quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Retrospectiva 2015

Daqui a cem anos, certamente os historiadores e curiosos de plantão olharão para 2015 e pensarão: que doideira. Se há uma verdade, é que esse ano da graça de dois mil e quinze foi muito louco. Ao contrário de anos recentes, marcados pela letargia e total apatia dos acontecimentos, anos sem fatos marcantes que estão destinados ao limo histórico, muita coisa aconteceu em 2015. Parece que os roteiristas da história resolveram fazer com que 2015 fosse um ano cheio de turning points.

A política nacional foi um dos grandes destaques do ano. Em Brasília, Dilma Rousseff assumiu o seu segundo mandato cercada de desconfiança e se escudou com Joaquim Levy, um sujeito que ninguém conhecia, mas que era tratado pelo noticiário como o Messias da economia. Com Levy no comando, o Brasil se afundou na merda, viu o dólar disparar, a recessão, a perda de credibilidade e quando ele saiu do Governo, o Brasil se afundou ainda mais na merda, porque o mercado econômico não faz muito sentido e gosta de ver os outros na desgraça.

Foram realizadas pelo menos quarenta e oito fases da Operação Lava Jato e as investigações conduzidas pelo juiz Sérgio Moro avançaram tanto que a Polícia Federal está prestes a descobrir quem foi que entregou Jesus para os romanos e que ele ocupava uma diretoria na Petrobrás. Perdemos as contas de quantas vezes acordamos, ligamos a televisão e vimos o insólito japonês da federal conduzindo coercitivamente pessoas para Curitiba. Pessoas que já estavam presas foram presas de novo, delações premiadas foram negociadas em grupo e quase todas as estruturas do poder foram atingidas. Tantos grupos políticos são investigados, que é até difícil definir se a operação é pró ou anti-PT, uma vez que 2015 reforçou a tendência de analisar todos os fatos sob esse viés.

Em dos melhores momentos das investigações, um senador foi preso após o vazamento de uma conversa sua com um advogado e o filho de um preso em que eles discutiam, entre outras coisas, as melhores maneiras de levar uma pessoa para a Espanha. Chegou a ser discutida a possibilidade de colocar o cidadão em um barco, uma lancha, ou algo do tipo, no que seria uma fuga realmente cinematográfica, mas sem sobreviventes.

Um psicopata, também investigado pela PF, assumiu o comando de um dos poderes legislativos do Brasil e transformou aquilo no quintal da sua casa. Colocou novamente em votação projetos dos quais ele não havia gostado do resultado, barganhou cargos políticos e no final abriu um processo de impeachment, no mesmo momento em que era investigado por um monte de coisas. Tudo sem perder sua boca entreaberta.

O melhor momento do ano, sem dúvida, ocorreu quando Michel Temer, vice-presidente do Brasil, escreveu uma carta para a presidente Dilma. Uma carta cheia de dor-de-cotovelo, com um conteúdo tão devastado emocionalmente quanto a letra de Boate Azul. O episódio marcou a tensão entre o PMDB e o governo e foi destaque em uma semana na qual a Kátia Abreu jogou um copo de vinho na cara do José Serra. Foi tão louco que por um momento o Renan Calheiros pareceu ser a voz mais sensata do Congresso Nacional.

Em vários estados vimos policiais batendo em estudantes, vimos manifestações na rua envolvendo cartazes e um simpático boneco do lula utilizando roupa de presidiário de filme norte-americano antigo. Em Mato Grosso, um ex-governador, sua esposa, o ex-presidente da Assembleia Legislativa e vários ex-secretários foram presos e ninguém sabe direito por qual razão, já que são tantos escândalos que é difícil definir qual é qual.

As carceragens do mundo também ficaram cheias de dirigentes do futebol, todos presos em um hotel enquanto se preparavam para participar de uma reunião da Fifa. Jogaram dinheiro na cara do presidente da Fifa, que anunciou sua renuncia programada, o presidente da Federação Europeia foi afastado, o da Confederação Brasileira é investigado e não sai mais de casa com medo de ser preso. Enquanto isso, o Dunga segue no comando da seleção brasileira, só tomando ferro e transformando o Brasil no país do surf, a pátria de parafina.

O Brasil viveu seu maior desastre ambiental na história, com o rompimento de uma barragem de lama tóxica no interior de Minas Gerais que simplesmente inutilizou um rio. Em um momento surreal, começou uma discussão sobre o que deveria ser mais lamentado: a tragédia ambiental ou o atentado terrorista que matou mais de cem pessoas em Paris.

O atendado em Paris, numa sexta-feira 13, chamou ainda mais a atenção para o Estado Islâmico. Organização que quer controlar o mundo e provoca a barbárie no Oriente Médio, provocando uma fuga em massa de refugiados sírios que comem o pão que o diabo amassou no leste europeu. Ainda na França, no começo do ano, um grupo de cartunistas foi assassinado por terem ofendido o islã. Em todo mundo, o radicalismo religioso avança. Inclusive no Brasil.

Pessoas famosas morreram, é claro. Pessoas morrem o tempo inteiro e vez por outra alguns garotos com poderes parapsicológicos conseguem vê-las, o tempo inteiro. Marília Pera, B.B. King, Ben E. King, Betty Lago e tantas outras pessoas deram adeus.

O calor foi um dos mais fortes dos últimos anos. Novas doenças transmitidas por mosquitos podem invalidar toda uma geração no Brasil. As duas maiores bilheterias do cinema foram o novo Jurassic Park e o novo Star Wars, mostrando que algumas coisas nunca mudam. Descobriram que bacon dá câncer.

O Brasil parou diversas vezes por conta de vídeos no Whatsapp, que em 2015 ficou mais forte do que nunca. Cada vez mais as pessoas o utilizam, cada vez mais estamos em grupos ridículos que nos provocam dor, sofrimento e constrangimento moral, cada vez mais programamos nossa vida ao redor desse aplicativo em que tratamos assuntos de família, compartilhamos putaria, mantemos contato com a família, fazemos negócios, praticamos ofensas morais e tentamos descobrir se estamos mesmo com câncer.

2015: o ano de Eduardo Cunha, do Whatsapp, do Estado Islâmico, da Microcefalia, da Lama Tóxica. Realmente foi um ano movimentado, mas não necessariamente para o bem.

Agora um vídeo para encerrar e foder de vez com a vida de vocês.



