que trazia juntos vírus e muita demora. O rapidshare consagrou os sites de armazenamento temporário. Ele foi o primeiro a dar um número razoável de downloads e um tamanho digno.

Sim, antes existiam sites como o yousendit que comportava 10 megas e suportavam 25 downloads. Imagine o que são 25 downloads de uma internet inteira sedenta por um arquivo? Então. O rapidshare tinha limite e espaço muito maiores. Era uma maravilha. Tanto que ele virou o principal vilão das grandes corporações multinacionais responsáveis pela produção de conteúdo audiovisual.

Talvez por esses motivos, o rapidshare virou um site odioso. Lento, com longas demoras, muita burocracia. E foi o rapidshare, sim foi ele, o primeiro site a me apresentar a praga das letras de confirmação.

No começo eram simples. Costumavam ser apenas três letras como ECX, de fácil percepção que serviam apenas para confirmar que você não era um computador tentando roboticamente roubar bytes da internet. Depois essas letras foram piorando.

Seja pelo medo da propagação de vírus, pela proteção de dados, ou pela simples vontade de fuder com a sua vida, cada vez mais sites se utilizam de tal prática. Pra postar um link em uma rede social, para votar em uma enquete na internet, para baixar um arquivo, ou pela razão que seja. Dizem que isso evita que programas de computador consigam espalhar links maliciosos por aí. Mas essas letras se tornaram tão confusas, que mesmo os seres humanos têm dificuldade em decifrá-los.

Primeiro, as três letrinhas começaram a ficar embaralhadas. O E ficava meio torto, o X deitava sobre o C numa combinação que mais parecia um daqueles passatempos infantis de contar os triângulos na figura.

Mas, logo essa três letras aumentaram e passaram a formar palavras de cinco letras. Logo viraram seqüências aleatórias de sete letras, cortadas por riscos, maiúsculas e minúsculas, tortas, desalinhadas, misturadas com números. Algumas vezes eu perdia alguns segundos tentando decifrá-las. E há diferenciação entre um X e um x?

Logo vieram duas palavras. E as vezes, uma palavra de verdade com outra junção aleatória, algo como Marvelous asasdui9o. Você percebe que a primeira palavra é um Marvelous e a segunda... você fica tentando decifrar a palavra por trás daqueles riscos tortos. Até perceber que ela não é nada.

E foi então, que as letras de confirmação do facebook começaram a aparecer na minha vida.

Veja, a segunda palavra é um simples ricested. Mas a primeira? Temos um x. Depois é um i ou j? Um k e um i? Ou é um 1? Parece até que essas letras são parte de algum idioma defunto. Creio que para as gerações futuras possam sobreviver digitalmente, se faz necessária uma matéria do tipo “leitura de letras de confirmação” no lugar de umas aulas de trigonometria.

*Dois posts seguidos sobre letras. Não, o CH3 não será um blog de linguística.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

As Letras, as Neuras

- Podem começar a prova.

Deixa eu conferir se não tá faltando folha... Bem, tudo certo. Olha, o que é essa questão 47? Parece que é foda.

Vamos lá, primeira questão. Hmm, letra A. Isso, é letra A. Mas peraí... Será que não é uma pegadinha? Porque a primeira questão é logo a letra A? Será que você vem na empolgação, bate o olho na A e acha que é ela? E logo começa a ler as outras questões procurando erros nelas, enquanto não analisa bem a letra A? Deixa eu ver... Bem, acho que é a letra A mesmo.

Segunda. Letra A... concordo. Não, não pode ser. Porque uma prova começaria com duas letras iguais e logo a letra A? Deixa eu pensar... Acho que pode ser a D. Mas tem mais cara de ser A. Hmm, mas será que não é a D, por uma lógica matemática, uma razoabilidade na ordem das letras?

