segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O #Futebol na era da hashtag

Estava observando o clima para as partidas da última rodada do campeonato brasileiro de 2015, quando passei pelo jogo entre Corinthians e Avaí, realizado em Itaquera. A imagem mostrava meia dúzia de torcedores ostentando com orgulho as suas camisas do ano do time e erguendo uma faixa com os dizeres “The Favela Is Here”.

A imagem merece dezenas de reflexões, mas é preciso fazer uma contextualização. Após ganhar o campeonato brasileiro com sobras, o Corinthians dedicou as últimas rodadas do campeonato a se divertir apenas e neste último domingo resolveu fazer uma homenagem para o seu técnico multicampeão Tite.

Em 2012, quando o Corinthians ganhou o Campeonato Mundial contra o Chelsea, no Japão, Tite levantou uma faixa com os dizeres que significam “A favela está aqui”. A imagem entrou para o imaginário do torcedor corintiano, que resolveu reproduzi-la em massa na partida contra o time de Florianópolis.

No entanto, uma imagem e uma frase dependem do contexto em que ela é utilizada. Lá em 2012, Tite estava homenageando os corintianos que se deslocaram de várias partes do mundo até o Japão para ver o time jogando. Seus torcedores já são chamados de favelados pelos adversários e, portanto, lá estava a favela sendo campeã do mundo. Reforçando que o time tem orgulho de seus torcedores humildes, capazes de conquistar o mundo.

Ontem não era bem assim. O Favela is Here se transformou em uma espécie de bordão criado pela equipe de marketing e aparece em várias faixas fixadas no estádio. Foi insólito ver aquele monte de gente que conhece favela só por matérias policiais e que quando passa por uma localizada na beira de uma avenida até desvia o olhar para não ter que encarar a vida real.

A favela definitivamente não estava ali. Quem estava ali era o torcedor que tinha dinheiro para comprar um ingresso provavelmente caro (não que eu exclua totalmente a possibilidade de que moradores da favela estivessem em algum lugar do estádio. Me refiro a cena da TV). E a única favela possível seria aquela cenográfica da globo, cheia de pretos famosos que dançam e bebem e lançam bordões engraçados.

Mas, o que me irrita mesmo não é a análise sociológica vagabunda que acabei de fazer. O que me irrita é a força dos bordões criados pelos departamentos de marketing dos clubes e dos fornecedores de material esportivo, apenas com o objetivo de vender. Pense que corintiano lá da favela que teria a ideia de lançar uma frase como “the favela is here?”. Nenhum. Só quem lança essa frase é um cara sentado numa sala de ar-condicionado que utiliza os mais variados critérios publicitários para a elaboração. Pense em que corintiano ostentaria essa frase com orgulho? O que não vive na favela, é claro. Que acha legal esse sentimento de pertencimento sem nunca ter estado lá. O cara que vive na favela jamais compraria uma camiseta com esses dizeres por que a favela não está lá. A favela já é a vida dele, com todas as características de uma favela, cheia de gente e ausente de Estado. Com todas as mazelas que a ausência do Estado provoca.

***

Poucos dias antes, no dia em que o Corinthians foi campeão, os jogadores receberam dezenas de camisas novas para a comemoração. Não lembro agora qual foi a frase, mas tenho a impressão de que foi em 2006 que essa maldita moda começou.

Naquela ano, São Paulo e Internacional utilizavam uniformes produzidos pela Reebok e tenho para mim que esta marca de material esportiva foi a responsável por lançar a moda das camisas comemorativas aqui no Brasil. Lembro de São Paulo e Internacional utilizando-as em seus títulos conquistados naquele ano e nos anos seguintes e desde então, qualquer time nacional.

Podem me chamar de tradicionalista, mas se o meu time for campeão de alguma coisa, eu espero que os jogadores subam ao pódio com seus uniformes de jogos, ainda sujos de lama e de sangue. Jamais que eles entrem com alguma camiseta monocolor com um slogan ou uma hashtag.

Sempre me lembro do Atlético-MG campeão da Libertadores de 1973. O Galo não conquistava um título importante há mais de 40 anos e quando isso acontece de uma maneira épica e dramática, o time subiu ao pódio com camisas pretas com a frase “Libertadores é Galo”, uma mensagem genérica que poderia ter sido criada por uma criança de seis anos, de tão criativa que era. Nas fotos em que o capitão ergue a taça, lá está a malditamente feia camiseta estragando um pouco as recordações de um dia feliz.

Marketing é a palavra chave. No futebol moderno, os clubes precisam diversificar as suas fontes de receita e a venda de camisetas comemorativas entra nessa conta. Nada melhor do que impulsionar os negócios lançando as camisetas e fazendo propagandas delas com os jogadores no dia da conquista. (Gerando uma enormidade de camisetas que jamais serão vestidas pelos times perdedores e que vão ao lixo degradando o meio-ambiente).

Novamente, o que mais me irrita nisso é que as frases de camisetas não são baseadas na paixão do time por uma torcida, elas são definidas cientificamente pelo departamento de marketing seis dias antes da partida, em uma sala fria e cheia de gente que pergunta por que aquele cara de uniforme diferente pode pegar a bola com a mão.

Assim como a zuera é oficializada por pessoas que recebem dinheiro para fazer memes com situações dos times e publicá-las em páginas especializadas do Facebook. Totalmente sem paixão, apenas de maneira mecanizada.

Isso mata o futebol.

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