Feliz 2016 CHnautas, no ano que vem (amanhã) continuaremos por aqui e contamos com vossas presenças.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A veracidade dos fatos

No mundo atual nós consumimos informação de uma maneira que o ser humano jamais fez anteriormente. Somos constantemente bombardeados com notícias sobre atentados em Paris, conflitos étnicos no Sudão, refugiados da Síria, caos hospitalar no Rio de Janeiro, microcefalia provocada por um vírus que veio da Polinésia Francesa.

Fora o noticiário normal, as redes sociais também nos mantém informados sobre uma série de pessoas com quem temos alguma relação. Sabemos que uma ex-colega de trabalho está grávida, que outra casou, que alguém está comemorando o fato de as músicas dos Beatles terem chegado ao Spotify, que gente está morrendo, que filmes foram lançados. Muita informação.

Da mesma forma que existem aqueles radicais da dieta paleolítica que afirmam que o ser humano não evoluiu o suficiente para manter outra rotina alimentar que não seja aquela que inclua apenas a carne crua e gordurosa de animais abatidos com as nossas próprias mãos, eu poderia dizer que o cérebro humano não evoluiu o suficiente para acompanhar a enorme quantidade de informações a que somos submetidos diariamente. Sim, deveríamos continuar nos informando apenas sobre a rotina de um pequeno grupo de familiares próximos e deveríamos fazer isso trocando gestos, grunhidos e eventuais desenhos de bisões e fogueiras em formações rochosas que nos abrigam da chuva.

Pois bem, a comunicação sofreu uma verdadeira revolução nos últimos anos. A maior parte da minha geração – e ainda mais aqueles que são mais velhos – cresceram acompanhando o noticiário nos jornais e nas TVs. Geralmente, esses veículos de comunicação trabalham com equipes responsáveis para que teoricamente a informação lá publicada seja verdadeira.

O fato de lidarmos, a maior parte do tempo, com informações que julgamos ser verdadeiras, faz com que nós tenhamos a maior dificuldade de perceber quando uma notícia é falsa. Veja nos últimos dias que com certeza algum amigo seu deve ter publicado um link do Sensacionalista, G17, mesmo do Joselito Muller e postado comentários indignados sobre o teor da matéria, como se aquilo tudo fosse verdade. Todos os dias milhares de pessoas fazem isso. Sei lá porque, tendemos a achar que é tudo verdade.

Já eu, digo que segui uma tendência contrária. Ultimamente eu tenho achado que é tudo mentira. Duvido sempre da veracidade dos fatos expostos por alguém nas redes sociais. Primeiro, sempre soube da intenção humorística dos sites de notícias falsas e sempre achei essa intenção sensacional e o fato de muitas pessoas acreditarem nas notícias ainda mais interessante.

Mas depois, passei a duvidar de todo e qualquer site que eu jamais tivesse ouvido falar. Passei a duvidar das pessoas. Via lá um idiota qualquer que deve comer merda acebolada postando um link sobre alguma informação do meio militar e já tinha a certeza de que era notícia falsa. Certamente esse débil-mental seria incapaz de diferenciar qualquer coisa. Não importa se é do G1. Se ele postou, não é verdade.

Um tolete de chinelos tomando café e utilizando um colar
havaiano? Logicamente não é sério.
Passei a duvidar do Catraca Livre – e por consequência de 80% do que é publicado no Facebook. Logo comecei a duvidar dos blogs políticos, porque certamente uma notícia publicada no Brasil 247 ou no Blog do Cafezinho com seu ridículo mascote que lembra um tolete tomando café não é séria. Desacreditei a Veja e outros jornais porque manchetes como a que eles fazem não poderiam ser verdade. 

Hoje, digo que não acredito em nenhuma notícia que vejo publicada no Facebook. Sei que certamente é algo fora do contexto analisado por alguém que quer validar suas convicções por meio da opinião de outras pessoas que também não sabiam o que estavam falando.

Certamente, é tudo mentira.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Pessoas que exageram na Ceia do Natal

O natal, teoricamente, é uma data para celebrar o nascimento de Jesus Cristo e valores positivos universais. No entanto, o dia acaba sendo muito lembrado por outras razões, como a troca de presentes e o frenesi capitalista, além é claro, da ceia de natal. Uma fartura que envolve perus, porcos e muitas outras carnes acompanhadas de castanhas, arroz, farofa, molhos, além das sobremesas elaboradas, todos os pratos invariavelmente acompanhados pelas malditas uvas passas, mas não que isso impeça alguém de comer demais.

Sim, até existem pessoas que tentam comer só um pouco na noite do natal, mas essa ideia nunca prospera diante da mesa cheia de comida. O problema é que algumas pessoas realmente exageram na comida e chegam a passar mal, ou coisa pior, durante esta importante reunião familiar.

É mundialmente famoso o caso da jovem Tarisha Shvomaender que em 1976, em Bali, entrou em uma espécie de transe diabólico diante da ceia de natal. Primeiro, ela acabou com todas as castanhas sobre a mesa, antes mesmo da chegada de suas tias que vinham de barco de outra ilha indonésia. Antes mesmo da meia noite, ela comeu um peru inteiro até os ossos. Sua família precisou chamar um padre para resolver a situação, mas ela morreu durante o amigo oculto realizado por uns primos mais novos que pareciam não se impressionar com nada.

A Guatemala se chocou no Natal de 1983, quando Sérgio Gutiérrez comeu tanto pernil com molho agridoce que acabou se transformando em um porco. Apesar do protesto de seus familiares, Sérgio acabou sacrificado por vizinhos que comeram seu pernil e também se transformaram em porcos. O Governo Militar da época precisou intervir, exterminando os porcos e proibindo seu consumo durante 20 anos, para impedir que uma maldição acabasse com toda a força de trabalho guatemalteca.

No Chipre, em 1986, Theodoros Anortosis conseguiu manter a calma durante a ceia natalina, mas exagerou na sobremesa. Theodoros comeu pavê até que o doce começasse a sair pelos seus ouvidos e pelo seus olhos, trazendo todo um novo sentido para o milenar trocadilho sem graça. Isso não o impediu de continuar comendo pavê, até que a comida começasse a sair por outras cavidades do seu corpo, o que fez com o jovem de 19 anos perdesse a virgindade naquele natal, uma vez que os cipriotas são bem hardcores quando o assunto é sexo.

Outra história muito triste ocorreu com John Todorovic, um australiano de origem iugoslava que passou o Natal de 2003 na Nova Zelândia. John comeu tantas uvas passas em tantos pratos diferentes que ele explodiu por volta das três horas da manhã. Uvas passas provenientes do seu corpo foram encontradas em um raio de 78 km e algumas entraram em órbita, atrapalhando a comunicação de dados do planeta inteiro.