Vamos, lá... C. C. C. C... não, quatro letras iguais é demais. Não pode ser. Mas no último concurso que eu fiz acho que eu marquei quatro Cs seguida e estava certo. Ou será que eu marquei quatro Cs seguida e errei, por ser contra a razoabilidade da ordem das letras? Isso daria uma teoria.

Dez questões e eu ainda não marquei nenhuma letra B. Não é possível. A próxima tem que ser B. Não, acho que é E. Estranho quando é letra E. Sempre parece que não vão deixar a verdade para o final. Parece mais razoável que a verdade esteja ali pelo meio, por isso deve ter tanta letra C. Um amigo meu já dizia que na dúvida é C.

Ufa, finalmente uma letra B. Outra letra B. Agora vai começar a ter um monte de B e é provável que demore até ter outra letra C. Devo ter marcado certo até agora, minha prova está ficando proporcional.

Concordo com a letra A. Também com a B. Droga. Não tem nada de errado nas duas. Deixa eu ler o enunciado. Hmm, será que essa vírgula? Ou... não, deixa eu ver de novo. Ah tá, percebi. É letra A.

Julgue os itens. I verdadeiro. II falso. III verdadeiro, IV verdadeiro e V falso. Vamos lá as opções... ahn... não tem nenhuma que diz que os itens I, III e IV são verdadeiros! Não, não pode ser. Como assim? Vamos lá, a I eu tenho certeza de que é verdadeira. A II é certeza... não, não é certeza. Hmm, será que a II é verdadeira é a III é falsa? Também não tem essa opção. I e III? Só se estiver com a V junto, mas tenho certeza que a V é falsa. Ahn... sei lá, todos os itens estão corretos.

Vamos preencher essas bolinhas. Sempre trago três canetas, apesar de que nunca me aconteceu de uma falhar. Mas tenho certeza que no dia em que eu trouxer apenas uma, ela falhará. É a Lei de Murphy. O telefone sempre toca quando você está tomando banho, sozinho em casa. Se você levar o telefone pro banheiro, ele não tocará. Mas se não levar, ele toca. E se minha caneta falhar, meus concorrentes iriam rir de mim e cuspiriam na minha cara. E... opa, ai, marquei a 21 errado! Puta merda! Ah não, tá certo, foi só um susto. Tá certo... droga. A 20 não era letra B, agora que eu vi, era letra E certamente! Errei. Tudo bem, não vou passar mesmo. Mas bem que eu poderia acertas as outras 59 questões... sem chances. “Acertei 59/60, o emprego é meu...” não, eu vou acertar umas 40... 42... 59... não, não vou passar. Tem letra E de menos e A de mais nessa prova.

sábado, 14 de maio de 2011

As Diversas Vidas de Bin Laden

Há duas semanas foi anunciada a morte do terrorista e campeão mundial de esconde-esconde Osama Bin Laden. Depois de uma caçada que durou nove anos, as tropas americanas conseguiram fuzilá-lo e depois, resolveram enterra o corpo no mar. O que deve ter dado um trabalho enorme e merecia ser tema até de um Guia CH3 “Como Enterrar alguém no mar”.

Desde então vieram à tona diversos aspectos peculiares sobre aquele que um dia foi o homem mais perigoso do mundo. E que só voltará a sê-lo, caso se torne o primeiro zumbi da história.

São aspectos de sua vida doméstica, de sua vida pessoal. Uma de suas 49 mulheres escreveu até um livro sobre isso. Osama gostava de torturar cachorros, tentava fazer girassóis gigantes e adorava mangas. Também tinha boa memória e fazia seus filhos andarem no deserto para testar sua resistência. Mas o fato mais esdrúxulo de sua vida é que a bebida favorita de Osama era suco de uva-passa.

Se uvas-passa já são abomináveis, imagine então um suco feito a partir delas! Tal fato já seria o suficiente para que ele fosse considerado um terrorista, produtor de armas-químicas e que merecesse ser executado de maneira cruel e brutal.

Apareceu recentemente um cara que disse ter dado aula de judô para Bin Laden nos anos 80. Ele mostra um árabe de barba e diz que é o Bin Laden. Ninguém pode dizer nada contra. Para dizer que você teve um contato próximo com Bin Laden, basta mostrar uma foto de um árabe de barba. Eles são todos iguais.

O CH3 pesquisou ao redor do mundo nessas últimas duas semanas e encontramos várias histórias interessantes. Várias pessoas que mostraram suas fotos com árabes barbados para comprovar que diziam a verdade.

Encontramos pessoas que já venderam roupas a Bin Laden. Descobrimos que Bin Laden teve professoras no período em que ele era um pequeno saudita e ia ao colégio, um bom colégio, porque ele era de família rica. Pessoas que deram carona para ele. Descobrimos que Bin Laden não teve barba um dia.

Que apesar de tudo, ele já teve sua rotina recheada de hábitos mundanos. Que ele não viveu sua vida inteira enfiado em uma caverna do Afeganistão ou em uma mansão decadente nas redondezas de Islamabad. É tão surpreendente que ele tenha tido aulas de judô? Bin Laden, quem diria, tinha uma vida. Agora não tem mais, hehe.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Perfil de Público

Lembro-me de uma matéria de capa da Veja de alguns anos atrás, anos em que ler algo na Veja parecia indispensável, sobre quanto custa para se criar um filho até os 22 anos. Parecia interessante. O gasto médio variava de 320 mil até 962 mil Reais. Ou seja criar um filho pode custar quase 4mil reais mensais.

Você pensa então “puta merda, caro pra cacete criar um filho, vou agora mesmo ao médico fazer uma vasectomia”. Mas antes disso, você resolve ver os gastos detalhados. Acreditem, na faixa mais cara eles prevêem gastos mensais de:
- 205 Reais com roupas.
- 1400 Reais com educação.
- 11 Reais diários com transporte.

Logo me assustei. Como assim, gastar 205 reais por mês com roupas? Vai comprar um terno por mês pro filho? Se eu gastei isso a cada seis meses foi demais. E que mensalidade é essa? O que essa criança vai andar tanto pra gastar tanto assim com transporte?

Logo vem a resposta. A matéria foi feita baseada em famílias neuróticas. Daquelas que a mãe faz poupança pra faculdade da criança no momento em que ela nasce. Matricula o filho no cursinho mais caro, mesmo que ele queira passar na faculdade de filosofia. Coloca o Robertinho no melhor colégio da cidade e o inscreve no curso de inglês com 4 anos. Paga táxi pra ele ir ao shopping de tarde. Compra uma roupa pro filho almoçar domingo, porque filho meu não anda mal vestido.

Essas crianças que se transformarão em adolescentes que sairão todo fim de semana. Gastarão uma fortuna com roupas, celular e bebidas alcoólicas. Crescerão sem responsabilidade e vão passar em uma universidade vagabunda.

Você percebe então que a Veja não foi uma revista feita pra o seu perfil. Você não faz abaixo-assinado para evitar que façam um estação de metrô no seu bairro. Bem, pelo menos você desistiu da vasectomia, ou talvez da ligação das trompas de falópio.

Você sente um choque quando percebe que não faz parte do público alvo de algo que você lê ou assiste. Você se sente envergonhado. Há quase uma coerção social para que você mude e se adapte ao público alvo da publicação. É como descobrir que seus amigos só gostam de ouvir I Gotta Feeling.

Isso tem acontecido comigo recentemente enquanto leio matérias da Super Interessante. É uma revista dá qual eu gosto (Ok, podem me jogar pedras por isso, já que na sociedade atual não se deve gostar de nada). Mas várias vezes eu me sinto deslocado enquanto eu a leio. A revista parece ser feita para um público moderninho que fez fila para comprar um iPad. Parece que é uma obrigação do ser humano ter um smart phone.