O Brasil, é claro, também tem os seus casos de pessoas que comeram um pouco mais do que deveriam na noite de natal. O caso mais famoso é o de Moacir Batista, mineiro de Teófilo Otoni, que comeu pedaços do seu próprio corpo em um susto de raiva ao descobrir que só haviam feito um tender para aquela noite, tender este que ele já havia comido por inteiro. Depois, ele matou todas as suas tias que fizeram perguntas sobre as suas namoradas.

Para terminar, citamos o caso de um cidadão conhecido como Dri, que no natal de 2009 em São Paulo, se viu diante da impossibilidade fisiológica de comer ainda mais. Diante deste fato, ele introduziu uma banana em seu ânus, provocando também aquela que é considerada a saída do armário mais curiosa de todos os tempos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Papai Noel atrás das grades

Nosso Papai Noel retratado pelo
saudoso Vinícius Gressana
Em dezembro de 2013, o CH3 conseguiu um furo de reportagem mundial ao passar uma noite com o Papai Noel, acompanhando o trabalho do bom velhinho. Relatamos seus procedimentos, sua preparação e seus métodos. Mostramos que ser Papai Noel não é uma tarefa fácil, é preciso muito preparo.

Da boa relação construída naquela noite surgiu uma convivência intermitente, que inclui uma manhã de entrega de ovos de páscoa, um sequestro relâmpago para participação em amigo oculto e uma jornada alcoólica pela baixada cuiabana sem nenhum sentido ou objetivo aparente. Aos poucos, fomos descobrindo que o bom velhinho era na verdade um mau velhinho.

O tráfico de drogas não era nenhuma novidade para nós, quando veio a notícia de que um Papai Noel foi preso numa praça do Porto em Cuiabá, carregando substâncias análogas a entorpecentes em seu saco. Não restava dúvida de que seria ele. Realmente era.

Amanhã, vocês já devem ter percebido - talvez só irão perceber agora e terão que correr para um shopping para comprar meias para os seus parentes, é natal - e é impossível não ficar com aquela maldita música da Simone na cabeça. No nosso post de 2013, nós relatávamos que o Papai Noel cobria a região do Jardim Europa em Cuiabá. Com ele preso, toda uma região pode ficar desabastecida.

Entrei em contato então com o Papai Noel. Sim, ele está preso, mas vocês sabem que acesso ao celular não chega a ser um problema para os indivíduos temporariamente privados de liberdade. Ele prontamente atendeu o celular e conversamos durante alguns minutos.

Comecei perguntando se ele achava que não tinha dado bandeira demais, vestido de Papai Noel a noite numa praça conhecida pelos usuários de drogas deitados no chão. Ele desconversou, mas assumiu o erro. "Porra, tem horas que você perde um pouco a razão". E quais eram as razões para que ele tivesse adentrado o mundo do crime. "O que você acha que Papai Noel faz nos outros meses do ano? Que tem criancinha fazendo fila pra tirar foto? Eu tenho uma casa pra sustentar porra, muita pensão alimentícia, uma estrutura do caralho. Você acha que alguém contrata um velho barbudo para fazer qualquer serviço fora do natal? O mundo é foda, porra. É preconceituoso".

Perguntei então como é que ficariam as criancinhas do bairro em que ele trabalha. "Elas que se fodam", disse o Papai Noel, antes de soltar uma gargalhada e afirmar que estava brincada. "Eu sou um profissional, porra. Eu trabalho com toda uma rede, uma equipe de apoio. Garanto a você que o trabalho não vai parar, que ninguém vai interrompê-lo. Já falei com meus parças e eles vão quebrar essa pra mim". Notei um sotaque de malando diferente nele, já o imaginava em uma favela cenográfica do Rio de Janeiro ou mandando uma mensagem de parabéns para o Neymar.

Desliguei o telefone e vim escrever esse post, porque o dia tá foda.

Feliz Natal para todos vocês, Chnautas. Não exagerem no peru, na maconha ou na punheta nessa data, porque os exageros nunca são bons.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Custe o Que Custar

Ao que tudo indica, o Brasil será agraciado nesta noite com a última edição do CQC, popular programa da Rede Bandeirantes que realiza uma mistura teórica entre suposto jornalismo e suposto humor. A emissora de televisão afirma que o programa não acaba agora, que ele irá tirar uma espécie de ano sabático durante 2016, para voltar com tudo em 2017. Podemos dizer que o que vai acontecer com o programa é semelhante a um casal que resolve dar um tempo no relacionamento - todos sabem que não vai voltar.

Quando surgiu no já distante ano de 2008, o Custe o Que Custar (este é o significado escroto da sigla) foi um raro caso de sucesso de crítica e de público. Na época, ele conquistou corações e mentes e chegou a receber a polêmica classificação de “humor inteligente”. Algo chocante, se formos pensar que o principal legado do programa foi a popularização de Danilo Gentili, Rafinha Bastos e de uma série de comediantes de Stand Up.

No princípio o programa era comandado por Marcelo Tas, que há anos militava na área do humor inteligente. A fórmula consistia em um monte de humoristas blasés com ternos pretos, gravatas slins e tênis all star, participando de eventos sociais, entrevistas coletivas, uma ou outra reportagem, fazendo piadas com celebridades, políticos e eventualmente provocando reações ríspidas, agressões físicas ou invertidas constrangedoras.

Após o tremendo sucesso inicial, o programa foi gradativamente caindo em um saudável esquecimento. Fiquei anos sem assisti-lo, até que há algumas semanas tive que sintonizar a Bandeirantes na segunda-feira a noite por razões profissionais. Fiquei realmente espantado com o que eu vi.

Juro que eu não sabia que o CQC oficial era precedido por uma preliminar b-side conhecida como CQC 3.0. Como se fosse um sexo em que a preliminar dura mais do que os finalmentes, o 3.0. é bem mais longo do que o CQC original. Consiste em dois caras meio idiotas fazendo várias piadas infames sobre várias situações. Meio idiota, mas, por incrível que pareça, melhor do que o programa original.

Assisti às duas horas do programa na expectativa pelo momento em que o trio da bancada do CQC conseguiria encaixar uma piada boa. Claro que essa expectativa foi em vão. Não teve uma única piada boa em meio a centena de merchans e quadros totalmente inúteis. Sério, cheguei a ficar com pena do Rafael Cortez e do Marco Luque. Não era possível que eles conseguiriam ficar tanto tempo assim sem fazer uma única piada boa. Qualquer um com suas faculdades mentais em condições minimamente razoáveis consegue falar algo engraçado dentro de um período de 120 minutos. Os integrantes da bancada do CQC realmente não se encaixam atualmente nesta condição, o que explica o fim do programa.