Esses dias eles promoveram seus testes digitais no Twitter. Fui fazer um sobre “Etiqueta Digital”. Primeira questão e era difícil achar uma resposta boa para marcar. Depois uma pergunta sobre estar apaixonado e utilizar o facebook. Não havia uma única opção digna. Depois se falava sobre o e-mail criado com 13 anos, como se todo e-mail criado aos 13 fosse algo como rafofinha13@bol.com.br.

Não existia espaço para pessoas sensatas nesse teste. Não existe a possibilidade de você utilizar o facebook moderadamente. Ou você é um alucinado que passa o dia inteiro falando merda por lá, ou é alguém que nem sabe em que botão do mouse clicar. Ou você é do tipo que manda correntes ou é do tipo que acha que corrente é aquilo que se usa pra amarrar bicicleta. Não existe meio termo.

Todas as publicações parecem ser feitas para um público médio estereotipado. Que foi um adolescente retardado e hoje é alguém sério conectado com o mundo. Um público que acha que palestras engraçadas são boas, que twitta quando está no banheiro, que se masturba com uma corda amarrada no pescoço. Que faz comentários anônimos ofensivos em posts sobre como se transformar em um crítico de cinema.

Falta espaço para as pessoas normais. Aquelas que pedem coca com limão e gelo, mas dependendo do dia querem só gelo. Pessoas que curtem um filme italiano, mas também podem rir em filmes do Adam Sandler. Que odeiam o Flamengo e o Corinthians também. Que sempre tem que confirmar se falaram débito ou crédito. Usa a internet todo dia, mas também sai de casa. Anda de ônibus, mas também pode andar a pé se tiver esquecido o dinheiro em casa, mas quem sabe, pode até pegar um táxi um dia. Pessoas que lêem o CH3 e acham que em alguns dias é legal, mas em outros é imprestável.

Enfim, um público amplo, moderado, sensato, diversificado, multicultural e heterogêneo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Palestras

Ao longo dos séculos, as palestras têm ocupado um lugar importante no imaginário do homem médio. As palestras são identificadas como uma oportunidade única, na qual um ser humano de enorme conhecimento irá, humildemente, dividir esse conhecimento com outras pessoas. Ele falará sobre importantes descobertas que fez, o que ele aprendeu durante sua vida. Irá ajudar seus espectadores a superar problemas e irá também agregar conhecimento.

Mas, com o tempo, as palestras começaram a se transformar num evento midiático. Não sei se o culpado é Bill Clinton, Bill Gates ou Pedro Nadaf. Mas existe em nossa sociedade atual a profissão de palestrante. Uma pessoa conhecida, que venceu na vida e que vive por aí dando palestras, motivacionais ou não.

Veja o caso de Bill Clinton. Ele dá mais de 200 palestras por ano e em cada uma, ele ganha mais do que ganhou nos oito anos em que foi presidente dos Estados Unidos. Bill Clinton pode ter sido um político interessante, pode ter feito grandes feitos administrativos, mas, o que será que sua palestra tem de tão interessante?

É claro que ainda existem as palestras de cunho acadêmico. Geralmente proferidas por professores doutores em algum auditório de alguma universidade. Seu público consiste de alunos que estão ali porque assim escapam da aula e alguns outros poucos interessados, fora os famosos loucos de palestra.

Mas vejam o caso do Bernardinho. Um técnico vitorioso, um cara capaz de fazer com que uma alcatéia de lobos (um antigo professor meu de auto-escola diria “uma multidão de lobos”) se transforme em um time vencedor de voleibol. Ele dá dezenas de palestras enquanto não está treinado algum time. Sobre o que ele fala? Sobre a busca pela perfeição, o não desistir nunca. Ele pode falar o quanto ele quiser, mas não adianta. Você jamais será um Bernardinho.