A pergunta seria: você vai sentir saudade? Olhe outros programas de humor que marcaram época em tempos remotos e veja que eles acabaram por revelar grandes atores, personalidades curiosas e tudo mais. O CQC não. Colocou no mundo uma dezena de ombudsmans da humanidade, pessoas que contam piadas de gordo e culpam os outros pelo fato da piada não ser engraçada. Diria que já vai tarde.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Estimativa de Público

Se você quiser promover um jogo de futebol, um show de dupla sertaneja, uma manifestação popular pela queda da presidente da república, ou um ato público em favor da coprofagia, uma coisa é essencial: público. É necessário que pessoas compareçam ao evento organizado por você, para que este momento tenha legitimidade, ganhe repercussão e alcance o objetivo ao qual foi proposto. Um evento sem público é fadado ao fracasso.

Para que esse público compareça ao local combinado para a reunião, você deve se utilizar dos meios que tiver a disposição. Anúncios no jornal, na internet, propaganda boca-a-boca, convites impressos individuais entregues diretamente na casa dos envolvidos, ameaças de agressão física e eventualmente condução coercitiva com singelas lesões corporais.
Segundo os organizadores, 90 mil pessoas compareceram a este tackle

O público é extremamente importante, principalmente nesse mundo moderno em que podemos qualificar um produto pela quantificação de pessoas que o curtem. Se muitas pessoas foram no evento planejado, isso significa que ele foi um sucesso. A divulgação do público presente é um dos momentos mais esperados de qualquer grande evento. O problema, é que não é tão fácil assim saber quantas pessoas de dispuseram a apoiar as causas defendidas naquele momento.

Se jogos de futebol ou eventos em locais fechados cuja entrada é liberada somente com a entrega de um pedaço de papel adquirido legalmente em algum posto autorizado e isso facilita a contagem de público, uma manifestação popular em uma avenida enorme não conta com esse benefício. É extremamente difícil, diria impossível, saber a quantidade exata de pessoas que estiveram lá manifestando seu nacionalismo onipresente.

Por isso, toda e qualquer manifestação trabalha com as estimativas de público. São elas que garantem números díspares, que não nos fazem saber se 80 ou 400 mil pessoas foram até a Avenida Paulista. E essa dificuldade é enorme por um simples fator: o método para essas estimativas não costuma a ser outro que não o bom e popular chutômetro.

Há sempre o número de presentes divulgado pelos organizadores da parada¹. Um número que, podem ter certeza, foi absolutamente inflado pelos interesses de que aquilo ali parecesse ser algo muito maior do que realmente foi para dar legitimidade aos questionamentos propostos. Saiba que os organizadores geralmente duplicam, ou até mesmo triplicam o número de presentes no movimento.
Segundo a PM, 3 mil pessoas estavam no estádio

Certa vez, da janela do meu trabalho, observei uma manifestação de uma categoria de servidores públicos. Contei-os manualmente e eles chegavam no máximo a quarenta pessoas. Mais tarde, vi matérias nos sites em que o movimento afirmava que 150 pessoas pressionaram o governo. Não havia possibilidade.  Em alguns casos, os organizadores utilizam como base para a sua estimativa o número de pessoas que confirmou presença no evento anunciado no Facebook. O que é um claro sinal de desespero.

Sempre há a contagem oficial realizada pela Polícia Militar, que geralmente é o número absoluto e verdadeiro para os veículos de imprensa. A PM vaticinou: 60 mil pessoas estiveram lá na praia de Copacabana e isso é o que vale. No entanto, o fato é que os policiais também utilizam o chutômetro para definir esse número. Baseados em sua vasta experiência na promoção da segurança em eventos públicos, eles olham aquele monte de gente e dizem “olha, acho que tem 50 mil pessoas aí”. O número pode variar de acordo com a simpatia dos militares para/com a mobilização.

Alguns lugares se prestam a utilizar algum método. Utilizando imagens de fotógrafos localizados no alto de prédios ou em helicópteros, ou de drones, ou de satélites. Mas no final, o que vale é um bom chute.
De acordo com a margem de erro do Datafolha, esta rua pode estar vazia

O que concluímos ao final desse texto frustrante? Que nós não podemos fazer nada, que somos seres minúsculos diante das grandes complexidades matemáticas do universo.

¹ Notem que a utilização da palavra "parada" aqui, foi amplamente proposital, propondo uma dupla interpretação a nível de gíria ou a nível mais formal. Não sei porque eu estou explicando isso.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Diagnósticos precipitados

Se há uma verdade absoluta na vida, essa é a de que um dia nós iremos passar mal por algum motivo. Sim, existem inúmeras razões que podem provocar um mal-estar no ser humano. Dezenas de tipos de dores de cabeça, indisposições estomacais e intestinais provocadas pelas mais diversas razões alimentares, pressão alta, pressão baixa, problemas respiratórios, problemas circulatórios, gravidez, fome, aneurisma, AVC, unha encravada, infarto, ataque epilético, convulsões, rompimento de órgãos internos, fraturas expostas, rinite, sinusite, artrite, artrose. Escolha a sua.

Se eu gostaria de desejar alguma coisa para alguém, é que as pessoas tenham sorte de, quando passarem mal, não passem mal em um lugar público. Que sintam um mal estar súbito no hospital, ou próximas de alguma unidade hospitalar, na presença de um médico. Que seja em casa mesmo, na companhia de alguma pessoa de confiança que irá proporcionar uma solução eficaz para o problema - solução que consiste em levar a um hospital ou providenciar um remédio em caso de uma complicação recorrente e corretamente diagnosticada.

Mas que não passe mal em público. No meio de uma reunião, no saguão de um aeroporto, numa entrevista coletiva, numa missa. Porque o ser humano não consegue tomar decisões corretamente quando está em grupo.

Assim que o cidadão demonstrar o primeiro sinal de que algo não está bem com ele - cair desmaiado, cair no chão, vomitar, sangrar pela orelha, se contorcer em dor - alguém próximo irá gritar “Meu deus, alguém ajuda aqui” e em poucos segundos dezenas de pessoas irão se posicionar para salvar o moribundo.

Só que, como ninguém ali entende muita coisa sobre primeiros socorros, o resultado tende a ser catastrófico. Primeiro as pessoas irão se amontoar em cima do pobre coitado que não irá conseguir respirar. Alguém irá dizer para que todos se afastem e então surgirão aqueles que têm a situação sob controle. Pessoas experientes que já serviram no Vietnã e sabem como solucionar situações de risco.

Alguém dirá que é para manter a pessoa sentada, outro que é para manter deitado, deitado de bruços, deitado de lado, com a cabeça mais alta, com os pés para cima, com o quadril apoiado, de cabeça para baixo. Segura o pescoço para não dar lesão cervical. Dá água com sal, dá água com açúcar, joga água na cara, segura a língua, traz uma compressa de água quente, de água gelada, liga o ar condicionado. Quando você menos perceber, a vítima já estará sendo submetida a massagens cardíacas, respiração boca a boca e traqueostomia. Se alguém tiver um desfibrilador, ele será usado. Alguém pode improvisar e utilizar dois fios desencapados.

Enquanto isso, as pessoas continuarão gritando e dando os seus diagnósticos precipitados. É AVC, é epilepsia, infarto, tá grávida, é câncer. Todo mundo tem um tio, um vizinho ou um amigo que passou por isso e é batata.

Chama a ambulância, liga para algum parente, coloca no carro e leva para o hospital, não leva, melhor esperar a ambulância e a pessoa morreu. Não resistiu aos choques e os diversos tratamentos a que foi submetido, principalmente a traqueostomia mal sucedida que a fez sangrar até a morte.

E pensar que era só um ator de teatro contemporâneo fazendo a sua monografia de conclusão do curso de Artes Cênicas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Amigo Oculto CH3 2015

Quem acompanha o blog sabe das dificuldades que nós enfrentamos para realizar o nosso tradicional e anual Amigo Oculto. Nos últimos anos já precisamos apelar para o STF, para sequestros relâmpagos e para o famigerado Amigo Ladrão. Felizmente, para 2015, a situação foi um pouco mais tranquila.

A tradicional Convenção de Genebra e o Protocolo de Kyoto que regiam a organização e os ritos da celebração, determinando, por exemplo, o local de realização da festa, acabou sendo abandonado devido aos problemas dos últimos anos. Recentemente, os membros do CH3 se reuniram em frente a loja de móveis rústicos Arizona, para firmar o Pacto de Arizona e determinar que todas as celebrações, de agora em diante, seriam realizadas na Casa de Diversão Noturna Carnicentas.

A escolha, sabemos, é arriscada, já que o empreendimento de Jorginho de Ogum pode desmoronar a qualquer momento. Mas, as vantagens do local são inegáveis. Ninguém precisa se preocupar com a limpeza do local, já que ele nunca é limpo. Ninguém se preocupa com a comida também, uma vez que só uma pessoa com sérios déficits cognitivos seria capaz de se alimentar na Carnicentas.

Claro que eu estaria mentindo se falasse que o processo foi tão simples assim. Mês passado eu enviei uma mensagem no grupo de Whatsapp do CH3 lembrando todos que o Amigo Oculto estava próximo, mas não obtive respostas. Vi que todos haviam lido a mensagem, mas que resolveram me ignorar. Numa atitude pouco democrática, resolvi realizar o sorteio a revelia, por meio de modernos sistemas da internet. Como ninguém aceitava o convite para participar, sugeri que nesse ano nós inovássemos e praticássemos um “Inimigo Oculto”, em que os presentes deveriam ser sacanas. A adesão foi imediata, provando que o ódio nos nossos corações é enorme.

Sendo assim, no último domingo nós nos encontramos lá na Carnicentas. Tackleberry se atrasou por três horas e já estávamos prestes a acionar nossos capangas, quando ele chegou com um ar meio esbaforido, típico de alguém que havia acabado de escapar da 47ª fase da Operação Lava Jato.

Alfredo Chagas decidiu que iria começar os trabalhos e todos ficamos surpresos com sua prestatividade. De fato, o velho oligarca popular andava alegre nos últimos dias, talvez um sinal de que finalmente o povo brasileiro tenha compreendido sua luta pelo nonsense na política.

Chagas afirmou que seu amigo oculto cheirava mal e que tinha uma doença incurável. As pessoas ficavam em dúvida sobre quem ele estava falando, mas eu logo pesquisei no celular e descobri que a sífilis tinha cura sim, portanto não era o Marcão e só poderia ser o Cão Leproso.

O cachorro sem braços foi ao centro da roda, abriu o presente e descobriu que havia ganho um par de luvas de boxe e, uou, todos nós falamos que Alfredo Chagas compreendeu bem a intenção do evento. Cão Leproso não conseguiu segurar o presente e disse que o que vinha de baixo não o atingia. Lembrou que nos dois últimos anos ele havia sido presenteado com pirocas de chocolate e que nada mais na vida seria capaz de surpreendê-lo.

Leproso deu a dica de que seu Amigo Oculto era baixinho e... todos descobriram que era o Vinícius Gressana. O segundo cartunista mais popular do Centro-Oeste foi presenteado com um quadro que continha desenhos de todos os personagens inventados por ele, desde a mais tenra infância. Parecia um bom presente até todos notarem que apenas o Cão Leproso não estava lá e, uau, essa doeu no coração de Vinícius que acusou o golpe.

Ainda atordoado, Vinícius ficou fazendo gestos estranhos na tentativa de descrever o seu amigo oculto, que no caso era o Marcão, o pedreiro. Emocionado, como sempre, Marcão chorou, como sempre, e repetiu a velha história de que aquela era a primeira vez que ele ganhava um presente em sua vida. Uma figura esse pedreiro. De dentro do embrulho, Marcão retirou uma edição de O Ateneu, de Raul Pompeia e, por mais que todos soubessem que Marcão não sabe ler, a opinião geral é de que Vinícius escolheu um caminho fácil para a sacanagem e que poderia ter sido mais criativo.

Marcão informou que o presente poderia ser um ótimo apoio para a sua geladeira, no dia em que ele tiver uma geladeira. Balbuciando palavras incompreensíveis, as pessoas definiram que eu seria o presenteado pelo pedreiro, por mais que eu ache que há controvérsias nessa história. Recebi uma camisa do Corinthians, filho da puta.

Informei que meu Amigo Oculto merecia uma hashtag naquela campanha das mídias sociais e é claro que eu estava falando de Hanz, o Pansexual. Sabendo que era impossível dar algo do qual esse maldito velho pervertido não goste, o presentei com uma boneca inflável com um cinto de castidade aberto por uma senha digital de 78 caracteres que só é descoberta se você acertar 100 perguntas de múltipla escolha sobre todos os discursos de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados. Sim, seria preciso assistir todos os discursos inúmeras vezes. Hanz informou que comeria o Cunha, mas que era frustrante não conseguir abrir o cinto de castidade da boneca inflável.