Passo em frente a um stand e vejo o anúncio de um evento com palestrantes famosos. A fama hoje é mais importante do que o conteúdo do cidadão. O maior escritor búlgaro da história dará uma palestra para meia dúzia de perdidos. Enquanto que um membro do CQC reunirá meia cidade em um anfiteatro lotado. Nem que seja para que ele fique uma hora contando estórias de sua vida.

E aí há o fato de que – não é porque o cara é famoso que ele é bom. E não é por ser um gênio da humanidade que ele será um bom palestrante. O cara pode não ter o dom da oratória, pode não saber explicar todo o seu conhecimento. Ou pode ser um chato danado.

E o que acontece então? Palestras são recheadas de clichês motivacionais. Não desista nunca. É preciso lutar por seus sonhos. Só cheguei aqui graças ao meu esforço. Esteja sempre atualizado. E outras mensagens vendidas como verdades absolutas, que você encontra na bancada de best-sellers de qualquer livraria fajuta.

Há ainda outro fato preocupante, que é a standupização da sociedade atual. Qualquer pessoa que fale para um outro grupo maior de pessoas, tem a obrigação de ser engraçada. O mesmo acontece em uma palestra.

Faça o teste. Vá ao fim de alguma palestra qualquer e meça os comentários. As pessoas que dizem que a palestra foi muuuuuuito boa tendem a se lembrar de todas as piadas que o palestrante fez, fora um ou outro clichê motivacional. Não importa se o assunto era a fome na África ou a AIDS entre monges albinos. Se o palestrante manter um tom sério, todos o considerarão um chato. Se ele for uma piadista, a palestra terá sido um sucesso.

Não perca em breve a palestra motivacional do Cão Leproso.

Anexo 1: Exemplo de fala chata de palestra.
- A fome na África é preocupante. Um problema sério que envolve todos os governos do mundo que não podem mais negligenciar a morte de 1 milhão de pessoas por ano.

Anexo 2: Exemplo de fala legal da palestra.
- Não podemos desistir nunca, porque vocês sabem, você ai bonitão de camisa vermelha, que o Globo Esporte só passa depois do almoço. O Globo Esporte tem que passar na África também.

domingo, 8 de maio de 2011

Presentão de Dia das Mães

Nesse dia das mães venha para a CH3 Store. Você encontra os melhores presentes para agradar a pessoa mais especial do mundo.

Geladeira: É tudo o que sua mãe sempre sonhou. Acordar de manhã e encontrar a geladeira nova e reluzente na cozinha. Podem dizer que é apenas um item de utilidade para casa, mas é mentira. Sua mãe terá muitos momentos de felicidade na companhia de uma bela geladeira. Ela conseguirá... tantas coisas, que não conseguimos nem contar.

Máquina de Lavar: Sua mãe, coitada, está com dor nas costas de tanto lavar roupa naquele tanque baixo e desconfortável. Suas mãos calejadas merecem um pouco de descanso. Dê uma máquina de lavar para ela! Com o tempo economizado, ela terá ainda mais tempo para realizar outros importantes afazeres domésticos.

Aproveite ainda a nossa incrível promoção! Compre a vista e ganhe um Ferro de Passar Roupa! Nossa loja também tem os melhores preços em tábuas de passar e pregadores de roupa coloridos, para a mãe fashion.

Liquidificador e Batedeira: Mãe que é mãe faz um bolo gostoso. Com esses eletrodomésticos novos, ela se sentira realizada em poder fazer dezenas de quitutes saborosos para a família! Ajude uma mulher a se sentir realizada!

Fogão: No dia das mães você tem que dar um fogão para essa pessoa que tanto te ama e nunca deixou de colocar comida na sua mesa. Dê um fogão novinho para que ela possa embarcar nas mais emocionantes viagens culinárias do planeta. A nossa loja tem os melhores preços em fogão de seis bocas. Muito mais prazer para a sua mãe! Na compra do fogão, você ganha um avental personalizado com os dizeres “Mãe de verdade”.

Conjunto completo de Panelas: E você não vai dar um fogão novo para sua mãe e deixar ela cozinhar naquelas panelas velhas! Panela velha é que faz comida boa? É porque você não conhece o estoque da nossa loja. Temos panelas grandes, pequenas, médias, gigantes, de pressão, frigideiras e o que você precisar para ajudar sua feliz mãe em seus afazeres.

Aspirador de Pó: E que tal um aspirador de pó? Heim? Está na hora de dar uma folga pra boa e velha vassoura e investir numa forma mais rápida para que sua mãe possa limpar a casa! Temos os mais variados artigos de limpeza que vão desde simples espanadores até modernos sistemas de troca de refil sanitário.

Não perca! Venha até nossas lojas e encontre o presente dos sonhos de sua mãe, com os melhores preços.

E a cada 100 reais em compra, você concorre a almoços no dia das mães, porque afinal, se ela vai tirar o dia de folga, quem vai cozinhar e lavar a louça?

Não perca a oportunidade, porque outra promoção dessa só no dia dos namorados. Afinal, desde cedo você tem que começar a treinar.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Era do Merchan

Você vê um jogo de futebol e a publicidade está lá. Está na camisa dos jogadores em vários lugares. No peito, nas costas, nos ombros, nas mangas, nas axilas, nos números, nos calções e nos meiões. A publicidade está nas dezenas de placas coloridas, holográficas, rotativas na beira dos gramados. Na camisa dos técnicos e dos juízes. Pintada nas arquibancadas. Está em pequenas inserções televisavas. Na fala dos apresentadores.

A publicidade está em todos os esportes. No vôlei ela aparece nas camisas, calções, na fita da rede. Na fórmula um ela é os carros. Nos Estados Unidos, um esporte só se torna popular for possível fazer vários comerciais e faturar com o merchandising.

Que também está na novela. No close na marca da máquina de cartão de crédito. No presente que uma amiga resolve dar. Nos carros dirigidos pelos protagonistas e em todas as lojas visitadas. Ela também está no jornalismo, na asa do avião desenhado em computador e filmado antes de cada viagem. O merchandising dominou o mundo. Parabéns publicitários, vocês conseguiram.

O CH3 resolveu entrar nesse mundo. Resolvemos nos render ao merchan e a partir de agora vamos ganhar dinheiro vendendo os nossos espaços. Desde é claro que não seja a nossa logo, pois a mesma é imaculada, tal qual um dia foi a camisa do Barcelona.

Negociamos por exemplo, a barriga do cão leproso. Vejamos o exemplo abaixo.

É claro que é super vantajoso para uma marca de rações, associar sua imagem ao cão mais saudável do mundo. Outras empresas podem se mostrar interessadas como: fábricas de luva, os talheres Tramontina, fábricas de vela de aniversário, fornecedores de material esportivo e sabonetes.

Pai Jorginho de Ogum e Alfredo Chagas estudam a assinatura de um contrato milionário com os chinelos Havaianas. Hanz o Pansexual é um bom garoto propaganda para maios de natação “nade com prazer”, que belo slogan. Marcão podia ser garoto propaganda institucional “para aprender a ler”. Quem sabe um apoio da prefeitura municipal de Paranatinga.

E é isso. A piada, digo, o negócio era por conta do Cão Leproso mesmo. Mandem suas propostas para o chtres@gmail.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Três Homens em Conflito

Sob um sol escaldante, o bom, o mau e o feio se estudavam. Portando armas na cintura, cada movimento em falso poderia ser fatal. O sol escaldante não era o de Várzea Grande, mas bem que poderia ser. Tal qual o clássico filme de 1966, dirigido por Sergio Leone e estrelado por Clint Eastwood, Várzea Grande tem Três Homens em Conflito.