O medo tomou conta de todos os participantes, quando Hanz começou a anunciar o seu Amigo Oculto. Bem, exceção feita a todos os que já haviam sido presenteados. Se Hanz dá presentes terríveis nos Amigos Ocultos, imaginava o que aconteceria no caso de um Inimigo Oculto. Pois, o seu escolhido foi Jorginho de Ogum, que ganhou uma denúncia sobre o seu estabelecimento feita para a Vigilância Sanitária e Corpo de Bombeiros.

A essa altura já estava claro o que é que iria acontecer. Jorginho de Ogum sorteou Tackleberry e deu de presente para ele uma foto de Lula e Dilma Rousseff nus. Foi realmente ultrajante. Por fim, Tackle havia sorteado Alfredo Chagas e deu de presente para ele uma arma com cinco balas no tambor.

Alfredo Chagas aceitou o desafio da roleta russa, para mostrar que não tem medo dessa juventude contrarrevolucionária que vai ao shopping para espalhar miséria. Girou o tambor, apontou a arma contra sua cabeça e apertou o gatilho antes que as pessoas gritassem não, até porque ninguém parecia se importar muito.

Por um sorte incrível, coincidência feliz, ou probabilidade estatística de 16,66%, Alfredo conseguiu escapar de uma morte terrível.

Assim, terminou mais uma edição do nosso amigo oculto que volta em 2016. Ou não.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Cenas do próximo capítulo

A última semana em Brasília foi extremamente agitada. Brigas, conspirações, aspirações literárias, manobras que suscitam dúvidas sobre a aplicação correta da Constituição Federal de 1988. Resumindo: muita putaria aconteceu. O CH3 conta agora as cenas dos capítulos da próxima semana, para você não perder nada na grande novela que movimenta a política nacional.

Segunda-feira
Não acontece nada, porque ninguém está em Brasília.

Terça-feira
Dilma Rousseff acorda e descobre que sua faixa presidencial foi roubada. Eduardo Cunha coloca em votação projeto que obriga a presidente a utilizar chapéus do Mickey Mouse em seus pronunciamentos. A base situacionista se rebela e incendeia colchões dentro do plenário. Eduardo Cunha manda que a TV Câmara corte o áudio do plenário e repita em looping um vídeo seu tocando bateria. Um deputado ligado ao movimento sindical ameaça arrancar o intestino de um petista com seus dentes. Fantasiado de Japonês da Federal, Ivo Hollanda aparece no Congresso e provoca pânico entre os deputados. Fotos de um deputado oposicionista praticando Fist Fucking passivo vazam no grupo de WhatsApp da imprensa. Michel Temer envia um fax para Dilma Rousseff afirmando que passou os últimos quatro anos sem receber um elogio por conta do seu penteado. O fax termina com uma citação do Soneto da Separação de Vinícius de Morais. Deputados se reúnem em uma chácara nas proximidades de Brasília para uma festa de confraternização. Um deputado da bancada evangélica bebe demais e comete autofelação em público. Aécio Neves comanda um trenzinho de rumba. Uma imagem translucida de José Serra é vista sobrevoando o palácio do planalto. O espírito de José Sarney aparece no quarto de Dilma Rousseff e cita poemas selecionados de seu clássico livro Marimbondos de Fogo de 1978. Dilma chora. Em algum canto no Palácio do Jaburu, Michel Temer e Fernando Collor observam atentamente uma fogueira.

Quarta-feira
Dilma Rousseff acorda de manhã e encontra a cabeça de uma cabra dentro de um pentagrama desenhado na porta de seu quarto. Merval Pereira esclarece que os fatos, sejam lá quais eles forem, são gravíssimos e colocam em dúvida a continuidade do governo do PT. Começa a sessão do Conselho de Ética que pode votar o relatório sobre a investigação de Eduardo Cunha. Michel Temer escreve uma carta utilizando seu próprio sangue em que conta o quanto gastou em gravatas nos últimos quatro anos e que elas não receberam o devido prestígio. Deputado Manoel Júnior repete toda as palavras ditas pelos outros deputados na sessão do Conselho de Ética apenas para atrapalhar seu andamento. Sessão no plenário do Senado é marcada por homens com perucas pegando fogo. José Serra pede a palavra e conta uma piada suja. Deputado aliado de Eduardo Cunha pede questão de ordem e começa a se masturbar na sessão do Conselho de Ética. Almoço no Piantella termina em bacanal. Eduardo Cunha outorga lei que define que a Sessão da Tarde é prioridade para casa a todas as outras sessões da casa e deputados irão trabalhar apenas de manhã. Willian Bonner nos afaga nos contando alguma fábula de algo que ocorreu. Antes de dormir, Dilma Rousseff encontra uma cópia da carta de Getúlio e uma arma sobre a sua mesa de cabeceira. A letra da carta lhe parece familiar.

Quinta-feira
Eduardo Cunha acorda e sente um forte cheiro de enxofre no seu quarto. Dilma Rousseff acorda e descobre que foi enterrada viva. Michel Temer descobre que foi Papai Noel em outra vida. Garçonete derruba sopa de alho em José Serra e ele começa a derreter. Boneco inflável do Lula ganha vida e começa a se inflar. Senadores interrompem sessão para jogar ping-pong. Eduardo Cunha determina que todos os membros do Conselho de Ética sejam substituídos por seus familiares. Michel Temer posa para as lentes de JR Duran e emplaca a capa da revista Decore Mais Por Menos. Jair Bolsonaro é contratado para a nova temporada de Zorra Total. Ministros do PMDB fretam dois ônibus para ir até o Palácio do Jaburu. Briga no plenário da Câmara termina com deputados arremessando fezes uns sobre os outros. Boneco inflável de Lula começa a engolir Brasília enquanto recita A Macarena. Japonês da Federal aparece no Congresso e deputados entram em pânico ao perceber que Eduardo Cunha havia mandado que as portas fossem trancadas. Globo anuncia que próximo BBB terá 14 participantes, sete da base governista, sete da oposição. Eduardo Cunha começa a se descontrolar na mesa do plenário e de sua testa nascem dois chifres, de suas costas um rabo pontiagudo. Sua pele fica vermelha e um tridente aparece nas suas mãos. O enxofre toma conta do local enquanto mais uma fase da operação Lava-Jato é iniciada. O boneco de lula sai completamente de controle e engole Brasília inteira. Fernando Henrique Cardoso registra tudo em seu gravador. O Boneco de Lula explode.

Sexta-feira
Nada acontece porque ninguém está em Brasília. Todos foram engolidos pelo boneco gigante do Lula, mas, de qualquer forma, nada acontece nunca em Brasília nas sextas-feiras. Darth Vader retira sua máscara e todos descobrimos que ele é filiado ao PMDB.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Carta Aberta


Meu caro Michel Temer

Verba volant, scripta manent. (As palavras voam, os escritos permanecem).

Você fez questão de começar sua carta assim para mostrar qual era a sua intenção com tudo isso. Você queria que suas palavras ficassem registradas para que seu descontentamento com uma situação fosse eternizado e que ninguém pudesse afirmar que você não disse o que você realmente disse. Isso só piora a sua situação.

Veja bem, meu caro Michel. Cartas são escritas para registrar momentos desde que a escrita foi desenvolvida. Antes, quando o ser humano desenhava aquelas representações arquetípicas de bisões e fogueiras, eles também queriam registrar suas emoções durante o dia para que ninguém duvidasse de que um grupo de três pessoas saiu com lanças para caçar um bisão, que a missão logrou êxito e todos puderam se alimentar.

Pero Vaz de Caminha escreveu uma longa e tediosa carta para revelar a descoberta do Brasil e suas impressões iniciais sobre esta terra. Quando Getúlio Vargas resolveu se matar, ele deixou lá o seu texto. Mas não vamos comparar não é mesmo. O texto do Getúlio tinha uma carga dramática, que transformou o seu suicídio em um ato de coragem. Se você, por algum acaso, resolvesse se matar agora, iria virar motivo de chacota.

Michel, meu velho. Você tem 75 anos, cara. Olha sua idade! Tem filhos, netos, imagino, é casado com uma mulher bonita e de acordo com a declaração de bens da campanha do ano passado, o seu patrimônio é de aproximadamente R$ 7,5 milhões. Dinheiro para caralho cara. Se você está triste com sua vida atual, imagino que você podia largar tudo, mandar todo mundo a merda e curtir seus últimos anos com tranquilidade.

Mas não. Você resolve me aprontar uma dessas. Como eu disse cara, você tem 75 anos. Advogado respeitado, conhecedor das leis – como você ressaltou que conhece bem a Constituição. Como é que você me escreve uma porcaria dessa, cara? Quem vai te levar a sério depois de você escrever uma carta de lamentações e dores de cotovelos que faria qualquer adolescente se sentir constrangido com a qualidade do texto.

Cara, como é que você escreve que ficou enciumadinho porque a presidente se encontrou com o vice-presidente dos Estados Unidos e não chamou você? Porra, fica igual aquelas menininhas que veem duas amigas numa foto do Facebook e ficam chateadas porque não foram convidadas. “Perdi meu prestigio, fui vice decorativo”. Guarda suas mágoas pra você cara, pra que expor essa pequenez? Sofreu, saí por cima ainda. Você precisar ler mais esses conselhos motivacionais de Facebook.

Michel, tua carta é o perfeito significado da expressão #chateado.

Ainda sai chorando pela falta de confiança com o PMDB e com você. Cara, seu partido tem 7 (sete) ministros no governo! Se o partido em que ela não confia tem tantos ministérios assim, imagina o que ela iria fazer se confiasse?

Cara, para, cara, para com, as vírgulas, cara. Você tem 75 anos e pela fama intelectual não deveria escrever um texto cheio de vírgulas assim. Não entendi nada do que você  quis falar sobre o Eliseu Padilha.

Assinado:
Admirador Secreto.

P.S. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional. Não fode cara. Não fode.

P.S. 2: Porra, pra que assinar \L Temer? Que porra é essa de usar barra invertida cara? O povo já fala que você é satanista e você ainda me solta uma dessa, não fode, de novo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O #Futebol na era da hashtag

Estava observando o clima para as partidas da última rodada do campeonato brasileiro de 2015, quando passei pelo jogo entre Corinthians e Avaí, realizado em Itaquera. A imagem mostrava meia dúzia de torcedores ostentando com orgulho as suas camisas do ano do time e erguendo uma faixa com os dizeres “The Favela Is Here”.

A imagem merece dezenas de reflexões, mas é preciso fazer uma contextualização. Após ganhar o campeonato brasileiro com sobras, o Corinthians dedicou as últimas rodadas do campeonato a se divertir apenas e neste último domingo resolveu fazer uma homenagem para o seu técnico multicampeão Tite.

Em 2012, quando o Corinthians ganhou o Campeonato Mundial contra o Chelsea, no Japão, Tite levantou uma faixa com os dizeres que significam “A favela está aqui”. A imagem entrou para o imaginário do torcedor corintiano, que resolveu reproduzi-la em massa na partida contra o time de Florianópolis.

No entanto, uma imagem e uma frase dependem do contexto em que ela é utilizada. Lá em 2012, Tite estava homenageando os corintianos que se deslocaram de várias partes do mundo até o Japão para ver o time jogando. Seus torcedores já são chamados de favelados pelos adversários e, portanto, lá estava a favela sendo campeã do mundo. Reforçando que o time tem orgulho de seus torcedores humildes, capazes de conquistar o mundo.

Ontem não era bem assim. O Favela is Here se transformou em uma espécie de bordão criado pela equipe de marketing e aparece em várias faixas fixadas no estádio. Foi insólito ver aquele monte de gente que conhece favela só por matérias policiais e que quando passa por uma localizada na beira de uma avenida até desvia o olhar para não ter que encarar a vida real.

A favela definitivamente não estava ali. Quem estava ali era o torcedor que tinha dinheiro para comprar um ingresso provavelmente caro (não que eu exclua totalmente a possibilidade de que moradores da favela estivessem em algum lugar do estádio. Me refiro a cena da TV). E a única favela possível seria aquela cenográfica da globo, cheia de pretos famosos que dançam e bebem e lançam bordões engraçados.

Mas, o que me irrita mesmo não é a análise sociológica vagabunda que acabei de fazer. O que me irrita é a força dos bordões criados pelos departamentos de marketing dos clubes e dos fornecedores de material esportivo, apenas com o objetivo de vender. Pense que corintiano lá da favela que teria a ideia de lançar uma frase como “the favela is here?”. Nenhum. Só quem lança essa frase é um cara sentado numa sala de ar-condicionado que utiliza os mais variados critérios publicitários para a elaboração. Pense em que corintiano ostentaria essa frase com orgulho? O que não vive na favela, é claro. Que acha legal esse sentimento de pertencimento sem nunca ter estado lá. O cara que vive na favela jamais compraria uma camiseta com esses dizeres por que a favela não está lá. A favela já é a vida dele, com todas as características de uma favela, cheia de gente e ausente de Estado. Com todas as mazelas que a ausência do Estado provoca.