Murilo Domingos, Tião da Zaeli e João Madureira tem proporcionado um revezamento insano no cargo de prefeito da cidade. O que tem acontecido no aprazível município vizinho de Cuiabá e famoso, ou não, por abrigar o aeroporto de Cuiabá, é absolutamente surreal. É quase impossível tentar explicar a dança das cadeiras* que está acontecendo. Nos últimos dias houve mais mudanças na prefeitura do que buracos na cidade.

A história é mais ou menos assim: Murilo Domingos, eleito pelo voto popular em 2004 e re-eleito em 2008 foi afastado por 180 dias para que a Câmara dos Vereadores pudesse investigar uma denúncia de irregularidade em sua gestão. Assumiria então o seu vice, Tião da Zaeli. Mas ele também foi afastado. A prefeitura sobrou para João Madureira o presidente da Câmara.

Madureira assumiu a prefeitura em êxtase. Trocou o secretariado e os cargos comissionados. Disse que era proibido ir ao prédio da prefeitura de noite, porque lá estava cheio de fantasmas. Fez uma ação de recadastramento de funcionários “agora é cara-crachá” que apareceu até no Jornal Nacional. Um feito para uma cidade que há 50 anos era um enorme vazio.

Então, no dia 15 de Abril, João Madureira começou o dia como prefeito. Mas a justiça deu direito de posse ao vice da Zaeli. E de tarde o afastamento de Murilo foi derrubado, podendo ele voltar à prefeitura. Mas, logo os vereadores abriram outra comissão de investigação e afastaram titular e vice novamente, fazendo com que Madureira voltasse a ser o prefeito.

Foi nesse cenário de absoluta confusão que uma repórter perguntou a uma simpática senhora no ponto de ônibus: “Você sabe quem é o prefeito de Várzea Grande?”. A senhora tremeu. Em qualquer outra cidade do Brasil está seria uma pergunta relativamente fácil. Mas em VG (para os íntimos) deveria ser a pergunta do milhão. Desnorteada, a senhora respondeu “não sei. Acho que é o tal de José Alencar”.

Desde então, seria impossível resumir os fatos. Quem caiu, quem foi nomeado. Sei que no momento o atual prefeito de Várzea Grande é Murilo Domingos, empossado ontem no lugar de Tião, que já havia nomeado 12 secretários. Mas, até o momento em que esse post foi publicado, a situação pode ter mudado.

Percebam que esse revezamento na prefeitura, provoca uma mudança também de secretários e outros cargos. É provável até que VOCÊ tenha ganhado um cargo de Auxiliar Adjunto, mas que não tenha sido avisado a tempo.

É difícil prever o que vai acontecer nos próximos dias. Pode ser que Murilo se mantenha no cargo. Pode se ser que Zaeli consiga o poder. Que Madureira se torne o prefeito. Ou até mesmo que o próprio José Alencar, incorporado por Pai Jorginho de Ogum, obtenha o direito de administrar a cidade. Talvez uma revolta popular provoque uma derrama de sangue.

Mas alguma coisa precisa ser feita. Não sei se o Supremo, a ONU, a OAB, a Convenção de Genebra. Alguém precisa tomar uma decisão. De bom tom, seria criar um site em que seja informado o prefeito do dia, quiçá da hora. Tal qual um funcionário do mês. Quem sabe eles não chegam a um acordo em que cada um governa por uma semana. Ou talvez os três terminem se estudando sob o sol escaldante, com uma trilha Western Spaghetti.

*A música tocava e tocava enquanto crianças rodavam e rodavam ao redor de cadeiras, obedecendo a fórmula matemática de: cadeiras = x e crianças = x+1. Então, a música parava e as crianças tinham que se sentar, uma sobrava e estava eliminada. Parece uma brincadeira lúdica, mas ela esconde uma crueldade tremenda por trás. Uma brincadeira que gera traumas e crises de ansiedade. Para vencer, você precisava ser sujo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Entrada

Um dos momentos mais constrangedores de um telejornal ao vivo é justamente a entrada ao vivo. Imagine-se que quando a produção faz a seguinte pergunta para o entrevistado:
- Quer participar de uma entrada?
Ele poderia pensar muitas coisas.