***

Poucos dias antes, no dia em que o Corinthians foi campeão, os jogadores receberam dezenas de camisas novas para a comemoração. Não lembro agora qual foi a frase, mas tenho a impressão de que foi em 2006 que essa maldita moda começou.

Naquela ano, São Paulo e Internacional utilizavam uniformes produzidos pela Reebok e tenho para mim que esta marca de material esportiva foi a responsável por lançar a moda das camisas comemorativas aqui no Brasil. Lembro de São Paulo e Internacional utilizando-as em seus títulos conquistados naquele ano e nos anos seguintes e desde então, qualquer time nacional.

Podem me chamar de tradicionalista, mas se o meu time for campeão de alguma coisa, eu espero que os jogadores subam ao pódio com seus uniformes de jogos, ainda sujos de lama e de sangue. Jamais que eles entrem com alguma camiseta monocolor com um slogan ou uma hashtag.

Sempre me lembro do Atlético-MG campeão da Libertadores de 1973. O Galo não conquistava um título importante há mais de 40 anos e quando isso acontece de uma maneira épica e dramática, o time subiu ao pódio com camisas pretas com a frase “Libertadores é Galo”, uma mensagem genérica que poderia ter sido criada por uma criança de seis anos, de tão criativa que era. Nas fotos em que o capitão ergue a taça, lá está a malditamente feia camiseta estragando um pouco as recordações de um dia feliz.

Marketing é a palavra chave. No futebol moderno, os clubes precisam diversificar as suas fontes de receita e a venda de camisetas comemorativas entra nessa conta. Nada melhor do que impulsionar os negócios lançando as camisetas e fazendo propagandas delas com os jogadores no dia da conquista. (Gerando uma enormidade de camisetas que jamais serão vestidas pelos times perdedores e que vão ao lixo degradando o meio-ambiente).

Novamente, o que mais me irrita nisso é que as frases de camisetas não são baseadas na paixão do time por uma torcida, elas são definidas cientificamente pelo departamento de marketing seis dias antes da partida, em uma sala fria e cheia de gente que pergunta por que aquele cara de uniforme diferente pode pegar a bola com a mão.

Assim como a zuera é oficializada por pessoas que recebem dinheiro para fazer memes com situações dos times e publicá-las em páginas especializadas do Facebook. Totalmente sem paixão, apenas de maneira mecanizada.

Isso mata o futebol.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

De volta para o futuro

O cidadão misteriosamente viajou vinte e poucos anos no tempo e parou no Brasil em 2015, desafiando as leis de Newton, de Einstein e da vida.

Ainda meio perdido com todas essas inovações tecnológicas que revolucionaram o mundo nestes vinte e poucos anos, ele começou a se inteirar sobre tudo.

Se surpreendeu com a atual presidente da república, que ele nunca havia ouvido falar. Percebeu alguns nomes que ele nunca havia ouvido falar em sua vida que ocupavam cargos políticos. Então soube que Renan Calheiros era o presidente do Senado. Começou a conferir os nomes de Tasso Jereissati, Ronaldo Caiado, Edison Lobão, Álvaro Dias, Roberto Requião, José Agripino Maia, José Serra, Marta Suplicy e pensou que a máquina havia falhado em algum ponto. Brincou que só faltava o Sarney e lhe falaram que ele era senador até o ano passado.

Não acreditou quando viu que o Collor era senador. Que quem estava lá também era o Lindbergh Farias e que os dois em alguns momentos eram parceiros na política.

Viu as notícias sobre a inflação, sobre o impeachment, críticas ao Dunga na seleção, Ébola.

Que a Xuxa estava estreando um programa novo na televisão. Viu sobre celulares novos e gigantes, cujas baterias não duravam nada.

Ele já estava achando tudo aquilo muito estranho quando viu que as eleições voltariam a ser disputadas com votos de papel em urnas com lona.

Compreendeu que apesar de todas essas inovações tecnológicas que revolucionaram o mundo nestes vinte e poucos anos, pouca coisa havia mudado. Que Einstein estava certo, que o tempo é relativo e que se algumas coisas  mudam muito, outras não mudam nada. Que o tempo às vezes simplesmente não passa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Um pedaço de nós

Em quase dez anos de existência, o CH3 já passou por inúmeras crises existenciais. A falta de rumo inicial, a desilusão com a percepção de que não iríamos ganhar dinheiro com isso aqui, o grande êxodo tacklegressaniano de 2009, morte, doença e fome.

O CH3 sobreviveu a tudo isso. Sobreviveu a solidão, ao abandono e até a falta de internet. Mas o último mês de novembro foi certamente o momento mais difícil em todos esses nove e tantos anos.

Poderia aqui dizer que eu me casei, mudei de casa, fiquei temporariamente sem computador e Internet, mudei minha rotina e tive menos tempo para escrever, inclusive porque ando trabalhando muito. Mas essa não é a verdade. A verdade dos fatos nunca é tão lógica quanto parece.

Se em novembro apenas seis posts foram ao ar, marca histórica e negativa, a razão não é outra que não seja o drama pessoal vivido pelo nosso mestre Chimbinha.

Recapitulando: o maior guitarrista de todos os tempos se envolveu em uma briga com sua então esposa Joelma, com possível agressão física o que torna Chimbinha um ser humano ainda mais deplorável do que aquele seu topete descolorido nos fazia crer.

A briga levou ao divórcio de Chimbinha e Joelma e ao fim do Calypso, que, como um bom câncer, acabou por se multiplicar e gerar duas bandas que tocam música ruim.

Não satisfeito com tudo isso, Chimbinha resolveu mudar de nome, trocando o Ch por um modesto X. Chimbinha agora é Ximbinha. Ele fez um X em seu coração e aderiu a seita satânica da Xuxa.

Recapitulando outro assunto: vocês sabem que o CH3 tem esse nome por conta dos três mestres do universo que tem seus nomes começados com Ch: Chuck Norris, Charles Bronson e Chmbinha. Charles Bronson já morreu, mas morreu fiel ao seu nome. Chuck Norris segue vivo e decrépito por aí. Chimbinha não. Ele abandonou o clube. O CH3 não existe mais, agora seria no máximo um CH2.

Mas não existe um sentido em uma dupla que comanda o universo. O três sempre representa um equilíbrio: nos triunviratos, nos três poderes, nos pedidos em lojas de fast food.

Um pedaço de nós foi embora, gerando uma enorme crise existencial. O que faz sentido no mundo agora.