Patês
Poderia pensar que ele estava sendo chamado para comer umas entradas. Uma torradinha com patê de presunto, uma tábua de frios, porção de azeitonas, amendoins salgadinhos para acompanhar uma cervejinha e jogar conversa fora sobre futebol e política.

Sexo
Podia ser uma gíria para uma noite de sexo, porque não?

Futebol
Seria meio estranho. Geralmente, jogadores como o Felipe Melo não avisam que vão dar uma entrada. Eles vão lá, dão o carrinho, te quebram a perna, cospem na sua cara, recebem o cartão amarelo e te invalidam para o futebol.

De qualquer maneira, você pode responder que está tudo bem com a entrada, desde que te avisem onde é a saída.

Mas não. É uma entrada ao vivo. Às vezes pode parecer interessante, uma oportunidade de aparecer na televisão e mostrar o seu trabalho, seja lá qual for o seu trabalho. Você ainda sonha com a possibilidade de fazer uma loucura ao vivo em rede nacional, ou mesmo local, sem que seja censurado já que não haverá edição prévia. Algo do tipo, passar a mão nos peitos da repórter ou falar um palavrão. Mas, na Hora H você vai travar.

Até por isso, é um tormento. Se você gaguejar, tal qual uma Ruth Lemos, não haverá outra possibilidade. Você não poderá sentir coceira, espirrar, gorfar, engasgar, tossir, escarrar, errar palavras por pura confusão mental. Caso o contrário, você será humilhado pelo resto da sua vida. Seu vídeo virará um hit na internet e, pior, logo dirão que a cena foi fake. E mesmo assim, você irá virar motivo de um funk na internet. Não há nada pior do que inspirar e tematizar um funk.

Fora as questões logísticas. A entrada ao vivo não será na sua casa ou na principal avenida da cidade. Ok, ela até pode ser na principal avenida da cidade. Mas eles darão prioridade para um lugar temático, que combine com o assunto da pauta. Se o tema for comida, você vai pro mercado. Se a matéria for sobre acidentes de trânsito, eles não hesitarão em te levar até uma rodovia no infinito insólito.

Te levar não, você terá que ir por conta própria. E terá que chegar uma hora antes no local. Se o programa for na hora do almoço, você não vai almoçar e não poderá nem desmaiar de fome no momento. E tudo isso para uma cena que será mais ou menos assim:
- Pois é. Todos os anos, mais de 600 pessoas morrem em acidentes de trânsito nas nossas estradas. Estamos aqui ao lado do Dr. Arnaldo Praga, especialista em segurança no trânsito. Arnaldo, porque acontecem tantos acidentes de trânsito?
- Bem, uma das principais causas é a imprudência, seja ela motivada ou não pelo consumo do álcool. Às vezes, pode ser apenas pela desatenção. O excesso de velocidade e má conservação das rodovias, além da má sinalização, são outros motivos constantes.
- E o que pode ser feito para prevenir esses acidentes?
- Bem, o motorista deve estar sempre bem atento. Evitar o consumo de álcool, estar descansado, fazer uma revisão no carro, mas o principal: estar atento.
- Obrigado Arnaldo, voltamos com você no estúdio.

Sim, obrigado Arnaldo. Obrigado por ter vindo até aqui na casa do caralho pra responder duas perguntas idiotas que nós poderíamos ter feito por telefone, ou ter dito por conta própria, afinal, todo mundo sabe disso. Obrigado por ter perdido o seu almoço e ter se deslocado até aqui para perder seu tempo e ficar com a imagem de um capitão óbvio.

Entradas são perigosas.